Sociedades Secretas: Illuminati

Sérgio Pereira Couto · Capítulo 10 de 11

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Sociedades Secretas: Illuminati

Capítulo 10 Ao chegarmos ao fim de nossa jornada pelo mundo estranho e nebuloso dos Illuminati, percebemos que várias perguntas permanecem sem resposta. Com a massificação da Ordem pela de mídia, ninguém em seu juízo perfeito levaria as teorias de conspiração a sério. E para aqueles que apelam para

Capítulo 10

 

Ao chegarmos ao fim de nossa jornada pelo mundo estranho e nebuloso dos Illuminati, percebemos que várias perguntas permanecem sem resposta. Com a massificação da Ordem pela de mídia, ninguém em seu juízo perfeito levaria as teorias de conspiração a sério. E para aqueles que apelam para os fatos, como os historiadores, os “iluminados” foram suprimidos há anos.

Porém, os boatos insistem em falar sobre as atuais atividades dos Illuminati. E algumas dão detalhes escabrosos, como a suposição de eles terem influenciado por tanto tempo o governo de George W. Bush (ligado à Skull and Bones), para que continuasse a guerra contra os terroristas do 11 de Setembro (um modo de minimizar a influência de uma das três maiores religiões do mundo, a islâmica). É claro que o fato de que isso era mais uma guerra religiosa disfarçada de guerra política não escapou aos olhos mais atentos, mas poucos (ou ninguém) tomou conhecimento desse detalhe.

Hoje é fácil tomar qualquer exemplo de conflito político-religioso como uma atividade manipulada por obra e graça dos seguidores de Weishaupt. O problema maior é conseguir provar sem que tudo soe como uma enorme teoria da conspiração. Nesse sentido, os pesquisadores que ainda se arriscam nesse campo passam por maus bocados e muitas vezes, ao expor suas teorias, são desacreditados, desmoralizados e até ridicularizados.

Já vimos, nos capítulos anteriores, como a Ordem conseguiu se expandir e atravessar as fronteiras alemãs para se imiscuir na França e nos Estados Unidos. Porém é bom lembrar que, de certa maneira, seus ideais nunca abandonaram sua região ou seu país natal. Apenas adormeceram para depois voltarem com força total. Enquanto alguns historiadores afirmam que Adam Weishaupt se contentou em se isolar em Gotha, passar seus últimos dias como preceptor do herdeiro daquele condado e que chegou a fazer as pazes com seu antigo inimigo, a Igreja Católica, outros alegam que ele levava uma vida dupla: enquanto se esforçava para manter uma aparência inocente durante o dia, de noite continuava a cuidar de seus interesses escusos e a coordenar a Ordem. Para estes últimos, o líder Illuminatus estaria contente com os resultados da Revolução Francesa e, mais tarde, com a coroação de um de seus protegidos, ninguém menos que Napoleão Bonaparte, que, graças à sua ligação com os Illuminati, conseguiu a façanha de invadir o Vaticano em 1799 e roubar seus arquivos.

O fato é que, se analisarmos com cuidado, as monarquias absolutistas passaram por um período em que perderam poder e prestígio. O fato de cada vez mais haver movimentos dispostos a acabar ou minimizar essa forma de governo fez com que muitos acreditassem que havia, de fato, um poder oculto que manipulava os acontecimentos nesse sentido, para obter esses resultados.

O momento que os “iluminados” esperavam havia chegado. Enquanto aguardavam o que aconteceria com a França e sua breve restauração da monarquia, voltaram suas atenções para sua terra natal, a Alemanha. Atualmente, a maioria conhece o país unificado, mas a verdade é que ao longo de sua história aquela não foi sempre desse jeito. Mesmo muito antes dos conflitos mundiais em que se envolveu, o país teve sua extensão de território de tamanhos tão variados que mais parecia o esticar e o encolher de um acordeão. O que hoje conhecemos como República Federal da Alemanha teve um processo de reunificação impulsionado após a Queda do Muro de Berlim em 1989. O modelo atual político baseia-se, segundo Koch, em um modelo medieval de coexistência entre diversos reinos (incluindo a Baviera e Hesse) e cidades-Estado como Hamburgo ou Bremen.

