Terra do Gelo

John Flanagan · Capítulo 1 de 4 · parte 2/2

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Terra do Gelo

Araluen e Seus Vizinhos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Ela estava balançando a cabeça novamente, mas es-

tava tranquila.

— Você não está entendendo o que quero dizer.

Eu não desisti. Eu só estou dizendo que é uma perda de tempo porque isso não é necessário. Não precisamos fu-gir. Há outro jeito de resolver isso.

Will olhou ao redor com um gesto teatral como se

pudesse enxergar a solução de que ela estava falando.

— Existe? Sinto muito, mas não consigo ver. — Nós podemos ser resgatados — ela afirmou, e

ele riu alto, muito divertido com a ingenuidade dela.

— Eu duvido muito. Quem viria resgatar um a-

prendiz de arqueiro e uma criada? Quer dizer, sei que Halt viria se pudesse, mas ele não tem dinheiro para isso. Quem iria pagar um bom dinheiro por nós?

Ela hesitou e então pareceu tomar uma decisão. — O rei — ela disse simplesmente. Will olhou para ela como se estivesse louca. Na

verdade, por um momento, ele se perguntou se ela estava bem. Ela certamente parecia estar fora da realidade.

— O rei? — ele repetiu. — Por que o rei iria se in-

teressar por nós?

— Porque sou filha dele.

O sorriso desapareceu do rosto de Will. Ele olhou

fixamente para ela, sem saber se tinha ouvido bem. Então ele se lembrou das palavras de Gilan em Céltica, quando o jovem arqueiro o tinha avisado de que alguma coisa não estava muito certa em relação a Evanlyn.

— Você é a... — ele começou e parou. Aquilo era

difícil demais para compreender.

— Filha dele. Eu sinto tanto, Will. Eu devia ter lhe

contado antes. Eu estava viajando disfarçada em Céltica, quando vocês me encontraram — ela explicou. — Era quase natural não contar meu verdadeiro nome às pessoas. Então, quando Gilan nos deixou, eu ia lhe contar. Mas percebi que, se o fizesse, você iria insistir em me levar de volta ao meu pai imediatamente.

Will balançou a cabeça, tentando assimilar o que es-

tava ouvindo. Ele olhou em volta do pequeno porto cer-cado por penhascos.

— Isso teria sido tão terrível assim? — ele pergun-

tou com um pouco de amargura.

Ela sorriu para ele com tristeza.

— Pense, Will. Se você soubesse quem eu era, nun-

ca teríamos seguido os Wargals e nunca teríamos encon-trado a ponte.

— Nunca teríamos sido capturados — Will ajun-

tou, mas ela balançou a cabeça mais uma vez.

— Morgarath teria vencido — ela disse simples-

mente. Ele olhou nos olhos dela e percebeu que Evanlyn tinha razão. Houve um longo momento de silêncio entre os dois.

— O seu nome é... — Will hesitou e ela terminou a

frase para ele.

— Cassandra. Princesa Cassandra. Me desculpe se

tenho agido um pouco como princesa nos últimos dias — ela acrescentou com um sorriso triste. — Estava me sen-tindo mal porque não lhe contei. Não quis descontar em você.

— Não, tudo bem — ele disse distraído e ainda es-

pantado com a novidade. Então um pensamento lhe pas-sou pela cabeça. — Quando você vai contar ao Erak?

— Não sei se devo — ela respondeu. — Esse tipo

de coisa é melhor tratar no alto escalão. Afinal, Erak e seus homens são pouco mais que piratas. Não sei como eles vão reagir. Acho que é melhor eu continuar sendo Evanlyn até chegarmos à Escandinávia. Daí vou encontrar uma forma de me aproximar do governante... qual é mes-mo o nome dele?

— Ragnak — Will disse com a mente a toda velo-

cidade. — Oberjarl Ragnak.

“Claro que ela tem razão”, ele pensou. Como prin-

cesa Cassandra de Araluen, ela valeria uma pequena fortu-na para o Oberjarl. E, visto que os escandinavos eram ba-sicamente mercenários, não havia dúvidas de que ela seria resgatada por um bom dinheiro.

Ele, por outro lado, era uma questão diferente. E

então Will percebeu que ela estava falando novamente.

— Assim que eu disser quem sou, vou arranjar para

que nós dois sejamos resgatados. Tenho certeza de que meu pai vai concordar.

E Will sabia que esse era o problema. Talvez ela

conseguisse convencer o pai se pudesse falar com ele pes-soalmente. Mas a questão estaria nas mãos dos escandina-vos. Ele diriam para o rei Duncan que tinham a filha dele em mãos e estabeleceriam um preço para o resgate. No-bres e princesas podiam ser resgatados. Na verdade, isso acontecia muitas vezes em tempos de guerra. Mas pessoas como guerreiros e arqueiros eram uma questão diferente. Os escandinavos poderiam muito bem ficar relutantes em libertar um arqueiro, mesmo UM aprendiz, que poderia causar problemas para eles no futuro.

Havia também outra questão a ser considerada. A

mensagem levaria meses, talvez grande parte de um ano, para chegar a Araluen. A resposta de Duncan poderia le-var um tempo igualmente longo para fazer a viagem de volta. Só então as negociações começariam. Durante todo esse tempo, Evanlyn seria mantida confortavelmente em segurança, pois afinal era uma propriedade valiosa. Mas quem poderia dizer o que aconteceria a Will? Ele poderia estar morto quando o resgate fosse pago.

Era óbvio que Evanlyn não tinha previsto isso. — Então você vê, Will — ela continuou a racioci-

nar —, não há motivo para todas essas corridas, escaladas e tentativas de fuga. Você não precisa fazer isso. Além disso, Erak está ficando desconfiado. Ele não é bobo e já o vi observando você. Por isso, relaxe e deixe tudo comi-go. Vou conseguir que a gente volte para casa.

Will abriu a boca, pronto para explicar o que estava

pensando. Então, mudou de ideia. De repente, ele sabia que Evanlyn não aceitaria seu ponto de vista. Ela era tei-mosa e determinada e estava acostumada a fazer as coisas do seu jeito. Ela estava convencida de que poderia organi-zar a volta deles, e nada do que ele dissesse mudaria a opi-nião dela. Will sorriu para ela e mostrou que concordava com um gesto. Mas era apenas uma sombra do seu sorriso habitual.

No fundo do coração, ele sabia que teria que en-

contrar o seu jeito de voltar para casa.

O castelo de Araluen, sede do governo do rei Duncan, era uma construção de majestosa beleza.

 

As torres altas encimadas por pilares que subiam

aos céus tinham uma graça quase viva que destoava da força e da solidez do castelo. Construído com imensos blocos de pedra cor de mel, ele era magnífico, mas tam-bém inexpugnável.

As muitas torres elevadas davam ao castelo um to-

que de luz, ar e elegância. Mas elas também forneciam aos moradores várias posições das quais atirar flechas, pedras e óleo fervente em quaisquer atacantes que pudessem ser tolos o suficiente para atacar seus muros.

