Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
© Copyright, 2015 - THEUS: do fogo à busca de si mesmo esta registrado no Escritório de Direitos Autorais. A reprodução total ou parcial sem autorização de seu organizador; ou autores; ou da editora é proibida conforme a Lei 9.610/98. Segunda edição.
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Autor
Fabrício Viana
Produção editorial
Editora Orgástica
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Revisão
Bonie Santos
Bárbara Silveira
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AGRADECIMENTOS
Nunca havia pensando em me tornar escritor e muito menos em criar obras para o público LGBT. E aqui estou, no meu quarto livro, mais uma vez, me expressando por meio da arte literária e fazendo parte da história cultural, colorida e diversificada LGBT do Brasil.
Às vezes me assusto com tudo isso. Ser conhecido aqui e ali. Ser chamado para eventos, congressos e palestras por todo este imenso Brasil, além dos prêmios literários que ganhei, não é algo que acontece com qualquer um ou a qualquer momento. Porém, vem acontecendo comigo desde o lançamento do meu primeiro livro, em 2006. Perdi as contas dos programas de TV de que participei e das entrevistas que dei a jornais, revistas e sites existentes neste mundo absurdamente grande. E a cada dia que passa, meus escritos se espalham, são emprestados, comentados, amados e, raramente, odiados. Eu? Só tenho a agradecer.
Agradecer aos amigos e aos leitores que, de fato, gostam do que eu produzo e me incentivam, dia após dia, a nunca parar de escrever. Portanto, a todos vocês, meu muito obrigado!
Fabrício Viana
www.fabricioviana.com
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Dedico esta obra à Adriana Simone, Alex Viana, Alzira Viana, André Luiz, Bruno Chagas, Carlos Ferreira, Cleber Francisco, Luiz Nogueira, Marli Porto e Robson Amante.
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CAPÍTULO 1
Talvez o caminho para a grande evolução da consciência esteja na capacidade individual de quebrar alguns conceitos aprendidos desde a infância. E o Junior estava aos poucos aprendendo isso com a vida.
Era noite de quinta–feira quando ele, já um pouco tonto pela bebida que havia tomado minutos antes, atravessava a pista de dança de uma casa noturna localizada no centro de São Paulo. A música estava alta, alguns rapazes dançavam sem camisa e ele, que tinha acabado de chegar, só precisava ir ao banheiro esvaziar sua bexiga. Quando entrou no banheiro, Junior observou que na fila para usar o reservado estava um rapaz que ele tinha visto lá fora, bem na entrada daquela famosa boate, e pelo qual havia se interessado. O cara, muito bonito, estava com uma garota que parecia ser sua namorada, e por isso ele não tinha dado tanta importância antes. Mas, felizmente, ela não estava ali com ele. Talvez esta fosse uma ótima oportunidade para ele investir. Ou não: Junior precisava perceber se o cara também tinha interesse nele; afinal, o que um não quer, dois não fazem. Felizmente, ele queria. Após utilizar o reservado, o rapaz foi lavar as mãos e, ao se virar, deu de cara com Junior ainda na fila. O encontro de olhares foi fatal. Sabe quando você conhece alguém, os olhos ficam fixos e tudo em volta parece acontecer em câmera lenta? Foi exatamente isso o que aconteceu. O moço, ainda olhando fixamente em seus olhos, soltou um leve sorriso, e Junior, mesmo sendo muito tímido, retribuiu automaticamente. Até que o cara, por conta da música alta, foi até seu ouvido e disse: – Uau, você é uma graça!
– Obrigado! Você também.
– Qual é o seu nome? – perguntou o rapaz, enquanto voltava a fixar seus olhos nos de Junior.
– Meu nome é um pouco complicado – respondeu Junior com seu sotaque interiorano, olhando para baixo. – Mas pode me chamar de Junior. E o seu? – continuou baixinho, enquanto seus rostos voltavam a ficar próximos.
– Carlos. Pode me chamar de Carlos – disse todo cheio de si, tentando beijá–lo logo em seguida.
– Ei! Espera! E a sua namorada? – Junior disse, empurrando-o. – Aquela garota? Nem faço ideia de quem seja! – ele gargalhou. – Eu vim para cá sozinho – continuou ele, voltando a ficar sério. – Sozinho? Mas vocês estavam quase se agarrando lá fora. Na fila. – Ah, então quer dizer que você já estava me espiando, é? – Não. Claro que não. Eu só vi você rapidamente – Junior disse, desviando o olhar.
– Não, eu vim sozinho mesmo. – insistiu ele, depois continuou. – Se eu conhecesse aquela garota, eu diria que era minha amiga. Ou então que eu estava ficando com ela. Mas não é nada disso... – Tem certeza?
– Claro! A gente nem se conhece, por que eu mentiria para você? – É verdade. Você tem razão. Não há motivo nenhum para mentir. Com um argumento destes, não restavam mais dúvidas. Foi então que Carlos investiu novamente e os dois acabaram se beijando ali mesmo. Carlos era um alemão alto e muito atraente, usava cabelo curto, raspado nas laterais como se fosse um soldado do exército, uma camisa clara e calça jeans. Já Junior era um moreno bonito e musculoso, tinha a cabeça raspada e vestia uma regata branca e bermuda. O que eles tinham em comum? Falavam grosso e nenhum dos dois tinha trejeitos. Talvez por isso eles tenham se curtido tão rápido: nem sempre os opostos se atraem; aliás, o mais comum nas relações humanas é que características iguais ajudem na aproximação, principalmente nas amizades. E assim eles ficaram: se beijando no banheiro por incontáveis minutos, até que Carlos resolveu parar porque Junior também precisava usar o banheiro. Enquanto usava o reservado, Junior sabia que, ao sair dali, deveria manter a postura e não expressar sua felicidade por ter beijado um cara por quem havia se interessado desde sua chegada. Não se deve demonstrar essas coisas. Mesmo porque sua felicidade nem era tão grande assim; apenas estava contente por ter encontrado alguém legal. Afinal de contas, nem sempre quando vamos para uma balada conseguimos ficar com aquela pessoa que tanto desejamos. Quando isso acontece, a probabilidade de o encontro se tornar algo mais sério aumenta. Não que Junior estivesse procurando alguém, mas, se acontecesse algo entre eles, seria muito bem vindo.
