Tempestade no Paraíso

Heather Graham · Capítulo 4 de 4 · parte 2/3

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Tempestade no Paraíso

Espantada, a secretária deduziu que o problema…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Nunca me diverti, Blair. Só estava...

— Seguindo ordens! — ela gritou, sem se preocupar em ser ouvida por algum convidado de passagem pelo terraço. Seu estado era comparável ao da manivela quebrada do La Princesa, incapaz de parar até que a corda se distendesse até o fim. — Nunca lhe ocorreu que suas ordens poderiam estar erradas? Não, você ficava tão hipnotizado lendo as malditas instruções que perdeu toda capacidade de julgamento, toda opinião própria, toda vontade de agir...

Contido até então, Taylor comportou-se como uma bomba-relógio que finalmente explodisse.

— Sim, você tem razão! — O calor da ira pareceu chamuscar-lhe a face. — Tem razão, sra. Teile. Trabalho para o governo, sim, e meus superiores cometem erros, sim. Às vezes discordo das instruções. O sistema é imperfeito, e sei disso porque vivo há muito tempo dentro dele. Mas aprendi que, embora imperfeito, é o que temos para fazer frente a problemas de peso. Um detalhe: não escondo minhas opiniões e incentivo meus eventuais subordinados a expô-las também. Seu pai e George Merrill estão onde estão porque igualmente aprenderam, e pelo caminho mais árduo. Admita, princesa, que desta vez eles acertaram em cheio. Ninguém se feriu e ninguém pode ser acusado de haver criado um fiasco político internacional.

Calada por um momento, Blair reconheceu que ele estava sendo racional, razoável e inteiramente correto. Só não conseguia exprimir tal conclusão. Taylor a havia chamado novamente de princesa, em tom de gracejo, e por certo não acreditava que ela ainda o amasse, enquanto não desse uma pista concreta da profundidade, ou mesmo da realidade, de seus sentimentos.

Estavam tão próximos um do outro que Blair nada mais quis do que esquecer a desilusão do passado e o medo do futuro, nos lábios dele. "Não", desistiu em tempo, "por favor, não se entregue a ele de novo!"

— Taylor — ela aduziu então —, o que você fez por mim foi desnecessário. Fez-me pensar que eu estava nas mãos de um terrorista e depois... — Fez uma pausa, incapaz de relembrar Taylor de que ele a estreitara de bom grado nos braços e que ela se mostrara tão apaixonada que se entregara inteira e sem reservas ao seu raptor. — Não tem importância. Apenas me deixe em paz e cuide de seu próximo compromisso. Não desejo estar por perto quando você disser "sim" mais uma vez aos seus chefes.

Valendo-se da proximidade estabelecida, Taylor seguiu com um minucioso exame daquele rosto de mulher. Deus do céu! Como amava aqueles traços delicados e ao mesmo tempo fortes! Como adorava os lábios cheios que pareciam pedir para ser beijados!

De repente, o brilho de raiva abandonou seus olhos.

— Você ainda está apaixonada por mim — ele disse, como que em um pensamento positivo.

Se Blair não o conhecesse bem, julgaria que o tom cínico da frase tinha sido tocado pela admiração.

— Não estou!

— Então esteve, você mesma me contou.

— Foi um entusiasmo passageiro — ela explicou, enquanto sentia o coração bater

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furiosamente e suplicava que sua negativa bastasse para desviar de si os incríveis olhos dele. — Eu me apaixono com facilidade, Taylor, e sei que, muitas vezes, é apenas atração sexual. — A frieza da afirmativa foi seguida de um sorriso amargo. — Mas tenho certeza de que, para você, fui apenas mais uma entre muitas.

— Mesmo? — Sem o menor traço de ira, o diplomata agora se achava fascinado pela conversa com Blair. Acomodou-se no banco e sorriu com secreta satisfação. — Continue, sra. Teile. Nunca antes fui analisado por uma psicóloga.

Enervada tanto pelo pedido quanto pela reviravolta da situação, Blair teve a certeza de que Taylor zombava dela. Pestanejou fortemente, à procura de uma resposta à altura.

— Você não precisa de uma psicóloga para lhe dizer que seu comportamento foi propositadamente traiçoeiro.

— Sim, madame. — O fogo nos olhos dourados desmente o tom humilde.

Segundo Blair, ele gracejava de novo, o que a deixou furiosa.

— Você é um mentiroso, por isso nem quero saber para qual governo trabalha.

— Sim, madame — Taylor repetiu, como que menosprezando o desafio.

Ele sorriu à vontade, em uma diabólica e aliciante máscara de bom humor. Agora estava seguro, seguro por si e por ambos, seguro pelo resto da vida. Mas ainda não podia apresentar uma oferta, uma promessa. Precisava partir. Viajaria no dia seguinte a fim de assumir uma nova missão.

