Terra do Gelo
Araluen e Seus Vizinhos
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
ANO DE 643 DA ERA CRISTÃ
O navio estava a apenas algumas horas do Cabo Shelter, quando uma forte tempestade o atingiu.
Durante três dias, tinham navegado para o norte, na
direção da Escandinávia, por um mar calmo como um lago, fato que muito agradou a Will e Evanlyn.
— Até que não está tão ruim — Will disse enquan-
to o navio estreito cortava as águas com tranquilidade.
Ele tinha ouvido histórias sombrias sobre pessoas
que passavam muito mal a bordo de embarcações no mar. Mas para ele o suave balanço do navio não era motivo de preocupação.
Evanlyn concordou um pouco hesitante. Ela não
era uma navegante experiente, mas já tinha estado no mar antes.
— Se não ficar pior que isso — ela retrucou. Ela ti-
nha notado os olhares de preocupação que Erak, o capitão do navio, lançava para o norte e o modo como ele estava estimulando os remadores do Wolfwind a aumentar a ve-locidade. Quanto a Erak, ele sabia que aquele tempo en-ganosamente calmo anunciava uma mudança para pior — muito pior. Vagamente, no horizonte ao norte, ele via a linha escura da tempestade se formando. Ele sabia que, se não conseguissem dar a volta no Cabo Shelter e entrar no abrigo da massa de terra em tempo, seriam atingidos por toda a força da tempestade. Durante vários minutos, ele avaliou velocidades e distâncias, analisando seu avanço em comparação ao das nuvens que se aproximavam apressa-das.
— Não vamos conseguir — ele disse finalmente
para Svengal. Seu segundo homem no comando concor-dou.
— Acho que não — Svengal respondeu filosofica-
mente.
Erak examinou o navio com atenção, certificando-
se de que não havia equipamentos soltos que precisavam ser amarrados. Seu olhar caiu sobre os dois prisioneiros encolhidos na proa.
— É melhor amarrar esses dois no mastro. E tam-
bém vamos prender o remo de direção com cordas.
Will e Evanlyn observaram Svengal se aproximar
deles com um rolo de corda fina na mão.
— E agora? — Will perguntou. — Eles não podem
estar pensando que vamos tentar escapar.
Mas Svengal tinha parado no mastro e estava fa-
zendo sinais agitados para eles. Os dois araluenses se le-vantaram e andaram com passos incertos até ele. Will per-cebeu que o navio estava balançando mais e que o vento soprava mais forte. Ele andou com dificuldade para che-gar perto de Svengal. Atrás dele, ouviu Evanlyn murmurar um palavrão, nada adequado a uma nobre, quando ela tropeçou e arranhou a pele num poste de amarração.
Svengal apanhou sua faca de caça e cortou dois pe-
daços de corda do rolo.
— Se amarrem ao mastro — ordenou. — Vamos
enfrentar uma tempestade violenta a qualquer minuto.
— Você quer dizer que podemos ser atirados ao
mar? — Evanlyn perguntou sem acreditar.
Svengal percebeu que Will estava se amarrando ao
mastro com um nó de laço perfeito. A garota estava tendo problemas, de modo que Svengal pegou a corda, passou-a ao redor da cintura dela e a prendeu também.
— Talvez — o marinheiro respondeu. — É mais
provável que vocês sejam jogados ao mar pelas ondas.
Ele viu o rosto do garoto empalidecer de medo. — Você está dizendo que as ondas podem mes-
mo... cair no convés? — Will perguntou.
Svengal lhe deu um sorriso duro e sem humor. — Ah, podem sim...
Ele correu de volta para ajudar Erak na popa, onde
o capitão já estava amarrando o imenso leme.
Will engoliu em seco várias vezes. Ele tinha imagi-
nado que um navio daquele tamanho deslizaria sobre as ondas como uma gaivota e agora lhe diziam que era pro-vável que as ondas caíssem estrondosamente sobre o con-vés. Ele se perguntou como o barco continuaria flutuando se isso acontecesse.
— Oh, Deus... o que é aquilo? — Evanlyn pergun-
tou baixinho, apontando para o norte.
A linha fina e escura que Erak tinha visto era agora
uma massa negra e turva a apenas 300 metros de distância, aproximando-se a uma velocidade maior que a de um ca-valo a galope. Os dois se aproximaram mais da base do mastro e tentaram envolver todo o poste áspero de pinho com os braços, procurando se prender até com as unhas.
E então o sol desapareceu quando a tempestade ca-
iu sobre eles.
Só a força do vento já foi suficiente para deixar Will
sem fôlego. Literalmente. Aquele não era um vento como outros que Will conhecera. Aquele vento parecia uma for-ça selvagem, viva e primitiva, que corria em volta dele, deixando-o surdo e cego, e que arrancava o ar de seus pulmões e o impedia de enchê-los novamente: ele o sufo-cava e ao mesmo tempo tentava fazer que soltasse as mãos do poste. Com os olhos bem fechados, Will tentava respirar e se segurava desesperadamente ao mastro. Va-gamente, ouviu os gritos de Evanlyn e sentiu quando ela começou a escorregar para longe dele. Ele tentou agarrá-la sem olhar, encontrou sua mão e a puxou de volta.
A primeira onda enorme caiu sobre o convés, e a
proa do navio se inclinou num ângulo assustador. Eles começaram a ser levados para cima junto com a onda e então o navio oscilou e começou a deslizar.
— Para trás e para baixo! — Svengal e Erak grita-
ram para os remadores. Suas vozes foram levadas para longe pelo vento, mas a tripulação, de costas para a tem-pestade, viu e entendeu a linguagem de corpo dos dois homens. Eles se inclinaram sobre os remos, dobraram as hastes de carvalho com seus esforços e lentamente a em-barcação parou de deslizar para trás. O navio começou a se agarrar à onda, subindo cada vez mais lentamente até Will ter certeza de que eles teriam que começar uma terrí-vel descida em sentido contrário.
Então a crista da onda quebrou e desabou com um
ruído de trovão em cima deles.
Toneladas de água caíram com estrondo no navio,
impelindo-o para baixo, empurrando-o para a direita até se ter a impressão de que ele nunca iria voltar à posição original. Will soltou um grito selvagem de terror, mas foi interrompido pela água gelada e salgada que o atingiu e o obrigou a soltar o mastro, encheu sua boca e seus pul-mões e o arrastou pelo convés até que a corda frágil o fez parar. Coberto e cercado pela água, Will foi virado de um lado para outro. Quando o navio se endireitou, ele ficou se debatendo como um peixe fora da água. Evanlyn estava ao lado dele e, juntos, arrastaram-se com dificuldade de volta ao mastro, segurando-se nele com novo desespero.
Nesse momento, a proa se lançou para a frente, e
eles foram arrastados aos trambolhões em meio à água, deixando seus estômagos para trás e gritando aterroriza-dos mais uma vez.
