Tempestade no Paraíso

Heather Graham · Capítulo 2 de 4 · parte 3/3

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Tempestade no Paraíso

Exceto passar a noite com ele.

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Iria ao convés, contrariando sua intenção anterior. Pensou que não estava em um cruzeiro turístico, mas era uma prisioneira. E prisioneiras não podiam, por convenção, fazer as vontades de seus carrascos, exceto em troca de um bom grau de liberdade. Taylor a concederia? Ou daria curso à sua ameaça, trancando-a amarrada na cabine?

Pouco tempo Blair gastara na avaliação de seus problemas, quando percebeu que escutara movimentos na parte de cima, e que houvera certa mudança no balanço do barco.

De fato, Taylor tinha jogado a âncora e descido as velas. Estava vindo para baixo.

Aborrecida com a iminente interrupção, Blair continuou a procurar xícaras nos armários da cozinha, e soube no mesmo minuto quando Taylor surgiu atrás dela, permeando o espaço com seu corpanzil. Desolada com a própria obediência, ela evitou olhar para ele. Conseguiu encher duas xícaras de café sem tremer as mãos.

Taylor aceitou a sua e pediu-lhe que sentasse.

Convite ou ordem, a única alternativa era aceder. Espremendo-se para passar por detrás de Taylor, Blair tomou assento à mesa redonda.

Ele não se sentou imediatamente. Apanhou uma camisa azul de trabalho e a vestiu por cima da camiseta, sem abotoar. Devia estar se preparando para o frio do entardecer. Passou a Blair uma carteira de cigarros e o isqueiro. Momentos depois, pegou uma frigideira e lançou nela um punhado de ovos, sobre um filete de óleo. Ao lado dos ovos, dispôs fatias apetitosas de presunto.

Blair acendeu o cigarro, notando que o isqueiro descartável balançava em sua mão. Estava nervosa, enquanto Taylor, à sua maneira, procurava ser gentil. Se não gentil, pelo

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menos atencioso. Adivinhara que ela precisava muito de um cigarro, naquele momento.

O aroma de comida impregnou o ambiente. Apesar de tudo, Blair sentia muita fome e ficou contente por poder alimentar-se.

— Você nem tocou em seu café — ele comentou ao sentar-se, encarando-a.

Era fácil ser apanhada na rede de Taylor. Por isso, Blair determinou-se a não esconder o desprezo que sentia por ele.

— Esperei por você — ela disse, com glacial frieza. — Quis ter a certeza de que a bebida não continha arsênico.

— Que bobagem, Blair — rebateu ele, contrafeito.

— Não sei nada de nada, certo? — ela provocou, enquanto seu captor tomava o café tranquilamente. Era preciso reconhecer que ele fazia o máximo para tornar o convívio suportável.

— Você não sabe nem deve saber de nada, por enquanto. — Taylor falou sem raiva, em tom suave, bastante envolvente. De pé atrás da hóspede forçada, ele estendeu os braços até a mesa, criando uma prisão virtual sem que precisasse tocá-la.

— Imagine que sou membro de um culto secreto. Encontramo-nos de noite na floresta, no Dia das Bruxas. Enfrentei diversos problemas para poder usá-la em um ritual. Poderia afogá-la, esquartejá-la ou amarrá-la em uma árvore, mas não. O grupo inteiro decidiu salvá-la para coisas maiores e melhores. Você daria um adorável alvo do sacrifício, vestida em uma túnica branca, lá em cima no altar...

O relato tinha seu lado fascinante, embora ininteligível. Taylor fez uma pausa, durante a qual fitou Blair com insolência.

— Receio que o grupo secreto exija virgens para o sacrifício, e eu pessoalmente garantiria aos sacerdotes que você não é mais uma donzela.

Assombrada com a absurda explanação, Blair tomou a última frase como uma ofensa. Sem total consciência do que fazia, atirou no rosto de Taylor o restante de seu café.

Felizmente, a bebida já havia esfriado, do contrário causaria uma queimadura séria. Com as gotas pingando de sua face, ele estava surpreso e assustado. Blair deplorou sua atitude enquanto Taylor apanhava um guardanapo para se secar.

— Desculpe-me, está bem?

Ele correu os dedos pela camisa manchada de café.

— Vou trocar de roupa — anunciou, deslocando-se até o armário dos fundos, de onde retirou uma camisa praticamente igual, só um pouco mais desbotada.

Aquele homem, Blair deduziu, possuía grande capacidade de tolerância. No entanto; sem saber como agir, ele retesou os músculos, mostrando de novo as veias saltadas no pescoço. Voltou à mesa devagar, com expressão indecifrável e olhos toldados pela dúvida.

— Eu posso lhe servir outra xícara de café, querida, se você prometer tomá-la até o fim. Acho que sou uma pessoa paciente, mas posso ficar muito bravo se for escaldado.

— O que quer que eu faça? — ela contrapôs. — Que lhe agradeça por me raptar?

— Pedi que acreditasse, que confiasse em mim.

— Pois pediu o impossível.

— Você já confiou em mim.

Blair concentrou-se na sua refeição, antes que esfriasse totalmente.

