Só o Amor Liberta
Jairo devolveu a pergunta, irritado
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A seu lado, uma mocinha, que deveria ter no máximo 13 anos, mostrava-se apavorada. Extremamente agitada e nervosa, esfregava as mãos. Vez por outra, enxugava discretamente uma lágrima. Marina se condoeu da situação da menina e puxou conversa com ela.
— Como demora, não é? Você está com medo? A menina balançou a cabeça afirmativamente.
— Como é seu nome?
— Vanessa.
— Lindo nome, Vanessa. O meu é Marina. Quer conversar comigo? Talvez desabafar lhe faça bem.
A menina, de cabeça baixa, contou que seu padrasto abusava sexualmente dela todos os dias. Horrorizada, Marina indagou:
— E sua mãe sabe?
— Não. Nunca contei a ela.
— Por que, Vanessa? Ela é a única pessoa que pode ajudá-la!
— Minha mãe gosta muito desse homem e ele ameaçou-me, dizendo que, se contasse, ele jogaria a culpa sobre mim. E agora que engravidei, ele me deu dinheiro para fazer o aborto. Não quer que minha mãe perceba. Afinal, é ela que trabalha e sustenta a casa. Ele é um malandro que só vive pelos bares.
Marina estava perplexa. Notou que existiam problemas piores do que os seus. Vanessa parou de falar, continuando de cabeça baixa. Marina sentiu vontade de animá-la, de dar-lhe algum consolo, mas não sabia o que dizer. Afinal, ela também estava em situação semelhante.
Naquele instante, Marina sentiu vontade de pensar em Deus, pedindo ajuda para aquela menina, quase uma criança que estava ali, apavorada, sem ninguém da família para socorrê-la.
A emissão do seu pensamento foi suficiente para que nós, da espiritualidade, alertados para o que estava acontecendo, pudéssemos agir, procurando evitar um mal maior, isto é, que os crimes se perpetrassem naquela casa.
Aproximamo-nos, envolvendo Marina em emanações benéficas e tranqüilizantes, para que mantivesse a serenidade e a confiança em Deus. Ato contínuo, sugerimos que ela saísse da sala sufocante para respirar ar puro lá fora. E ela o fez, convidando Vanessa a acompanhá-la.
Marina e a companheira estavam havia cerca de quinze minutos na calçada conversando, quando chamamos sua atenção para uma das pacientes que saía por uma porta secundária, que dava para o quintal da casa. A adolescente tinha um aspecto abatido e lágrimas desciam pelo seu rosto. Amparada por uma mulher de branco, mal conseguia caminhar, praticamente sendo arrastada para um carro que aguardava ali perto. Da cintura para baixo, especialmente na região das coxas, suas roupas estavam sujas de sangue. Certamente estava tendo uma hemorragia.
Ao ver as duas moças na calçada, a paciente lançou um olhar aflito, mas cheio de compaixão, como se dissesse: Não façam isso que eu fiz! Vejam como estou!
Marina tentou aproximar-se dela, mas a mulher de branco, sua acompanhante, não deixou, dizendo com voz ríspida, mas não isenta de preocupação:
— Deixem-na. Ela precisa ir embora imediatamente. Marina trocou um olhar com Vanessa. Com certeza, algo dera
errado. A moça corria risco de morte, sem dúvida.
Naquele instante, envolvidas por nós, ambas sentaram-se no meio-fio e puseram-se a conversar. Não queriam arriscar a vida, não valia a pena. Mas o que fazer?
Marina, mais velha e mais experiente, rapidamente, amparada pela nossa equipe que a intuía, decidiu:
— Vanessa, nós não podemos fazer o aborto. Esse lugar é um açougue!
— Também sinto isso. E agora? Quanto a você não sei, mas eu não posso voltar para casa grávida. E, além disso, todo o dinheiro que eu tinha usei para pagar esse serviço.
— Resolveremos isso depois. Agora, venha comigo. Já sei o que fazer.
Entraram e se aproximaram do balcão. Marina, resoluta e fortalecida pela nossa presença, ordenou à secretária:
— Devolva nosso dinheiro. Não desejamos mais o atendimento. Com ar arrogante, a secretária retrucou:
— Impossível. Já pagaram. Se não quiserem o serviço é problema de vocês, mas não posso devolver o dinheiro. Tenho ordens expressas do doutor.
Marina agarrou o braço da antipática atendente e ameaçou:
— Devolva nosso dinheiro ou chamo a polícia. Tenho certeza de que os policiais ficarão muito satisfeitos ao descobrir esta pocilga. Escolha. E rápido, porque não temos tempo a perder.
Ao ouvir falar na polícia, a arrogante atendente pôs-se a tremer de medo. Abriu a gaveta, pegou o dinheiro e entregou nas mãos de ambas.
— Calma! Está bem! Está bem! Não precisa brigar. Pode levar. Está tudo aqui.
Vanessa e Marina saíram da clínica de cabeça erguida. Antes, porém, Marina ainda virou-se para as pacientes que aguardavam e alertou:
— Acho melhor vocês não entrarem nesse consultório. Há pouco saiu daqui uma paciente muito mal. Esse lugar não é uma clínica, é um matadouro.