Tudo que lhe restava fazer naquela noite era rezar e conversar com ela. Pela primeira vez, temeu não voltar vivo. Ele desejava Blair de tal maneira que seu organismo reagia de forma estranha, com um calor generalizado seguido de calafrios. Queria viver a vida toda com sua princesa, a mulher que o enfrentava, ultrajada por seu comportamento. Especialmente naquela noite, Blair era uma verdadeira princesa, dona de uma regia beleza embalada em veludo verde. Os seios subiam e desciam, arfantes de agitação. As feições, porém, eram leves e adoráveis como cristal.

Contudo, ao contrário do cristal, impunham uma solidez forte e vibrante, cimentada pelo poder de uma mente admirável, que Taylor aprendera a respeitar.

"Esqueça o dia de amanhã... Conquiste Blair hoje... Não a faça esperar... Arrebate-a esta noite."

— Para ficar claro, Taylor, não o amo e não me importo a mínima para o que quer que faça. Pode colocar isso dentro de sua cabeça dura? — Ela ignorava que, para sua própria felicidade, a teimosia dele era maior do que pensava.

— Oh, sim, madame — ele replicou com aparente aceitação. Concluiu, de maneira acertada, que antes de tudo tinha de abrandar a raiva de Blair. — Você está certa, querida.

— Não me chame de querida — ela protestou. — E não vou mais permitir que você se divirta à minha custa. Eu...

— Então, não me dê motivos para rir — Taylor retrucou, com a voz em crescente tensão, enquanto um sorriso não zombeteiro surgia em seu rosto.

— Como assim? — murmurou Blair, tomada por nova confusão.

— Não me divirta — ele repetiu suavemente, movendo-se outra vez na direção dela. — Seduza-me — instruiu. — Excite-me, atormente-me, e então me beije...

Sua voz ganhou um tom aveludado que encantou os ouvidos de Blair, ao mesmo tempo em que a respiração dele acariciava sua face.

Seria previsível se não fosse tocante. Os olhos de Taylor captaram os de Blair com um poder magnético, como se ela fosse drenada por dois instigantes sóis dourados, puxada pela

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força da gravidade, incapaz de olhar para qualquer outro lugar. Sentiu-se paralisada quando os lábios de Taylor aproximaram-se dos dela, cada vez mais, mas sem ainda tocá-los. O corpo de Blair estava frio, congelado em uma imobilidade que sugeria entrega.

Finalmente deu-se o contato, e o frio se dispersou, substituído nas veias dela por fogo líquido. O beijo de Taylor foi marcado por um toque de leveza, por um lento desfrute da boca feminina, enquanto sua língua traçava os contornos dos lábios, saboreando o néctar quente e úmido ali guardado. Era como um perito em vinhos descobrindo o mais fino buquê.

Assombrada e perplexa, Blair ficou simplesmente espantada demais para protestar ou fugir. Viu-se rendida com tanta facilidade quanto um animal na estrada, à noite, hipnotizado pelos faróis de um carro. Por isso não teve chance de efetuar uma escolha, de levantar objeções que faziam total sentido, de negar-se a uma carícia que, como podia adivinhar, mais tarde lhe traria muita dor e auto-reprovação.

O calor de Taylor a mantinha cativa da vontade dele, assim como o arrepio gelado a havia dominado pouco antes. O toque dos lábios levou-a ao plano em que não existia tempo nem espaço, e do qual o próprio pensamento consciente estava excluído. Era o mundo deles, aquele em que Blair podia se soltar nos braços do amado, vivendo doces sensações sem qualquer censura. Um mundo no qual nada podia ser errado, porque era certo se entregar a Taylor. A única conduta possível era estar com ele, fiar-se na confortável e selvagem erótica segurança que ele proporcionava com sua possessiva presença.

Os lábios pressionaram com mais força, movendo-se devagar, com sensualidade. As mãos de Taylor prenderam o rosto de Blair, apenas com o vigor necessário para ajustá-lo a seu langoroso ataque. Ela se arrepiou quando a língua dele deslizou ao longo de seus dentes, e então a boca se abriu ainda mais, molhada e quente, transmitindo uma muda rendição e um inequívoco convite.

Atormentada pelo desejo, Blair enlaçou-o com clara urgência e necessidade. Seu corpo arqueou-se com estranho despudor, enquanto o beijo se tornava mais profundo e excitante. Ela realmente estava fora do tempo e do espaço, ouvindo apenas o farfalhar do veludo, sentindo nada mais do que a robusta firmeza dos músculos masculinos sob seu toque, inalando no ar da noite somente a essência do odor próprio de Taylor.

— Devem estar no terraço.

A voz agradável de seu pai trouxe Blair de volta à realidade presente, ao tempo e espaço comum aos demais mortais. Também a trouxe de volta à humilhação de ter feito o que fizera, novamente seduzida por Taylor, contra todo o bom senso.

Afastou-se dele depois de tirar as mãos dos ombros fortes.

— Idiota! — imprecou, ciente de que o pai e George Merrill estavam prestes a entrar no terraço. Baixou a voz para um sussurro veemente. — Não faça isso outra vez! Já disse que não quero mais nada com você! Vá se matar em alguma guerrilha e me deixe em paz!

