Terra do Gelo

John Flanagan · Capítulo 4 de 4 · parte 1/3

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Terra do Gelo

Era incomum ver um homem com aquele…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Era incomum ver um homem com aquele inconfundível ar de domínio que não andasse armado como um cavalei-ro. Aos olhos de Deparnieux, o arco era arma de um ho-mem do povo, e o estojo para duas facas era algo que nunca tinha visto antes. Ele tinha tido a oportunidade de examinar as facas. A maior lhe lembrava as grandes facas de caça dos escandinavos. A menor, tão afiada quanto a outra, era uma faca de atirar perfeitamente equilibrada. Deparnieux concluiu que eram facas realmente incomuns para um chefe.

A capa estranha também o fascinava. Ela era cober-

ta por borrões irregulares verdes e cinza e ele não conse-guia entender o motivo para as cores ou para o desenho. O capuz enorme servia para esconder o rosto do homem quando ele o colocava. Várias vezes durante o trajeto até Montsombre, o cavaleiro galês tinha notado que o capuz parecia cintilar e se misturar à floresta ao fundo, fazendo o pequeno homem quase desaparecer de vista. Então, a ilu-são desaparecia.

Deparnieux, como muitos de seus conterrâneos, era

bastante supersticioso. Ele desconfiava que as estranhas propriedades da capa podiam ser resultado de algum tipo de feitiçaria.

Fora esse pensamento que o tinha feito tratar o ar-

queiro de um modo um tanto confuso. Deparnieux sabia que não valia a pena contrariar feiticeiros. Assim, ele deci-diu jogar suas cartas com cuidado até saber exatamente o que esperar do pequeno homem misterioso. E, caso ficas-se provado que Halt não tinha poderes tenebrosos, have-ria sempre a possibilidade de convencê-lo a usar seus ou-tros talentos em favor de Deparnieux.

Se isso não acontecesse, o nobre podia matar os

dois viajantes do modo que mais lhe agradasse.

Ele se deu conta de que tinha ficado em silencio

por algum tempo depois da última afirmação de Halt. Tomou um gole de vinho e balançou a cabeça diante da afirmação do arqueiro.

— Acho que não é nem um pouco comum — ele

disse. — Você me interessa, Halt.

— Não posso ver por quê — Halt disse dando de

ombros novamente.

Deparnieux girou o cálice de vinho entre os dedos.

Houve uma leve batida na porta e o camareiro-chefe en-trou com ar humilde e receoso. Ele tinha aprendido, da pior forma, que seu patrão era um homem perigoso e im-previsível.

— O que foi? — Deparnieux perguntou zangado

com a intromissão.

— Perdoe, senhor, mas queria saber se precisa de

mais alguma coisa.

Deparnieux estava prestes a dispensá-lo quando

uma ideia lhe ocorreu. Seria uma experiência interessante provocar o estranho araluense e ver como reagiria.

— Sim — ele disse. — Chame a cozinheira. O ca-

mareiro hesitou confuso.

— A cozinheira, senhor? — repetiu. — O senhor

quer mais comida?

— Eu quero a cozinheira, idiota! — Deparnieux

disparou e o homem recuou apressado.

— Imediatamente, senhor — ele respondeu e se a-

fastou nervoso na direção da porta.

Depois que ele saiu, o cavaleiro sorriu para Halt. — É quase impossível encontrar bons empregados

hoje em dia — ele afirmou.

Halt olhou para ele com desdém.

— Deve ser um problema sem-fim para você — ele

disse com calma.

Deparnieux olhou para ele com atenção, tentando

perceber algum sarcasmo nas palavras.

Eles ficaram sentados em silêncio até ouvirem uma

batida na porta. O camareiro entrou seguido de perto pela cozinheira, que esfregava as mãos no avental nervosa. Ela era uma mulher de meia-idade cujo rosto mostrava a ten-são que trabalhar na casa de Deparnieux provocava.

— A cozinheira, senhor — o camareiro anunciou.

Deparnieux não disse nada. Ele olhou para a mulher da maneira como cobras olham para um pássaro. Ela retor-ceu o avental com mais força enquanto o silêncio entre eles aumentava. Finalmente, ela não aguentou mais.

— Há algo errado, senhor? — ela começou. — O

jantar não estava...

— Você não fala! — Deparnieux gritou e se levan-

tou da cadeira apontando para ela zangado. — Aqui, quem manda sou eu! Você não fala sem eu mandar! Por-tanto, fique quieta, mulher!

Os olhos de Halt se estreitaram enquanto assistia à

cena desagradável. Ele sabia que tudo aquilo estava acon-tecendo por sua causa. Ele percebeu que Deparnieux que-ria ver como iria reagir. Por mais frustrante que fosse, não havia nada que pudesse fazer para ajudar a mulher naquele momento. Deparnieux olhou para ele rapidamente e con-firmou sua suspeita ao ver que o homem pequeno estava tão calmo quanto sempre. Então ele se sentou outra vez, voltando a atenção para a infeliz cozinheira.

— Os legumes estavam frios — ele acusou final-

mente.

A expressão da mulher mostrou medo e confusão

ao mesmo tempo.

— Claro que não, senhor. Os legumes estavam... — Frios, estou dizendo! — Deparnieux interrom-

peu. — Eles estavam frios, não é mesmo? — ele indagou virando-se para Halt.

— Os legumes estavam bons — ele respondeu

com calma e deu de ombros.

Não importava o que fosse acontecer, ele devia

deixar qualquer sinal de raiva ou indignação longe de sua voz. Deparnieux sorriu levemente e voltou a olhar para a mulher.