Mas as mulheres que ali estavam já conheciam a clínica e os serviços oferecidos e, mesmo arriscando a vida, preferiram permanecer.
Algo decepcionada, Marina fez um gesto largo com os braços, olhando para sua companheira, como se dissesse: Bem, tentamos.
Depois, voltando-se para as demais, desejou:
— Boa sorte!
Fora da clínica, andaram apressadas, desejando colocar a máxima distância entre elas e aquele lugar horrível. Ao chegar a uma praça, sentaram-se num banco para descansar um pouco. Estavam ofegantes. Vanessa, preocupada, perguntou:
— E agora, Marina? Conseguimos evitar o pior, e temos nosso dinheiro de volta, mas o que faremos? Nosso problema continua!
A outra, mais tranqüila, que intuitivamente sabia o que fazer, afirmou:
— Não se inquiete, Vanessa. Como você disse, agora temos o dinheiro que iria para os bolsos daquele médico. Venha comigo. Sei para onde podemos ir.
Pegaram um ônibus e em meia hora estavam na pensão. Marina pagou outra vaga para Vanessa e ficaram no mesmo quarto.
— Você mora aqui, Marina?
— Não, claro que não. Aluguei este cômodo para poder me recuperar após o serviço. Minha família pensa que estou viajando com uma amiga.
Estavam cansadas e deitaram para repousar, uma ao lado da outra. Enquanto descansavam, aproveitavam para conversar. Marina contou à Vanessa a sua história. Quando terminou, a outra suspirou:
— Gostaria de estar no seu lugar. Você pelo menos tem pais que a amam, irmãos... Se eu tivesse irmãos como você, nada disso teria me acontecido, Marina.
— Talvez não, Vanessa. Porém, você tem mãe e ela deve amá-la muito. Acho que deveria ter confiado mais em sua mãe e contado os abusos que tem sofrido.
— Pode ser. Não sei o que vai ser da minha vida agora...
— Fique calma. Tenho a íntima convicção de que tudo vai dar certo, pode crer.
— Invejo você, Marina. Parece tão segura de si, tão resolvida. Enfrenta tudo.
Marina levantou um pouco o corpo para olhar a outra.
— Você se engana, Vanessa. Sempre fui insegura. Também estou surpresa com meu comportamento. De repente, sinto-me forte, confiante e amparada, como se soubesse o que devo fazer!
— Fala sério? E quando houve essa mudança? Marina pensou um pouco, puxando pela memória.
— Interessante. Parece que foi quando fiquei preocupada com você, que estava a meu lado, aflita e nervosa. Senti imensa compaixão por você e enorme desejo de ajudá-la. Até pensei em Deus — coisa que raramente faço — , pedindo que a amparasse.
— Verdade? E depois?
— Depois, as idéias começaram a vir a minha cabeça. Até a vontade de sair da sala parece que foi sugerida por alguém. Ouvi a voz suave de um rapaz e obedeci. Não é estranho?
— Estranho e providencial! Não fosse isso e ainda estaríamos lá naquele chiqueiro. Mas já ouvi falar dessas coisas. Tenho uma tia que é espírita e ela vê e ouve as almas daqueles que já morreram. Acho que é isso o que aconteceu com você. Ela diz que todo pensamento bom encontra ressonância na espiritualidade e nossa prece é atendida por amigos espirituais, pelo anjo da guarda, pelo santo da nossa preferência, enfim, por quem puder atender. Creio que foi isso o que aconteceu com você. Preocupando-se comigo, você deu oportunidade para que amigos do além ajudassem a mim e a você.
— É mesmo? Faz sentido.
Continuaram conversando até que, aos poucos, um sono benéfico passou a envolvê-las. Havia sido um dia difícil e precisavam repor as energias.
Capítulo 14
Nuvens que se dissolvem
"Quando alguma coisa feliz nos acontece, é a nosso Espírito protetor que devemos agradecer?" "Agradecei a Deus, sem cuja permissão nada se faz; depois, aos bons Espíritos, que são seus agentes. "
(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 535)
Marina e Vanessa estavam tão cansadas que dormiram a tarde toda. Despertaram ao cair da noite e, após tomarem um banho, já refeitas, foram jantar. A refeição não era lá essas coisas, mas comeram com vontade. Estavam famintas.
Depois, voltaram para o quarto e retomaram o diálogo. Imprescindível decidir o que fazer. Como Marina tivesse tempo, uma vez que, para todos os efeitos estava viajando, o mais urgente era resolver o problema de Vanessa.
Após refletir um pouco, Marina perguntou:
— Vanessa, você tem alguém em quem possa confiar? Uma pessoa com quem poderia contar num momento de dificuldade?
A outra pensou um pouco e respondeu:
— Tenho uma tia, irmã de minha mãe, com quem sempre me dei muito bem. Acho que posso confiar nela. Por quê?
— Ótimo! E se falássemos com ela?
— Contar da minha gravidez? Nem pensar! — retrucou a outra, taxativa.
