Só o Amor Liberta

Célia Xavier de Camargo · Capítulo 2 de 4 · parte 3/3

Páginas do PDF

Só o Amor Liberta

Jairo devolveu a pergunta, irritado

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A família aceitou sem problemas a sugestão.

— Então, amanhã logo cedo trarei Marina. Acreditem, ela ficará muito feliz ao saber que vocês lhe perdoam e a querem de volta — confirmou Amélia.

A senhora despediu-se. O ambiente agora era bem diverso. Os rapazes tinham os olhos mansos e meigos como os de crianças. Sem dúvida eles eram bondosos como a irmã afirmara, no entanto, também impulsivos e temperamentais.

Ao retornar, Amélia informou o resultado da missão para as jovens, que ficaram aliviadas pelo bom êxito obtido. Vanessa, apesar de contente pela amiga, lamentou separar-se de Marina, à qual tinha se apegado bastante.

Na manhã seguinte, após arrumar a mochila, Amélia e Vanessa levaram Marina para sua casa. Com surpresa, viram que toda a família estava reunida para esperá-la. Ninguém tinha ido trabalhar naquele dia!

O encontro de Marina com a família foi comovente. Todos choravam de emoção por tê-la novamente em casa com eles. Ao se despedirem, Marina percebeu que Vanessa estava tristonha, embora procurasse disfarçar. Com carinho, ela abraçou a amiga e afirmou:

— Vanessa, agora que somos amigas, nada vai nos separar. Poderei ir visitá-la e você também, sempre que quiser, poderá vir aqui, não é? Mesmo porque teremos muita coisa para conversar a respeito dos bebês, do enxoval...

— É verdade. Não posso ser egoísta e querer você só para mim. Virei mesmo, muitas vezes, pode aguardar.

Amélia e a sobrinha despediram-se da mãe, do pai e dos irmãos de Marina. A gratidão que sentiam pela ajuda daquela bondosa mulher, que até o dia anterior era uma estranha, deixava-os comovidos. Um clima de paz e de harmonia pairava no ar. Todos estavam satisfeitos e cheios de esperança no futuro.

As crianças que estavam a caminho com certeza iriam proporcionar momentos de grande felicidade para todos.

Antônia, pegando as mãos de Amélia, agradeceu sensibilizada:

— Obrigada, Amélia. Jamais poderemos pagar tudo o que fez por nossa filha e por todos nós.

— Não agradeça a mim, Antônia, mas a Jesus.

Ao deixarem a casa, Amélia e Vanessa estavam com o coração leve e um bem-estar imenso inundava-lhes o íntimo.

Sabiam que teriam ainda muitos problemas e dificuldades pela frente. Estavam, porém, no caminho certo e Deus não iria desampará-las.

A Doutrina Espírita nos orienta sobre a importância da preservação da vida, considerando o aborto um crime que se comete contra outro ser, de danosas conseqüências para quem o faz.

Espíritos em evolução, ora estagiamos no planeta Terra com objetivo de aprendizado e de aprimoramento moral, como parte de um processo educativo que nos leva à perfeição e que nos concede as condições e as oportunidades imprescindíveis para alcançar nossos objetivos.

Desse modo, quando uma vida se inicia no ventre materno, não é um fato desprovido de importância. Ao contrário. Representa o retorno de um espírito que aceitou renascer naquele lar e que foi aceito por aqueles que serão seus pais. Já existe vida, portanto, e qualquer ameaça à continuidade daquela vida representa uma contravenção às leis divinas.

O que as pessoas de modo geral não entendem é que ali está não apenas um embrião que ganha aos poucos aspecto de um ser humano, mas um espírito, uma individualidade com longo trajeto realizado, que volta ao mundo terreno trazendo suas experiências; alguém que já obteve vitórias, mas que também teve muitos fracassos; que fez afetos e desafetos, prejudicou e foi prejudicado. É um espírito que retorna com uma programação de vida para a qual se preparou exaustivamente, comprometendo-se, perante si mesmo e perante seus Maiores, a ser melhor, esforçando-se para aprender cada vez mais, reparar os erros cometidos no passado, ajudar aqueles a quem prejudicou e perdoar àqueles que o prejudicaram.

Com certeza, encontrará dificuldades pelo caminho. Até na própria família, uma vez que Deus colocará o reencarnante perto das pessoas com as quais precisará se reajustar. Poderá enfrentar rejeição da própria mãe, mas o desejo de vencer o ajudará a continuar preso ao feto. Em virtude do campo energético de um e de outro estarem mais próximos, as vibrações misturadas poderão interferir na gestação. A mãe enfrentará sintomas diversos como mal-estar, náuseas, desejo de chorar e muitos outros, porque é um outro ser que ali está grudado nela, uma outra individualidade, que chega trazendo suas emanações mentais, seus sentimentos, sua alegria ou sua tristeza. Natural que a mãezinha sinta o reflexo de tudo isso, uma vez que a convivência é a mais estreita possível, mas o feto também experimentará essas dificuldades, especialmente se sentir rejeição por parte da futura mãe.

