Terra do Gelo
garantiu, e Horace sorriu para ela.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Obrigado, senhora — ele agradeceu no tom e-
ducado que imaginou que um jovem cavaleiro galante de-veria usar. — Vou ficar lhe devendo a vida toda.
Ela sorriu para ele e, com gestos outra vez, indicou
que ia pegar suas ervas e remédios. Horace se levantou e fez uma curvatura desajeitada quando ela saiu do quarto, rindo sozinha.
— Ah! Pooor favor — Halt gemeu, revirando os
olhos para o alto.
O calor na sala de jantar de Ragnak era intenso. O grande número de pessoas e o fogo imenso e aberto que se es-tendia por quase toda a largura numa extremidade do apo-sento combinavam-se para manter a temperatura descon-fortavelmente quente, apesar da neve alta que cobria o chão do lado de fora.
A sala era imensa, comprida e de teto baixo, com
duas mesas que iam de uma ponta à outra e uma terceira, a mesa de Ragnak, colocada transversalmente às outras na ponta oposta ao fogo. As paredes eram de troncos de pi-nho lisos, rusticamente cortados, e vedadas, onde seu formato irregular tinha deixado aberturas, com uma mis-tura de argila e lama dura como pedra.
Mais troncos de pinho inclinavam-se para o alto
formando ângulos que sustentavam o telhado, feito de uma camada firmemente entrelaçada de junco e folhas que, em certos lugares, atingia quase um metro de espes-sura. Aparte interna não era revestida. Ripas menores de madeira áspera tinham sido presas nas vigas do teto para sustentai o telhado.
O barulho, causado por quase 150 escandinavos
bêbados comendo, rindo e gritando era ensurdecedor. E-rak olhou ao redor e sorriu. Era bom estar em casa outra vez.
Ele aceitou outra caneca de cerveja de Borsa, hilf-
mann de Ragnak. Enquanto Ragnak era o oberjarl, ou principal jarl de todos os escandinavos, o hilfmann era o administrador que cuidava das tarefas diárias de toda a nação. Ele se certificava de que a terra fosse cultivada, que os impostos fossem pagos e enviados na época certa e de que uma parte de todos os saques — um quarto de tudo o que tinha sido roubado — fosse pago de imediato e con-siderado justo pelos comandantes dos navios.
— Maus negócios em todo lugar, Erak — ele disse. Eles estavam discutindo a expedição malsucedida
até Araluen.
— Nunca deveríamos ter nos envolvido numa
guerra de tão longa duração. Não é nosso jogo. Nós fo-mos feitos para invasões rápidas. Entrar, agarrar o prêmio e partir novamente com a maré. É assim que agimos. Sempre foi.
Erak assentiu. Ele tinha pensado a mesma coisa
quando Ragnak o indicou para a expedição. Mas o oberjarl não estava disposto a ouvir seu conselho.
— Mesmo assim, Morgarath nos pagou adiantado
— o hilfmann continuou.
Erak ergueu as sobrancelhas.
— Ele pagou?
Era a primeira vez que ouvia essa informação. A-
creditava que ele e seus homens estavam lutando apenas por qualquer prêmio que encontrassem e que a expedição tinha sido um fracasso total nesse aspecto. Mas seu com-panheiro balançou a cabeça enfaticamente.
— Ah, sim, é verdade. Ragnak não é bobo quando
se trata de dinheiro. Ele cobrou Morgarath por seus servi-ços e pelo dos seus homens. Vocês todos vão receber uma parte.
Erak pensou que, pelo menos, ele e seus homens
teriam algo para compensar os últimos meses. Mas Borsa ainda balançava a cabeça por causa da campanha de Ara-luen.
— Sabe qual é nosso maior problema? — ele per-
guntou. — Não temos generais ou estrategistas — ele respondeu antes que Erak pudesse Calar. — Os escandi-navos lutam como indivíduos. E, nesse aspecto, somos os melhores do mundo. Mas, quando somos contratados como mercenários, não temos estrategistas nossos para nos liderar. Assim, somos obrigados a confiar em idiotas como Morgarath.
— Quando estivemos em Araluen, eu disse que os
planos dele eram complicados demais, que ele estava con-fiante demais.
Borsa apontou o dedo grosso para ele e Erak se es-
pantou com a veemência do homem.
— E você está certo! Nós podíamos usar algumas
pessoas como aqueles arqueiros de Araluen — ele acres-centou.
— Você está falando sério? — Erak perguntou. —
Por que precisamos deles?
— Não deles, literalmente. Eu me refiro a pessoas
como eles. Pessoas treinadas em planejamento e táticas, com habilidade de ver os fatos como um todo e usar o melhor das nossas tropas.
Erak teve que concordar que o outro homem tinha
razão. Mas a menção aos arqueiros o fez lembrar a ques-tão de Will e Evanlyn. Agora ele viu uma forma de resol-ver o problema de lidar com eles.
— Você teria utilidade para dois novos escravos na
Grande Mansão? — ele perguntou como quem não quer nada.
Borsa as sentiu imediatamente.
— Sempre podemos usar alguém a mais — ele dis-
se. — Você tem alguém em mente?