— Vanessa, nós temos de começar de algum ponto! Acho que ela precisa saber não apenas a respeito da gravidez, mas sobre toda a sua história.
Vanessa ficou pensativa por alguns instantes, depois considerou:
— O. fato é que minha mãe a ouve muito. Talvez você tenha razão; pode dar certo. Além disso, talvez seja minha única opção.
— Muito bem. Você sabe o número do telefone dela?
— Sei.
— Então, o que estamos esperando? Vamos telefonar para sua tia. Tem um orelhão logo ali, na esquina.
Rapidamente saíram da pensão e se dirigiram ao telefone público. Vanessa discou, e logo uma voz de mulher atendeu.
— Oi, tia Amélia. E a Vanessa.
— Olá, querida! Estou com saudades! Como vai?
A garota titubeou um pouco, escolhendo as palavras para responder.
— Não muito bem... Preciso falar com a senhora o mais rápido possível.
— Ótimo! Estava mesmo pensando em ir amanhã à sua casa.
— Não, não, tia Amélia. Em casa não. Encontre-me na... na... Marina pensou rápido, e assoprou o nome de uma lanchonete conhecida.
— Encontre-me na Lanchonete Recanto, no centro da cidade. Sabe onde fica?
— Sei. Quando?
-Amanhã cedo, às nove horas. Pode ser?
— Sem dúvida. Mas... aconteceu alguma coisa?
— Amanhã conversaremos, tia Amélia. Posso pedir-lhe mais um favor?
— Claro, querida, pode dizer. O que deseja?
— Que não conte a ninguém que falou comigo. Nem à mamãe.
— Nem à sua mãe? — indagou, preocupada.
— Especialmente a ela — respondeu a sobrinha com firmeza.
— Está bem. Fique tranqüila, Vanessa, ninguém ficará sabendo.
— Obrigada. Sabia que poderia contar com a senhora. Um beijo, tia Amélia. Até amanhã.
No dia seguinte, as novas amigas tomaram café e se dirigiram até o ponto de ônibus. Vanessa estranhou o fato de Marina ter marcado o encontro tão longe de onde estavam hospedadas, mas a outra, mais viva, explicou:
— Por enquanto, é bom ninguém saber onde estamos. E se sua tia não quiser nos ajudar e contar onde você está? Melhor prevenir.
— Você não a conhece e não confia nela. Mas verá que está errada. Minha tia é muito boa. Se ela prometeu que não contaria a ninguém, não contará.
— Bem, nunca se sabe. Afinal, ela e sua mãe são irmãs! Chegaram mais cedo ao local combinado, acomodaram-se e pediram um pingado. A lanchonete estava quase deserta àquele horário.
Dez minutos depois, Amélia chegou. Era uma simpática senhora de uns 50 anos, bem vestida e fisionomia afável. Aproximou-se da mesa, sorridente, espalhando delicioso perfume de flores:
— Como vai, Vanessa?
— Apesar de tudo, vou bem, tia Amélia. Esta é Marina, uma amiga.
Aquele apesar de tudo preocupou ainda mais a recém-chegada. Trocaram cumprimentos e se acomodaram. Após pedir um café, Amélia perguntou:
— Estou curiosa, Vanessa. O que está acontecendo? Por que quis conversar comigo longe de sua casa?
Algo temerosa, gaguejando, Vanessa começou a falar:
— Tia Amélia, eu não dormi em casa esta noite.
— Eu sei. Sua mãe me telefonou, aflita. Queria saber se você estava em minha casa.
— A senhora contou que falou comigo? — indagou a menina, trêmula.
— Não, claro que não. Como percebi sua voz bastante tensa ao telefone, deduzi que tinha acontecido alguma coisa e não disse nada, aguardando nossa conversa de hoje. Mas agora preciso saber. O que houve? Você e sua mãe brigaram?
— Não, não brigamos. Vou explicar tudo, tia Amélia. E uma longa história.
Fez uma pausa, respirou fundo e, ganhando coragem, começou a falar:
— Desde que aquele homem entrou em nossa casa, tudo mudou. A senhora sabe como minha mãe é louca por ele. Não admite que se diga nada contra aquele safado. Estou numa situação muito difícil, quero abrir meu coração, porém nem sei como lhe dizer...
Nesse ponto, ela começou a chorar e não conseguiu continuar. Marina resolveu a situação, tomando a dianteira:
— A verdade, dona Amélia, é que Vanessa tem sofrido muito. Vou direta ao ponto: o padrasto tem abusado dela sexualmente todos os dias.
— Não é possível! — exclamou a senhora, com olhos arregalados, perplexa.
— Contudo, é a mais pura verdade. E tanto é possível que ele engravidou Vanessa.
Atônita, a tia olhou para a sobrinha, incapaz de acreditar naquela monstruosidade, enquanto uma palidez marmórea invadia-lhe o rosto:
— Vanessa, você está grávida?
A garota recomeçou a chorar, concordando com um gesto de cabeça. Marina prosseguiu:
— E tem mais. Quando Vanessa falou ao padrasto sobre o problema, ele deu-lhe dinheiro para fazer um aborto. Mas vou lhe contar tudo...