A sala do trono era o coração do palácio, situada

entre uma série de paredes, grades e pontes levadiças que, no caso de um cerco prolongado, ofereciam aos defenso-res uma sucessão de posições de retirada. Como tudo o mais no castelo, a sala do trono era ampla, tinha um teto abobadado muito alto e um piso ladrilhado com quadra-dos de mármore preto e cor-de-rosa claro.

As janelas altas eram feitas de vitrais que cintilavam

sob a luz baixa do sol de inverno. As colunas agrupadas que davam enorme força às paredes eram acaneladas, para aumentar a ilusão de leveza e espaço do aposento. O tro-no de Duncan, um objeto simples escavado em carvalho encimado por uma folha de carvalho esculpida, dominava a parede norte. Do lado oposto, havia bancos e mesas de madeira para os membros do gabinete do rei. O centro do aposento era vazio e havia espaço suficiente para centenas de súditos ficarem em pé. Em dias de cerimonial, eles lo-tavam a área, enquanto suas roupas e brasões de armas de cores vivas recebiam a luz vermelha, azul, dourada e laran-ja que se derramava pelos vitrais e fazia as armaduras e os capacetes lustrosos cintilarem.

Naquele dia, por ordem de Duncan, havia apenas

cerca de dez pessoas presentes — o mínimo exigido por lei para que se fizesse justiça. O rei enfrentava a tarefa que tinha diante de si com pouco prazer e queria que o menor número possível de testemunhas visse o que teria que fa-zer.

Ele estava sentado no trono com a testa franzida,

olhando para a frente, os olhos presos nas enormes portas duplas do outro lado da sala. Sua grande espada, em cujo punho estava esculpida a cabeça de um leopardo que era a insígnia pessoal de Duncan, descansava na bainha e estava apoiada no braço direito do trono.

Lorde Anthony, de Spa, tesoureiro do rei nos últi-

mos cinco anos, estava de um lado do trono e vários pas-sos abaixo dele. Ele olhava de um jeito expressivo para Duncan e pigarreou com um ar de desculpas para atrair a atenção do monarca.

O rei olhou para ele e ergueu as sobrancelhas numa

pergunta silenciosa, e o tesoureiro fez um sinal com a ca-beça.

— Chegou a hora, Majestade — ele disse em voz

baixa.

Baixo e gordo, lorde Anthony não era um guerrei-

ro. Ele não tinha nenhuma habilidade com armas e, como consequência, seus músculos eram flácidos e destreinados. Mas era um excelente administrador e, em grande parte por sua ajuda, o reino de Araluen vinha sendo próspero e forte havia muito tempo.

Duncan era um rei popular e justo. Isso não queria

dizer que não fosse um governante forte, determinado e comprometido em fazer cumprir as leis do reino — leis que tinham sido criadas e mantidas por seus antecessores por 600 anos.

E esse era o motivo da preocupação de Duncan e o

seu coração confrangido. Porque naquele dia ele teria que fazer um homem que tinha sido seu amigo e servo leal cumprir uma dessas leis. Na verdade, um homem a quem Duncan devia tudo — um homem que por duas vezes, nas duas últimas décadas, tinha sido essencial para salvar Araluen da sombria ameaça da derrota e escravidão nas mãos de um louco.

Lorde Anthony se mexeu inquieto. Duncan viu o

movimento e acenou com uma das mãos num gesto de derrota.

— Muito bem — ele disse. — Vamos acabar com

esse negócio.

Anthony se virou para observar a sala do trono. O

movimento fez com que as poucas pessoas reunidas ali se mexessem e olhassem para as portas esperançosamente. O símbolo do cargo do tesoureiro era um longo bastão de ébano revestido de aço. Ele o levantou e bateu duas vezes no chão de ladrilhos. O estalido do aço sobre a pedra e-coou no aposento e foi levado com clareza para os ho-mens que esperavam atrás das portas fechadas.

Houve uma pequena pausa e então as portas se a-

briram quase sem ruído nas dobradiças bem lubrificadas e perfeitamente equilibradas. Quando pararam, um pequeno grupo de homens entrou, avançando no ritmo lento da marcha cerimonial até a base dos degraus largos que leva-vam ao trono.

Eram quatro homens ao todo. Três deles usavam

mantos, malhas e capacetes da guarda do rei. O quarto era uma figura pequena, vestida com roupas de um cinza e verde indefinidos. Ele estava com a cabeça descoberta e seus cabelos eram de um cinza sal e pimenta, despentea-dos e mal cortados. Ele marchava entre os dois homens que iam à frente, e o terceiro ia diretamente atrás dele. Duncan viu que o rosto do pequeno homem estava man-chado de sangue seco e havia um hematoma feio no alto da face esquerda que quase deixava o olho fechado.

— Halt? — ele disse antes que pudesse parar. —

Você está bem? O olhar dos dois homens se encontrou. Por um breve momento, Duncan imaginou ter visto uma imensa e profunda tristeza ali. E então o momento se foi e não restou mais nada naqueles olhos, além de uma forte determinação e um toque de zombaria.

— Estou tão bem quanto se pode esperar, Majesta-

de — ele disse secamente.

Lorde Anthony reagiu como se tivesse sido picado

por um inseto.

— Dobre a língua, prisioneiro! — ele disparou. Ao ouvir essas palavras, o cabo ao lado de Halt er-

gueu uma das mãos para bater no prisioneiro. Mas, antes que o golpe pudesse ser dado, Duncan fez menção de se erguer do trono.

— Já chega!

Sua voz soou forte no aposento quase vazio. O ca-

bo baixou a mão um pouco envergonhado. Ocorreu a Duncan que ninguém presente na sala estava apreciando a cena. Halt era uma figura muito conhecida e respeitada no reino. Ele hesitou, sabendo o que deveria fazer em segui-da, mas detestando cada momento.

— Devo ler as acusações, Majestade? — lorde An-

thony perguntou.

Na verdade, cabia a Duncan lhe dar essa ordem.

Em vez disso, o rei acenou com uma das mãos numa con-cordância relutante.

— Sim, sim. Vá em frente, se precisar — murmu-

rou e logo se arrependeu, pois Anthony olhou para ele com uma expressão sofrida no rosto.

“Afinal”, Duncan pensou, “Anthony também não

quer fazer isso”, e deu de ombros num gesto de desculpas.

— Sinto muito, lorde Anthony. Por favor, leia as

acusações. Anthony pigarreou, pouco à vontade com a tarefa que tinha a realizar. Já era ruim o suficiente que o rei tivesse abandonado os procedimentos formais, mas infinitamente mais constrangedor para o tesoureiro era o fato de o monarca achar natural se desculpar com ele.

— O prisioneiro Halt, arqueiro das forças de Sua

Majestade, prestador de serviços para o reino e portador da Folha de Carvalho de Prata, foi ouvido ridicularizando a imagem do rei, seus direitos de nascença e linhagem.

Um suspiro quase inaudível vindo do pequeno gru-

po de testemunhas chegou claramente até os dois homens na plataforma do trono. Duncan olhou para cima para descobrir de onde o som tinha vindo. Poderia ter sido o barão Arald, senhor do Castelo Redmont e governador do feudo ao qual Halt servia. Ou possivelmente Crowley, comandante do Corpo de Arqueiros. Os dois homens e-ram os mais velhos amigos de Halt.