Assim que Junior usou o banheiro e lavou as mãos, Carlos, que aguardava na porta, o convidou para tomar algo no bar próximo à pista de dança.
– Toma, Junior, um gole! – Carlos ofereceu a bebida que tinha em mãos.
– Não, obrigado, vou pegar uma caipirinha. – Junior lembrou-se rapidamente do que seu amigo Gabriel havia falado sobre aceitar qualquer coisa de qualquer um em qualquer lugar. Por mais simpática ou bonita que a pessoa fosse, sempre poderia ter algo na bebida ou até mesmo em goma de mascar recheada.
– Tudo bem. É só energético.
– Eu gosto de caipirinha, é a terceira que tomo hoje. Mas obrigado mesmo assim.
– Terceira? Olha lá, hein! Não vou levar nenhum marmanjo no colo para casa – disse Carlos, sorrindo.
– Pode deixar, já estou acostumado! Fique sossegado – Junior mostrou seu tímido sorriso.
– Tudo bem, então! Curte sempre esta balada? – perguntou Carlos, enquanto passava uma de suas mãos sutilmente pelo corpo do Junior. – Na verdade, não. Não gosto muito daqui do centro. Mas é uma das poucas que abre às quintas. E a qualidade do som é boa. Me disseram que hoje tem até show de sexo ao vivo, é verdade? – Sim, é verdade. Tem show sim. Mas o povo não está nem aí. Eles estão mais interessados no que acontece lá dentro... – Carlos apontou para o dark room, um quarto escuro, próximo da pista de dança, onde as pessoas entravam e transavam livremente.
– Sério? – Junior perguntou, surpreso.
– Pois é. Já vi os shows algumas vezes. Os caras começam a transar no palco e só se escutam gargalhadas e comentários sobre quem tem o pau maior. Quem broxou. Quem demorou mais para gozar. É mais cômico que erótico.
– Imaginei que seria excitante.
– Talvez seja isso que atraia as pessoas no convite que eles espalham por aí. No fundo, até deveria ser. Mas não é, não. O povo é safado. Eles se divertem mesmo é ali dentro... – apontou mais uma vez para o dark room enquanto fazia cara de desaprovação.
– E você já foi lá?
– Claro que não! Nunca fui! – respondeu Carlos, sem pensar. – Não gosto deste tipo de coisa, Junior! Prefiro algo mais romântico, um cineminha a dois, um filme com pipoca de baixo das cobertas ou algo assim... – continuou, olhando fixamente nos olhos de Junior. – Eu também prefiro. Mas pelo jeito isso está cada vez mais difícil, não? – falou desanimado.
– Pois é, as pessoas não querem mais saber umas das outras, elas só querem trepar e pronto. Ninguém mais liga para os sentimentos dos outros. – Que bom que você pensa assim – disse Junior, dando uma pequena pausa. Em seguida, continuou: – Mas eu vim para cá hoje nem tanto por causa do show. Fui demitido da empresa e não queria ficar em casa. Vim mais para distrair a cabeça.
– Sei como é. Eu também já passei por isso. É um porre! – Sério?
– Sim. Não importa o que você faça ou quanto você ganhe, precisa ocupar a mente.
– Que bom que me entende – disse, enquanto respirava fundo. – E você? Trabalha? – continuou.
– Sim, trabalho. Sou cobrador de ônibus – respondeu, enquanto tomava mais um gole do seu energético.
– Cobrador de ônibus? – Junior perguntou, surpreso. – Sim, cobrador de ônibus. Por que o espanto? – Nada, não. Eu não sabia que tinha cobrador de ônibus... – Gay? –interrompeu Carlos.
– Sim, gay.
– Mas eu não sou gay! E nem vou deixar você passar por baixo da catraca por causa disso! – continuou Carlos, sorrindo. Os dois se aproximaram e se beijaram mais um pouco. Junior, olhando para Carlos, seu corpo, seu olhar, seu jeito todo simpático, ficava cada vez mais encantado.
– E onde você trabalha, Carlos? – perguntou Junior, depois de muitos beijos e carinhos.
– Em uma linha de ônibus que passa na avenida Santo Amaro. Mas já trabalhei no Grajaú e em Itapecerica da Serra. Conhece? – Conheço pouco. Na verdade, só de nome. É perto de São Bernardo do Campo ou algo assim?
– Não. São Bernardo é outra cidade. Mas fica na zona sul de São Paulo. Você não é daqui?
– Não – Junior respondeu, meio triste. – Você é de onde, Junior?
– Eu morava no interior de São Paulo, na cidade de Capão Bonito. – E veio para cá com seus pais?
– Não. A história é bem longa – continuou, triste. Carlos percebeu e decidiu mudar de assunto.
– Tudo bem. E aqui? Você mora com quem? – Moro com um amigo.
– Amigo? É amigo mesmo? – Carlos brincou, simulando ciúmes. Junior gostou.
– Sim, é amigo mesmo. Quando eu vim para São Paulo, foi ele, o Gabriel, que me deu a maior força.
– Estou achando que ele é seu caso, hein! – Carlos insistia na brincadeira.
– Não é, não. Pode ficar tranquilo. Inclusive ele tem namorada, a Michele, e vão se casar em breve. Vou te mostrar uma foto dos dois, espera – Junior disse, enquanto abria sua carteira e procurava uma pequena foto no meio de seus documentos. – Está vendo? Este aqui é o Gabriel e esta loira é a Michele!
– Nossa! Eles formam um casal muito bonito! – respondeu Carlos. Segundos depois, ele se abaixou para pegar um bilhete que havia caído da carteira do Junior sem ele perceber.
– Toma. Caiu da sua carteira.
– Obrigado! – Neste momento, Carlos percebeu que no bilhete que tinha caído só havia alguns números.
– Você é rápido, hein! – disse com cara de deboche. – Por quê? Não entendi.
