Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Fabrício Viana · Capítulo 1 de 1 · parte 4/6

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Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Junior não sabia como agradecer a atitude daquele rapaz que ele mal conhecia. Por outro lado, Gabriel, desde o momento em que havia olhado para Junior e se recordado de seu amigo querido, começou a tratá-lo como tal. Tanto que alguns anos se passaram e Gabriel se tornou seu melhor amigo. Havia sido Gabriel, por exemplo, que o acolhera, lhe ensinara sobre as coisas da cidade grande, fizera com que ele terminasse seus estudos na escola pública e ainda tivesse seu primeiro emprego registrado como ajudante de cozinha em um barzinho perto da praça Sílvio Romero, no bairro do Tatuapé.

O único problema nesta história toda era a perturbadora saudade que Junior sentia de seus pais. É verdade, desde que viera para São Paulo, Junior, que já era adulto, havia aprendido e vivido muitas coisas, mas ainda sentia muitas saudades de seus pais.

***

Foi então que a recordação chegou ao fim. Ainda transtornado, Junior se levantou do sofá, comeu alguma coisa, tomou um banho e se arrumou para dormir. Ele precisava descansar. Mesmo porque receberia as visitas de Xande e de Leandro com seu marido naquele sábado de manhã, ou melhor, dali a poucas horas.

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CAPÍTULO 13

A campainha tocou logo cedo. Junior acordou sonolento e se dirigiu para a porta. Quando a abriu, viu Xande, seu único amigo “porra louca”, que havia ligado naquela madrugada.

– Bom dia, chocolate! – Xande cumprimentou, dando mais um apelido a Junior.

– Chocolate? Você só inventa, Xande! Pode entrar! – Junior forçou um sorriso, tentando se alegrar após uma noite com péssimas recordações. – Junior! Este apartamento está arrumado! Onde estão os cadernos cheios de números do Gabriel? – Xande se assustou por não ver aquela tradicional bagunça.

– Eu guardei tudo ontem. Mas você sabe, não vai demorar muito para o Gabriel ficar sozinho e espalhar os cadernos pela casa de novo. – Olha, não é por nada, não, mas eu acho que ele é um psicopata! – Xande sussurrou.

– Pode falar alto. Ele saiu com a Michele ontem, foram ao teatro Satyros e até agora não voltaram. Mas por que você acha isso dele? – Não sei. Você acha normal um cara passar as horas vagas tirando raiz quadrada, fazendo equações, mexendo com números, riscando e rabiscando vários cadernos com contas de matemática? E a todo momento? Junior pensou um pouco e se recordou das várias vezes em que havia pegado Gabriel fazendo aquilo.

– Na verdade, não. Mas ele se formou em Matemática, esqueceu? E se ele fez este curso, é porque, no mínimo, gosta de números... – Pode ser. Mas são muitos números em vários cadernos. Isso é esquisito. Deve ser algum tipo de fuga – Xande falou com cara de desconfiado. – Sem falar que ele é quieto, não gosta de conversar com as pessoas e toma antidepressivo! – continuou, fazendo cara de louco. – Como você sabe que ele toma antidepressivo? – Junior espantou-se.

– Eu vi no banheiro de vocês! E tem o nome dele! – Xande, como você é chato! Você vem aqui para xeretar nossas coisas, é?

– Não, amor. Não. Vim para te visitar e te contar o que me aconteceu ontem à noite.

– É, eu me lembro de você ligando de madrugada. Ainda bem que eu estava acordado – Junior falou, pensando em comentar que, naquele momento, estava se sentindo muito mal.

– Pois então... – Xande continuou, não se importando com a cara de Junior, que não conseguia disfarçar muito seu estado. – Ontem eu fui para aquela festa eletrônica para a qual tinha te chamado, lembra? Antes, eu passei na casa da Bill e ela me vendeu umas coisinhas, uns aditivos. Eu precisava ficar alegre! Precisava ficar louca!

– E qual a novidade nisso? Você se droga todo final de semana! E pior, acha que isso é normal...

– Eu sei! Mas pela primeira vez o efeito foi desagradável – Xande disse com cara triste.

– Como assim? O Xande não virou a poderosa Xandoca, como você mesmo fala?

– Não, amor. Eu comecei a ficar tonta no início da noite. Olhei para o lado e vi um demônio pequenininho em cima do ombro de um cara que dançava perto sem camisa. Depois, ele pulou no ombro de outro. Mais tarde tinha mais demônios. Todos eles estavam com as unhas grudadas nos ombros de vários carinhas, até que eu desmaiei. – Credo. Que horror!

– Sim. Acordei na enfermaria, com um segurança maravilhoso me abanando e dizendo que a ambulância estava a caminho. Na verdade eu queria ir para a casa dele! Mas fiquei fria! Disse apenas que não precisava. Então me levantei e fui para casa. Foi aí que eu te liguei. Estava depressiva e precisava desabafar. Contar isso para alguém. E aqui estou. – Não sei o que dizer. Você sabe que eu não sou contra e nem a favor destas coisas. O Gabriel já usou muito, ele me disse, e hoje fala que a experiência durante é boa, mas depois causa sequelas, ansiedade e até depressão. Talvez por isso ele tome antidepressivos. – Junior disse pensativo, pois até então, não tinha associado uma coisa à outra.