Dessa maneira é fácil entender a necessidade alemã de ter um país unificado. Koch afirma:

“Esta breve reflexão nos ajuda a compreender a angústia essencial dos patriotas alemães que, sem necessidade de pertencer aos Illuminati, suspiraram ao longo dos séculos pela possibilidade de edificar uma nação unida e centralizada seguindo os modelos de países politicamente mais ‘maduros’ como a Espanha, a França ou o justamente chamado Reino Unido. E porque, uma vez recebido o conveniente impulso, assim como a orientação adequada do grupo de Weishaupt, começou a se desenvolver com vigor, como aconteceu na Itália, o conceito e a necessidade da unificação”.

Uma pista que pode levar a uma possível participação Illuminati no pensamento alemão é uma carta assinada por alguns “maçons admiradores” e enviada pouco depois da dissolução oficial da Ordem para um professor da Universidade de Leipzig chamado Charles Frederick Bahrdt, um membro pouco conhecido dos Illuminati. Nela havia papeis que registravam planos para o desenvolvimento de um grupo que apoiasse uma união futura entre nobres e políticos para a constituição de um Estado alemão. Segundo Koch, Bahrdt havia feito propaganda religiosa para Weishaupt e sabia com detalhes os planos para promover a integração dos povos europeus. Assim, ele se pôs a colocar esses planos em prática e recrutou muitos dos membros que restaram dos Iluminados da Baviera, todos que conseguiram escapar da perseguição. Ativou contatos com a maçonaria inglesa e surgiu um grupo chamado União Alemã, que apareceu originalmente como um clube de leitura e discussão.

Não demorou muito para que a expansão desse novo clube começasse. Outras cidades abriram filiais, como a de Landshut, capital da região de Niederbayern, na Baviera. O curioso nesse caso é que tal filial ficava na casa de um antigo lugar-tenente de Weishaupt, chamado Von Zwack. Tais filiais funcionavam como associações que ofereciam ao novato acesso limitado, além de funcionar como livraria de subscritor, ou seja, de profissionais que vendem seus serviços em determinados setores sob contratação. Essas livrarias distribuíam um tipo de literatura que, se muitos não consideram Illuminati, outros concordam que chegava perto de o ser.

Nesse ambiente, Bahrdt escreveu e publicou um panfleto que tinha o singelo título de “A Todos os Amigos da Razão, da Verdade e da Virtude”. Nele estava claro que um dos propósitos desse grupo era “iluminar os cidadãos a fim de promover uma religião sem preconceitos populares e na qual a superstição seja arrancada pela raiz, restaurando assim a liberdade da humanidade”.

Tal escrito cresceu em popularidade a tal ponto que o rei da Prússia, Frederick Wilhelm, ordenou, em 1788, que seu ministro Johan Christian von Wollner escrevesse um panfleto que iria contra o que Bahrdt pregava. O texto ganhou o nome de “Édito da Religião” e, mal chegou às mãos do líder da União Alemã, recebeu uma resposta em tons satíricos que recebeu o mesmo nome.

Porém, o velho ditado de que a verdade sempre vem à tona não podia ser mais verdadeiro. E depois, para todos os que sabiam sobre os Illuminati, estava mais do que claro que a tal União Alemã era um novo nome para um velho mal. Assim, em 1789, um livreiro chamado Goschen publicou um panfleto (uma arte que hoje não é mais aplicada a não ser em publicidade), em que revelou ao mundo que a União nada mais era do que uma mera continuação dos Illuminati da Baviera. E os seguidores de Bahrdt nem mesmo tiveram tempo para retrucar as acusações, já que pouco tempo depois explodiu a Revolução Francesa e os dirigentes políticos de todo o continente europeu resolveram, mais uma vez, reprimir todas as sociedades secretas existentes.

Os registros históricos apontam que Bahrdt não demorou para deixar o grupo e abrir uma taberna. À primeira vista parece apenas um gesto de alguém que cansou de lidar com as sociedades secretas, mas os “conspirólogos” logo lembraram que tais estabelecimentos eram lugares habituais de maçons. Ele morreu oficialmente em 1793, e a União Alemã se extinguiu pouco tempo depois. Qual teria sido o verdadeiro propósito dele ao abrir e administrar tal grupo continua sendo um mistério, mas apenas seus laços com o grupo original de Illuminati já era o suficiente para deixar muita gente de cabelos em pé.

