Terra do Gelo
A estrada estava chegando perto do oceano,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
No exato momento em que falava, o homem de
armadura levantou a viseira com as costas da mão direita. Foi um movimento desajeitado, agravado pelo fato de es-tar segurando uma lança pesada de 3 metros nessa mão. Ele quase a deixou cair e conseguiu batê-la contra a lateral do capacete, uma ação que provocou um tinido que che-gou até os dois viajantes.
— Arretez là mês seigneurs, avant de passer de pont-ci! —
ele disse num tom de voz um tanto agudo.
Horace não compreendeu nada, mas o tom era in-
confundivelmente arrogante.
— O que ele disse? — Horace quis saber, mas Halt
só fez um gesto de cabeça para o cavaleiro.
— Que ele fale a nossa língua, se quiser conversar
com a gente — ele retrucou zangado. — Araluenses! — ele disse para o homem em voz alta.
Mesmo daquela distância, Horace percebeu o dar
de ombros desdenhoso do outro homem quando Halt mencionou sua nacionalidade. Então, o cavaleiro tornou a falar, e seu sotaque forte deixava as palavras tão difíceis de serem reconhecidas como quando tinha falado galês.
— Vocês, meus senhores, não podem cruzar a mi-
nha ponte sem pagar um tributo — ele avisou.
Horace franziu a testa.
— O quê? — ele perguntou a Halt, e o arqueiro se
virou para ele.
— É terrível, não é? Os “senhores”, isto é, nós, é
claro, não podemos cruzar a ponte dele sem pagar um tri-buto.
— Um tributo? — Horace repetiu. — É uma forma de assalto de estrada — Halt ex-
plicou. — Se houvesse leis de verdade neste país idiota, pessoas como o nosso amigo ali nunca se safariam de uma coisa dessas. Desse jeito, eles podem fazer o que bem en-tendem. Cavaleiros se instalam em pontes ou encruzilha-das e exigem que as pessoas paguem um tributo para pas-sar. Se não puderem pagar, elas podem lutar com ele. Como a maioria dos viajantes não está equipada para lutar com um cavaleiro vestido com uma armadura completa, eles pagam.
Horace se acomodou na sela e estudou o homem
montado. Ele estava trotando com o cavalo de um lado para outro numa clara demonstração de força que tinha a intenção de desencorajar os viajantes. Seu escudo em for-mato triangular exibia o brasão com a cabeça de um vea-do. Ele usava uma armadura completa coberta por um casaco azul que também mostrava o símbolo da cabeça de veado. Usava luvas de metal, grevas sobre as canelas e um capacete arredondado com um visor deslizante, aberto naquele momento. O rosto debaixo do visor era magro e tinha um nariz proeminente e pontudo. Um bigode largo saía de ambos os lados da abertura do visor.
Horace imaginou que o cavaleiro enfiava suas pon-
tas para dentro quando o abaixava.
— Então, o que vamos fazer? — ele perguntou. — Bom, acho que vou ter que atirar nesse idiota.
— Halt replicou num tom de voz um tanto resignado. — Até parece que vou pagar tributo para todos os bandidos que surgem na minha frente e pensam que o mundo deve uma vida fácil para eles. Mas isso pode ser um grande a-borrecimento.
— Por quê? — Horace retrucou. — Se ele anda
por aí procurando briga, quem vai se importar se ele mor-rer? Ele merece.
Halt apoiou o arco com a flecha já posicionada e
pronta na sela.
— Tem a ver com o que esses idiotas chamam de
honra entre cavaleiros — ele explicou. — Se ele for morto ou ferido por outro cavaleiro num combate, isso pode ser perdoado. É lamentável, mas perdoável. Por outro lado, se eu colocar uma flecha naquela cabeça vazia, isso seria con-siderado uma trapaça. Ele certamente tem amigos ou pa-rentes na região. Esses tontos geralmente viajam em ban-do, li, se eu matar ele, eles vão vir atrás de nós. Como eu disse, é um tremendo aborrecimento.
Suspirando, ele começou a levantar o arco. Horace olhou mais uma vez para a figura imperiosa
à frente deles. O homem parecia totalmente indiferente ao fato de estar a segundos de um final bastante complicado. Naturalmente, ele não conhecia muito sobre arqueiros e estava confiante por usar uma armadura. Ele parecia não ter ideia de que Halt podia atirar uma flecha no visor fe-chado do capacete, se quisesse. O visor aberto parecia um alvo quase fácil demais para alguém com a habilidade de Halt.
— Você quer que eu cuide disso? — Horace final-
mente se ofereceu, embora um pouco hesitante.
Halt, com o arco quase pronto para atirar, reagiu
com surpresa.
— Você? — ele perguntou.
— Você sabe que ainda não sou um cavaleiro com-
pleto, mas acho que posso dar conta dele. E, enquanto os amigos dele acreditarem que ele foi derrotado por outro cavaleiro, ninguém vai vir atrás de nós, certo?
— Senhores! — o homem gritou impaciente. —
Obedeçam à minha ordem!
Horace olhou para Halt de um jeito interrogativo. — Precisamos responder. Tem certeza de que não
está assumindo uma tarefa grande demais para você? — o arqueiro perguntou. — Afinal, ele é um cavaleiro total-mente qualificado.
— Bem... sim — Horace disse sem jeito. Ele não queria que Halt pensasse que estava se ga-
bando.
— Mas ele não é mesmo muito bom, é? — Não é? — Halt retrucou irônico e, para sua sur-
presa, o garoto negou com um gesto de cabeça.
— Não, não muito. Veja como ele se senta no ca-
valo. O equilíbrio dele é péssimo. E ele já está segurando a lança com muita força, entendeu? E tem também o escu-do. Ele está baixo demais para se proteger de um repenti-no juliette, você não concorda?
— E o que é um juliette? — Halt perguntou curio-
so.
— É quando se muda o alvo da lança de repente —
Horace explicou sério sem perceber a nota de sarcasmo na voz do arqueiro. — Você começa visando ao escudo na altura do peito e então, no último momento, levanta a ponta na direção do capacete.
Ele fez uma pausa e então acrescentou com um le-
ve tom de desculpas:
— Eu não sei por que se chama juliette. Só sei que
é assim.
Houve um longo silêncio entre eles. Halt podia ver
que o menino não estava se gabando. Ele realmente pare-cia saber do que falava. Pensativo, o arqueiro coçou o ros-to. Talvez fosse útil verificar se Horace era mesmo bom. Se as coisas ficassem difíceis para o lado dele, Halt sempre poderia voltar para o Plano A e simplesmente atirar no tagarela vigia da ponte. Contudo, havia um pequeno pro-blema.
— Mas você não vai poder realizar nenhum “juliet-
te”. Parece que você não tem uma lança.
— É verdade — Horace assentiu. — Vou ter que
usar o primeiro movimento para derrubar a lança dele. Isso não deve ser um grande problema.
— Senhores! — o cavaleiro gritou. — A sua res-
posta!
— Ah, cale a boca — Halt resmungou para o ho-
mem. — Então isso não deve ser um problema, certo?