– Credo. Vira essa boca pra lá.

– Você é muito piolho, Xande! Vai na cabeça dos outros. Não é porque todo mundo toma e se diverte, posta nas redes sociais que está feliz, que é tudo maravilha! Eu já li notícias de que tem gente morrendo. E não são poucas! Acho que tem outras formas de se divertir, sem apelar para isso. Mas, novamente, cada um é cada um.

– Outras? Como assim? – Xande falou curioso. – Não sei. Mas vi uma entrevista com um tal Clóvis de Barros Filho

na TV outro dia. Ele escreveu um livro, acho que se chama “A vida que

vale a pena ser vivida”. Ele diz que a vida é feita de escolhas. Não gosto de ler, mas deu muita vontade de comprar este livro. – Ai, ai, ai. Lá vem você com estes assuntos chatos. Junior começou a rir. Em seguida, Xande continuou. – Mas eu prometi que nunca mais vou tomar nada. Nunca vi tanto demônio junto. Aliás, eu já vi sim! – Xande se referia a homens feios. – Mas de verdade, foi a primeira vez! – continuou com cara de assustado. – Não brinca com isso! Você sabe que eu acredito nestas coisas. Então mesmo sendo efeito da droga, talvez seja mesmo verdade. Talvez você tenha visto demônios de verdade.

– Deus é pai! – Xande olhou para o céu. – Bom, é quase meio dia e eu preciso arrumar o almoço. Você me ajuda?

– Claro, chocolate!

Os dois então fizeram a comida, almoçaram, lavaram a louça e foram assistir a um filme. Apesar de o filme ser bom, Junior não conseguiu prestar atenção em nada. A todo momento, ele se recordava da madrugada mal dormida, da sua vida, de suas lembranças e, principalmente, de seus pais. Até que a campainha tocou.

– Olá, Leandro! Tudo bem? – disse Junior assim que abriu a porta. – Tudo bem – respondeu o outro, enquanto o abraçava fortemente. – Onde está seu marido? Ele também não viria? O Gabriel me deu o recado. Disse que eu, você e ele iríamos a um motel. Você não toma jeito mesmo, né? – sorriu Junior.

– Sim. Mas ele ficou em casa dormindo. Desta vez, você escapou! – Leandro retribuiu o sorriso.

– Tudo bem. Entre! Fique à vontade! 

Assim que Leandro entrou na sala, Xande, ao vê-lo, soltou uma alfinetada:

– Chegou a velha chata! – resmungou, olhando-o com desprezo. – Chata, mas não fútil, como você! – Leandro respondeu em seguida, mas em tom suave.

Os dois realmente não se suportavam. Junior, ao ver o início da troca de elogios, imediatamente gritou:

– Vamos parar por aqui? Os dois são visitas! Os dois são meus amigos! Eu já falei que um não precisa gostar do outro, mas têm que se respeitar aqui dentro! E eu já estou triste o suficiente para ter que ficar aturando briga idiota dos dois!

Ambos ficaram quietos. Leandro, preocupado, perguntou: – Triste? O que aconteceu, Junior?

– Não é nada.

– Pode falar!

– Lembra do seu amigo terapeuta, que está cuidando de mim? – Sim, claro que me lembro!

– É estranho. Mas depois da última conversa com ele, eu voltei a ter alguns pesadelos e, nesta madrugada, me recordei dos meus pais. Do que me aconteceu no passado.

– Bom, eu não sei muita coisa do seu passado e nem o que pode estar acontecendo com sua mente. O que sei é que, em determinado momento da terapia, muitas coisas que estavam guardadas, presas, em nós afetivos, começam a ser mexidas. Talvez você esteja passando por isso. Quando é sua próxima consulta?

– Depois de amanhã.

– Então não se esqueça de falar isso a ele. Mesmo porque vai fazer mais de um ano de terapia, não?

– Sim. Vai fazer sim. E isso já me ajudou muito. Principalmente a me aceitar. Nem sei como te agradecer pela ajuda! Leandro, que era terapeuta sexual, combinou com seu amigo Francisco – também terapeuta – de ele atender Junior gratuitamente. Em troca, ele atenderia um amigo do Francisco. Também gratuitamente. – Não tem o que agradecer, Junior. Você sabe que sempre fui apaixonado por você. Este foi meu presente, já que você nunca quis ter nada comigo.

– Pronto! Começou a babação de ovo da maricona! – disparou Xande com finalidade única de provocar Leandro. Leandro o ignorou e os dois continuaram a conversa. – Mas você é casado! Nunca vou entender isso! – Junior falou indignado.