— Um garoto e uma menina — Erak contou. Ele achou melhor não mencionar que Will era a-
prendiz de arqueiro.
— Os dois são fortes, saudáveis e inteligentes. Nós
capturamos eles na fronteira celta. Eu ia vender os dois para poder pagar minha tripulação por toda essa confusão. Mas agora, se você diz que vou receber mesmo assim, vou ficar satisfeito em dar eles pra você.
— Certamente vou poder usar eles — Borsa con-
cordou agradecido. — Mande os dois para mim amanhã.
— Fechado! — Erak retrucou alegre. Ele sentiu que um grande peso tinha sido tirado de
sua cabeça. — Agora, onde está a cerveja?
Enquanto Erak estava decidindo o destino de Will
e Evanlyn, eles tinham sido mantidos trancados numa ca-bana perto do porto, perto do lugar onde o Wolfwind es-tava atracado. Na manhã seguinte, eles foram acordados por um escandinavo da equipe de Borsa que os levou à Grande Mansão. Ali, o hilfmann os examinou e analisou com olho crítico. Ele pensou que a menina era atraente, mas não parecia ter feito muito trabalho pesado na vida. O garoto, por sua vez, era musculoso e preparado, embo-ra um pouco pequeno.
— A garota pode ir para o salão de refeições e para
a cozinha — ele disse ao assistente. — Ponha o garoto no pátio.
Uma hora depois do pôr do sol, Halt e Horace deixaram o quarto e desceram para a taberna da pousada para o jan-tar.
A mulher do estalajadeiro tinha preparado um sa-
boroso cozido que fervia numa panela enorme pendurada sobre o grande fogão a lenha que dominava um lado do aposento. Uma criada lhes trouxe grandes tigelas de ma-deira com a comida fumegante e longos pães estranhos e compridos, assados num formato que Horace nunca tinha visto antes. Eles eram compridos e estreitos e se pareciam mais com bengalas grossas do que com pães. Mas eram crocantes do lado de fora e deliciosamente leves do lado de dentro. E, o aprendiz logo descobriu, eram a ferramen-ta ideal para recolher o delicioso molho do cozido.
Halt tinha aceitado um grande copo de vinho tinto
para acompanhar a refeição, e Horace tinha escolhido á-gua. Agora, depois de apreciar uma porção generosa de uma saborosa torta de framboesas, eles terminaram com canecas de um excelente café.
Horace colocou uma boa porção de mel em sua ca-
neca, observado com cara feia pelo arqueiro.
— Destruindo o sabor de um bom café — Halt
resmungou para ele, mas Horace apenas sorriu.
Ele já estava se acostumando à severidade zombe-
teira do companheiro.
— Esse é um hábito que aprendi com seu aprendiz.
Por um momento, os dois ficaram em silencio pensando em Will, perguntando-se o que teria acontecido com ele e Evanlyn e desejando que os dois estivessem bem e em segurança.
Halt finalmente os arrancou de seus pensamentos
ao fazer um gesto de cabeça na direção do pequeno grupo de habitantes locais sentados perto do fogo. Ele e Horace tinham escolhido uma mesa no fundo da sala. Halt sempre fazia isso, sentava-se de onde podia observar o resto do lugar mantinha as costas voltadas para uma parede sólida e, ao mesmo tempo, não chamava muita atenção.
— Parece que o entretenimento vai começar — ele
disse a Horace.
E, enquanto falavam, as outras pessoas no aposen-
to começaram a puxar as cadeiras para mais perto do fogo e pedir mais cerveja para o estalajadeiros e seus ajudantes.
O tocador de gaita-de-fole começou a tocar e o ins-
trumento de corda rapidamente o acompanhou com to-ques rápidos e vibrantes para formar um fundo alto e a-gudo para a melodia arrebatadora e sublime. As gaitas en-chiam o aposento com um som selvagem e melancólico, uma voz que atingia o fundo da alma e trazia para a mente dos ouvintes lembranças de amigos que há muito tinham partido e de tempos passados.
Enquanto as notas ecoavam no aposento aquecido,
Halt se viu lembrando os longos dias de verão na floresta que cercava o Castelo Redmont e uma pequena figura agi-tada que fazia perguntas intermináveis e trazia um novo sentimento de energia e interesse à vida. No fundo de sua mente, ele via o rosto de Will: os cabelos desmanchados pelo capuz, os olhos castanhos vivos e cheios de uma ir-reprimível sensação de alegria. Ele se lembrava dele cui-dando de Puxão, do orgulho que o garoto tinha mostrado diante da perspectiva de ter um cavalo só seu e do elo es-pecial que tinha se formado entre os dois.
Talvez fosse porque Halt sentia os anos pesando
em suas costas à medida que os cabelos grisalhos na barba tornavam-se mais a norma do que a exceção. Mas Will tinha trazido uma sensação de juventude, alegria e vitali-dade para a sua vida, uma sensação que era um contraste bem-vindo aos caminhos escuros e perigosos que um ar-queiro muitas vezes tinha que percorrer.