— Sim, mas foi um erro. — Baixando a cabeça, ela procurou esconder os olhos marejados. — Você até arrancou uma confissão de mim, quando não só lhe contei minha

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vida, mas a de Ray.

— Blair! — O punho dele vibrou sobre a mesa, em um surto de violência que terminou quando Taylor respirou fundo. — O tempo que partilhamos não tem nada a ver com isto. Eu e você, na intimidade, estamos fora desta situação. Tudo o que eu lhe pedi ou dei foi real e sincero.

— Mesmo? Pois eu tenho pensado que me seduzir foi parte do plano...

— Pelo que lembro, você é que me procurou na minha barraca. Mas estou disposto a recomeçar de onde paramos.

— Obrigada, não. — Foi ácida a negativa. — Quero dizer, se eu tiver escolha. Afinal, sou a vítima.

— Pobrezinha! — ele ironizou. — Certamente, você não consegue conciliar sua natureza elegante com a situação atual, mas não insinue que eu a raptei. Estamos há pouco tempo no mar, e nada do que ocorreu entre mim e você poderia ser qualificado de rapto. Nunca usei a força.

Blair sofreu o impacto daqueles olhos leoninos e saiu da mesa. Se ficasse, arriscava-se a jogar outra caneca de café no rosto de Taylor, ou coisa pior. E a reação dele não seria tão calma, da segunda vez.

— Aonde você vai? — ele perguntou friamente.

De costas, ela considerou a pergunta absolutamente tola.

— Aonde eu poderia ir? Lá para cima. Não me acho obrigada a conversar com você.

— Espere! — ordenou Taylor.

Sem confiar na sorte, Blair permaneceu quieta, em atitude hostil, imaginando se seu captor estava pronto a fazer outro discurso ou relato.

Nada aconteceu, mas os olhos dele se mostraram impiedosos quando recolheu a camisa molhada de café.

— Precisamos combinar certas coisas práticas por aqui. Como o suprimento de roupas é limitado, você poderia se encarregar da máquina de lavar.

— Não! — ela protestou, furiosa.

— E também irá cozinhar e navegar este barco comigo. Há uma boa distância a percorrer, sra. Teile, e nada existe fora daqui. Precisamos sobreviver juntos.

— Esqueceu-se, sr. Taylor, de que singrar o mar não foi ideia minha. Se houver algum problema, resolva-o sozinho.

— Veremos — ele comentou misteriosamente, não deixando dúvidas sobre a prevalência de sua vontade. Naquele momento, porém, pouco mais havia a dizer, e assim ele subiu a escada até o convés.

Já que Taylor subira, Blair decidiu permanecer na parte de baixo. Voltou a sentar-se e, notando o maço de cigarros, tirou mais um a fim de acender. Na intenção de se acalmar, contemplou a espiral de fumaça que pairou na cabine. Cortinas cinzentas cobriam as escotilhas e, em um acesso de claustrofobia, ela as abriu. Foi o instante exato de ver as pernas musculosas de Taylor e seus pés descalços passando pelo convés, na operação de levantar a âncora.

Ela fumou o cigarro até o fim, ciente de que, com a retomada da viagem, o balanço da cabine aumentaria. Não era tão desconfortável assim. Blair adorava navegar. Claro que em iates de luxo e águas muito azuis, ao lado do marido.

Ray! Ela pensou no marido com remorso. Havia confiado a Taylor tantos segredos íntimos! Mas a confissão lhe parecera correta, no momento em que ocorrera. Ela conseguira

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purgar o fantasma que a assombrava e encontrar um novo êxtase nos braços do homem de cabelos dourados.

Agora, estava arrependida e revoltada. Deveria ter medo e planejar uma fuga de seu captor, a qualquer custo, mas a humilhação sofrida a impedia de agir. Compreendia que Taylor acertara no alvo, antes e depois. Ela o odiava, desprezava e escarnecia; fosse um terrorista ou um mercenário, não passava de um renegado. E mesmo assim ela o desejava, ansiava por seu toque. O olhar sensual e malicioso ainda detinha o poder de causar arrepios em seu corpo, ante a expectativa de excitação, agonia e êxtase.

Censurou-se, claro, pois não era um animal irracional, e sim um ser humano inteligente, capaz de governar seus instintos com a mente. Detestaria Taylor até que aquele episódio terminasse, e ficaria feliz ao vê-lo atrás das grades.

Leões devem ser ficar enjaulados, pensou.

Os pensamentos de Blair estavam obscuros enquanto tentava chegar a um quadro razoável da situação. Taylor continuava insistindo para que ela confiasse nele, mas o bom senso indicava que isso era inviável. Os sinais de luz em meio à floresta lhe voltaram à mente, acentuando ainda mais sua dor.

Quem era ele? Por que ousava comportar-se como se ela tivesse culpa por não aceitar aquela farsa? Pensou, com razão, que enlouqueceria se continuasse a remoer o assunto. Concluiu, com mais razão ainda, que não poderia passar as horas e os dias sentada na cabine.

Com fastio, observou os pratos deixados na mesa e, embora não quisesse colaborar com Taylor, julgou que a cooperação poderia distraí-lo, deixando-o menos alerta. Talvez ela conseguisse escapulir se ele se acreditasse seguro e no controle.