 

Aleister Crowley

Muita coisa já foi escrita (entre estudos, considerações, asneiras e piadas) sobre o mago considerado o pior homem do mundo e a encarnação da besta do Apocalipse. Mas há quem acredite na ligação entre Crowley e os Illuminati e que, por algum tempo, os dois teriam compartilhado dos mesmos objetivos.

Vejamos o que as fontes consultadas para este livro podem nos dizer sobre isso. Comecemos por nos situar no tempo e no espaço. Estamos na Europa entre os séculos XIX e XX. Naquele cenário era extremamente comum o surgimento das mais diversas seitas, pequenos grupos esotéricos e de estudos ocultos, cujos membros pertenciam aos mais diferentes segmentos da sociedade, alguns deles inclusive provenientes da Igreja Católica, embora ninguém saiba dizer com segurança se estavam lá por vontade própria ou se espionavam as atividades para relatar a seus superiores. O fato é que o que atraía as pessoas, eram os ideais revolucionários e políticos que ofereciam. Muitos deles, inclusive, se organizavam de acordo com o modelo maçônico herdado de séculos anteriores, ao passo que outros buscavam um esoterismo libertário com influência orientalista ou teosófica. Tudo pela perspectiva de explorar o além “de uma forma científica”, como prega até hoje a doutrina espírita.

Não havia praticamente quem não se interessasse pelo ocultismo. Assim, quando uma nova ordem chamada OTO (Ordo Templi Orientis ou Ordem do Templo do Oriente) surgiu, se apresentou como a herdeira dos Illuminati da Baviera. A alegação não é tão absurda quanto alguém poderia pensar, já que a loja maçônica onde Weishaupt havia atuado mudara seu nome para Estrita Observância Templária.

Seguindo um costume illuminatus, o fundador oficial da OTO, o químico austríaco Karl Kellner, adotou um nome simbólico latino, Frater Renatus. Sua influência, entretanto, é pequena perto da de seu sucessor, que assumiu a liderança depois da morte de Kellner, em 1905. Theodor Reuss, jornalista e ocultista anglo-germânico, assumiu o nome de Frater Peregrinus e foi sob sua direção que a constituição da Ordem foi redigida.

E o que era a OTO? Ela surgiu a partir dos Ritos de Menfis-Misraim, estabelecidos pelo maçom e oculista britânico John Yarker, que mantinha contatos constantes com a Sociedade Rosa-Cruz da Inglaterra. Esse era um dos muitos grupos que alegavam ser herdeiros da verdadeira herança Rosa-Cruz, mas que, segundo muitos pesquisadores, nada tinha a ver com os verdadeiros membros dessa antiga sociedade.

Reuss havia sido encarregado de instaurar o Ritual em 1902, a pedido do Soberano Santuário de Menfis-Misraim. Após a morte de Yarker, em 1913, assumiu o cargo de líder do Rito. A história oficial da OTO afirma, segundo artigo de sua revista Oriflamma:

“(A Ordem possuía) a chave que abre todos os segredos, tanto maçônicos como herméticos; isto é, o ensino da magia sexual, que torna compreensíveis todos os segredos da natureza, todo o simbolismo da franco-maçonaria e de todos os sistemas religiosos”.

O tantrismo ou magia sexual vem principalmente de três fontes orientais. A saber: o faquir árabe Solimán ben Haifa e os iogues hindus Bhima Sem Pratap e Sri Mahatma Aganya Guru Paramahamsa. Uma busca pela internet revelou que tais figuras podem ser míticas, já que não há nenhum registro de terem existido ou de haver uma biografia dessas pessoas.