Também se lembrava do orgulho que tinha sentido
quando Horace lhe contou da determinação de Will em seguir o exército dos Wargals em Céltica e de como o ga-roto tinha enfrentado sozinho os Wargals e os escandina-vos enquanto Evanlyn trabalhava para garantir que o fogo queimasse a ponte. Will tinha mais do que um espírito in-domável. Ele tinha coragem, engenhosidade e lealdade. Halt pensou que o menino poderia ter se transformado num grande arqueiro e então abruptamente se deu conta de que tinha pensado no garoto como se essa possibilida-de não existisse mais. Lágrimas umedeceram seus olhos e ele, desconfortável, se mexeu no banco. Fazia muito tem-po desde que Halt tinha mostrado qualquer sinal exterior de emoção. Então, ele deu de ombros. “Will vale pelo menos algumas lágrimas de um velho acabado de cabelos brancos como eu”, Halt pensou e não fez nenhum gesto para enxugá-las. Ele olhou para Horace com o canto do olho para ver se o garoto tinha percebido alguma coisa, mas Horace estava entretido pela música e, no banco que dividiam, se inclinava para a frente com os lábios leve-mente separados, um dedo batendo inconscientemente no tampo da mesa rústica. “É melhor assim”, Halt pensou sorrindo para si mesmo com tristeza. Não seria bom que o garoto o visse se desmanchando em lágrimas ao primei-ro acorde de uma música triste. Arqueiros, especialmente ex-arqueiros traidores que tinham insultado o rei, deviam mostrar uma expressão mais séria.
Finalmente a música terminou e foi aplaudida com
entusiasmo pelas pessoas no aposento. Halt e Horace as acompanharam com animação, e Halt usou o momento para disfarçadamente passar a mão nos olhos e secar os traços de lágrimas que havia lá.
Ele percebeu que o público jogava moedas para os
músicos num chapéu que tinha sido habilmente colocado no chão ao lado deles. Ele empurrou duas moedas na di-reção de Horace e fez um sinal para os artistas.
— Dê isso para eles — ele disse. — Eles merece-
ram.
Horace assentiu animado e se levantou para atra-
vessar o aposento, abaixando a cabeça debaixo das vigas pesadas que sustentavam o teto. Ele jogou as moedas no chapéu e foi o último na sala a fazer isso. O tocador de gaita olhou para ele, viu o rosto desconhecido e agradeceu com um gesto. Então, começou a apertar os foles da gaita com o cotovelo outra vez e, novamente, a voz persistente do instrumento tomou corpo e começou a encher o apo-sento.
Horace hesitou, sem querer se mexer agora que ou-
tra canção tinha começado. Ele olhou para onde Halt es-tava sentado nas sombras, deu de ombros e se ajeitou no tampo de uma mesa junto da pequena multidão que cer-cava os artistas.
Essa música tinha um tom diferente. Na melodia,
havia uma nota sutil de triunfo que era aumentada pelos acordes ousados e fortes proporcionados pelo instrumen-to de corda que se destacava mais nessa canção. De fato, não demorou muito para que as notas frágeis e ondulantes do instrumento de forma arredondada arrebatassem o comando das gaitas-de-fole e fizessem todos na sala as acompanharem batendo palmas e pés. Um sorriso delicia-do apareceu no rosto de Horace e, quando a porta da rua se abriu e uma rajada de vento varreu o aposento, ele mal notou o recém-chegado que entrou.
Outras pessoas porém, notaram e Halt, com os sen-
tidos afiados ao extremo por ter vivido situações perigosas durante anos, sentiu lima mudança na atmosfera do lugar. Uma sensação de apreensão e quase desconfiança pareceu tomar conta das pessoas agrupadas em volta dos músicos.
Houve até mesmo uma leve hesitação na música
quando o gaiteiro olhou para cima e viu o homem que tinha entrado. Era apenas uma interrupção quase imper-ceptível no ritmo, mas forte o suficiente para que Halt notasse.
Ele observou o recém-chegado. Um homem alto e
forte, talvez dez anos mais jovem do que ele. A barba pre-ta, as sobrancelhas grossas e os cabelos também pretos lhe davam uma aparência ameaçadora. Era evidente que ele não era um dos simples moradores da vila. Quando tirou o casaco, revelou uma malha de ferro coberta por um manto negro que exibia a insígnia de um corvo branco.
Na cintura, podia se ver o cabo da espada trabalha-
do com fios de ouro. O botão do punho, também de ou-ro, emitia um brilho fraco. Botas altas de couro macio in-dicavam que era um guerreiro montado — um cavaleiro, a julgar pela insígnia no manto. Halt não tinha dúvidas de que, amarrado do lado de fora da taverna, ele encontraria um cavalo de batalha; mais provavelmente um totalmente negro, a julgar pelas cores usadas pelo estranho.
Era óbvio que o recém-chegado estava procurando
alguém. Seus olhos percorreram o aposento rapidamente, passaram por Halt sem notar a figura sombria no fundo da sala e finalmente pararam em Horace. Ele franziu um pouco as sobrancelhas e assentiu, quase imperceptivel-mente, para si mesmo. O garoto, enfeitiçado pela música, mal tinha notado a chegada do cavaleiro e naquele mo-mento não prestava atenção à análise profunda a que era submetido.
