Tempestade no Paraíso
Exceto passar a noite com ele.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ela permaneceu à frente dele, não para exibir-se, mas numa combinação de timidez e atrevimento. Sorriu enquanto ele se livrava das roupas, alheio à perfeição do físico musculoso, que cintilava sob o fulgor etéreo das chamas.
— Venha aqui, Blair — murmurou, e ela obedeceu. Com reverência, Taylor a conduziu à cama estreita. Suas necessidades eram prementes. Precisava possuí-la sem demora, mas ainda assim fez amor com ternura, tratando-a como se fosse um objeto frágil, alvo de uma torrente de paixão.
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Mais tarde Taylor deveria entrar em comunicação codificada com seus superiores, mas, de qualquer modo, houve tempo para ambos ficarem exaustos, tempo para Blair sentir-se lânguida de sono. Taylor chegou a pensar que ela havia adormecido, mas então lhe ouviu á voz cansada.
— Você se lembra do dia em que apareceu aqui?
— Nitidamente. — Ele respirou fundo.
— Lembra-se de ter me contado que havia feito uma descoberta no riacho?
— Sim.
— E o que era?
Ele riu.
— Não quero deixá-la preocupada. Você verá por si mesma, talvez amanhã. Iremos nadar juntos antes do jantar.
— Por que amanhã, Taylor? Por que não agora?
— Agora? — Ele se surpreendeu com a proposta, a mente voltada para o horário de seu contato secreto. — É tarde e precisamos dormir um pouco.
— Não estou com sono, Taylor.
Ele consultou o relógio. Restavam-lhe setenta e cinco minutos, e talvez o banho noturno fizesse Blair finalmente dormir. Tomou a decisão e pôs-se de pé, arrastando-a consigo.
— Vamos lá.
— Assim? — Incrédula, Blair correu a vista pelos dois corpos nus.
— Bem, é impossível nadarmos vestidos — ele disse com um sorriso provocante. Conveniente ou não, ele julgou que não suportaria vê-la cobrir o resplendor de suas belas curvas.
— É verdade, mas... — Os olhos dela brilharam enquanto o conceito pairou no ar.
— Todo mundo aqui está dormindo — Taylor lhe assegurou. — Em todo caso... — Cuidadosamente ele enrolou uma toalha em Blair, amarrando as pontas à altura dos seios. Depois tratou de cobrir-se também. — Estamos decentes?
Blair limitou-se a rir, em resposta. Taylor recolheu as roupas de ambos e colocou-as em uma sacola.
— Podemos voltar vestidos, caso já estejamos à luz do dia...
— De acordo. — Um tanto chocada, ela precisou vencer uma repentina timidez. Não por ter seduzido um homem, mas por vir até ele e oferecer-se à sedução, e depois pedir que os encontros continuassem, como se tratasse de uma lua-de-mel.
No entanto, em vez de constrangida, ela se sentia maravilhosa. Havia aprendido com Taylor que era uma mulher ardente, sensual, ousada e feminina. A descoberta de seus novos poderes era embriagadora, e a colocava à margem da cautela e da lógica.
Após pegar uma lanterna, Taylor a guiou através do acampamento, ambos segurando o riso. Não se tratava de uma noite tão silenciosa quanto imaginavam. Além dos ruídos que vinham das barracas, ouviam-se grilos e outras criaturas noturnas. Pareciam, porém, estar em harmonia com o ar vibrante da escuridão.
A própria vida nunca fora tão vibrante para Blair.
Ela protestou quando Taylor deixou cair tudo o que carregava, mas já estavam à beira do riacho, colhidos por gotas prateadas que choviam sobre eles graças ao impacto da cascata. Ambos riram ao entrar na água, debaixo de uma enevoada lua crescente.
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— Está gelada! — gritou Blair, sentindo na pele a diferença de temperatura.
— Comigo por perto, você nunca sentirá frio! — Ele a abraçou, buscando com a boca o lóbulo da orelha.
— Tem razão — ela admitiu, enquanto o calor de Taylor se transfundia para sua pele arrepiada. Outras palavras pairaram em seus lábios e não foram pronunciadas. Estaria realmente apaixonada por ele, esmagada por um poder que não podia ser capturado nem entendido?
Os olhos de mel pousaram nos dela, cheios de ternura.
— Quer ver a grande descoberta?
— Claro. — Ela disfarçou certa suspeita.
A desconfiança era bem fundamentada. Taylor a soltou e afastou-se, nadando na direção da cascata. Acenou com a mão para ela.
— Por aqui!
A "descoberta" não passava de um pequeno lago de águas cristalinas, recortado na rocha ao longo de séculos de ação da natureza. Ficava adiante da cascata e parecia uma piscina infantil. Blair logo concluiu que as pedras no perímetro do lago eram lisas suaves.
Com renovada energia, ela e Taylor brincaram na água, tocando-se, excitando-se, até Blair perder o fôlego.
Mas ela encontrou novas reservas de força quando retornou à margem do riacho, os olhos sem o brilho característico, substituído por uma primitiva fome de prazer.
Taylor novamente fez amor com ela, não mais a tratando como frágil porcelana, mas tomando tudo o que Blair podia lhe dar.