Blair tremia, sentindo-se aos pedaços. Na gama de emoções que fervilhavam dentro dela, uma das maiores era a dor de nunca poder realizar seu sonho de amor. Depois de vencer a batalha imediata por compostura, ela saudou Huntington.

— Olá, papai. — Acenou para que ele a visse no canto escuro, com Taylor, e sacudiu o corpo a fim de livrar-se da mão dele em seu braço. — Viemos respirar um pouco de ar fresco, você sabe, mas já está ficando frio aqui fora.

— Bom. — Merrill riu maliciosamente quando o amigo estreitou os olhos para ver a filha. — Já vão acender a vela de meu bolo. Queria vocês dois por perto.

— Fantástico! — Blair empolgou-se, exibindo um sorriso falsamente feliz. — Vamos lá.

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— Sim, vamos — completou Taylor sardonicamente, atrás de Blair. Conseguiu segurar-lhe o braço e detê-la antes que o grupo passasse para dentro do salão.

— Ainda não terminei com você — ele sussurrou rapidamente no ouvido dela, provocando mais uma onda de calafrios.

Não obstante, Blair marchou decidida para dentro do salão, sob as asas protetoras de Merrill e de seu pai. A mágoa sobrepujou a raiva e lhe indicou um caminho em relação a Taylor. "Nós já terminamos porque não pretendo correr para os seus braços novamente."

Era uma decisão racional e firme. Ela se sentiu como se estivesse perdendo uma parte do próprio corpo, mas manteve-se decidida.

Duas velas em forma de números marcaram os sessenta e dois anos de Merrill, no lugar de outras tantas velinhas que seriam difíceis de apagar. No momento que o aniversariante as soprou, Blair sentiu Taylor atrás dela. Ele agarrou-lhe o braço com uma naturalidade de quem se intitulava seu proprietário, mas nada falou. Dirigiu-se a Huntington.

— Senhor, o chefe quer encontrá-lo em particular, depois que a festa acabar. — O tom de voz baixou, mas permaneceu casual. — O presidente acaba de chegar, senhor, e com isso as coisas vão ficar complicadas por aqui. Posso confirmar a reunião para a sua casa?

— Claro, tudo bem. — Andrew Huntington concordou antes que Blair pudesse alertá-lo de que Taylor só procurava um pretexto para prolongar o contato com ela. Não faria melhor se atirasse a filha diretamente na jaula dos leões. Então, Blair compreendeu. O pai a jogava pelo menos àquele felino em particular, chamado Craig Taylor. Acreditava que a filha havia se apaixonado pelo agente, e praticaria uma boa ação, como pai amoroso, aproximando os dois da melhor maneira que pudesse.

— Papai... — Blair conteve-se para não armar uma cena. — Vim com você, mas não me importo de circular um pouco pelo salão, sozinha.

— Obrigado, querida, mas é tolice. Vocês dois vão em frente, e assim não precisarei procurá-la na hora de sair. — Contra seus hábitos, Huntington piscou, o que só acentuou as rugas em torno do olho.

— Papai... — ela repetiu, vendo-o afastar-se.

Ele não compreendia o que estava havendo. Julgava que a filha vivia corroída pela raiva, e acreditava que o fato de ela conversar com Taylor amenizaria o problema.

A dificuldade de Blair consistia em manter sua raiva quando tal emoção recaía sobre alguém que ela amava. O amor envolvia muitas coisas, entre elas o perdão. E ela já estava quase perdoando Taylor. Com uma pequena dose de bom humor, poderia admitir que o agente tinha sido esperto em suas manipulações e que não era culpado pelas histórias que lhe contara.

No entanto, assim como não se permitia rir da situação, ela não conseguia amar Taylor sem restrições. Seu pai simplesmente não entendia o impasse em que se debatia.

— Mesmo se ele se sentisse obrigado a acompanhá-la, Blair, eu não a deixaria esconder-se atrás de seu pai.

Despertada de seus devaneios, ela tentou libertar o braço da pressão permanente. Tudo indicava que ele não a deixaria sozinha nem por um minuto. Era desesperador!

— Taylor... — falou com a maior seriedade possível. — Posso chamar um táxi quando resolver ir embora. Você não precisa me levar para casa.

— Ótimo, porque não a estou levando para casa.

O braço continuou preso enquanto Taylor a impelia através das várias portas do salão. Poderia ter tomado alguma providência, mas as opções eram limitadas para quem detestava chamar a atenção dos outros fazendo uma cena. E ainda havia a probabilidade de não ganhar nada com isso. Assim, Blair nada disse, nada tentou.

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Com os lábios apertados, aceitou a ajuda de Taylor para entrar em seu Porsche prateado que o manobrista trouxera até a frente do salão.

"Tudo bem, Taylor", ela pensou com desalento. "Partilharemos a noite, conversaremos, e até posso concordar com tudo o que você quiser. Mas isso não muda o futuro."