— Majestade — Anthony continuou devagar —,

preciso lembrá-lo, como oficial servidor do rei, que esses comentários são uma contravenção que vão diretamente contra o juramento de lealdade feito pelo prisioneiro. Por esse motivo, ele é acusado de traição.

Duncan olhou para o tesoureiro com uma expres-

são de sofrimento. A lei era muito clara quando se tratava de traição. Havia apenas duas punições possíveis.

— Ah, certamente, lorde Anthony — ele disse. —

Algumas palavras zangadas?

O olhar de Anthony ficou preocupado. Ele espera-

va que o rei não tentasse influenciá-lo nessa questão.

— Majestade, essa é uma violação do juramento. A

questão não são as palavras em si, mas o fato de que o prisioneiro quebrou o juramento ao dizê-las em público. A lei é clara nesse assunto.

Ele olhou para Halt e estendeu as mãos num gesto

indefeso.

— E você estaria quebrando o seu, lorde Anthony,

se não informasse o rei disso — Halt disse com um leve sorriso no rosto cansado.

Dessa vez, Anthony não ordenou que ele se calasse.

Com uma expressão infeliz, mostrou que concordava com um gesto de cabeça.

Halt tinha razão. Ele tinha criado uma situação in-

tolerável para todos com seu comportamento ridículo de-pois de beber demais.

Duncan fez menção de falar, hesitou e recomeçou. — Halt, tenho certeza de que deve haver um mal-

entendido nessa situação — ele sugeriu, esperando que o arqueiro pudesse, de alguma forma, encontrar uma saída para as acusações, mas Halt deu de ombros.

— Não posso negar as acusações, Majestade — ele

disse com calma. Escutaram quando disse algumas... coi-sas desagradáveis sobre o senhor.

E ali estava outro dilema terrível: Halt tinha feito os

comentários chocantes em público, na frente de pelo me-nos seis pessoas. Como homem e amigo, Duncan podia e certamente estaria disposto a perdoá-lo. Mas, como rei, devia preservar a dignidade de seu posto.

— Mas... por que, Halt? Por que causar essa situa-

ção para todos nós?

Aquela era a vez de Halt dar de ombros. Os olhos

dele se desviaram dos do rei. Ele murmurou algo em voz baixa que Duncan não conseguiu entender bem.

— O que você disse? — ele perguntou, desejando

encontrar uma saída da situação difícil em que estava.

O olhar de Halt encontrou o dele outra vez. — Muito conhaque, Vossa Majestade — ele disse

em voz mais alta. — Nunca fui muito forte para bebida. Talvez o senhor pudesse me acusar também de embria-guez, lorde Anthony — Halt acrescentou, obrigando-se a mostrar um sorriso sem humor.

Dessa vez, a calma e o senso de protocolo de lorde

Anthony foram abalados.

— Por favor, Halt... — ele começou, prestes a pe-

dir ao arqueiro que parasse de brincar com os procedi-mentos, mas então se recuperou e se virou para o rei.

— Essas são as acusações, Vossa Majestade. Admi-

tidas pelo prisioneiro.

Duncan ficou sentado por muito tempo sem falar.

Ele olhou para a pequena figura à sua frente e tentou en-xergar além da expressão de desafio que havia naqueles olhos e descobrir o motivo que tinha levado Halt a agir daquela maneira. Ele sabia que o arqueiro estava zangado porque não tinha recebido permissão para tentar resgatar seu aprendiz. Mas Duncan realmente acreditava que a pre-sença de Halt era essencial em Araluen até que o proble-ma com Foldar estivesse resolvido. A cada dia que passa-va, o antigo tenente de Morgarath estava se tornando um perigo maior, e Duncan queria que seus melhores conse-lheiros lidassem com o problema.

E Halt realmente estava entre os melhores. Frustrado, Duncan tamborilou os dedos no braço

de madeira do trono. Era estranho Halt não conseguir ver tudo o que estava acontecendo. Em todos os anos que eles se conheciam, Halt nunca tinha colocado seus interes-ses à frente dos do reino. Agora, aparentemente por causa de rancor e raiva, tinha permitido que a bebida atrapalhas-se seu raciocínio e provocasse esse julgamento. Ele tinha insultado o rei publicamente na frente de testemunhas, um ato que não poderia ser ignorado nem encarado como al-gumas palavras zangadas entre amigos. Duncan olhou pa-ra seu velho amigo e conselheiro. Halt olhava para o chão. Talvez se ele pedisse misericórdia, implorasse clemência pelos serviços prestados à coroa no passado... qualquer coisa.

— Halt? — Duncan começou antes de mesmo per-

ceber.

O arqueiro ergueu os olhos e encarou o rei, e este

fez um pequeno gesto interrogativo e impotente com as mãos. Mas o olhar de Halt se endureceu ainda mais ao encontrar o de Duncan, e o monarca soube que ele não iria suplicar misericórdia. O arqueiro sacudiu levemente a cabeça grisalha num gesto de recusa, e o coração de Dun-can ficou ainda mais pesado no peito. Ele tentou mais uma vez diminuir a distância que tinha crescido entre ele e Halt, obrigando-se a mostrar um pequeno sorriso concili-ador.

— Afinal, Halt — ele acrescentou num tom de voz

moderado —, não é que eu não entenda exatamente como você se sente. A minha filha está com seu aprendiz. Você acha que eu não gostaria simplesmente de deixar o reino à própria sorte para resgatá-la?

— Há uma diferença bastante importante, Majesta-

de. A filha de um rei pode esperar ser tratada um pouco melhor do que um simples aprendiz de arqueiro. Afinal, ela é uma refém valiosa.

Duncan se recostou na cadeira. A amargura na voz

de Halt foi como um tapa na cara. E, o que era pior, o rei se deu conta de que Halt estava certo. Assim que os es-candinavos descobrissem a identidade de Cassandra, ela seria bem tratada enquanto esperava ser resgatada. Infe-lizmente, percebeu que sua tentativa de reconciliação ape-nas tinha aumentado o abismo entre os dois.

Anthony quebrou o crescente silêncio que havia no

aposento.

— A menos que o prisioneiro tenha alguma coisa a

dizer em sua defesa, ele é considerado culpado — ele avi-sou Halt.

Os olhos do arqueiro continuaram presos em Dun-

can, embora, mais uma vez, ele tenha feito o mesmo leve movimento negativo com a cabeça. Anthony hesitou, o-lhou em volta para os nobres e oficiais mais velhos ali re-unidos, esperando que alguém, qualquer um, encontrasse alguma coisa a dizer em defesa de Halt. Mas, naturalmen-te, não havia nada a ser dito. O tesoureiro viu os ombros largos do barão Arald se curvarem em desespero, viu a dor no rosto de Crowley quando o comandante dos ar-queiros desviou o olhar da cena que acontecia ali.

— O prisioneiro é culpado, Majestade — Anthony

confirmou. — Cabe ao senhor apresentar a sentença.

E essa, Duncan sabia, era a parte de ser rei para a

qual nunca tinha sido preparado. Havia a lealdade, a adu-lação, o poder e a cerimônia. Havia o luxo, as comidas e bebidas finas, as melhores roupas e os melhores cavalos e armas.