– Eu sei. Pouca gente entende – Leandro falou, parou e pensou um pouco. – Você, assim como todo mundo, está preso ao amor romântico, cristão e monogâmico. Aquele tipo que aprisiona duas pessoas em um relacionamento duradouro, chato e, na maioria das vezes, monótono – continuou enquanto começava a explicar algumas teorias, coisa que ele adorava.

– Mas isso não é bom? – perguntou Junior, que ansiava por ter alguém ao seu lado.

– Sim. É bom, sim. O problema é o “vivendo felizes para sempre”. Pois o “para sempre”, mais cedo ou mais tarde, sempre acaba. – Como assim?

Neste momento, Xande, que não suportava conversas mais intelectualizadas, pegou um MP3 player do Gabriel que estava em cima da mesinha da sala, colocou os fones de ouvido, apertou play e começou a cantar baixinho, como se quisesse deixar claro que ele estava fora da conversa. Na verdade ele já estava, mas fazendo isso era como se ele tivesse, de algum modo, o poder de optar por estar fora dela. Em seguida, Leandro continuou.

– Veja bem. Completei 48 anos no mês passado. Destes, 17 anos foram trabalhando com problemas de relacionamento entre casais. E não apenas casais gays. Falo de todo tipo de casal. Alguns problemas que você nem imagina que existam.

– E o que tem eles?

– Eu descobri uma coisa interessante sobre relacionamentos nestes anos todos: por mais amor que exista, um dia eles acabam! Esta é a grande e infeliz verdade, que poucos conhecem.

– Credo, Leandro! Quando eu encontrar alguém, vou fazer de tudo para isso não acontecer.

– Eu sei, Junior, todos fazem. E, cá entre nós, ninguém quer que um relacionamento apaixonante e cheio de amor um dia termine. Os parceiros fazem de tudo para continuarem juntos. Mas uma hora não tem mais jeito. Poucos sobrevivem a isso. E sabe quem são eles? Os sobreviventes? – Quem?

– Geralmente são aqueles casais heterossexuais que, graças às amarras sociais que incluem filhos, famílias, status e até bens materiais, optam por permanecerem juntos por toda a vida. Apesar das exceções, e elas existem, a grande maioria deles está junto apenas por estar. E como a vida sexual diminui, em alguns casos até some, vem a acomodação sexual ou as traições constantes. O mais interessante é que, publicamente, eles se dizem felizes e bem casados. Mas felizes e bem casados mesmo, nestes anos todos de consultório, posso dizer que eram apenas 5% deles. O restante faz parte dos “mal casados”. E essa porcentagem nem é só minha: um colega de trabalho, psiquiatra e também pesquisador, chamado Flávio Gikovate, chegou a esta mesma estatística. Quando puder, pesquise alguns discursos dele na internet.

– Então você quer dizer que o casamento é algo ruim? – Não. Claro que não. Mas, se você parar para pensar, verá que os gays, que são mais sexualizados que os heterossexuais, isto é, eles tem um contato maior com a própria sexualidade e não necessariamente por isso são promiscuos, não têm muitas amarras quando se casam. E assim que o relacionamento começa a esfriar sexualmente, eles simplesmente terminam ou se traem, e logo em seguida já estão namorando ou se casando com outro parceiro. A decisão de resolver estes problemas é muito mais rápida. Por isso, existe a fantasia de que relacionamentos gays duram menos que relacionamentos heterossexuais. Na verdade, os dois não duram tanto quanto seus envolvidos gostariam que durassem. A diferença é que o hétero tolera mais tempo a monotonia, a chatice e a mesmice. – Então você quer dizer que os gays também não devem se casar? Já que terminam mais rápido? – Junior perguntou, atropelando tudo. Leandro respirou fundo e tentou explicar de outra forma e com outros exemplos.

– Um ator americano, certa vez, disse a uma revista famosa que não entendia porque os gays queriam tanto se casar. E continuou, disse que se os gays soubessem o que é, de fato, um casamento, eles jamais lutariam tanto por isso. 

– Nossa, que absurdo! – Junior espantou-se. – Sim, mas eu concordo com ele em termos. Primeiro, o casamento entre pessoas do mesmo sexo deveria ser legalizado em todos os países do mundo. Se um heterossexual tem este direito, homossexuais também devem ter. Independentemente da religião de cada um. Aliás, religião não tem nada a ver com casamento civil. Isso é um ponto. Segundo, com seu direito ao casamento assegurado por lei, cada um que entrar nele tem que ter a plena consciência de que, hoje em dia, ele está defasado e desatualizado, necessitando ser repensado urgentemente. Mesmo porque o amor romântico, em que dois se juntam para formar um, daqui a poucos anos estará extinto.

Naquele momento, Junior começou a se perder na conversa. Leandro percebeu e deu uma pequena pausa. Junior tentou voltar à sua principal dúvida: o casamento do Leandro.