Diante da estarrecida senhora, Marina relatou o encontro que teve com Vanessa na clínica e falou sobre a decisão de ambas de não se submeterem ao atendimento daquele médico. Quando terminou, Amélia estava ainda mais perplexa. Todavia, precisava de uma confirmação desses absurdos da boca da própria sobrinha:
— Tudo isso é verdade, Vanessa? E sua mãe, por que não lhe contou?
Levantando a cabeça, a garota limpou as lágrimas e explicou com expressão de profunda tristeza:
— A senhora conhece mamãe melhor do que ninguém, tia Amélia. Sabe bem como ela é. Em relação àquele homem, mamãe é completamente cega, surda e muda. Todas as vezes que tentei fazê-la enxergar o comportamento dele, foi em vão, não me deu crédito. Além disso, João ameaçou dizer à minha mãe que era eu que dava em cima dele. Ele tem uma arma, e ameaçou até me matar se eu abrisse a boca.
— Que absurdo! O que pretende fazer agora, Vanessa?
— Não sei, tia Amélia. Achei que a senhora talvez pudesse, de alguma forma, me ajudar a resolver.
Amélia, já readquirindo o controle das emoções, tirou da bolsa um lencinho de papel e entregou-o à sobrinha lavada em lágrimas. Depois, assumindo o lado prático, perguntou:
— Bem. Onde você dormiu essa noite, Vanessa?
— Numa pensão, junto com Marina.
A senhora pensou um pouco e depois disse:
-A primeira providência será levá-la para a minha casa. Depois, decidiremos o que fazer. Chamarei sua mãe e conversaremos. Ela me escuta e me respeita, e nessa hora isso é fundamental.
Lançando um olhar para Marina, a mocinha considerou:
— A senhora tem razão, tia Amélia. No entanto, ficaria mais tranqüila se encontrasse minha mãe num lugar neutro. Tenho medo de que ela não aceite a realidade e conte para o marido. Ele me mataria se soubesse que abri a boca, como me ameaçou várias vezes. Se minha mãe o colocar para fora de casa e ele perder as mordomias que tem, com certeza me matará, e eu acredito, porque aquele homem é capaz de tudo.
— Quanto a isso você tem razão, Vanessa. Também tenho certeza de que João não quer perder essas facilidades. Afinal, ficar o dia inteiro em casa sem trabalhar, ser sustentado pela mulher e ainda abusar da filha, não é para qualquer um. Porém, acho que você se engana, Vanessa, em relação à sua mãe. Ela adora você e se souber de tudo a protegerá, fique certa disso. Ponho minha mão no fogo por ela.
— Está bem. Então, vamos fazer o que a senhora sugeriu, tia Amélia. Marque com minha mãe um encontro para hoje à tarde na sua casa e conversaremos. Só faço uma exigência.
— Qual é?
— Que Marina venha conosco. A presença dela é muito importante para mim, tia Amélia. Ela tem me ajudado bastante e sinto-me segura com ela ao meu lado, apesar de só a ter conhecido ontem e em circunstâncias tão difíceis.
Marina ficou emocionada. Não imaginou que Vanessa se tivesse ligado tanto a ela a ponto de sentir-se segura a seu lado. Abraçou a amiga e considerou:
— Agradeço suas palavras, Vanessa, mas não sou tão segura como você pensa. E também tenho um problema para resolver, lembra-se?
Amélia olhou a outra e, penalizada, mentalmente considerou que Marina teria apenas alguns anos a mais que sua sobrinha. Também era uma adolescente com o mesmo grande problema nas mãos.
No carro, a caminho de casa, Amélia delicadamente indagou:
— E você, Marina, como é sua história?
A jovem relatou por alto, falando apenas do namorado que tinha desaparecido ao saber da gravidez, e da família, à qual não tinha coragem de contar a verdade.
Amélia pensou um pouco, em seguida considerou com voz serena:
— Compreendo que vocês estejam apavoradas diante da situação. Na posição de vocês, eu igualmente estaria. No entanto, acredito também que, tanto Vanessa quanto você, Marina, estão subestimando o amor de seus pais. Pensem nisso.
Chegaram. A casa era simples e acolhedora, cheia de plantas e de árvores. Amélia explicou à Marina que morava sozinha desde que o marido faleceu. Não tiveram filhos, e a sobrinha, na verdade, era a filha que sempre sonhara ter.
O ambiente da casa foi um bálsamo para as moças. A decoração, a música suave que tocava invadindo todos os ambientes e um agradável odor de incenso que se espalhava no ar. Tudo transpirava serenidade e bem-estar.
Depois de instalar as jovens num quarto agradável e aconchegante, Amélia telefonou para a irmã; a voz, do outro lado da linha, soou desesperada pela ausência da filha.
— Neide, fique tranqüila. Vanessa está bem. Venha tomar um café comigo à tarde e conversaremos.
A mãe de Vanessa, mais aliviada, prometeu que iria.
Depois do almoço, simples, mas muito apetitoso, Amélia sugeriu fazerem um bolo para esperar Neide, a mãe de Vanessa. Alegremente, as três ficaram na cozinha preparando o lanche.