E então chegava o momento em que se pagava por

todas essas coisas. Momentos como aquele em que a lei devia ser cumprida, e as tradições deviam ser preservadas. Quando a dignidade e o poder do cargo deviam ser prote-gidos mesmo que, ao fazê-lo, fosse preciso destruir um de seus mais estimados amigos.

A lei apresenta apenas duas punições possíveis para

traição, Majestade Anthony afirmou, sabendo que Duncan estava detestando cada minuto daquilo.

— Sim. Sim, eu sei — o rei murmurou zangado,

mas não rápido o bastante para impedir Anthony de pro-ferir a próxima frase.

Morte ou expulsão. Nada menos — o tesoureiro

informou

E, quando ele disse essas palavras, Duncan sentiu

um pequeno estremecimento de esperança no peito.

— Essas são as opções, lorde Anthony? — ele per-

guntou com suavidade, querendo ter certeza.

Anthony assentiu com seriedade.

— Não há outras. Apenas morte ou expulsão, Ma-

jestade. Duncan se levantou devagar e pegou a espada com a mão direita.

Ele a segurou diante dele, agarrando o estojo abaixo

da cruzeta intrincadamente gravada e esculpida. Sentiu uma onda quente de satisfação. Ele tinha perguntado duas vezes a Anthony para ter certeza de que as exatas palavras do tesoureiro fossem ouvidas pelas testemunhas presentes na sala do trono.

— Halt — ele falou com firmeza, sentindo todos

os olhares presos nele. — Ex-arqueiro do rei do feudo de Redmont, eu, neste momento, na qualidade de senhor deste reino de Araluen, declaro que você seja banido de todas as minhas terras e propriedades.

Novamente, ouviram-se leves suspiros em toda a

sala quando os ouvintes sentiram o alívio de saber que a sentença não seria a morte. Não que qualquer um dos pre-sentes esperasse que fosse. Mas agora vinha a parte que eles não esperavam.

— Você está proibido, sob pena de morte, de colo-

car os pés no reino novamente... — ele hesitou, vendo agora a tristeza nos olhos de Halt, a dor que o grisalho arqueiro não conseguia mais esconder.

— ... pelo período de um ano a partir deste dia —

ele completou sua declaração.

No mesmo instante, houve um tumulto na sala do

trono. Lorde Anthony olhou para a frente, o choque visí-vel em seu rosto.

— Majestade! Devo protestar! O senhor não pode

fazer isso!

Duncan manteve a expressão solene. Outros na sala

não estavam tão controlados. Ele viu que o rosto do barão Arald estava franzido num sorriso largo, enquanto Cro-wley estava fazendo o melhor que podia para esconder o riso no capuz cinzento de sua capa de arqueiro. Duncan notou com uma sombria sensação de satisfação que, pela primeira vez naquela manhã, Halt estava um tanto surpre-so com o rumo dos acontecimentos. Mas não tanto quan-to lorde Anthony, que protestava em voz alta. O rei olhou para o tesoureiro com um olhar de interrogação.

— Não posso, lorde Anthony? — ele indagou com

grande dignidade.

Anthony se apressou a corrigir a frase, percebendo

que não era sua função dar ordens ao rei.

— Eu quero dizer, Majestade... expulsão é... bem, é

expulsão — ele concluiu sem jeito.

Duncan assentiu com seriedade.

— Realmente — ele respondeu. — E, como você

mesmo me disse, é uma das duas únicas escolhas que pos-so fazer.

— Mas, Majestade, expulsão é... é um ato absoluto!

É por toda a vida! — Anthony protestou.

Sua face estava vermelha de constrangimento. Ele

não desgostava de Halt. Na verdade, até o dia em que o arqueiro tinha sido preso por atacar a reputação do rei, Anthony sentira uma forte admiração por ele. Mas, afinal, era seu trabalho aconselhar o rei sobre questões de lei e propriedade.

— A lei determina isso especificamente? — Dun-

can perguntou. Anthony balançou a cabeça e fez um gesto impotente com as mãos, quase deixando cair o bastão de comando.

— Bem, não especificamente. Não é necessário.

Expulsões sempre têm sido para a vida toda. Faz parte da tradição! — ele acrescentou, encontrando as palavras que vinha procurando.

— Exatamente — Duncan respondeu. — E tradi-

ção não é lei.

Anthony começou e então se viu perguntando a si

mesmo por que estava protestando tanto. Afinal, Duncan tinha encontrado uma forma de punir Halt e, ao mesmo tempo, aplicar essa punição com misericórdia.

O rei percebeu a hesitação e tomou a iniciativa. —

A questão está resolvida. O prisioneiro está banido por 12 meses. Você tem 48 horas para deixar os limites de Aralu-en.

O olhar de Duncan encontrou o de Halt pela últi-

ma vez. O arqueiro inclinou a cabeça levemente num ges-to de respeito e gratidão para

— Mas...

Duncan suspirou. Ele não tinha ideia de por que

Halt tinha imposto essa situação a todos. Talvez ele des-cobrisse algum dia depois que esse ano tivesse passado. De repente, sentiu crescer dentro dele uma aversão por tudo o que estava acontecendo e empurrou o estojo da espada pelo cinto.

— Essa questão está resolvida — ele disse aos que

estavam ali reunidos. — O julgamento está encerrado.

Ele se virou e deixou a sala do trono, saindo por

uma pequena antessala à esquerda. Anthony olhou para o grupo reunido na sala e deu de ombros.

— O rei falou — ele disse num tom que dava a en-

tender o quanto ele estava arrasado por tudo o que tinha acontecido. — O prisioneiro está expulso por 12 meses. Guarda, leve-o.

E, com essas palavras, ele seguiu o rei para fora da

sala do trono.

E vanlyn olhava, com irritação cada vez maior, Will

completar outra volta na praia, jogar-se no chão e fazer dez rápidas flexões.

Ela não conseguia entender por que ele insistia nes-

se ridículo programa de exercícios. Se fosse uma simples questão de manter a forma, ela poderia aceitá-lo — afinal, não havia quase nada para fazer em Skorghijl, e aquela era uma maneira de se manter ocupado. Mas ela sentia que o motivo era mais sério. Apesar da conversa que tinham tido dias antes, tinha certeza de que Will ainda planejava fugir.

— Teimoso, cabeça-dura — ela resmungou. “Isso é coisa de menino”, ela pensou. Ele parecia

não poder aceitar que ela, uma garota, podia cuidar de tu-do e arranjar a volta deles para Araluen. Evanlyn ficou séria. Will não tinha se comportado dessa maneira em Cél-tica. Quando estavam planejando a destruição da enorme ponte de Morgarath, ele pareceu aceitar as sugestões e i-deias dela, que se perguntou por que isso teria mudado.

Enquanto observava, Will andou na areia até a beira

da água onde Svengal estava remando o bote de volta à praia. O segundo escandinavo no comando era um exímio pescador. Ele levava o bote para o mar quase todas as manhãs em que o tempo permitia, e os bacalhaus frescos e as percas do mar que pescava nas águas frias e profundas do porto de Skorghijl proporcionavam uma mudança bem-vinda na alimentação composta de carne e peixe sal-gados e legumes fibrosos.