Horace apertou os lábios e balançou a cabeça num
gesto determinado.
— Bom, olhe para ele, Halt. Ele quase deixou a
lança cair três vezes enquanto estamos aqui. Uma criança poderia tirar ela dele.
Halt teve de sorrir quando ouviu aquilo. Ali estava
Horace, pouco mais que um garoto, declarando que uma criança poderia tirar a lança do cavaleiro que bloqueava a passagem deles. Então Halt se lembrou do que ele fazia quando tinha a idade de Horace e da batalha do garoto contra Morgarath, um oponente muito mais perigoso do que a figura ridícula na ponte. Ele avaliou o menino mais uma vez e viu nada além de determinação e uma confiança tranquila ali.
— Você sabe mesmo do que está falando, não é?
— ele indagou. E, apesar de ter feito uma pergunta, suas palavras eram mais uma constatação. Horace assentiu mais uma vez.
— Não sei como, Halt. Só tenho um pressentimen-
to para coisas desse tipo. Sir Rodney disse que tenho uma habilidade inata.
Gilan tinha dito a mesma coisa para Halt depois do
combate nas Planícies de Uthal. De repente, Halt tomou uma decisão.
Tudo bem — ele concordou. — Vamos tentar do
seu jeito. Ele se virou para o cavaleiro impaciente e falou com ele em voz alta.
— Sir, meu companheiro prefere enfrentar o se-
nhor numa batalha de cavaleiros! — ele avisou.
O homem ficou rígido e ajeitou o corpo na sela.
Halt percebeu que ele quase perdeu o equilíbrio diante daquele comunicado inesperado.
— De cavaleiros? — ele repetiu. — O seu compa-
nheiro não é um cavaleiro!
Halt assentiu com exagero, certificando-se de que o
homem veria o gesto.
— Ah, sim, ele é! — Halt contou. — Ele é sir Ho-
race, da Ordem da Feuille du Chêne.
Ele fez uma pausa e murmurou para si mesmo. — Ou eu deveria ter dito Crepe du Chêne? Não im-
porta.
— O que você disse a ele? — Horace perguntou,
tirando o escudo das costas e ajeitando-o no braço es-querdo.
— Eu disse que você é sir Horace da Ordem da
Folha do Carvalho — Halt contou. — Pelo menos, acho que foi isso o que eu disse — ele acrescentou indeciso. — Talvez eu tenha dito que você pertence à Ordem da Pan-queca.
Horace olhou para ele com uma leve ponta de de-
sapontamento no olhar. Ele levava as regras da ética da cavalaria muito a sério e sabia que ainda não tinha o direi-to de usar o título de “sir Horace”.
— Isso foi mesmo necessário? — ele perguntou, e
o arqueiro assentiu.
— Ah, sim. Você sabe que ele não vai lutar com
qualquer um. Precisa ser um cavaleiro. Não acho que ele tenha percebido que você está sem armadura — ele acres-centou, quando Horace ajeitou com firmeza o capacete cônico na cabeça.
Ele já tinha arrumado a malha de ferro que levava
jogada sobre os ombros, debaixo da capa. Ele a desamar-rou e procurou um lugar para deixá-la, mas Halt estendeu a mão para pegá-la.
— Deixe que eu seguro — ele se ofereceu, pegando
a vestimenta e dobrando-a sobre a sela.
Horace percebeu que, quando fez isso, Halt tomou
cuidado para não cobrir o arco. O aprendiz fez um gesto na direção da arma.
— Você não vai precisar disso — ele garantiu. — Já ouvi isso antes — Halt respondeu e então o-
lhou novamente para a ponte quando o vigia chamou ou-tra vez.
— O seu amigo não tem lança — ele disse, gesticu-
lando com a arma de 3 metros de comprimento coroada por uma ponta de ferro.
— Sir Horace propõe que vocês lutem com a espa-
da — Halt respondeu, e o cavaleiro balançou a cabeça violentamente.
— Não! Não! Eu vou usar a minha lança! Halt ergueu uma sobrancelha na direção de Horace. — Parece que ele não se importa se você é cavalei-
ro ou não, mas esqueça tudo, se isso representar esquecer uma vantagem de 3 metros ele disse em voz baixa.
— Isso não é problema — Horace disse com cal-
ma, dando de ombros.
Então, um pensamento lhe veio à cabeça.
— Halt, tenho mesmo que matar ele? Quer dizer,
posso lidar com ele sem ter que ir tão longe.
Halt pensou na pergunta.
— Bom, não é obrigatório — ele disse ao aprendiz.
— Mas não se arrisque. Afinal, ele merece ser morto. Tal-vez ele não ficasse tão ansioso em cobrar tributos dos pas-santes depois disso.
Foi a vez de Horace olhar para Halt intrigado. O
arqueiro deu de ombros.
— Bem, você sabe o que eu quis dizer — ele repli-
cou. — Apenas se certifique de que você esteja bem antes de deixar ele ir embora.
— Seigneur! — o cavaleiro gritou, colocando a lança
debaixo do braço e batendo as esporas nos flancos do ca-valo. — En garde! Vou acabar com você!
Houve um rápido raspar de aço sobre couro, quan-
do Horace puxou a longa espada da bainha e virou Kicker para ficar de frente para o oponente, pronto para atacá-lo.
— Não vou demorar nem um minuto — ele disse a
Halt, e então Kicker se afastou, atingindo alta velocidade no espaço de alguns metros.
Depois da tentativa frustrada de fuga, Will e Evanlyn fo-ram proibidos de se afastar mais de cinquenta metros das cabanas. Não houve mais corridas nem exercícios. Erak encontrou uma nova série de tarefas para os dois prisio-neiros realizarem, desde consertar os colchões de corda no dormitório a vedar as tábuas do casco do Wolfwind com piche e pedaços de corda rasgados. Era um trabalho pesado e desagradável, mas Evanlyn e Will o aceitaram sabiamente.
Confinados dessa maneira, eles não podiam evitar
perceber a crescente tensão entre os dois grupos de es-candinavos. Slagor e seus homens, aborrecidos e procu-rando distração, tinham sugerido em voz alta que os dois araluenses fossem chicoteados. Slagor, lambendo os lá-bios, tinha até se oferecido para ele mesmo realizar a tare-fa.
Com aspereza, Erak mandou Slagor cuidar da pró-
pria vida. Ele estava ficando cada vez mais cansado dos modos zombeteiros e exibicionistas do capitão e da ma-neira dissimulada como seus homens roubavam a tripula-ção do Wolfwind e escarneciam dela. Slagor era um co-varde e um encrenqueiro e, quando Erak o comparava aos dois prisioneiros, se surpreendia ao descobrir que tinha mais em comum com Will e Evanlyn do que com seu conterrâneo. Ele não guardava rancor contra os dois, por tentarem escapar. Se estivesse no lugar deles, teria tentado fazer a mesma coisa. E ter Slagor perseguindo-os para um divertimento perverso fazia que ele, de certa forma, se aproximasse dos garotos.
