Surpreza
Scena Viii
LAURA E ARTHUR
Laura
Não tive coragem de ir a casa do snr. tenente: encontrei uma conhecida, por quem lhe mandei recado… (reparando): Mas onde
está o meu doente?!…
SCENA IX
OS MESMOS, E ALFREDO
Alfredo (amavel):
Mais depressa ninguem obedesse ás ordens da sua dama… (aperta a mão a Laura): Como está o meu anjo de resignação, a
linda escravasinha do trabalho?… (Logo que o tenente entra, Arthur fica polando de contente, pega-lhe na mão que elle tem livre, etc.
Alfredo chega uma cadeira a Laura, e assenta-se tambem ao seu lado, collocando Arthur sobre os joelhos, que fica constantemente
mechendo ora nas dragonas, ora nas mãos e no bigode do official).
Laura
(Pega na costura mas não trabalha): Estou muito triste, snr. tenente… Ia para casa de v. s.^a participar-lhe que um pobre velho,
camarada de um senhor official, adoecêra n'esta casa, vindo trazer-me umas camisas para engommar. Deixei-o aqui parecendo morto,
e, já no caminho, encontrei a pessoa por quem lhe mandei pedir que viesse, e voltei a casa com muito cuidado no infeliz camarada.
Chego, pouco antes de v. s.^a, e não encontro o homem!…
Alfredo
Não se espante a Laurasinha com o acontecimento, que é o mais
natural possivel. O homem tem fibras de soldado velho: accordou, viu-se bom, e só, e foi tratar da sua vida, ou da vida do official de
quem é camarada… Deixêmos essas tristezas, que já passaram, e diga-me a minha querida protegida se ha por aqui abundancia de
trabalho, e o dinheiro preciso para as suas pequeninas necessidades…
Laura
Não me falta cousa alguma, graças á sua valedôra protecção, sr.
tenente…
Arthur
(Pondo a mão na cara do official): Deixe fallar minha irmã, sr. tenente, que não diz a verdade… (com ingenuidade infantil): Ha tres
dias, que só comêmos caldinho…
Laura
Que estás tu a dizer, meu traquinas?…
Alfredo
Fizeste bem em fallar, Arthur… A innocencia não sabe guardar as conveniencias… Então, a má da sr.^a Laura, esqueceu-se de mim,
não é verdade?!…
Laura (enleiada):
Eu… não queria ser mais pesada, a quem já devo tanto…
Alfredo (pondo o pequeno no chão):
Vae, Arthur, vae para a porta da rua, para os teus encantos, que
eu preciso de ralhar muito a tua irmã, e não quero que tu oiças… (reparando nas luvas, que o pequeno lhe sujou): E já que me
pozeste as luvas n'este bonito estado, pega n'ellas, e faze dous saquinhos, anda… (Arthur dá um beijo no tenente, recebe outro, e
sahe muito contente.)