Com uma pequena ponta de ciúme, Evanlyn obser-

vou Will conversar com o escandinavo. Ela não tinha a mesma facilidade para lidar com as pessoas. Ele tinha um comportamento aberto e simpático e, sem dificuldade, iniciava uma conversa com todos os que conhecia. As pessoas pareciam gostar dele instintivamente. Ela, por ou-tro lado, muitas vezes se sentia estranha e pouco à vonta-de com desconhecidos, e eles pareciam perceber isso. Não ocorria a ela que aquilo pudesse ser resultado de sua cria-ção de princesa. E, como estava com disposição para ficar ressentida com Will naquela manhã, vê-lo ajudar Svengal a puxar o pequeno bote para a praia simplesmente aumen-tou seu aborrecimento.

Zangada, ela chutou uma pedra na praia, praguejou

quando descobriu que era maior e mais firmemente presa na areia do que tinha imaginado e foi mancando até a va-randa, de onde Will e seu novo amigo ficariam fora de sua visão.

— A pesca foi boa? — Will perguntou, como todos

faziam com um pescador.

Svengal mostrou a pilha de peixes no fundo do bo-

te com a cabeça.

— Peguei uma beleza ali.

Havia um bacalhau grande entre oito ou nove me-

nores, mas ainda de tamanho respeitável. Will concordou impressionado.

— É mesmo uma beleza. Precisa de ajuda para lim-

par os peixes? Certamente, ele receberia ordens para lim-pá-los de qualquer maneira. Ele e Evanlyn recebiam todas as tarefas domésticas, como cozinhar, limpar e arrumar. Mas ele queria conversar com Svengal e, dessa forma, tal-vez o escandinavo ficasse e conversasse com ele enquanto trabalhava. Will tinha notado que os escandinavos eram grandes tagarelas, principalmente quando alguém estava ocupado.

— Fique à vontade — o grande escandinavo disse

tranquilo, jogando uma pequena faca sobre a pilha de pei-xes.

Ele se sentou no banco do bote enquanto Will tira-

va os peixes e começava o desagradável trabalho de limpar as escamas e as entranhas. Will sabia que Svengal ficaria e que iria querer levar ele mesmo o enorme bacalhau até a cabana. Pescadores adoravam elogios.

— Svengal — Will começou, concentrado em tirar

as escamas de uma perca e fazendo o possível para que a sua voz parecesse casual — por que você não vai pescar na mesma hora todos os dias?

— A maré, garoto — Svengal respondeu. — Gosto

de pescar quando a maré está subindo. Ela traz os peixes para o porto, entendeu?

— A maré? O que é isso?

Svengal balançou a cabeça diante da ignorância do

garoto de Araluen sobre as coisas da natureza.

— Você não percebeu como a água no porto fica

mais alta e depois abaixa durante o dia? — ele indagou. — Isso é a maré. Ela vem e vai, mas a cada dia acontece mais tarde que no dia anterior — ele continuou quando Will assentiu.

— Mas para onde ela vai? — Will perguntou fran-

zindo a testa. — E de onde ela vem, para começar?

Svengal coçou a barba pensativo. Aquela era uma

questão com que nunca tinha se preocupado. A maré era um fato simples de sua vida de marinheiro e ele deixava os motivos e consequências para outras pessoas.

Dizem que é por causa da Grande Baleia Azul —

ele afirmou se lembrando da fábula que tinha ouvido quando criança. — Acho que você não sabe o que é uma baleia, certo? — continuou quando viu a expressão inter-rogativa de Will.

Ele suspirou diante do olhar vazio do menino. — Uma baleia é um peixe gigantesco. — Tão grande quanto o bacalhau? — Will indagou,

indicando o orgulho da pesca de Svengal.

— Bem maior que isso, garoto. Muito maior —

Svengal retrucou rindo verdadeiramente divertido.

— Tão grande quanto uma morsa? — Will conti-

nuou.

Havia um grupo dos enormes animais nas pedras

na parte sul do ancoradouro e ele tinha ouvido o nome de um dos tripulantes.

— Maior ainda — Svengal contou com um sorriso

ainda maior. Baleias normais são tão grandes quanto casas. Elas são mesmo enormes. Mas a Grande Baleia Azul é totalmente diferente. Ela é tão grande quanto um de seus castelos. Ela respira na água e então a cospe por um bura-co que tem no alto da cabeça.

— Entendo — Will disse com cuidado, sentindo

que deveria fazer algum comentário.

— Assim, quando ela inspira o ar, a maré desce —

Svengal continuou com paciência. — E quando ela o ex-pira...

— Por um buraco no alto da cabeça? — Will repe-

tiu.

Ele começou a limpar o bacalhau. Aquilo tudo pa-

recia fantástico demais: peixes com buracos na cabeça que respiravam água para dentro e para fora. Svengal fez cara feia por causa da interrupção e o tom de dúvida que sentiu na voz de Will.

— Sim. Por um buraco no alto da cabeça. Quando

ela faz isso, a maré sobe outra vez. Ela faz isso duas vezes por dia.

— Então, por que ela não faz isso na mesma hora?

— Will quis saber, e Svengal se mostrou ainda mais abor-recido.

Para falar a verdade, ele não tinha a menor ideia. A

lenda não falava disso.

— Por que ela é uma baleia, menino! E baleias não

sabem ver as horas, sabem?

Irritado, ele apanhou os peixes limpos, certificando-

se de não esquecer a faca, e saiu pela praia, deixando Will a lavar o sangue e as escamas das mãos.

Erak estava sentado num banco do lado de fora da

cabana reservada para refeições quando Svengal se apro-ximou pela areia.

— Belo bacalhau — ele disse, e Svengal fez um le-

ve gesto de cabeça. — O que foi tudo aquilo? — ele per-guntou, fazendo um gesto mm o polegar na direção de Will.

— O quê? Ah, o garoto? Só estávamos falando so-

bre a Grande Baleia Azul.

Pensativo, Erak esfregou o queixo. — É mesmo? Como vocês chegaram nesse assun-

to?

Svengal parou, relembrando a conversa. — Ele só queria saber sobre a maré, foi isso — o

marinheiro contou finalmente.

Ele esperou para ver se Erak tinha mais alguma coi-

sa para dizer, então deu de ombros e entrou.

— Pois agora ele sabe — Erak disse para si mesmo,

concluindo que o menino ia precisar ser vigiado.

Nas próximas 4 horas, ele ficou fora da cabana, a-

parentemente tirando uma soneca ao sol. Mas seus olhos seguiam o aprendiz de arqueiro para todos os lugares. Muitas horas mais tarde, ele viu o garoto jogando pedaços de madeira na água e observando-os sendo levados para o mar pela maré.

— Interessante — o comandante do navio res-

mungou para si mesmo.

Então ele percebeu que Will estava de pé, espiando

a entrada do porto enquanto protegia os olhos com a mão. Erak seguiu a direção do olhar dele e se levantou surpreso.

Fortemente inclinado para um lado, o casco quase

todo dentro da água e avançando com um número desi-gual de remos, um navio entrava com dificuldade na baía.