A proa cortou a onda imensa, dividindo o mar e jo-
gando-o bem para o alto. Mais uma vez, a água caiu sobre o convés, como uma cascata, mas não quebrou com a for-ça da onda anterior, e os dois jovens conseguiram se segu-rar ao mastro. A água, na altura da cintura, passou por eles com violência, mas logo o navio esguio pareceu conseguir se livrar do peso imenso.
Nos bancos dos remadores, a tripulação substituta
já estava trabalhando a todo vapor, jogando água por cima da amurada com baldes. Erak e Svengal, na parte mais exposta do navio, também estavam presos com cordas nos lados do remo de direção, um instrumento resistente da metade do tamanho dos remos normais. Ele era usado como remo de direção, menos em situações como essa.
O leme longo dava ao timoneiro um ponto de a-
poio maior para que pudesse ajudar os remadores a dar a volta no navio. Naquele dia, foi necessária a força de dois homens para dirigi-lo.
Na calha que se formava entre as ondas, tinha-se a
impressão de que o vento perdia a força. Will limpou o sal dos olhos, tossiu e vomitou água do mar no convés. Ele viu o olhar aterrorizado de Evanlyn. Teve a leve sensação de que devia tentar tranquiliza-la, mas não havia nada que pudesse dizer ou fazer, pois não acreditava que o navio poderia suportar outra onda como aquela.
No entanto, já havia outra a caminho. Ainda maior
do que a primeira, ela avançava na direção do barco, per-correndo várias centenas de metros, empinando-se e con-centrando-se bem acima deles, mais alta do que os muros do castelo Redmont. Will enterrou o rosto no mastro e sentiu Evanlyn fazendo o mesmo quando o navio come-çou novamente uma terrível e lenta subida.
O navio subiu cada vez mais, acompanhando as pa-
redes da onda. Os homens se esforçavam até sentir os co-rações quase estourarem ao tentar levar o Wolfwind onda acima, enfrentando a força combinada do vento e do mar. Desta vez, antes de a onda quebrar, Will teve a impressão de que o navio ia perder a luta no último momento. Ele abriu os olhos aterrorizado quando a embarcação come-çou a voltar para o desastre certo. Então, a crista se enro-lou por cima do barco e caiu com toda a força em cima deles e novamente o rapaz, girando e rolando foi jogado pelo convés. Will foi contido pela corda que o prendia, sentiu algo bater dolorosamente em sua boca e percebeu que era o cotovelo de Evanlyn. A água caiu estrondosa-mente sobre ele, e a proa se virou para baixo outra vez. O navio começou outro mergulho escorregadio e louco para o outro lado, rolando, jogando água do mar para todos os lados. Fraco demais para gritar, Will gemeu levemente e rastejou de volta para o mastro. Ele olhou para Evanlyn e balançou a cabeça. “Não há como sobreviver a isso”, ele pensou, vendo o mesmo temor no olhar da companheira.
Na popa, Erak e Svengal se abraçaram enquanto o
Wolfwind batia com força na calha formada pelas ondas, jogando jatos de água nos dois lados da proa, fazendo to-do o corpo do navio vibrar com o impacto. A embarcação girou, sacudiu e se endireitou novamente.
— Ela está aguentando bem — Svengal gritou.
Erak concordou preocupado. Por mais assustador
que pudesse parecer para Will e Evanlyn, o navio tinha sido, construído para aguentar águas violentas como aque-las. Mas mesmo um navio tem suas limitações. E, se aqui-lo continuasse por muito tempo, Erak sabia que todos morreriam.
— A última quase nos derrubou — respondeu. Um movimento de último minuto feito pelos re-
madores tinha conseguido arrastar o navio por cima da crista da onda quando ele estava prestes a deslizar para trás, de volta para a calha.
— Vamos ter que virar o barco e correr antes da
tempestade. Svengal concordou olhando o horizonte com os olhos apertados para se proteger do vento e do sal.
— Depois daquela.
A onda seguinte era um pouco menor do que a que
quase tinha acabado com eles, mas “menor” não era uma palavra muito tranquilizadora. Os dois escandinavos aper-taram com mais força o leme de direção.
— Remem, droga! Remem!
Erak rugia para os remadores quando a montanha
de água se ergueu acima deles, e o Wolfwind começou outra subida lenta e precária.
— Ah, não, por favor, permita que isso acabe logo!
— Will gemeu quando sentiu a proa se inclinar para cima outra vez.
O terror era fisicamente exaustivo. Ele só queria
que aquilo acabasse. “Mesmo que o navio tenha que afun-dar”, pensou. Ele queria que tudo se acabasse. Que che-gasse ao fim. Que aquele terror que paralisava a mente terminasse. Ele ouvia Evanlyn ao lado dele soluçando de medo. Ele a abraçou, mas não conseguiu fazer mais nada para consolá-la.
Eles subiram cada vez mais. E então ouviram o co-
nhecido rugido das ondas quebrando e o trovão de água despencando cm cima deles. Em seguida, a proa atraves-sou a crista, bateu na parte posterior da onda e despencou para baixo. Will tentou gritar, mas estava sem energias e com a garganta dolorida, e conseguiu emitir apenas um leve soluço.
O Wolfwind cortou o mar na base da onda outra
vez. Erak gritava instruções aos remadores. Eles teriam pouco tempo na sombra do vento da próxima onda que se aproximava e, nesse tempo, teriam que virar o barco.
Os remadores apoiaram os pés nas tábuas de ma-
deira. Os que estavam na popa, ou do lado direito, do na-vio viraram os cabos dos remos para o seu lado. Os rema-dores do lado esquerdo empurraram os seus para a frente. Quando o navio se endireitou, Erak gritou suas ordens.
— Agora!
As lâminas dos remos mergulharam fundo no mar
e, enquanto um dos lados empurrava e o outro puxava, Erak e Svengal jogaram o peso do corpo no leme. O navio longo e estreito girou obediente, quase no mesmo lugar, levando a proa para o lado do vento e do mar.
— Agora, empurrem juntos! — Erak rugiu, e os
remadores obedeceram com vontade.
Ele tinha que manter o navio se movimentando um
pouco mais depressa do que o mar ou este iria vencê-los. Ele olhou uma vez para os dois prisioneiros de Araluen, agachados infelizes junto do mastro, mas se esqueceu de-les quando voltou a analisar o avanço do navio, mantendo a proa virada para o mar. Qualquer erro seu e o barco des-lizaria para o lado. Seria o fim. O capitão sabia que esta-vam navegando mais facilmente, mas não era o momento para se distrair.
Para Will e Evanlyn, o navio ainda estava mergu-
lhando e balançando de modo assustador, subindo até 15 metros de altura, mas agora o movimento estava mais controlado. O barco estava acompanhando o mar, não lutando contra ele. Will sentiu o movimento se acalmar. Borrifos de água ainda os atingiam a intervalos regulares, mas o balanço violento para trás pertencia ao passado. À medida que o navio conseguia enfrentar cada montanha sucessiva de água que passava por baixo e ao redor dele, Will começou a acreditar que eles poderiam ter uma leve chance de sobrevivência.