Blair levou os pratos à pia e começou a vasculhar os armários em busca de sabão ou detergente. Seria estranho se aquela cozinha fosse bem abastecida. Taylor nem mesmo havia mencionado encanamentos e, caso não existissem, o pequeno barco deveria transportar um pequeno recipiente para colocar água para a limpeza.

Ao leme, ele aproveitava a leve brisa para avançar alguns metros. Não havia pressa. A viagem transcorria conforme o planejado. Taylor contemplou a vela enfunada e avaliou suas ações. Por que vinha perdendo a calma tão frequentemente? Era improvável que maneiras mais corteses levassem Blair a renovar sua confiança nele, já que não podia explicar o que fizera, mas também era desnecessário desafiar a refém de modo a provocar sua hostilidade.

Por que fazia isso? Não podia se conter. Uma força primitiva o instava a recordar que ela havia lhe pertencido, completa e intimamente. Também estava apaixonado por Blair, e não conseguia esquecer como ela reagia a seu mais leve toque.

A vela balançou intensamente e exigiu de Taylor muita força nas mãos. Ele ficou tentado a baixar a vela, jogar a âncora e correr para a cabine, até satisfazer seu desejo por Blair, até fazê-la gritar depois de perceber que o queria, amava-o e, não importava como, confiava nele.

"Devagar, Taylor!", sua mente pediu. Os olhos examinaram a água. Existiam alguns problemas com o barco, e ele precisava resolvê-los. Mas não podia aproveitar para isso a iminente passagem pela cidade de Santa Maria Teresa, onde o rio se estreitava. Queria cruzar o local sem que ninguém notasse nada de incomum na embarcação. Segurando uma corda solta da vela a fim de estabilizar o barco, ele agachou-se junto à escotilha.

— Blair! Quero falar com você, aqui em cima.

Não houve resposta. Taylor de fato não esperava que ela o atendesse. Mas ficou agradavelmente surpreso ao ouvir o som de água corrente. Sabia, contudo, que sua princesa não lavava a louça para satisfazê-lo, e sim para passar o tempo.

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— Blair — repetiu com doçura —, você pode por gentileza vir aqui? Não gostaria de lançar a âncora apenas para descer.

Ela ouviu o pedido com os dentes rilhados. Olhou para a cozinha, agora em ordem, e furiosamente enxugou as mãos em um pano de copa. Em definitivo, a embarcação, apesar de rústica, não era desprovida de comodidades. Verniz e pintura podiam estar desbotados, mas não havia uma única tábua na cabine que ela houvesse testado e não se mostrasse sólida. Os armários que descobrira se revelaram repletos de mantimentos, e a pequena geladeira a gás comportava uma boa variedade de carnes. Sob a bancada da mesa, havia feijão, arroz, batata e frutas.

Não obstante, nada disso era encorajador para Blair, pois só indicava que Taylor estava preparado para uma longa viagem.

Ele a chamou de novo, e o impulso de ignorá-lo foi tentador. Embora disposta a causar inúmeros problemas, Blair ainda não tinha certeza de que, irritado até seu limite, Taylor não a espancaria. Ele era fisicamente perigoso, em vários sentidos.

— Estou subindo — ela respondeu, escalando os degraus enquanto forçava no rosto uma expressão de hostilidade. — O que foi?

Ao alcançar o convés, Blair chocou-se contra Taylor e desviou o corpo para o lado.

— É preciso observar a roda, marujo. Preste atenção ao leme — ele comandou animadamente.

Ela olhou e, incrédula, viu que seu raptor havia fixado uma corda a fim de manter o leme parado em uma só direção.

— Não vou conduzir seu barco! — protestou, mas ele desapareceu na entrada para a cabine.

Resmungando, Blair soltou a corda e tomou o leme nas mãos. Não tinha a menor ideia do que fazer, mas conservar um barco na mesma direção, singrando um rio calmo, não exigia grande experiência. E se ela desviasse a embarcação para a margem, obrigando Taylor a parar? Estudou as margens, bem distantes naquele ponto, e nada viu de acolhedor: apenas folhagens escuras e densos arbustos.

Com um suspiro, ela observou a vela que tremulava alta e orgulhosa na brisa. O céu claro colaborou para compor uma imagem mística e cativante.

— Obrigado. — Taylor voltara sem ser visto e retomou a roda do leme, pousando sua mão sobre a dela. Houve uma espécie de choque, pois ela retirou os dedos e saltou imediatamente da cadeira de comandante que ocupava.

Ele lhe entregou uma sacola plástica com roupas, e Blair concluiu que seu atual algoz tinha descido com o propósito de apanhá-la. O conteúdo consistia em trajes de camponês: calça e blusa de algodão rústico.

— Gostaria que usasse isso — ele informou com brandura.

— Eu não vou usar. — Ela deixou a sacola cair a seus pés descalços.

Por um tempo que pareceu interminável, ambos se entreolharam, em desafio. Sob o semblante calmo, Blair sentiu os nervos alterados. Qual era o plano? Se Taylor fosse exigir resgate, por certo ela teria de ser devolvida sã e salva.