– Mas o que tudo isso tem a ver com o seu casamento? – Desculpa. É que como sou estudioso deste assunto, às vezes me empolgo com tantas informações. Eu ia concluir, mas não agora – Leandro falou, um pouco desconcertado. – Bem, voltando ao meu casamento, eu aprendi depois dos quase seis anos junto com meu marido que nós deveríamos repensar nossa relação em vez de terminar no finalzinho dela e cada um buscar um novo parceiro. Eu estou com 46 anos e ele tem 32. Eu já namorei e morei junto com quatro namorados em épocas diferentes. Ele, com três. Mas tanto ele quanto eu sabíamos que terminar e recomeçar tudo de novo com outra pessoa seria uma perda de tempo e dinheiro. E o que estava em jogo? Sexo? Tesão? Interesse por outros rapazes? Estímulos sexuais novos? Novos amores? Foi aí que sentamos e decidimos abrir nosso relacionamento. Ter uma relação aberta.

– Agora você chegou aonde eu quero. É isso o que eu não entendo! Como é isso? Você fica com quem você quiser e ele também? – Sim. É mais ou menos isso. Mas cada casal tem suas regras. Ontem mesmo um amigo veio em casa. A gente já tinha transado com ele outras vezes e ele se tornou um dos nossos grandes amigos. Eu estava fazendo o jantar quando fui ao quarto e peguei ele e o Heller transando. Dei um beijo apaixonado na boca do Heller, perguntei se estava gostoso, voltei, desliguei as panelas e fui participar da brincadeira com os dois. A todo momento eu olhava para meu marido e via a felicidade que ele sentia em transar com o cara e estar ao meu lado ao mesmo tempo. Junior, sem disfarçar, balançou a cabeça, demonstrando não concordar com aquilo. Leandro, percebendo, continuou a explicar. – E o nosso caso é um pouco mais complicado, Junior. Não é só sexo com outros, a gente se permite também o amor.

– Amor? Com os outros?

– Sim. Isso é chamado de poliamor. Mas é outro conceito. Eu e o Heller podemos, além de ter relações sexuais sem a presença um do outro, também ter carinho, namorar e curtir. Desde que um nunca abandone o outro.

– Desculpe, mas agora eu me perdi todo, mesmo. – Eu e ele chegamos à conclusão de que é melhor e muito mais gostoso assim do que se ele me traísse escondido, sem eu saber. Ou ainda, do que ele se apaixonar por alguém e me abandonar. Isso pode até acontecer, mas no nosso caso é bem mais difícil. Se um dia acontecer de a gente gostar de alguém, os dois juntos, até rola um namoro a três. Ou casamento. Nada é impossível nesta vida. Só o relacionamento a dois, que todos conhecemos, é que precisa ser repensado. Embora muita gente o defenda cegamente, sem estudá-lo de verdade, ele é um caminho ruim a ser escolhido e que aprendemos desde pequenos.

– Mas sempre foi assim? Desde que vocês começaram a namorar? – Não, claro que não! No início foi como qualquer outro relacionamento. A gente vivia um em função do outro. Se alguém olhasse para ele ou vice-versa, era briga de ciúmes na certa. Nós tínhamos um sentimento de posse violento. Com o tempo e o amadurecimento, mais meus estudos e os estudos dele, que é jornalista e adora ler sobre sexualidade, nós conseguimos separar muito bem amor de sexo. As pessoas acham que é tudo a mesma coisa. Mas não é. E, além disso, tem companheirismo e a ajuda em crescer juntos. Depois que aprendemos a separar, voltamos a nos unir. Mas de forma madura – continuou, empolgado. – Mas sabe, não foi fácil aprender a dividir quem amamos com outros – suspirou. – Levou anos. Tivemos brigas, muitas discussões, mas conseguimos. Sem falar que não saímos por aí transando com todo mundo como imaginam. Muito menos damos em cima de amigos ou casais. Também não é bagunçado. Sem falar nos riscos de se conhecer gente nova, tem muito maluco neste mundo!

– Não sei. Isso para mim é muito errado. – Junior... presta atenção em uma coisa: nem tudo o que é errado é realmente errado, assim como nem tudo o que é certo é realmente certo! Junior, que havia escutado a mesma frase de Ronaldo no passado, ficou perplexo com a coincidência e a recordação. Leandro percebeu. – O que foi?

– Não é nada. Apenas uma lembrança. Junior, ainda pensativo e tentando enxergar aquele assunto de outra forma, continuou:

– Mesmo que não seja errado, isso deve servir apenas para relacionamentos que estão prestes a terminar. Quando há amor verdadeiro entre duas pessoas, isso não acontece!