Embora rude, ele mostrou-lhe um outro mundo de maravilhas, levando-a à fruição de um instinto selvagem, surpreendendo-a com o arrebatamento de prazer que criava uma flamejante magia. Assim, veio a reconhecer seu corpo reluzente como próprio e único, totalmente desinibido na busca do êxtase, como parte da natureza. A água da cascata em torno deles parecia entoar uma canção primitiva que combinava com sua paixão.
Deitados na grama a fim de descansar, refrescando-se sob a brisa da noite, Taylor e Blair ainda entrelaçaram pernas e braços, como se fossem insaciáveis. Palavras não cabiam entre eles, mas apenas sussurros de excitação e gemidos de euforia. A paz de espírito foi aceita pelos dois com cumplicidade, como decorrência da plenitude do prazer.
Blair sabia vagamente que, em algum momento, as palavras surgiriam, pois os amantes também precisavam conversar. Mas não por enquanto. Era hora de acariciar com luxúria o homem que se estendia debaixo dela, ainda irradiando o vigor masculino que só demandava capitulação.
Ela estava exausta como nunca, corpo e alma satisfeitos. Taylor havia criado um paraíso insubstituível, e ainda assim Blair tinha consciência de que um entendimento físico tão especial, baseado na atração e no respeito, não era o equivalente a uma devoção por toda a vida.
Era o bastante, porém. Mesmo que ele fosse indomável ou inacessível, que se transformasse no misterioso gato noturno do qual suspeitara desde o princípio, nunca poderia retirar dele o mérito por ensinar-lhe as maravilhas do amor.
Seus cílios se tornaram cada vez mais pesados. A grama macia proporcionava um colchão cômodo, enquanto o corpo de Taylor lhe fornecia todo o calor de que precisava. Em minutos, ela adormeceu profundamente, liberta dos fantasmas de seu passado.
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Blair despertou um pouco zonza, desorientada, até perceber que estava com frio. Focalizando a vista, logo soube onde se encontrava, mas também descobriu que se achava sozinha.
Ergueu-se da grama e examinou a margem do riacho. A luz era quase inexistente, e não obstante ela notou que as roupas de Taylor haviam sumido. Por que ele a havia abandonado ali, sem qualquer aviso? Poderia ter partido mais tarde, de madrugada, mas não era do tipo de homem que deixava uma mulher só e vulnerável.
Ela não sentiu medo. Estava perto do acampamento e conhecia bem as trilhas da selva. Contudo, ficou perplexa e enregelada. Seu estado de nudez a encheu de nervosismo.
Apanhou suas roupas e vestiu-se, lidando desastradamente com botões, colchetes e zíperes. Em uma pausa para imprecar contra as dificuldades, percebeu os lampejos de luz vindos através da vegetação, a leste do riacho.
Interrompeu todos os movimentos e deduziu que alguma espécie de mensagem estava sendo transmitida. Os flashes esporádicos, de diferentes durações, correspondiam aos pontos e traços do código Morse. Ela era suficientemente informada para saber do que se tratava, mas não treinada o bastante para decifrar o código com facilidade.
Seus olhos focalizaram o distante ponto da folhagem onde os clarões se sucediam, até cessarem de repente. Seu coração se apertou. Aquilo só podia ser obra de Taylor.
Blair empertigou o corpo, reconhecendo que todo o amor e meiguice se dissolviam rapidamente no amargor da mentira. No mesmo ritmo acelerado, Blair bloqueou a agonia da traição por meio de uma raiva profunda e da firme determinação de decodificar a mensagem, denunciando assim a farsa de Taylor.
Mensagens! A dele era respondida por lampejos procedentes de um morro ao longe. Dali onde estava, no vale do riacho, ela não podia ver nada claramente. Precisava encontrar Taylor.
Quase dois anos com o grupo de assistência humanitária haviam ensinado Blair a mover-se na floresta com segurança e com a agilidade dos nativos. A fraca luz lhe permitia deslizar silenciosamente através da vegetação. A trilha levava a uma clareira entre densos arbustos. Ajoelhado, com uma lanterna potente na mão, lá estava Taylor.
Ela agachou-se ao abrigo de uma bananeira. Os flashes começaram a fazer sentido.
...É necessário agir assim? Câmbio.
O céu escuro recebeu as palavras em código Morse. Tudo ficou paralisado por um instante, e então veio a resposta, que Blair decifrou com o coração batendo na garganta.
Sim... Esta noite sem falta... Leve-a embora... Câmbio.
As trevas se acentuaram.
Em vez de receosa, Blair sentiu-se ferida, furiosa e humilhada. Como tinha sido idiota! Dera a Taylor um pedaço de sua alma, maior do que julgava possível. Contara-lhe segredos pessoais que pensava estarem a salvo de qualquer inconfidência. Na verdade, entregara-se inteira a ele.
Subitamente, a mágoa começou a arder por dentro. Blair não se conformava com o modo pelo qual se aproximara de Taylor, provocando-o, amando-o, ficando ao lado dele em íntimo abandono. Durante o tempo todo, ele planejava alguma coisa, o que quer que fosse. Uma conspiração!
Decepcionada por ter significado tão pouco para ele, chocada a ponto de ver-se imóvel, Blair começou a urdir a necessidade de se afastar o quanto antes de Taylor. Ela era o centro de alguma trama que desconhecia, um conluio misterioso que recomendava: Leve-a
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embora...