– Mal chegou aqui e já pegou o telefone de alguém! – O quê? Ah, esse número? O 200500011315? – Junior mostrou o papel a Carlos.
– Sim, esse mesmo! Mal chegou e já trocou telefones.
– Não é telefone, não – Junior sorriu.
– E qual a boa desculpa?
– Não preciso dar desculpas! É que o Gabriel é formado em matemática porque ama números desde pequeno. Disse que fez alguns cálculos com meu nome e meu aniversário e essa numeração apareceu para mim. Mas até hoje eu não sei exatamente o que é. Ele apenas disse para gravar e nunca me esquecer destes números, pois eles me trarão sorte. Estarei sempre protegido com eles.
– Sério? – desta vez foi o Carlos que fez cara de espanto. – Sim, ele gosta tanto de números que vive rabiscando vários cadernos pela casa nas horas vagas. Esse aí no bilhete, por exemplo, ele disse que é só meu. Não existe outro. Por isso, tudo o que eu tenho e que dê para escrever, ele escreve exatamente esse número: 200500011315 – falou pausadamente.
– Que cara louco! Se eu fosse você, sairia de lá correndo! – É verdade! No começo, eu também achava estranho. Mas é o jeito dele. Um jeito meio esquisito, mas é dele. Deve ser mania ou sei lá o quê. Eu já me acostumei. Todos se acostumam. Essa estranheza dele passou a ser um charme. Quando você for à nossa casa, vai ver os cadernos dele espalhados. Um monte de números soltos que não dizem nada. – Opa, isso é um convite?
– Pode ser – respondeu Junior, enquanto guardava o bilhete na carteira.
– Não fala isso não, hein? Se não eu caso com você – Carlos olhou-o nos olhos novamente.
– Casar, Carlos? Mas a gente acabou de se conhecer! Está doido? – Junior disse sorrindo, e continuou. – Vamos fazer o seguinte, primeiro a gente vai se conhecendo, depois a gente namora, fica noivo e só no final, se chegarmos até lá, a gente casa. Pode ser?
– Tudo bem – disse Carlos, chateado. – Pode sim, fazer o quê? Mesmo porque, um cara assim, do seu jeito, a gente não encontra por aí todos os dias. Você é mesmo muito especial. Tenho mais é que investir, cuidar e fazer de tudo para estar sempre ao seu lado – ele continuou, olhando novamente nos olhos de Junior.
Os dois voltaram a se beijar. E muito. E assim a noite correu tranquila. Eles conversaram, riram, dançaram e se beijaram quase a noite toda. Carlos, além de esbanjar romantismo, também tinha uma cara de safado que deixava qualquer um louco.
Talvez por isso as coisas tenham dado errado.
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CAPÍTULO 2
Aquela noite parecia ser mágica. Junior tinha saído apenas com a intenção de beber um pouco e extravasar. Sair daquela rotina de ficar em casa, sair para procurar emprego, ficar em casa, sair para procurar emprego e repetir tudo nos dias seguintes. O que ele não esperava era encontrar um cara tão bonito como o Carlos, e que falasse tantas coisas românticas para ele. A sorte realmente havia batido em sua porta.
– Junior... – disse Carlos, dando uma pausa. – Pode falar.
– Preciso ir ao banheiro. Fica aqui. Já volto! – Não, eu vou junto com você! – respondeu Junior em seguida. – Não precisa, não! É rápido mesmo. Espera aqui, e olha lá no palco, o show de sexo já vai começar, está vendo? – Sim, é verdade! – Junior olhou para o palco e viu o pessoal ajeitando algumas coisas.
– Vou lá e já volto. Não se preocupe – repetiu Carlos. – Tudo bem, eu espero aqui.
Assim que Carlos saiu rumo ao banheiro, a música parou, as luzes se apagaram e alguém gritou “Iaíííííí” no microfone. Junior já sabia que era a famosa Silvetty Montilla, uma transformista muito conhecida e que apresenta shows em vários lugares do Brasil. Ele mesmo já havia assistido a alguns shows dela em outros lugares.
Silvetty, como costume, chamou algumas pessoas para subirem ao palco, fez piadas, brincou, distribuiu prêmios e então, finalmente, anunciou o show de sexo explícito. Então todas as luzes se apagaram, com exceção de uma luz vermelha, bem fraca, que iluminava somente o palco.
Junior, que nunca havia visto aquilo, observava tudo atentamente para não perder nada. Foi então que os dois atores entraram no palco, ainda com roupa, e começaram a se beijar ao som de uma música bem romântica. Os dois eram morenos, um aparentava ter uns 25 anos, bonito, e o outro, uns 29 anos, não muito bonito, mas grande e muito musculoso. Aos poucos eles foram tirando a roupa e, em poucos minutos, já estavam pelados e começando a transar na frente de todo mundo, sem nenhum pudor. Junior só observava, até que foi interrompido por alguém. – Oi.
– Oi – Junior respondeu baixinho, olhando para o lado e vendo um rapaz magro, de topete, que usava uma lente de contato horrível achando que estava abafando.
– Vi que você está sozinho aí vendo o show já tem um tempo. Meu amigo quer te conhecer.
– Seu amigo? – Junior respondeu, sem acreditar. Afinal, era raro isso acontecer com ele.
– Sim, meu amigo. É aquele ali do canto! – disse o outro, apontando para um rapaz muito mais bonito que Carlos.
– Nossa, seu amigo é bonito!
– Sim, ele é um gato. Todo mundo dá em cima dele. Mas quando ele invoca com alguém, não tem jeito. E ele quer você. – Sério? – respondeu Junior com um misto de desejo, receio e um pouco de vergonha. Em seguida, ficou chateado. – Mas por que essa cara?
– Não posso! – respondeu sem pensar muito. – Por que não? Você não está sozinho? – perguntou o rapaz, surpreso.
– Não, não estou sozinho. Infelizmente. Pois eu adoraria conhecer seu amigo.
– Ué, mas se você não está sozinho, você está com quem? Com um fantasma?