Desse modo, imprescindível a maior boa vontade de parte a parte, para vencer esses empecilhos naturais no início da gestação. Aos poucos, à medida que seus laços com o corpo físico se intensificam, o espírito vai perdendo a consciência e tudo fica mais fácil, a adaptação se faz sem maiores problemas para o bebê e para a mãe, que deixa de sentir os incômodos iniciais da gravidez, passando a curtir a gestação e se preparando para a chegada do filho.

Entretanto, quando as coisas não correm bem e, apesar dos esforços da espiritualidade maior, o aborto acontece, uma sensação de tristeza e de desapontamento toma conta de ambos. Se a interrupção da gravidez se deu por motivos físicos, por exemplo uma enfermidade ou alguma falha no organismo da gestante — certamente ambos teriam de passar por essa experiência frustrada —, haverá a possibilidade de o espírito candidato à reencarnação retornar em outra oportunidade, naquela mesma família, sanado o problema.

Se porventura o aborto aconteceu por desejo e ato da própria mãe, incapaz de suportar a presença do espírito reencarnante, normalmente um inimigo do passado, as conseqüências são graves e duradouras. O candidato a filho não aceitará a rejeição, o que aumentará a distância entre ambos, predispondo-se a mãe a sérios problemas de saúde orgânica, emocional e espiritual. Inclusive, existe caso, acompanhado por nossa equipe, em que o filho — rejeitado mas desejando desesperadamente a continuidade da vida, oportunidade valiosa para ele —, no momento em que estava sendo expulso do claustro materno, agarrou-se fortemente ao corpo da mãe, tentando evitar o pior, e acabou ocasionando a ruptura de um vaso sangüíneo, provocando grave hemorragia. Dessa maneira, retornaram à espiritualidade mãe e filho, imantados um ao outro, tendo a futura mãezinha de suportar o ódio e a revolta daquele que seria seu filho, numa obsessão terrível e de longo curso.

Esse caso, ainda em andamento, só irá ter um desfecho favorável quando ambos entenderem a necessidade do perdão recíproco. Certamente, terão de retornar ao mundo terreno para, em nova encarnação, se reajustarem mutuamente, aprendendo a se amar, o que ainda não foi possível.

De qualquer maneira, mesmo que o reencarnante, em melhores condições espirituais, não lhe guarde rancor, a distonia causada pela interrupção da gravidez e a consciência da mãe não vão dar paz a ela própria, em virtude da gravíssima infração cometida contra as leis divinas. Não raro, a mulher começará a apresentar distúrbios emocionais e, pela insistência da mente criminosa em conservar pensamentos negativos, também apresentará problemas orgânicos.

Que se livrem as futuras mães de cometer tamanha insensatez se não quiserem sofrimentos acerbos sobre sua cabeça. Afirma-se na atualidade que o sexo é livre e que a mulher tem direitos sobre o seu corpo e pode fazer dele o que desejar. Todavia, desde que seja atingido o direito de outrem, cometemos um crime. Ninguém desrespeita o direito do próximo sem assumir séria responsabilidade com seu ato. Se o fato ficar impune perante as leis humanas, o mesmo não acontecerá diante das leis de Deus, que são justas, sábias e perfeitas.

Entretanto, sempre existirá uma nova oportunidade para os faltosos. Qualquer que seja o erro que tenhamos cometido, inclusive o aborto, Deus nos concederá novas ocasiões de repararmos o prejuízo que causamos ao próximo, quando teremos a bênção de nos reajustarmos perante aqueles que prejudicamos. Em encarnação futura, a mulher poderá renascer estéril, sentindo a dor de desejar ardentemente um filho e não poder gerá-lo; poderá resgatar seus erros, porém, adotando crianças órfãs, ou amparando outras, em creches, sempre necessitadas, ou ajudando famílias carentes a cuidar de seus filhos, dedicando-lhes atenção e amor.

Falamos aqui de reencarnações planejadas e acompanhadas com carinho pelo trabalho intercessório de benfeitores espirituais, quando o reencarnante faz jus a essa ajuda pela condição espiritual e serviços prestados ao próximo. Muitas vezes, porém, o espírito que necessita reencarnar não está em situação de decidir o seu futuro, muito menos de auxiliar no planejamento reencarnatório. Em virtude dos compromissos assumidos, dos erros praticados, a volta ao corpo físico lhe é imposta por Deus.

Em uma infinidade de casos, a reencarnação se dá em processos naturais, obedecendo às determinações da própria natureza — como a semente que caindo em solo fértil germina em condições adequadas —, pela vinculação do espírito à futura mãe ou ao futuro pai. Não raro, acompanhante pertinaz por processo obsessivo, gerado na afinidade moral que possibilita a sintonia vibratória, é atraído para o ventre materno, dando-se a concepção. Apesar de não haver uma programação prévia, não se creia que o espírito reencarnante seja um estranho ao casal. De alguma forma, se ele é ligado ao psiquismo do homem ou da mulher, é sinal que faz parte do passado de um ou de outro, ou de ambos, com quem tem compromissos cármicos.