 

Capítulo XIII

 

Blair presumiu, graças à sua experiência de mulher, que Taylor a levaria ao apartamento dele, provavelmente situado nos arredores do Capitólio. No entanto, conforme o trajeto se alongava e ele dirigia calado, ela trocou sua silenciosa resignação pela curiosidade.

Estavam seguindo para o anel rodoviário e, depois, para o sul. Blair observou ansiosa como Taylor circundava os limites do Distrito Federal. Naquele ritmo, logo chegariam ao Estado da Virgínia.

Finalmente, ela rompeu o silêncio.

— Para onde está me levando? — foi a ácida pergunta. — Espero que saiba o que faz. Se cruzar a fronteira do Estado contra a minha vontade, isso caracterizará rapto ou sequestro.

Taylor lhe concedeu um olhar rápido, neutro.

— Estamos indo para minha casa.

— Você mora longe... — ela comentou secamente.

— Tenho um apartamento em Washington, perto do de Merrill, mas não é minha casa.

Novamente calados, Blair ficou ainda mais preocupada ao passarem pelas saídas para a cidade de Alexandria. Quando ela preparava um protesto, Taylor saiu da rodovia interestadual. Seguiu por uma estrada escura e deserta, e depois por uma trilha que conduzia a uma bonita, embora despretensiosa, casa de campo. O lugar estava iluminado como que à espera de visitantes.

Blair falhou na tentativa de abrir a porta do passageiro, por causa do modelo inusitado da maçaneta do Porsche. Taylor já havia descido, e deu a volta a fim de ajudá-la a sair do carro. Impaciente, ela aceitou a cortesia.

— Você está agindo como uma menina mimada — ele disse causticamente, ao puxá-la para fora do veículo.

— Perdão. — Ela se esmerou no sarcasmo. — Tentarei agir como uma adulta mimada.

Ele soltou-lhe a mão com um suspiro de tédio e subiu por um caminho flanqueado por pedras e canteiros de flores. Girando a chave na fechadura, Taylor abriu a porta e, com um floreio, sinalizou para que ela entrasse.

— Senhora Teile... por favor.

Blair adentrou uma grande e bem arejada sala, com as paredes agradavelmente revestidas de painéis de carvalho claro. Uma lareira de granito natural reproduzia a cor suave da madeira. O sofá modular e o tapete de pele de carneiro convidavam a sentar e apreciar o fogo. Um bar visivelmente bem abastecido estava ao alcance da mão.

Era um aposento bastante masculino, e Blair compreendeu por que Taylor a havia

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levado ali. Seu apartamento na capital devia ser frio, austero e sem vida. Já o sítio podia ser chamado de lar. Isso ficava evidente nas estantes repletas de discos e livros, a indicar que o morador era um bom ouvinte de música e um ardoroso leitor. Miniaturas decorativas e entalhes artesanais testemunhavam seu amor por viagens, por outros povos e culturas.

— Muito bem, Taylor — ela disse animadamente, cônscia de que estava se apaixonando pela casa e adoraria ocupar a larga poltrona junto à lareira a fim de olhar os livros e álbuns de fotos dele. — Quer conversar ou apenas me levar para a cama? Nesse caso, basta falar. Não perca tempo com manobras evasivas. Irei me deitar com você.

— Pare, Blair! — ele se irritou, projetando as mãos com raiva para segurá-la pelo casaco. — Isso não corresponde à sua maneira de ser. Sente-se e fique à vontade. Tire os sapatos, se quiser. Não vamos a lugar algum, por algum tempo.

Intrigada, Blair livrou-se dos sapatos de salto alto, sem perder o contato visual com seu anfitrião.

— E agora, Taylor?

Uma visível contrariedade sombreou as feições dele.

— Pare de me chamar pelo sobrenome e sente-se. Você parece uma leoa enjaulada.

— Você também me chama de sra. Teile, quando está aborrecido. Mas não sou uma leoa, Craig, e sim sua princesa.

— Sente-se e fique calada! — ele gritou.

Blair deu de ombros, com a indiferença que decidira exibir diante de Taylor, e ocupou um canto do grande sofá de couro. Viu-o tirar o paletó do smoking e afrouxar a gravata. Com habilidade, ele alimentou o fogo da lareira e, satisfeito com o resultado, dirigiu-se ao bar.

— Gostaria de beber alguma coisa?

— Não, obrigada.

— Acho que deveria. Ao beber, você tende a falar mais e ser mais franca.

— Pois bem, aceito um martíni com uma azeitona. — Ela encolheu os ombros outra vez.

Pouco depois, Taylor trouxe dois drinques até o sofá e sentou-se ao lado dela, desconfortavelmente perto. O ângulo em que se colocara deixava sua mão esquerda pousada no encosto do móvel, a centímetros da nuca de Blair. O joelho se atritava com a coxa dela.

— Cigarro? — ele ofereceu.

— Não. Deixei de fumar, lembra-se? — Ela não evitou uma desproporcional rispidez na resposta.