Havia pessoas no aposento que viam o que aconte-
cia. Halt notou o aumento do interesse do estalajadeiro e de sua mulher enquanto observavam e esperavam o rumo dos acontecimentos. E vários moradores locais mostra-vam sinais de ansiedade, de que preferiam estar em outro lugar.
A mão de Halt procurou a aljava debaixo da mesa.
Como sempre, suas armas estavam facilmente ao alcance, mesmo quando comia, e o arco encostado à parede atrás dele já estava encordoado. Agora, ele tirou uma flecha da aljava e a colocou na mesa diante dele enquanto a música chegava ao fim.
Desta vez, não houve um coro de aplausos das pes-
soas na sala. Apenas Horace bateu palmas com entusias-mo, e quando percebeu que era o único que fazia isso, parou confuso e ficou vermelho de vergonha.
Então ele também notou o homem armado na ta-
berna, parado a uma dúzia de passos de distância dele, que o olhava com uma intensidade que beirava a agressão.
O garoto recuperou a compostura e cumprimentou
o recém-chegado com um gesto de cabeça. Halt ficou sa-tisfeito ao ver que Horace teve a presença de espírito de não olhar em sua direção. O aprendiz tinha sentido que alguma coisa desagradável podia estar prestes a acontecer e entendeu a vantagem que teriam se Halt não fosse nota-do.
Finalmente, o homem falou com a voz grave e rou-
ca. Ele era encorpado e tão alto quanto Horace. Halt con-cluiu que aquele não era um guerreiro de estrada. Aquele homem era perigoso.
— Você é o cavaleiro da folha de carvalho? — ele
perguntou num tom meio zombeteiro.
Ele falava bem a língua de Araluen, mas com um
forte sotaque galês.
— Acredito que me chamam assim — Horace res-
pondeu depois de uma leve pausa.
O cavaleiro pareceu pensar na resposta, balançou a
cabeça e sorriu com desdém.
— Você acredita? — ele repetiu. — Mas será que
se pode acreditar em você? Ou você é um cão araluense que late nas sarjetas?
Horace franziu a testa confuso. Aquela era um ten-
tativa desajeitada de insultá-lo. Por algum motivo, o outro homem estava tentando provocar uma briga. E isso, para Horace, era motivo suficiente para não ser provocado.
— Se você pensa assim — ele respondeu com cal-
ma e com uma máscara de indiferença no rosto.
Mas Halt tinha percebido como a mão esquerda do
garoto tinha se virado quase imperceptivelmente para o quadril esquerdo onde ele normalmente levava a espada. Agora, ela estava pendurada atrás da porta do quarto no andar superior. Horace estava armado somente com a fa-ca.
O cavaleiro também notou o movimento involun-
tário. Ele sorriu, os lábios formando um arco cruel, e deu um passo na direção do jovem e musculoso aprendiz. Ele avaliou o jovem rapaz. Ombros largos, cintura delgada e obviamente musculosa. E ele se movimentava bem, com a graça e o equilíbrio naturais que eram a marca de um guer-reiro experiente.
Mas o rosto era jovem e absolutamente sem malí-
cia. Aquele não era um oponente que tinha combatido homens quase até a morte repetidas vezes. Aquele não era um guerreiro que tinha aprendido as habilidades mais per-versas na implacável escola do combate mortal. O garoto mal tinha começado a se barbear. Sem dúvida alguma, ele era um lutador treinado e devia ser respeitado.
Mas não temido.
Depois de fazer sua avaliação, o homem mais velho
deu mais um passo na direção de Horace.
— Meu nome é Deparnieux — ele se apresentou.
Obviamente, ele imaginava que o nome tivesse algum sig-nificado.
Horace apenas deu de ombros afavelmente.
— Bom para você — ele respondeu, fazendo que
as sobrancelhas negras se contraíssem ainda mais.
— Não sou nenhum caipira de beira de estrada que
você pode derrotar com truques e comportamento deso-nesto. Você não vai me pegar despreparado com suas táti-cas covardes como fez com tantos dos meus compatrio-tas.
Ele parou para ver se as palavras insultuosas esta-
vam exercendo o efeito desejado. Horace, contudo, era esperto o bastante para não lazer objeções. Ele apenas deu de ombros novamente.
— Vou me lembrar disso, com toda certeza — ele
respondeu com suavidade.
Mais um passo e o cavaleiro de constituição robusta
ficou ao alcance do braço. Seu rosto se cobriu de raiva ao ouvir a resposta de Horace e a recusa do garoto em ser insultado.
— Sou o líder militar desta província! — ele gritou.
— Um guerreiro que liquidou mais intrusos estrangeiros e mais covardes araluenses do que qualquer outro cavaleiro nestas terras. Pergunte a eles se não é verdade!
E fez um gesto com o braço mostrando as pessoas
nervosas sentadas as mesas ao redor do fogo. Por um momento, não houve resposta, então ele virou o olhar afogueado para elas, desafiando-as a discordar.
Todas baixaram os olhos ao mesmo tempo e con-
cordaram, resmungando de má vontade. Então o olhar do homem se voltou para Horace para desafiá-lo outra vez. O menino o retribuiu impassível, mas um tom avermelha-do estava começando a colorir suas faces.