— Viu o que fez? — ele disse. Não só me envergo-

nhou na frente de um convidado, como o fez mentir por sua causa.

— Meu senhor, verdade, eu não...

Deparnieux a interrompeu com um violento aceno

da mão.

— Você me desapontou e deve ser punida — ele

afirmou.

O rosto da mulher ficou pálido de medo. Naquele

castelo, as punições eram sempre pesadas.

— Por favor, senhor. Por favor, vou me esforçar

mais. Eu prometo — ela balbuciou na esperança de fazê-lo mudar de ideia quanto ao castigo.

Ela lançou um olhar de súplica para Halt. — Por favor, senhor, diga a ele que não tive a in-

tenção — ela implorou.

— Deixe ela em paz — o arqueiro disse finalmente.

Deparnieux inclinou a cabeça para o lado esperando.

— Ou? — ele replicou.

Ali estava uma oportunidade de avaliar os poderes

do prisioneiro Ou a falta deles. Se ele realmente fosse um feiticeiro, talvez mostrasse do que era capaz naquele mo-mento.

Halt percebeu o que o outro homem estava pen-

sando. Havia um ar de expectativa enquanto ele observava o arqueiro com atenção. Halt se deu conta, com relutân-cia, que ele não estava em condições de reforçar nenhuma ameaça e decidiu tentar outra estratégia.

Pensativo, o galês pôs o dedo no lábio. A aparente

falta de preocupação de Halt podia ser real. Ou talvez fos-se simplesmente uma forma de mascarar o fato de não ter poderes. A principal razão para a dúvida na mente de De-parnieux era o fato de que não conseguia acreditar que qualquer pessoa de poder ou autoridade pudesse ter mais do que uma preocupação passageira por um criado. Halt talvez estivesse recuando ou talvez não se preocupasse tanto a ponto criar confusão pelo assunto.

— Mesmo assim — ele continuou, enquanto ob-

servava Halt — ela precisa ser punida.

Ele olhou para o camareiro-chefe em seguida. O

homem tinha se encolhido de encontro à parede, tentando ficar tão invisível quanto possível enquanto o fato se de-senrolava.

— Você vai punir a mulher — ele determinou. —

Ela é preguiçosa, incompetente e envergonhou seu patrão.

— Sim, meu senhor — o camareiro concordou,

curvando-se obsequiosamente. — A mulher vai ser puni-da — ele afirmou.

Deparnieux ergueu as sobrancelhas surpreso e

zombeteiro.

— Mesmo? — ele perguntou. — E qual vai ser o

castigo?

O criado hesitou. Ele não tinha ideia do que o cava-

leiro tinha em mente. Então decidiu que, no total, seria melhor errar pelo excesso.

— Chicotadas, senhor? — ele respondeu e, quando

viu Deparnieux assentir concordando, continuou com mais determinação:

— Ela vai ser chicoteada.

Mas Deparnieux já estava balançando a cabeça e

gotas de suor surgiram na cabeça quase calva do camarei-ro.

— Não — o patrão replicou numa voz suave. —

Você vai ser chicoteado. Ela vai ser engaiolada.

Sem poder para interferir, Halt assistiu à cena cruel

se desenrolar diante de seus olhos. O rosto do criado se encheu de medo quando ouviu que seria açoitado, mas a mulher, ao saber de sua punição, desabou no chão com o rosto transformado numa máscara de desespero. Halt se lembrou da estrada sinuosa que tinham percorrido para chegar a Montsombre, cercada com os infelizes pendura-dos nas gaiolas de ferro. Ficou enjoado ao olhar para o tirano vestido de preto à sua frente. Ele se levantou a-bruptamente, empurrando a cadeira para trás, derrubando-a e fazendo-a cair no chão de pedra.

— Vou para a cama — ele avisou. — Para mim

chega.

E vanlyn não tinha ideia de por quanto tempo estavam subindo aos tropeços a trilha coberta de neve. O pônei andava com dificuldade, de cabeça baixa e sem reclamar, carregando no lombo Will, que gemia baixinho. A própria Evanlyn continuava a caminhar sem pensar, amassando e fazendo ranger a neve seca recém-caída com os pés.

Finalmente, sentiu que não podia continuar. Ela

cambaleou, parou e procurou um abrigo para o resto da noite.

Os ventos dominantes do norte dos últimos dias ti-

nham formado uma grossa camada de neve ao lado dos pinheiros, deixando uma profunda depressão atrás dos troncos. Os galhos mais baixos das árvores maiores se espalhavam sobre essas cavidades, criando um abrigo de-baixo da superfície da neve. Eles não só poderiam se pro-teger do mau tempo, já que a neve continuava a cair, co-mo a depressão iria escondê-los do olhar casual de pesso-as que porventura passassem pela trilha.

Não era, de modo algum, o esconderijo ideal, mas

era o melhor disponível. Evanlyn conduziu o pônei para fora da trilha e se dirigiu para uma das maiores árvores que cresciam a alguns metros do caminho.

Quase imediatamente ela afundou até a cintura na

neve, mas se esforçou para continuar, puxando o animal atrás dela na trilha que abriu. Ela gastou quase todas as últimas reservas de força e finalmente tropeçou para den-tro de um grande buraco atrás de uma árvore. O pônei hesitou e depois a seguiu. Will pelo menos teve a presença de espírito de se inclinar sobre o pescoço do animal para evitar ser arrancado da sela pelos galhos enormes do pi-nheiro cheios de neve.