Seria uma completa lunática se permanecesse ao lado de Taylor, frágil e vulnerável. Deus do céu! Quem era ele? Um terrorista? Um sequestrador? Ou, pior, um assassino impiedoso? De qualquer maneira, seria alguém que conhecia a importância de seu pai no mundo político.
Em silêncio, mal se atrevendo a respirar, Blair ergueu-se com o propósito de avisar o dr. Hardy e os outros. Juntos, todos confrontariam Craig Taylor. Mas um feixe de luz varou a escuridão e a cegou. Ela levou instintivamente o braço ao rosto, a fim de proteger os olhos. Logo em seguida, o clarão desviou-se para o chão, iluminando o espaço entre ela e o homem de olhos ambarinos que a contemplava fixamente.
Os dois se encararam por um intervalo que pareceu eterno. Já não havia ternura no olhar leonino de Taylor. Rígido, impassível, ele denotava poder. Uma determinação de aço. Uma sinistra crueldade.
Sem se mover, ele não tentou dar nenhuma explicação. Suspirou apenas, mostrando uma ponta de remorso e tristeza na voz.
— Lamento que tenha descoberto tudo isto.
Igualmente imóvel, com os ombros firmes e a cabeça erguida, ela perguntou com aspereza:
— Quem é você?
Ele deu de ombros, com uma leve inclinação do tórax.
— Meu único nome é Craig Taylor. Não preciso nem gosto de pseudônimos, e isso é mais do que posso lhe dizer no momento.
Blair deu-se conta de que aquele homem de fato sabia quem era seu pai.
— Pode compreender por que eu não uso meu verdadeiro sobrenome? — perguntou compenetrada.
Pareceu-lhe que Taylor vacilava. Ela não tinha certeza.
— Realmente sinto muito, Blair. Preferiria que você não tivesse acordado.
— Por quê? — ela desafiou, lutando contra um assomo de histeria. — É óbvio que planeja me sequestrar. Eu devia ter percebido, desde o início.
— Não pretendi que fosse desta forma.
— Ah! E como deveria ser? Iria me perguntar se eu concordava em ser raptada por você?
— Esperava que você confiasse em mim.
— Confiar em você?
Firmemente pousados nos dela, os olhos cor de mel ainda demonstravam pesar.
— Não vou machucá-la.
Blair começou a rir. Seria preciso mais de um Taylor para magoá-la ou feri-la.
— De novo, quem é você? — ela esbravejou. — Para quem trabalha? Qual governo, qual país? Ou é somente um aproveitador, um mercenário?
— Não, Blair. Eu...
— Não diga nada, nem se aproxime de mim. — Esticou o braço para estabelecer uma distância mínima. — Você é um canalha, uma criatura desprezível!
Os xingamentos caíram sobre ele como pedras de gelo.
O maxilar de Taylor ficou visivelmente tenso.
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— Estou lhe suplicando para confiar em mim.
— Deve estar brincando! — Foi a resposta rápida.
— Nada disto é como você pensa — declarou Taylor, em uma vã tentativa de apelar à razão.
— Então diga quem é e o que faz aqui.
— Não tenho autorização para contar.
Ela sorriu, lenta e amargamente, sem encarar o homem que transpirava à sua frente.
— Você e os de sua espécie são a escória da sociedade, e ainda me pede para confiar em você!
Uma fúria explosiva contra todos os envolvidos no caso, incluindo ele próprio, explodiu dentro de Taylor. Praguejou contra o homem que o havia colocado naquela enrascada, naquele fiasco previsível desde que rompera as regras do jogo e se tornara emocionalmente envolvido com Blair. Merecia toda a condenação da parte dela, embora sua "princesa" ainda pudesse conceder-lhe, quem sabe, o benefício da dúvida.
Do modo como as coisas estavam, ele teria de pensar em Blair como a mocinha mimada e arrogante que se destacava na sociedade, para poder agir.
Ela o rotulava com os piores defeitos da natureza humana, e por certo sabia expressar-se em um rico vocabulário. Falava sem parar, mas Taylor bloqueou as palavras. As últimas que ouviu foram que Blair o considerava uma espécie de terrorista a serviço do mal.
Melhor que pensasse assim. Depois de tudo o que haviam partilhado, ela não conseguia oferecer-lhe um pouco de confiança. Avançou desesperado e enterrou os dedos nos ombros dela.
— Pare! — ordenou, sacudindo-a, impondo o silêncio, mas sem causar medo. — Pode parar agora mesmo, sra. Teile. Tem razão quanto à escória da sociedade, mas virá comigo e, portanto, fará parte dela.
— Claro que não vou com você! — Blair retrucou, corajosa depois de julgar-se idiota.
Taylor inclinou-se sobre ela, impactando-a com o olhar e prendendo-a com o bíceps treinado para situações bem piores. Mesmo naquela situação, Blair sentia o sangue correr acelerado por causa da proximidade do homem a quem aprendera a desejar. Isso não! Ela inclinou a cabeça para trás e reuniu fôlego para gritar.
— Não! — A ordem de Taylor cortou o ar da noite. A mão esquerda cobriu a boca de Blair. — Não quero machucá-la, sua tonta!
Ele a soltou, mas nenhum som sobreveio. Ela nunca soube o que efetivamente acontecera ali, naquele momento. Os nós de seus dedos encontraram o queixo de Taylor, mas não houve dor. Tudo de que se lembrou depois foi a voz dele, estranhamente meiga outra vez.