– É aí que você e muita gente se engana! Muitas vezes, eles estão prestes a terminar justamente porque não introduziram isso antes em seus casamentos – Leandro franziu a testa. – Mesmo porque um casal que abre seu relacionamento, na maioria das vezes, se ama muito e começa a fazer isso só para manter a relação. Mas não é regra. Junior continuava com cara de confuso, mas ainda assim curioso. Leandro continuou, mas já querendo encerrar o assunto. – Um casal que não se ama mais, segundo seu pensamento, nem se importa com isso. Ambos simplesmente terminam. Ou começam a trair, o que é bem mais comum. Mas para eu não te encher com estes pensamentos, quando puder, pesquisa na internet um escritor chamado “Fabrício Viana”. Ele está com um projeto de documentário e talvez um livro sobre este tema de relacionamento aberto para os próximos anos. Como ele é formado em psicologia, tudo indica que será um trabalho interessante. Se tiver muita

pressa, leia o livro “A cama na varanda”, da Regina Navarro. Vai ajudar em alguns aspectos. Lembre-se de que na vida não existem regras, mas caminhos. E a relação aberta é uma possibilidade, mas não o único caminho. No meu consultório, o número de pessoas querendo propor uma relação aberta ao seu companheiro e não sabendo como aumenta a cada dia. Poucos conseguem, e o relacionamento tradicional acaba terminando, de uma forma ou de outra. 

– E tem um jeito de se fazer? De contar ao parceiro? – Claro que sim.

– Como?

– Conversando sobre isso. Simples. Dizendo ao outro que tem vontade de abrir a relação. O problema é que muitos, que às vezes também têm os mesmos desejos, não topam. Morrem de medo de perder seu objeto amado. E daí, muitas vezes, acabam perdendo de uma forma ou de outra. Se conversassem, tentassem e fizessem um esforço para superar o ciúmes, talvez conseguissem. Mas é difícil. A falta de conversa e diálogo sincero entre as duas partes ainda é o maior problema, e não só nas relações amorosas.

Neste momento, Xande, cansado da longa conversa dos dois, tirou os fones de ouvido, olhou para os dois e interrompeu a conversa, indignado: – A chatice não vai terminar de vomitar os livros que leu durante toda a sua longa vida?

Antes de Leandro conseguir responder, Junior perguntou: – E você, Xande, está gostando das músicas do MP3? – Junior perguntou, enquanto começava a rir. Leandro, que observava o diálogo, não entendeu o motivo da risada de Junior.

– Sim, as músicas são maravilhosas! Esse set do DJ Guilherme Guerreiro é bafo! Do DJ Bruno Chagas, DJ Bruno Zuzzi e do DJ Vlad também! – respondeu Xande, fazendo caras e bocas. – Que bom! Apesar de eu amar esses DJs, eu não entendo como você, neste tempo todo em que nós estivemos conversando, conseguiu escutar música em um MP3 que o Gabriel deixou aí em cima da mesa para levar ao conserto.

Leandro, sem disfarçar, começou a rir. E a rir muito. Xande, mantendo a pose, tentou sair por cima.

– Mas eu estava escutando! Depois parou! – Como você estava escutando? Nem bateria tem! – Junior insistiu, continuando a gargalhar.

– Ai, Junior, me deixa! 

Xande se levantou e foi para o banheiro. Depois que ele saiu da sala, Leandro, sabendo que poderia contar um segredo a Junior, falou baixinho: – Sabe quem foi o cara com quem eu e o Heller saímos pela primeira vez, quando decidimos ter a primeira experiência sexual juntos com outro homem?

– Quem? – perguntou ele curioso, também falando baixinho. – O Gabriel!

– O Gabriel? – Junior ficou surpreso.

– Sim, o Gabriel! Foi por causa disso que nos conhecemos e nos tornamos amigos!

– Mas... o Gabriel me disse que te conheceu na empresa onde ele trabalhava como auxiliar de escritório.

– Não. Você sabe que o Gabriel guarda muitos segredos.

– Eu sei. Só depois de alguns meses é que ele teve a coragem de me dizer que a briga que ele teve no dia em que nos conhecemos não era por causa da namorada de ninguém, e sim porque ele estava, sem saber, no ponto de prostituição que tinha ali perto da Praça da República e que não era dele – Junior ficou pensativo por alguns segundos. Depois continuou. – Gabriel demorou muito para me contar esta história. E só me contou porque estava muito bêbado. Ele fez programa durante um bom tempo para poder pagar o aluguel e trazer comida para dentro de casa. Depois parou. – Eu sei. Me lembro do dia em que paramos o carro e ele disse que era ativo não liberal, isto é, que não beijava. Ele sempre foi tão bonito que, naquele dia, eu e o Heller decidimos levá-lo a um motel. E cá entre nós, ele não foi bom de cama. Mas nos demos tão bem que o ajudamos financeiramente, sem querer sexo, por um bom tempo. Até surgir nossa amizade sem interesse algum. Quando ele estava bem de grana, não queria mais nossa ajuda. Ele tem o coração muito bom. – É verdade. Nestes longos anos, participei de muitas coisas da vida do Gabriel. Muitos choros. Algumas alegrias. Ele sempre foi um paizão para mim. Estes dias eu estava pensando, se não fosse por ele, eu provavelmente ainda estaria na rua desamparado. Talvez morando de baixo de uma ponte ou até mesmo morto. Ele não só me ajudou, como me deu uma nova vida. Sou muito grato a ele.