— Como eu disse — ele respondeu com cuidado
—, vou me lembrar disso.
Os olhos de Deparnieux brilharam. — E eu afirmo que você é um covarde e um ladrão
que matou guerreiros galeses com subterfúgios e trapaças e roubou suas armaduras, seus cavalos e pertences! — ele concluiu com a voz cada vez mais alta.
Houve um longo silêncio no aposento. Finalmente,
Horace respondeu.
— Acho que está enganado — ele disse no mesmo
tom suave que tinha mantido durante todo o confronto.
Todos na sala respiraram fundo, e Deparnieux re-
cuou furioso.
— Está me chamando de mentiroso? — ele inda-
gou.
— De jeito nenhum — Horace negou balançando a
cabeça. — Estou dizendo que você está cometendo um erro. Pelo jeito, alguém lhe deu uma informação errada.
Deparnieux estendeu as mãos e se dirigiu as presen-
tes.
— Vocês ouviram o que ele disse! Ele me chamou
de mentiroso! Isso é intolerável.
E, como tinha planejado, no mesmo movimento no
qual estendeu as mãos, puxou uma das luvas de baixo do cinto e agora, antes que alguém pudesse reagir, deu impul-so para atingir o rosto de Horace com ela num desafio que não podia ser ignorado.
Com uma sensação de triunfo, Deparnieux come-
çou o movimento da mão para que a luva batesse no rosto do garoto. Apenas para tê-la arrancada da mão por dedos invisíveis e jogada para o outro lado do aposento, onde parou pendurada numa das vigas de carvalho que susten-tavam o teto.
“Então, vamos ser separados afinal”, Will pensou.
Evanlyn foi levada para longe, tropeçando ao se vi-
rar para olhar para ele com uma expressão preocupada no rosto. Ele forçou um sorriso de encorajamento e acenou para ela, produzindo um gesto casual e alegre, como se eles fossem se ver em breve.
Sua tentativa de deixá-la animada foi interrompida
por um forte tapa na cabeça. Ele cambaleou por alguns metros com os ouvidos assobiando.
— Mexa-se, escravo! — rosnou Tirak, o supervisor
escandinavo do pátio. — Vamos ver se você tem mesmo motivos para sorrir.
Will logo descobriu que os motivos quase não exis-
tiam.
De todos os prisioneiros dos escandinavos, os es-
cravos do pátio tinham as tarefas mais duras e desagradá-veis. Os escravos domésticos, os que trabalhavam nas co-zinhas e nas salas de refeições, tinham pelo menos o con-forto de trabalhar e dormir num local aquecido. Eles po-diam cair exaustos em suas cobertas no fim do dia, mas as cobertas eram quentes.
Por outro lado, os escravos do pátio faziam todas
as tarefas exteriores, árduas e desagradáveis, que precisa-vam ser realizadas: cortar lenha, limpar neve dos cami-nhos, esvaziar as latrinas e se livrar de seu conteúdo, ali-mentar e dar água para os animais e limpar os estábulos. Todos esses trabalhos tinham que ser feitos no frio cor-tante. E, quando o esforço provocava suor, os escravos eram deixados com as roupas úmidas que congelavam ne-les depois que as tarefas eram concluídas, sugando o calor de seus corpos.
Eles dormiam num velho celeiro em ruínas que ti-
nha poucas condições de manter o frio do lado de fora, por causa das correntes de ar. Cada escravo recebia um cobertor fino, uma proteção totalmente inadequada quan-do as temperaturas caíam abaixo de zero. Eles completa-vam as cobertas com qualquer trapo ou saco que conse-guiam encontrar. Eles os roubavam, mendigavam por eles. E, muitas vezes, lutavam por eles. Nos seus primeiros di-as, Will viu dois escravos machucados, quase mortos, por causa de brigas por pedaços de sacos.
Will percebeu que ser um escravo do pátio era mais
do que desagradável. Era totalmente perigoso.
O sistema sob o qual trabalhavam aumentava o pe-
rigo. Tirak era o chefe do pátio, mas ele delegava essa au-toridade para uma pequena gangue corrupta conhecida como o Comitê. Ela era formada por meia dúzia de escra-vos antigos que caçavam juntos e tinham poder de vida e morte sobre os companheiros. Em troca de autoridade e alguns confortos adicionais, como comida e cobertores, eles mantinham uma disciplina brutal no pátio, organiza-vam a lista de serviços e distribuíam tarefas para os outros escravos. Os que se submetiam a eles e obedeciam recebi-am as tarefas mais fáceis. Os que resistiam se viam reali-zando os trabalhos mais desagradáveis, frios e perigosos. Tirak ignorava os excessos. Ele simplesmente não se im-portava com os escravos sob seu comando. Eles eram dispensáveis para ele e a vida dele era muito mais simples quando usava o Comitê para manter a ordem. Se o grupo matasse ou aleijasse um ou outro rebelde, o preço a pagar era baixo.