— Está bem. — O sorriso dele foi cativante. — Resolva se vai ou não usar o uniforme. Apenas achei que estaria se sentindo um pouco suada. Caso não tenha notado, há um chuveiro lá embaixo. Pensei que gostaria de se lavar e trocar de roupa.

— Obrigada, Taylor — ela retrucou com uma ponta de ironia. — Talvez eu tome banho, mas continuarei usando minha roupa. Ela girou nos calcanhares e rumou até a cabine. A ideia de utilizar o chuveiro era tentadora, embora ele se resumisse a um cano perfurado,

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enroscado na parede e atrás de uma cortina de plástico. Sentiu-se realmente encalorada e necessitada de um banho, mas também vencedora quanto à decisão de não usar as roupas de camponês. Por outro lado, tudo indicava que, pela oferta que fizera de trajes limpos, Taylor pretendia navegar por longo tempo.

Procurando nos armários que se alinhavam na parede, Blair encontrou não somente toalha e sabonete, como também uma calça jeans e uma camiseta que, em vista do tamanho, eram seguramente destinadas a ela. Taylor talvez houvesse lhe dado os outros trajes para servirem de disfarce, ou imaginando que ela quisesse lavar as roupas que usava. Descobriu ainda que não havia meio de fechar a porta do alçapão que conduzia ao convés. Bem, o que estava esperando?

Atenta ao barulho da água que se chocava com o barco, ela deduziu que Taylor permanecia bastante ocupado lá em cima. Então, despiu-se, abriu a torneira e fechou a cortina do diminuto banheiro. A água era fria, como já esperava, mas não desagradável em face do calor externo e interno que Blair sentia. Ela fechou os olhos enquanto a cascata de água a envolvia, trazendo o estímulo de um prazer simples e inconsequente. O aroma do sabonete era bom, e Blair começou a se sentir como se pudesse retomar a batalha.

Com um suspiro, fechou a torneira, lembrando que o barco não devia ter um suprimento muito grande de água, e desejou poupá-lo para os dias seguintes, se viessem a existir. Parecia que sim, pois Taylor não se mostrava preocupado em continuar navegando sem nenhuma pausa. Certamente, o rio não abrigava crocodilos ou outros fatores de risco.

Um som quase indiscernível interrompeu os pensamentos de Blair. Retendo o fôlego, ela segurou a abertura da cortina e esperou. Após dois ou três minutos, nada ouviu e deixou o compartimento do chuveiro. Não havia ninguém ali, muito menos Taylor a espiá-la. Estendeu a mão para onde tinha deixado a toalha e descobriu que ela sumira. Ora, estava certa de que a trouxera, junto com as roupas. Mas também não era impossível que houvesse arrumado tudo sobre a cama, para não molhar as peças.

Não havia som algum na cabine. Taylor não poderia estar ali. No entanto, não só estava como se recostava informalmente na escada interna.

Um movimento singelo com os braços bloqueou a saída que Blair procurava, e o olhar assumiu uma insolente indiferença. Ele entregou a toalha e os trajes de camponês nas mãos dela, notando a face avermelhada.

— De novo, sugiro que vista isto, Blair. Mas a escolha é sua: ou isto, ou nada.

Apertando os dentes com raiva, ela pegou a toalha, preocupada em cobrir-se depressa. Tinha sido tola em pensar que a vitória era sua. Taylor adiantou-se para, gentilmente, dar um nó na proteção felpuda, mas só piorou as coisas ao roçar as mãos nos seios dela. Percebeu o sinal de alarme em Blair e a reação de seu próprio corpo.

— Não seja ridícula — ele declarou, contendo-se. — Conheço cada centímetro de seu corpo.

Voltou-se, apanhou um cigarro e saiu dali com aparente frieza.

 

Capítulo VII

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Taylor acendeu o cigarro com o cenho franzido. Na caixa de isopor com gelo, pegou uma lata de cerveja. Agradeceu mentalmente a Brad Shearer pela cortesia e, com um longo gole, venceu a secura da garganta.

Com o cigarro e a cerveja em uma só mão, ele retomou o leme com a outra e sentou-se na cadeira de comandante, esticando as compridas pernas por debaixo da roda. Fazia tempo desde que se deslocara até a margem, lançara a âncora e dera um descanso ao motor e à vela.

Tinha chegado suficientemente longe. Queria agora um pouco mais de prazo com sua prisioneira antes de atingir áreas habitadas. Mais tarde, à noite, ele retomaria a navegação, cobrindo certa distância no escuro.

Fitando a corda esticada da âncora, Taylor amaldiçoou a si próprio. Era um agente de elite, conhecido pela capacidade de coagir as pessoas até que concordassem com seu modo de pensar. Teria de pressionar Blair um pouco mais, porém esse profissionalismo parecia havê-lo abandonado.

Taylor apanhou-se pensando na pele daquela mulher, na textura aveludada de todo o corpo. Isso o levou a relembrar as curvas de Blair, os seios que ganhavam vida a seu toque, a lascívia que provocava quando sugava os mamilos.

Com um seco grunhido e nova imprecação, Taylor lembrou que sempre tivera o dom de aceitar a realidade, não importando o quanto ela fosse difícil. Por isso, julgara ter sido premiado ao conhecer Blair.