— Bom para a sua saúde — Taylor comentou secamente. Em seguida, tomou fôlego e suspirou. — Vamos ao que interessa. Lamento tê-la decepcionado, embora tenha sido necessário, até certo ponto. Nunca quis fazê-la de boba. Sabia que ficaria furiosa comigo, mas eu também tinha medo. Medo de perdê-la, Blair. Eu a desejava e, por um breve tempo, eu a tive. Provavelmente, eu diria qualquer tolice para poder apertá-la em meus braços. Pode entender isso? Talvez não — ele próprio respondeu, com amargura. — Eu mesmo não entenderia, três meses atrás. Mas eu amo você, Blair, e descobri que sou capaz de tudo para provar minha paixão.

Na pausa que Taylor fez, ela viu-se perdida, olhando para ele sem saber o que pensar. Os sentidos, porém, reagiram positivamente, e a química entre os dois pareceu reviver em seu corpo. Trêmula, Blair teve vontade, e receio, de acreditar no que ele dissera. Taylor realmente a amava, mas teria sido melhor que nunca o houvesse conhecido.

Ele continuava à espera de uma manifestação. Dependendo da resposta dela, ele

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saberia se estava ou não o aceitando. Em caso negativo, teria de persistir, e isso seria terrível porque não era do tipo de homem que conseguia se modificar. De qualquer modo, por que alguém tentaria mudar a pessoa que ama? Não a deseja por ser exatamente como é? Bem, a solução era difícil. Se Taylor continuasse com sua vida e hábitos de sempre, Blair não o suportaria. Morreria um pouco cada vez que ele partisse em missão. Com o tempo, se tornaria uma megera, uma bruxa.

— Acho que vou aceitar um cigarro — ela disse com nervosismo.

— Se você realmente parou de fumar, um cigarro não vai ajudá-la em nada. Não fuja do assunto, princesa. Eu a amo e acredito que você também me ame. Quero que me perdoe e diga que gosta de mim.

— Eu o perdoo, eu o amo — afirmou Blair formalmente, certa de que, caso não se pronunciasse, acabaria chorando. Teria sido menos penoso amar um criminoso, pois um fora-da-lei podia se redimir, mudar e viver uma nova vida. Por Deus, ela só pretendia viver!

O olhar leonino de Craig Taylor não a deixava, convencendo-a de que havia algo de especial na visão dele e, através dos olhos claros, ele tinha o poder de enxergar a alma dos outros.

Talvez por isso, suas sobrancelhas se estreitaram e seus dedos se mostraram tensos ao segurar o copo de bebida. O tom de Blair o pusera perplexo.

— Quando você viaja de novo? — ela indagou, de modo a atenuar o assombro de Taylor.

O maxilar dele se retesou, tornando a linha do queixo dura e a expressão indecifrável. Piscou antes de responder:

— Amanhã.

— Oh!

— Só vai dizer isso? — A surpresa se transformou em raiva.

— O que esperava? — Blair rebateu. — Está bem. Por favor, não vá.

— Tenho de ir...

— Então, para que toda essa conversa? Eu sabia que nada do que tinha a dizer importava, portanto por que me aborrecer? Você tem de ir, Craig, então vá. Só não me peça para ficar esperando o caixão com seus pedaços. Não quero, não posso!

— Calma. Ouça também um pouco. Tenho de partir amanhã, mas será minha última missão no exterior. Já solicitei transferência, e George Merrill está cuidando disso com carinho.

— Não! — Ela pôs seu copo na mesinha e ergueu-se, agitada, caminhando pela sala com um medo contido, que ameaçava transbordar em lágrimas de desesperança. "Não faça isso comigo, Taylor, por favor", murmurou para si mesma. — Craig, você partirá amanhã e da próxima vez será a mesma coisa. Sempre haverá mais uma missão, a última, e isso não terá fim.

A visão de Ray Teile, sangrando em sua agonia, cegou Blair para o resto do mundo. Mal se mantinha em pé, de fraqueza, mas também poderia cair no chão, de raiva.

— Blair! Muita gente morre em acidentes de trânsito, todos os dias, e nem por isso alguém deixa de sair à rua. Não há nenhuma garantia nesta vida. Mas eu confirmo o que disse. É impossível esquecer o que houve entre nós, impossível dar as costas a você e fingir que não a amo. — Ele havia se levantado, procurando captar a atenção e a compreensão dela, mas Blair não parava de caminhar pela sala, escondendo a fisionomia. Por fim, Taylor conseguiu retê-la pelos braços e sacudiu-a levemente. — Blair! Eu amo você, você me ama. Isso não conta? Estou disposto a mudar de vida, por você. Isso não representa um compromisso? Você

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não pode ter um pouco de fé em mim, e me dar uma chance?

Taylor a balançou por tanto tempo que ela desistiu do esforço de fugir e fitou-o nos olhos. Então, ambos foram tocados pelo fogo da paixão. Estavam vivos, tangidos por abrasadora emoção. Permaneceram estáticos, sob o efeito de um magnetismo invencível, e subitamente nada mais importava, senão o momento.