Assim, diante da maternidade, que as mulheres não fujam ao seu dever, aceitando a determinação divina com coragem e boa vontade, mesmo em situações adversas. Muitas vezes, aquela criança, a princípio indesejada, é a resposta para suas necessidades de regeneração e seu esteio no futuro.

As nossas homenagens às mães que, desprovidas de recursos, sem um companheiro que lhes dê amparo, muitas delas mal entrando na adolescência, enfrentam a oposição das famílias, as dificuldades e problemas e assumem a gravidez decidindo ter o filho, com uma coragem e determinação verdadeiramente extraordinárias. Se todas as futuras mães gozam de um amparo especial, aquelas certamente terão um acréscimo de proteção do Alto para poderem levar adiante a gravidez, trazendo ao mundo mais um espírito necessitado de nova experiência na carne.

Capítulo 16

Assedio sexual

"Todas as paixões têm seu princípio num sentimento ou necessidade natural. O princípio das paixões não é, portanto, um mal, uma vez que repousa sobre uma das condições providenciais de nossa existência. A paixão, propriamente dita, conforme habitualmente se entende, é o exagero de uma necessidade ou de um sentimento. Esta no excesso e não na causa; e esse excesso torna-se mau quando tem por conseqüência um mal qualquer.

Toda paixão que aproxima a pessoa da natureza primitiva a afasta de sua natureza espiritual."

(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 908)

chuva que caía desde a noite anterior continuava agora ainda A mais forte. Nas ruas encharcadas, a enxurrada aumentava sempre, obrigando os transeuntes, para atravessar a via pública, a procurarem os locais em que o volume de água fosse menor. De tempos a tempos, faíscas elétricas cortavam os ares, seguidas do barulho de trovões, assustando as pessoas. Eram nove horas da manhã, mas as luzes dos postes estavam acesas, tal a escuridão que se abatera sobre a cidade.

Encontrando uma marquise protetora, Valéria resolveu se abrigar da tempestade, visto que lhe era impossível prosseguir. O guarda-chuva mostrava-se insuficiente para protegê-la daquele verdadeiro dilúvio. Olhou para os sapatos que engraxara pouco antes, agora encharcados; para a roupa, que passara cuidadosamente e que agora estava toda molhada. Descontente, ela levou a mão aos cabelos que penteara com capricho, de onde a água escorria pelo pescoço, penetrando em sua roupa.

Faria uma triste figura chegando ao escritório daquele jeito. Sua aparência estava péssima.

Se pelo menos eu tivesse um carro!, pensou, tremendo de frio.

Agora, protegida da chuva, olhava os grossos pingos que caíam lavando as calçadas. Profunda preocupação a dominava. Sabia que estava muito atrasada para o trabalho, e o patrão, ríspido e prepotente, talvez não entendesse seus motivos, ainda mais que ele estava sempre procurando desculpas para despedir os empregados. E Valéria sabia que ele não simpatizava nada com ela. Ou talvez simpatizasse muito, pensou com ironia.

Respirou fundo, enquanto uma dor quase física atingia-lhe o coração. Se perdesse esse emprego, não saberia o que fazer da sua vida, já tão complicada.

Lembrou-se da família, distante. Não podia contar com ela. Seus pais residiam no Ceará, numa cidadezinha que nem aparecia no mapa, e eram muito pobres. Mauro, seu marido, homem bom e trabalhador, desempregado havia um ano e cinco meses, não podia contribuir financeiramente para a manutenção da casa, e as duas filhas, Marcela e Roberta, de quatro e cinco anos, tinham necessidades básicas que precisavam ser atendidas: alimentação, roupas, calçados, remédios e a creche, entre outras. Além disso, o aluguel (o senhorio não costumava esperar) e as contas de água, luz e telefone eram alguns itens que a afligiam sobremaneira nessa manhã chuvosa. O que fazer?

Valéria deixou que as lágrimas rolassem, aproveitando o rosto molhado pela chuva. Certamente ninguém iria notar. Cada um estava preocupado com os próprios problemas.

E não era só isso. Tudo parecia estar ruindo à sua volta. Tinha consciência de que, se aceitasse as propostas do patrão, tudo seria diferente. Repugnava-lhe, todavia, ceder aos caprichos daquele homem asqueroso e lascivo e, por isso, ele passou a mostrar-se hostil para com ela. No entanto, sua honestidade e sua honra estavam acima de tudo, e conservava-se digna e de cabeça erguida. E era exatamente isso que aquele homem não suportava.

Nesse momento, pelo movimento de pessoas que voltavam a transitar, notou que a chuva diminuíra de intensidade. Deixando também a proteção da marquise, abriu o guarda-chuva e, caminhando tão rápido quanto suas pernas o permitiam, tomou o rumo da empresa.

