Surpreza

Miguel J. T. Mascarenhas · Capítulo 7 de 12

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Surpreza

Scena Vii

 

JOÃO (só)

 

João

(Como accordando, etc.) Que sonho tão mau!… Só tive um igual quando fui mortalmente ferido, para salvar a vida ao meu tenente…

Mas onde estou eu?!… Ah!… sim, estou em casa da engommadeira, que se chama Laura, que era tambem o nome de

minha filha… E a historia d'estas crianças?!… E a carta?!… (Procura a carta, e pega na que é do tenente): Eil-a aqui!… Não é,

pois, sonho, meu Deos?!… É certo que tenho dous filhos?!… Laura, minha querida filha!… (pausa): Sahiu… foi, talvez, chamar algum

medico… É preciso tranquillisar-me, para o receber como um homem que é soldado… Estas fraquezas excessivas, não ficam

bem a um militar, praticadas diante de um estranho… Vou lêr a carta que escrevi á minha pobre Antonia, quando pensava que ainda a

abraçaria muitas vezes… (abre a carta, principia a lêr, e fica como fulminado): «Menina Laura!!…» Que é isto?!!… Estarei eu louco?!!…

(acaba de lêr para elle: gargalhada terrivel): Ah!… ah!… ah!… ah… Então, não queria eu achar uma filha virtuósa, depois de dôze annos de desamparo?!… Impossivel!… (pausa): Em vez da ventura

domestica para o resto dos meus dias, deparo com a deshonra ao cabo de trinta annos de serviço!… Bravo militar!… enche-te de

orgulho com as tuas feridas!… a paga d'ellas, foi deixarem-te morrêr a mulher á fome!… e a condecoração, é a deshonra da filha!!…

(mudança de tom): Mas ha aqui um seductor, que ha de pagar com a vida a minha vergonha… Eu o juro, á face de Deus!… Occulto

n'aquelle quarto, poderei surprehendêl-os, e vingar-me… Depois… um tiro na cabeça, e era uma vez o 38!… (entra precipitadamente

no quarto).