— Taylor... — ela murmurou em um fio de voz. — Eu o amo de verdade.

Medo, dor, pânico e raiva dissolveram-se em um só desejo, tão intenso que o passado deixou de existir e o futuro tornou-se uma aposta insensata. Blair baixou a cabeça e sussurrou outra vez:

— E eu o quero.

Como se fosse possível, o aperto de Taylor se intensificou. Ela foi estreitada contra ele, pressionada até sentir os batimentos do coração, a firmeza dos músculos e até os tendões que os sustentavam dentro da estrutura do corpo dele. Pôde ainda captar a respiração arfante, o fluxo de sangue através da têmpora.

— Você me quer agora? — Taylor indagou com um toque de crueldade.

Sem alternativa, Blair anuiu com um gesto de cabeça.

Quando tinham feito amor anteriormente, Taylor lhe havia ensinado novos prazeres com extrema amabilidade, em ritmo lento, construindo uma situação estranha e tortuosa, que a levara quase à loucura pelo sucessivo adiamento do êxtase final.

Naquela noite, havia algo diferente na conduta de Taylor: um traço de violência, um toque de voracidade. Blair não conhecera a avidez sexual dele em toda a extensão, para poder controlá-la, mas agora isso acontecia. Os dedos fortes puxaram-lhe os cabelos a fim de desprendê-los, enquanto ele a estreitava contra si, e os grampos e fivelas voaram até o chão. Para alcançar-lhe a nuca, Taylor empurrou a cabeça de Blair, prensando-lhe o queixo contra a base do pescoço, mas ela não reclamou da dor. Uma febre alucinada persistia nos olhos dele.

Um segundo mais tarde, ambos rolavam no tapete. A roupa de Blair foi rapidamente retirada. Em um piscar de olhos, Taylor também surgiu magnificamente nu à sua frente.

As mãos de Taylor a deitaram, empurrando-a docemente pelos ombros, e logo depois as pernas dele cobriram as suas. A evidente e sensível necessidade de Taylor transformou-se para Blair em um poder devastador, em uma intrigante promessa.

Os olhos dele ainda apresentavam um brilho flamejante, pareciam perguntar algo e oferecer uma saída. Mas também lembravam uma secreta amargura, que clamava por alívio.

Blair havia obtido a resposta que desejava. Fechou os olhos, arqueou o corpo a fim de moldar-se ao parceiro e, por um rápido instante, sentiu ternura nos lábios masculinos. Logo em seguida foi aprisionada e abraçada, colhida com uma sensualidade incontrolável. Olhou de novo para ele e ouviu-lhe a voz aveludada:

— Você vai esperar por mim.

O que seria um murmúrio tornou-se tempestade, permeada pela consciência. E novamente ela concordou. Concordaria com tudo naquele instante único que precedia a concretização do ato de amor.

— Craig, por favor...

Foi um pedido para que ele consumasse a união e lhe desse o prazer almejado. Debaixo de Taylor, Blair correu as mãos pelas costas e por todo o corpo dele. Ele a contemplou, aguardando um toque estimulante. Blair o satisfez e, no minuto seguinte, sentiu sua poderosa arremetida. Vivo dentro dela, ele impôs um turbilhão de volúpia, uma posse total e completa. Algo nas profundezas de seu ser lembrou-a da satisfação que ele já lhe havia proporcionado, mas naquela noite ele se superava, disposto a tornar inesquecível o encontro.

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De fato, Blair nunca o esqueceria. As chamas que dançavam na lareira, refletidas nos ombros de Taylor, estabeleciam o ritmo de suas ondas de prazer. O despudor, mais do que qualquer traço de brutalidade, tornava a ação de Taylor alucinante.

Aquele homem era feito de pura energia. Na vida e no amor, aquele homem era incrível. Seguramente, excedia qualquer mortal comum.

Mas Blair logo reviu esse conceito, forçando-se a aceitar que Taylor era apenas humano. Nas horas de delírio sexual, de rendição aos desejos dele, ela sempre se empenhava em buscar sua dose de prazer. Por isso não racionalizava, não pensava em mais nada. Sabia que devia ser assim, desde o princípio. Sabia também que, um dia, viria o ajuste de contas.

Aos poucos, o fogo agonizou na lareira, o ar da sala ficou gelado. Aninhada junto a Taylor, protegida pelo tapete, abrigada debaixo do braço que lhe garantia uma confortável intimidade, Blair não sentiu frio. Estava exausta, saciada, mas aquecida.

Procurou examinar o perfil do homem amado e descobriu que seus cabelos tinham ficado presos sob o ombro dele. Inerte, ele parecia haver adormecido, mas não era certeza. A noite havia sido de intenso prazer, e tanta voracidade havia gerado um imenso cansaço.