– Não, conheci um cara, ele só foi ao banheiro. – Sério? Mas já tem uns quarenta minutos que o show começou. Se ele foi ao banheiro, esquece!
– Como assim?
– Estou vendo que você não conhece nada da cidade grande. Enfim, boa sorte com seu fantasma! Até mais.
O rapaz virou as costas e foi conversar com o amigo dele. O cara, muito bonito mesmo, só olhou para o Junior e fez cara de desaprovação por ter sido rejeitado. Junior, sendo trazido para a realidade à força, só gravou as últimas palavras do garoto, e pensou: “quarenta minutos no banheiro”. Isso foi suficiente para que ele fosse correndo ao banheiro procurar Carlos. O banheiro era grande, não havia divisões entre homens e mulheres e, mesmo com o show lá fora, ele estava lotado. Junior procurou, procurou e procurou. Nada do Carlos. Então, ele saiu e foi até a pista de dança, pois imaginou que, mesmo com o show acontecendo no palco, talvez Carlos estivesse lá conversando com algum amigo. Mas nada. Nenhum sinal do Carlos.
“Onde ele está? Será que aconteceu algo? Será que ele precisou ir embora? Vou ao banheiro mais uma vez! Deve estar dentro de algum reservado passando mal!”, ele pensou.
Junior entrou no banheiro e, desta vez, lutando contra sua forte timidez, resolveu bater na porta de cada reservado e perguntar por Carlos. – Carlos? Você está aí?
– Não, aqui não é o Carlos!
E assim ele foi perguntando de porta em porta. Até que, ao sair do banheiro, olhou para a porta do dark room e ficou desconcertado. “Não! Não pode ser. Ele não pode ter entrado ali. É impossível. Mas, mesmo assim, já que eu procurei em tudo quanto é canto e não achei, vou lá ver. Vou guardar todas as minhas coisas em um só bolso, segurar firme para evitar assaltos no escuro e entrar lá.”
Ao passar pela porta do dark room, Junior deu alguns poucos passos e viu, mesmo com a pouca luz que vinha lá de fora, o Carlos. O safado estava beijando um cara enquanto comia outro. Somente o movimento da bunda dele o denunciava, pois ele estava em pé, com roupa, e o rapaz à sua frente, de costas. E o outro, enquanto ele metia, beijava loucamente sua boca. Junior não acreditou naquela cena. Um misto de vários sentimentos cresceu dentro dele. Não sabia como reagir. Por impulso, muito revoltado, ele se aproximou de Carlos, cutucou seu ombro e disse, nervoso: – Não acredito que você fez isso comigo! Como você pôde? Carlos, ainda com seus movimentos de idas e vindas dentro do rapaz, simplesmente parou de beijar o outro cara, olhou para Junior, ignorou-o e continuou fazendo o que estava fazendo. Junior, ao perceber que Carlos não havia se importado nem um pouco com ele, saiu dali com lágrimas nos olhos.
“Não acredito que ele fez isso comigo. Como pôde? Por que falou que odiava aquele lugar? E estava lá dentro com dois? Queria casar comigo? Por que mentiu tanto? Me iludiu a noite inteira e de tantas formas?”, pensava.
Desesperado, ainda com muitas lágrimas nos olhos e com o estômago doendo por ter sido rejeitado, Junior só pensava em uma coisa: ir para casa e receber um abraço bem apertado do Gabriel. Afinal, mesmo sendo só amigos, Gabriel sempre havia cuidado dele, desde que ele tinha chegado a São Paulo. E o que ele mais precisava naquele momento era de colo.
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CAPÍTULO 3
Assim que pisou em casa, ainda triste, Junior foi até o quarto de Gabriel avisar que havia chegado. Gabriel, com seus vários cadernos espalhados com seus números que Junior nunca entendera, estava dormindo de cueca todo largado em sua cama. Ao seu lado, uma garrafa vazia de whisky. “Nossa, Gabriel deve ter tomado todas para não sentir o frio que está fazendo!”, pensou.
Junior, preocupado, arrumou os cadernos, tirou o copo vazio da mão do amigo, ajeitou-o na cama, admirou seu corpo malhado por alguns segundos, cobriu-o com o cobertor, desejou bons sonhos e fechou a porta. Tudo silenciosamente, para não o acordar. Depois, foi ao seu quarto, pegou uma roupa, tomou uma ducha e deitou-se para dormir. Sozinho na cama, antes de pegar no sono, Junior ficou imaginando quando ele teria alguém ao seu lado para que pudesse dormir abraçado todas as noites. Alguém que ele pudesse amar, que o fizesse se sentir amado, alguém para compartilhar alegrias, tristezas e todos os momentos que a vida proporcionava. Se os outros conseguiam arrumar alguém, ele também conseguiria. Só não entendia o motivo de tanta demora.
Ainda cansado, ele acordou naquele mesmo dia, só que bem tarde. O sol já estava brilhando quando ele saiu da cama, escovou os dentes e, ainda sonolento, foi até a cozinha preparar algo para comer. Enquanto preparava um lanche, Gabriel apareceu.
– Bom dia, Gabriel!
– Bom dia, não. Boa tarde! Já viu que horas são? – Gabriel apontou para o relógio de parede.
– Ah, hoje é sexta-feira e eu acabei de acordar, dá um tempo! – Junior brincou. – E a Michele? Ela não viria para cá ontem? – Espera um pouco, como você sabe disso? – Gabriel espantou-se. – Desculpe! Esqueci de te contar. Ontem, antes de sair, fui até seu quarto, mas você estava ao telefone com ela, de costas, combinando um encontro aqui em casa. Resolvi não atrapalhar, fechei a porta e fui embora. – Sim, mas não faça mais isso!
– Fazer o quê?
– Sair sem me avisar!
– Mas eu avisei.
– Não, você me deixou um bilhete!
– E isso não é avisar?
– Não. Você precisa falar comigo, não deixar bilhete. Sabe que eu me preocupo com você.