Quando Neide chegou, sentiu um cheiro agradável de bolo recém-assado. Era uma mulher de tez clara, cabelos e olhos castanhos, miúda, magra, de traços regulares bem parecidos com os de Vanessa, e gestos nervosos e mãos trêmulas.
Recebida com alegria pela dona da casa, a irmã nem tinha colocado os pés dentro da porta e já perguntava:
— Amélia! E então, tem notícias de minha filha? Sei que tem! Estou quase louca, sem saber o que fazer! Não me deixe nessa agonia. Nem dormi a noite passada preocupada com minha filhinha.
Abraçando a recém-chegada, que falava sem parar, Amélia tranqüilizou-a:
— Acalme-se, Neide. Vanessa está aqui comigo.
Ao ouvir falar no seu nome, Vanessa entrou na sala. Ao vê-la, Neide correu ao seu encontro.
— Vanessa, minha filha! Por que fez isso com sua mãe? Desaparecer sem deixar recado, sem uma palavra, nada!
A mocinha, tímida por natureza, estava trêmula diante da mãe e não conseguia abrir a boca. Amélia, notando o constrangimento da sobrinha, interferiu:
— Neide, sente-se. Temos muito o que conversar. Você ficará sabendo de tudo.
-Tudo? Tudo o quê? O que aconteceu? Falem de uma vez! Não estão vendo meu estado, como estou nervosa? E essa moça aí, quem é? — indagou com rispidez.
Amélia abraçou a irmã, conduzindo-a ao sofá como se fosse uma criança. Depois apresentou:
— Marina é uma amiga de Vanessa. Agora, acalme-se, Neide. Tenha paciência, já vamos conversar.
Em seguida, virando-se para a sobrinha, notou-lhe os olhos arregalados de medo e condoeu-se do seu estado.
— Vanessa, querida, melhor você aguardar lá dentro com Marina enquanto falo com sua mãe, está bem?
Vanessa concordou imediatamente, aliviada e agradecida. Não queria mesmo enfrentar a mãe. Preferia que a tia contasse tudo para ela.
Depois que as jovens saíram, Amélia começou a falar:
— Neide, existe muita coisa que está acontecendo debaixo do seu nariz e que você ignora.
— Pode falar. Estou ouvindo.
— Tem a ver com seu marido. Neide quase deu um pulo, assustada:
— João? O que o João tem a ver com isso? -Tudo. Vou lhe contar.
Procurando elevar o pensamento ao Alto para obter ajuda, Amélia começou a falar, medindo bem as palavras. Quando terminou, Neide estava lívida, trêmula da cabeça aos pés e em lágrimas.
— Não acredito! Como você soube de tudo isso? — murmurou.
— Vanessa me contou.
— Por que ela não disse nada a mim, a mim que sou sua mãe?
— Por motivos óbvios, Neide. Você acabou de dizer que não acredita! A verdade é que sua filha é uma criança ainda e está apavorada. Temos de procurar ajudá-la da melhor maneira possível. Especialmente você, que é mãe.
— Se isso é verdade, como foi acontecer debaixo do meu teto, sem que eu percebesse, minha irmã? Não é possível!
Amélia pensou um pouco e lentamente ponderou:
— A paixão que tem por seu marido deixou-a cega, Neide. Confiou demais nesse homem. Saía para trabalhar deixando sua filha desamparada nas mãos de alguém que não conhece realmente. E ele, criatura sem princípios morais, não teve dúvidas em abusar da sua confiança.
— Não pode ser! Isso só pode ser mentira! Quero falar com ela. Ouvir da sua boca a confirmação dessa história sórdida.
— Vou chamá-la. Mas, acalme-se. Veja bem o que lhe vai dizer. Lembre-se de que ela é a vítima — alertou a irmã.
Amélia saiu por alguns instantes, voltando com Vanessa e Marina.
Neide, descontrolada, olhou para a filha com expressão grave; depois para Marina, sem conter a irritação, e perguntou à irmã, com arrogância:
— Temos que falar de coisas tão íntimas diante de uma estranha? Vanessa, tomando as dores da amiga, retrucou incisiva:
— Essa estranha como a senhora diz, mamãe, foi a única pessoa que me amparou quando mais precisei. Ela fica.
— Tudo bem. Creio que hoje devo beber o cálice da amargura até o fim.
Fez uma pausa e, olhando a filha nos olhos, indagou:
— É verdade o que sua tia me contou, Vanessa?
— Sim, mamãe. A mais pura verdade.
— Por que nunca me disse nada?
— Mamãe, eu creio que está enganada... ou esquecida. Por várias vezes tentei abrir-lhe os olhos, mas a senhora não quis me ouvir.
— É verdade que está grávida e que ia fazer o aborto?
— Sim, é verdade.
— Onde arrumou o dinheiro? Essas coisas custam caro. Você roubou de minha bolsa, como fez tantas outras vezes?