Um cavaleiro vestido de cinza estava encolhido triste-mente dentro de sua capa, enquanto cavalgava lentamente pela chuva fina que cobria os campos. Os cascos de seus dois cavalos — um de montaria CO outro de carga — batiam ruidosamente na terra cheia de poças de água que tinham se formado nas ondulações da estrada.

Quando chegou ao alto de uma colina, as torres e

espiras do Castelo Araluen se levantavam para o céu cin-zento atrás dele. Mas Halt não se voltou para ver a vista magnífica. Seu olhar estava voltado para a frente.

Ele ouviu os dois cavaleiros seguindo-o muito antes

de o alcançarem. As orelhas de Abelard se agitaram ao ouvir os cascos lia lendo com força no chão, e Halt soube que seu pequeno cavalo havia reconhecido os outros dois como cavalos de arqueiros. Mesmo assim, não olhou para trás, pois sabia quem eram os dois cavaleiros e também por que estavam vindo. Ele sentiu uma leve pontada de desapontamento. Ele tinha esperado que, na confusão e tristeza causadas por sua expulsão, Crowley tivesse esque-cido o pequeno detalhe ao qual Halt agora teria que se submeter.

Suspirando e aceitando o inevitável, ele tocou as

rédeas de Abelard de leve. O altamente treinado cavalo de arqueiro reagiu de imediato e parou. Atrás dele, o cavalo de carga fez o mesmo. As batidas dos cascos se aproxima-ram, e ele permaneceu sentado, olhando para a frente sem interesse, quando Crowley e Gilan pararam ao seu lado.

Os quatro cavalos se cumprimentaram cutucando-

se com delicadeza, enquanto os três homens foram um pouco mais discretos. Um silêncio desagradável se fez en-tre eles, finalmente quebrado por Crowley.

— Bem, Halt, você foi embora cedo. Tivemos que

cavalgar com vontade para alcançar você — ele disse, lu-tando para mostrar um entusiasmo falso que disfarçasse sua tristeza diante do rumo que os acontecimentos tinham tomado.

Halt olhou com indiferença para os dois outros ca-

valos. O ar frio e úmido fazia a respiração deles se trans-formar lentamente em vapor.

— Deu pra ver — ele respondeu com calma, ten-

tando ignorar a angústia no rosto jovem de Gilan.

Ele sabia que seu antigo aprendiz estava sofrendo

profundamente por causa de suas atitudes inexplicáveis e endureceu o coração para não ver a tristeza do jovem ar-queiro.

Então Crowley também deixou de mostrar entusi-

asmo e seu rosto ficou sério e preocupado.

— Halt, há uma coisa que talvez você tenha esque-

cido. Desculpe por insistir, mas... — ele hesitou.

Halt tentou pôr um fim naquela conversa com uma

expressão de surpresa no rosto.

— Tenho 48 horas para deixar o reino — ele retru-

cou. — A contagem de tempo começou nesta manhã. Vou passar a fronteira antes disso. Não há necessidade de vocês me acompanharem.

Crowley balançou a cabeça. Com o canto dos o-

lhos, Halt viu Gilan desviar a atenção para a estrada. A-quela situação estava causando sofrimento a todos. Ele sabia por que Crowley tinha vindo. Procurou a corrente de prata pendurada em seu pescoço, escondida pela capa.

— Eu esperava que você esquecesse — ele disse

tentando aparentar indiferença, mas um nó em sua gar-ganta o impediu.

Crowley sacudiu a cabeça com tristeza. Você sabe que não pode ficar com a Folha de Car-

valho, Halt. Como uma pessoa banida, você também está automaticamente expulso do Corpo de Arqueiros.

Halt assentiu. Ele sentiu as lágrimas queimarem em

seus olhos quando abriu a corrente e entregou o pequeno amuleto de prata para o comandante dos arqueiros. O me-tal ainda estava morno do contato com seu corpo. Sua vista ficou embaçada quando a viu enrolada na palma da mão de Crowley. “Um pedaço de metal tão pequeno”, pensou, “e mesmo assim com um significado tão impor-tante para mim.” Durante a maior parte de sua vida, tinha usado a Folha de Carvalho com o enorme orgulho que todos os arqueiros sentiam. E, agora, ela não pertencia mais a ele.

— Sinto muito, Halt — Crowley murmurou com

tristeza. Halt sacudiu o ombro.

— Essa é uma questão de pouca importância —

replicou. Outro silêncio caiu entre eles. O olhar de Cro-wley encontrou o dele e tentou atravessar o véu atrás do qual Halt tentava se esconder. Um véu de aceitação da situação, indiferente e insensível. Aquilo não passava de fingimento, mas era muito bem disfarçado. Finalmente, o comandante se inclinou na sela e apertou o braço de Halt com força.

— Por que, Halt? Por que fez isso? — ele pergun-

tou com veemência e recebeu apenas um furioso sacudir de ombros como resposta.

— Como eu disse — Halt ajuntou —, foi conhaque

demais. Você sabe que nunca aguentei muita bebida, Crowley.

Halt até conseguiu esboçar um sorriso. Ele sentiu a

face empalidecer como se a morte estivesse sorrindo para ele. Crowley soltou seu braço, endireitou o corpo na sela e balançou a cabeça desapontado.

— Felicidades, Halt — ele disse finalmente numa

voz trêmula de emoção.

Então, com um movimento brusco incomum, pu-

xou as rédeas, virou a cabeça do cavalo e partiu a galope pela estrada para Araluen.

Halt observou-o se afastar e viu a capa manchada

de arqueiro se perder na chuva fina rapidamente. Em se-guida, ele se virou para seu antigo aprendiz, sorriu com tristeza, mas dessa vez o sorriso e a tristeza eram verdadei-ros.

— Até logo, Gilan. Que bom que você veio se des-

pedir de mim.

Mas o jovem arqueiro balançou a cabeça desafia-

dor.

— Não estou aqui para lhe desejar boa viagem —

ele disse com aspereza. — Eu vou com você.

Surpreso, Halt ergueu uma sobrancelha. Essa ex-

pressão era tão conhecida de Gilan que o rapaz sentiu o coração se partir quando a viu.

— E ser expulso? — Halt perguntou ao jovem, e

Gilan balançou a cabeça novamente.

— Sei o que pretende fazer — ele retrucou e mos-

trou com um movimento da cabeça o cavalo de carga que estava parado pacientemente atrás de Abelard. — Você está levando Puxão. Você vai atrás de Will, não é mesmo?

Por um momento, Halt se viu tentado a negar. Mas

os dias de fingimento já estavam sendo insuportáveis. Ele sabia que seria um alívio, pelo menos uma vez, admitir suas razões.

— Tenho que ir, Gilan — ele disse devagar. — Eu

prometi a ele. E essa foi a única forma de ser liberado dos meus serviços.

— Sendo expulso?

A voz de Gilan soou incrivelmente alta. — Não lhe passou pela cabeça que Duncan poderia

ter mandado executá-lo?

Halt deu de ombros. Mas não foi um gesto de

zombaria. Foi apenas um gesto de resignação.