Era inevitável que Will, sendo a pessoa que era, en-
trasse em choque com o Comitê. Isso aconteceu no seu terceiro dia no pátio. Ele estava voltando da floresta onde tinha ido apanhar lenha e arrastava um trenó cheio pela neve fina. Suas roupas estavam úmidas de suor e da neve que derretia, e ele sabia que assim que parasse de se mo-vimentar ficaria tremendo de frio. As pequenas rações que recebiam para comer pouco ajudavam a restaurar o calor do corpo e, a cada dia, ele sentia sua força e resistência diminuindo um pouco mais.
Quase dobrado em dois, ele arrastou o trenó para o
pátio e o fez parar ao lado da cozinha, onde os escravos da casa iriam descarregá-lo e levar a lenha para o calor das grandes cozinhas. Sua cabeça girou um pouco quando en-direitou o corpo e então, de trás de um dos anexos da co-zinha, ele ouviu uma voz praguejando enquanto outra choramingou de dor.
Curioso, ele largou o trenó e foi ver qual era a causa
da agitação. Um garoto magro e esfarrapado estava enco-lhido no chão enquanto um jovem mais velho e forte batia nele com um pedaço de corda cheio de nós.
— Sinto muito, Egon! — a vítima choramingou. —
Eu não sabia que era seu!
Will percebeu que os dois eram escravos, mas o ra-
paz grande parecia bem alimentado e usava roupas quen-tes, apesar de estarem rasgadas e manchadas. Will calculou que ele tinha cerca de 20 anos. Will tinha notado que não havia escravos mais velhos no pátio e teve a desagradável desconfiança de que isso acontecia porque os escravos não viviam muito tempo.
— Você é um ladrão, Ulrich! — acusou o rapaz
mais forte. — Eu vou ensinar você a não pegar as minhas coisas!
Ele estava mirando a cabeça de sua vítima com a
corda nodosa e a batia no ar com fúria. Will viu que o ros-to do garoto estava muito ferido e, enquanto observava, um corte se abriu exatamente debaixo do olho do menino e o sangue cobriu seu rosto. Ulrich gritava e tentava cobrir o rosto com os braços descobertos. Seu atormentador da-va golpes cada vez mais violentos. Will não conseguiu mais ficar parado, olhando. Ele se aproximou, pegou a ponta da corda quando Egon ia atacar novamente e deu um puxão para trás.
Egon perdeu o equilíbrio. Cambaleou e soltou a
corda, virando-se para olhar quem tinha ousado interrom-pê-lo. Ele esperava ver Tirak ou outro escandinavo parado ali. Nenhuma outra pessoa teria coragem de se meter com um membro do Comitê. Para sua surpresa, ele se viu o-lhando para um garoto baixo e magro que parecia ter uns 16 anos de idade.
— Acho que já foi o bastante — Will disse jogando
a corda na neve suja do pátio da cozinha.
Furioso, Egon deu um passo à frente. Ele era maior
e mais forte do que Will e estava pronto para castigar a-quele estranho idiota. Então algo no olhar desse estranho e sua atitude determinada o impediram. Ele não viu medo ali. E ele parecia preparado e disposto a lutar. Egon per-cebeu que o rapaz era novo no pátio e ainda em condições relativamente boas. Will não era um alvo fácil, como o infeliz Ulrich.
— Desculpe, Egon — o garoto maltrapilho gemeu. Ele rastejou até o membro do Comitê e encostou a
cabeça nas suas botas gastas.
— Não vou fazer isso de novo.
Egon já tinha perdido interesse em sua vítima inici-
al. Empurrou o garoto com o pé.
Ulrich olhou para cima e ao sentir que não estavam
prestando atenção nele aproveitou para fugir.
Egon mal notou a fuga do garoto. Ele olhava para
Will e o avaliava. Aquela não seria uma vítima fácil, mas havia outras formas de lidar com encrenqueiros.
— Como você se chama? — ele perguntou com os
olhos semicerrados e a voz baixa de raiva.
— Meu nome é Will — disse o aprendiz de arquei-
ro, e Egon balançou a cabeça devagar várias vezes.
— Vou me lembrar disso — ele garantiu. No dia seguinte, Will foi escolhido para trabalhar
com as pás.
O trabalho nas pás era o mais temido entre os es-
cravos do palio. O suprimento de água potável de Halla-sholm vinha de uma grande nascente no centro da praça em frente à Grande Mansão de Ragnak. Com a chegada do inverno, se não se tomasse cuidado, a água da nascente iria congelar. Assim, os escandinavos tinham instalado enormes pás de madeira que agitavam a água constante-mente e partiam o gelo antes que tudo se solidificasse. Empurrar as manivelas que faziam as lâminas de madeira, difíceis de lidar, girar na água era um trabalho constante e cansativo. Da mesma forma que limpar a neve era um tra-balho úmido, frio e muito debilitante. Ninguém durava muito tempo nas pás.
Will tinha trabalhado metade da manhã, mas já se
sentia exausto, todos os músculos dos braços, costas e pernas doíam por causa do esforço.
Ele empurrava a manivela, lisa por causa dos anos
de manejo de uma sucessão de mãos praticamente mortas. Fazia apenas alguns minutos que tinha agitado a superfície da água da nascente, mas uma fina camada de gelo já se formava na superfície. Ela se partiu quando a lâmina de madeira bateu nela e se moveu rapidamente de um lado a outro. Do outro lado da nascente, um colega se retorcia e virava sua pá, mantendo a água em movimento, impedin-do-a de se congelar. Logo que chegou, Will tinha cumpri-mentado o outro escravo com um aceno de cabeça, mas foi ignorado. Desde então, com exceção dos gemidos constantes provocados pelo esforço, eles tinham trabalha-do em silêncio.