Os motivos alegados para que ele a vigiasse continuavam sigilosos, mas não requeria uma mente demasiado astuta para perceber que o medo de ações de guerrilha, às costas deles, tinha influenciado nas ordens.

Reconhecia que a fina aristocrata não poderia saber de nada, mesmo em caso de fracasso, mesmo que algo desse errado e ela fosse capturada por gente afeita a métodos cruéis para extrair informações.

Alguma coisa havia mudado. Se tinham lhe pedido para sair do acampamento levando Blair, alguma razão existia. Mas, mesmo prevenido da existência de guerrilhas em um país conturbado, Taylor preferia pensar que sua viagem, da selva até a costa, constituía mera precaução.

Seu chefe devia ter imaginado que, uma vez no barco, a dupla não teria como passar o tempo. Não conhecia bem a filha de Andrew Huntington.

Taylor sentiu raiva dela, mas o sentimento era fora de propósito, e ele sabia disso. Blair contava com recursos acima da média das mulheres. Sua educação lhe permitia dormir em leito estreito, sem reclamar.

Taylor jogou o cigarro na água e voltou o pensamento para o corpo nu da companheira de viagem.

Estava sendo atraído para ela, sabia, mas lutava contra isso, enquanto Blair lhe atingia o fundo do ser simplesmente por existir. Bastava olhar para ela, e seu corpo reagia com tortuosa tensão, sua respiração se tornava rápida e pesada.

"Esqueça", Taylor alertou-se. Blair o havia classificado como a escória do mundo e não ficaria longe disso quando ela conhecesse a verdade. Ponderou vagamente se Blair compreenderia. Depois se ergueu impaciente, fugindo do sol que brilhava em um círculo escaldante. Um jantar agradável com sua relutante prisioneira cairia bem, tão logo ele lançasse a âncora.

Também seria bom se ela dormisse profundamente por longas horas.

Retornando à cabine, Taylor encontrou evidências de que Blair havia revirado o local,

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em busca de roupas. Ele sorriu, pois obviamente ela não achara nada e apenas se cansara. Vestida nas roupas nativas que antes recusara, ela repousava na cama, o olhar fixo nas tábuas do teto.

Taylor a ignorou e examinou o fogão, faminto. Já que ela não havia preparado nada para comer, colocou na panela uma generosa porção de arroz e pedaços de carne. Não era exímio um cozinheiro, mas aprendera o suficiente para sobreviver.

Ao olhar de viés para Blair, Taylor constatou que ela notava sua presença, porém escolhera o desprezo como arma de defesa. Como gostaria de arrancá-la da cama e dar-lhe um pontapé no traseiro que a levasse direto para a beira do fogão! Não era uma atitude machista.

Se Blair ajudasse, a refeição ficaria pronta mais rápido e seria bem mais palatável.

Taylor teve o bom senso de não fazer nada. A paciência era uma virtude que também aprendera a cultivar. Verificou a panela e, minutos depois, tinha um jantar a saborear. Pegou talheres e dois pratos no armário, arrumou precariamente a mesa redonda e anunciou:

— Jantar. — Antes de se sentar, ele vasculhou o compartimento e descobriu, com alegria, um engradado cheio de garrafas de vinho. Removeu a rolha de uma e serviu dois copos à mesa.

Blair gostaria de recusar o convite, porém não pôde. A situação já se achava no limite de não morrer de fome. Fazia vinte e quatro horas desde que havia se alimentado pela última vez.

Taylor não a fitou quando ela veio sentar-se. Já que decidira conter-se e privar-se, concluiu que qualquer iniciativa na direção de Blair seria perda de tempo: Ela observou os blocos de arroz grudados, pouco apetitosos, mas a carne parecia excelente. Testou-lhe o sabor, cortando um pedaço. Em silêncio, Taylor a viu comer com prazer, enquanto se concentrava no próprio prato. Foi uma espécie de desafio, ver quem suportava por mais tempo o silêncio constrangedor.

— Suponho que eu deva ser entregue saudável e bem alimentada — ela provocou, após tomar um gole de vinho. — E este uniforme, sem dúvida, faz parte da prestação de contas.

— Sinto muito — ele contrapôs — que não tenhamos champanhe francês para o seu desfrute. Mas é verdade que você precisa voltar em boas condições.

Taylor acendeu um cigarro, sem esboçar gesto algum para servir mais vinho a Blair. Com sarcasmo, ela precisou pedir licença a fim de pegar a garrafa.

— Também quer um pouco? — ofereceu em tom irônico, mas ele exibiu uma expressão descontraída. — Bem, suponho igualmente que devo confiar em você.

— É verdade. — Taylor acautelou-se diante da acidez de Blair.

— Você é mesmo um rapaz simpático.

— Disse tudo.

— Então, Senhor Simpatia, já pensou que o grupo de combate à fome ficou carente de pessoal e com isso terá problemas?

— Nada faltará à turma. Em pouco tempo, o dr. Hardy receberá algo mais importante do que sua preciosa presença: dinheiro.

Blair procurou esconder a surpresa atrás de mais ironia.