– Eu sei – disse Junior, pensativo. – Desculpe, se eu sair novamente, aviso de outra forma, prometo. E a Michele, veio? – Então, ela ficou de vir para cá sim, mas no caminho o celular dela tocou e ela teve que atender um paciente, sabe como são estas coisas, né? – Sei, sim. Que pena, Gabriel. Você parecia muito feliz com a vinda dela. Hoje, quando cheguei de manhã, imaginei encontrar vocês dois, mas ao entrar no seu quarto só vi você de cueca dormindo todo largado. Até pensei em te agarrar! – Junior sorriu, olhando para o corpo do amigo. – Pois deveria ter agarrado! – brincou ele. – Dormir sozinho não é nada bom! – continuou Gabriel, abrindo a geladeira como se quisesse fugir daquele assunto. Em seguida, como os dois ficaram constrangidos, Gabriel mudou a conversa. – E você? Me lembro apenas de ter chegado do trabalho, tomado um banho, falado com a Michele ao telefone e, quando fui ver, você não estava mais em casa. Só me lembro do bilhete dizendo que iria sair. – E aí você se jogou na bebida, né?
Gabriel, sem responder, perguntou:
– Então, para onde você foi?
Junior suspirou.
– Lembra daquela entrevista de emprego de que te falei? Me ligaram avisando que não passei, que eu não tinha perfil para a vaga! É sempre a mesma história! Não aguento mais ir às agências de emprego daquela rua Barão de Itapetininga, no centro! A rua tem até apelido, já ouviu falar? Chamam de “a rua dos desempregados”.
– Sim, mas é de lá que sai muita gente empregada. Principalmente quem vem de outra cidade e busca seu primeiro emprego! – Gabriel interrompeu com um tom sério.
– Eu sei. Mas procurar emprego cansa qualquer um. Você gasta dinheiro, tempo, energia para fazer uma ou duas entrevistas por semana e, no final, sempre vem o tradicional “você não tem perfil”, “vamos guardar seu currículo para outra vaga” e coisas do tipo. Chega uma hora que você precisa se divertir também! Por isso, ontem à noite, decidi sair para dançar um pouco.
– E aí, dançou?
– Sim, duas vezes! – Junior não se conteve e sorriu da própria desgraça.
– Como assim? O que aconteceu?
– Gabriel, você me conhece muito bem, eu só queria mesmo sair, dançar e me divertir. O que eu não esperava é que um cara chamado Carlos, que eu achei bonito logo na fila para entrar, me despertaria tanto a atenção ao ponto de nos atracarmos com beijos no banheiro. – Sério? E como ele era? Era bonito, pelo menos? – Sim. Ele era branco, tinha cabelo curto estilo exército, sorriso bonito e um corpo legal, parecido com o seu.
– Então ele era bem gostoso? – sorriu Gabriel. – Como você é modesto!
– Mas então, o que aconteceu para que você tenha dançado? Não entendi!
– Calma! Vou explicar! As coisas estavam caminhando bem. Ele me disse que queria algo sério, que não gostava de promiscuidade e coisas assim. No final da noite, ele falou que ia ao banheiro e, como ele demorou, fui atrás e o encontrei ele com outro cara. Na verdade, com dois ao mesmo tempo. Nossa, não sei dizer o que eu senti. Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo! Fiquei muito mal! – Junior desabafou. – Junior, você, mais do que ninguém, sabe que estas coisas acontecem. E não só em balada GLS! Mês passado, na festa da empresa, minha diretora comercial beijou uns cinco caras na mesma noite. – Sério? E como você sabe disso?
– Ela esqueceu de deslogar o WhatsApp do PC e eu consegui ler toda a conversa com a amiga dela.
– Que coisa feia, Gabriel!
– Não, eu abri sem a intenção. Mas já que estava aberto, decidi ler. Mas não é essa a questão, quero dizer que é comum as pessoas pegarem geral nas baladas.
– É claro que eu sei. Mas não desta forma. Um cara ficar com alguém no início da noite, depois ficar com outro e assim por diante, pode até ser comum em cidade grande. Agora mentir, enganar e dizer que quer algo sério, aí é outra coisa. Acho que não precisa disso. Ninguém é obrigado a ficar com ninguém.
– Talvez ele não tenha mentido – Gabriel disse, olhando em seus olhos. – Eu mesmo já fiz muito o que ele fez. Em determinado momento, você vê outra pessoa e tudo na sua cabeça muda. Não que ele tenha mentido, talvez ele tenha realmente desejado algo sério com você, mas mudou de ideia e não teve coragem de te dizer. – Vendo desta forma, eu até entendo. O que não entra na minha cabeça é a falta de coragem para ser sincero.
– Bom, para falar a verdade, eu nunca estive do outro lado desta situação – Gabriel coçou levemente a barba que estava por fazer, meio que se gabando daquilo. – Eu só sei que, quando não se está mais interessado em alguém, não sobra nem um pouco de consideração pela pessoa. Ela deixa de ser importante, e dar desculpas é um trabalho árduo que não vale a pena. Mas falo por mim! Se eu fizer uma lista das pessoas que me odeiam por isso, eu estou frito!
– É, mas ele me pegou desprevenido. Espero não passar por isso de novo tão cedo – Junior se lamentou mais uma vez. – Pena que a sua noite, assim como a minha, não tenha sido uma das melhores! – Gabriel se aproximou e, em uma atitude camarada, passou as mãos em suas costas. Era nítido o carinho um pouco contido que um sentia pelo outro.
Naquele momento, o telefone tocou. Gabriel foi até a sala atender, era a Michele. Ela disse que tinha acabado de acordar e que estaria ali em poucos minutos. Gabriel desligou e voltou para a cozinha, onde Junior continuou a conversa.
– Mesmo assim, obrigado por me escutar, Gabriel. Eu me senti tão mal que pensei em te ligar.
– Mas por que não me ligou? Você sabe que deve me ligar sempre, para qualquer coisa!
– Não quis incomodar. De verdade. E como imaginei que estaria com a Michele, eu provavelmente incomodaria muito. – Já conversamos sobre isso. Michele é minha namorada, mas a minha prioridade é cuidar de você.