Mas era uma chance muito pequena. Ele ainda sen-
tia o mesmo pavor tomando conta de todo o seu corpo sempre que uma onda caía sobre eles. A cada vez, tinha a impressão de que aquela poderia ser a última. Ele envol-veu Evanlyn com os dois braços, sentiu os braços dela envolverem seu pescoço e o rosto gelado se colando ao dele. E assim os dois jovens procuraram e encontraram conforto e coragem UM no outro. Evanlyn choramingava de medo. E com alguma surpresa Will percebeu que ele também, pois murmura palavras sem sentido repetidas vezes, chamando o nome de Halt, de Puxão, de qualquer pessoa que pudesse ouvir e ajudar. Mas, à medida que as ondas se seguiam, uma atrás da outra, e o Wolfwind so-brevivia, o terror cego diminuiu e foi substituído por uma exaustão nervosa e, por fim, ele adormeceu.
Durante mais sete dias, o navio foi levado para o
sul, para longe do Mar Estreito e perto das margens do Oceano Sem Fim. Will e Evanlyn passaram o tempo todo encolhidos junto do mastro, encharcados, exaustos, con-gelados. O medo paralisante do desastre estava sempre presente em suas mentes, mas aos poucos eles começaram a acreditar que poderiam sobreviver.
No oitavo dia, o sol atravessou as nuvens. Ele esta-
va fraco e sem brilho, é verdade, mas era o sol. Os violen-tos mergulhos no mar tinham parado e mais uma vez o navio deslizou suavemente na superfície da água.
Erak, com a barba e os cabelos cobertos de sal,
empurrou cansado o leme, obrigando o navio a fazer uma curva suave e virar para o norte outra vez.
— Vamos para o Cabo Shelter — ele disse para a
tripulação.
Halt estava encostado imóvel no grosso tronco de um carvalho, enquanto os bandidos corriam para fora da flo-resta e cercavam a carruagem.
Ele não estava escondido, mas ninguém o via. Em
parte, isso se devia ao fato de os ladrões estarem total-mente concentrados em suas presas, um mercador rico e sua mulher. Eles, por sinal, também estavam igualmente distraídos, olhando horrorizados para os homens armados que cercavam a carruagem na clareira.
Mas, principalmente, isso se devia à capa que usava
e que o camuflava, ao capuz puxado sobre a cabeça que deixava o rosto na sombra e por estar totalmente imóvel. Como todos os arqueiros, Halt sabia o segredo de se con-fundir com a paisagem e ficar sem se mover, mesmo quando as pessoas pareciam estar olhando diretamente para ele.
Acredite que você não é visto, dizia o ditado dos arquei-
ros, e isso vai acontecer.
Uma figura corpulenta toda vestida de preto surgiu
de entre as árvores e se aproximou da carruagem. Os o-lhos de Halt se estreitaram por um segundo e então ele suspirou em silêncio. “Outra caçada inútil”, pensou.
A figura se parecia ligeiramente com Foldar, o ho-
mem que Halt vinha procurando desde o fim da guerra com Morgarath. Foldar fora primeiro-tenente de Morgara-th e tinha conseguido escapar quando seu líder morreu e seu exército de subumanos Wargals se desfez.
Mas Foldar não era uma besta irracional. Ele era
um ser humano capaz de pensar e planejar, totalmente corrompido e perverso. Filho de um nobre de Araluen, ele matou os próprios pais depois de uma discussão por causa de um cavalo. Na época, não era mais que um adolescente e escapou se escondendo nas Montanhas da Chuva e da Noite, onde Morgarath reconheceu um espírito semelhan-te ao seu e o recrutou. Agora era o único sobrevivente do bando de Morgarath, e o rei Duncan havia tornado sua captura e aprisionamento prioridade número 1 para as forças armadas do reino.
Entretanto, imitadores de Foldar estavam surgindo
em todos os lugares, geralmente na forma de bandidos comuns, como aquele, e isso era um problema. Eles usa-vam o nome e a assustadora reputação do homem para amedrontar as vítimas, facilitando o trabalho de roubá-las. E, sempre que um deles aparecia, Halt e seus companhei-ros tinham que perder tempo seguindo-os. Ele sentiu a raiva queimar devagar por causa do tempo que estava desperdiçando com esse aborrecimento sem importância. Halt tinhas outras questões a resolver. Ele tinha uma promessa a cumprir e estava sendo impedido por idiotas como aquele.
O falso Foldar tinha parado perto da carruagem. O
casaco preto com colarinho alto lembrava um pouco o que Foldar usava. Mas Foldar era um janota, e seu casaco era feito de veludo e cetim preto imaculado, enquanto a-quele era de lã comum, mal tingido e remendado em vá-rios lugares, com um colarinho de couro preto desbotado.
O gorro era feito de um tecido áspero e também es-
tava amassado, e a pena negra de cisne que o enfeitava estava dobrada ao meio, provavelmente porque alguém havia sentado descuidadamente sobre ele. Agora o ho-mem estava falando e sua tentativa de imitar o tom sarcás-tico e balbuciante de Foldar foi prejudicada pelos erros de gramática e pelo sotaque grosseiro do interior.
— Vamo descer da carruagem, senhor e madame
— ele disse fazendo uma curvatura desajeitada. — E num tenha medo, madame, que o nobre Foldar não machuca ninguém tão bunita.
Ele tentou dar um sorriso sardônico e malvado que
mais pareceu um cacarejo esganiçado.
A “madame” podia ser qualquer coisa, menos boni-
ta. Ela era de meia idade, gorda e bastante comum. “Mas isso não é motivo para ser sujeitada a esse tipo de terror”, Halt pensou aborrecido. Ela recuou choramingando as-sustada ao ver o vulto negro diante dela. “Foldar” deu um passo à frente num tom de voz mais duro e ameaçador.
— Desça, dona! — ele gritou. — Ou vai receber as
orelhas de seu marido de presente!
Sua mão direita foi até o cabo da longa adaga presa
no cinto. A mulher gritou e se encolheu ainda mais na car-ruagem. O marido, igualmente apavorado e preferindo que as orelhas ficassem onde estavam, tentava empurrá-la na direção da porta.
“Já chega”, Halt pensou. Satisfeito por ninguém es-
tar olhando para ele, apanhou uma flecha, ajeitou-a na corda, mirou e atirou.
“Foldar”, cujo verdadeiro nome era Rupert Gub-
blestone, teve a leve impressão de que algo passou como um raio bem na frente de seu nariz. Então ele sentiu um forte puxão na gola do casaco e se viu pregado contra a carruagem por uma flecha trêmula que entrou na madeira com um baque surdo. Soltou um pequeno grito assustado, perdeu o equilíbrio e tropeçou, salvo de cair pelo casaco, que agora começava a estrangulá-lo onde estava fechado ao redor do pescoço.
Quando os outros bandidos se viraram para ver de
onde a flecha tinha vindo, Halt se afastou da árvore. No entanto, para os ladrões confusos, parecia que ele tinha saído de dentro do forte carvalho.