— Perdão, Blair... Por favor, querida, você imagina como eu lamento...
O mundo inteiro também se tornou estranho quando ela mergulhou em um vácuo escuro, ridiculamente entranhado de paz e tranquilidade.
Na pequena clareira, Craig Taylor segurou a mulher desmaiada e colocou-a gentilmente na grama. Beijou os próprios dedos que haviam esmurrado o rosto dela.
Uma brisa soprou no escuro e moveu a folhagem. O som próximo de grilos podia ser ouvido e, mais distante, o murmúrio sereno do riacho.
A ira invadiu Taylor. Às vezes, ele ficava absolutamente seguro de que seus
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superiores, do mais alto ao mais baixo escalão, estavam todos loucos. Esperava conseguir uma boa explicação para aquele evento sigiloso. As bombas lançadas no Oriente Médio fariam menos dano psicológico a Taylor do que a tarefa de carregar pela mata uma prisioneira recalcitrante.
"Culpa sua", ele se castigou. Regra número um: nunca se apaixone por uma bela e valorosa mulher, prestes a ser raptada e conduzida para fora do país. Nunca faça amor com ela, ainda que seja adorável. Nunca se torne vítima da vítima.
Tenso e furioso consigo mesmo, ele apressou o passo.
Uma mensagem final de Taylor perturbou a serenidade da selva.
Estamos a caminho... Final.
O breu da noite desceu sobre o caminho.
Taylor carregava no colo a inerte Blair. Confundiu-se novamente com um espectro na escuridão, só avançando na mata com o objetivo de sair dela.
Em sua barraca, ele deitou Blair no catre, sem focalizar-lhe o rosto. Tinha de retomar a caminhada, depois de reunir alguns suprimentos na sacola. Quantas horas fazia desde que haviam compartilhado aquele leito, em um delírio de volúpia? Suas mãos tremeram assim como a memória fraquejava.
Decidiu aplicar um sedativo em Blair, já que teria de andar sem empecilhos por várias horas, cobrindo grande distância. Sentiu dor na própria carne quando a agulha da seringa penetrou na veia delicada. Ela gemeu levemente, e Taylor arriscou-se a olhar rapidamente para ela. A pele sedosa, as mechas de cabelos desarranjadas em torno do perfil orgulhoso mexeram com seus brios.
No sono induzido, a beleza de Blair era fugidia e etérea. E isso o lembrou de como ela havia confiado nele, outorgando-lhe o crédito que, como um tolo, ele mesmo encorajara.
No dia seguinte, pensou, estaria fitando mais do que uma beldade. Iria encarar o definitivo perigo que o chefe lhe reservara: o ódio, a indignação de Blair.
Segundos depois de preparar a bagagem, Taylor lançou-a sobre seu ombro e, com os sentidos aguçados, buscou o jipe nos fundos do acampamento. Algo o preveniu de que alguém estava por perto. Agitado, mas em silêncio, tentou descobrir a fonte da perturbação.
Um assobio conhecido o deixou relaxado.
Brad Shearer, quase invisível em jeans preto e camiseta escura, esperava por ele ao lado do veículo.
— Pressenti que você partiria hoje — ele disse em tom cúmplice. — Coloquei algumas provisões extras na traseira do jipe.
— Obrigado — retrucou Taylor, acomodando Blair no assento do passageiro. No mesmo instante, ela oscilou para o lado. Brad reagiu de pronto, acomodando-lhe a cabeça em uma posição confortável.
— É uma mulher admirável — comentou, ajeitando uma madeixa ruiva.
— E verdade — Taylor concordou, assumindo o volante. — Não quero ligar o motor ainda. Pode me dar um empurrão?
— Claro. — Brad posicionou-se e fez o que lhe era pedido. O carro começou a deslizar. — Boa sorte!
— Obrigado outra vez!
A distância entre o jipe e o acampamento cresceu depressa. Quando achou que ninguém mais o ouviria, Taylor ligou o motor. Chegou ao fim da trilha e seguiu por uma estrada de terra batida.
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Sorrindo, Brad Shearer retornou à sua barraca. Aquele Craig Taylor sempre fora um agente de primeira, um felino de nove vidas, considerado quase sobre-humano entre as forças especiais de segurança. O simples poder de seu olhar dourado conseguia baixar um problema antes que surgisse.
Agora, porém, tudo indicava uma situação bem diferente. Se os guerrilheiros estivessem no trajeto, algo que Brad só podia presumir, pois a informação era sigilosa, Taylor teria dificuldades. Mas, como sempre, certamente as venceria.
Brad também havia observado seu companheiro durante as noites. Era normal vigiar a mulher que ele devia proteger, mas ali existia mais que dever ou amizade. E Washington vivia cheia de boatos sobre a filha de Huntington: charmosa, agradável, inteligente, mas um demônio quando desafiada.
Ele sentiu-se contente por não estar por perto quando a explosão acontecesse. Balançou a cabeça enquanto se esticava no leito. Existia um ditado. Qual era mesmo? Foi a bela que venceu a fera.
Os pensamentos de Taylor seguiam uma linha semelhante, enquanto dirigia o jipe pelas trilhas da floresta. Estava alerta a tudo que fugisse ao normal, mas esse era um comportamento instintivo, quase automático, como respirar, e por isso conseguia refletir ao volante.
Teoricamente, aquela noite seria a pior de todas, pois exigia cuidados especiais. Uma vez vencida a floresta, ele estaria em rodovia aberta, esperando a hora combinada para chegar ao destino final.
Aquela noite comportava o perigo de um encontro com guerrilheiros em ação. Então, a noite não seria ruim, mas a melhor de todas, pois sua refém estaria dormindo, alheia aos acontecimentos. No dia seguinte, com certeza, Blair não se cansaria de lhe dirigir impropérios, tanto ao homem quanto ao profissional.
O corpo dela moveu-se de novo, a cabeça baixando na direção do colo, a espalhar uma cortina de seda ruiva. Com um leve gemido, ela pousou a mão sem peso na coxa de Taylor. Ele rilhou os dentes com força. O gesto era tão confiante...
À falta de melhor julgamento, Blair sempre tinha vindo até ele. Taylor não ignorava que ela lhe dissera coisas que nunca havia confidenciado a ninguém, coisas que guardava em seu íntimo e, assim, vinham direto do coração.
Devia tê-la impedido, abortando o relacionamento em seu começo. Mas ficara como que inebriado pelos encantos de Blair. Agora precisava pagar a conta. Nunca esqueceria o olhar dela quando o flagrara na clareira com a lanterna: o horror, o escárnio e a decepção profunda. Ela pensava que ele era um terrorista, mas, se o amasse um pouco, Blair lhe concederia alguma fé.
Ferido em seus brios, Taylor voltou a sentir raiva. Ele mordiscou os lábios e deu um sorriso mortificado. Por que se preocupava com o futuro, com eventualidades que não podia controlar? Teria de lidar sozinho com os dias subsequentes, e por isso devia endurecer o coração, no preparo para uma batalha de vontades da qual desejava sair vencedor. Já não importava o que Blair ou ele pensassem. Uma máscara precisava ser usada, para proteção de ambos.
As horas passaram sob o ronco do motor, o peso das rodas e a reiteração do que Taylor ponderava. Blair continuava adormecida. E então o primeiro trecho da viagem foi completado sem incidentes: o ponto de encontro fora alcançado. Mas não havia ninguém esperando, e Taylor tentou ocultar o jipe na vegetação que margeava um rio. Ao sair do veículo, acomodou o tronco e a cabeça de Blair no banco vazio. Andou uns poucos passos e deparou com o que procurava.
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Um barco à vela, típico dos nativos, repousava junto a um ancoradouro dilapidado. Taylor subiu a bordo, os sentidos em alerta. Não esperava problemas naquela altura do percurso, mas era preciso estar atento.
Parecia uma caixa de madeira, avaliou, embora o motor fosse novo.
— Bem, já tenho um castelo para abrigar minha princesa — murmurou para si mesmo.
Ele não perdeu tempo verificando os suprimentos a bordo ou os utensílios na cozinha adjacente à cabine de um só quarto. Pretendia zarpar antes do amanhecer, protegido pela escuridão.
Voltou ao jipe, acomodou Blair sobre seu ombro e, com a mão livre, apanhou a sacola de náilon e o pacote que Brad havia deixado no veículo, com a palavra "Cuidado" escrita em letras grandes.
Pela manhã, ele sabia, alguém daria sumiço no jipe. Outra pessoa, sem o conhecimento de seus passageiros recentes, seria encarregada de levar o veículo para longe dali.
A atividade na selva não havia se alterado. Grilos continuavam cricrilando, cobras seguiam deslizando no chão ou em ramos de árvores e pássaros cantavam. A vida prosseguia.
Taylor carregou Blair até a cabine e acomodou-a na cama larga embutida a estibordo. Manteve-se atento ao rosto dela, enquanto lhe removia as botas a fim de deixá-la mais confortável. O sol estaria alto no firmamento antes que ela acordasse. E assim ele teria tempo e tranquilidade para iniciar a jornada pelo rio. Tempo e tranquilidade, talvez, para um merecido cochilo.
Ele soltou as amarras e, como um velho fantasma, o barco moveu-se na correnteza, tangido por um motor projetado para trabalhar em silêncio.
Da estrada para o rio, do rio para a costa, e a viagem terminaria.
Após algum tempo, Taylor julgou que se distanciara o suficiente da margem para lançar a âncora e conceder-se uma hora de sono. Deitou-se no piso de madeira da cabine, depois de verificai- que Blair dormia pacificamente.
Ele também notou, gratificado, que seus superiores haviam providenciado lençóis e cobertas limpas. Não era pouco. Depois de desdobrar uma manta de lã sobre o corpo de Blair, estirou-se no chão, pôs as mãos na nuca e tentou adormecer.
Inútil esforço. Antes tivesse ficado no convés do que ao lado dela. Seus instintos clamavam para que a tocasse na ânsia de sentir o corpo dela junto ao seu.
Mas não podia fazer isso, não com uma pessoa sedada, insensível às suas carícias. O triste detalhe era que, uma vez consciente, Blair não as aceitaria de novo.
No sono, ela respirava compassadamente. Taylor gravitou mentalmente em torno dela e de seu calor, seguindo os ditames de uma urgência irrealizável. Por isso, tenso, não dormiu um só minuto. Agitado, subiu à cama e passou um braço em torno da cintura de Blair, ajustando-se às costas dela, com o corpo firmemente encostado.
Era uma deplorável covardia forçar uma cena de intimidade quando sua refém estava desacordada. Mas Blair jamais saberia. E, sobretudo, Taylor sentiu-se muito mais refém dela do que o contrário.
Capítulo VI
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Para Blair, despertar foi um processo longo e complexo. Ela tomou consciência da realidade pouco a pouco, com a cabeça atordoada e a sensação de flutuar no espaço. Ou melhor, de rolar no vazio. Felizmente, existia algo macio debaixo dela.
Em meio à névoa persistente, a memória voltou. Craig Taylor a havia posto fora de combate. Mas como e onde? De qualquer modo, agira como um perito no assunto.
A vista entrou em foco, e Blair percebeu que olhava para um estrado rústico, de tábuas encaixadas, quase sem verniz. A sensação de rolar no espaço continuou enquanto ela procurava desesperadamente organizar o raciocínio e vencer a ansiedade. Forçou-se a não entrar em pânico, examinando os arredores. Notou o colchão, o lençol, e concluiu que estava deitada em uma cama. Um leve marulhar de ondas era registrado por seus ouvidos. Um barco, era isso. Estava em alguma espécie de barco!
Blair havia visto muitos barcos rústicos na América Central, mas aquela cabine era uma obra-prima de imundície. O quarto era um dormitório e uma sala de refeições combinados, e à frente da cama apertada, em um canto, via-se uma mesa redonda, coberta por uma toalha suja.
Uma porta estreita estava às suas costas. Com desdém, ela perguntou-se por que pensava nas comodidades de um bom banheiro, naquelas circunstâncias.
A luz do dia penetrava por uma escotilha ao lado da cama e também por uma vigia quadrada que encimava uma escada de madeira, provável acesso ao convés. Pela abertura, Blair pôde ver o céu azul, e essa imagem a acalmou.
Não entrou em pânico. Já podia encarar os fatos, ainda que estes representassem um golpe doloroso. Traidor! Taylor era um traidor que havia se aproximado dela, seduzindo-a, ganhando-lhe a confiança...
Com esse sentimento de humilhação, o sangue lhe subiu às faces, aumentando a sensação de náusea. Reprimindo um gemido, Blair avaliou o que Taylor tinha feito a ela. Nenhum dano permanente, com certeza. Mas havia sofrido, sim. A agonia da traição valia por mil ferimentos. E, tal qual uma idiota, ela instintivamente suspeitara dele desde o começo, mas quisera acreditar que se tratava de uma boa pessoa. Passara a desejá-lo, e assim tinha capitulado. Agira como uma adolescente, contra toda a sabedoria da maturidade.
Havia se apaixonado pelo homem que lhe conquistara a confiança e nada fizera além de usá-la, divertindo-se enquanto planejava algo sinistro. Mas o quê?
Blair pestanejou com força, tentando desanuviar a mente. Que Deus a ajudasse a esquecer as últimas três semanas! A raiva a assaltou assim que relembrou como tinha instigado e permitido intimidades entre ela e Taylor.
Com os sentidos pressionados pela luxúria, ela quisera fundir-se a ele e, ainda agora, seu corpo guardava a memória dos toques masculinos. Precisou umedecer com a língua os lábios secos e contrair o ventre desejoso de carícias.
Revoltada, Blair afastou ferozmente a sensação persistente dos beijos dele, das mãos a explorar os segredos de sua feminilidade, do prazer que a convulsionara nos encontros amorosos e se transformava em dor. Com tudo isso, ela ainda não conseguia mentir a si mesma e considerar Taylor uma criatura repulsiva.
Mas aquilo era passado. Tinha sido usada, mental e fisicamente, por um lobo em pele de cordeiro. Agora, precisava ver o futuro à frente dela, como sempre fizera.
Para tanto era a filha de Andrew Huntington. Elevou o queixo com orgulho. Mulher
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vivida, racional e inteligente, devia descobrir o que Craig Taylor planejava. Com um súbito arrepio, Blair tomou tento da situação. Era uma refém, uma prisioneira. Não sabia por quê, mas sem dúvida tinha algo a ver com o que Taylor era ou representava. Obviamente, ele conhecia a posição e a fortuna de seu pai. Seria o troféu de um jogo pelo poder? Ou meramente uma vítima da ganância, de um sequestro seguido de extorsão financeira?
No entanto, Taylor tinha bastante dinheiro. Pelo menos, havia se declarado herdeiro de uma família rica. Claro que poderia ser outra mentira.
Um tremor provocado pelo medo a invadiu de novo. Qual era o jogo? Sua vida correria risco? Não, até aquele momento ela não fora fisicamente agredida, apenas colocada inconsciente. Seu coração pesaroso concentrou-se em suas emoções. Era impossível acreditar que Taylor a machucasse, depois de tê-la acariciado e possuído!
Blair determinou-se a interromper essa linha de pensamento. Não levava a nada e ainda lhe minava a coragem de subir os degraus e enfrentar quem quer que pilotasse o barco.