– Eu sei. Na verdade, nem sei como te agradecer. Não só por isso, mas por tudo o que tem feito por mim até este momento – Junior falou, com os olhos cheios de lágrimas.
– Não tem o que agradecer! – disse Gabriel, querendo abraçá-lo, mas com receio de chegar muito perto. – Mas vamos mudar de assunto! – Gabriel sempre mudava de assunto quando esbarrava em sentimentos dele ligados ao Junior. – A Michele esta vindo para cá – continuou ele. – Vamos assistir a uma peça no teatro Satyros, já ouviu falar? – Sim. É um teatro que tem ali na praça Roosevelt, ao lado da igreja da Consolação, não? – Junior perguntou enquanto enxugava os olhos. – Sim, é este mesmo. A Michele disse que a peça de hoje é de uma travesti que conta sua vida de sucesso em Londres, longe da prostituição. No Satyros sempre tem peças deste tipo, bem diferentes. A Michele adora estas coisas! Aliás, não quer vir com a gente?
– Adoraria, Gabriel! Mas, além de eu estar muito cansado, você e a Michele precisam passar mais tempo juntos. Só vocês dois. Afinal, quando foi a última vez que ficaram juntos? Semana passada? Não! Prefiro ficar em casa vendo TV, vocês dois estão trabalhando demais e se vendo muito pouco. Podem ir e depois me contem como foi! – Tudo bem. Vou lá tomar banho, pois ela deve estar chegando. Temos mesmo que aproveitar, você está certo! Ainda mais que amanhã eu não trabalho! Minha diretora escolheu três coordenadores para dar folga, e eu fui um deles! – disse ele enquanto ia para seu quarto pegar roupas. Depois de um tempinho, antes de entrar no banheiro, Gabriel gritou de longe:
– Junior, quase esqueci, o Leandro ligou e disse que vai passar aqui amanhã à tarde. Falou que vai vir com o Heller, marido dele, e que vocês três vão para um motel!
– Nós três em um motel? Obrigado pelo recado! Esse Leandro realmente não desiste! – Junior sorriu.
Enquanto Gabriel tomava banho, e já tinha quase 30 minutos que ele estava no banheiro, a campainha tocou. Junior, ao atender a porta, surpreendeu-se:
– Michele? Já chegou? Como você está linda! – Obrigada, meu amor!
– Sério! Seu visual, seu rosto, tudo mudou! Quando você decidiu mudar a cor? – Junior olhava para seus cabelos platinados. – Ontem mesmo! Do nada resolvi mudar tudo – respondeu ela enquanto mascava chiclete, quase uma marca registrada sua. – Fui àquele salão perto de casa. Gostou mesmo?
– Sim. Você está muito bonita!
– Obrigada! E o meu bebê? Onde ele está? – ela olhou para o quarto do Gabriel.
– Ele está tomando banho. Já deve estar no final. Vai lá e ajuda ele a enxugar o bumbum! – Junior brincou.
– E que bumbum! – Michele disse, rindo. Em seguida, ela deixou sua bolsa no sofá e seguiu em direção ao banheiro. Antes, soltou mais um comentário sobre a bunda do Gabriel. – Junior, sou apaixonada por aquele bumbum! – desta vez, ela falou com um sorriso bem safado.
Depois que a Michele entrou no banheiro, Junior foi até a sala, aumentou o som para não escutar o namoro dos dois e voltou à cozinha para preparar o jantar. Ele, embora já tivesse presenciado a transa dos dois sem querer uma vez, preferia não imaginar o que estava acontecendo lá dentro do banheiro.
Após o demorado banho, eles jantaram e se despediram de Junior, que, sem ter o que fazer, sentou-se no sofá e ligou a TV naquela sexta-feira à noite. O que ele não esperava era zapear pelos canais e cair em um programa evangélico em que, ao fundo, tocava uma música que sua mãe cantava desde que ele era pequeno. Sempre com frases de muito amor:
“Meu filho, eu te amo tanto. Nunca deixarei de te amar.
Você é o meu único filho.
Nunca deixarei de te amar.”
Para quê? Fazia mais de três anos que Junior havia se esquecido daquilo. Porém, por ter sido rejeitado na balada na noite anterior, escutar aquela música naquele momento, sozinho no apartamento de Gabriel, foi a gota d’água para ele entrar em desespero. E não só isso. Como ele sentia muito a falta de sua mãe e estava muito fragilizado, Junior começou a chorar. E a chorar muito. A música tocava e ele não acreditava no que havia acontecido. “Por que isso aconteceu comigo, meu Deus?”, perguntava a si mesmo. “E tudo por causa do sexo! Maldito sexo!”, continuava. “Se eu não tivesse parado naquele depósito de trigo, não teria visto nada, não teria sido internado em Belo Horizonte e vindo parar aqui, no apartamento do Gabriel, em São Paulo. Sozinho, sem família, sem emprego e sem amor.” Ele desligou a TV, apagou todas as luzes e, ainda chorando muito, começou a se recordar de todos os detalhes que o haviam feito parar ali, naquele sofá, dentro do apartamento do Gabriel. 1305210020080521190017210518090415000815100500052100200922050 0211300191514081500050012010005210020091408010016051804090415 0022150305000103151804050900040519051916051801041500050022091 3000315181805140415000115001905210017210118201500031514060918 1301001905002215030500051920012201000605120926130514200500221 503050005192001220100200500011315
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CAPÍTULO 4
Sua primeira lembrança foi a de uma igreja que ficava próxima de sua casa em Capão Bonito, município do interior do estado de São Paulo, localizado a 224 km da capital paulista. Foi lá que ele, ainda na saída de sua adolescência, teve seu primeiro contato sexual com uma garota, mesmo sem saber ao certo o que era sexo.
– Vamos ali, quero te mostrar uma coisa! – Aonde você vai me levar, Maiara? – perguntou Junior. – Ali... vamos brincar de pouca vergonha! Mas ninguém pode ver, tudo bem?
– Pouca vergonha? – Junior imaginou ser algo proibido, afinal, tinha que ser feito escondido. – O que é pouca vergonha, Maiara? – perguntou ele, espantado.