Por fim, Blair conseguiu deslocar-se e constatou que Taylor realmente dormia. Sentiu um gosto de sal na boca, vindo das lágrimas que lhe escorriam dos olhos. Ele era mortal, sim. O sangue que corria dentro dele com irrefreável vitalidade poderia ser vertido. O coração que batia com coragem, lealdade e amor poderia parar. Tudo era compreensível. O ímpeto e o calor daquele homem virariam pó com a simples explosão de uma bomba. Uma bala, por pequena que fosse, seria capaz de derrubar aquela fortaleza.

"Por que estou me castigando?", ela questionou a si mesma. Porque o amava muito, porque adorava o modo como ele dormia, tocando-a com os dedos possessivos mesmo durante o sono.

Blair estremeceu.

Sabia que ele a amava também, que honraria suas promessas, mas Taylor não era dono de si mesmo. O chefe poderia até dispensá-lo das missões perigosas, porém ele ainda era o principal agente operacional. Uma emergência, e os planos teriam de ser revistos.

Mesmo a partida iminente, fosse ou não a última, deixava Blair abatida. Julgava-se madura demais para acreditar em escolhas forçadas, sobretudo quando iam além da vontade pessoal.

Deveria sair dali antes que tivessem de conversar de novo, antes que Taylor a pressionasse no sentido de uma decisão crucial. "Não seja idiota", repreendeu-se. Era difícil escorregar para longe dele. Ela nunca iria embora sem que Taylor acordasse e lhe acariciasse as costas.

E o que faria depois? Com certeza, não haveria um táxi disponível no portão do sítio. Dependia de Taylor para voltar à cidade. Naquela espera, examinou novamente o rosto que adorava, ainda sentindo o sal nos lábios. Havia outras alternativas, por certo. Conseguir levar Taylor para o chuveiro, a fim de acordá-lo de uma vez. Ou achar as chaves e levar seu carro, o que seria uma imperdoável traição: ele tinha compromissos e precisaria estar em algum lugar, em certa hora.

Bem, se o governo quisesse muito os serviços dele, poderia mandar buscá-lo. Afinal, as autoridades estariam roubando-o dela, e Blair já concedera demais. "Não posso continuar sempre dando tudo o que tenho", pensou, tentando conter as lágrimas.

Ao fechar os olhos, ela voltou a um sono agitado, com a mente resignada a tudo o que lhe caberia aceitar.

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— Eu te amo — ele disse simplesmente ao despertar. Apoiado em um dos cotovelos, observou a mulher adorada com olhos apaixonados.

"Meu Deus, mantenha Taylor vivo e seguro", Blair pediu em contrito silêncio. Tentou sorrir, e o esforço não foi particularmente bem-sucedido, mas pareceu o bastante para ele.

— Você vai me esperar?

— Sim — Blair mentiu sem pestanejar. Retraçou com um dedo o perfil do amante. — Já é outro dia, Taylor. Você deve partir.

— Ainda precisamos conversar. Sinto muito, eu não consegui trocar nossa noite por um diálogo.

— Nada a lamentar — ela interrompeu, satisfeita, baixando a voz para um sussurro: — Também eu não trocaria. Podemos conversar a caminho de Washington. Por que não vai ao chuveiro e me mostra a cozinha? Farei café.

Calado, ele a beijou gentilmente.

— Está bem — concordou, erguendo-se e ajudando Blair a levantar-se também. Pena, porque os cabelos dela estavam lindamente espalhados sobre o tapete.

As formas nuas e apetitosas de Blair o tentaram a adiar qualquer movimento que não fosse o de uma nova relação. Desistiu, pois tinha de retornar à cidade e odiava tal compromisso.

— É por ali. — Taylor apontou na direção da cozinha, liberando o corpo feminino que não conseguia parar de tocar. — Gosto de café puro, nem mesmo tenho leite em casa. Mas... Por que não vem tomar banho comigo?

— Não — Blair esquivou-se, alheia ao poder de sua nudez, mas ciente de que ambos estavam com pressa. — É sua última missão, pelo que me disse. Não acha que eles virão buscá-lo aqui, caso você não apareça no escritório?

Ela não esperou resposta ou reação. Rumou para a cozinha. Minutos depois, ouviu a água corrente e retornou depressa à sala. Postou-se à frente da lareira apagada. Talvez devesse aguardar ali por Taylor, escutar o que ele tinha a dizer, antes de fincar pé na própria mentira.

Não, já não conseguiria fazer isso. Entediava-a ouvir sonhos e promessas. No íntimo, temia acreditar neles. Por isso, tinha mentido.

Suas roupas achavam-se espalhadas pelo chão da sala, mas Blair não ousou perder tempo vestindo-se. Abriu a porta de um armário na entrada e encontrou o que necessitava: uma capa de chuva. No comprimento, ela chegava quase até seus pés e as mangas sobravam, mas não fazia mal. Estava coberta, pelo menos.

Em seguida, as chaves do carro. Torceu para que estivessem no bolso da calça de Taylor. Estavam. Era fácil partir dali, escondida. Mas então seus dedos tocaram um pequeno estojo de veludo, guardado no mesmo bolso, e, apesar de seu desespero, Blair não pôde deixar de abri-lo.