Quanto aos homens de Slagor, Erak tinha a forte
opinião que eles eram o lixo coletivo que empesteava o ar fresco de Skorghijl.
A situação explodiu numa noite durante o jantar.
Will estava colocando pratos e várias facas para carne nu-ma das mesas e Evanlyn estava servindo sopa onde Erak e Slagor estavam sentados com os chefes de suas tripula-ções. Quando ela se inclinou entre Slagor e seu primeiro colega, o capitão se virou na cadeira, abrindo os braços largamente, enquanto ria do comentário de um dos seus homens. Sua mão bateu com força contra o prato cheio, derramando sopa quente no braço nu.
Slagor gritou de dor e agarrou Evanlyn pelo pulso,
arrastou-a para a frente e torceu o braço dela cruelmente, fazendo que ela se dobrasse desajeitadamente sobre a me-sa. A panela de sopa e o prato caíram no chão com es-trondo.
— Garota maldita! Você me escaldou! Olhe para is-
so, sua porca preguiçosa de Araluen!
Ele sacudiu o braço molhado perto do rosto dela,
enquanto a segurava com a outra mão. Evanlyn ouvia a respiração ofegante nas narinas dele e sentiu o desagradá-vel cheiro de seu corpo sujo.
— Sinto muito — ela disse depressa, encolhendo-
se por causa da dor no braço que ele torcia com força ca-da vez maior. — Mas você bateu na concha.
— Então a culpa foi minha? Vou ensinar você a
não responder para um capitão!
O rosto dele mostrava fúria quando estendeu a mão
para pegar o chicote curto de três tiras de couro que leva-va no cinto. Ele o chamava de “encorajador” e alegava que o usava em remadores preguiçosos: uma afirmação negada pelos que o conheciam. Todos sabiam que ele não teria coragem de atacar um remador corpulento.
Mas uma jovem garota era diferente. Principalmen-
te naquele momento em que estava bêbado e zangado.
O aposento ficou em silêncio. Do lado de fora, o
sempre presente vento gemia contra as tábuas da cabana. Do lado de dentro, a cena parecia ler ficado congelada por um momento na luz enfumaçada e incerta do fogo e das lamparinas a óleo em volta do aposento.
Erak, sentado do lado oposto de Slagor, praguejou
baixinho. Do outro lado da sala, Will colocou a pilha de pratos na mesa devagar. Seu olhar, como o de todos os outros, estava em Slagor: na cor avermelhada e doentia do rosto e dos olhos, provocada pelo álcool, e na forma co-mo sua língua continuava a disparar para fora, entre os dentes manchados e quebrados, para molhar os lábios grossos. Sem ser notado, o aprendiz de arqueiro ficou com uma das facas, uma faca pesada de dois gumes usada para cortar carne de porco salgada na mesa. Com cerca de 20 centímetros de comprimento, era parecida com uma pequena faca de caça, aquela que ele conhecia muito bem depois de horas de treinamento com Halt.
Finalmente, Erak falou. Sua voz saiu baixa e o tom
era moderado. Só isso foi suficiente para que sua tripula-ção se levantasse e ficasse atenta. Quando Erak esbraveja-va e gritava, normalmente estava brincando. Quando fica-va quieto e intenso, eles sabiam que ele estava mostrando seu lado mais perigoso.
— Solte a menina, Slagor — ele ordenou. Slagor fez cara feia, furioso com a ordem e o tom
confiante de comando atrás dele.
— Ela me queimou! — ele berrou. — Ela fez de
propósito e vai ser castigada!
Erak pegou seu copo e tomou um longo gole de
cerveja. Quando falou de novo, mostrou todo o cansaço e aborrecimento que sentia em relação ao capitão.
— Vou dizer só mais uma vez. Solte a garota. Ela é
minha escrava.
— Escravos precisam de disciplina — Slagor retru-
cou lançando um olhar rápido ao redor da sala. — Todos vimos que você não está disposto a fazer o que é preciso, portanto chegou o momento de alguém tomar uma atitu-de!
Percebendo que o capitão estava distraído, Evanlyn
tentou se libertar, mas ele sentiu seu movimento e a segu-rou com facilidade.
Vários membros da tripulação do Wolf Fang, aque-
les que mais tinham bebido, concordaram com aquelas palavras.
Erak hesitou. Ele podia simplesmente se inclinar e
nocautear Slagor. Ele podia fazer isso até mesmo sem sair da cadeira. Mas isso não seria suficiente. Todos no apo-sento sabiam que ele poderia vencer Slagor numa luta e fazer isso não provaria nada. Ele estava cansado do ho-mem e queria humilhá-lo e envergonhá-lo. Slagor não me-recia menos e Erak sabia como atingir seu objetivo.
Ele suspirou, como se estivesse cansado de toda
aquela situação, inclinou-se sobre a mesa e falou devagar, como se estivesse se dirigindo para um ser de inteligência inferior. O que, ele refletiu, resumia muito bem as capaci-dades mentais de Slagor.
— Slagor, enfrentei uma campanha dura, e esses
dois são meu único lucro. Não vou permitir que você seja responsável pela morte de um deles.
— Você ficou muito mole com eles, Erak — Slagor
sorriu com crueldade. — Estou lhe fazendo um favor. Além disso, umas boas chicotadas não vão matar a garota, só vão deixar ela mais obediente no futuro.
— Eu não estava falando sobre a garota — Erak
retrucou com calma. — Eu me referi ao menino ali.
Ele fez um gesto com a cabeça até onde Will estava
em pé nas sombras tremeluzentes. Slagor seguiu seu olhar, assim como os outros.
— O menino? — ele franziu a testa sem compre-
ender. — Não tenho intenção de machucar ele.
— Sei disso — Erak concordou. — Mas, se você
tocar na garota com esse chicote, é quase certo que ele vai matar você. E então, para castigar o menino, vou ter que matar ele. E não estou preparado para perder todo esse lucro. Portanto, solte a menina.
Slagor franziu ainda mais a testa e sua expressão se
encheu de raiva. Ele detestava ser motivo de piada para Erak e pensou, e quase todos os outros também, que o jarl apenas o estava subestimando ao insinuar que o pe-queno garoto araluense podia vencê-lo numa briga.
— Você perdeu a cabeça, Erak — ele rosnou. — O
garoto é tão perigoso quanto um rato do campo. Posso quebrar ele ao meio com uma das mãos.
Ele fez um gesto com a mão livre, a que não estava
segurando o braço de Evanlyn.
Erak sorriu para ele, mas não havia sinal de humor
nesse sorriso.
— Ele pode matar você antes que dê um passo na
direção dele. O tom extremamente calmo mostrou que ele não estava brincando.
Todos na sala perceberam isso e ficaram muito qui-
etos. Slagor também percebeu. Ele franziu o cenho, ten-tando descobrir um meio de se livrar daquela situação. O álcool tinha confundido seu raciocínio. Havia uma coisa que ele não estava entendendo. Ele começou a falar, mas Erak levantou a mão para impedi-lo.