— Certamente você trabalha em várias frentes, não?

— Lamento desapontá-la. — Uma leve expressão de vitória perpassou-lhe a face. — A doação vai ser um presente pessoal de minha parte.

Perplexa, ela mal pôde respirar. Então, Craig Taylor era mesmo rico, e não por causa

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de um resgate. A não ser, claro, que estivesse mentindo, ao contrário do que sua educação e experiência deixavam entrever. Mas de qualquer modo a informação transmitida não era tranquilizadora. Se o objetivo dele não era um resgate em dinheiro, a implicação se tornava mais grave. Só podia estar relacionado com política.

— Você deve ser uma espécie de fanático esquerdista — Blair murmurou.

Taylor mudou de posição e inclinou-se para ela, apoiando os cotovelos na mesa.

— Não, sra. Teile. Já lhe disse que pratico magia negra na floresta, à noite, com meus amigos da selva. Acontece que alguns de nós temos dinheiro. — Afastou-se da mesa com feições mais cansadas do que divertidas, estendeu a mão a fim de pegar o copo de vinho e ergueu-o no que parecia um brinde. — Desculpe-me. — Com isso, subiu os degraus até o convés, onde, como de costume, esticou as pernas sob a roda do leme.

Blair terminou de jantar rapidamente, contente por não ter o olhar de Taylor como testemunha de sua voracidade. Magia negra! Se ainda estivessem no século XVII! Mas deleitou-se com a imagem de uma cena em que seu raptor encontrava-se amarrado a uma estaca, tendo brasas flamejantes aos pés.

Contrariada, fitou os pratos, talheres e panelas sujos. Poderia mostrar-se cooperativa e limpar tudo. Mas não. Taylor podia esperar. Blair afastou-se da pia imaginando que, pela manhã, encontraria uma lavadora automática a sua disposição.

Irritada com a roupa folgada que dançava em seu corpo, ela perguntou-se por que Taylor havia trazido um jeans a mais, se a obrigava a usar aqueles trajes da América Central.

Sentindo-se sufocada na cabine, ela também subiu a escada até o convés superior. O comandante não se voltou para ela, mas lhe detectou os movimentos.

— O que está fazendo? — quis saber.

— Procurando um pouco de ar fresco — ela respondeu secamente, para depois acrescentar com humildade: — Posso?

— Claro.

Blair buscou privacidade junto ao mastro principal, onde abriu a camisa de brim rústico. Fitou a água na tentativa de se localizar. Onde estavam? No escuro da noite, era difícil dizer. A nesga de lua não iluminava a margem do rio, talvez porque a claridade da cabine fosse mais forte. Em todo caso, o que haveria para ver? Selva, mato ou manguezais. Ela sabia que já estava longe do acampamento de combate à fome, mas onde? A América Central era grande, como não ignoravam as pessoas de seu meio, no entanto, caso divisasse um vilarejo, poderia gritar por socorro.

Era improvável. Taylor não parecia um amador que lhe propiciasse tal oportunidade.

E o que aconteceria, Blair continuou matutando, se pulasse e nadasse até a margem? Estava familiarizada com a floresta, e também seu espanhol era excelente. Sem dúvida conseguiria ajuda. Mas a escuridão continuava sendo um forte obstáculo.

— Sem ideias loucas, Blair — Taylor a abordou com uma das mãos no ombro, como se adivinhasse seus pensamentos. — Se nadar para a margem, logo estarei atrás de você, e nado como um peixe. Se alcançar a terra, posso correr como um cervo. Também consigo pular de galho em galho, como o mais ágil dos macacos.

— Estou impressionada! — Blair murmurou em tom cáustico, erguendo o ombro a fim de livrar-se da mão dele. — Diga-me, sr. Taylor, há outros talentos que o façam destacar-se dentro do mundo animal?

Taylor riu.

— Não pretendia me gabar — disse ele, agachando-se ao lado de Blair. Seus olhos cintilantes agora insinuavam cenas de deliciosa intimidade. — Mas há algumas coisas que sei

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fazer como um coelho.

Ela respirou fundo e ergueu-se, com a graça de sempre; murmurou um boa-noite e retornou ao alçapão, à vigia que dava acesso à escada para a cabine. Taylor observou sua retirada, notando os ombros retos e o queixo erguido. Mesmo na penumbra, os cabelos dela brilhavam, cascateando até o meio das costas.

De mãos cruzadas sobre o colo, contemplou o céu noturno. Por um instante, apenas um instante, sentira como se houvesse rompido o gelo com Blair.

Ouviu os movimentos dela na cabine e ponderou na inevitável batalha que travaria naquela noite. Não poderia manter Blair dopada para sempre. Chegara a pensar em dar-lhe mais uma injeção na veia e passar a noite inteira tranquilo no convés, enquanto ela dormisse. Mas descartou a ideia quase imediatamente.

Em uma viagem longa, precisava chegar a um acordo razoável com a prisioneira, dona de muita fibra e coragem. Caso ela tentasse fugir, poderia machucar-se seriamente.

Não, era melhor que se entendessem a fim de dormir na mesma cama, ainda que isso significasse uma contenda infernal. Relaxou a musculatura depois de admirar o céu e caminhou até a linha da âncora. Momentos depois, o barco já se movia na correnteza.