Naquele momento, Xande voltou do banheiro. Os dois disfarçaram. Leandro, ainda curioso, continuou falando sobre Gabriel discretamente. – Mas me diga, aquele seu amigo, vocês nunca tiveram nada? – Não. Nunca. Não por falta de vontade da minha parte – disse envergonhado. – Sempre o achei muito bonito. Fora seu corpo. Mas ele parece não querer nada comigo. E eu prefiro não forçar nada. Mas, às vezes, eu percebo que ele me olha diferente. Com desejo, sabe? – Como assim?

– Não sei explicar, Leandro.

– Tente. 

– Então, quando eu conheço alguém, por exemplo, ele fica em cima. Querendo saber detalhes. Se eu falo que por algum motivo não deu certo, ele parece se sentir aliviado.

– Será que ele gosta de você? – perguntou Leandro, curioso. – Lógico que gosta. Só não sei se de outra forma. Ele já me disse que relacionamentos começam e terminam. Que eu serei para sempre amigo dele.

– Será que é a forma que ele achou de ter alguém para sempre? Não tendo?

– Não faço ideia. E não entendo de psicologia como você. Xande, que voltou a mexer no MP3 enquanto os dois conversavam, perguntou:

– Vocês estão falando do Gabriel, né? – Xande não se conteve. – Claro que não! – respondeu Junior. – É de um garoto do meu serviço que o Leandro conheceu antes de eu ser mandado embora. – E ele também tem um amigo falecido? Que nem o Gabriel tinha? Nossa! Quanta coincidência... – Xande debochou. Leandro então olhou para o relógio e avisou que precisava ir embora. Sua visita naquele dia seria rápida mesmo. Ele se levantou do sofá, se despediu de Junior, deu-lhe um abraço e falou que ia encontrar o Heller, seu amor, próximo da rua Frei Caneca. De lá eles iriam conhecer uma balada nova em Campinas. Em seguida, perguntou se Junior gostaria de ir junto.

– Não, obrigado. Vou esperar o Gabriel e a Michele chegarem. Aliás, já deveriam ter chegado. Daqui a pouco devem estar por aqui. Mesmo assim, obrigado.

– Tudo bem. E a perturbação, não quer ir com a gente? – Leandroolhou para Xande.

– Velha chata! Não gosto da senhora. Mas eu vou! Quero pegar geral! Preciso de uma piroca na boca! – Xande sorriu, bem debochado mesmo.

Os dois saíram e, depois de alguns minutos, Leandro tocou novamente a campainha.

– Esqueceu algo? – perguntou Junior.

– Sim. Esqueci no carro. Comprei para você! – Leandro estendeu a mão com um presente.

Junior pegou o pacote, abriu e viu um livro. Leandro continuou. – É o primeiro livro da Marli Porto.

– Uma Luz para Davi – Junior leu devagar o título em voz alta. Em seguida, perguntou:

– É espírita?

– Não. Mas pelo título muita gente acha que é – Leandro sorriu. – Como eu sei que você não gosta de ler livros, sei que este será melhor que qualquer livro espírita!

– Melhor? Por quê? As pessoas dizem que livros espíritas são bons. – São bons, sim. Mas livros gays também! – Livros gays?

– Sim, é um livro de ficção gay, apesar de a Marli Porto ser casada e mãe de três filhos. O livro conta a história de um jovem chamado Davi que se apaixona por um traficante barra pesada. Mas não vou contar detalhes para não perder a graça. Só sei que você vai gostar. Como é seu primeiro livro, faça um esforço para lê-lo. Se gostar mesmo, eu te dou mais. Ela

também escreveu “Bem-te-vi”, um livro em que um garoto se apaixona por outro garoto na escola. É fantástico.

– Tudo bem. Muito obrigado – Junior agradeceu, dando um abraço em Leandro.

Leandro, desde o momento em que vira Junior, também tinha se apegado bastante ao rapaz. Ele o paparicava, dava presentes e fazia questão de visitá-lo quase sempre. Isso porque, no início, Leandro era mais amigo de Gabriel, mas, com a convivência com Junior, ele acabou se tornando mais amigo de Junior. Gabriel não tinha ciúmes, pelo menos não demonstrava.

Leandro se despediu novamente e foi embora. Junior olhou para o relógio e ficou preocupado com Gabriel. “Onde ele e a Michele estão? Eles já deveriam ter chegado em casa faz tempo. E, pior, até agora ele não ligou avisando! Provavelmente ele está na casa dela”, pensou rapidamente. “Pena que lá não tem telefone e o celular dela só dá caixa postal.” Junior então passou aquele final de sábado e o domingo inteiro sozinho em casa. Sem ter o que fazer, ele começou a ler o livro que ganhara. E, pelo fato de o livro falar de amor e do envolvimento entre duas pessoas do mesmo sexo, ele gostou da experiência da leitura. Mesmo porque, até então, ele não sabia que aquele tipo de livro existia. Junior era mais um brasileiro traumatizado pela leitura graças aos professores de português que obrigavam, e ainda obrigam, jovens a lerem livros chatos e complexos da “grande literatura brasileira”. Tudo bem que são clássicos e importantes. Mas não deveriam recomendar isso para um adolescente que não gosta de ler. Ele ficará mesmo traumatizado. 1021140915180005210022152100200500031514200118001415000914090 3091500041500011415001721050022051300031513161805090016011919 0107051419000500180519051822050900081520051200051300061215180 9011415161512091900160118010014151900041509190014150003011814 0122011200140115000523091920050013051208151800122107011800161 8010007051420050016011919011800050019050004092205182009180003 1513001321092015190007012519002215030500220109000113011800050 0052100130109190001091404010016151800031514200914210118000115 001905210012010415