O espaço debaixo da árvore era surpreendentemen-

te grande e havia bastante lugar para os três. Com o calor de seus corpos no espaço mais ou menos fechado, estava bem menos frio do que Evanlyn tinha imaginado. O frio ainda era intenso, mas suportável. Ela ajudou Will a descer do lombo do pônei e o fez sentar. Ele ficou escarrapacha-do no chão com as costas apoiadas na casca áspera da ár-vore, enquanto ela procurava a mochila, onde encontrou dois cobertores grossos dela. Evanlyn envolveu os om-bros do amigo com as cobertas e, depois se sentou ao lado dele e se cobriu também. Ela tomou uma das mãos dele entre as suas e esfregou os dedos. Eles pareciam congela-dos. Ela sorriu para ele encorajando-o.

— Agora vamos ficar bem — ela disse. — Muito

bem.

Will olhou para ela e, por um momento, Evanlyn

achou que ele tinha compreendido. Mas se deu conta de que ele estava apenas reagindo ao som de sua voz.

Assim que ele pareceu estar mais aquecido e seus

tremores diminuíram para um espasmo ocasional, ela se livrou do cobertor e se levantou para tirar a sela do pônei. O animal grunhiu e relinchou aliviado quando as tiras se afrouxaram ao redor de sua barriga e lentamente se abai-xou sobre os joelhos para se deitar no abrigo.

Talvez os cavalos fossem treinados para fazer isso

naquela terra coberta de neve. Ela não sabia. Mas o pônei deitado oferecia um local quente para que ela e Will des-cansassem. Ela puxou o garoto passivo para longe do tronco da árvore e tornou a ajeitá-lo, recostando-o à barri-ga quente do equino. Então, embrulhando-se nos coberto-res outra vez, ela se aninhou perto dele. O calor do corpo do animal era uma bênção. Ela podia senti-lo nas costas e, pela primeira vez em horas, ficou aquecida. Sua cabeça caiu sobre o ombro de Will e ela adormeceu.

Do lado de fora, os flocos pesados de neve conti-

nuavam a desabar das nuvens baixas.

Em 30 minutos, qualquer sinal de sua passagem pe-

la neve alta tinha desaparecido.

A notícia de que dois escravos haviam fugido levou

algum tempo para chegar aos ouvidos de Erak na manhã seguinte.

Isso não era de surpreender, pois um acontecimen-

to desses não era considerado importante o bastante para perturbar um dos jarls mais antigos. De fato, foi apenas depois que uma das escravas da cozinha se lembrou de que Evanlyn tinha passado os dias anteriores se queixando de ter sido indicada para a casa dele que Borsa, que tinha sido informado do desaparecimento da garota, pensou em mencionar o fato a ele.

Assim, ele apenas contou o acontecimento por aca-

so, quando viu o capitão barbado deixando a sala de refei-ções depois de tomar café.

— A sua maldita garota se foi — ele resmungou

passando por Erak rapidamente.

Como hilfmann, é claro, Borsa tinha sido informa-

do do desaparecimento da escrava assim que o responsá-vel pela cozinha o descobriu. Afinal, era tarefa do hilf-mann lidar com esses problemas administrativos.

— Minha garota? — Erak indagou fingindo não

entender. Borsa acenou com impaciência.

— A menina de Araluen que você trouxe. A que ia

ser sua escrava. Parece que ela fugiu.

Erak franziu a testa. Ele achou que seria lógico pa-

recer um pouco aborrecido diante desse tipo de aconteci-mento.

— Para onde? — ele perguntou, e Borsa respondeu

com um gesto irritado.

— Quem sabe? Não há lugar para ir e a neve estava

caindo como um cobertor na noite passada. Não há sinais de rastros em nenhum lugar.

Ao ouvir essa notícia, Erak soltou um suspiro de a-

lívio interior. Pelo jeito, essa parte de seu plano tinha fun-cionado. Suas próximas palavras, porém, desmentiram a satisfação que ele escondia no fundo de seu ser.

— Ora, então encontrem ela! — ele disparou irrita-

do. — Eu não arrastei ela por todo o mar de Stormwhite para que fosse perdida!

E se virou, e se afastou. Afinal, ele era um jarl sê-

nior e um líder de guerra. Borsa podia muito bem ser o hilfmann e o administrador-chefe de Ragnak, mas, numa sociedade voltada para a guerra como aquela, Erak ocupa-va uma posição bastante superior.

Borsa olhou enquanto ele se afastava e praguejou

em voz baixa. Ele estava ciente não só de suas posições, como também sabia que apenas um homem insensato in-sultaria o jarl frente a frente. Ou pelas costas, como era o caso. Erak era conhecido por reagir com sua acha à menor provocação.

Pensar na viagem de Erak com a garota o fez se

lembrar do outro escravo: o garoto que tinha sido apren-diz de arqueiro. Ele tinha ouvido falar que a menina tinha feito perguntas sobre ele nos últimos dias. Agora, envolto no pesado casaco de pele, foi até a porta e se dirigiu ao alojamento dos escravos do pátio.

Franzindo o nariz por causa do mau cheiro dos

corpos não banhados, Borsa parou na soleira da porta do alojamento dos escravos do pátio e observou os membros do Comitê parados à sua frente.

— Vocês não o viram sair? — ele perguntou sem

acreditar.

O escravo negou com um gesto de cabeça e de o-

lhos baixos. Seus modos mostravam sua culpa. Borsa ti-nha certeza de que ele tinha ouvido ou visto o outro es-cravo escapar e não tinha feito nada a respeito. Ele balan-çou a cabeça zangado e se virou para o guarda ao seu lado.

— Mande açoitá-lo — ele disse rapidamente e se

virou para o prédio principal.

Mal tinha passado uma hora quando chegou a notí-

cia do barco perdido. A ponta da corda, cortada com uma faca, contava sua história. Dois escravos fugidos, um bar-co desaparecido. A conclusão era óbvia. Aborrecido, Bor-sa pensou nas chances de sobrevivência em Stormwhite nessa época do ano num barco aberto. Especialmente per-to da costa.

Pois, ao contrário do que podia parecer, os fugiti-

vos teriam uma chance melhor de sobrevivência no mar aberto. Por terra, junto da costa e empurrados pelos ven-tos incansáveis e ondas enormes, seria um milagre se eles não fossem esmagados contra as rochas antes de se afasta-rem 10 quilômetros.

— Pois já vão tarde — ele resmungou e mandou

que as patrulhas enviadas para fazer uma busca nas trilhas das montanhas do norte voltassem.

Mais tarde naquele dia, Erak ouviu dois escravos

conversando em voz baixa sobre os dois araluenses que tinham roubado um barco e tentado escapar. Por volta do meio-dia, os grupos de busca voltaram das montanhas. Ficou claro que os homens estavam aliviados por estar longe da neve alta e do vento cortante que tinha se insta-lado logo após o amanhecer.

Seu coração ficou mais leve. Agora os fugitivos es-

tariam seguros até a primavera.

Contanto que conseguissem encontrar a cabana na

montanha e não morressem congelados na tentativa.

A vida no Château Montsombre tinha caído na rotina. Seu anfitrião, o líder Deparnieux, via os dois convidados relutantes apenas quando queria, o que acontecia geral-mente durante o jantar, uma ou duas vezes por semana. Isso também coincidia com as ocasiões em que ele tinha pensado numa nova maneira de atrair Halt, de tentar fazer que mostrasse suas habilidades.

Em outros momentos, os dois araluenses ficavam

confinados principalmente no quarto da torre, embora todos os dias tivessem permissão de realizar um pouco de exercício no pátio do castelo sob o olhar desconfiado de cerca de 12 homens armados que os vigiavam da torre. Eles haviam perguntado várias vezes se poderiam se aven-turar para fora dos muros do castelo e, talvez, explorar um pouco o planalto.

Eles não esperavam mais do que a resposta que re-

ceberam, que foi um silêncio sepulcral por parte do chefe dos homens designados para vigiá-los, mas ainda assim era muito frustrante.

Naquele momento, Horace andava de um lado para

outro do terraço no alto da torre central do Château Montsombre.

Do lado de dentro, Halt estava sentado de pernas

cruzadas na cama enquanto dava os toques finais num novo arco que estava fazendo para Will. Ele vinha traba-lhando no projeto desde que tinham chegado a Gálica. Cuidadosamente, ele selecionou, colou e amarrou com firmeza tiras de madeira de modo que seus diferentes vei-os e formas naturais ficassem opostos uns aos outros e fizessem que a peça formasse uma curva suave. Depois, ele fixou duas peças parecidas, porém mais curtas, em ca-da ponta, de modo que sua curva corresse paralela ao con-torno principal do arco, dando-lhe a forma recurva que desejava.

Quando tinham chegado a Montsombre, Deparni-

eux tinha visto as peças na mochila de Halt, mas não tinha visto motivo para confiscá-las.

Sem flechas, um arco pela metade não representava

ameaça para ele. O vento circundava os torreões do caste-lo se espremendo entre as estátuas de gárgulas esculpidas em pedra. Abaixo do terraço, uma família de gralhas esvo-açava e planava ao vento, indo e vindo do ninho construí-do numa fresta da dura parede de granito.

Horace sempre se sentia um tanto enjoado ao ob-

servar pássaros voando abaixo dele. Ele se afastou da ba-laustrada e ajeitou melhor a capa em volta do corpo. O ar trazia consigo a ameaça de chuva e, no norte, havia um grupo de nuvens pesadas vindo na direção deles. Era o meio da tarde de outro dia gelado em Montsombre. A flo-resta que se estendia abaixo deles era uma massa escura e sem forma. Daquela altura, parecia um tapete áspero.

— O que vamos fazer, Halt? — Horace perguntou

e o companheiro hesitou antes de responder.

Não porque não sabia a resposta, mas porque não

sabia como o jovem rapaz ia recebê-la.

— Vamos esperar — ele disse simplesmente e de

imediato viu a frustração no olhar de Horace.

Ele sabia que o garoto estava esperando que alguma

coisa precipitasse os acontecimentos com Deparnieux.

— Mas Deparnieux está torturando e matando pes-

soas! E nós só ficamos sentados olhando! — o menino disse zangado.

Ele esperava mais do habilidoso ex-arqueiro do que

uma simples ordem de esperar.

A inatividade forçada estava irritando Horace. Ele

não estava lidando bem com a monotonia e a frustração do cotidiano em Montsombre. Ele era treinado para agir e era o que queria fazer. Ele sentia a compulsão de fazer alguma coisa — qualquer coisa. Ele queria castigar De-parnieux pela crueldade, queria uma chance de fazer o ca-valeiro negro engolir os comentários sarcásticos.

Acima de tudo, queria se livrar de Montsombre,

voltar para a estrada e procurar Will.

Halt esperou até quando achou que Horace tinha se

acalmado um pouco.

— Ele também é o senhor deste castelo — ele con-

tinuou com suavidade — e tem cerca de cinquenta ho-mens prontos para obedecer às suas ordens. Acho que isso é um pouco mais do que poderíamos enfrentar com tranquilidade.

Horace pegou um pedaço de granito despedaçado

de um canto da balaustrada e o jogou para longe no vazio abaixo, viu-o cair e descrever uma curva na direção dos muros do castelo até se perder de vista.

— Eu sei — ele respondeu de mau humor —, mas

gostaria que pudéssemos fazer alguma coisa.

Halt levantou os olhos de sua tarefa. Embora es-

condesse o fato, sua frustração era ainda mais intensa do que a de Horace. Se estivesse sozinho, poderia fugir do castelo com a maior facilidade. Mas, para tanto, teria que abandonar Horace, e nunca faria isso. Em vez disso, ele se via dividido por lealdades conflitantes: para com Will e com o jovem rapaz que desinteressadamente resolveu a-companhá-lo na busca de um amigo. Ele sabia que De-parnieux não teria piedade de Horace se Halt escapasse. Ao mesmo tempo, todas as fibras de seu ser ansiavam por tomar a estrada e sair em busca do aprendiz perdido. Ele voltou a atenção para o arco quase completo outra vez, tomando cuidado para evitar que sua voz mostrasse qual-quer sinal de frustração.

— Receio que o próximo movimento está nas

mãos de nosso anfitrião — ele disse a Horace. — Ele não tem certeza do que fazer comigo. Ele não sabe bem se posso ser útil. E, enquanto hesita, ele está vigilante. Isso o torna perigoso.

— Então, não poderíamos lutar com ele? — Hora-

ce indagou recebendo uma enfática resposta negativa de Halt.

— Prefiro relaxar um pouco — ele retrucou. —

Prefiro que ele pense que não somos tão perigosos ou ú-teis quanto imaginou. Sinto que ele está tentando chegar a uma conclusão a meu respeito. Aquela história com a co-zinheira foi um teste.

As primeiras gotas de chuva bateram na laje do pi-

so. Horace olhou para cima e percebeu com alguma sur-presa que as nuvens aparentemente tão distantes alguns minutos antes já estavam passando em cima deles.

— Um teste? — ele repetiu.

Halt retorceu o rosto numa careta. — Ele queria ver o que eu ia fazer. Talvez ele qui-

sesse descobrir o que eu poderia fazer a respeito.

— Então você não fez nada? — Horace perguntou

e no mesmo instante se arrependeu das palavras apressa-das.

Halt, contudo, não se ofendeu. Ele encarou o garo-

to com firmeza e não disse nada.

— Desculpe, Halt — Horace resmungou afinal

baixando o olhar.

— Não havia muito o que eu pudesse fazer — Halt

explicou ao aceitar as desculpas. — Não enquanto Depar-nieux estava nervoso e em guarda. Esse não é o momento de agir contra um inimigo. Receio que nas próximas se-manas vai haver mais desses testes — ele acrescentou num tom de advertência.

— O que você acha que ele pretende? — Horace

perguntou imediatamente.

— Não sei os detalhes, mas você pode apostar que

nosso amigo Deparnieux vai realizar mais atos desagradá-veis apenas para ver o que faremos a respeito.

Novamente, o ex-arqueiro fez uma careta. — A questão é: quanto mais eu ficar indiferente,

mais ele vai relaxar e menos preocupado vai ficar comigo.

— E é isso o que você quer? — Horace questionou

começando a entender.

Halt concordou sombrio.

— É isso o que quero.

Ele olhou para as nuvens escuras que cobriam o

céu.

— Agora, entre antes de ficar encharcado — ele

sugeriu.

A chuva veio e caiu durante uma hora, acompa-

nhando a violência do vento, batendo quase horizontal-mente nos espaços abertos das janelas do château onde os ocupantes tinham deixado de fechar as venezianas de ma-deira.

Uma hora depois de escurecer, a chuva diminuiu

quando o sempre presente vento levou as nuvens mais para o sul, e o sol baixo surgiu no oeste numa espetacular exibição contra as nuvens de tempestade que se separa-vam.

Os dois prisioneiros estavam assistindo ao pôr do

sol do terraço atingido pelo vento quando ouviram uma agitação abaixo deles.

Um cavaleiro solitário estava no portão principal

batendo no gigantesco sino de bronze pendurado em um poste. Ele falava, ou melhor, gritava, em galês, e Horace não tinha ideia do que ele dizia, embora certamente reco-nhecesse o nome “Deparnieux”.

— O que ele está dizendo? — ele perguntou a Halt,

e o arqueiro levantou a mão pedindo silêncio enquanto escutava as últimas palavras do cavaleiro.

— Ele está desafiando Deparnieux — ele contou

com a cabeça inclinada para o lado para compreender as palavras do cavaleiro desconhecido com mais clareza.

Horace fez um gesto impaciente.

— Eu entendi! — ele disse com certa aspereza. —

Mas por quê? Halt fez sinal para que se calasse enquanto o recém-chegado continuava a gritar. O tom era bastante zangado, mas era difícil entender as palavras, pois elas iam e vinham ao sabor do vento.

— Pelo que posso entender — Halt começou de-

vagar —, nosso amigo Deparnieux assassinou a família desse sujeito enquanto ele estava fora numa busca. Eles vivem realizando buscas nessa região.

— Então, o que aconteceu? — Horace quis saber,

mas o arqueiro só pôde responder com um dar de om-bros.

— Parece que Deparnieux queria as terras da famí-

lia desse homem, então se livrou dos pais do sujeito.

Ele continuou ouvindo.

— Eles já eram idosos e bastante indefesos. — Pelo que sabemos de Deparnieux, ele é bem ca-

paz disso — Horace grunhiu.

De repente, o desconhecido parou de gritar, virou o

cavalo e se afastou trotando do portão para esperar uma reação. Durante alguns minutos, não se viu nenhum sinal de que alguém além de Halt e Horace tivesse ouvido al-guma coisa. Então, uma porta falsa se abriu no sólido mu-ro e dela saiu uma figura vestida numa armadura negra e montada num cavalo de batalha negro.

Deparnieux se aproximou lentamente até chegar a

uns 100 metros do outro cavaleiro. Os dois se encararam enquanto o jovem repetia o desafio. Nas laterais do caste-lo, Halt e Horace podiam ver os homens de Deparnieux ansiosamente ocupando posições favoráveis para assistir à batalha que iria se realizar.

— Abutres — Halt murmurou ao vê-los. O cavaleiro vestido de preto não respondeu ao des-

conhecido. Ele simplesmente ergueu a ponta do escudo e fechou o visor do capacete. O gesto foi suficiente para o desafiante. Ele fechou o próprio visor com força e espo-reou seu cavalo de batalha. Deparnieux fez o mesmo e os dois dispararam na direção um do outro com as lanças apontadas para a frente.

Mesmo a distância, Halt e Horace podiam ver que

o jovem não era muito habilidoso. Ele estava sentado na sela de modo estranho e segurava o escudo e a lança de forma desajeitada. Deparnieux, em comparação, parecia ter movimentos totalmente coordenados e assustadora-mente capazes quando os dois se chocaram.

— Isso não parece bom — Horace murmurou

num tom preocupado. Os dois se chocaram com um som retumbante que ecoou pelas paredes do castelo. A lança do jovem cavaleiro, mal posicionada e num ângulo desfa-vorável, partiu-se em pedaços. Em comparação, a lança de Deparnieux atingiu diretamente o escudo do oponente, fazendo-o cambalear na sela quando passaram. Mas, por mais estranho que parecesse, Deparnieux não conseguiu segurar a lança com firmeza. Ela caiu na grama atrás dele enquanto virava o cavalo para contra atacar. Por um mo-mento, Horace sentiu uma onda de esperança.

— Ele está ferido! — exclamou ansioso. — Que

golpe de sorte! Mas Halt observava a cena com a testa franzida e balançando a cabeça.

— Não acredito nisso — ele afirmou. — Há algu-

ma coisa esquisita acontecendo aqui.

Os dois guerreiros de armadura empunharam as

espadas e voltaram a atacar. Eles se chocaram um contra o outro. O escudo de Deparnieux foi atingido por um golpe do outro cavaleiro, enquanto sua espada atingiu o capacete do oponente com um tinido e, mais uma vez, o jovem cambaleou na sela.

Os cavalos de batalha relinchavam furiosos enquan-

to giravam e se empinavam, e os cavaleiros tentavam as-sumir uma posição vantajosa. Os guerreiros se golpearam novamente quando se aproximaram um do outro, enquan-to os homens de Deparnieux davam vivas sempre que o patrão desferia um golpe.

— O que ele está fazendo? — Horace perguntou

sem o entusiasmo anterior. — Deparnieux poderia ter a-cabado com o outro depois daquele primeiro golpe!

Sua voz adotou um tom de repugnância quando

percebeu a verdade.

— Ele está brincando com o outro! Abaixo deles, os guinchos agudos de espada contra

espada continuavam e se alternavam com o som metálico mais grave quando atingiam os escudos. Para espectadores experientes como Halt e Horace, que tinham visto muitos torneios no castelo Redmont, era óbvio que Deparnieux estava se contendo. Seus homens, porém, pareciam não notar. Eles eram camponeses que não tinham conheci-mento das habilidades envolvidas num duelo como aque-le. Eles continuavam a rugir sua aprovação a cada golpe desferido por Deparnieux.

— Ele está jogando para a plateia — Halt disse e

indicou os homens armados nas balaustradas abaixo deles. — Ele está fazendo o outro homem parecer melhor do que realmente é.

Horace balançou a cabeça. Deparnieux estava mos-

trando mais um lado de sua natureza cruel ao prolongar a batalha daquela forma. Era muito melhor dar ao jovem cavaleiro um fim misericordioso do que brincar com ele.

— Ele é um porco — ele disse em voz baixa. O comportamento de Deparnieux ia contra todas

as normas da cavalaria, que significavam tanto para ele. Halt assentiu com um gesto de cabeça.

— Isso nós já sabemos. Ele está usando esse rapaz

para melhorar a própria reputação.

Horace o olhou com espanto e o arqueiro explicou. — Ele domina pelo medo. O poder sobre seus

homens depende do quanto eles o respeitam e temem. E ele precisa sempre renovar esse medo. Ele não pode dei-xá-lo escapar. Ao fazer esse oponente parecer mais capaz do que é, ele realça a própria reputação de grande guerrei-ro. Esses homens — ele fez um gesto desdenhoso para a balaustrada abaixo — não percebem isso.

Deparnieux pareceu resolver que já tinha prolonga-

do a luta o suficiente. Os dois araluenses detectaram uma sutil mudança na velocidade e na força de seus golpes. O jovem cavaleiro balançou sob o ataque e tentou permane-cer firme. Mas a figura vestida de preto fez seu cavalo de batalha segui-lo implacavelmente, desferindo golpes na espada, no escudo e no capacete, à vontade. Finalmente, ouviu-se um som mais surdo quando a espada de Depar-nieux atingiu um ponto vulnerável: a malha de ferro que protegia o pescoço do oponente.

O cavaleiro negro sabia que tinha sido um golpe

mortal. Com desdém, virou o cavalo na direção do portão do castelo sem olhar para o jovem, que estava caindo para o lado da sela. Das balaustradas, vieram gritos e aplausos quando a figura sem energia caiu no chão e lá ficou imó-vel. O portão se fechou com estrondo atrás do vitorioso.

Halt acariciou a barba pensativo.

— Acho que talvez tenhamos encontrado a chave

para resolver nosso problema com lorde Deparnieux — ele disse.

A manhã já ia pela metade quando Evanlyn acordou, embora ela não tivesse como saber disso.

Não havia sinal do sol. Ele estava escondido atrás

das nuvens baixas cheias de neve. A luz era tão fraca e difusa que parecia estar vindo de todas as direções e de nenhuma ao mesmo tempo. Era dia, e isso era tudo o que sabia.

Ela alongou os músculos doloridos e olhou em vol-

ta. Ao seu lado, Will estava sentado ereto e bem acordado. Talvez ele estivesse assim por horas ou talvez tivesse a-cordado somente alguns minutos antes dela. Não havia como saber. Ele simplesmente ficou sentado de olhos ar-regalados, balançando levemente para a frente e para trás e olhando diretamente para a frente.

O coração dela ficava partido ao vê-lo dessa manei-

ra. Quando ela se mexeu, o pônei percebeu o movimento e começou a se levantar. Evanlyn se afastou do animal para lhe dar espaço, segurou as mãos de Will e o puxou para longe também. O pequeno cavalo ficou de pé e bateu os cascos no chão uma ou duas vezes, sacudiu-se e relin-chou violentamente, soprando uma grande nuvem de va-por no ar gelado.

A neve tinha parado de cair durante a noite, mas

não antes de ter apagado os sinais da passagem deles até a depressão debaixo da árvore. Evanlyn se deu conta de que seria difícil voltar para a trilha, mas pelo menos agora es-tava descansada. Ela pensou brevemente em comer — havia um pequeno suprimento de comida na mochila — mas logo descartou a ideia, preferindo continuar e aumen-tar a distância entre eles e Hallasholm. Ela não tinha como saber que os grupos de busca já tinham sido chamados de volta por Borsa.

Ela concluiu que poderia viver mais algumas horas

com a sensação de vazio no estômago, mas não com a forte sede que tinha secado sua boca. Foi até onde a neve estava espessa e nova, pegou um punhado e o colocou na boca, deixando-a derreter. A quantidade de água produzi-da foi surpreendentemente pequena, e ela teve que repetir o gesto várias vezes. Ela pensou em mostrar a Will como fazer o mesmo, mas de repente ficou impaciente para prosseguir a viagem. “Se ele estiver com sede”, raciocinou, “saberá resolver o problema sozinho”.

Ela voltou a amarrar a sela no lombo do pônei e

apertou as tiras o máximo que pôde. O pônei, esperto como todos os de sua espécie, tentou respirar fundo e ex-pandir a barriga para depois expirar e fazer as tiras afrou-xarem. Mas Evanlyn tinha ficado atenta a esse truque des-de os 11 anos de idade. Ela deu uma joelhada forte no animal, obrigando-o a soltar o ar e então, quando o corpo dele se contraiu, puxou as tiras com força. O pônei olhou para ela com ar de censura, mas aceitou seu destino sabi-amente.

Quando ela começou a sair debaixo da árvore, no-

vamente abrindo caminho na neve na altura da cintura, Will fez um movimento para montar o pônei. Ela o impe-diu, levantando a mão.

— Não — ela disse com delicadeza. Eles precisavam do pônei, e Will certamente estava

descansado depois de uma noite tranquila na vala relati-vamente aquecida. Mais tarde, talvez ela o deixasse montar o animal outra vez. Ela sabia que as reservas de força do amigo não podiam ser muito grandes. Mas, naquele mo-mento, ele podia andar e eles preservariam a força do pe-queno cavalo o máximo possível.

Foram necessários 5 minutos de trabalho duro para

voltar até onde a trilha podia ser percorrida com relativa facilidade e, respirando com dificuldade e molhada de su-or, ela recomeçou a subir a colina com obstinação.

O cavalo andava com dificuldade e paciência aliás

dela, e Will caminhava a meio passo à direita. Seus lamen-tos em voz baixa e sem parar já a estavam deixando ner-vosa, mas ela fez o que pôde para ignorá-lo, pois sabia que ele nada podia fazer para parar. Pela centésima vez desde que deixaram Hallasholm, ela se viu desejando o dia em que ele finalmente teria eliminado todos os sinais da droga de seu organismo.

Infelizmente, esse dia seria adiado ainda mais. De-

pois de algumas horas de caminhada firme e difícil na ne-ve recém-caída, Will foi repentinamente tomado por uma onda de tremores incontroláveis.

Seus dentes bateram, e seu corpo sacudiu, tremeu e

se retorceu quando ele caiu no chão, rolando na neve, sem nada poder fazer, com os joelhos encolhidos junto do pei-to. Uma das mãos esfregava a neve inutilmente, enquanto a outra apertava a boca com firmeza. Ela observou horro-rizada quando os gemidos se transformaram num grito assustador, cheio de agonia, que saía do fundo de sua al-ma.