— Acho que não podemos permitir que ele mate
você para provar que estou certo — Erak afirmou pare-cendo relutante.
Ele procurou algo pela sala e seus olhos se ilumina-
ram ao ver um pequeno barril de conhaque pela metade na extremidade da mesa.
— Empurre esse barril para cá — ele ordenou a
Svengal.
Seu segundo no comando pôs uma das mãos no
pequeno barril e o fez deslizar sobre a mesa rústica até chegar ao capitão. Erak o examinou com atenção.
— Esse barril tem o tamanho da sua cabeça gorda,
Slagor — ele afirmou com um leve sorriso.
Então ele pegou a sua faca, que estava na mesa, e
rapidamente fez duas marcas claras na madeira escura do casco.
— Vamos fazer de conta que estes são seus olhos. Ele puxou o barril por cima da mesa e o colocou ao
lado de Slagor, quase tocando o cotovelo dele. Murmúrios de expectativa atravessaram o aposento, enquanto os ho-mens observam tudo se perguntando o que aconteceria em seguida. Apenas Svengal e Horak, que tinham estado com Erak na ponte, tinham uma vaga ideia do que seu jarl estava prestes a fazer. Eles sabiam que o garoto era a-prendiz de arqueiro e tinham visto, em primeira mão, que ele era um adversário de respeito. Mas o garoto estava sem o arco, e os homens não sabiam o que Erak tinha vis-to: a faca que Will segurava escondida debaixo do braço direito.
— Bem, garoto — Erak continuou —, esses olhos
são um pouco próximos um do outro, mas os de Slagor também.
Houve um sussurro divertido entre os escandinavos
e Erak agora falou diretamente com eles.
— O que vocês acham de todos olharmos com a-
tenção e ver se alguma coisa aparece entre eles?
E, ao dizer isso, ele fingiu olhar bem para o barril
sobre a mesa. Era quase inevitável que todos na sala se-guissem seu exemplo. Will hesitou um segundo, mas sen-tiu que poderia confiar em Erak. A mensagem que o líder dos escandinavos mandava era muito clara. Rapidamente, ele deu um impulso com o braço, e a faca atravessou gi-rando o aposento.
Houve um leve clarão quando o instrumento em
movimento passou pela luz avermelhada das lamparinas a óleo e do fogo. Então, com um forte “plac” a lâmina afia-da entrou na madeira, quase no centro do espaço entre as duas marcas. O barril chegou a deslizar para trás uns dez centímetros por causa do impacto.
Slagor soltou um grito espantado e saltou para trás.
Inadvertidamente, soltou o braço de Evanlyn. A garota se afastou dele depressa e então, quando Erak fez um gesto de cabeça na direção da porta, ela saiu correndo do apo-sento despercebida na confusão.
Houve gritos sobressaltados por alguns momentos,
e os homens de Erak começaram a rir e a aplaudir o feito notável. Até os homens de Slagor acabaram por participar, enquanto o skirl permanecia sentado observando-os car-rancudo. Ele não era uma pessoa popular. Seus homens apenas o seguiam porque ele era rico o bastante para ter um navio para as suas pilhagens. Agora, muitos deles imi-tavam o grito rouco que ele tinha emitido quando a faca entrou no barril com um ruído forte.
Erak se levantou do banco e deu a volta na mesa,
enquanto falava.
— Como você vê, Slagor, se o garoto tivesse mira-
do a cabeça de madeira errada, você certamente estaria morto agora e eu teria que castigar ele com a morte.
Ele parou perto de Will, sorrindo para Slagor, en-
quanto o skirl se curvava no banco, esperando o que viria em seguida.
— Desse jeito — Erak continuou —, eu simples-
mente vou repreender ele por assustar alguém tão impor-tante quanto você.
E, antes que Will percebesse, Erak lhe deu um mur-
ro, com o punho fechado no lado da cabeça, que o jogou sem sentidos no chão. Ele olhou para Svengal e fez um gesto na direção do vulto desacordado no chão de madei-ra áspera da cabana.
— Jogue esse sujeito desrespeitoso no quarto dele
— Erak ordenou.
Então, dando as costas para todos, saiu para a noi-
te.
Do lado de fora, no ar frio e límpido, ele olhou pa-
ra cima. O céu estava claro. O vento ainda soprava, mas estava calmo e se dirigia para o leste. Os ventos de verão tinham terminado.
— Chegou a hora de sair daqui — ele disse para as
estrelas.
A batalha, se pudesse ser chamada assim, não durou mais que alguns segundos.
Os dois guerreiros montados dispararam na direção
um do outro, fazendo os cascos de seus cavalos de batalha retumbarem na superfície não pavimentada da estrada, os torrões de terra girarem no ar atrás deles e a poeira se le-vantar numa nuvem que marcava a passagem dos dois.
O cavaleiro galês estava com a lança estendida. Halt
podia ver agora a falha que Horace tinha percebido na técnica do seu oponente. Segura com muita firmeza no começo, a ponta da lança oscilava e se agitava com o mo-vimento do cavalo. Se ele a segurasse com mais leveza e flexibilidade, a arma poderia ter mantido a ponta centrada no alvo. Daquela forma, a lança mergulhava, levantava e tremia a cada passo do animal.
Horace, por outro lado, cavalgava tranquilamente
com a espada pousada num dos ombros, satisfeito em conservar a força até que chegasse o momento de agir.
Eles se aproximaram um do outro, escudo diante
de escudo, como era normal. Halt tinha esperado de certa forma ver Horace repetir a manobra usada contra Morga-rath e virar o cavalo para o outro lado no último momen-to. Entretanto, o aprendiz continuou, mantendo a linha de ataque. Quando estava a cerca de 10 metros de distância, ele tirou a espada da posição de descanso e a fez descrever círculos no ar. Quando a ponta da lança se aproximou do escudo de Horace, a espada, ainda formando um círculo, a atingiu em cheio e a jogou para o alto, por cima da cabeça do garoto.
O movimento pareceu enganosamente fácil, mas
Halt percebeu, enquanto observava, que o menino domi-nava a arte do manejo das armas com naturalidade. O ca-valeiro galês, preparado para o impacto de sua lança no escudo de Horace, de repente se viu jogando o corpo con-tra o vazio. Ele vacilou, sentindo-se cair. Numa tentativa desesperada de autopreservação, agarrou-se à alça da sela.
Ele teve a má sorte de escolher se segurar com a
mão direita, que também tentava manter o controle da lança pesada. Virada para cima pela ponta da espada, ela estava agora descrevendo um arco gigante por conta pró-pria. O cavaleiro galês não conseguiu manter o equilíbrio e segurar a lança ao mesmo tempo, e uma praga abafada saiu de dentro de seu capacete quando ele se viu obrigado a deixar a lança cair.
Enraivecido, procurou o punho da espada às cegas,
tentando tirá-la da bainha para o segundo golpe.
Infelizmente para ele, haveria somente um primeiro
golpe. Halt balançou a cabeça numa admiração silenciosa quando Horace, já com a lança fora da jogada, instantane-amente fez Kicker parar e se virar e usou os joelhos e a mão que segurava o escudo nas rédeas para fazer o cavalo se empinar nas patas traseiras, antes de o cavaleiro galês passar por ele.