Ao aproximar-se do grande prédio, o coração começou a bater mais rápido. As luzes estavam todas acesas e o movimento era intenso. Tomou o elevador que a levaria ao andar onde ficava sua sala, intimamente suplicando ajuda divina. Quando o elevador parou e a porta se abriu, respirou fundo. Enchendo-se de coragem, caminhou pelos corredores da grande fábrica de confecções, deixando-se envolver pelo cheiro característico dos tecidos, das tintas e pelo barulho das máquinas que trabalhavam a pleno vapor. Dirigiu-se primeiramente à toalete, onde deixou o guarda-chuva molhado. Rapidamente se arrumou, compondo melhor a aparência; enxugou o rosto e os cabelos, prendendo-os na nuca, ajeitou a roupa e fez uma maquiagem discreta. Depois, olhando-se no espelho e considerando-se mais apresentável, dirigiu-se ao escritório.

Preparava-se para começar a trabalhar, quando ouviu uma colega sussurrar:

— Hoje a coisa está preta. Ele já perguntou por você, Valéria. O "homem" parece uma fera. De carneiro não tem nada, está mais para lobo! — comentou com ironia, fazendo um trocadilho com o nome do proprietário, José Carneiro.

Apesar da aflição, Valéria não pôde deixar de rir. A colega, sempre bem-humorada, tinha os cabelos compridos, lisos e avermelhados.

— Infelizmente, a chuva fez com que me atrasasse, Janete.

— E eu não sei? Muita gente não conseguiu chegar no horário hoje. Mesmo quem tem carro ficou preso no trânsito. Também, que dilúvio! Quer um café? Vou pegar para mim e trago para você também.

Valéria respondeu com sorriso agradecido:

— Obrigada, amiga. Estou mesmo precisando de um café bem quente.

Não quis dizer que nada havia tomado antes de sair de casa. Na verdade, havia um pouco de chá, que ela deixou para as crianças. Nesse dia, Marcela e Roberta não iriam à creche em virtude da chuva e, infelizmente, não teriam a alimentação que lá era servida, uma bênção nesses tempos de crise.

Atendeu ao telefone, tomou o café que a colega lhe trouxe, arrumou a mesa, tirou o material das gavetas e começava a trabalhar nos relatórios quando recebeu um chamado. O chefe queria falar com ela. Muniu-se de coragem, ergueu a cabeça e foi até a sala do senhor Carneiro. Bateu delicadamente, e entrou.

— O senhor mandou me chamar? — perguntou polidamente. O homem que ali estava era troncudo, baixo, de pescoço curto e grosso enterrado nos ombros. Carneiro olhou-a de alto a baixo, com seus olhinhos apertados, e respondeu:

— A senhora atrasou-se bastante hoje, dona Valéria. Tentando não demonstrar seus verdadeiros sentimentos em relação a ele, a funcionária respondeu:

— O senhor tem razão. Peço-lhe desculpas. Mas a chuva... Interrompendo-a, ele não permitiu que ela continuasse:

— Desculpas, sempre desculpas. Deveria ter previsto que com a chuva, levaria mais tempo para chegar aqui e que, por isso, tinha de sair mais cedo de casa.

— Concordo com o senhor. Errei, com certeza. Mas, quando saí de casa não estava chovendo tanto e resolvi vir a pé. Esse foi meu erro. Peço-lhe mais uma vez que me perdoe, senhor Carneiro. Isso não acontecerá mais. Prometo-lhe — justificou-se, sem dizer que, na verdade, não tinha vindo de ônibus por falta de dinheiro.

Vendo-a compungida e medrosa à sua frente ele sentiu uma satisfação toda especial. Gostava de espezinhá-la e vê-la entregue em suas mãos; sentia um prazer quase físico. Considerou, porém, que por agora, era suficiente.

— Está bem, dona Valéria. Aceito suas escusas. Mas que isso não se repita. De outra vez, talvez não seja tão generoso. Pode ir.

— Obrigada, senhor. Prometo-lhe que o problema não voltará a ocorrer.

Virou-se e saiu da sala pisando firme. Ao chegar em sua mesa, desabou sobre a cadeira. Lágrimas silenciosas corriam-lhe pelo rosto.

— Como foi? — quis saber Janete, curiosa e preocupada ao ver o estado da amiga.

— Você pode imaginar. Insinuou que chego tarde constantemente e que vivo dando desculpas. Logo eu, que procuro chegar sempre antes do horário.

— Ele quer pisá-la o máximo que puder, você sabe — considerou a colega.

— Sim, eu sei. Humilhei-me, pedi perdão, fiz tudo o que precisava. Não posso correr o risco de perder este emprego, minha amiga. Nossa situação em casa já está complicada o suficiente sem isso. Mas, vamos trabalhar. Não quero que ele passe, nos veja conversando e tenha outros motivos para reclamação.

Envolvida no serviço, Valéria não viu o tempo passar. Quando soou a campainha, ela levou um susto. Hora do almoço.

Janete veio buscá-la. Sempre almoçavam juntas. Era o tempo que tinham para colocar a conversa em dia.

No refeitório, havia um burburinho diferente no ar.

— O que será que aconteceu? — indagou Valéria para a amiga.

— Não sei. Mas vejo Ruth chorando. Vou me informar e já volto com notícias.

Janete voltou com uma bomba:

— Você não vai acreditar. Ruth foi demitida!

— Demitida? Qual o motivo?

— O mais usado quando não se tem motivo: contenção de gastos.

-Ah!...