Ao ouvir palavras tão duras, Vanessa teve que se controlar para não chorar. Embora tivesse os olhos úmidos, ergueu a cabeça, com altivez e dignidade, e respondeu:
— Engana-se novamente. Apesar de ser minha mãe, a senhora não me conhece, se me julga capaz de um ato como esse. Quem rouba da senhora não sou eu. É seu marido. Foi ele que me deu o dinheiro necessário para pagar o médico e fazer o aborto. Como foi ele também que me passou o endereço da clínica, uma vez que eu desconhecia completamente a existência desses lugares. A prova aqui está.
A mocinha tirou do bolso da calça jeans um papel onde havia um endereço, escrito pelo punho de João. Neide, vendo a caligrafia tão conhecida do marido, abaixou a cabeça, arrasada, chorando copiosamente.
Naquele momento, compreendeu a imensidão do seu erro, trazendo para dentro do próprio lar um homem desconhecido por quem tinha se apaixonado perdidamente. Com voz entrecortada, confessou em voz baixa:
— Reconheço que errei muito. Sabia que aquele miserável não me era fiel. Várias vezes eu tive a prova de que ele mantinha relacionamentos com mulheres do nosso bairro, vizinhas até, mas sempre lhe perdoei. Todavia, jamais o julguei capaz de abusar da minha própria filha, aquela que ele afirmava amar e considerar como sua filha também.
Nessa altura, todas tinham os olhos úmidos. Afinal, Neide levantou o olhar para Vanessa, implorando:
— Minha filha, você pode me perdoar?
A garota aproximou-se da mãe, ajoelhando-se a seu lado e abraçando-a com emoção.
— Perdôo, mamãe, perdôo. A senhora desconhecia meu sofrimento. Vamos começar uma nova vida. Só eu e a senhora. Promete?
— Prometo, minha querida. Mas, o que vou fazer agora? Você, minha filha, que criei com tanto amor, está esperando o filho de um celerado. Como suportar isso? Talvez seja melhor fazer o aborto mesmo — murmurou mais para si mesma.
Nesse momento, Amélia interferiu:
— Não, mana. Não podemos consertar um erro cometendo outro maior ainda. Quando um óvulo é fecundado, uma nova vida começa a surgir e um espírito vem habitar aquele corpo em formação. O aborto é crime perante as leis dos homens e perante as Leis Divinas. A criança não tem culpa pelo acontecido e merece nascer.
— E quanto ao João? O que vou fazer com esse miserável? Ele não aceitará sair de casa sem criar problemas.
— Seja firme, Neide. Coloque-o diante da enormidade do crime que ele praticou e expulse-o de seu lar, uma vez que a casa é sua. Se insistir em ficar ou criar dificuldades, ameace chamar a polícia. Creio que ele desaparecerá. Mesmo porque, penso até que João já é procurado pela polícia. A informação que ele tinha sobre essa clínica abortiva e o endereço pronto, à mão, indicam que já fez uso desse expediente. Talvez outros pais estejam atrás dele pelo mesmo motivo, ou outras mulheres por terem sido enganadas.
Neide balançou a cabeça, concordando:
— Amélia, como eu pude ser tão cega? Deixar minha filhinha à mercê daquele infame? Não me conformo!
Amélia ponderou com tranqüilidade:
— Minha irmã, agora é hora de reconstrução. Não pense mais no que passou. Sua filha precisa de atenções e cuidados que só você pode lhe dar. Vamos ajudar nossa querida Vanessa a superar essa etapa e, tenho certeza, o bebê será uma bênção em nossa vida.
— Tem razão, Amélia. Bem, agora vou para casa. Preciso acertar as contas com João o mais rápido possível. Vanessa ficará com você.
— Sim, minha irmã. Antes, porém, vamos fazer uma oração agradecendo a Jesus a ajuda que recebemos hoje, que permitiu esclarecer tudo da melhor maneira.
Fecharam os olhos e acompanharam mentalmente a prece singela, mas cheia de emoção, que Amélia proferiu, e da qual nós, da espiritualidade, participamos comovidos. Ao término, todas estavam sentindo grande bem-estar.
Depois, Vanessa lembrou:
— Mamãe, antes que vá embora, vamos tomar um chá com bolo que preparamos com muito carinho para recebê-la.
Tomaram lanche e o clima se desanuviou por completo. Mais tarde, Neide despediu-se da irmã, da filha, abraçando-a mais uma vez, e de Marina, agora em clima mais cordial, agradecendo tudo o que ela tinha feito por Vanessa até aquele momento.
Ao abraçar a irmã, Amélia sugeriu:
— Vá com calma e em paz, Neide. Prepare-se para conversar com João; eleve o pensamento em prece pedindo ajuda, e terá o equilíbrio necessário para enfrentar essa situação tão espinhosa. Tenho certeza de que tudo vai se resolver bem, com o amparo de Deus.
Depois que Neide saiu, elas trocaram um olhar satisfeito pelo resultado do encontro. Amélia, sorridente, considerou:
— Não disse que precisamos confiar mais nas pessoas? Graças a Deus, conseguimos dissolver as nuvens que se acumulavam sobre Vanessa, ao mesmo tempo resolvendo o problema da gravidez e da presença do famigerado João em sua vida.