A espada, ainda descrevendo aqueles círculos fáceis
que mantinham o punho se movimentando com leveza e naturalidade, fez outro movimento em arco e atingiu as costas do capacete do outro homem com um tinido alto e forte.
Halt se encolheu, imaginando qual teria sido o som
dentro do pote de aço. Seria esperar demais que apenas um golpe atravessasse o metal rígido. Seriam necessários vários golpes fortes para conseguir isso. Mas Horace dei-xou uma marca profunda no capacete, e o choque da pan-cada atravessou diretamente o aço e foi até o crânio do cavaleiro.
Invisíveis aos dois araluenses, os olhos dele ficaram
embaçados, ligeiramente tortos e depois se normalizaram.
Então, muito devagar, ele caiu para o lado da sela,
despencou na terra da estrada e lá ficou deitado e imóvel. Seu cavalo continuou a galopar por mais alguns metros. Mas, percebendo que ninguém o estava dirigindo, desace-lerou, baixou a cabeça e começou a comer o capim com-prido ao longo da estrada.
Horace fez o cavalo trotar lentamente de volta, pa-
rando no ponto em que o cavaleiro galês estava estendido no chão.
— Eu disse que ele não era muito bom — ele rea-
firmou um tanto sério para Halt.
O arqueiro, que se orgulhava de suas maneiras
normalmente taciturnas, não conseguiu evitar que um lar-go sorriso se espalhasse em seu rosto.
— Bem, talvez ele não seja — ele disse para o jo-
vem diante dele.
— Mas você certamente pareceu bastante eficiente. — Fui treinado para isso — ele respondeu com
simplicidade, dando de ombros.
Halt se deu conta de que o garoto simplesmente
não gostava de se gabar. A Escola de Guerra certamente tinha exercido um bom eleito nele. Ele fez um gesto para o cavaleiro que estava começando a recuperar a consciên-cia. Os braços e as pernas do homem faziam pequenos movimentos leves e descoordenados, dando-lhe a aparên-cia de um caranguejo semimorto.
— Ele também deveria estar treinado para isso —
Halt respondeu.
— Muito benfeito, jovem Horace — ele acrescen-
tou.
O garoto corou de prazer com o elogio de Halt. Ele
sabia que o arqueiro não costumava cumprimentar as pes-soas em vão.
— Então, o que vamos fazer com ele agora? — ele
perguntou, indicando o adversário caído com a ponta da espada.
Halt deslizou rapidamente da sela e se aproximou
do homem.
— Deixe que eu cuido disso — ele disse. — Vai ser
um prazer. Ele agarrou o homem por um braço e o arras-tou até que se sentasse. O cavaleiro atordoado resmungou dentro do capacete e, agora que tinha tempo para notar esses detalhes, Horace viu que as pontas do bigode se pro-jetavam para fora dos lados do visor fechado.
— Obrigado, senhor — o cavaleiro murmurou de
modo incoerente quando Halt o sentou.
Seus pés patinaram na estrada quando ele tentou se
levantar, mas Halt o impediu com um empurrão sem gen-tileza.
— Nada de obrigado — o arqueiro replicou. Ele colocou a mão sob o queixo do homem, e Ho-
race se deu conta de que ele segurava a menor de suas fa-cas. Por um momento, o garoto horrorizado ficou con-vencido de que Halt pretendia cortar a garganta do estra-nho. Então, com um golpe habilidoso, o arqueiro cortou a tira de couro que prendia o capacete na cabeça do ho-mem. Depois de cortá-la, Halt tirou o capacete e o jogou nos arbustos à beira da estrada. O cavaleiro soltou um le-ve gemido de dor quando as pontas de seu bigode foram puxadas pelo visor ainda fechado.
Horace embainhou a espada, finalmente seguro de
que o cavaleiro não representava mais ameaça. Este, por sua vez, muito sério, espiava Halt e a figura sobre o cava-lo. Ele ainda não enxergava muito bem.
— Vamos continuar a luta no chão — ele declarou
trêmulo. Halt lhe deu um tapa forte nas costas, fazendo os olhos do homem girarem mais uma vez.
— Vai coisa nenhuma. Você foi derrotado, meu
amigo. Caiu de quatro no chão. Sir Horace, cavaleiro da Ordem du Feuille du Chêne, concordou em poupar sua vida.
— Oh... obrigado — disse o homem abalado, fa-
zendo um gesto vago de saudação na direção de Horace.
— Entretanto — Halt continuou, permitindo que
um tom sombrio de divertimento tomasse conta de sua voz — de acordo com as regras dos cavaleiros, as suas armas, a armadura, o cavalo e outros pertences passarão para sir Horace.
— É mesmo? — Horace perguntou sem acreditar.
Halt assentiu.
O cavaleiro tentou se levantar outra vez, mas, como
antes, Halt o segurou no chão.
— Mas, senhor... — ele protestou fracamente. —
As armas e a armadura? Claro que não...
— Claro que sim — Halt replicou. O rosto do homem, já abatido e pálido, ficou ainda
mais atordoado quando se deu conta da importância do que o estranho vestido com a capa cinza lhe dizia.
— Halt — Horace interrompeu —, ele não vai fi-
car meio indefeso sem as armas... e o cavalo?
— Sim, com certeza — foi a resposta satisfeita. —
O que vai dificultar muito para ele a tarefa de roubar via-jantes inocentes que querem atravessar essa ponte.
— Ah — Horace respondeu pensativo finalmente
entendendo.
— Exatamente — Halt reforçou, olhando para ele
com um ar significativo. — Você teve um bom dia de tra-balho aqui, Horace. Pense bem, você mal levou 2 minutos para acabar com ele — Halt acrescentou. — Mas você vai manter esse predador longe da atividade e deixar a estrada um pouco mais segura para os habitantes da região. E, é claro, nós vamos ter um belo conjunto de malha de ferro, uma espada, um escudo e um belo cavalo para vender na próxima vila.
— Você tem certeza de que as regras são essas? —
Horace perguntou, e Halt lhe deu um sorriso largo.
— Ah, sim. É totalmente justo e aprovado. Ele sa-
bia disso. Ele simplesmente deveria ter olhado com mais atenção quando nos desafiou. Agora, minha beleza — ele disse para o abatido cavaleiro sentado aos seus pés —, vamos tirar essa sua malha de ferro.
O cavaleiro atordoado começou a obedecer de má
vontade. Halt olhou radiante para o companheiro.
— Estou começando a gostar um pouco mais de
Gálica do que esperava — ele comentou.
Dois dias depois, o Wolfwind deixou o porto de Skorghi-jl e se dirigiu para a Escandinávia, a nordeste. Slagor e seus homens ficaram para trás, com a tarefa de fazer reparos temporários no navio antes de tentarem voltar para o por-to de origem. O navio estava muito danificado para conti-nuar a navegar para o Ocidente e participar da temporada de pirataria. A decisão de Slagor de deixar o porto cedo mostrou ser custosa.