— Arqueiro do rei! — Halt chamou. — Larguem
as armas. Eram dez homens, todos armados, e nenhum deles pensou em desobedecer à ordem. Facas, espadas e porretes caíram com ruído no chão. Eles tinham acabado de ver um exemplo real da magia obscura de um arqueiro: a figura sombria tinha saído direto do tronco vivo de um carvalho. Mesmo naquele momento, a estranha capa que ele usava parecia tremular incertamente contra o fundo, tornando difícil a tarefa de enxergá-lo. E, se feitiçaria não fosse suficiente para obrigá-los a obedecer, eles podiam ver uma razão mais prática: o enorme arco com outra fle-cha de ponta negra já pronta na corda.
— De bruço no chão! Todos vocês! As palavras chegaram até eles como um chicote e
eles caíram no chão. Halt apontou para um deles, um jo-vem de cara suja que não devia ter mais que 15 anos.
— Você não! — ele disse, e o menino hesitou, a-
poiado nas mãos e NOS joelhos. — Pegue os cintos e a-marre as mãos deles nas costas.
O garoto apavorado fez que sim com a cabeça vá-
rias vezes, aproximou-se do primeiro dos colegas deitados e parou quando Halt lhe deu mais um aviso.
— E aperte bem! — o arqueiro mandou. — Se eu
descobrir que um dos nós está solto, eu vou...
Ele hesitou um segundo, enquanto pensava numa
ameaça apropriada, e então continuou:
— Vou prender vocês dentro daquele carvalho ali. “Isso deve servir”, ele pensou. Ele sabia do efeito
que sua aparição inexplicável na frente da árvore tinha exercido naqueles interioranos ignorantes. Aquele era um estratagema que já tinha usado várias vezes. Ele viu o ros-to do garoto empalidecer de medo debaixo da sujeira e soube que a ameaça tinha sido eficiente. Então voltou a atenção para Gubblestone, que puxava debilmente a tira de couro que prendia a capa que continuava a asfixiá-lo. O rosto do homem já estava vermelho e com os olhos salta-dos.
E eles ficaram ainda mais arregalados quando Halt
desembainhou a pesada faca de caça.
— Ah, relaxe — Halt disse irritado. Ele cortou a corda rapidamente e Gubblestone, li-
vre de repente, caiu desajeitado no chão, aparentemente satisfeito por ficar ali, fora do alcance da faca cintilante. Halt olhou para os ocupantes da carruagem. O alívio em seus rostos era evidente.
— Acho que podem seguir viagem, se quiserem —
disse satisfeito. — Esses idiotas não vão mais aborrecer vocês.
O mercador, lembrando-se com remorso de como
tinha tentado empurrar a mulher para fora da carruagem, tentou disfarçar o constrangimento esbravejando.
— Eles merecem ser enforcados, arqueiro! Enfor-
cados, eu digo! Eles aterrorizaram minha pobre mulher e me ameaçaram!
Halt olhou impassível para o homem, até que a ex-
plosão tivesse terminado.
— Pior do que isso — ele disse com calma —, eles
desperdiçaram o meu tempo.
— A resposta é não, Halt — Crowley afirmou. —
Do mesmo jeito que foi da última vez que perguntou.
Ele viu a raiva tomar conta de todo o corpo do ve-
lho arqueiro amigo parado à sua frente. Crowley detestava o que tinha de fazer, mas ordens eram ordens e, como comandante dos arqueiros, era sua função fazer que fos-sem cumpridas. E Halt, como todos os arqueiros, tinha que obedecê-las.
— Vocês não precisam de mim! — Halt explodiu.
— Estou perdendo tempo caçando esses imitadores do Foldar em todo o reino, quando deveria estar procurando Will!
— O rei tornou Foldar sua prioridade número 1 —
Crowley lembrou. — Cedo ou tarde, vamos encontrar o verdadeiro.
— E você tem 49 outros arqueiros para fazer esse
serviço! — Halt protestou com um gesto de desespero. — Pelo amor de Deus, acho que isso é suficiente.
— O rei Duncan quer os outros 49. E ele quer vo-
cê. Ele confia em você e tonta com você. Você é o melhor que temos.
— Já fiz a minha parte — Halt respondeu devagar,
e Crowley sabia o quanto o amigo ficava magoado ao di-zer essas palavras.
Ele também sabia que sua melhor resposta seria o
silêncio. Um silêncio que Crowley sabia que iria obrigar Halt a raciocinar um pouco mais e de um jeito que detes-tava.
— O reino deve para esse menino — Halt disse
com um pouco mais de firmeza na voz.
— O garoto é um arqueiro — Crowley retrucou
com frieza.
— Um aprendiz — Halt corrigiu, fazendo que
Crowley se levantasse, derrubando a cadeira por causa da violência do movimento.
— Um aprendiz aceita os mesmos deveres de um
arqueiro. Sempre foi assim, Halt. A regra é igual para to-dos os arqueiros: o reino em primeiro lugar. Esse é nosso juramento. Todos o fizemos, você, eu, Will.
Houve um silêncio zangado entre os dois homens,
que ficou ainda pior por causa dos anos que tinham vivido como amigos e camaradas. Crowley se deu conta de que Halt provavelmente era o seu melhor amigo. Agora, ali estavam eles, trocando palavras amargas e discutindo irri-tados. Ele estendeu a mão, endireitou a cadeira caída e fez um gesto de paz para Halt.
— Olhe — ele começou num tom mais suave —,
só me ajude a resolver essa questão do Foldar. Dois me-ses, talvez três, e você pode ir procurar Will com minha bênção.
Halt já estava balançando a cabeça grisalha antes
que seu chefe tivesse terminado.
— Ele pode estar morto em dois meses. Ou ser
vendido como escravo e se perder para sempre. Preciso ir enquanto a pista ainda está fresca. Prometi a ele — acres-centou depois de uma pausa com a voz embargada pelo sofrimento.
— Não — Crowley repetiu com determinação. Ao
ouvir a resposta, Halt endireitou os ombros.
— Então vou falar com o rei — ele anunciou.
Crowley olhou para a escrivaninha.
— O rei não vai recebê-lo — ele disse simplesmen-
te.
Ele olhou para Halt e viu surpresa e decepção no
olhar do arqueiro.
— Ele não vai me receber? Ele se recusa a me ver? Por mais de 20 anos, Halt tinha sido um dos maio-
res confidentes do rei, com acesso constante e inquestio-nável aos aposentos do monarca.
— Ele sabe o que você vai pedir, Halt. Ele não
quer recusar seu pedido, então vai se recusar a ver você.
A surpresa e a decepção deixaram o olhar de Halt.
Em seu lugar, ficou uma raiva amarga.
— Então vou ter que fazer ele mudar de ideia —
Halt disse com calma.