– Vou te mostrar fazendo, você vai gostar! Vem comigo! – Tudo bem, vamos!
Maiara foi na frente. Junior olhou para as pessoas que estavam do lado de fora da igreja durante o culto e, como ninguém estava prestando atenção neles, ele a seguiu em direção a um muro que separava a igreja do matagal. Estavam bem escondidos atrás do muro, e Maiara abaixou suas calças e começou a masturbá-lo. Uma masturbação bem precária devido à inexperiência dos dois, mas suficiente para deixá-lo excitado. Quando Junior começou a gostar daqueles movimentos, Maiara se abaixou e começou a chupá-lo. Antes, ela pediu para que ele não parasse de espiar, coisa que ele fez até gozar.
Quando gozou, ela, surpresa, perguntou: – Não vai sair nada?
– Sair o que, Maiara?
– Um negócio branco!
– Não sei! Será que vai sair depois? Saiu um pouco, olha – Junior soltou um sorriso sem graça.
– Também não sei. Mas sempre sai muito... – Maiara ficou confusa. – Você gostou? – perguntou ela enquanto ele levantava a calça e se arrumava para sair dali.
– Sim, gostei! Onde aprendeu a fazer isso, Maiara? – Com meu pai! – ela respondeu, enquanto ambos voltavam correndo para a igreja.
Depois daquilo, Junior começou a se masturbar quase todos os dias, seguindo o mesmo tipo de movimento das mãos de Maiara. Parecia que ele tinha aprendido algo gostoso de se fazer nas horas vagas. Mas sempre escondido.
Escondido. Por que algo tão gostoso tinha que ser feito escondido? Estas e outras perguntas que a maioria de nós fez quase sem perceber quando descobriu o sexo também foram feitas por ele. Até que um dia, depois de se encontrar pela terceira vez de forma sexual com Maiara, e do mesmo jeito, ele resolveu perguntar.
– Maiara, você disse que aprendeu a fazer isso com o seu pai? – Sim... – ela olhou para o outro lado, como se não quisesse falar sobre o assunto.
– Pode falar... eu não vou contar para ninguém! – insistiu ele. – Você jura que vai guardar segredo, Junior? – Juro! Pela minha mãe!
A propósito, por que a maioria dos meninos e meninas juram sempre pela mãe e não pelo pai? Vai entender. Um fato é que, jurando pela mãe, tudo fica mais sério e convincente, assim como aconteceu naquele dia. – Está bem! Vou contar! Mas você jurou, hein? – Tudo bem! Conte logo...
– Faz um tempinho... minha mãe tinha ido à cidade com meu irmão e eu fiquei sozinha em casa com meu pai. Eu estava vendo TV quando ele me chamou para ir ao quarto, dizendo que iria me ensinar algo. Depois ele pegou nos meus braços e disse que não era para contar nada para ninguém. Nem para mamãe!
– E você?
– Eu obedeci e fiz o que ele me pediu, igual fiz com você. No final, ele disse que tinha gostado muito, que eu era uma boa menina e que aquilo seria o nosso segredo.
– E por que você fez comigo?
– Porque deu vontade, oras! – Maiara abaixou a cabeça. – Eu também brinco assim com os meninos da minha rua... eles pedem para fazer mais coisas, mas eu não deixo. – continuou ela. – E por que não?
– A brincadeira que papai ensinou foi só essa! Parece que não, mas mesmo sendo adolescentes, tanto Junior quanto Maiara eram absurdamente ingênuos sobre aquilo que faziam. Muito diferente do pai dela, o Sr. Silas, que, além de religioso e um dos homens mais respeitados da região por defender a tradição da família brasileira, estava se candidatando a cargo político naquele ano. O velho, desgraçado, posava nas fotos de santo e homem de bem, mas por trás dos olhos da comunidade ele abusava sexualmente de sua filha e mantinha encontros extra conjugais com a professora de música religiosa, que também era casada e da mesma igreja.
Junior sabia e se recordava de tudo isso porque, desde que começara a fazer a tal “pouca vergonha”, ele havia passado a se interessar muito por aquele tema. Para ajudar, a sincronicidade do mundo – aquele conceito criado por Carl Gustav Jung no qual todas as coisas estão ligadas de alguma forma – fez o favor de colocar em seu caminho uma pessoa que iria lhe fornecer indiretamente todas as informações sobre o tema não só de sua vida, mas principalmente da vida alheia.
E essa pessoa com quem ele se envolveria e por quem teria a sua vida virada de ponta cabeça apareceu em poucos anos, justamente quando ele voltava da escola em uma noite.
Ele, naquele sofá, no apartamento de Gabriel, se recordava mesmo de tudo. E com detalhes.
O clima estava quente quando, mais uma vez contrariando sua mãe, Junior voltava da escola à noite cortando caminho pelos sítios e fazendas da região. Já com mais idade, ele não tinha medo de andar no escuro, pular cercas, passar no meio de gado, cavalos, árvores, cabanas abandonadas, depósitos de trigo ou trilhas na mata, pois a caminhada que levava quase uma hora e meia seguindo pela estrada era feita em apenas 40 minutos cortando caminho.
Naquele dia, sua tradicional rotina de sair da escola e voltar para casa foi quebrada. Ao passar próximo de um depósito de trigo, ele escutou o gemido abafado de um homem vindo de lá de dentro. “Que gemido foi esse? Passo por aqui todos os dias e nunca encontrei um ser vivo! É melhor verificar!”, pensou. Então, silenciosamente, ele se aproximou da parede de madeira e colocou seu ouvido próximo para tentar escutar algo. E escutou: – Isso, Pedro, bem devagar... engole tudo, meu garoto! – sussurrava um homem com voz grossa em meio a gemidos. Só com esta pequena frase, Junior, já imaginando se tratar de sexo, procurou alguma brecha entre as ripas de madeira para tentar espiar o que acontecia lá dentro. Quando encontrou, colocou sua mochila no chão, se agachou e começou a espiar.