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CAPÍTULO 14

A segunda-feira chegou e nada de o Gabriel aparecer. O primeiro compromisso de Junior naquela manhã era com Francisco, seu terapeuta. Ou melhor, seu primeiro compromisso era, novamente, consigo mesmo. – Entre, Junior.

– Tudo bem, doutor?

– Tudo, e com você?

– Tudo bem, também – Junior sentou na poltrona macia do consultório.

Francisco, sempre neutro, fechou a porta, sentou-se à sua frente e ficou quieto, observando e esperando o tempo certo para que os conteúdos emocionais de Junior aparecessem. Junior falou do tempo e do clima louco de São Paulo. Francisco permaneceu quieto. Ele sabia que a mente funcionava assim mesmo, fugindo daquilo que a atormentava. Até que, depois de alguns minutos, Junior resolveu falar. – Doutor, nestes anos todos... eu ignorei totalmente meus pais. Fiz de conta que eles haviam sumido da minha vida – ele falava pausadamente. Francisco apenas observava. Junior continuou com dificuldades. – Mas na sexta-feira, vendo TV, uma música evangélica que minha mãe cantava quando eu era mais novo passou em um programa e várias recordações me vieram à cabeça. Tudo o que me aconteceu, e algumas coisas o senhor já sabe, passou na frente dos meus olhos durante vários minutos. Eu chorei muito – disse ele, olhando para baixo. Depois de alguns minutos em silêncio, Junior continuou:

– Sabe, doutor... – respirou fundo. – eu ainda acho que o que eu faço é uma doença, um pecado. E me sinto perdido. Sozinho neste mundo, sem ninguém por perto – falou com algumas lágrimas saindo dos olhos. – Será que eu devo ir atrás dos meus pais? Saber como eles estão? Se me perdoaram? – ele olhou por alguns segundos o relógio de parede que ficava atrás de Francisco. – Eu estava pensando, parece que pouca coisa mudou na minha vida nestes últimos anos...

Naquele momento, mesmo sendo muito cedo, Francisco resolveu intervir. Ele precisava mostrar a Junior coisas que ele não conseguia enxergar sozinho e que eram primordiais ao seu processo de crescimento. – Não, Junior. Muita coisa na sua vida mudou, sim... – Mas o que mudou? Tudo continua igual... – Posso citar muitas coisas como exemplo. Uma delas é a forma como você encarava o sexo, lembra? Quando chegou a São Paulo, extremamente abalado com sua sexualidade graças à internação no CRADH, você me disse que fez de tudo para não ter relacionamentos homossexuais. Disse que chegou a namorar a filha do dono do restaurante onde trabalhava e que quase a engravidou. Mas, por ter terminado o breve relacionamento e não suportar mais vê-la, você pediu para ser mandado embora. Lembra-se disso?

– Lembro sim.

– Depois, você, andando no centro, conheceu os cinemas pornográficos e passou a frequentá-los, além de praticar sexo em banheiros públicos. Foi nestes lugares que você, mesmo de forma clandestina, soube do que realmente gostava. E não parou mais de frequentá-los, mesmo com o sentimento de culpa após o ato sexual e sem se envolver afetivamente com seus parceiros.

– Sim, eu lembro, foi nesta época que o Leandro, percebendo que as coisas na minha cabeça não andavam bem, me recomendou fazer terapia com o senhor. E tinha apenas algumas semanas que eu havia falado com o Gabriel sobre estes meus desejos por homens. Até então ele não sabia de nada.

– Pois então, muitas coisas mudaram desde então. Mas como são mudanças lentas, você não percebeu. Lembra que você não frequentava lugares gays? Tinha pavor desta palavra? Até criticava gays? Sem falar que, alguns anos atrás, você, provavelmente, jamais teria um amigo chamado Xande todo afeminado como você me conta. Se fosse naquela época, você até bateria nele por se vestir de forma feminina, tamanho era o seu repúdio machista. – Junior apenas escutava. Francisco continuou. – Hoje, você não liga. Nem para o que as pessoas falam dele nem para o que falam de você. E olha que temos pouco tempo de terapia. Muitas coisas, realmente, mudaram na sua vida.

– É verdade. Vendo desta forma, mudaram mesmo. – Mas sabe quais foram as duas mudanças mais significativas que eu percebi?

– Quais?

– O afastamento de alguns conceitos da Igreja e a vontade de ter alguém ao seu lado para dividir bons e maus momentos. – Mas... por que são significativas?