Quando o navio deu a volta no cabo e atingiu a proteção da baía, as ondas fortes diminuíram de intensidade. Den-tro do pequeno porto natural, o alto promontório rochoso quebrava a força do vento e das ondas e as águas eram calmas, e sua superfície era perturbada somente pelo ras-tro espumante deixado pelo navio.
— Estamos na Escandinávia? — Evanlyn pergun-
tou.
Will deu de ombros sem saber a resposta. O lugar
certamente não se parecia com o que ele esperava. Na praia, havia apenas algumas cabanas pequenas em ruínas, mas nenhum sinal de cidade ou de pessoas.
— Não parece muito grande, não é? — ele retru-
cou.
Svengal, enrolando um pedaço de corda com cui-
dado, riu da ignorância do rapaz.
— Isso não é a Escandinávia. Não estamos nem no
meio do caminho. Aqui é Skorghijl.
Vendo o espanto no olhar dos garotos, ele conti-
nuou a explicação.
— Não podemos ir para a Escandinávia agora. A-
quela tempestade no Mar Estreito nos atrasou tanto que os ventos de verão chegaram. Vamos nos abrigar aqui até que eles passem. É para isso que servem aquelas cabanas.
Will olhou com ar de dúvida para as cabanas de
madeira estragadas pelo tempo. Elas pareciam frias e des-confortáveis.
Quanto tempo isso vai levar? ele perguntou, e
Svengal deu de ombros.
— Seis semanas, dois meses. Quem sabe? Ele se afastou com o rolo de corda no ombro e
deixou os dois jovens explorarem a vizinhança.
Skorghijl era um lugar deserto e desagradável, com
pedras nuas, penhascos íngremes de granito e uma peque-na praia plana onde o sol e as cabanas esbranquiçadas pelo sal se amontoavam. Não havia árvores ou folhas verdes em nenhum lugar visível. As bordas dos penhascos esta-vam cobertas pelo branco da neve e do gelo. O resto eram pedras e argila, granito negro e cinza desbotado. Era como se os deuses adorados pelos escandinavos tivessem remo-vido todos os vestígios de cor daquele pequeno mundo pedregoso.
Inconscientemente, não precisando mais lutar con-
tra o constante ataque das ondas, os remadores diminuí-ram o ritmo. O navio deslizou pela baía até a praia. Erak, no leme, manteve a embarcação no canal que corria direto para o mar até que a quilha finalmente raspou na areia e eles ficaram imóveis pela primeira vez em dias.
Will e Evanlyn se levantaram com as pernas vaci-
lantes depois de dias de movimento constante.
Ouviu-se o barulho de madeira batendo em madei-
ra quando os remos foram puxados e guardados dentro do navio. Erak enrolou uma tira de couro no leme para evitar que batesse com o movimento da maré e olhou ra-pidamente para os dois prisioneiros.
— Vão para a praia, se quiserem — ele sugeriu. Não havia necessidade de amarrá-los ou vigiá-los de
alguma maneira. Skorghijl era uma ilha com cerca de dois quilômetros de largura em seu ponto mais largo. Era esse porto natural perfeito que a tornava um refúgio para os escandinavos durante os ventos de verão: a costa da ilha era uma linha ininterrupta de penhascos íngremes que caí-am no mar.
Will e Evanlyn foram até a proa do navio passaram
pelos escandinavos que estavam descarregando barris de água e cerveja e sacos de comida desidratada dos espaços cobertos debaixo do convés central. Will passou por cima da amurada, ficou pendurado por alguns segundos e então pulou para a areia embaixo. Ali, com a proa inclinada para cima como se tivesse deslizado praia acima, havia uma altura considerável até as pedras. Ele se virou para ajudar Evanlyn, mas ela já estava saltando depois dele.
Os dois ficaram de pé hesitantes.
— Meu Deus — Evanlyn murmurou, sentindo-se
balançar quando a terra firme debaixo dela pareceu girar e oscilar.
Ela tropeçou e caiu apoiada num dos joelhos. Will não estava em melhor condição. Agora que o
movimento constante tinha parado, a terra seca debaixo deles parecia ondular e virar e ele se apoiou nas tábuas do barco para não cair.
— O que foi isso? — perguntou para Evanlyn. Ele olhou para o chão debaixo dos pés, esperando
ver a areia se movendo e formando montes e colinas, mas ela estava lisa e imóvel. Sentiu os primeiros sinais de náu-sea se juntando na boca do estômago.
— Tomem cuidado! — avisou uma voz acima de-
les, e um saco de carne seca caiu com estrondo nas pedri-nhas do lado de Will.
Ele olhou para cima, balançando sem firmeza, e viu
os olhares sorridentes de um membro da tripulação.
— Estranhando o balanço? — o marinheiro per-
guntou de um jeito simpático. — Em algumas horas vocês vão estar acostumados.
A cabeça de Will girava. Evanlyn tinha conseguido
recuperar o equilíbrio. Ela ainda balançava, mas pelo me-nos não estava enjoada como Will.
— Venha — ela disse, segurando o braço dele. —
Estou vendo uns bancos perto daquelas cabanas. A gente vai se sentir melhor quando sentar.
E, cambaleando, eles tropeçaram pela areia molha-
da até as mesas e os bancos rústicos de madeira colocados do lado de fora das cabanas.
Agradecido, Will se deixou cair num deles, segurou
a cabeça nas mãos e apoiou os cotovelos nos joelhos. Gemeu aflito quando outra onda de náusea tomou conta dele. Evanlyn estava se sentindo um pouco melhor.
— O que está causando isso? — ela perguntou
preocupada, dando-lhe tapinhas no ombro.
— Isso acontece quando se esteve a bordo de um
navio por alguns dias.
Jarl Erak tinha se aproximado deles por trás. Ele ti-
nha um saco de provisões pendurado no ombro e o colo-cou no chão do lado de fora de uma das cabanas, gru-nhindo de leve com o esforço.
— Por algum motivo, as pernas parecem pensar
que você ainda está no convés do navio. Ninguém sabe por quê. Isso dura só algumas horas e então você vai se sentir muito bem.
— Acho que nunca mais vou me sentir bem —
Will gemeu com voz rouca.
— Vai, sim — Erak garantiu. — Acendam uma fo-
gueira — ele disse bruscamente, mostrando com o polegar uma pilha de pedras escurecidas a poucos metros da caba-na mais próxima. — Você vai se sentir melhor com uma comida quente.
Will gemeu quando ouviu falar de comida. Mesmo
assim, levantou-se vacilante do banco e pegou a pedra de fogo que Erak lhe oferecia. Ele e Evanlyn foram até o lo-cal em que deveriam acender a fogueira. Do lado, havia uma pilha de madeira seca pelo sol e pelo sal. Algumas das tábuas estavam quebradiças o bastante para serem partidas com as mãos, e Will começou a formar uma pirâmide com os pedaços em meio ao círculo de pedras.
Evanlyn, por sua vez, reuniu pedaços de musgo se-
co para ajudar a fazer o fogo pegar. Em 5 minutos, eles tinham acendido uma pequena fogueira cujas chamas lambiam avidamente os pedaços maiores de madeira que agora juntavam ao fogo.