Fez uma pausa, fitou com carinho a outra e afirmou:
— Agora, Marina, nós temos de pensar no seu caso.
Capítulo 15
Solucionando problemas
"O mérito consiste em suportar sem lamentação as conseqüências dos males que não se podem evitar, em continuar na luta, em não se desesperar se não for bem-sucedido (...)"
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 26)
Marina permaneceu hospedada na casa de Amélia, a pedido desta, junto com Vanessa. Assim, logo na manhã seguinte a adolescente foi até a pensão, ordenou o fechamento da conta, pagou e retirou sua bagagem. Depois, já instalada no quarto que passaria a dividir com Vanessa, as três mulheres puderam conversar e estudar qual a melhor atitude a ser tomada com respeito à nova hóspede.
Chegaram à conclusão de que o mais urgente era informar a família de Marina. Amélia prontificou-se a procurar os pais dela e explicar-lhes a situação. A adolescente aceitou a medida, com a condição de a família não saber seu novo endereço, e justificou:
— Tenho medo de meus irmãos. São rapazes de coração boníssimo e me querem muito bem, porém são impulsivos e violentos.
— Não se preocupe, Marina, direi apenas o suficiente — tranquilizou-a Amélia.
Ao entardecer, a dona da casa convidou as moças para orar. Fizeram uma prece pedindo o amparo divino para que sua tarefa fosse coroada de êxito. Antes de sair rumo ao endereço da casa de Marina, orientou as jovens para que mantivessem o pensamento elevado de forma que tudo desse certo.
Entrando no bairro humilde de periferia, sem grande dificuldade Amélia localizou o endereço que tinha em mãos pelas informações de Marina. Como todos os membros da família passavam o dia trabalhando, aquele era o melhor horário para encontrá-los em casa.
Antes de descer do carro, Amélia novamente pediu a Jesus que a orientasse, e envolveu igualmente os moradores da casa em vibrações positivas, de modo a ter as melhores condições para expor o problema sem criar obstáculos.
Percebeu luz acesa, sinal de que já haviam chegado. Bateu palmas e esperou. Não pôde deixar de notar que a casa era velha e pobre, com a pintura descascando; que a cerca necessitava de reparos; porém, apesar do aspecto de abandono da moradia, plantas viçosas alegravam e coloriam-na pela beleza das flores. Depois de alguns minutos, uma mulher de aspecto cansado e sofrido abriu a porta. Com um sorriso, Amélia cumprimentou-a:
— Boa noite! A senhora é dona Antônia?
— Isso mesmo.
— Gostaria de falar com a senhora. Meu nome é Amélia.
A mulher, que segurava a porta com o pé demonstrando certo receio, com ar de dúvida respondeu:
— Se for para vender alguma coisa dona, não tenho dinheiro. Amélia sorriu discretamente.
— Não se preocupe. Não estou vendendo nada. Gostaria de lhe falar sobre sua filha.
— Marina? O que tem ela? Olha, se andou aprontando...
— Não, fique tranqüila. Posso entrar?
A dona da casa finalmente abriu a porta, convidando:
— Entre, dona, entre. A casa é de pobre, não repare a bagunça. Acabei de chegar do serviço agorinha mesmo.
Amélia entrou. A sala limpa e arrumada, quase sem mobiliário, tinha apenas um sofá e duas cadeiras.
A recém-chegada respirou aliviada. Pelo jeito, os irmãos ainda não tinham voltado do serviço. Melhor assim.
— Antônia, posso chamá-la assim? Afinal, temos quase a mesma idade, não é? Vim aqui para lhe falar de Marina.
— A senhora conhece minha filha?
— Conheço e gosto muito dela. E uma boa moça, simpática, muito bonita...
— E estudada. Olha, dona Amélia, aqui em casa vivemos com dificuldade e ninguém pôde freqüentar a escola direito, mas com Marina foi diferente. Fazemos questão de que ela tenha o melhor. É muito inteligente e prendada. Por isso, todos nós trabalhamos para dar um futuro melhor a ela. A senhora vê, já é noite e os meninos ainda nem voltaram do serviço!
— O que eles fazem?
— Trabalham na roça, são bóias-frias.
— E serviço pesado! — exclamou Amélia.
— É verdade. Mas eles não se incomodam não. Querem trabalhar e fazem questão de ajudar a irmã, pagando a escola dela.
A mãe falava com tanto orgulho dos filhos que Amélia ficou comovida. Marina era muito amada por todos, não havia dúvida. Lembrando-se da moça, do seu porte, das suas maneiras delicadas, sua elegância, das roupas boas, entendeu que ela se beneficiava do amor da família. Mas como conseguia comprar roupas de marcas como aquelas? A família era muito pobre e os recursos, escassos. Era evidente que todos se sacrificavam por ela, para dar-lhe melhores condições de vida.
Imediatamente, Amélia sentiu um carinho enorme por aquelas pessoas que nem conhecia, mas que passou a admirar.
Estava um pouco emocionada e Antônia percebeu.
— Aconteceu alguma coisa com minha filha? Ela está viajando e, a senhora sabe como é, a gente se preocupa. Ela nunca tinha viajado antes sozinha.