O vento, que durante semanas tinha soprado para o
norte, agora soprava para o oeste, permitindo aos escan-dinavos içar a grande vela principal. O Wolfwind navegava com tranquilidade no mar cinzento e formava uma trilha de espuma atrás de si. O movimento era estimulante e li-bertador, à medida que os quilômetros passavam sob o casco e, quanto mais se aproximavam da terra natal, mais o ânimo da tripulação melhorava.
Apenas Will e Evanlyn não sentiam o espírito mais
leve. Skorghijl tinha sido um lugar terrível, deserto e ina-mistoso, mas pelo menos os meses ali passados haviam adiado o momento de sua separação. Eles sabiam que se-riam vendidos como escravos em Hallasholm e que havia grandes possibilidades de irem para lugares diferentes.
Certa vez, Will tinha tentado alegrar Evanlyn sobre
sua possível separação.
— Eles dizem que Hallasholm não é uma cidade
grande — ele falou —, então mesmo que a gente vá para lugares diferentes talvez ainda possa se ver. Afinal, eles não podem esperar que a gente trabalhe 24 horas por dias, 7 dias por semana.
Evanlyn não tinha respondido. Sua experiência com
os escandinavos até ali lhe dizia que era isso exatamente o que deveriam esperar.
Erak notou o silêncio e a disposição melancólica
que tinham tomado conta deles e sentiu uma ponta de solidariedade. Ele se perguntou se não haveria um modo de fazer que continuassem juntos.
É claro que sempre poderia mantê-los como seus
escravos, mas ele não precisava de escravos pessoais. Co-mo um líder guerreiro dos escandinavos, ele vivia nas ten-das dos oficiais onde suas necessidades eram atendidas por ordenanças. Se ficasse com os dois araluenses, teria que pagar para alimentá-los e vesti-los. Ele afastou a ideia com um gesto irritado de cabeça.
Para o inferno com eles — murmurou aborrecido,
afastando-os de sua mente e se concentrando em manter o navio no curso certo, observando a bússola flutuando nas argolas suspensas junto ao leme.
No décimo segundo dia da travessia, eles consegui-
ram ver a costa escandinava. Exatamente onde Erak tinha previsto que iriam chegar. Por causa dos olhares de admi-ração dos homens para o jarl, Will soube que aquele tinha sido um grande feito.
Durante os dias seguintes, eles navegaram mais per-
to da praia até que Will e Evanlyn conseguiram enxergar mais detalhes. Penhascos altos e montanhas cobertas de neve pareciam ser as características dominantes da Escan-dinávia.
— Ele tomou a corrente de Loka com perfeição —
Svengal disse a eles enquanto se preparava para subir ao ponto de observação no alto do mastro.
O alegre segundo no comando tinha desenvolvido
um certo afeto por Will e Evanlyn. Ele sabia que suas vi-das como escravos seriam duras e impiedosas e tentava compensá-los com algumas palavras simpáticas, sempre que possível. Infelizmente, seu próximo comentário, feito com boas intenções, serviu pouco para tranquilizar os dois.
— Ah, bom — ele disse segurando uma adriça para
escalar até o topo do mastro —, acho que vamos chegar em casa dentro de 2 ou 3 horas.
Contudo, ele estava enganado. O navio, finalmente
dirigido por remos, passou pela névoa espessa que envol-via o porto de Hallasholm cerca de 1 hora e 15 minutos depois. Will e Evanlyn ficaram parados em silêncio, no meio do navio, enquanto a cidade aparecia ao longe.
Não era um lugar grande. Aninhada ao pé de mon-
tanhas altas cobertas de pinheiros, Hallasholm não tinha mais que 50 casas, todas de um andar e, aparentemente, feitas de troncos de pinheiros e cobertas por telhados de folhas e turfa.
As casas estavam agrupadas ao redor das margens
do porto, onde mais ou menos uma dúzia de navios estava atracada ao cais, alguns estavam em terra firme, tombados de lado, enquanto homens trabalhavam nos cascos, en-frentando uma batalha interminável contra os ataques de parasitas marinhos, que constantemente roíam as tábuas de madeira. Anéis de fumaça subiam de quase todas as chaminés, e o ar frio estava perfumado com um cheiro forte do pinho que queimava.
O prédio principal, a Grande Mansão de Ragnak,
era construído com os mesmos troncos de pinho que o resto das casas da cidade, mas era maior, mais comprido e largo e tinha um telhado inclinado que se erguia acima dos demais. Ele ficava no centro da cidade, dominando a pai-sagem, cercado por um fosso seco e uma paliçada que, conforme Will notou, também era feita de troncos de pi-nheiro. Estava claro que esses troncos eram o material de construção mais comum na Escandinávia. Uma estrada longa e larga que saía do cais principal levava para o por-tão na paliçada.
Ao observar a cidade por cima da água lisa como
vidro do porto, Will pensou que, numa outra época e em outras condições, provavelmente acharia as casas bem or-denadas, e as imensas montanhas cobertas de neve atrás delas muito bonitas.
Naquele momento, contudo, ele não via nada que
lhe agradasse em seu novo lar. Enquanto os dois jovens observavam, uma neve fina começou a esvoaçar o redor deles.
— Acho que aqui é bem frio — Will comentou em
voz baixa.
Ele sentiu a mão gelada de Evanlyn se enroscar na
dele. Will a apertou com delicadeza, esperando dar a ela um pouco de coragem. Uma coragem que ele mesmo es-tava longe de sentir naquele momento.
— Eu disse que esse símbolo no seu escudo facilitaria a viagem — Halt comentou com Horace.
Eles estavam tranquilamente acomodados em suas
selas, Halt com uma das pernas apoiada na alça, enquanto observavam o cavaleiro galês que tinha barrado a passa-gem deles bater as esporas no cavalo e sair a galope até a segurança de uma cidade próxima. Horace olhou para a folha de carvalho verde que Halt tinha pintado em seu escudo antes sem adornos.
— Você sabe — ele disse com um leve tom de de-
saprovação na voz —, não tenho direito a um brasão de armas até ser formalmente nomeado cavaleiro.
O treinamento com sir Rodney tinha sido muito rí-
gido e às vezes ele sentia que Halt não dava bastante aten-ção ao protocolo da cavalaria. O arqueiro barbado olhou para ele de lado e deu de ombros.
Aliás, você também não tem o direito de lutar com
nenhum desses cavaleiros antes de ser nomeado — ele lembrou. — Mas não vi isso impedir você.