Uma pesada tira de couro, brandida pelo supervi-
sor, estalava em volta de seus ombros. Ele ouvia o baru-lho, sentia o impacto. Mas não havia a sensação ardida do golpe que era amortecida pelo frio.
— Mergulhe as pás mais fundo! — o supervisor
rosnou. — A água embaixo vai congelar se você só passar as pás na superfície.
Gemendo baixinho, Will obedeceu e se levantou
nas pontas dos pés para mergulhar a pá de madeira na á-gua gelada, respingando água por todos os lados. Ele sen-tiu o toque gelado da água no corpo já totalmente molha-do. Era quase impossível ficar seco. Ele sabia que, quando parasse para um dos breves momentos de descanso a que tinham direito, as roupas congeladas iriam retirar o calor do corpo e ele iria recomeçar a tremer.
Eram os tremores incontroláveis que mais o assus-
tavam. À medida que ele esfriasse, seu corpo começaria a sacudir. Ele tentou parar a tremedeira e sentiu que não conseguiria. Desanimado, Will se deu conta de que tinha perdido o controle sobre o próprio corpo. Seus dentes batiam, suas mãos balançavam, e ele não podia fazer nada. A única maneira de se aquecer outra vez era recomeçando a trabalhar.
Finalmente, acabou. Até os escandinavos reconhe-
ciam que ninguém podia trabalhar mais do que 4 horas nas pás. Trêmulo e exausto, totalmente esgotado, Will cambaleou para trás onde estava o celeiro com as camas. Ele tropeçou e caiu ao se aproximar do lugar que lhe tinha sido destinado para dormir, sem se esforçar para levantar de novo. Ansioso para sentir o fraco calor oferecido pelo cobertor fino, ele rastejou de quatro.
Então ele soltou um grito rouco de desespero. O
cobertor tinha sumido!
Chorando, Will se encolheu no chão frio. Seus joe-
lhos estavam dobrados e ele os envolveu com os braços numa tentativa de conservar o calor do corpo. Will lem-brou o casaco de arqueiro, tão quente, perdido ao ser cap-turado por Erak e seus homens. Os tremores começaram e ele sentiu o corpo todo ser dominado. O frio se enterra-va no fundo de sua carne, atingia seus ossos e sua alma.
Não havia nada além do frio. Seu mundo estava
cercado pelo frio. Ele era o frio. Inevitável, insuportável. Não havia a menor faísca de calor em seu mundo.
Não havia nada além do frio.
Will sentiu algo áspero no rosto. Ele abriu os olhos
e viu alguém inclinado sobre ele estendendo um pedaço de saco grosseiro sobre seu corpo trêmulo. Então uma voz baixa falou ao seu ouvido.
— Fique calmo, amigo. Seja forte.
A pessoa que falava era um escravo alto, barbado e
despenteado, mas foram os olhos dele que Will notou. Eles estavam cheios de compreensão e solidariedade. Pa-teticamente, Will puxou o tecido áspero para perto do queixo.
— Ouvi falar do que você tentou fazer por Ulrich
— seu salvador contou. — Temos que ficar unidos se quisermos sobreviver neste lugar. A propósito, meu nome é Handel.
Will tentou responder, mas seus dentes estavam ba-
tendo incontrolavelmente e sua voz tremia ao tentar for-mar palavras. Era inútil.
— Aqui, experimente isto — Handel ofereceu, o-
lhando em volta para se certificar de que não estavam sendo observados. — Abra a boca.
Will se esforçou para separar os dentes e Handel
escorregou alguma coisa em sua boca que parecia um pu-nhado de ervas secas.
— Ponha isso debaixo da língua — Handel sussur-
rou. — Espere derreter. Você vai ficar bem.
E, depois de alguns momentos, à medida que a sa-
liva umedecia a substância debaixo da língua, Will sentiu a melhor e mais fantástica onda de calor tomar conta de seu corpo. O calor maravilhoso espantou o frio, espalhou-se até a ponta dos dedos das mãos e dos pés em várias ondas pulsantes. Ele nunca tinha sentido nada tão maravilhoso em toda a vida.
O tremor diminuiu à medida que sucessivas ondas
de calor se espalhavam por sua pele. Seus músculos rígi-dos relaxaram e foram dominados por uma deliciosa sen-sação de paz e bem-estar. Ele olhou e viu Handel sorrindo e balançando a cabeça para ele. Aqueles maravilhosos o-lhos calorosos sorriam para tranquilizá-lo e ele sabia que tudo ficaria bem.
— O que é isso? — ele perguntou, falando de um
jeito esquisito por causa do chumaço ensopado que havia em sua boca...
— É a erva do calor — Handel informou com deli-
cadeza. — Ela nos mantém vivos.
Das sombras de um canto afastado, Egon observa-
va os dois vultos e sorriu. Handel tinha feito um bom tra-balho.