— Não. Marina está bem, fique tranqüila.
Fez uma pausa e, percebendo a aflição da mãe, começou a falar:
— Marina é uma boa moça, Antônia. Ela é muito jovem, ainda adolescente, tem a cabecinha cheia de sonhos, e a vida muitas vezes prega peças na gente. Bem... a verdade é que sua filha está grávida.
— Grávida? Está de barriga? Como assim? — indagou a mãe, aflita.
— Marina estava namorando um rapaz que ela amava muito e que também dizia amá-la. Sem experiência da vida, inocente, Marina confiou nele, por amor. Depois, quando ele ficou sabendo da gravidez, a abandonou, foi embora.
Antônia estava em estado de choque, sem querer acreditar no que estava ouvindo. Cobriu o rosto com as mãos, incapaz de digerir a informação. Depois, com voz sumida, perguntou:
— Onde está Marina agora? Se a conheço bem, deve estar escondida por medo da reação da família.
— Marina está em lugar seguro no momento, posso lhe garantir, Antônia. Mas correu grave risco. Vou contar-lhe tudo.
Respirando fundo, com tato e delicadeza, Amélia relatou a história toda: o medo que a filha sentira de enfrentar a família, de confessar o seu erro aos pais e aos irmãos, a decisão de livrar-se do bebê, o episódio da clínica e como Marina ajudara sua sobrinha Vanessa, mais jovem e ainda mais inexperiente do que ela.
Atônita, a pobre mãe indagou, mostrando a confiança que depositava na filha:
-Tem certeza? Mas, quando foi isso? Porque minha filha— talvez a senhora não saiba -, este final de semana foi viajar com a família de uma amiga de escola!
Procurando as palavras certas para não machucar ainda mais aquele confiante coração de mãe, Amélia considerou:
— Marina incumbiu-me de pedir o seu perdão, Antônia. Mas não é verdade que ela esteja viajando. Lamento informá-la de que Marina inventou essa história da viagem para ter tempo de fazer o aborto e de se recuperar, de modo que ninguém ficasse sabendo.
Com a cabeça entre as mãos a mãe chorou amargamente, incapaz de acreditar na realidade.
— Pobre da minha menina. Onde está ela agora?
— Fique tranqüila. Marina está comigo, e está bem. Apenas não veio por medo, o que é perfeitamente compreensível.
Naquele momento, o pai saiu do banho e entrou na sala, ao mesmo tempo em que os dois rapazes chegavam. Vendo a mãe com os olhos vermelhos e uma estranha dentro de casa, ficaram assustados. Um deles, Jesiel, o mais velho, foi logo perguntando:
— Que houve, mãe? Quem é essa mulher?
Os rapazes eram bem como Marina tinha descrito: fortes, grandes e de temperamento impulsivo. Amélia teve vontade de rir, mas não o fez porque a situação não estava para brincadeira. Apresentou-se, estendendo a mão para cumprimentá-los:
— Meu nome é Amélia. Sou amiga de Marina.
Antônia contou ao marido e aos filhos o que estava acontecendo. Eles ficaram agitados, queriam brigar. Amélia deixou que colocassem para fora toda a dor, a indignação e a revolta que estavam sentindo. Aos poucos, eles foram se acalmando.
Os rapazes desejavam saber da boca de Amélia a história toda.
Mais uma vez, ela relatou os fatos, falando do sofrimento de Marina, que era apenas uma adolescente pura e ingênua, e que depois de confiar cegamente no rapaz, fora abandonada por ele. Contou-lhes como ela tinha ajudado sua sobrinha de apenas 13 anos, nas mesmas condições, e como ficaram amigas.
A ira dos rapazes foi aumentando à medida que as informações chegavam.
— Eu vou matar esse cara. Ninguém desgraça minha irmã e fica vivo para contar. Quem é ele? Onde está esse verme? — indagou Jesiel, que parecia ser o mais violento.
— Não sei nem o conheço. Deve estar longe — afirmou Amélia, serena.
Fez uma pausa, analisando a reação dos rapazes. Depois, ponderou:
— O importante agora, me parece, é ajudar Marina. Ela está precisando de ajuda, de amparo, e é isso que conta. É apenas uma menina assustada, confia em vocês e precisa do amor da família. O resto não interessa.
Amélia percebeu que suas palavras tinham surtido o efeito desejado, que tinha conseguido tocar o coração de todos. Concluiu:
— Posso assegurar-lhes que Marina está muito triste com essa situação, sente muita saudade de todos e da casa. Ela os ama imensamente.
Foi a gota d'água que faltava. Imediatamente, Jairo, o mais novo dos irmãos, perguntou comovido:
— Onde está ela? Queremos vê-la!
— O lugar de Marina é aqui com a gente. Nós vamos tomar conta dela. Podemos buscá-la? ~ indagou Jesiel.
Sorridente, Amélia sugeriu:
— Fico feliz que pensem assim. Podem buscá-la sem problema. Contudo, se vocês preferirem, posso trazê-la. Estou de carro e será um prazer acompanhá-la até seu lar e entregá-la a vocês, que tanto a amam.