Um diamante solitário brilhou ante seus olhos, à luz baça do amanhecer.

A garganta foi fechada por um soluço. Tudo levava a crer que Taylor pretendia dar-lhe o anel, em um pedido de casamento. Ela cerrou os olhos, lutando contra uma onda de arrepios. Não queria, de modo algum, tornar-se viúva pela segunda vez.

Blair mordiscou o lábio inferior e guardou novamente o estojo no bolso da calça, concluindo que esse ato era mais difícil que o de abri-lo. Ponderou ainda como seria cruel levar sua decisão até o fim. Mas Taylor entenderia que ela o deixara porque tudo havia terminado, que não existia um futuro para os dois, que ele já não precisava acreditar que

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poderia mudar de comportamento.

A água do chuveiro ainda corria quando ela transpôs a entrada da sala silenciosamente e alcançou o Porsche. Esperava que a porta do carro não lhe desse problemas. Por que Taylor não podia dirigir um automóvel normal? Bem, ele não era um homem normal, no sentido de mediano ou medíocre. Blair também sabia disso desde o princípio.

Algumas tentativas lhe valeram o acesso ao banco do motorista. Ligou o possante motor e não teve dificuldade em refazer, na direção oposta, o caminho que percorrera na noite anterior. Naquela bonita manhã de primavera, em quinze minutos ela chegou aos arredores de Washington. Nunca se sentira tão enregelada por dentro, tão entorpecida.

 

Taylor escutou o ronco do motor do Porsche ainda no banheiro. Saiu rápido, sem fechar as torneiras, dando tempo suficiente apenas para enrolar uma toalha em torno de si. Alcançou a trilha externa no momento em que o carro fazia a curva e acelerava rumo à estrada.

Ficou óbvio para ele que Blair não olharia para trás. Parado em meio ao ar frio, Taylor observou o veículo afastando-se até se tornar um ponto minúsculo na distância. Praguejou, incapaz de mover-se a despeito dos golpes de vento contra sua pele úmida. Estava furioso, mas também tomado de admiração. Blair não cometera erro algum, manipulando-o com maestria. Havia mentido para ele com o mais doce dos sorrisos.

E, como ela imaginava, ele compreendera a mensagem.

Contraindo o maxilar, Taylor voltou para dentro de casa. Teclou um único número no telefone, um número pré-programado, identificou-se e pediu um táxi.

Em seguida, começou a se vestir. Guardou uma série de papéis nos bolsos do paletó azul, depois de notar que sua capa de chuva tinha sido levada por Blair. Ao menos, ela não estaria nua na estrada, pensou com alívio ciumento. Quase sorriu ao antever como Andrew Huntington reagiria ao ver a filha entrar como um raio em casa, usando apenas uma capa de chuva.

Talvez ele nem se preocupasse. Huntington estava do seu lado. Provavelmente imaginava a filha querida casada com Taylor. Se ela passara a noite com ele, tanto melhor. Blair estaria redimida de seu luto, de sua abstinência.

Mas Taylor se ressentia do fato de Huntington não ter completo controle sobre as ordens que ele recebia. Em um ponto, Blair tinha razão: ele não podia confiar demais em seus superiores. Cabia-lhe fazer as próprias escolhas de vida. E seria ótimo que ela houvesse confiado nele.

Sobrou-lhe pouco tempo depois de fazer a mala. Apanhou as roupas espalhadas na sala e então se sentou defronte às cinzas da lareira, cultivando as lembranças da sensacional noite de amor com Blair.

Taylor encontrou a tiara que ela ostentava na cabeça, por ocasião do baile. Girando-a nos dedos, sentiu que seus lábios formavam uma curva de sólida determinação. Meneou a cabeça, dividido entre sentimentos contraditórios de ternura e ferocidade.

— Ainda não acabou, princesa — murmurou. — E por pouco tempo. Eu voltarei.

À chegada do táxi, Taylor colocou a tiara de Blair cuidadosamente no tapete, defronte à lareira. Caminhou até a porta, mas olhou para trás mais uma vez.

— Eu voltarei — repetiu, mais alto. — Princesa, você não achará lugar no céu ou na Terra para se esconder de mim.

Taylor sentiu-se realizado ao trancar a porta. A feiticeira ruiva lhe havia furtado o

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carro. Pagaria por isso, assim como por duvidar de sua palavra. Ele sofria, no entanto, por ter sido enganado por uma garota escorregadia.

Uma bela mulher. Sua princesa.

 

Capítulo XIV

 

Como Taylor havia previsto, Andrew Huntington reagiu com absoluta frieza à aparência de sua filha. Perturbada, ela tinha praticamente esquecido o pai, mas este nem pestanejou quando ela adentrou a sala da mansão familiar em Washington. Disse-lhe para tomar café na cozinha, deu-lhe um beijo na testa e saiu, com seu habitual traje de terno e gravata, para mais um dia de trabalho.

Continuar: parte 3 de 3