Surpreza

Miguel J. T. Mascarenhas · Capítulo 2 de 12

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Surpreza

Scena I

SURPREZA

 

* * * * *

ENTRE-ACTO

Uma saleta pobre, com um fogareiro de barro, mesa e ferro de

engommar, um cesto de costura que deve conter uma caixinha, etc.

SCENA I

 

LAURA E ARTHUR

 

(Laura, canta e engomma, e Arthur trata do fogão)

Laura (cantando):

Ai! mundo!! mundo!… como és tyranno!

És deshumano p'ra mulher cahida…

Ai! misera orphã sem um tecto amigo,

Sem um abrigo que te dê guarida!…

Morrêr tão nova?!… acho cêdo ainda…

Mulher, e linda… que horror! perdida!…

Quando a purêsa no gosar fenece…

Ai! desfalece todo o amor á vida!…

(Vendo que Arthur desmancha qualquer coisa no fogão):

Es um desastrado, Arthur; pois já tens idade para algum juiso… Estás a fazer onze annos… (Vae compor o fogão, e Arthur espreitar

á porta).

Arthur (voltando, com receio e meiguice):

Desculpa, Laurinha, minha querida irmã, desculpa, que me

pareceu ouvir a voz do snr. tenente, e tu bem sabes quanto eu gósto d'elle…

Laura (enleiada):

A voz do snr. Alfredo!… Ainda não são as horas do costume…

(dirige-se á mesa, em quanto Arthur faz qualquer traquinice pela casa, e fica um pouco pensativa): Arthur tem razão… A pobre

criança parece que adivinha os favores que devemos ao snr. tenente… se não fôra aquella boa alma, teriamos, eu e meu irmão,

succumbido… (trabalhando, e fallando, etc.) Não sei bem, se é só gratidão o que eu sinto… Os poucos dias que deixo de vêl-o, é

como se me faltasse o ar que respiro!… se Elle é tão bom, tão caritativo!… E nunca lhe ouvi uma palavra atrevida, nunca lhe vi um

gesto menos respeitôso!… Elle… que podia abusar… que… (pousando o ferro): Meu Deus! E se elle fosse meu pae?!… Quem

sabe?… Achei-me tão nova desamparada no mundo, e com este meu irmãosinho nos braços…

Arthur (vindo ao pé da irmã):

Ó Laura, tu que estás ahi a resmungar?… Não estejas triste,

não?…

Se estás assim por minha causa, eu prometto de nunca mais fazer

tolices…

Deixas-me tu ir para a porta da rua esperar o snr. tenente, deixas?…

Laura (ameigando-o):

Pois vae, vae, mas não te ajuntes com os garotos, ouviste?

Arthur (indo aos saltos):

Não junto… só hei de vêr como elles jogam o peão…