-Agora vai começar uma corrida. O cargo de secretária do chefe atrairá o interesse de muita gente — considerou Janete, pensativa.

Naquele instante Valéria sentiu uma fisgada no coração. Uma luz vermelha de alerta começou a piscar dentro dela indicando perigo. Nada havia que justificasse sua preocupação, no entanto, a partir daquele momento, passou a sentir-se tensa e inquieta. Por que demitir Ruth, reconhecida e elogiada pela sua competência? Não fazia sentido.

O resto do dia passou sem incidentes. Ao chegar em casa, o marido já tinha feito uma sopa de legumes com a ajuda das meninas, que estavam felizes por poder mostrar sua boa vontade à mamãe, que voltava cansada do serviço.

— Boa noite, minhas queridas! Como passaram o dia? E você, meu amor? Sua sopa está com um aroma que a gente pode sentir lá da rua!

O clima era de alegria e paz. Valéria sentiu-se recompensada pela canseira do dia. Estar com os familiares queridos no ambiente do seu lar era uma bênção de valor inestimável.

Sentaram-se e jantaram, enquanto Marcela e Roberta comentavam o que tinham feito naquele dia.

— Ainda bem que parou de chover, mamãe. Amanhã vamos poder ir à creche, não é?

— Claro, filhinha. Mesmo porque, não é bom perder aula. Conversaram animadamente por algum tempo, depois a mãe ordenou que fossem colocar o pijama e escovar os dentes para dormir. Colocou as meninas no leito, contou-lhes uma história e em seguida fez uma oração com elas. Beijou-as, apagou a luz e saiu, deixando a porta encostada.

Retornando à sala, sentou-se no sofá ao lado do marido. Mauro abraçou-a com carinho.

— Você tenta disfarçar, mas está preocupada. O que houve?

Sem desejar afligir o marido, que ignorava o assédio do chefe a ela, explicou:

— Nada de importante. Hoje foi um dia difícil. Levei uma bronca do patrão por ter chegado tarde e isso me deixou chateada.

-Você não se justificou, minha querida?

— Claro. Ele aceitou minhas desculpas.

— Então? Esqueça o incidente.

-Tem razão. Não vou pensar mais nisso. Vamos dormir? Estou exausta.

— Vamos. Amanhã não posso perder a hora. Tenho uma entrevista logo cedo. E uma proposta de emprego.

— Mauro, que bom! Você não tinha me contado!

Com jeito meio constrangido, ele comentou de cabeça baixa:

— Não queria dar-lhe falsas esperanças, querida. Vamos ver como me saio na entrevista. Não quero nem posso me decepcionar novamente.

Abraçando o marido, Valéria o animou:

— Confie em Deus, meu bem. Tenho certeza de que desta vez dará tudo certo.

— Deus a ouça!

Na manhã seguinte estavam todos animados. As crianças porque iriam para a escola, e Valéria e Mauro pela expectativa de um bom emprego para ele.

Despedindo-se do marido, Valéria desejou-lhe boa sorte. Em seguida, tomou o rumo da empresa. Chegou bem antes da hora e poucas pessoas ali estavam. Foi para sua mesa e começou a trabalhar. O tempo passou rapidamente.

Na hora do almoço, sentou-se com Janete numa mesa de canto. Sentia-se feliz e queria compartilhar suas esperanças com a amiga, contar-lhe sobre a possibilidade de um bom emprego para o seu marido.

Nisso, notou, com estranheza, que os outros colegas a olhavam e cochichavam.

— O que está acontecendo, Janete? O ambiente está estranho! A amiga abaixou a cabeça, pensou um pouco e depois disse, lentamente:

— Corre um boato de que a nova secretária do chefe será você, Valéria.

Perplexa, ela se defendeu:

— Eu?! Mas, por quê? Se há alguém que não deseja esse cargo sou eu, você sabe!

— Eu sei, amiga, mas os outros não.

— Você sabe quanto gosto da Ruth. Seria a última pessoa a trabalhar contra ela. Além disso, tenho outros motivos que você não ignora.

— Certo. Nossas colegas, porém, pensam que você se utilizou exatamente da queda que o nosso "carneirinho" tem por você para subir.

Indignada, Valéria ameaçou levantar-se e tomar uma atitude, mas Janete a impediu.

— Isso é um absurdo! Vou lá falar com elas, Janete.

— Não faça isso, Valéria. Não vai adiantar. Aja de forma normal e, se for consultada para o cargo, não aceite. E a melhor resposta que poderá dar-lhes.

— Tem razão. Quem não deve não teme. Bem, vamos voltar ao serviço porque este ambiente está me incomodando.

Retornaram e mergulharam no trabalho. Por volta das cinco horas da tarde, Valéria foi chamada à sala do patrão.

Pedindo licença, entrou e ficou em pé aguardando suas ordens.

— Sente-se — ordenou ele.

— Não, obrigada. Estou bem assim. O senhor deseja alguma coisa?

— Sente-se, já disse.

A contragosto, Valéria sentou-se.

— Com certeza a senhora já sabe que dona Ruth foi demitida.

Ela permaneceu impassível, sem confirmar ou negar.