— Não achei que ele fosse fazer isso. Eu tinha que

arriscar.

— Bem, expulso ou não, eu vou com você — Gi-

lan afirmou balançando a cabeça com tristeza.

Halt desviou o olhar, respirou fundo e soltou o ar

dos pulmões. Tinha que admitir que estava tentado a acei-tar. Ele iria enfrentar uma jornada longa, dura e perigosa em que a companhia de Gilan seria bem-vinda, e sua es-pada poderia ser muito útil. Mas Gilan tinha uma obriga-ção a cumprir e Halt, já sobrecarregado por ter traído o próprio dever, não podia permitir que o jovem rapaz fi-zesse o mesmo.

— Gilan, você não pode — ele disse simplesmente. Gilan inspirou antes de responder e Halt levantou a

mão para impedi-lo.

— Olhe, pedi para ser liberado para ir procurar Will

— ele disse e eles me disseram que eu era necessário aqui.

Ele parou e Gilan fez que sim, mostrando que

compreendia.

— Bem, acho que não era tão necessário assim.

Mas essa é minha opinião e posso estar errado. Essa situa-ção com Foldar é mesmo muito perigosa e é um mal que precisa ser cortado pela raiz. Ele precisa ser perseguido, encontrado e pego numa cilada. E, francamente, não con-sigo pensar num arqueiro melhor do que você para reali-zar esse trabalho.

— Depois de você — Gilan ajuntou e Halt reco-

nheceu o fato com uma leve inclinação da cabeça.

Ele não estava sendo orgulhoso, era uma avaliação

honesta da verdade.

— Pode ser. Mas isso reforça minha opinião. Se

nós dois desaparecermos, Crowley vai ter que encontrar outra pessoa para lazer o serviço.

— Não me importo — Gilan retrucou teimoso,

torcendo as rédeas nas mãos, formando um pequeno nó e depois as soltando outra vez.

Halt sorriu gentilmente para ele.

— Eu me importo, Gilan. Eu sei como é quebrar a

confiança desse jeito. É uma dor profunda e amarga, acre-dite em mim. E não vou permitir que você passe por isso.

— Mas, Halt — Gilan disse com tristeza, e o ho-

mem grisalho e mais baixo pôde sentir que as lágrimas não estavam longe de escorrer de seus olhos. — Fui o respon-sável por deixar Will. Eu abandonei ele em Céltica! Se ti-vesse ficado com Will, ele nunca teria sido capturado pe-los escandinavos!

— Você não pode se culpar por isso — Halt repli-

cou. — Você fez a coisa certa na época. Culpe a mim por recrutar um garoto com a honra e a coragem para agir como ele fez. E por tê-lo treinado de um jeito que nunca deixaria dúvidas de que ele agiria dessa forma.

Ele fez uma pausa para ver se suas palavras estavam

tendo algum eleito. Ele sabia que Gilan estava hesitante. Halt acrescentou o toque final.

— Gilan, você não percebe que é por saber que es-

tá aqui que posso desertar de meu posto desse jeito? Por-que sei que vai me substituir. Mas, se você se recusar a fazer isso, eu também não vou poder ir.

E, quando ouviu isso, Gilan encolheu os ombros

submisso e abaixou os olhos.

— Tudo bem, Halt. Mas encontre-o. Encontre-o e

traga-o de volta, expulso ou não — ele disse com voz rouca.

Halt sorriu para ele e se inclinou para segurar o

ombro de Gilan.

— É só um ano — ele disse. — Vamos estar de

volta antes que você perceba. Até logo, Gilan.

— Felicidades, Halt — o arqueiro disse com a voz

trêmula.

Sua vista foi obscurecida pelas lágrimas e ele ouviu

o bater seco dos cascos dos cavalos na estrada molhada quando Abelard e Puxão se afastaram na direção da costa.

O vento atingia o rosto de Halt, enquanto ele ca-

valgava pelo caminho, e fazia a chuva leve bater em seu corpo. Ela formava pequenas gotas no seu rosto castigado pelo tempo, gotas que rolavam por sua lace.

Estranhamente, algumas delas tinham gosto de sal.

O navio estava em péssimas condições. Ele navegava desajeitadamente de lado, na direção da praia coberta de pedregulhos, onde a tripulação do navio de Erak saía das cabanas para olhar a chegada. Estava fortemente inclinado e muito mais dentro da água do que devia. A balaustrada estava a apenas dez centímetros da água.

 

— É o navio de Slagor! — um dos escandinavos

gritou da praia, reconhecendo a cabeça de lobo na ponta da proa.

— O que ele está fazendo aqui? — outro marinhei-

ro perguntou. — Ele estava em segurança na Escandiná-via, quando saímos de Araluen.

Will veio correndo das pedras onde estava jogando

pedaços de madeira na água. Ele viu Evanlyn saindo da varanda e se juntou a ela. O aborrecimento de antes desa-pareceu com esses novos acontecimentos.

— De onde veio esse navio? — ela perguntou, e

Will deu de ombros.

— Não tenho ideia. Eu estava nas pedras, olhei pa-

ra o mar e lá estava ele.

O navio já estava bem perto. Will notou que a tri-

pulação parecia abatida e exausta. Naquele momento, ele podia ver falhas em várias tábuas que formavam o casco, e o toco onde o mastro tinha se quebrado e caído no mar. Os escandinavos que estavam parados ao redor deles vi-ram esses fatos e comentavam sobre eles.

— Slagor! — Erak chamou por cima da água tran-

quila. De que raio de lugar você surgiu?

O homem corpulento que estava na popa contro-

lando o leme cumprimentou-o com um aceno de mão. Ele estava visivelmente exausto e satisfeito por poder ancorar.

Um dos tripulantes estava parado na proa do navio

e jogou uma corda pesada para os homens de Erak que esperavam na praia. Em alguns segundos, uma dúzia deles apanhou a corda e começou a puxar a embarcação pelos últimos metros. Agradecidos, os remadores, sem energia para guardar os remos, se recostaram nos bancos. Os pe-sados remos esculpidos em carvalho pendiam na água e batiam nas laterais do navio com um som surdo quando giravam nos seus orifícios.

A quilha raspou nos pedregulhos, e o navio parou.

Como estava mais baixo na água do que o Wolfwind, não era possível fazê-lo subir a mesma distância na praia, pois a proa logo ficou presa na areia.

Os homens a bordo começaram a desembarcar, sal-

tando sobre a amurada e caindo na praia. Cambaleando, os remadores foram para a terra seca e se estenderam no chão com gemidos de cansaço, largando o corpo na areia e nas pedras ásperas, ficando ali deitados como mortos. Um dos últimos a ir para a terra firme foi Slagor, o capi-tão.

Ele se deixou cair na praia. Sua barba e seu cabelo

estavam manchados e salpicados de branco do sal. Seus olhos estavam vermelhos e tinham uma expressão assus-tada. Ele e Erak se encararam. Estranhamente, eles não se cumprimentaram com o gesto normal de braços entrela-çados. Will supôs que os dois homens não se gostassem muito.

— O que você está fazendo aqui nesta época do

ano? — Erak perguntou ao outro marinheiro.