Desde o primeiro encontro na ponte, os dois via-
jantes foram parados em meia dúzia de ocasiões por cava-leiros piratas que guardavam encruzilhadas, pontes e vales estreitos. Todos eles tinham sido despachados com facili-dade quase desdenhosa pelo jovem e musculoso aprendiz. Halt estava muito impressionado com a técnica e habili-dade natural do jovem rapaz. Um depois do outro, Horace tinha feito os vigias de beira de estrada caírem das selas, primeiro com alguns golpes destramente aplicados com a espada e, mais recentemente — ele havia conseguido uma lança resistente, com o equilíbrio e o peso que lhe agrada-vam —, em um ataque retumbante que tinha arrancado o oponente da sela e feito que caísse vários metros atrás do cavalo a galope. Naquele momento, os dois viajantes ti-nham reunido um bom estoque de armaduras e armas que carregavam amarradas às selas dos cavalos que tinham capturado. Halt pretendia vender os animais, as armas e armaduras na próxima cidade grande que encontrassem.
Apesar da admiração pela habilidade de Horace e
do fato de sentir uma estranha satisfação por ver os abu-tres encrenqueiros serem postos fora de ação, Halt se res-sentia dos contínuos atrasos que isso causava à sua via-gem. Mesmo sem eles, ele e Horace dificilmente atingiri-am a distante fronteira da Escandinávia antes que as pri-meiras nevascas de inverno as tornassem intransponíveis. Assim, cinco noites antes, quando acamparam num celeiro semidestruído de uma fazenda deserta, ele tinha remexido em pilhas de velhas ferramentas enferrujadas e sacos ras-gados até encontrar uma pequena lata de tinta verde e um velho pincel seco. Com eles, tinha pintado uma folha de carvalho verde no escudo de Horace. O resultado foi o esperado. A reputação de sir Horace da Ordem da Folha de Carvalho os tinha ultrapassado. Agora, com muita fre-quência, quando cavaleiros salteadores viam sua aproxi-mação, viravam e fugiam ao enxergar o desenho no escu-do de Horace.
— Não posso dizer que estou sentido por ver ele ir
embora — Horace observou delicadamente, fazendo que Kicker andasse até a encruzilhada agora deserta. — O meu ombro ainda não sarou totalmente.
Seu oponente anterior tinha sido consideravelmente
mais hábil do que os habituais guerreiros de estrada. Sem medo do emblema da folha de carvalho no escudo e obvi-amente não perturbado pela reputação de Horace, ele ti-nha participado do combate com animação. A luta tinha durado vários minutos e, durante o seu desenrolar, um golpe de clava arrancou o alto da borda do escudo de Ho-race e atingiu a parte superior de seu braço.
Felizmente, o escudo tinha recebido a maior parte
do impacto ou muito provavelmente o braço de Horace estaria quebrado. Como resultado, ele estava bastante feri-do e ainda não conseguia movimentar o braço como gos-taria.
Praticamente meio segundo após a clava tê-lo ma-
chucado, a espada de Horace bateu com força na frente do capacete do outro homem, deixando uma marca pro-funda e fazendo o cavaleiro cair estendido inconsciente, com uma grave concussão, no chão da floresta.
Agora, Horace estava aliviado por não ter precisado
lutar desde então.
— Vamos passar a noite na cidade — Halt avisou.
— Talvez a gente consiga algumas ervas para eu colocar um cataplasma nesse braço — ele acrescentou, ao notar que o garoto estava protegendo o braço.
Apesar de não ter se queixado, era evidente que o
ferimento causava muita dor.
— Isso seria bom — Horace concordou. — Uma
noite numa cama de verdade seria uma mudança agradável depois de dormir no chão por tanto tempo.
— É evidente que a Escola de Guerra não é mais o
que costumava ser — Halt replicou. — É muito bom quando um velho como eu pode dormir ao ar livre, en-quanto um garoto fica todo dolorido e reumático por cau-sa disso.
— Isso não importa — Horace deu de ombros. —
Ainda vou ficar satisfeito por dormir numa cama hoje à noite.
Na verdade, Halt sentia a mesma coisa, mas não di-
ria isso a Horace.
— Talvez a gente deva se apressar — ele disse —
para colocar você numa boa cama confortável antes que suas juntas fiquem todas entrevadas.
E ele fez Abelard trotar levemente. Atrás dele, Pu-
xão aumentou 0 ritmo no mesmo instante para acompa-nhá-lo. Horace, pego de surpresa e impedido pelos cava-los capturados que conduzia, demorou um pouco para segui-los.
A fila de cavalos de batalha, carregados com a ar-
madura e as armas, despertou bastante interesse na cidade quando eles cavalgaram pelas ruas. Horace percebeu mais uma vez como as pessoas corriam para abrir caminho para seu cavalo. Ele notou olhares furtivos lançados para o seu lado e mais de uma vez ouviu a expressão “Chevalier du chêne” sussurrada enquanto passava. Ele olhou curioso para Halt.
— O que eles estão dizendo?
Halt mostrou o símbolo da folha de carvalho no
escudo que estava pendurado no alto da sela do garoto.
— Eles estão comentando sobre a “chêne”, que
quer dizer carvalho. Eles estão falando sobre você, o cava-leiro do carvalho. Aparentemente, a sua fama se espalhou.
Horace franziu a testa. Ele não tinha certeza de es-
tar satisfeito com isso.
— Vamos esperar que isso não cause nenhum pro-
blema — ele disse indeciso, e Halt simplesmente deu de ombros.
— Numa cidade pequena como esta? Acho muito
improvável. Espero que aconteça o contrário.
Pois, na verdade, era uma cidade pequena, quase
pouco mais que um vilarejo. A rua principal era estreita e quase não tinha espaço para os dois cavalos andarem lado a lado. Os pedestres tinham que sair do caminho, ir para ruas laterais, para que os cavaleiros pudessem passar, e ficar ali, enquanto a pequena fila de cavalos de batalha ca-valgava calmamente atrás deles.
A rua não pavimentada era uma mera trilha poei-
renta que se transformava num lamaçal grudento, quando chovia. As casas eram pequenas, geralmente térreas, apa-rentemente construídas numa escala menor do que a normal.
— Fique de olhos abertos para encontrar uma pou-
sada — Hall disse devagar.
Viajar com um companheiro famoso era uma expe-
riência nova para Halt. Em Araluen, ele estava acostuma-do com a desconfiança e, às vezes, o medo com que os membros do corpo de arqueiros eram recebidos. As capas manchadas e os capuzes grandes eram uma imagem co-nhecida para o povo do reino. Ali, em Gálica, ele ficou bastante satisfeito em perceber que o uniforme dos ar-queiros, além do arco e das flechas e das facas duplas, seu armamento característico, parecia despertar pouco ou ne-nhum interesse.
Com Horace as coisas eram diferentes. Era óbvio
que a reputação do rapaz tinha se adiantado a eles, e as pessoas o olhavam com o mesmo jeito desconfiado e cheio de dúvida com que Halt tinha se acostumado ao longo dos anos. A situação agradava muito a Halt. No ca-so de qualquer problema, ela daria aos dois uma vantagem definitiva, caso as pessoas já tivessem decidido que o prin-cipal perigo vinha do jovem rapaz que usava a armadura.
A verdade era que o homem mais velho e grisalho
na capa de cores um tanto indefinidas era um possível i-nimigo muito menos perigoso.