— Preciso de uma nova secretária. Estive analisando cada funcionária da empresa e cheguei à conclusão de que a senhora, dona Valéria, é a mais indicada.

Tentando manter a tranqüilidade e o equilíbrio, ela respondeu:

— Creio que se engana, senhor Carneiro. Outras funcionárias existem com mais condição do que eu. Além disso, não poderia aceitar o cargo porque tenho um marido e duas filhas pequenas que dependem de mim. Não poderia ficar além do horário habitual, como muitas vezes acontece nesse caso — considerou com um pouco de ironia.

— Pense bem, dona Valéria. O cargo que estou lhe oferecendo representa um salário bem melhor, além de outras vantagens.

Ele fez uma pausa, analisando a reação dela. Como Valéria continuasse calada, prosseguiu ardiloso:

— Por falar nisso, como vai seu marido? Ainda desempregado? Não creio que possa se dar ao luxo de recusar um salário mais atraente e que representa o sonho de todas as nossas funcionárias. Pense bem.

Valéria, nervosa, levantou-se, respondendo grave e digna:

— Já pensei, senhor Carneiro. Prefiro ficar onde estou. Gosto do meu serviço.

— Infelizmente, devo dizer-lhe que se não aceitar minha proposta não poderá permanecer nesta empresa. Será demitida. Então, não me dê a resposta agora. Reflita até amanhã, pelo menos. Consulte o travesseiro, pese os prós e os contras, ouça seu esposo, e depois voltaremos a conversar. Está bem?

Valéria concordou, quase desfalecendo. Reunindo as poucas forças que lhe restavam, caminhou até a porta, deixando a sala. Sem condição de voltar para sua mesa, dirigiu-se à toalete. Ali, sozinha, desatou em pranto convulsivo.

Janete, percebendo que a colega tinha saído do gabinete do chefe e se dirigido diretamente à toalete, foi atrás dela, encontrando-a lavada em lágrimas.

— O que houve, Valéria?

— Aquele homem terrível ofereceu-me o cargo de sua secretária. Janete esteve a ponto de pronunciar um "eu não lhe disse?".

Todavia, conteve-se a tempo, vendo o desespero da amiga.

— E você, aceitou?

— Claro que não! Mas aquele sádico colocou-me diante de um impasse: ou aceito ou sou demitida. Percebe?

Em grande desespero, Valéria deixou-se escorregar pela parede caindo estatelada no piso.

— Então, como vai ficar? Você disse que não aceitava?

— Isso mesmo. Mas ele insistiu para que eu não desse uma resposta hoje. Que pensasse até amanhã. Minha esperança é que o Mauro consiga o emprego que tem em vista.

— Viu? Acalme-se. Sempre tem uma saída, amiga. Deus sempre nos ampara.

— É verdade. Entretanto, Janete, mesmo que Mauro consiga o emprego, preciso do salário que ganho aqui. Meu dinheiro não está dando, temos passado necessidades.

— Confie em Deus. O amanhã nos reserva sempre novas oportunidades.

— Espero que o Mauro tenha conseguido aquele emprego. Tentando parecer mais serena, Valéria lavou o rosto, recompôs a fisionomia e voltou para sua mesa. Felizmente estava quase na hora de encerrar o expediente.

Janete tem razão. Necessário ter confiança. Amanhã será outro dia, cheio de novas esperanças. Elevando o pensamento a Jesus, Valéria suplicou:

— Senhor, me ajude!

Capítulo 17

Tomada de decisão

"Pela prece, o homem atrai para si o auxílio dos bons Espíritos que o vêm sustentar nas suas boas resoluções e lhe inspirar bons pensamentos. Ele adquire assim a força moral necessária para vencer as dificuldades e voltar ao bom caminho, se dele se afastou. "

(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 27, ITEM 11)

Entrando em casa, Valéria encontrou Mauro na cozinha preparando um lanche. Ao mesmo tempo, ouviu o barulho do chuveiro e a risada das meninas, que tomavam banho, o que lhe deu um agradável sentimento de paz e aconchego. Aproximou-se do marido, ansiosa:

— E então, querido? Como foi a entrevista? Coando o café, ele respondeu sem se virar:

— Nada feito. Ainda não foi dessa vez. Infelizmente.

— Mas, como? Você estava tão cheio de esperanças, parecia ser o emprego sob medida!

— Pois é. Eu fui muito bem na entrevista, mas chegaram à conclusão de que não tenho o perfil ideal para aquele cargo.

-Mas...

Valéria caiu sentada numa cadeira. Naquele instante, viu suas esperanças se escoarem pelo ralo. E agora? Teria que aceitar a proposta daquele infame?

Colocando o café na mesa, Mauro percebeu quanto sua esposa estava decepcionada. Abraçou-a com carinho, consolando-a:

— Não se preocupe, querida. Trouxe o jornal para examinar os classificados, e amanhã mesmo voltarei às ruas. Não é possível que não surja algo. Não sou exigente. Qualquer coisa serve!