A OTO recebeu Aleister Crowley em seu meio em 1910. O nome que ele adotou então foi Frater Bafomet, referência ao suposto ídolo que os Templários foram acusados de adorar por Felipe IV. Ele havia sido iniciado primeiro na Ordem da Aurora Dourada (Golden Dawn) e estudara Cabala, magia e ioga enquanto viajava pela Europa e pelo Oriente. Foi nessa época que começou a esboçar seu próprio sistema filosófico, o hoje famoso “Faça o Que Quiser”. Fontes diversas confirmam que ele baseava seus pensamentos e filosofia em informações ditadas por “entidades superiores”, como Aiwass, um espírito que teria aparecido inicialmente para ele no Cairo, Egito. Sua obra mais famosa é O livro da lei, em que se pode ler trechos um tanto estranhos, como:

“Graças à minha cabeça de falcão, pico os olhos de Jesus enquanto ele pende da cruz. Bato minhas asas diante do rosto de Maomé e o deixo cego. Com minhas garras arranco a carne do hindu, do budista, do mongol e de todo aquele que recita orações”.

Apenas dois anos após seu ingresso na OTO, Crowley assumiu a chefia do ramo inglês. Queria mudar o nome de OTO para Mysteria Mystica Máxima (ou Máximos Mistérios Místicos). Como ele conseguiu tal façanha ainda é objeto de discussões acaloradas. Ele já havia publicado vários livros quando, em 1912, recebeu a visita de Reuss, que o acusou de ter revelado o segredo mais exclusivo da Ordem, referente ao grau nove. Após uma longa discussão, os dois terminaram por reconhecer que havia algo a mais nessa história, já que Crowley não pertencia ao citado grau e, por isso, não poderia saber sobre o tal segredo. Reuss teria ficado muito impressionado com Crowley, pois, quando foi embora, prometeu torná-lo Rei Supremo. E cumpriu sua promessa. Kovh comenta a respeito:

“Aleister Crowley foi chefe da Ordem a partir de 1921, quando o ciclo se fechava: o ritual havia ido da Inglaterra para a Alemanha e agora voltava para a Inglaterra, havendo reativado em terras germânicas os planos Illuminati. O ramo alemão ficou então nas mãos de Karl Germer, o Frater Saturnus, que se estabeleceu em Munique para dali impulsionar a Pansofia (Sabedoria Total) e se dedicou a editar os livros do britânico, assim como a expandir suas ideias”.

Hoje a OTO continua na ativa, porém dividida em duas: o ramo norte-americano e o ramo espanhol. Este último foi fundado por Gabriel Lopes de Rojas, chamado de Frater Prometeo, que afirma ter obtido o 33º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito na loja Albert Pike. Esta loja, segundo definição própria, é voltada para “membros da Ordem Illuminati e maçons catalães”. Rojas disse em textos recentes que, em 2000, recebeu “ordens dos membros superiores da Ordem Illuminati para reestruturar a única OTO herdeira de Aleister Crowley por sua condição de grão-mestre dos Illuminati”. Em fevereiro do ano seguinte ele teria recontatado os Illuminati norte-americanos e então refundado a OTO em Barcelona.

Essa é a história tal como contada. É fácil encontrar sites na internet ligados a grupos Illuminati que fazem referências à OTO como uma encarnação dos “iluminados”. O certo é que hoje cerca de 25 países abrigam filiais Illuminati. Um texto oficial diz que a Ordem transmite a centenas de interessados “uma iniciação que elimina ‘cadeias’ escravistas, que permite descobrir a verdadeira grandeza interior e que entrega as ferramentas necessárias para que o próprio iniciado possa se transformar e transformar o meio ambiente”.

Esse sistema de iniciação se chama Rojismo, referência a Gabriel Rojas, e está dividido em duas ordens: a Illuminati e a OTO. Utiliza dois ritos: os chamados Rito Operativo dos Iluminados de Baviera da Ordem Illuminati e o Rito Operativo de Memphis-Misraïm das Sociedades OTO.

Tudo gira em torno da publicidade que os modernos Illuminati fazem de seu papel na sociedade moderna. Seu slogan é Homo est deus (O homem é Deus) e proclama que “os Illuminati foram, com o tempo, vítimas de falsas acusações e alarmismo social, com o propósito de serem exterminados”. Apenas o tempo poderá dizer se isso é real ou não. Talvez a própria Ordem não passe de uma alucinação do inconsciente coletivo…

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