O cavaleiro vestido de negro praguejou violentamente quando a flecha arrancou a luva de sua mão e bateu com estrondo, levando o apetrecho com ela, numa grossa viga de carvalho.
O impacto firme da flecha na viga atraiu seu olhar
por um segundo e então ele se virou desconfiado para ve-rificar de onde tinha vindo o projétil. Pela primeira vez, constatou a presença de um vulto escuro e indistinto nas sombras no fundo do aposento. Então, quando Halt saiu de trás da mesa e ficou visível na luz, ele também enxer-gou o arco em que uma segunda flecha estava pronta na corda. O arqueiro não tinha se incomodado em levantar o arco, mas Deparnieux tinha acabado de ver um exemplo de sua habilidade. Ele sabia que estava em frente a um mestre arqueiro, capaz de preparar o arco e atirar numa questão de segundos. Ele ficou muito quieto, controlando a raiva com dificuldade, pois sabia que sua vida bem pode-ria depender de sua capacidade de fazer isso.
— Infelizmente para as normas dos cavaleiros —
Halt disse sir Horace, o cavaleiro da Ordem do Carvalho, está indisposto devido a um ferimento na mão esquerda. Assim, ele não vai poder responder ao gentil convite que o senhor estava prestes a fazer.
Halt tinha entrado ainda mais na luz e Deparnieux
podia enxergar seu rosto com mais clareza. Com a barba por fazer e carrancudo, aquele era o rosto de um veterano experiente. Os olhos eram frios e não apresentavam ne-nhum sinal de indecisão. O cavaleiro soube de imediato que aquele era um homem com quem se devia tomar cui-dado.
Ouviu-se um risinho baixo vindo de um dos mora-
dores da vila que estavam no aposento e, interiormente, o cavaleiro galês ferveu de raiva. Seu olhar saltou para a fon-te do barulho e viu um carpinteiro baixando o rosto para esconder o sorriso. Deparnieux tomou nota do sujeito mentalmente. Seu dia de prestar contas iria chegar. Exte-riormente, porém, ele se obrigou a sorrir.
— Uma pena — ele respondeu ao arqueiro. — Eu
tinha esperanças de realizar um amistoso teste de armas com o jovem cavaleiro. Sempre obedecendo ao espírito da boa cavalaria, é claro.
— É claro — Halt respondeu simplesmente e De-
parnieux soube que não tinha conseguido enganá-lo por um momento sequer. — Mas, como eu disse, talvez te-nhamos que desapontá-lo, já que estamos realizando uma viagem numa busca urgente.
— É mesmo? — Deparnieux indagou levantando
as sobrancelhas intrigado. — E para onde você e o seu jovem mestre estão indo?
Ele acrescentou “jovem mestre” para verificar o e-
feito que as palavras iriam exercer no homem barbado parado à sua frente. Era óbvio quem era o patrão ali, e não era o jovem cavaleiro. Ele tinha esperado ferir o orgu-lho do outro homem e possivelmente levá-lo a cometer um erro.
A esperança, porém, não durou muito. Ele perce-
beu um leve brilho divertido no olhar do arqueiro quando ele reconheceu a manobra.
— Ah, para vários lugares — Halt respondeu va-
gamente. — Não é uma tarefa de interesse suficiente para um comandante como o senhor.
O tom de voz deixou claro para o cavaleiro que
Halt não iria responder perguntas casuais sobre seu desti-no final ou o local para onde estavam viajando.
— Sir Horace — ele acrescentou, ciente de que o
garoto ainda estava ao alcance do braço do cavaleiro ne-gro —, por que não se senta ali e descansa o braço ma-chucado?
Horace olhou para ele e, quando compreendeu, a-
fastou-se e se sentou perto do logo. O silêncio na sala era absoluto. Os moradores da vila olhavam para os dois ho-mens que se confrontavam, perguntando-se como aquela situação iria terminar. Apenas duas pessoas no aposento, Halt e Deparnieux, sabiam que o cavaleiro estava tentando avaliar suas chances de puxar a espada e atingir o arqueiro antes que ele pudesse atirar. Ao hesitar, Deparnieux en-controu o olhar decidido do arqueiro.
— Eu não faria isso — Halt disse com suavidade. O cavaleiro negro leu a mensagem nos olhos dele e
soube que, por mais rápido que fosse, a reação do outro homem seria ainda mais rápida. Ele inclinou a cabeça le-vemente reconhecendo o fato. Aquele não era o momen-to.
Ele se obrigou a sorrir e se inclinou de modo zom-
beteiro na direção de Horace.
— Talvez algum outro dia, sir Horace — ele disse
com indiferença. — Vou esperar ansiosamente para lutar com o senhor quando se recuperar.
Desta vez ele notou que o garoto olhou rapidamen-
te para o companheiro mais velho antes de responder.
— Talvez algum outro dia — Horace concordou. O cavaleiro olhou ao redor do aposento com um
sorriso frio, virou-se nos calcanhares e andou até a porta. Ele parou ali um momento e procurou Halt com o olhar mais uma vez. O sorriso desapareceu e a mensagem que enviou era clara: Na próxima vez, meu amigo. Na próxima vez.