Mais uma vez, Blair ignorou a confusão reinante na cabine, depois do jantar. Tomou mais vinho, cujo gosto ácido não mais a incomodou. Investiu na ideia de que o álcool aplacaria o turbilhão de ideias em sua mente.

Quanto tempo aquela situação iria durar? E, de novo, quem era Craig Taylor? Além de um feiticeiro da floresta, acrescentou mentalmente com humor cáustico. Incapaz de rotular seu carismático raptor como um renegado, ela começou a racionalizar, ocupando uma cadeira e acendendo mais um cigarro.

Enquanto alternava as tragadas e os goles de vinho, desenvolveu alguns conceitos. Tinha de existir alguma boa qualidade em Taylor. Era impossível equiparar o homem de carne e osso que viera a conhecer tão bem nas últimas semanas com um assassino frio. E lunáticos cruéis, de esquerda ou de direita, não mandavam dinheiro a associações humanitárias como compensação por ter-lhes roubado um par de mãos eficientes.

Seria viável tocar o fundo da alma de Taylor e convencê-lo de que seu modo de vida estava errado? Ele a ouviria? Blair poderia, em troca, prometer cooperar, interceder, ou mesmo omitir qualquer acusação contra ele perante as autoridades.

Pensando melhor, era um absurdo. Taylor não tinha o perfil de quem desistia de uma ação que houvesse escolhido realizar. Quaisquer que fossem seus princípios, ele os seguia e os cumpria à risca.

A não ser que, em um belo momento, admitisse seu erro.

Blair espantou-se ao sentir que o barco se movimentava outra vez. Tentou em vão enxergar alguma coisa pela vigia. Por que Taylor navegava de noite?

Ela retornou à cadeira. Nada daquilo importava, já que não faria tentativa alguma de escapar. Exausta física e mentalmente, só queria lavar o rosto e desabar na cama.

Defronte ao espelho do banheiro, Blair ficou surpresa por ver que sua aparência pouco havia mudado. Abrindo o armário, encontrou, como esperava, uma escova de cabelos na segunda prateleira. Mecanicamente, ela a usou sobre suas mechas raivas. Preferia não pensar em mais nada, presa de um infindável redemoinho que lhe confundia a mente. Preferia não sentir, já que as emoções que experimentava eram todas dolorosas.

Blair desejava alívio do medo e da traição, um escape de seus dilemas. Apagou a luz e acomodou-se na cama, repousando com prazer a cabeça no travesseiro. Na verdade, temia não dormir, pois a mente não era como uma lâmpada que simplesmente podia ser desligada.

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O cansaço a venceu, e Blair não só adormeceu logo como não acordou durante a noite. Quando Taylor entrou na cabine, ela dormia tão profundamente que ele, em silêncio e no escuro, apenas tomou seu lugar ao lado dela. E também não houve dificuldade em se levantar, de madrugada, muito antes que ela percebesse sua presença ali.

 

Uma espécie de teste de vontade sucedeu-se pela manhã. Taylor procurou ser amável, mas tinha um detalhe a comprovar: Blair devia cooperar com ele.

Assim, embora cozinhasse e servisse um prato para ela, Taylor só limpava o que necessitava usar. Teimoso, ateve-se a tal decisão, que também foi demonstrada quando quebrou um prato caído no chão e deixou os cacos no mesmo lugar.

Ela acabaria ficando irritada com toda aquela desordem na cozinha e se proporia a arrumá-la. Era o que ele pensava, pois Blair, convencida de que ele quebrara o prato de propósito, ignorou solenemente os resíduos, bem como as observações de Taylor, e manteve distância. Não obstante, agir dessa maneira demandava um considerável esforço.

Ao cair da noite, depois de um jantar reciclado a partir do almoço, e com a mesa deixada suja outra vez, Blair sentiu-se novamente cansada. Havia assumido a direção do barco à tarde, enquanto Taylor descansava e tomava sol no convés. Quando ele subiu, após a refeição, ela permaneceu na cabine, pronta para um cochilo, mas aborrecida com a louça quebrada no piso e a confusão geral na mesa.

Determinou-se a não fazer nada a respeito disso, e, de novo, o sono lhe veio fácil.

Algum tempo mais tarde, Blair começou a despeitar sob uma miríade de sons que se filtravam por sua consciência. Pôde ouvir vozes ao longe, algumas sérias, outras ensaiando risadas. Ainda mais longe, escutou os acordes de um violão.

Saltando da cama, ela deslocou o tampo do alçapão e olhou, equilibrada na escada. Estavam passando por um vilarejo, e as vozes vinham das docas, onde pescadores noturnos conferiam o conteúdo de suas redes. Luzes de uma cidadezinha brilhavam em amarelo pálido e, em algum bar, os trabalhadores deviam estar tomando cerveja e ouvindo música.

O rio se apresentava estreito naquele ponto. Seguramente, Blair poderia chamar por socorro e ser acudida pelos aldeões.