— Como nos velhos tempos — Evanlyn murmu-
rou com um pequeno sorriso.
Will se virou rapidamente para ela, devolvendo o
sorriso. Ele viu claramente a ponte de Morgarath surgir acima deles outra vez, e as chamas que eles tinham produ-zido se alimentando vorazmente das cordas cobertas de piche e tábuas de pinho cheias de resina. Suspirou pro-fundamente. Se pudesse, faria tudo de novo, mas preferia que Evanlyn não estivesse envolvida, que ela não tivesse sido capturada com ele.
Então, mesmo enquanto desejava isso, percebeu
que ela era a única fonte de luz em sua vida de amargura naquele momento e que, ao desejar que ela estivesse lon-ge, desejava afastar a única centelha de alegria e normali-dade em seus dias.
Ele se sentiu confuso. Num momento de extrema
surpresa, ele se deu conta de que, caso Evanlyn não esti-vesse ali, quase não valeria a pena viver. Ele se virou e to-cou a mão dela levemente. Evanlyn olhou para ele outra vez e, dessa vez, Will foi o primeiro a sorrir.
— Você faria isso de novo? — ele perguntou. —
Sabe, a ponte e todo o resto?
Ela não devolveu o sorriso, apenas ficou muito
pensativa por vários minutos.
— Faria, sim, e você?
Will fez que sim com a cabeça e suspirou outra vez
pensando em tudo o que tinha deixado para trás.
Sem que os jovens percebessem, Erak tinha ouvido
o diálogo e fez um leve gesto de cabeça. Era bom que os dois tivessem a amizade um do outro. A vida ia ser difícil para eles quando chegassem a Hallasholm e à corte de Ragnak. Eles seriam vendidos como escravos e levariam uma vida de trabalho braçal pesado, sem descanso e sem liberdade. Seria um dia difícil depois do outro, mês após mês, ano após ano. Uma pessoa que vivesse desse jeito precisaria de um amigo.
Seria demais dizer que Erak gostava dos dois jo-
vens, mas eles tinham conquistado o respeito dele. Os es-candinavos eram uma raça guerreira que valorizava a co-ragem e a dedicação à batalha acima de tudo, e tanto Will quanto Evanlyn tinham provado sua coragem quando des-truíram a ponte de Morgarath. O garoto era um lutador. Ele tinha derrubado os Wargals como pinos de boliche com seu pequeno arco. Erak raramente tinha visto um atirador mais rápido e certeiro e adivinhou que isso era resultado do treinamento como arqueiro.
E a menina também tinha mostrado muita cora-
gem, primeiro ao garantir que o fogo estivesse bem aceso na ponte e depois, quando Will foi finalmente derrubado por uma pedra jogada por um dos escandinavos, ao tentar ela mesma pegar o arco e continuar atirando.
Era difícil não sentir compaixão por eles. Os dois
eram muito jovens e tinham muita coisa para viver no fu-turo. Ele tentaria facilitar as coisas para eles o máximo possível quando chegassem a Hallasholm. Mas não havia muito o que pudesse fazer. Ele balançou a cabeça zanga-do, afastando o humor sombrio que tinha tomado conta dele.
— Estou ficando muito sensível! — resmungou pa-
ra si mesmo. Erak percebeu que um dos remadores estava tentando tirar um pedaço de carne de porco do saco às escondidas. Em silêncio, aproximou-se do homem por trás e lhe deu um violento chute no traseiro, fazendo que se esparramasse no chão.
— Mantenha suas mãos leves longe disso! — voci-
ferou.
Então, abaixando a cabeça para passar pela porta,
entrou na cabana escura que cheirava a fumaça para pegar a melhor cama para ele.
A taverna era um local pequeno, sujo e desagradável, de teto baixo e enfumaçado, mas ficava perto do rio onde os grandes navios atracavam para descarregar mercadorias que seriam comercializadas na capital e, portanto, os ne-gócios costumavam ir bem.
Naquele exato momento, porém, os negócios esta-
vam um tanto parados e o motivo estava sentado numa das mesas simples e manchadas perto da lareira. Ele olhou para o dono da taverna com olhos que faiscaram debaixo das sobrancelhas grossas e bateu a caneca vazia nas tábuas de pinho ásperas da mesa. — Está vazia outra vez — dis-se zangado.
A voz apenas levemente arrastada lembrava ao do-
no do lugar que aquela era a oitava ou nona vez que ele ia encher a caneca com o conhaque barato e forte vendido nos bares em portos como aquele. “Uma venda é uma venda”, ele disse para si mesmo, indiferente, mas aquele cliente parecia ser dado a encrencas, e o taberneiro dese-jou que o homem fosse embora e criasse problemas em outro lugar.
Seus clientes habituais, com seu instinto excepcio-
nal para prever problemas, tinham desaparecido quando o pequeno homem chegou e começou a beber daquele jeito descontrolado. Apenas meia dúzia ficou. Um deles, um estivador imenso, tinha examinado o homem menor e de-cidido que seria fácil lidar com ele. O homem podia ser pequeno e estar bêbado, mas sua capa cinza-esverdeado e a bainha para duas facas que levava no quadril esquerdo mostravam que se tratava de um arqueiro. E arqueiros, como qualquer pessoa sensata podia lhe dizer, não eram gente com que se devesse brincar.
O estivador aprendeu isso do jeito mais difícil. A
luta mal durou alguns segundos e o deixou estendido no chão, inconsciente. Seus companheiros saíram apressados para um ambiente mais seguro e amistoso. O arqueiro os viu sair e fez sinal para que lhe servissem mais bebida. O dono da taverna, nervoso, passou por cima do estivador, encheu a caneca do arqueiro e voltou para a relativa segu-rança do balcão do bar.
E então a verdadeira confusão começou. — Fiquei sabendo — o arqueiro anunciou, pro-
nunciando as palavras com a precisão cautelosa de um homem que sabia que tinha bebido demais — que nosso bom rei Duncan, senhor deste reino, não passa de um co-varde.
Se o ambiente no bar antes disso já prenunciava
problemas, agora fervia de tensão. Os olhos dos poucos clientes restantes ficaram presos à pequena figura sentada à mesa. Ele olhou ao redor com um leve sorriso sombrio brincando nos lábios, quase invisível entre a barba e o bi-gode grisalhos.
— Um covarde. Um poltrão. E um idiota — ele
disse claramente. Ninguém se mexeu. Aquela conversa era perigosa. Atacar ou insultar o rei em público daquela ma-neira era considerado um crime grave para o cidadão co-mum. Para um arqueiro, um membro que prestou jura-mento às forças especiais do rei, era quase traição. Olhares nervosos foram trocados. Os poucos clientes restantes desejaram poder sair sem chamar atenção, mas algo no olhar calmo do arqueiro lhes disse que isso não era mais possível. Eles perceberam que naquele momento o arco que tinha estado encostado na parede atrás dele já estava preparado. E a aljava ao seu lado estava cheia de flechas. Todos sabiam que a primeira pessoa que tentasse atraves-sar a porta da frente seria rapidamente seguida por uma delas. E todos sabiam que os arqueiros, mesmo bêbados, raramente erravam um alvo.