Viram as meninas que saíam do banheiro enroladas em toalhas, e pararam de falar. Evitavam sempre que as filhas participassem de seus problemas. Valéria colocou um sorriso no rosto e elas beijaram a mãe, alegres. No quarto, enquanto as ajudava a vestir o pijama, Marcela e Roberta tagarelavam contando tudo o que tinham feito na creche, o que aprenderam, o passeio a um bosque, ali perto. Prontas para dormir, sentaram-se para tomar o lanche.

Roberta estava sem fome. Marcela comeu com satisfação o sanduíche que a mamãe preparou, acompanhado de um copo de leite com café.

— Por que não quer comer, minha filha? — perguntou à maior.

— Comi muito na creche hoje, mamãe. Tinha arroz-doce, que adoro!

— Ah, então entendo porque Marcela está com fome. Você não gosta de arroz-doce, não é querida?

— E. Mas na creche tomei dois pratos de sopa, mamãe.

— É que ela é esfomeada mesmo! — retrucou Roberta, fazendo todos caírem na risada.

Acabaram de tomar lanche, e as meninas puderam ficar na sala assistindo a um desenho de que elas gostavam muito. Depois, Valéria colocou-as para dormir.

Voltando para a sala, sentou-se junto do marido, que assistia a um jornal na televisão. Ela precisava falar com Mauro, mas não sabia como. Precisava resolver, com a ajuda dele, se aceitaria o cargo de secretária do chefe. Porém, como fazer isso sem contar-lhe sobre o assédio sexual que estava enfrentando no serviço?

Mauro diminuiu o volume do aparelho e abraçou-a.

— Fique tranqüila, querida. Você está triste porque não consegui o emprego hoje, mas amanhã poderá ser diferente. Precisamos ter esperança! — consolou ele, julgando fosse esse o motivo de Valéria estar tão calada.

Como ela continuasse com ar preocupado, ele olhou-a, sorridente, e concluiu:

— Vamos, querida, ânimo! Afinal, nada mudou de ontem para cá. Tudo continua da mesma maneira. É apenas uma expectativa que não se concretizou. Só isso. Felizmente, podemos contar com seu salário. Enquanto não arrumo serviço, continuo levando e buscando as crianças na creche, fazendo as tarefas domésticas e procurando trabalho. Deus tem sido bom para nós. Não podemos nos queixar, não é?

Valéria tinha um nó na garganta e um imenso desejo de chorar e de abrir seu coração ao marido. Todavia, não podia deixar que ele percebesse seu estado de espírito. Assim, respirou fundo, contendo as lágrimas. Estava decidido. Não poderia desistir do emprego agora. Precisava enfrentar a situação, custasse o que custasse.

— Você tem razão, querido. Felizmente, não nos faltam recursos. Não é muito, mas o que ganho na empresa dá para nos mantermos.

Fez uma pausa e, com os olhos úmidos, deu a notícia:

— Hoje recebi uma proposta da empresa: o cargo de secretária do chefe. O salário é maior e terei outras regalias. Fiquei de dar a resposta amanhã. Não queria decidir sem ouvir sua opinião.

Mauro arregalou os olhos, radiante.

— Querida, mas isso é ótimo! Mas parece que você não está muito contente. Por quê?

— Bem, talvez tenha que trabalhar mais, fazer horas extras, e você...

— Entendi. Está preocupada com as meninas, caso eu comece a trabalhar também. Porém, se você ganhar mais, poderemos contratar alguém para ir buscá-las na creche e ficar com elas até voltarmos para casa. Veja! As coisas estão melhorando! Tudo vai dar certo — disse o marido todo animado.

— Você tem razão, Mauro. Tudo vai dar certo.

Valéria tinha o coração apertado, mas não podia jogar balde de água fria no entusiasmo do marido. Teria de enfrentar a situação.

Deitada, não conseguia conciliar o sono. Sentia medo do futuro, medo do que poderia acontecer. Estava sem ânimo e desejando que o novo dia não chegasse nunca. Amanhecia quando conseguiu cochilar. O despertador, porém, acordou-a, lembrando-a de seus deveres.

Levantou-se com o corpo todo dolorido. Tomou banho, acordou Marcela e Roberta, arrumou-as, enquanto Mauro preparava o café-da-manhã.

Depois do lanche matinal, saíram juntos, tomando rumos diferentes: Mauro com as filhas a caminho da creche, e ela, para a empresa.

Entregue a si mesma, Valéria ia pensando em seus problemas. Gostaria de ter a fé de sua amiga Janete, mas não conseguia. Ensinava as filhas a rezar, por tradição, porém não se sentia próxima de Deus. Passando perto de uma igrejinha, aquilo lhe pareceu um sinal. Ainda tinha tempo. Resolveu entrar.

O ambiente tranqüilo da igreja reagiu favoravelmente sobre seu ânimo. Sentiu-se melhor, mais serena. Ajoelhou-se, pedindo a Jesus que a ajudasse a resolver seus problemas. Rezou um pai-nosso e saiu.