Desgostoso, Slagor balançou a cabeça. — Temos muita sorte de estar aqui. Dois dias de-

pois de sairmos de Hallasholm, a tempestade nos atingiu. As ondas eram grandes como castelos, e o vento vinha direto do polo. O mastro se quebrou na primeira hora e não conseguimos soltá-lo. Perdemos dois homens tentan-do arrancá-lo. Então a ponta ficou batendo na linha de água e, antes que nós percebêssemos, ela tinha feito um buraco nas tábuas.

Um dos compartimentos ficou inundado antes que

soubéssemos o que estava acontecendo e tivemos vaza-mentos em outros três.

Os navios, embora se parecessem com botes aber-

tos, na verdade eram muito resistentes para viagens no mar. Em grande parte, isso se devia ao fato de que o pro-jeto dividia os cascos em quatro compartimentos separa-dos à prova de água debaixo do convés principal e entre as duas galerias inferiores onde se sentavam os remadores. Era o poder de flutuação desses compartimentos que mantinha os navios à tona mesmo quando eram atingidos pelas ondas enormes que se agitavam no violento mar Stormwhite.

Will olhou para Erak. Ele viu que o robusto jarl es-

tava ouvindo as palavras de Slagor de cenho franzido.

— O que você estava fazendo no mar, para come-

çar? — Erak perguntou. — Agora não é o momento de tentar cruzar o Stormwhite.

Slagor aceitou um copo de madeira com conhaque

oferecido por um dos homens de Erak. Em volta do pe-queno porto, a tripulação do navio de Erak trazia bebidas para os conterrâneos exaustos e, em alguns casos, cuidava de ferimentos evidentemente surgidos quando navio tinha sido sacudido e agitado pela tempestade. Slagor não fez nenhum gesto de agradecimento, e Erak fez cara feia. No-vamente Will sentiu a animosidade existente entre os dois capitães. A atitude de Slagor foi agressiva até mesmo quando descreveu seu infortúnio, como se, de alguma forma, a situação o deixasse na defensiva. Ele tomou o conhaque num só gole e enxugou a boca com as costas da mão antes de responder.

— O tempo estava claro em Hallasholm — ele

contou resumidamente. — Achei que teríamos uma pausa longa o suficiente para cruzar a área de tempestades.

Erak arregalou os olhos sem acreditar no que ouvia.

— Nesta época do ano? Você ficou louco? — Pensei que íamos conseguir — Slagor repeliu

teimoso, e Will notou a expressão zangada de Erak.

O jarl robusto baixou a voz para que os membros

da tripulação não ouvissem. Somente Will e Evanlyn o escutaram.

— Maldito seja, Slagor — ele disse amargo. — Vo-

cê estava tentando tomar a dianteira na estação de saques?

— E se estivesse? — Slagor retrucou, olhando o

outro capitão com raiva. — Como capitão, eu, e mais nin-guém, tenho o direito de tomar essa decisão, Erak.

— E sua decisão custou a vida de dois homens —

Erak ressaltou. — Dois homens que juraram obedecê-las, por mais tolas que fossem. Qualquer homem com mais de cinco minutos de experiência saberia que é cedo demais para fazer essa travessia!

— Houve uma calmaria! — o outro homem dispa-

rou, e Erak grunhiu aborrecido.

— Uma calmaria! Sempre há uma calmaria! Elas

duram um ou dois dias. Mas isso não é suficiente para fa-zer a travessia, e você sabe disso. Maldito seja por sua ga-nância, Slagor!

— Você não tem o direito de me julgar, Erak —

Slagor respondeu, levantando-se. — Você sabe que o ca-pitão é dono do seu navio. Como você, sou livre para es-colher quando e para onde vou.

Ele falava mais alto do que Erak, e Will percebeu

que ele estava perdendo a paciência.

— E estou lembrando que você decidiu não se jun-

tar a nós na guerra que acabamos de lutar — Erak repli-cou num tom de zombaria. — Você se satisfez em ficar sentado em casa e então sair sorrateiramente e auferir lu-cros fáceis antes que outros capitães estivessem prontos para partir.

— A opção foi minha — Slagor repetiu — e muito

sábia, como ficou provado.

A voz dele se transformou num sorriso cheio de

desprezo.

— Percebo que você não teve exatamente um tre-

mendo sucesso em sua invasão, teve, jarl Erak?

Com os olhos brilhantes de raiva, Erak se aproxi-

mou do outro homem.

— Veja como fala, seu ladrão trapaceiro. Perdi

bons amigos ali.

— E mais do que amigos, ouvi falar — Slagor res-

pondeu encorajado. — Você vai receber muitos agrade-cimentos de Ragnak por deixar o filho dele para trás tam-bém.

— Gronel foi capturado na batalha? — Erak inda-

gou surpreso, dando um passo para trás.

— Capturado, não. Ouvi dizer que ele foi morto na

batalha de Thorntree. Alguns dos navios conseguiram vol-tar para a Escandinávia antes que a tempestade começasse — Slagor contou, balançando a cabeça e sorrindo ao ver o oponente perder a calma.

Will olhou para cima depressa. Wolfwind, o navio

de Erak, tinha sido o último a deixar a costa de Araluen. A tripulação ainda estava esperando a volta de Erak, quando os sobreviventes da expedição fracassada de Horth conse-guiram retornar aos navios levando notícias sobre a derro-ta e partindo. Mais tarde, Will ouviria a tripulação do Wolfwind falar sobre a batalha de Thorntree. Dois arquei-ros, um baixo e grisalho, e outro jovem e alto, tinham conduzido as forças do rei que dizimaram o exército es-candinavo quando marchou para se aproximar da força principal de Duncan pela retaguarda. De algum modo, Will sabia, no fundo do coração, que estavam falando de Halt e Gilan.

— Gronel era um bom homem — Erak balançou a

cabeça com tristeza. — Sentiremos muito a falta dele.

— O pai dele também. Ele jurou aplicar um vallas-

vow contra Duncan.

— Isso não pode ser verdade — Erak disse sem a-

creditar. — Um vallasvow só é aplicado em caso de trai-ção ou assassinato.

— Ele é o oberjarl — Slagor disse dando de om-

bros. Ele pode lazer o que bem entender. Agora, por pie-dade, você tem comida nessa ilha abandonada por Deus? Nossas provisões foram estragadas pela água do mar.

Erak, ainda distraído pelas notícias que tinha aca-

bado de ouvir, se deu conta da presença de Will e Evan-lyn. Ele fez um sinal com a cabeça na direção das cabanas.

— Acendam o fogo — ordenou a eles. — Esses

homens precisam de comida quente.

Estava zangado por Slagor ter lhe lembrado de seu

dever. Ele podia não gostar do outro homem, mas sua tripulação merecia ajuda e atenção depois de tudo o que tinha passado. Ele empurrou Will com grosseria na dire-ção da cabana. O garoto cambaleou e começou a correr acompanhado de perto por Evanlyn.

Will estava com uma sensação desagradável na boca

do estômago. Ele não tinha ideia do que um vallasvow poderia ser, mas sabia de uma coisa: de repente, manter a identidade de Evanlyn em segredo tinha se tornado uma questão de vida ou morte.