Deslizando as longas pernas pela cama, ela endireitou a cabeça e sofreu uma nova tontura pelo esforço. Sentou-se no leito e procurou apoio com as mãos enquanto a mente rodava. Entre o inexplicável atordoamento e o suave balanço da embarcação, esperou alguns minutos até se assegurar de que não iria desmaiar outra vez.
Finalmente dona das próprias forças, Blair aproximou-se com cautela dos degraus, decidida a controlar seus movimentos e manter os ouvidos atentos.
Qual seria a etiqueta correta para uma refém?, pensou, pela primeira vez divertindo-se com a situação. Conservar a dignidade era o principal. O orgulho de classe e o ódio proveniente da traição também poderiam sustentá-la, permitindo-lhe espiar quem estava no convés. Na verdade, ao colocar o pé no primeiro degrau, rezou para que Taylor ainda fosse seu captor, e não um estranho mais asqueroso ou mais perverso.
Ele devia saber que, em algum momento, Blair subiria. Não tinha outra opção. Atrás do leme, o piloto observou-a alcançar a luz do dia, estreitando os olhos ao brilho do sol, protegendo-os com um braço. Por certo, o olhar de Blair pousara nele por alguns segundos, e então sobreveio aquela insondável emoção produzida pelas íris de esmeralda.
Parecia aliviada. Não deu sinal algum de medo, nem sofreu tremor algum. Com a testa ainda coberta por um braço, Blair examinou a desconjuntada embarcação, das velas acinzentadas até as tábuas da popa, roídas por cupins. O olhar novamente fitou o piloto, simulando desdém e indiferença. Ele esperou, com as mãos no leme. Era mesmo Craig Taylor.
Blair conteve qualquer reação de alegria, invocando a amargura que a presença dele representava.
— Bom dia, sra. Teile — ele arrastou a voz.
O olhar de Blair imediatamente fixou-se no piloto, cujos olhos brilhavam, apesar das maneiras frias.
— Taylor... — ela retribuiu, em um tom de desamparo que ele nunca tinha ouvido.
Era tudo o que Blair podia utilizar em sua defesa.
Como sempre, Taylor parecia à vontade no comando do barco. Vestia roupas novas, bem coloridas, e estabilizava o leme com confortável negligência. Estava descalço, sem chapéu, e o sol lhe acentuava o tom dourado dos cabelos.
— Não sou idiota, Taylor, embora minhas atitudes nas últimas semanas possam ter colocado esse ponto em dúvida — ela declarou friamente, conservando a calma.
— Fico feliz por ouvir isso.
O divertimento dele a irritou, não obstante o olhar aguçado que ameaçava criar uma
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combustão dentro dela. Mas Blair fez um esforço para reter o ar, a fim de se conter, e de novo inspecionou os arredores.
—E então? — Taylor inquiriu educadamente, enquanto Blair dava de ombros.
— Já ouvi falar de planos para resgatar o Titanic do fundo do mar, mas nunca barcos menores. Tem certeza de que não vamos naufragar?
— Não tema nada, sra. Teile. Esta barca velha vai nos levar até o destino.
— Destino? Onde?
— Longe. E mais não posso falar. Sinto muito.
Blair orou mentalmente para não vacilar.
— Desde quando planejava me levar embora?
— Desde que pareceu não se importar muito com a qualidade das acomodações. — Ele riu satisfeito. — Prometo acabar com isto no menor prazo possível.
— Ah, e quando seria?
— Nós dois saberemos, quando a hora chegar.
— Então, você é um mercenário, trabalhando para alguém mais. — O tom dela foi de claro desafio.
— De fato — ele retrucou, enquanto Blair sorria levemente ao ver que havia atingido o objetivo de provocar Taylor —, esta missão em particular se deve a um pedido especial. Um favor que não consegui recusar. Mas eu lhe garanto, mocinha, você ainda não me viu trabalhar.
— Como terrorista — ela desdenhou.
— Pense o que quiser. Mas, já que você não pode sair sozinha daqui, ou ficamos nos olhando o tempo todo, ou você vai à cabine tomar uma xícara de café.
Ela decidiu aceitar a sugestão, mas para usar também o banheiro da cabine. Taylor parecia excepcionalmente saudável: de banho tomado, barba feita, descansado e refrescado, enquanto ela aparentava ter sido atropelada por um bando de cavalos. Precisava se recompor.
— Blair! — O tom autoritário a deteve no meio do caminho.
— O que é?
— Gostaria muito que me trouxesse uma xícara.
Ela desatou a rir, e só parou quando o som beirou a histeria. No íntimo, estava com medo.
— Você deve estar louco! Acabou de me sequestrar, sem que eu saiba o motivo, e agora me pede café!
— Nada de ruim vai acontecer a você — ele falou com firmeza.
— Ah, e como posso saber? Do que se trata, Taylor? Uma manobra política ou uma cobrança de resgate? O que acontecerá se ninguém pagar o que for pedido?
Sem perceber, Blair havia caminhado até perto de Taylor. Ele empertigou-se, mostrando que não apenas era composto de músculos de aço, mas que a vencia folgadamente pela altura.
A despeito do que ouvira, Blair teve um surto de pânico, mas era tarde demais para recuar. Taylor cobriu a distância entre eles com um único passo, mantendo uma das mãos na roda do leme. A outra tocou o ombro de Blair com perícia.