Reconhecia que estava melhor. A tensão diminuíra e o coração já não batia descompassado. Por que se preocupar tanto? Aceitaria a proposta. Uma mulher sempre tem meios de se defender, escapando do assédio do patrão. Resolveu que levaria a situação em banho-maria, dando tempo para que Mauro encontrasse um emprego. Depois, nesse período, ela mesma poderia ir sondando espaço em outras empresas. Sabia de pelo menos duas que estavam contratando funcionárias para escritório. Como isso não lhe passara antes pela cabeça?! Era uma boa solução.

Cheia de novas esperanças, chegou ao prédio da empresa.

O burburinho era grande. Percebia pelos olhares e cochichos que estavam falando dela. Era o assunto do dia. Entrou calada, agindo normalmente; cumprimentou a todos e fingiu não notar o que estava acontecendo.

Acomodou-se em sua mesa e, baixando a cabeça, concentrou-se no trabalho. Não daria o primeiro passo. Ficaria esperando que o patrão a chamasse, rezando para que ele tivesse mudado de idéia.

Conquanto procurasse manter uma atitude serena e equilibrada, no fundo estava tensa e angustiada. O coração batia forte e, ao menor ruído, estremecia.

Em torno das dez horas, Janete, que tinha ido até o gabinete do chefe entregar um relatório, passou por sua mesa e avisou:

— Valéria, o patrão quer vê-la. Coragem!

Ela levantou-se de pernas trêmulas, respirou fundo e caminhou até a sala do senhor Carneiro, acompanhada pelos olhares dos demais funcionários.

Bateu delicadamente e entrou.

— Mandou me chamar, senhor?

— Sim, dona Valéria. Sente-se. Conforme conversamos ontem, aguardo sua resposta. Aceita o cargo como minha secretária?

Tentando ganhar tempo, Valéria ponderou:

— O senhor acha que vou dar conta do serviço? Afinal, existem pessoas aqui dentro da empresa mais qualificadas para o cargo.

— Não concordo, dona Valéria. A senhora é a pessoa ideal. Tem presença, sabe tratar as pessoas, se expressa bem. Quanto ao mais, o que não souber, aprenderá com o tempo. E então?

— Bem, se o senhor pensa assim, aceito.

Carneiro fingiu não perceber o ar acabrunhado dela.

— Ótimo. Então, a partir de hoje, seu lugar é aqui na sala ao lado. Pode ir buscar suas coisas.

Ao sair, Valéria percebeu que havia um silêncio estranho na grande sala, quase palpável; todos haviam parado de trabalhar. De repente, ao vê-la, todos recomeçaram a trabalhar ao mesmo tempo, disfarçando.

Se seu ânimo fosse outro, teria começado a rir. Sem olhar para os lados, caminhou pelo corredor até sua mesa, onde começou a arrumar seus pertences.

Janete aproximou-se:

— E então, amiga?

— Não teve jeito. Ou eu aceitava ou ia para o olho da rua, e com marido desempregado em casa não posso me dar a esse luxo.

— Entendo. E agora?

— Agora tenho de enfrentar a fera. A partir de hoje, todavia, começo a procurar outro emprego.

Com uma caixa nos braços, cruzou de novo o corredor sob os olhares irônicos e atentos dos demais. Contendo as lágrimas, tomou posse da sala contígua à do chefe.

Tensa, permaneceu todo o dia tentando aprender o serviço e nem viu o tempo passar. Aos poucos, foi relaxando ao ver que Carneiro portava-se com delicadeza e correção. Não tendo motivo para medo, Valéria ficou mais tranqüila.

No dia seguinte, menos tensa, ela enfrentou os problemas normais do cargo, atendendo às pessoas, visitantes, credores e fornecedores, com naturalidade. No final do expediente, ao passar por sua mesa, o chefe a cumprimentou:

— Parabéns, dona Valéria. Hoje só recebi elogios à sua pessoa. Todos foram unânimes em gabar-lhe a eficiência e finura de trato.

— Obrigada, senhor.

— Pode ir agora.

Valéria estava começando a achar que se equivocara. Afinal, ele não era tão terrível assim como diziam.

Capítulo 18

Ajuda providencial

"Pedi e se vos dará; buscai e achateis; batei a porta e se vos abrirá; porquanto, quem pede recebe e quem procura acha e, àquele que bata a porta, abrir-se-á. "

JESUS (MATEUS, 7: 7 E 8)

Uma semana depois, Valéria estava adaptada à situação, segura e confiante. Na sexta-feira, quase no encerramento do expediente, o chefe chamou-a:

— Dona Valéria, infelizmente surgiram problemas urgentes que tenho de resolver ainda hoje. Preciso que me faça algumas correspondências, pode ser?

— Claro, senhor Carneiro. Pode ditar.

Depois de fazer as anotações, a secretária sentou-se defronte do computador para digitar as correspondências, visto que teriam de ser enviadas no mesmo dia, por meio de portador.

Quando Janete veio chamá-la para irem embora, Valéria explicou:

— Não posso, Janete. Ainda tenho serviço urgente para fazer. Pode ir, irei quando terminar.

Janete despediu-se e saiu. Dentro em pouco, não havia mais ninguém no prédio. Só o pessoal da limpeza. Todo o barulho cessara. Carneiro assinou os documentos e disse: