Terra do Gelo
A estrada estava chegando perto do oceano,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
A estrada estava chegando perto do oceano, e os bosques dos dois lados se aproximavam cada vez mais, à medida que campos férteis e cultivados davam lugar ao terreno coberto por florestas mais densas.
Era o tipo de lugar em que viajantes tranquilos po-
diam temer bandidos, já que as árvores cerradas perto da estrada davam ampla cobertura para uma emboscada. Halt, contudo, não tinha esses receios. Na verdade, seu estado de ânimo estava tão sombrio que ele teria recebido bem uma tentativa de bandidos de lhe roubarem os pou-cos pertences.
Sua pesada faca de caça e a faca de atirar estavam à
mão debaixo da capa, e ele levava o arco preparado, apoi-ado na parte mais alta da sela, à moda dos arqueiros. Uma ponta de sua capa, especialmente feita para atender a esse objetivo, formava uma dobra no ombro, deixando as ex-tremidades adornadas de pena das duas dúzias de flechas na aljava prontas para serem apanhadas rapidamente. Di-zia-se que todos os arqueiros levavam as vidas de 24 ho-mens na aljava, tão boa e mortal era sua habilidade com o arco.
Além dessas armas visíveis e do próprio instinto
muito apurado para pressentir o perigo, Halt tinha duas outras vantagens, não tão óbvias, em relação a quaisquer possíveis atacantes. Os dois cavalos de arqueiros, Puxão e Abelard, eram treinados para avisar discretamente a pre-sença de estranhos. E naquele momento, enquanto Halt cavalgava, as orelhas de Abelard estremeceram várias ve-zes e ele e Puxão viraram a cabeça e resfolegaram.
Halt estendeu a mão e acariciou o pescoço do cava-
lo com delicadeza.
— Bons garotos — ele disse com suavidade para os
dois pequenos animais atarracados.
Eles balançaram as orelhas, reconhecendo as pala-
vras. Para qualquer observador, o cavaleiro oculto debaixo da capa estava apenas acalmando sua montaria, uma atitu-de perfeitamente normal. Na verdade, seus sentidos ti-nham sido aguçados e sua mente trabalhava a toda veloci-dade. Ele falou novamente, apenas uma palavra.
— Onde?
Abelard inclinou a cabeça levemente para a esquer-
da, apontando para um arvoredo mais próximo da estrada do que os demais, a uns 50 metros de distância. Halt o-lhou rapidamente sobre o ombro e percebeu que Puxão, que trotava calmamente atrás dele, estava olhando na mesma direção. Os dois cavalos tinham percebido a pre-sença de um ou mais estranhos nas árvores. E então Halt falou novamente.
— À vontade.
E os dois cavalos, sabendo que o aviso tinha sido
recebido e o lugar notado, viraram as cabeças para a estra-da. Era esse tipo de habilidade especial que dava aos ar-queiros uma tremenda capacidade de sobreviver e prever problemas.
Ainda fingindo ignorar totalmente a presença de
qualquer pessoa nas árvores, Halt continuou cavalgando no mesmo ritmo tranquilo. Ele sorriu tristemente para si mesmo ao pensar no fato de que os cavalos só podiam lhe dizer que havia alguém ali. Eles não podiam prever suas intenções ou se era ou não um inimigo.
Ele pensou que fazer isso seria, realmente, um po-
der sobrenatural.
Ele já estava a 40 metros das árvores. Havia umas
seis delas, frondosas e cercadas por vários arbustos. Elas ofereciam uma cobertura perfeita para uma emboscada. Ou, ele raciocinou, para alguém que quisesse simplesmen-te se proteger da chuva fina que vinha caindo pelas últi-mas 10 horas. Debaixo do capuz, escondidos e invisíveis para qualquer observador, os olhos de Halt disparavam e examinavam o esconderijo denso. Abelard, mais perto do perigo em potencial, soltou um grunhido rouco. O som quase não podia ser ouvido e foi encarado por seu cavalei-ro mais como uma vibração no peito largo do animal do que qualquer outra coisa. Halt lhe deu um cutucão com o joelho.
— Eu sei — ele murmurou, sabendo que a sombra
do capuz esconderia qualquer movimento de seus lábios.
Halt decidiu que aquela distância era suficiente. O
arco lhe dava vantagem contanto que ficasse a distância. Ele puxou as rédeas de leve e Abelard parou, enquanto Puxão deu mais um passo antes de parar também.
Com um movimento tranquilo e desembaraçado,
Halt pegou uma flecha da aljava e a ajeitou na corda do arco. Ele não tentou atirar. Anos de prática constante o tornaram capaz de pegar o arco, mirar, atirar e atingir o alvo um piscar de olhos.
— Eu gostaria de ver você abertamente — ele disse
em voz alta. Houve um momento de hesitação e então um vulto robusto, montado num cavalo, saiu do meio das ár-vores e parou na beira da estrada.
Halt constatou que se tratava de um guerreiro, ao
notar o brilho opaco da malha de ferro nos braços e em volta do pescoço. Ele também usava uma capa para se proteger da chuva. Um capacete de aço cônico e simples estava pendurado na sela e um escudo redondo e sem bra-são pendia de suas costas. Halt não viu sinal de espada ou outra arma, mas sabia que elas normalmente eram carre-gadas do lado esquerdo, o lado que não via bem. Era se-guro supor que o cavaleiro estaria carregando algum tipo de arma. Afinal, não havia sentido em usar meia armadura e não estar armado.
O vulto, porém lhe lembrava alguém. Um momen-
to mais e Halt reconheceu o cavaleiro. Ele relaxou, reco-locando a flecha na aljava com o mesmo movimento sua-ve e experiente.
Ele fez que Abelard fosse para a frente e se apro-
ximou para cumprimentar o outro cavaleiro.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou,
já com uma boa ideia de qual poderia ser a resposta.
— Vou com você — Horace comunicou, confir-
mando a desconfiança de Halt. — Você vai procurar Will e quero acompanhar você.
— Entendo — Halt disse, puxando as rédeas en-
quanto emparelhava o cavalo com o do rapaz.
Horace era um garoto grande, e seu cavalo de bata-
lha era muitos palmos mais alto do que Abelard. O arquei-ro teve que olhar para cima para falar com o jovem e no-tou a expressão determinada do rapaz.
— E o que você acha que seu mestre vai dizer so-
bre isso quando descobrir?
— Sir Rodney? — Horace disse dando de ombros.
— Ele já sabe. Eu disse que estava indo embora.
Halt inclinou a cabeça um tanto surpreso. Ele tinha
imaginado que Horace fosse simplesmente fugir em sua tentativa de se juntar a ele. Mas o guerreiro aprendiz era um tipo franco e não estava acostumado a enganar ou u-sar subterfúgios. Ele se deu conta de que o caráter de Ho-race não lhe permitia simplesmente fugir.
— E como ele recebeu essa importante notícia?
Horace franziu a testa sem compreender. — Como? — ele perguntou indeciso, e Halt suspi-
rou baixinho.
— O que ele disse quando você contou pra ele?
Suponho que tenha dado um safanão na sua orelha...
Rodney não era conhecido por sua tolerância com
aprendizes desobedientes. Ele tinha um temperamento irritadiço e os garotos da escola de Guerra muitas vezes sentiam sua força na própria pele.
— Não — Horace respondeu imperturbável. —
Ele disse para lhe entregar uma mensagem.
— E qual é essa mensagem? — Halt tornou, balan-
çando a cabeça intrigado, notando que Horace se mexeu na sela pouco à vontade antes de responder.
— Ele disse “boa sorte” — o garoto declarou fi-
nalmente. — E ele disse para lhe falar que vim com a a-provação dele... extraoficialmente, é claro.
— É claro — Halt respondeu conseguindo escon-
der a surpresa que sentia diante desse inesperado gesto de apoio vindo do comandante da Escola de Guerra. — Ele dificilmente poderia lhe dar aprovação oficial para fugir com um criminoso banido, poderia?
— Acho que não — Horace respondeu depois de
pensar no assunto. — Então, vai deixar que eu vá com você?
— Claro que não — ele disse rispidamente, balan-
çando a cabeça. — Não tenho tempo para cuidar de você em todos os lugares.
O rosto do garoto ficou vermelho de raiva diante
do tom de rejeição de Halt.
— Sir Rodney também disse para lhe informar que
uma espada poderia ser útil para proteger você em suas viagens — ele ajuntou.
Halt olhou para o garoto alto com cuidado enquan-
to falava.
— Foi isso exatamente o que ele falou? — ele per-
guntou, e Horace negou com a cabeça.
— Não exatamente.
— Então me conte exatamente o que ele disse —
Halt pediu.
— Suas exatas palavras foram: “Uma boa espada
poderia ser útil para protegê-lo”.
— A quem ele se referia? — Halt devolveu, escon-
dendo um sorriso.
Horace se ajeitou no cavalo, corando furiosamente,
e não respondeu. Aquela era a melhor resposta que ele poderia ter dado. Halt o examinava com cuidado. Ele não estava desconsiderando a recomendação de Rodney e sa-bia que o garoto tinha coragem de sobra. Ele tinha prova-do isso ao desafiar Morgarath para um combate direto nas Planícies de Uthal.
Mas havia a possibilidade de ele ter se tornado or-
gulhoso e superconfiante. De que adulação e elogios de-mais tivessem lhe subido à cabeça. Entretanto, se esse fos-se o caso, ele teria respondido a pergunta sarcástica de Hall de imediato. O fato de não ter respondido, mas sim-plesmente ter permanecido parado na sua frente com a expressão determinada dizia muito sobre seu caráter. “É estranho como eles se transformam”, Halt pensou. Ele se lembrava de Horace como um menino um tanto valentão quando mais jovem. Era evidente que a disciplina da Es-cola de Guerra e alguns anos de maturidade tinham pro-vocado certas mudanças interessantes.
Ele analisou o garoto mais uma vez. Para falar a
verdade, seria bom ter um companheiro. Ele tinha recusa-do Gilan porque sabia que o outro arqueiro era necessário em Araluen. Mas com Horace a questão era diferente. Seu mestre de ofício tinha lhe dado permissão, extraoficial-mente, e Horace era um espadachim bastante competente, leal e confiável também.
E, além disso, Halt tinha que admitir que, como
Will tinha sido capturado, ele sentia falta de alguém mais novo ao seu lado. Ele sentia falta do entusiasmo e da ansi-edade que acompanhava os jovens. E, por incrível que parecesse, ele até sentia falta das intermináveis perguntas que vinham com eles também.
Ele notou que Horace o olhava ansiosamente. O
garoto estava esperando uma decisão e, até aquele mo-mento, não tinha recebido nada mais do que uma pergun-ta irônica de Halt sobre a “boa espada” sugerida por sir Rodney. Ele soltou um suspiro profundo e deixou uma carranca zangada cobrir seu rosto.
— Você vai me bombardear com perguntas dia e
noite?
Horace deixou os ombros caírem com esse tom de
voz e então, de repente, compreendeu o significado dessas palavras. Seu rosto ficou radiante e ele levantou os om-bros novamente.
— Você quer dizer que vai aceitar minha compa-
nhia? — ele indagou num tom de voz que o entusiasmo deixou muito mais agudo do que pretendia.
Halt olhou para baixo e ajeitou uma alça da sacola
pendurada na sela que não precisava de ajuste nenhum. De nada serviria se o garoto visse o leve sorriso que en-crespava seu rosto cansado.
— Parece que não tenho escolha — ele disse com
relutância. — Dificilmente você pode voltar para sir Rod-ney agora que fugiu, não é mesmo?
— Não, não posso! Quer dizer... isso é maravilho!
Obrigado, Halt! Você não vai se arrepender, juro! É que eu prometi para mim mesmo que eu encontraria Will e que ajudaria a resgatá-lo.
O menino estava praticamente gaguejando por cau-
sa do prazer de ser aceito. Halt cutucou Abelard com o joelho e começou a cavalgar, seguido tranquilamente por Puxão. Horace deu impulso para seu cavalo de batalha acompanhar Halt e continuou a derramar palavras de a-gradecimento.
— Eu sabia que você iria atrás dele, Halt. Eu sabia
que foi por isso que fingiu estar zangado com o rei Dun-can! Ninguém em Redmont acreditou quando ouviu o que tinha acontecido, mas eu sabia que assim você poderia ir e resgatar Will dos escandinavos...
— Chega! — Halt disse finalmente, levantando a
mão para impedir o fluxo de palavras, o que fez Horace parar no meio da sentença e curvar a cabeça num gesto de desculpas.
— Sim, claro. Desculpe. Nem mais uma palavra —
ele disse.
— Assim é melhor — Halt assentiu agradecido. Corrigido, Horace cavalgou em silêncio ao lado do
novo mestre, enquanto se dirigiam para a costa leste. Eles tinham percorrido outros 100 metros quando ele final-mente não aguentou mais.
— Onde vamos encontrar um navio? — ele quis
saber. — Vamos navegar diretamente para a Escandinávia atrás dos piratas. Podemos atravessar o mar nesta época do ano?
Halt se virou na sela e jogou um olhar furioso para
o jovem rapaz.
— Estou vendo que já começou — ele disse irrita-
do.
Mas, dentro do peito, seu coração estava leve como
há semanas não sentia.
A chegada inesperada da embarcação de Slagor, Wolf Fang, tornou a vida em Skorghijl ainda mais desagradável.
Por causa do espaço limitado, as condições de vida
estavam agora piores do que antes, com duas tripulações amontoadas no local destinado para só uma. E com o ex-cesso de pessoas vieram as brigas. Os escandinavos não estavam acostumados a longas horas de inatividade, então enchiam o tempo bebendo e jogando: uma receita quase certa para problemas. Quando só os membros de uma tripulação estavam envolvidos, os desentendimentos que surgiam geralmente eram resolvidos e esquecidos rapida-mente. Mas a lealdade dos dois grupos incendiava a situa-ção de modo que as discussões se inflamavam, a paciência se perdia e, às vezes, armas eram empunhadas antes que Erak pudesse intervir.
“Percebe-se”, Will pensou, “que Slagor nunca le-
vanta a voz para parar as brigas”. Quanto mais observava o capitão do Wolf Fang, mais ele compreendia que o ho-mem tinha pouca autoridade real e impunha muito pouco respeito aos outros escandinavos. A própria tripulação trabalhava por dinheiro, e não por um sentimento de leal-dade.
Naturalmente, havia duas vezes mais trabalho para
Will e Evanlyn. As tarefas de cozinhar, servir e limpar ti-nham dobrado e havia o dobro de escandinavos que exigi-am que eles fizessem todos os serviços que achassem ne-cessários. Mas, pelo menos, eles tinham conservado seu espaço. A varanda era pequena demais para que qualquer um dos imensos escandinavos sequer pensasse em solici-tá-la para uso próprio. Will pensou que essa era uma das compensações por terem sido capturados por gigantes.
Mas não eram somente as brigas e o trabalho extra
que tinham tornado a vida de Will e Evanlyn insuportável. As informações sobre o misterioso vallasvow feito por Ragnak tinham sido devastadoras para a princesa. A vida dela agora corria risco e o menor erro, a menor palavra descuidada de qualquer um deles poderia significar a mor-te dela. Ela pediu a Will para ser cuidadoso, para continuar a tratá-la como uma igual, como sempre tinha feito antes de conhecer sua verdadeira identidade. O menor sinal de deferência da parte dele, o menor gesto de respeito pode-ria muito bem levantar suspeitas e representar o fim para ela.
Naturalmente, Will garantiu a ela que guardaria seu
segredo. Ele treinou para nunca pensar nela como Cas-sandra e sempre usar o nome de Evanlyn, mesmo em pensamento. Mas, quanto mais ele tentava evitar o nome, mais ele parecia querer saltar para sua língua, sem convite. Ele vivia constantemente apavorado de que pudesse traí-la inadvertidamente.
O clima desagradável entre eles, provocado pelo
tédio e pela frustração, além de outras coisas, tinha desa-parecido diante desse novo perigo muito real. Eles eram amigos e aliados outra vez e sua determinação em se aju-dar e apoiar mutuamente recuperou a força e a convicção que tinham experimentado no curto tempo que passaram juntos em Céltica.
É verdade que o plano de Evanlyn de ser resgatada
tinha ido totalmente por água abaixo. Ela nunca poderia se revelar para um homem que tinha jurado matar todos os membros de sua família Compreender esse fato, além da obrigação de realizar tarefas domésticas e desagradá-veis, tinha tornado a sua vida em Skorghijl horrível. O ú-nico ponto luminoso em seus dias era Will, sempre alegre, sempre otimista, sempre encorajador. Ela percebeu como ele assumia discretamente os trabalhos piores e mais sujos, sempre que possível, e se sentia agradecida por isso. Ela se sentia envergonhada ao relembrar como o tinha tratado alguns dias antes. Mas quando tentou se desculpar, e ela era franca o bastante para admitir que tinha errado, ele apenas riu.
— Todos nós estamos um pouco amalucados —
ele disse. — Quanto antes fugirmos, melhor.
Ele ainda planejava escapar, e ela compreendeu que
tinha que acompanhá-lo. Ela sabia que Will tinha algo em mente, mas ele estava trabalhando em seu plano e, por enquanto não tinha lhe contado os detalhes.
Naquele momento, o jantar tinha terminado e havia
uma pilha enorme de pratos, colheres e canecas de madei-ra para lavar na água do mar e no cascalho fino na beira da praia. Suspirando, Evanlyn se inclinou para pegá-las. Ela estava exausta e quase não aguentava lembrar que teria que se agachar na altura dos tornozelos na água fria para esfregar a gordura.
— Eu lavo isso — Will ofereceu em voz baixa. Ele olhou à sua volta para se certificar que nenhum
dos escandinavos estava olhando e então pegou o saco pesado das mãos dela.
— Não — ela protestou. — Não é justo... Mas ele levantou a mão para interrompê-la. — De qualquer jeito, tem uma coisa que preciso
verificar. E isso vai ser um bom disfarce — ele disse. — Além disso, você teve uns dias difíceis. Vá e descanse um pouco — ele sugeriu sorrindo. — Se isso a fizer se sentir melhor, amanhã vai ter muita louça para lavar. E no dia seguinte. E você pode cuidar dela enquanto eu vou para lá sem que ninguém perceba.
Evanlyn lhe deu um sorriso cansado e tocou sua
mão num gesto de gratidão. Pensar em se estender na ca-ma dura, sem fazer nada, era quase bom demais para ser verdade.
— Obrigada — ela disse simplesmente.
O sorriso de Will se alargou e ela soube que ele ti-
nha ficado verdadeiramente satisfeito de o relacionamento entre os dois ter voltado ao normal.
— Pelo menos, os nossos anfitriões comem com
entusiasmo — ele comentou contente. — Eles não dei-xam muita coisa no prato.
Ele pendurou o saco e seu conteúdo barulhento no
ombro e foi até a praia. Sorrindo para si mesma, Evanlyn se inclinou e entrou na varanda.
Jarl Erak saiu da confusão barulhenta e cheia de
fumaça que havia na cabana e deixou que o ar frio do mar entrasse em seus pulmões. A vida na ilha estava deixando-o deprimido, principalmente pelo fato de Slagor não ten-tar manter a disciplina. “O homem é um bêbado inútil”, Erak pensou zangado. E ele não era um guerreiro: todos sabiam que escolhia apenas alvos mal vigiados para suas invasões e nunca participava da luta. Erak tinha sido obri-gado a intervir na briga entre um de seus homens e um membro da tripulação de criminosos do Wolf Fang. O homem de Slagor estava usando dados viciados e, quando foi questionado, tentou atacar o oponente com a faca de caça.
Erak interveio e derrubou o marinheiro do Wolf
Fang com um soco poderoso. Então, para mostrar que estava sendo imparcial, foi obrigado a derrubar seu pró-prio tripulante.
“Imparcial, ao estilo dos escandinavos”, ele pensou
cansado. Um gancho de esquerda e uma cruzada de direi-ta.
Ele ouviu o ranger de passos no cascalho da praia e
viu um vulto escuro se dirigindo para a beira da água. Ele franziu a testa pensativo. Era o garoto de Araluen.
Furtivamente, começou a seguir o menino. Ele ou-
viu o bater de pratos e canecas sendo derrubadas na ária e então o barulho da escova. “Talvez ele esteja apenas la-vando a louça”, pensou. “Talvez não.” Andando com cui-dado, chegou mais perto.
A ideia de se aproximar sorrateiramente não se
comparava exatamente aos padrões dos arqueiros. Will estava esfregando os pratos quando ouviu a aproximação do escandinavo grandalhão. Ou era isso, ou um leão-marinho estava se arrastando nos pedregulhos.
Virando-se para olhar, reconheceu o vulto robusto
de Erak, que parecia ainda maior na escuridão por causa do casaco de pele de urso que usava para se proteger do vento frio e cortante. Hesitante, Will começou a se levan-tar, mas o jarl acenou para que ficasse onde estava.
— Continue seu trabalho — ele disse irritado. Will continuou a esfregar, espiando o líder dos es-
candinavos com o canto do olho ao mesmo tempo em que olhava o ancoradouro e sentia o cheiro de tempestade no ar.
— Lá dentro cheira mal — Erak resmungou final-
mente.
— Pessoas demais num espaço muito pequeno —
Will arriscou, de olhos baixos e esfregando um prato.
Erak o interessava. Ele era um homem duro e um
lutador implacável, mas não era realmente cruel. Às vezes, de um jeito áspero, conseguia parecer quase simpático.
Erak, por sua vez, analisava Will. O que ele preten-
dia? Provavelmente estava tentando descobrir uma forma de escapar. Era isso o que faria no lugar do garoto. O a-prendiz de arqueiro era esperto e habilidoso e também determinado. Erak tinha reparado em como ele insistia em manter seu programa de exercícios estafante correndo pe-la praia, fizesse sol ou chuva.
Novamente, ele sentiu uma onda de respeito pelo
aprendiz de arqueiro. E pela garota. Ela também tinha mostrado muita coragem.
Pensar na menina o fez franzir a testa. Cedo ou tar-
de, haveria problemas em relação a ela. Principalmente com Slagor e seus homens. A tripulação do Wolf Fang era uma turma deplorável: na maioria, prisioneiros, crimino-sos de menor importância. Bons tripulantes não se dispu-nham a trabalhar com Slagor.
“Bem”, ele pensou filosoficamente, “se isso acon-
tecer, vou ter que bater algumas cabeças umas nas outras”. Ele não iria permitir que sua autoridade fosse desafiada por uma turba como os homens de Slagor. Os dois escra-vos lhe pertenciam. Eles seriam seu único lucro nessa via-gem desastrosa para Araluen e, se alguém tentasse machu-car qualquer um deles, teria que se ver com ele. Enquanto pensava nisso, tentou dizer a si mesmo que estava apenas protegendo seu investimento. Mas ele não tinha certeza de que isso era totalmente verdadeiro.
— Jarl Erak? — o garoto chamou na escuridão
com incerteza na voz, já que não sabia se deveria fazer perguntas ao líder escandinavo.
Erak grunhiu. O som foi neutro, mas Will o enten-
deu como uma permissão para continuar.
— O que é o vallasvow de que jarl Slagor falou? —
ele quis saber tentando parecer casual.
Erak franziu a testa quando ouviu o título. — Slagor não é um “jarl” — ele corrigiu. — Ele é
apenas um skirl, o capitão de um navio.
— Desculpe — Will retrucou com humildade. Deixar Erak zangado era a última coisa que queria.
Era óbvio que, ao se referir a Slagor como seu igual, Will tinha se arriscado a isso. Ele hesitou, mas o aborrecimento de Erak parecia ter diminuído, então ele tornou a pergun-tar.
— E o vallasvow? — ele insistiu.
Erak arrotou baixinho e se inclinou para o lado pa-
ra poder coçar as costas. Ele tinha certeza de que a tripu-lação de Slagor tinha trazido pulgas para a cabana. Aquele era um desconforto que não tinham tido que suportar até aquele momento. Frio, umidade, fumaça e mau cheiro. E agora todos podiam acrescentar pulgas. Ele desejou, não pela primeira vez, que o navio de Slagor tivesse naufraga-do no mar de Stormwhite.
— É um juramento — ele começou de má vontade
— feito por Ragnak. Não que ele tivesse algum motivo — acrescentou. — Você não irrita os Vallas por bobagens. Não se você tem bom senso.
— Os Vallas? — Will perguntou. — Quem são e-
les?
Erak olhou para o vulto agachado abaixo dele e ba-
lançou a cabeça espantado. Como o povo de Araluen era ignorante!
— Nunca ouviu falar dos Vallas? O que eles ensi-
nam à vocês naquela pequena ilha úmida onde vocês mo-ram? — ele indagou.
Will, sabiamente, não respondeu. Houve alguns
momentos de silêncio e então Erak continuou.
— Os Vallas, garoto, são os três deuses da vingan-
ça. Eles tomam a forma de um tubarão, um urso e um urubu.
Ele fez uma pausa para ver se Will tinha entendido.
O menino achou que agora deveria fazer algum comentá-rio.
— Entendo — ele disse devagar. Erak grunhiu
num gesto de zombaria.
— Tenho certeza de que não entendeu. Ninguém
que tenha algum bom senso vai querer ver os Vallas. Nin-guém que não esteja louco pensa em fazer um juramento para eles.
— Então um vallasvow é um juramento de vingan-
ça? — Will perguntou depois de pensar um pouco, e Erak assentiu.
— Vingança total — ele respondeu. — É quando
se odeia tanto alguém que se promete vingança, não ape-nas para a pessoa que fez mal para você, mas para todos os membros de sua família também.
— Todos os membros? — Will se espantou. Por um momento, Erak se perguntou se havia al-
gum motivo para esse tipo de pergunta. Mas ele não con-seguia entender como aquelas informações poderiam aju-dar numa tentativa de fuga e então continuou.
— Até o último — ele contou. — É um juramento
de morte, é claro, e não pode ser quebrado. Se a pessoa que fez o juramento mudar de ideia, os Vallas tomarão a ela e sua família em vez das vítimas originais. Eles não são do tipo de deuses com quem você gostaria de lidar, acredi-te em mim.
Novamente, um breve silêncio. Will se perguntou
se ele tinha feito perguntas suficientes e decidiu que pode-ria continuar mais um pouco.
— Então, se eles são tão terríveis, por que Rag-
nak...? — ele começou, mas Erak o interrompeu.
— Porque ele é louco! — ele disparou. — Eu lhe
disse, somente um louco faria um juramento para os Val-las! Ragnak nunca foi muito bom da cabeça... e agora é evidente que a perda do filho o fez perder a razão de vez.
Erak fez um gesto de desagrado. Ele parecia estar
cansado de falar sobre Ragnak e os assustadores Vallas.
— Apenas fique agradecido por não pertencer à
família de Duncan, garoto. Ou de Ragnak.
Ele se virou para ver a luz do fogo que aparecia en-
tre as várias frestas e aberturas nas paredes da cabana, jo-gando desenhos estranhos e alongados de luz no cascalho molhado.
— Agora, volte ao trabalho — ele mandou zangado
e voltou para o calor e o mau cheiro da cabana.
Enquanto mergulhava lentamente o último prato na
água fria do mar, Will observou Erak.
— Nós precisamos muito sair daqui — ele disse
baixinho para si mesmo.
Havia tanta coisa para ver e ouvir que Horace não sabia para que lado devia virar a cabeça em primeiro lugar.
Em toda a sua volta, a cidade portuária de La Riva-
ge fervilhava de vida. As docas estavam lotadas de embar-cações; simples barcos pesqueiros e navios de dois mas-tros estavam ancorados lado a lado e criavam uma floresta de mastros e adriças que pareciam se estender até onde a vista alcançava. Os ouvidos do garoto zumbiam com os gritos agudos das gaivotas que brigavam umas com as ou-tras pelos restos jogados no porto pelos marinheiros que limpavam os peixes apanhados. Os navios, grandes e pe-quenos, subiam e desciam e balançavam com as leves on-das dentro do porto, que nunca ficava imóvel um instante sequer. Atrás das vozes agudas das gaivotas, havia os constantes chiados e grunhidos de centenas de cercas de vime que protegiam os cascos.
As narinas de Horace se encheram com o cheiro de
fumaça e o aroma de comida, mas era um cheiro diferente das refeições simples que se preparavam no Castelo Red-mont. Ali o aroma tinha um toque especial, algo exótico, estimulante e estranho.
Ele pensou que isso seria de esperar, já que estava
pondo os pés num país estrangeiro pela primeira vez na sua jovem vida. Ele tinha viajado para Céltica, é verdade, mas isso não contava. Céltica era apenas um prolonga-mento de Araluen. Aquele lugar era totalmente diferente. Ao seu redor, as vozes se levantavam, zangadas ou diver-tidas, rindo, chamando e insultando uns aos outros. E ele não conseguia entender uma só palavra daquele idioma estranho.
Ele estava parado no cais onde tinham aportado,
segurando as rédeas dos três cavalos enquanto Halt paga-va o dono do pequeno e pesado cargueiro que os tinha transportado pelo Mar Estreito — com uma carga mal-cheirosa de peles destinadas aos curtumes de Gálica. De-pois de quatro dias muito próximo das pilhas enrijecidas de peles de animais, Horace se viu imaginando se conse-guiria voltar a usar qualquer coisa feita de couro.
Uma mão puxou seu cinto, e ele se virou espanta-
do.
Uma velha curvada e enrugada estava sorrindo para
ele, mostrando as gengivas sem dentes e estendendo a mão.
As roupas estavam em farrapos, e a cabeça envolvi-
da numa bandana que talvez tivesse sido colorida, mas naquele momento estava tão suja que não se podia ter cer-teza. Ela disse algo na língua local, e tudo o que ele pôde fazer foi dar de ombros. Ele não tinha mesmo dinheiro e estava claro que a mulher era uma mendiga.
O sorriso obsequioso se transformou numa careta
feia e ela disparou algumas palavras irritadas para eles. Mesmo sem conhecer o idioma, ele soube que não era um cumprimento. Em seguida, ela se virou e saiu mancando, fazendo um estranho gesto em cruz no ar entre eles. Ho-race balançou a cabeça sem saber o que fazer.
Uma gargalhada o distraiu, ele se virou e viu três
garotas jovens, talvez uns poucos anos mais novas do que ele, que tinham testemunhado a conversa entre ele e a ve-lha mulher. Sem se conter, ele as admirou de boca aberta. As meninas, todas muito atraentes, estavam vestidas com trajes que só poderiam ser descritos como excessivamente pequenos. Uma delas usava uma saia tão curta que termi-nava bem acima dos joelhos.
As meninas gesticularam para ele novamente, imi-
tando a sua expressão de espanto. Rapidamente, ele fe-chou a boca e elas riram ainda mais alto. Uma delas disse algo para ele, chamando-o. Ele não entendeu uma palavra do que ela disse e, sentindo-se ignorante e estranho, per-cebeu que suas faces estavam muito vermelhas.
E tudo isso fez as garotas rirem com mais vontade.
Elas levantaram as mãos até os próprios rostos, imitando o seu rubor e tagarelando umas com as outras em sua lín-gua estranha.
— Parece que você já está fazendo amigos — Halt
disse atrás dele, e ele se virou com ar de culpa.
O arqueiro, Horace nunca conseguia pensar nele de
modo diferente, estava olhando para ele e as três garotas com um quê divertido no olhar.
— Você fala essa língua, Halt? — ele perguntou. Era estranho, mas ele não estava surpreso com esse
fato. Ele sempre tinha imaginado que os arqueiros eram dotados de uma ampla variedade de habilidades misterio-sas e, até ali, os acontecimentos tinham provado que isso era verdade. Seu companheiro assentiu.
— O bastante para me virar — ele respondeu com
calma. Horace fez um gesto o mais discreto possível na direção das meninas.
— O que elas estão dizendo? — ele quis saber. O arqueiro assumiu a expressão vazia que Horace
estava aprendendo a conhecer tão bem.
— Talvez seja melhor você não saber — Halt res-
pondeu por fim. Horace concordou, sem realmente com-preender, mas não querendo parecer mais bobo do que se sentia.
— Talvez — ele concordou.
Halt estava saltando com facilidade para a sela de
Abelard e Horace o imitou, montando Kicker, seu cavalo de batalha. O movimento provocou um coro de exclama-ções admiradas das meninas. Ele sentiu o rosto ficar ver-melho de novo. Halt olhou para ele de um jeito que pare-cia pena misturada com divertimento. Balançando a cabe-ça, ele fez o cavalo se afastar do cais pela rua lotada e es-treita nas margens da água.
Montado, Horace sentiu a onda habitual de confi-
ança que sentia ao montar no lombo de um cavalo. E com ela veio a sensação de igualdade em relação àqueles es-trangeiros apressados e tagarelas. Agora, parecia que nin-guém estava correndo para se divertir às custas dele, pe-dir-lhe esmolas ou disparar insultos em seu rosto. Havia um respeito natural das pessoas que andavam a pé em re-lação a homens montados e armados. Sempre tinha sido dessa maneira em Araluen, mas parecia que em Gálica a vantagem era ainda maior. As pessoas ali se moviam com mais entusiasmo para abrir caminho para os dois cavalei-ros e o pequeno cavalo robusto de carga que os seguia.
Ocorreu a Horace que talvez as leis não fossem tão
imparciais em Gálica como em sua terra natal. Em Aralu-en, os pedestres davam lugar a homens montados por uma questão de bom senso. Ali eles pareciam apreensivos e até temerosos. Ele ia perguntar a Halt sobre a diferença e tinha até respirado fundo para começar a falar quando se interrompeu. Halt o censurava constantemente por causa de suas perguntas e, decidido a controlar a curiosidade, resolveu falar no assunto quando parassem para a refeição do meio-dia.
Satisfeito com a decisão, acenou com a cabeça para
si mesmo. Então outro pensamento lhe ocorreu e, antes que pudesse impedir, tinha começado a fazer outra per-gunta.
— Halt? — ele chamou tímido.
Ele ouviu um suspiro profundo vindo do homem
baixo e magro que cavalgava a seu lado. Mentalmente, deu um chute em si mesmo.
— Pensei que você estava doente — Halt disse sé-
rio. — Não se passaram mais de 2 ou 3 minutos desde que você me fez uma pergunta.
Decidido, Horace continuou.
— Uma daquelas meninas... — ele começou e ime-
diatamente sentiu os olhos do arqueiro sobre ele. — ... estava usando uma saia muito curta.
Houve uma pausa muito breve.
— Sim? — Halt replicou sem ter certeza do rumo
que a conversa ia tomar.
Horace deu de ombros, pouco à vontade. A lem-
brança da menina e de suas pernas bem feitas fez suas fa-ces corarem de constrangimento novamente.
— Bem — ele continuou hesitante. — Eu só me
perguntei se isso é normal, isso é tudo.
Halt analisou o jovem rosto sério ao seu lado. Ele
pigarreou várias vezes.
— Acho que às vezes as meninas de Gálica aceitam
emprego como mensageiras — ele contou.
— Mensageiras? — Horace repetiu com a testa
franzida. Mensageiras. Elas levam mensagens de uma pes-soa para outra.
Ou de uma oficina para outra nas cidades e vilas —
Halt verificou se Horace dava a impressão de estar acredi-tando nele. Parecia não haver motivos para pensar de ou-tra forma. — Mensagens urgentes — ele acrescentou.
Mensagens urgentes — Horace repetiu, ainda sem
entender a ligação.
Mas ele parecia inclinado a acreditar no que Halt
lhe dizia, de modo que o homem mais velho continuou.
— E eu acho que, quando a mensagem é realmente
muito urgente, é preciso correr.
Então ele viu um brilho de compreensão nos olhos
do garoto. Horace assentiu várias vezes quando finalmen-te ligou os fatos.
Então, as saias curtas... servem para ajudar as meni-
nas a correrem com mais facilidade? — ele indagou, e Halt assentiu.
— Certamente é um traje mais adequado do que
saias compridas, se você precisa correr muito.
Ele lançou um olhar rápido para Horace para ver se
a brincadeira não iria se voltar contra ele: na verdade, para verificar se o garoto tinha percebido que Halt estava fa-lando bobagens e simplesmente pregando uma peça nele. Contudo, a expressão de Horace se mostrava aberta e cré-dula.
Acho que sim — Horace respondeu finalmente. —
E elas também ficam muito mais bonitas desse jeito — ele acrescentou em voz baixa.
Halt olhou para ele de novo, mas Horace parecia
estar contente com a resposta. Por um momento, Halt se arrependeu de sua artimanha e sentiu uma ponta de culpa. Afinal, Horace era uma pessoa que confiava totalmente nele, por isso era fácil brincar com ele dessa forma. Então o arqueiro olhou para aqueles límpidos olhos azuis e para o rosto honesto e satisfeito do aprendiz de guerreiro e afastou qualquer sentimento de arrependimento. Horace tinha muito tempo para aprender sobre o lado mais desa-gradável da vida. Ele podia conservar a inocência por um pouco mais de tempo.
Eles deixaram La Rivage pelo portão norte e se di-
rigiram para as fazendas que a cercavam. A curiosidade de Horace continuou forte como sempre, e ele olhava de um lado para outro, enquanto a estrada os levava pelos cam-pos, plantações e casas. O interior era diferente em Aralu-en. Ali havia diferentes variedades de árvores e, como re-sultado, havia diversos tons de verde. Algumas das planta-ções também eram desconhecidas: folhas grandes e largas sobre hastes da altura de um homem eram deixadas para secar e, aparentemente, para murchar na haste antes de serem colhidas. Em vários lugares, Horace viu as mesmas folhas penduradas em grandes galpões sem paredes, se-cando ainda mais. Ele se perguntou que tipo de planta seria aquela. Mas, como antes, decidiu guardar as pergun-tas para depois.
Havia outra diferença, apesar de mais sutil. Durante
algum tempo, Horace nem mesmo a percebeu. Os cam-pos e plantações pareciam um tanto abandonados. Elas recebiam cuidados, é verdade, e alguns dos campos ti-nham sido arados, mas parecia lhes faltar o cuidado cari-nhoso e meticuloso que se via nos campos e plantações em casa. Era possível perceber a falta de atenção dos fa-zendeiros e, em alguns lugares, as ervas daninhas eram claramente visíveis.
— É a terra que sofre quando os homens lutam —
Halt murmurou com um suspiro.
Horace olhou para ele. Não era comum o próprio
arqueiro quebrar o silêncio.
— Quem está lutando? — ele perguntou com súbi-
to interesse.
— O povo de Gálica — Halt respondeu coçando a
barba. — Não há uma lei central forte aqui. Há dúzias de nobres e barões de menor importância. Opressores, se você preferir. Eles estão constantemente atacando uns aos outros e lutando entre si. É por esse motivo que os cam-pos estão tratados com tanto desleixo. Metade dos fazen-deiros foi recrutada por algum exército.
Horace olhou para os campos que margeavam os
dois lados da estrada. Não havia sinais de batalha ali. Ape-nas negligência. Um pensamento lhe veio à cabeça.
— É por isso que as pessoas pareciam um pouco...
nervosas com a nossa presença? — ele perguntou, e Halt assentiu com ar de aprovação.
— Você percebeu isso, não foi? Bom garoto. Então
ainda existe esperança para você. Sim — ele continuou, respondendo a pergunta de Horace —, homens armados e montados neste país são vistos como possível ameaça, não como defensores da paz.
Em Araluen, os fazendeiros procuravam os solda-
dos para protegê-los, assim como a seus campos, da ame-aça de possíveis invasores. Ali, Horace percebeu que os próprios soldados eram a ameaça.
— O país está vivendo numa grande agitação —
Halt continuou. — O rei Henri é fraco e não tem verda-deiro poder. Assim, os barões lutam, discutem e matam uns aos outros. Se bem que isso não é uma grande perda. Mas é muito injusto quando matam os pobres fazendeiros também, simplesmente porque eles atrapalham. Isso pode ser um problema para nós, mas nós só temos que... ah, droga.
As duas últimas palavras foram ditas em voz baixa,
mas não com menos intensidade. Horace, seguindo o o-lhar de Halt, observou a estrada.
Eles estavam descendo uma pequena colina em que
o caminho era cercado dos dois lados por um arvoredo espesso. No pé da colina, atravessado por uma ponte de pedra, um pequeno riacho corria entre os campos e as ár-vores. Era uma cena tranquila e bastante normal e, de seu jeito, muito bonita.
Mas não foram as árvores, nem a ponte, nem o ria-
cho que tinham provocado o comentário de Halt. Era o guerreiro montado e armado que estava com o cavalo no meio da estrada bloqueando a passagem.
E vanlyn sentiu o leve toque de Will no ombro. A surpre-sa a fez estremecer. Apesar de estar acordada, não tinha ouvido sua aproximação.
— Está tudo bem — ela disse baixinho. — Estou
acordada.
— A Lua está escondida — Will respondeu com a
voz igualmente baixa. — É hora de ir.
Evanlyn jogou os cobertores para longe e se sen-
tou. Estava totalmente vestida, com exceção das botas. Ela as pegou e começou a calçá-las. Will l estendeu um amontoado de trapos que tinha cortado dos cobertores.
— Amarre isso nos seus pés — ele disse. — Eles
vão abafar o barulho no cascalho.
Ela viu que ele tinha envolvido os pés em grandes
quantidades de tecido e se apressou em fazer o mesmo.
Através da parede fina entre a varanda e o dormitó-
rio, ela ouviu o ronco e os resmungos dos homens que dormiam. Um dos escandinavos teve um acesso de tosse, que deixou Will e Evanlyn paralisados, esperando para ver se alguém tinha acordado. Depois de alguns minutos, o dormitório ficou em silêncio novamente. Evanlyn termi-nou de envolver os pés com as tiras de pano, levantou-se e seguiu Will até a porta.
Ele tinha lubrificado as dobradiças da porta da va-
randa com gordura da cozinha. Prendendo a respiração, Will abriu a porta devagar; soltando um suspiro de alívio quando ela não rangeu. Sem Lua, a praia era uma faixa escura, e a água um lençol negro que refletia levemente a luz das estrelas. O tempo tinha estado bom nos últimos dias. A noite estava clara e o vento tinha diminuído consi-deravelmente, mas eles ainda podiam ouvir o seco ribom-bar das ondas batendo contra a face externa da ilha.
Evanlyn mal enxergava o contorno imenso dos dois
navios puxados para a praia. De um lado, havia uma for-ma menor: um bote, deixado ali por Svengal depois de sua última pescaria. Era para lá que eles estavam indo.
Pacientemente, Will mostrou a rota que tinha esco-
lhido. Eles a tinham examinado antes, naquela noite, mas ele queria ter certeza de que ela se lembrava. Mover-se sem ser visto era quase uma segunda natureza para Will, mas ele sabia que Evanlyn ficaria nervosa quando estives-se do lado de fora e iria querer chegar aos navios depressa.
E velocidade significava barulho e uma chance
maior de serem vistos ou ouvidos. Ele colocou a boca bem junto do ouvido dela e sussurrou o mais baixo que pôde.
— Fique calma. Os bancos primeiro. Depois as pe-
dras. Depois os navios. Espere por mim ali.
Ela assentiu. Will viu quando ela engoliu em seco
nervosa e percebeu que a respiração dela tinha se acelera-do. Ele apertou o braço dela com delicadeza.
— Se acalme. E lembre: se alguém sair, fique imó-
vel. Onde você estiver.
Aquele era o segredo de um bom resultado num lo-
cal pouco iluminado como aquele. Um vigia poderia não ver uma pessoa que estivesse totalmente imóvel, mas o menor movimento chamaria a atenção imediatamente.
Ela assentiu novamente, e ele lhe deu um tapinha
no ombro.
— Agora vá — ele disse.
Evanlyn respirou fundo outra vez e saiu para o ar
livre. Ela se sentiu terrivelmente exposta ao andar na dire-ção do abrigo dos bancos e da mesa a dez metros de dis-tância das cabanas. As fracas luzes das estrelas agora pare-ciam tão brilhantes quanto a do dia e Evanlyn se obrigou a caminhar devagar, pisando com cuidado, lutando contra a tentação de correr para o esconderijo.
Os panos que cobriam os pés resolveram o pro-
blema de abafar o som de seus passos, mas mesmo assim o rangido do cascalho parecia ensurdecedor para ela. Qua-tro passos a mais... três... dois... um.
Com o coração aos pulos e o pulso acelerado, ela
mergulhou agradecida na sombra da mesa e dos bancos rústicos. Seu próximo alvo era um pequeno amontoado de pedra a meio caminho da praia. Ela hesitou, querendo fi-car na confortável sombra oferecida pela mesa, mas sabia que se não fosse logo talvez nunca tivesse coragem de se mover. Saiu dali decidida, um pé depois do outro, enco-lhendo-se por causa dos rangidos abafados das pedras de-baixo dos pés. Essa parte do trajeto a levou diretamente para a frente da porta do dormitório. Se algum dos escan-dinavos saísse, ela seria vista.
Ela chegou ao abrigo das pedras e sentiu a proteção
das sombras envolvê-la mais uma vez. A parte mais difícil da travessia tinha terminado. Ela esperou alguns segundos até que sua pulsação se normalizasse e então se dirigiu pa-ra os navios. Agora que estava quase lá, queria desespera-damente correr. Mas lutou contra a tentação e andou de-vagar e com cuidado na escuridão ao lado do Wolf Fang.
Extremamente cansada, deixou-se cair nas pedras
úmidas, recostou-se nas tábuas do navio e esperou que Will a seguisse.
Nuvens espalhadas atravessavam o céu e estendiam
várias sombras mais escuras sobre a praia. Will fez seus movimentos acompanharem o ritmo do vento e das nu-vens e andou com passos firmes pela trilha que Evanlyn tinha acabado de seguir. Surpresa, ela prendeu a respiração quando teve a impressão de que ele desapareceu depois dos primeiros metros, confundindo-se no movimento da luz e da sombra e se tornando parte da paisagem. Ela o viu de novo, rapidamente, nos bancos e depois nas pedras. Depois ele pareceu surgir do chão a alguns metros dela. Evanlyn balançou a cabeça espantada. “Não é à toa que as pessoas imaginam que os arqueiros são mágicos”, ela pen-sou. Sem perceber a reação dela, Will sorriu rapidamente e se aproximou para que pudessem falar.
— Tudo bem? — ele perguntou em voz baixa. —
Tem certeza de que quer fazer isso? — acrescentou quan-do ela assentiu.
— Tenho, sim — Evanlyn respondeu sem hesita-
ção.
Ele lhe deu um aperto no ombro num gesto de en-
corajamento.
— Que bom.
Will olhou ao redor. Agora eles estavam longe das
cabanas e havia poucas possibilidades de suas vozes serem ouvidas. O vento, embora não tão forte quanto antes, também ajudava a disfarçá-las. Ele sentiu que algum estí-mulo seria bom para Evanlyn e então apontou o bote.
— Lembre-se de que essa coisa é pequena. Não é
como os navios. Ele vai navegar sobre ondas grandes, não vai atravessar elas. Vamos ficar tão seguros como se esti-véssemos numa casa.
Will não tinha muita certeza sobre as duas últimas
afirmações, mas elas lhe pareceram lógicas. Ele tinha ob-servado as gaivotas e os pinguins ao redor da ilha flutuan-do nas ondas imensas e pareceu que, quanto menor era o objeto, mais seguro se estava.
Ele estava carregando um odre de vinho roubado
da despensa. Tinha jogado fora a bebida e enchido o reci-piente com água. Ela não tinha um gosto muito bom, mas os manteria vivos. “Além disso”, pensou filosoficamente, “quanto pior for o gosto, mais tempo ela vai durar.” Ele o colocou com cuidado no fundo do bote e levou alguns minutos para verificar se os remos, o leme e o pequeno mastro e as velas estavam guardados em segurança. A ma-ré estava subindo e fazia a água bater quase na borda do barco. Will sabia que ela não iria subir mais e que em al-guns minutos eles teriam que partir. E ele e Evanlyn esta-riam a caminho. Vagamente, sabia que a costa da Teutônia ficava em algum ponto ao sul de onde estavam. Ou talvez eles encontrassem algum navio, já que parecia que as tem-pestades de verão estavam desaparecendo. Ele não pensa-va muito no futuro, só sabia que não podia continuar vi-vendo como prisioneiro. Se fosse o caso, preferia morrer tentando ser livre.
— Não podemos ficar sentados aqui a noite toda
— ele disse. — Vá para o outro lado e vamos pôr esse bote na água. Levante e depois empurre.
Segurando nas laterais do barco, eles levantaram e
empurraram juntos. Primeiro, o bote ficou firmemente preso no cascalho, mas depois de alguns minutos de es-forço, ele começou a deslizar com mais facilidade.
Logo ele flutuou e os dois subiram a bordo. Will
deu um último empurrão com o pé e o bote se afastou da praia. O garoto sentiu uma onda de triunfo e então perce-beu que não tinha tempo para comemorar. Evanlyn, páli-da e nervosa, estava se segurando nas amuradas de ambos os lados enquanto o barco era balançado pelas pequenas ondas.
— Até agora, tudo certo — ela disse. Mas a voz dela traía o nervosismo que sentia. Desa-
jeitado, Will ajeitou os remos nas forquetas. Ele tinha ob-servado Svengal fazê-lo dezenas de vezes, mas constatou que ver e fazer eram duas coisas diferentes e, pela primeira vez, sentiu uma pontada de dúvida. Talvez ele estivesse assumindo uma tarefa maior do que pudesse realizar. Sem habilidade, tentou movimentar os remos, batendo na água e puxando. Ele errou do lado esquerdo, fazendo o bote virar e quase caiu no chão.
— Devagar — Evanlyn aconselhou e ele tentou
novamente com mais cuidado.
Desta vez, ele sentiu um forte e bem-vindo impulso
para a frente. Will se lembrou de ter visto Svengal girando os remos ao fim de cada movimento para evitar que as lâminas batessem na água. Quando ele fez a mesma coisa, sua tarefa ficou mais fácil. Mais confiante, continuou a remar e o barco se moveu com mais suavidade. A maré estava bem alta e, quando Evanlyn olhou para a praia, sen-tiu uma onda de medo ao ver o quanto estavam longe.
Will percebeu a reação dela.
— O barco vai andar mais depressa assim que esti-
vermos em alto-mar — ele garantiu entre uma remada e outra. — Nós estamos bem onde as ondas quebram.
— Will! — ela gritou alarmada. — Tem água no
bote!
Os panos que envolviam os pés de Evanlyn tinham
evitado que ela sentisse a água até aquele momento, mas, quando ficaram encharcados, conseguiu vê-la subindo e descendo por entre as tábuas.
— É só um pouco de espuma — ele disse despreo-
cupado. — Vamos tirar tudo quando estivermos mais longe do porto.
— Não é espuma! — ela replicou com voz aguda.
— O bote está fazendo água! Olhe!
Ele olhou para baixo e o coração começou a bater
acelerado. Evanlyn tinha razão. A água estava a vários centímetros acima das tábuas do fundo e parecia estar su-bindo mais.
— Oh, meu Deus! — ele exclamou. — Comece a
tirar a água, depressa!
Havia um pequeno balde na popa. Evanlyn o pegou
e começou a jogar água sobre a beirada freneticamente. Mas o nível estava subindo lentamente e Will pôde sentir o bote responder mais pesadamente à medida que mais água entrava.
— Volte! Volte! — Evanlyn gritou. Qualquer preocupação com a discrição tinha sido
abandonada. Will assentiu com um gesto de cabeça, ocu-pado demais para falar, e empurrou um dos remos deses-perado, fazendo o bote virar em direção da praia. Agora ele tinha que lutar contra a maré, e o pânico o deixava de-sajeitado. Ele errou um movimento, perdeu o equilíbrio e quase soltou um dos remos. Com a boca seca de medo, agarrou o remo, impedindo-o de cair na água no último instante. Evanlyn, tirando a água do barco desesperada, percebeu que estava pondo tanta água para dentro quanto estava pondo para fora. Ela lutou contra a sensação de pânico que tomava conta dela e se obrigou a baldear a á-gua com mais calma. “Assim é melhor”, pensou. Mas a água ainda estava vencendo.
Felizmente, Will teve o bom senso de mover o bote
para onde a correnteza não era tão forte, fazendo que co-meçasse a ganhar impulso. Mas ele ainda estava afundan-do e, quanto mais afundava, mais depressa a água entrava. E mais difícil era remar.
— Continue remando! Reme com todas as suas
forças! — Evanlyn estimulava.
Ele grunhia, empurrando os remos desesperada-
mente, arrastando o bote lento de volta à praia. Eles quase tinham conseguido. Estavam a três metros da praia quan-do o pequeno barco finalmente afundou. O mar subiu pelas beiradas e, enquanto os dois se debatiam exaustos com água pela cintura, Will se deu conta de que, livre do peso, o bole estava flutuando novamente logo abaixo da superfície. Ele o pegou e guiou de volta para a beirada, seguido por Evanlyn.
— Tentando se matar? — uma voz ríspida pergun-
tou.
Eles olharam e viram Erak parado na beira da água.
Vários de seus tripulantes estavam parados atrás dele com um largo sorriso no rosto.
— Jarl Erak... — Will começou, mas parou em se-
guida.
Não havia nada a dizer. Erak estava virando um
pequeno objeto nas mãos e o entregou a Will.
— Talvez você tenha esquecido isso — ele disse
com a voz ameaçadora.
Will analisou o objeto. Era um pequeno cilindro de
madeira de aproximadamente seis centímetros de com-primento e dois de diâmetro. Ele o examinou sem enten-der.
— É o que nós, simples marinheiros, chamamos de
tampão — Erak explicou irônico. — Ele impede a água de entrar no bote. Geralmente é uma boa ideia verificar se está no lugar.
O desânimo tomou conta de Will. Ele estava en-
charcado, exausto e trêmulo por causa do imenso medo sentido nos últimos 10 minutos. E, principalmente, muito desanimado por causa do fracasso. Um pedaço de cortiça! Seus planos tinham sido arruinados por causa de um mal-dito tampão de cortiça! Então uma mão forte agarrou a frente de sua camisa e ele foi erguido do chão, ficando com o rosto a poucos centímetros da expressão furiosa de Erak.
— Nunca pense que sou um idiota, garoto! — o
escandinavo rosnou para ele. — Se você tentar qualquer coisa parecida com isso de novo, vou arrancar sua pele!
Ele se virou para incluir Evanlyn na ameaça. — Estou falando de vocês dois!
Erak esperou até ter certeza de que o recado tinha
atingido o destino e então soltou Will. Totalmente derro-tado, o aprendiz, de arqueiro caiu estendido nas pedras duras da praia.
— Agora voltem para, a cabana! — Erak ordenou.
— Estava fácil demais... — Halt murmurou num tom aborrecido.
Um pouco mais adiante, a ponte em arco cobria o
pequeno riacho. Sentado em um cavalo entre os dois via-jantes e a ponte, estava um cavaleiro usando uma armadu-ra completa.
Halt colocou a mão sobre o ombro e pegou uma
flecha da aljava. Posicionou-a no arco sem mesmo ver o que estava fazendo.
— O que foi, Halt? — Horace indagou. — É o tipo de bobagem que esses gauleses fazem
quando estou com pressa de seguir viagem — ele resmun-gou, balançando a cabeça irritado. — Esse idiota vai nos cobrar algum pedágio para permitir que a gente atravesse sua preciosa ponte.