Alcançando o convés, ela observou Taylor, cujos olhos também pousavam nas margens povoadas enquanto manobrava o leme. Blair precisaria passar por detrás dele e se arrastar até a amurada se quisesse pedir socorro.

Antes que desse um passo, Taylor a puxou pela cintura e obrigou-a a dividir a roda do leme com ele. Com a respiração suspensa, ela pronunciou um débil "Socorro!", que infelizmente não ultrapassou os limites da embarcação. Mas ela insistiu, dessa vez mais forte:

— Socorro! Ayudame!

Navegar em leito tão diminuto era arriscado, mas Taylor parecia ter tudo sob perfeito controle, mesmo com uma só mão sobre o leme. A outra servia para manter Blair a seu lado e forçar a cabeça dela contra seu ombro, a fim de tapar-lhe a boca. A ela pareceu uma tortura, porque quanto mais se debatia, mais se enredava na força muscular do comandante.

— Não posso deixá-la fazer isso, Blair — ele explicou, relaxando um pouco o aperto. — Por favor, não grite mais.

Os olhos dele pediam compreensão e anuência, em vez de impor uma ordem. No entanto, enquanto isso acontecia, o barco terminou de passar pelo vilarejo, debaixo de acenos amistosos dos pescadores. Taylor pôde então ajustar o braço que mantinha em tomo de Blair, sentindo que ela gritaria por ajuda de novo, embora sem resultado prático: a aldeia ficara para

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trás e, tangida pelo vento forte, a embarcação parecia voar sobre as águas.

— Se quiser, pode acenar para o simpático povo daqui — ele zombou.

— Solte-me! Não vou acenar nem gritar...

Taylor não a libertou e fixou nela um olhar estranho, como Blair pôde perceber. Naquelas condições, talvez ele nem a houvesse escutado. Em seguida, o comandante fixou detidamente a vela principal.

— Segure o leme — ordenou, enfim soltando-a e correndo até o mastro. — Segure firme!

Blair nada entendia de navegação, mas, sentindo uma onda forte sacudir o barco, instintivamente agarrou o leme. Detestava o papel de imediato de um comandante pirata, mas também abominava a ideia de morrer afogada.

Rapidamente, Taylor passou a balançar a linha da âncora, depois puxou o cordame da vela, manobrando-a de forma a estabilizar o barco. Vendo que uma nova e perigosa onda crescia à sua frente, Blair reteve o leme com toda a força que pôde. A embarcação respondeu, rolando com facilidade apesar do vento intenso.

Momentos depois a vela estava dominada e o deslocamento entrou em ritmo seguro, apesar da inclinação do barco para estibordo. Nos mesmos pés descalços que o haviam ajudado a equilibrar-se sobre as tábuas do convés, Taylor dirigiu-se até Blair e retomou o controle do leme.

— Pode voltar para a cama — disse com aspereza.

Os belos olhos que ela contemplou não foram capazes de redimir a grosseria do comandante, alheio à ajuda que recebera. Sem uma palavra, Blair virou-se e desceu a escada. Os pratos que propositalmente deixara sobre a mesa haviam caído no chão e se transformado em cacos. Seu primeiro impulso foi limpar todo aquele desastre, mas logo mudou de ideia. Afinal, era uma refém, não uma criada.

Ao sentir um movimento às suas costas, virou-se para se deparar com Taylor. Era claro que ele também não tinha a intenção de recolher os cacos. Com óbvio desprazer, falou abruptamente para Blair:

— Você limpará isto pela manhã.

Ela não respondeu, e ele julgou desnecessário reforçar a instrução. Já deitada, Blair acompanhou com o olhar todos os movimentos de Taylor, enquanto ele diminuía a luz do ambiente, mas preferiu agir como se estivesse dormindo e não acordaria exceto se fosse forçada a tanto.

— Dê-me espaço na cama — ele ordenou logo depois.

— O quê? — os olhos se abriram arregalados, incrédulos.

— Eu disse para você me deixar deitar — ele respondeu impaciente.

Blair a princípio não se mexeu, mas deu-se conta de que estava bem acordada e saltou da cama, encarando seu algoz com as mãos na cintura.

— Oh, não! — protestou. — Você não vai dormir aqui dentro comigo.

Imaginara uma queixa cheia de dignidade, mas as palavras soaram como súplica. Sentia um medo terrível, mais de si mesma que de Taylor. A despeito de tudo o que acontecera entre eles, Blair vinha evitando encontrar desculpas. Passava incontáveis momentos, porém, admirando o homem que a levara embora do acampamento.

— Você prometeu — acusou. — Você disse...

— Prometi que nunca a forçaria a nada, e não se preocupe. Não tenho intenção de tocá-la. Só quero dormir direito, em uma cama. — Ele omitiu a informação de que já ocupara

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a vaga ao lado dela, na noite anterior.

— Eu posso dormir no chão — Blair propôs em desespero.

Taylor cruzou os braços diante do peito desnudo e balançou a cabeça em negativa.

— Perdão, mas ancorei muito perto da margem. Como você não confia em mim, também não confio em você. Poderia pedir para nadar um pouco e, então, tentar atravessar a selva até o povoado mais próximo. Mas prometi entregá-la em boas condições, por isso nem pensar em aventuras noturnas.