A cena diante de seus olhos era perturbadora. À meia luz, ele viu um homem de camisa e calça jeans em pé, de costas, e alguém na frente dele agachado com as duas mãos segurando seu quadril. Não dava para ver direito, mas o movimento da bunda do homem que estava em pé era bem suave: ia para frente e para trás bem devagar, seguido sempre de seus constantes sussurros e gemidos:
– Isso, meu garoto! Chupa tudo... engole... bem gostoso... Aquela cena durou alguns longos minutos. Junior, que já estava excitado, continuou espiando quando percebeu que os movimentos do homem aumentaram de ritmo, gradativamente, até ele soltar um grito: – Para, para, para... – empurrando para longe a cabeça do rapaz. – Hoje não vou gozar assim! Hoje será seu grande dia, Pedro, finalmente chegou a hora! – continuou o homem.
– Ronaldo, você está louco! – respondeu o garoto enquanto se levantava e saía de sua frente.
– Não... faz tempo que você está me devendo isso! – ele falou, tirando a camisa. – Mas não se preocupe, Pedro, vou fazer devagar e com carinho! Você vai gostar tanto que vai pedir para repetir várias vezes! O garoto, assustado, mas já consentindo com o que lhe aguardava, olhou para o pênis do Ronaldo e disse:
– Cara, eu já falei, independentemente do tamanho, não rola! Não tem jeito! Não é minha praia!
– Calma! Todo mundo fala isso na primeira vez. Mas só tem eu e você aqui. Ninguém mais vai ficar sabendo que você deu a bunda para mim! Não se preocupe!
– Você é mesmo muito safado! – Pedro olhava novamente para o pênis do amigo.
Então, Ronaldo, que já estava sem camisa, avisou que ia lá fora, nos fundos, pegar um colchão velho para eles ficarem mais à vontade no depósito. Ele demorou um pouco e, quando retornou, a primeira coisa que fez foi apagar a lanterna que estava acesa em direção ao teto – por isso a meia luz – e acender a luz do próprio depósito, dando mais nitidez ao ambiente e, consequentemente, uma melhor visão ao Junior, que continuava espiando.
Logo em seguida, eles tiraram toda a roupa e, graças à luz forte, Junior conseguiu ver os dois por inteiro. Pedro aparentava ter mais ou menos uns 18 anos, era branco de olhos castanhos, tinha poucos pelos, era magro com músculos bem desenvolvidos – comum à maioria dos meninos que trabalham na roça – e dono de um pênis enorme. Muito grande mesmo. Já o Ronaldo era moreno, peludo, aparentava ter uns 35 anos, tinha um pênis médio levemente torto para a direita e uma pequena barriga de cerveja que o deixava sexy. Talvez pela grande diferença de idade, Ronaldo era o mais experiente e comandava toda a situação.
– Deita no colchão! – ordenou Ronaldo ao garoto. – Assim não! Mandei você deitar, mas com a bunda para cima! – continuou ele. Pedro obedeceu, fechou os olhos e, logo em seguida, sentiu as mãos do Ronaldo massageando suas nádegas. Lentamente, aquelas mãos grossas e ásperas deslizavam e apertavam cada um dos lados de sua bunda, deixando-o louco. Vez ou outra, um dedo passava suavemente na entrada de seu ânus. Bem devagar e sem forçar nada.
Foi então que Ronaldo pegou um pote de dentro de um saco plástico, abriu, lambuzou bem seus dedos com o conteúdo e tentou introduzi-los no ânus do Pedro. Assustado e curioso, Pedro imediatamente perguntou:
– O que você está colocando aí?
– Um pouco de margarina! Relaxe!
– Cara, você só pode estar brincando! Eu tenho cara de pão fresco para você passar margarina? – riu-se Pedro enquanto se levantava, indignado.
– Olha, de pão você não tem nada. De fresco também não. Então cala a boca, relaxa e empina essa bunda que hoje eu vou me acabar dentro dela!
Pedro voltou a deitar-se. Ronaldo, muito excitado, começou a enfiar o dedo lambuzado de margarina dentro de seu ânus e, depois de alguns minutos com o dedo lá dentro, ele o retirou, subiu em cima do Pedro, mandou ele empinar mais ainda a bunda, abrir bem e relaxar. Quando Ronaldo começou a introduzir seu pênis na bunda de Pedro, o garoto, não aguentando o volume, começou a reclamar de dor. Ronaldo, com sua experiência em batizar bundas virgens, disse para ele aguentar firme que em poucos minutos a dor passaria. Porém, por descuido em não segurar seu tesão, Ronaldo acabou enfiando tudo de uma vez, arrancando berros do Pedro.
– Caralho, dói pra porra! Tira isso! – Pedro se contorceu, empurrando Ronaldo para longe.
– Desculpa, foi sem querer... Vamos de novo! – Não, não quero mais!
– Não, Pedro, agora é que a dor vai passar, você vai ver, deixa eu tentar mais uma vez que eu te mostro... Só mais uma tentativa! – Tudo bem! – Pedro se deitou novamente com a bunda para cima. Ronaldo, conhecendo o risco de não comer aquela bunda caso errasse de novo e metesse tudo de uma vez, enfiou novamente bem devagar e pediu para que Pedro permanecesse completamente parado e relaxado por uns três minutos enquanto as pregas do ânus se dilatavam. O que realmente aconteceu. Aos poucos, Ronaldo foi colocando e tirando lentamente até que, instintivamente, Pedro começou a rebolar. – Não falei que você iria gostar, Pedro! – Cara, é muito bom... Dói um pouco, mas estou sentindo um tesão danado! – Pedro falou, enquanto ficava de quatro para poder se masturbar. – Pode colocar tudo! – continuou com sua voz grossa. Ronaldo, que então aumentava o ritmo e a força, falou algo baixinho no ouvido de Pedro que, segundos depois, olhou para os lados, inclusive na direção de Junior, que continuava espiando, abriu um sorriso safado e anunciou o gozo. Ronaldo também gozou dentro de Pedro e caiu abraçado por cima dele. Os dois ficaram ali grudados no chão por alguns minutos. – E aí, Pedro, gostou?