— Logo ali — Horace avisou, despertando Halt de
seus pensamentos. Ele seguiu a direção do dedo do garoto e viu um prédio maior que os outros com um segundo andar precariamente inclinado sobre a rua, sustentado sem muita firmeza por vigas de carvalho que se projetavam para fora na altura do primeiro andar. Uma placa um pou-co gasta pelo tempo balançava delicadamente na brisa e tinha o desenho rústico de um copo de vinho e um prato de comida feitos com tinta que já escamava.
— Não fique muito esperançoso de encontrar uma
boa cama macia para passar a noite — Halt avisou o a-prendiz. — É capaz de a gente dormir melhor na floresta.
Ele não acrescentou que provavelmente também
dormiriam num lugar mais limpo.
Mas, na verdade, constataram que ele tinha sido in-
justo com a pousada. Ela era pequena, e as paredes não eram muito retas. O teto era baixo e irregular, e as escadas pareciam se inclinar para um lado quando subiram para examinar o quarto que lhes tinha sido oferecido.
Mas, pelo menos, o lugar era limpo, e o quarto ti-
nha uma janela grande envidraçada que estava bem aberta para deixar entrar a fresca brisa da tarde. O cheiro dos campos recém-arados chegou até eles, quando olharam para fora e viram a confusão de telhados inclinados da cidade.
O dono da pousada e sua esposa eram idosos e pa-
reciam hospitaleiros e amistosos com seus dois hóspedes principalmente depois de terem visto as armas e a arma-dura empilhadas nos cavalos sem cavaleiro alinhados na rua. Para eles, estava claro que o jovem cavaleiro era uma pessoa de posses. E também uma pessoa de considerável importância, a julgar pela maneira como ele deixava todas as negociações para o seu empregado, o sujeito um tanto mal-humorado que usava uma capa cinza-esverdeado. Sa-tisfazia ao esnobismo do senhorio pensar que pessoas nascidas em berço nobre não se dignavam a mostrar inte-resse por assuntos comerciais, como o preço de um quar-to para dormir.
Tendo verificado que não havia mercado na cidade
onde poderiam converter o produto de seus combates em dinheiro, Halt deixou que o cavalariço da pousada aco-modasse os cavalos para a noite. Todos, exceto Abelard e Puxão, é claro. Ele cuidou deles pessoalmente e ficou sa-tisfeito em ver que Horace fez o mesmo com Kicker.
Quando os cavalos estavam acomodados, os dois
companheiros voltaram para o quarto. A mulher do esta-lajadeiro tinha dito que o jantar ficaria pronto somente dali a 1 ou 2 horas.
— Vamos usar esse tempo para cuidar desse braço
— Halt disse a Horace.
O jovem rapaz se deixou cair na cama agradecido e
suspirou satisfeito. Ao contrário da expectativa de Halt, as camas eram macias e confortáveis e eram cobertas por lençóis brancos perfumados e cobertores grossos e lim-pos. A um gesto do arqueiro, o aprendiz se levantou e ti-rou a malha de ferro e a túnica, gemendo levemente por causa da dor quando levantou o braço na altura do om-bro.
O hematoma tinha se espalhado por todo o braço,
deixando uma mancha de carne descorada de um azul e-negrecido com feias bordas amarelas. Halt tocou o feri-mento com olhar crítico, apalpando para ter certeza de que não havia ossos quebrados.
— Aai! — Horace gritou quando os dedos do ar-
queiro apalparam o hematoma à procura de alguma coisa.
— Doeu? — Halt perguntou, e Horace olhou para
ele desesperado.
— Claro que sim — respondeu depressa. — Foi
por isso que gritei.
— Hummm — Halt resmungou pensativo. Levantando o braço, ele o virou de um lado para
outro, enquanto o rapaz rangia os dentes para não gritar de dor. Finalmente, incapaz de conter seu aborrecimento por mais tempo, ele se afastou de Halt.
— Você acha mesmo que vai encontrar alguma coi-
sa aqui? — ele perguntou num tom irritado. — Ou você só está se divertindo em me causar dor?
— Estou tentando ajudar — Halt disse com suavi-
dade. Ele tentou pegar o braço outra vez, mas Horace re-cuou.
— Deixe as mãos longe de mim — ele disse. —
Você só está me cutucando e me apalpando. Não sei co-mo isso pode ajudar.
— Só estou tentando me certificar de que não tem
nada quebrado — Halt explicou.
Mas Horace balançou a cabeça para o arqueiro. — Não quebrou nada. Estou machucado, só isso. Halt fez um gesto impotente e resignado. Ele abriu
a boca para falar, planejando tranquilizar Horace e garantir que estava mesmo tentando ajudar.
Houve uma leve batida na porta e, antes que o som
tivesse morrido, ela se abriu de repente e a mulher do es-talajadeiro entrou com os braços cheios de travesseiros novos para a cama. Ela sorriu para os dois e então seu o-lhar caiu sobre o braço do garoto. O sorriso desapareceu e foi substituído imediatamente por um ar de preocupação maternal.
Ela soltou uma torrente de palavras em galês, que
nenhum dos dois compreendeu, e se aproximou rapida-mente de Horace, largando os travesseiros na cama. Ele a observou com desconfiança quando ela estendeu a mão para tocar seu braço ferido. Ela parou, apertou os lábios e o encarou de um jeito tranquilizador. Satisfeito, ele deixou que a mulher examinasse o ferimento.
A mulher trabalhou com gestos delicados, leves e
quase imperceptíveis. Horace, submetendo-se ao seu exa-me, olhou para Halt de um jeito significativo. O arqueiro ficou carrancudo e se sentou na cama para observar. Fi-nalmente, a mulher recuou e, pegando o braço do rapaz, fez que se sentasse na beira da cama e se virou para falar com os dois homens, apontando o braço descorado.
— Ele não quebrou nenhum osso — ela disse hesi-
tante, e Halt concordou.
— Pensei a mesma coisa — ele retrucou, e Horace
fungou com desdém.
A mulher as sentiu uma ou duas vezes e então con-
tinuou, escolhendo as palavras com cuidado. Seu domínio do idioma araluense era inexato, para dizer o mínimo.
— Hematomas — ela disse. — Hematomas feios.
Precisam... — ela hesitou procurando a palavra e então a encontrou. — Ervas... — ela esfregou as duas mãos, imi-tando o ato de esfregar ervas umas nas outras para formar um cataplasma. — Esmagar ervas... pôr aqui.
Ela tocou o braço ferido mais uma vez, e Halt con-
cordou com um gesto.
— Bom — ele disse a ela. — Por favor, faça isso
depressa.
Ele olhou para Horace.
— Estamos com sorte — ele afirmou. — Ela pare-
ce saber o que está fazendo.
— Você quer dizer que eu estou com sorte — Ho-
race disse preocupado. — Se ficasse nas suas mãos delica-das, provavelmente estaria sem o braço agora.
A mulher, ouvindo o tom de voz, mas sem com-
preender as palavras, apressou-se a tranquilizá-lo, emitin-do sons monótonos e tocando o ferimento com leveza.
— Dois dias... três... sem ferimento, sem dor — ela