No entanto, ficar ali enquanto o arqueiro censurava
e insultava o rei era igualmente perigoso. Se alguém des-cobrisse o que estava acontecendo, seu silêncio poderia muito bem ser tomado como aprovação.
— Fiquei sabendo de fonte certa — o arqueiro
continuou quase com prazer — que o bom rei Duncan não é o ocupante legal do trono. Ouvi dizer que ele é, na verdade, o filho de um limpador de banheiros bêbado. Outro boato diz que ele foi o resultado da fascinação do pai por uma dançarina ambulante. Escolham o que prefe-rirem. Seja como for, está longe de ser uma linhagem ade-quada para um rei, certo?
Um leve suspiro de preocupação passou nos lábios
de alguém. Aquilo estava ficando cada vez mais perigoso. Nervoso, o dono da taverna se mexeu atrás do balcão, quando viu um movimento no fundo do aposento e se virou para enxergar melhor a porta. Sua mulher, saindo da cozinha com uma travessa de tortas para o bar, tinha pa-rado quando ouviu a última declaração do arqueiro. Páli-da, ela parou e se virou para o marido com uma pergunta silenciosa no olhar.
Ele olhou rapidamente para o arqueiro, mas a aten-
ção do outro homem estava voltada para um carroceiro que tentava não ser notado na extremidade do bar.
— O senhor não concorda... você de jaqueta ama-
rela manchada com quase todo o café da manhã de on-tem... que uma pessoa dessas não merece ser rei desta ter-ra maravilhosa? — ele perguntou.
O carroceiro resmungou e se mexeu na cadeira sem
querer fazer contato visual.
O dono da taverna fez um sinal quase imperceptí-
vel na direção da entrada dos fundos da casa. A mulher olhou na mesma direção e depois para o marido com as sobrancelhas erguidas numa pergunta. “A guarda”, ele dis-se movendo os lábios em silêncio e viu que ela tinha en-tendido. Andando sem fazer ruído e ainda fora da linha de visão do arqueiro, ela atravessou o aposento do fundo e saiu pela porta, fechando-a atrás de si o mais silenciosa-mente possível.
Mesmo tomando todo o cuidado, a tranca fez um
pequeno clique quando se fechou. O olhar do arqueiro, desconfiado e interrogativo, saltou para o dono da taver-na.
— O que foi isso? — ele perguntou, e o dono da
taverna deu de ombros, esfregando nervosamente as mãos úmidas no avental manchado.
Ele não tentou falar, pois sabia que a garganta esta-
va seca demais para formar palavras.
Por um rápido momento, ele pensou ter visto um
lampejo de satisfação na expressão do outro homem, mas afastou o pensamento, achando-o ridículo.
À medida que os minutos se arrastavam, os insultos
e ofensas ao rei Duncan ficavam mais animados e atrevi-dos. O dono da taverna engoliu em seco ansioso. Sua mu-lher tinha saído havia dez minutos. Certamente, ela já ti-nha encontrado um destacamento da guarda que deveria chegar a qualquer momento para levar aquele homem pe-rigoso dali e fazer que parasse com aquela conversa desle-al.
No mesmo instante em que esses pensamentos
passavam por sua cabeça, a porta da frente se abriu fazen-do ranger as dobradiças, e um grupo de cinco homens, liderados por um cabo, entrou no aposento mal ilumina-do. Cada um estava armado com uma espada comprida e levava um cassetete curto e pesado pendurado no cinto, e todos usavam um escudo redondo amarrado às costas.
O cabo avaliou o aposento enquanto seus homens
se espalhavam atrás dele. Seus olhos se estreitaram quan-do viu a figura curvada sobre a mesa.
— O que está acontecendo aqui? — ele perguntou,
e o arqueiro sorriu.
O dono da taverna percebeu que era um sorriso
que não chegava aos seus olhos.
— Estávamos falando de política — ele contou
com palavras cheias de sarcasmo.
— Não foi o que ouvi — o cabo retrucou irritado.
— Ouvi dizer que você estava falando de traição.
O arqueiro fez uma careta de incredulidade e er-
gueu uma sobrancelha com uma expressão surpresa e zombeteira.
— Traição? — ele repetiu e então olhou ao redor
curioso. — Alguém aqui andou contando mentiras, então? Será que alguém aqui é um dedo-duro cuja língua deveria ser... cortada?
Tudo aconteceu tão depressa que o dono da taver-
na quase não teve tempo de se jogar no chão atrás do bar. Enquanto cuspia as últimas palavras, o arqueiro tinha ar-rumado uma forma de pegar o arco atrás dele, preparado e atirado uma flecha. Ela atingiu a parede atrás do lugar em que o dono da taverna tinha estado em pé um segundo antes e se enterrou no fundo do painel de madeira, tre-mendo com o impacto.
— Já chega... — o cabo começou.
Ele deu um passo à frente, mas incrivelmente o ar-
queiro já tinha outra flecha pronta no arco. A ponta cinti-lante mirava a testa do cabo, e o arco estava esticado e tenso. O cabo parou, olhando a morte de frente.
Solte a arma — ele disse.
Mas faltava autoridade em sua voz, e ele sabia dis-
so. Uma coisa era manter bêbados das docas e arruaceiros na linha, outra totalmente diferente era enfrentar um ar-queiro, um lutador habilitado e assassino treinado. Mesmo um cavaleiro iria pensar duas vezes sobre um confronto dessa natureza. Aquilo estava muito além da capacidade de um simples cabo da guarda.
No entanto, o cabo não era covarde e sabia que ti-
nha uma tarefa a cumprir. Ele engoliu a saliva várias vezes e então, muito devagar, levantou a mão para o arqueiro.
Coloque... a arma... no chão — ele ordenou, mas
não obteve resposta.
A flecha continuou a mirar sua testa, na altura dos
olhos. Hesitantemente, ele deu um passo à frente.
— Não faça isso.
A ordem foi simples e clara. O cabo teve certeza de
que podia ouvir o próprio coração batendo forte como um tambor e se perguntou se os outros no aposento tam-bém podiam ouvir. Ele respirou fundo. Tinha jurado leal-dade ao rei. Não era nenhum nobre ou cavaleiro, apenas um homem comum. Mas sua palavra significava tanto pa-ra ele quanto para um oficial bem-nascido. Ele tinha fica-do satisfeito em exercer sua autoridade durante anos li-dando com bêbados e criminosos sem importância. Agora tinha chegado o momento de receber o pagamento por aqueles anos de autoridade e respeito. Ele deu mais um passo.
O zunido provocado pelo arco quando soltou a fle-
cha foi quase ensurdecedor no aposento tomado pela ten-são. Instintivamente e com violência, o cabo se encolheu e cambaleou para trás alguns centímetros, esperando a ar-dente agonia da flecha e depois a escuridão da morte cer-ta.