Evanlyn caiu de joelhos ao lado dele, abraçou-o e

tentou acalmá-lo com sua voz. Mas ele se afastou dela com um movimento violento, rolando e se debatendo ou-tra vez, e ela se deu conta de que não havia nada que pu-desse fazer além de lhe dar um pouco da erva que Erak colocara na mochila. Ela tinha visto a erva quando preci-sou procurar roupas quentes e cobertores. Havia uma pe-quena quantidade das folhas secas dentro de uma bolsa impermeável. Jarl Erak tinha avisado que Will não conse-guiria parar de usar a droga imediatamente. A erva do ca-lor criava uma dependência física nos usuários que provo-cava muita dor no caso de sua falta total.

Ele lhe dissera que teria que livrar o garoto do vício

gradativamente, dando-lhe quantidades cada vez menores em intervalos cada vez maiores até que ele pudesse passar sem ela.

Evanlyn tinha esperado que Erak estivesse errado.

Ela sabia que cada dose da droga ampliava ainda mais o tempo de dependência e tinha pensado que seria capaz de cortar o suprimento de Will de imediato e que poderia ajudá-lo a suportar a dor e o sofrimento.

Mas não havia como ajudá-lo naquele momento,

por isso com relutância, ela lhe deu uma pequena quanti-dade das folhas secas, protegendo a bolsa com o corpo quando a tirou do pacote e novamente quando a guardou.

Will pegou o pequeno punhado da substância cin-

zenta com uma ansiedade assustadora. Pela primeira vez, ela viu um clarão vivo no olhar normalmente apagado. Mas sua atenção estava totalmente concentrada na droga e ela compreendeu o quanto a erva dominava a vida e a mente dele naqueles dias. Em silêncio, com os olhos chei-os de lágrimas, ela olhou a concha vazia onde antes havia um companheiro vivo e entusiasmado. Ela condenou Borsa e os outros escandinavos que tinham provocado essa situação ao canto mais quente do inferno em que a-creditavam.

O aprendiz de arqueiro enfiou o pequeno punhado

de erva na boca, empurrou-o para a bochecha e deixou que a saliva o encharcasse e soltasse o suco que levaria o narcótico ao seu organismo. Aos poucos, os espasmos se acalmaram até que ele se ajoelhou na neve ao lado do ca-minho, curvou-se e balançou lentamente para a frente e para trás de olhos fechados, outra vez gemendo suave-mente para si mesmo no mundo solitário, desconhecido e cheio de dor que habitava.

O pônei olhava a esses acontecimentos sem curio-

sidade e, de tempos em tempos, abria um buraco na neve com o casco e mordiscava os escassos fios de grama que apareciam. Por fim, Evanlyn tomou a mão de Will e o pu-xou para cima sem que ele resistisse.

— Venha, Will — ela chamou num tom desanima-

do. — Ainda temos um longo caminho pela frente.

Ao dizer isso, ela percebeu que estava se referindo a

bem mais do que apenas a distância até a cabana de caça nas montanhas.

Grunhindo baixinho para si mesmo uma música

sem melodia, Will seguiu Evanlyn enquanto ela conduzia o pequeno grupo para cima outra vez.

A luz do dia já tinha quase desaparecido quando

Evanlyn encontrou a cabana.

Ela tinha passado pelo local duas vezes ao seguir as

instruções que Erak a tinha obrigado a memorizar: entrar à esquerda numa bifurcação na trilha 100 passos depois de um pinheiro derrubado por um raio, seguir por uma vala estreita que leva para baixo por uns 100 metros e sobe em curva e depois atravessar uma passagem rasa que atravessa um pequeno riacho.

Mentalmente, ela marcava os pontos de referência,

espiando de um lado e outro na luz fraca do fim de tarde que se instalava sobre as árvores. Mas não viu sinal da ca-bana, apenas o branco sem forma da neve.

Finalmente, ela percebeu que a cabana não estaria

facilmente visível. Ela estaria praticamente enterrada na neve. Quando se deu conta desse fato simples, notou um monte grande a menos de 10 metros de onde estava. Sol-tou a rédea do pônei, andou aos tropeços com a neve na altura dos joelhos e descobriu a extremidade de uma pare-de, depois a inclinação de um telhado e o ângulo recorta-do de um canto, mais regular e liso do que qualquer forma que a natureza poderia ter escondido debaixo da neve.

Movendo-se ao redor do grande monte, ela desco-

briu que o lado voltado na direção do vento estava mais descoberto e era possível ver a porta e uma pequena janela fechada por uma veneziana de madeira. Evanlyn ponde-rou que era uma sorte a porta ter sido construída daquele lado, mas então se deu conta de que isso tinha sido inten-cional. Apenas um idiota teria posto a porta do lado em que os constantes ventos do norte fariam a neve se empi-lhar a grande altura.

Com um suspiro de alívio, voltou para pegar a ré-

dea do pônei. As magras reservas de força de Will já ti-nham se acabado horas antes e ele estava caído sobre a sela, balançando e gemendo naquele contínuo murmúrio a meia-voz. Ela fez o pônei parar junto da pequena varanda, em frente da porta, e amarrou a rédea em uma corrente que tinha sido presa no chão. Provavelmente, não havia necessidade disso, pois o pônei não tinha mostrado inten-ção de ir embora até aquele momento. Entretanto, não fazia mal ser precavida. A última coisa que queria era ter que caçar o pônei e seu cavaleiro no meio da escuridão.

Continuar: parte 2 de 3