— Repito. Nada vai lhe acontecer. E como temos de conviver aqui por algum tempo, recomendo que aceite a situação. O tempo passará mais depressa e de maneira mais agradável.
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— Aceitar a situação? — O medo dela ficou oculto por uma incrível raiva. — Fingir que somos um casal em férias, explorando a selva?
— Você decide. — Um súbito brilho iluminou os olhos de Taylor. — A companhia não é tão má — ele lembrou com uma dose de maliciosa insinuação. — Sei muito bem que você não me rejeita...
O discurso foi interrompido por um tapa no rosto. Ela o dera sem pensar, depois de somar insulto, humilhação e orgulho ferido. Contemplou com fascínio a marca dos dedos na face de Taylor e, em seguida, percebeu que o olhar dele flamejava de surpresa e pesar.
O rosto dele curvou-se, a poucos centímetros dela, ao mesmo tempo em que a mão lhe comprimia o ombro.
— Tive de lhe aplicar uma injeção ontem à noite, Blair. Portanto, vou considerar o que fez como um acerto de contas. Mas, pelo seu bem e pelo meu, aceite os fatos. Juro que tudo ficará em ordem, e você retomará sua vida normal. Talvez queira me lançar na água, aos crocodilos, mas não tem força para isso. Talvez pretenda me estapear de novo, mas lembre-se de que dou a outra face uma só vez.
— Deixe-me em paz! — ela gritou, perigosamente próxima das lágrimas. — Não quero que me toque.
Taylor afastou-se lentamente, com um esgar.
— Não vou tocá-la a não ser que me peça, mas sugiro uma coexistência pacífica.
— Como seria possível? — Blair também baixou a cabeça.
— Tente.
— Deixe-me em paz — ela repetiu, disposta a escapar de Taylor, ainda que por curto espaço de tempo.
Puxada pelo pulso para junto dele, Blair deu-se conta de que, amigo ou inimigo, aquele homem era uma força dinâmica que não podia ser negada. A energia incansável que pulsava dentro dele era assustadora. Ele representava o poder da mais exuberante vitalidade humana.
Ao inalar a fragrância masculina que já impregnava suas narinas, Blair julgou impossível esquecer a noite, exatamente a última noite, em que o amante podia pedir e obter o que desejasse e, ao mesmo tempo, saciá-la com a realização de todas as fantasias.
Taylor não a soltava, mesmo que fosse apenas pela força do olhar. Blair conseguia captá-la porque sua cabeça estava logo abaixo do queixo dele e pôde reparar nas veias saltadas do pescoço, em cada músculo do tórax.
— Pedi-lhe para confiar em mim, Blair.
— Impossível! — Deveria parecer uma réplica, mas soou como desculpa. — Diga-me o que está acontecendo!
— Não posso. Ponha isso em sua cabeça teimosa.
A pressão no pulso dela aumentou, e Blair imaginou se Taylor cometeria o erro de soltar a roda do leme. Não o fez, ela pensou amargamente, porque precisava de uma só mão para subjugá-la.
— Escute-me, mocinha.
Ela foi subitamente afastada de Taylor por um solavanco do barco.
— Quero tornar tudo isto o mais fácil possível para você, mas, ao contrário, estamos piorando a situação. Não vou deixar que transforme este barco em uma arena. Olhe em torno de você. Só existe água. Eu poderia lançar a âncora, levá-la para a cabine e amarrá-la, mas já disse que não vou machucá-la. Acredite nisso, pelo menos, e tudo dará certo. Não me cause
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problemas, porque acabará por lamentar essa atitude. Entendido?
Blair lutou em vão para livrar o pulso da pressão da mão dele.
— Sim! — bradou sem outra escolha. — No íntimo, você quer que eu aja como uma cúmplice para meu próprio rapto. Está bem, Taylor. Você quer café, e eu vou lhe trazer uma xícara.
Ele a soltou tão bruscamente que Blair desequilibrou-se e quase caiu no convés, sentindo voltar o torpor de antes. Mas recuperou-se logo e rumou para a entrada da cabine. Fora do alcance de Taylor, decidiu que nunca repetiria o erro de subir ao convés de novo. Tinha uma vantagem: seu captor precisava chegar a algum lugar, e assim devia manter o barco navegando.
Ela fez uma pausa à beira da escada.
— Não durma, Taylor—ameaçou. — Não cometa o engano de dormir.
— A preocupação é minha — ele rebateu.
Quando entrou no compartimento inferior, Blair tremia. Por alguma razão, não levava seu sequestrador a sério. Ele dissera não querer feri-la, mas nenhum homem que pretendesse preservá-la pediria desculpas tão sinceras enquanto a derrubava no chão.
Tremia porque nada havia mudado em relação a Taylor. Ao permanecer perto dele, sentindo a intensidade daquela presença, Blair almejou fingir que tudo era um pesadelo e aninhar-se nos braços dele, onde nada mais importaria exceto o enlevo erótico que ele sabia criar.
— Eu o odeio — murmurou para si mesma, de olhos fechados. — Eu o odeio.
Quando parou de tremer e abriu os olhos, Blair viu o pequeno fogão de bordo, alimentado por gás. Uma chama fina dançava sob a cafeteira de alumínio. Levaria, sim, uma xícara para Taylor, e tinha a certeza de que, entre seus duvidosos talentos, ele sabia fazer um café melhor que o dela.