E percebeu o que tinha acontecido. A corda tinha
arrebentado.
O arqueiro olhou para a arma inútil em suas mãos
sem acreditar. As pessoas ficaram imóveis por alguns se-gundos e então o cabo e seus homens saltaram para a frente agitando os cassetetes pesados que carregavam, a-glomerando-se em volta da pequena figura vestida de ver-de e cinza.
Quando o arqueiro foi derrubado pela chuva de so-
cos, ninguém percebeu que ele deixou cair a pequena faca que usou para cortar a corda. Mas o dono da taverna se perguntou como um homem que tinha se movimentado tão depressa para derrotar um estivador duas vezes maior que ele de repente parecia tão lento e vulnerável.
Will estava correndo em Skorghijl pela ilha deserta varri-da pelo vento.
Depois de dar cinco voltas na praia coberta de sei-
xos, ele se virou na direção dos penhascos íngremes que se levantavam atrás do pequeno porto. Suas pernas quei-mavam pelo esforço de escalar, seus músculos das coxas e canelas reclamavam. As semanas de inatividade no navio haviam prejudicado seu preparo físico e agora ele estava determinado , 1 ficar em forma novamente, a enrijecer os músculos e fazer seu corpo voltar à perfeição que Halt exigia dele.
Talvez ele não pudesse praticar arco e flecha ou ati-
rar suas facas, mas podia ao menos garantir que seu corpo estivesse pronto se surgisse uma oportunidade para esca-par.
Will tinha certeza de que essa oportunidade iria a-
parecer.
Ele se obrigou a subir uma rampa íngreme, fazendo
pequenas pedras e argila deslizarem e cederem debaixo de seus pés. Quanto mais ele subia, mais o vento puxava suas roupas e, finalmente, quando atingiu o alto do penhasco, foi atingido por toda a força do vento norte os ventos do verão, como os escandinavos os chamavam. No lado noite da ilha, o vento fazia as ondas baterem contra as rochas negras e imponentes, fazendo a água espirrar bem alto no ar. No porto atrás dele, a água estava relativamente calma, protegida do vento pela parede maciça de penhascos que o cercava.
Como fazia normalmente quando chegava a esse
ponto, ele observou o oceano em busca do sinal de algum navio. Mas, como sempre, não havia nada para ver além das ondas violentas e implacáveis.
Ele olhou para o porto. As duas cabanas grandes
pareciam ridiculamente pequenas de onde estava. Uma era o dormitório onde a tripulação de escandinavos dormia. A outra era a sala de refeições onde passavam a maior parte do tempo, discutindo, jogando e bebendo. Ao lado do dormitório, construída ao longo das compridas paredes, estava a varanda que Erak tinha destinado para Will e E-vanlyn. O espaço era pequeno, mas pelo menos não ti-nham que dividi-lo com os escandinavos. Will tinha es-tendido um cobertor de um lado a outro para que Evanlyn tivesse um pouco de privacidade.
Ela estava sentada do lado de fora da varanda.
Mesmo daquela distância, Will conseguia ver seus ombros curvados e desanimados e ficou preocupado. Alguns dias antes, tinha sugerido que ela o acompanhasse em sua ten-tativa de manter o corpo em boa forma. Evanlyn rejeitou a ideia de imediato e parecia simplesmente ter aceitado seu destino. Ela tinha desistido e, nos últimos dias, suas con-versas tinham se tornado cada vez mais difíceis, à medida que tentava levantar o ânimo dela e falava sobre a possibi-lidade de fuga, pois ele já tinha uma ideia do que poderia fazer.
Ele ficou confuso e magoado com a atitude dela.
Aquela não era a Evanlyn de quem se lembrava da ponte; a parceira corajosa e decidida que tinha corrido pelas vigas estreitas para ajudá-lo sem pensar em sua segurança pes-soal e que depois tentou lutar contra os escandinavos quando eles os encurralaram.
Essa nova Evanlyn estava estranhamente desani-
mada. Sua atitude negativa o surpreendia. Ele nunca ima-ginou que ela seria o tipo de pessoa que iria desistir quan-do os problemas ficassem muito difíceis.
“Talvez meninas sejam assim”, ele disse a si mes-
mo. Mas não acreditava nisso. Ele sentia que havia alguma outra coisa que ela não tinha contado. Afastando os pen-samentos com um gesto dos ombros, começou a descer o penhasco.
Era mais fácil correr para baixo do que para cima,
mas nem tanto. A superfície escorregadia e traiçoeira de-baixo dos pés fazia que ele tivesse que correr cada vez mais depressa para manter o equilíbrio, provocando pe-quenos deslizamentos de terra à medida que descia. Onde a corrida para cima tinha feito os músculos das coxas queimar, agora o fazia sentir dor na barriga das pernas e tornozelos. Ele chegou ao fundo da rampa respirando for-te e se deixou cair na praia para fazer uma série de flexões rápidas.
Os ombros ficaram doloridos depois de alguns mi-
nutos, mas ele se obrigou a continuar e a ultrapassar o ponto da dor, cego pelo suor que escorria em seus olhos até que, por fim, não pôde mais insistir. Exausto, desabou no chão com os braços incapazes de sustentar seu peso e ficou deitado de bruços na areia, lutando para respirar.
Ele não ouviu Evanlyn se aproximar enquanto fazia
os exercícios e se assustou com o som da voz dela.
— Will, isso é perda de tempo.
A voz dela não tinha o tom de discussão tão evi-
dente nos últimos dias, e Evanlyn parecia quase concilia-dora. Com um leve gemido de dor, ele levantou o corpo do chão, virou e se sentou, limpando a areia molhada com as mãos.
Will sorriu para ela, Evanlyn devolveu o sorriso e se
sentou ao lado dele na praia.
— O que é perda de tempo? — ele perguntou. Ela fez um gesto vago que incluiu a praia onde ele
tinha acabado de se exercitar e o penhasco que escalou e desceu.
— Todas essas corridas e exercícios, e toda essa
conversa sobre fuga.
Ele franziu um pouco a testa. Não queria começar
uma discussão, portanto foi cuidadoso em não reagir com muita intensidade às palavras dela. Will tentou manter um tom neutro e razoável. Nunca é perda de tempo se manter em forma. Talvez não — Evanlyn concordou aceitando o argumento. — Mas fugir? Daqui? Que chance teríamos?
Will sabia que teria que ser cuidadoso naquele mo-
mento. Se desse a impressão de que estava lhe passando um sermão, ela poderia voltar para sua concha outra vez. Mas ele sabia como era importante manter a esperança viva numa situação daquelas e queria provar esse fato para ela.
— Admito que não parece muito promissor. Mas
nunca se sabe o que pode acontecer amanhã. O mais im-portante é manter uma atitude positiva. Não podemos desistir. Halt me ensinou isso. Nunca desista porque, se surgir uma oportunidade, você vai estar pronta para apro-veitá-la. Não desista, Evanlyn, por favor.