– O afastamento da Igreja é simples. Pouca gente inserida em uma doutrina, principalmente a evangélica, consegue se desvincular de seus valores e conceitos rígidos. Muito disso, talvez, tenha se dado pela figura do tal pastor Silas, era esse o nome dele, não? Depois pelo pastor Elias. – Sim, isso mesmo... – Junior recordou-se do pervertido pastor. – A partir daí, começou seu questionamento sobre a religião também, parando de frequentar os cultos.

– Eu lembro. Essas coisas só aconteceram comigo? De ir parar em um lugar que curava gays?

– Não, claro que não. Mesmo no mundo atual, tão conectado, com as paradas gays lotando avenidas pelo Brasil e relações homoafetivas em novelas, a sociedade continua ignorante e muito preconceituosa. Não é divulgado, mas a quantidade de fazendas como aquela em que você ficou internado ainda é muito grande. Ano passado, houve um congresso em Campina Grande, na Paraíba, de um forte grupo religioso, em que quase todos os workshops e palestras eram sobre a cura espiritual da homossexualidade.

– Sério?

– Infelizmente, sim. Existem livros, sites, blogs e tudo o que você possa imaginar condenando ferozmente a homossexualidade. Eu comprei um livro estes dias, chamado “Saindo do Armário”, não lembro o autor, mas, para minha surpresa, eram depoimentos de jovens que deixaram de ser homossexuais e encontraram Jesus.

– Isso existe ainda?

– Sim! Existe, sim. Mas pouca gente sabe. O que me preocupa, de fato, enquanto terapeuta, é que muita gente permanece atormentada dentro dessas ideias imaginando que existe cura. Que existe salvação. Quando, de fato, a homossexualidade é só uma parte da sexualidade humana. Não tem nada de errado com ela.

– Sim, o senhor já me disse isso.

– E assim como existem estes materiais ruins, temos muitos livros,

sites e blogs bons também. Tem o livro “O Armário”, que eu sempre recomendo para quem quer entender sobre a homossexualidade, e também o livro “Em Busca de Mim Mesmo”. Este último narra a história de uma ONG que o autor ajudou a fundar no Brasil e que pretendia curar a homossexualidade. Existiu por quase 15 anos. Veja bem, não estou falando de ficção. Falo de histórias verdadeiras. Quando puder, pesquise estes livros na internet e os leia. São muito bons.

– Tudo bem. Assim me sinto mais aliviado. Inclusive com as minhas mudanças. Eu realmente mudei, né, doutor? – Junior insistia em chamá-lo de doutor, mesmo Francisco já o tendo advertido sobre isso várias vezes . – Sim, Junior. Tivemos boas mudanças, sim. Eu mesmo fico feliz pelo seu progresso. Mas tem mais coisas aí.

– Quais?

– A outra mudança significativa, Junior, foi você começar a ver o “além do sexo”. Além do tesão. Afinal, sexo é ótimo e deve ser praticado sempre. Mas, na vida, há coisas tão importantes quanto o sexo e que devem ser conquistadas paralelamente para uma boa qualidade de vida. Uma delas é, mas não obrigatoriamente, se relacionar afetivamente com alguém. Construir algo junto. Não deixar a vida simplesmente passar despercebida. Ter uma história, um histórico.

– É verdade. A cada dia que passa tenho mais vontade de arrumar um cara bacana para namorar.

– Sim, e essa vontade era inconcebível há algum tempo. Hoje, você já consegue ver que relacionamentos homossexuais também existem e podem dar certo. Até daquela igreja inclusiva, que aceita homossexuais, você estava pensando em participar. Há várias no Brasil: Igreja Para Todos, CCNE, ICMSP, Igreja Contemporânea e BetelRJ são algumas delas. – Pensando desta forma, você está certo. Mas e meus pais? Sinto muita falta deles... – Junior, com seu conteúdo emocional carregado, voltou para sua queixa inicial.

– Estas são as partes ainda não trabalhadas em sua mente. Não sei se percebeu, mas é a primeira vez aqui que você fala que sente falta deles. Embora eu já tenha percebido isso antes.

– É verdade. É que no início da terapia, eu falei tanta coisa que não tinha nada a ver que perdi muito tempo dela – lamentou-se ele. – Na terapia, tudo aparece no momento em que deve aparecer. Na ultima sessão, por exemplo, você citou seus pais de forma simbólica e eu percebi.

– Eu falei dos meus pais?

– Falou. Lembra da história que me contou indignado? Do desenho animado a que assistiu em que a águia deixou seu filhote cair do ninho e não foi atrás? Você, inconscientemente, falou de seus pais. Você era o filhote que caiu e seus pais não foram atrás.

– Como assim? Junior ficou vermelho. – É que, em um processo terapêutico, ou até mesmo em uma conversa informal no bar da esquina, você tem uma infinidade de assuntos sobre os quais falar. A pergunta é sempre esta: por que, no meio de tantas coisas, você escolheu justamente falar sobre determinado assunto? Qual o conteúdo emocional que o levou a falar sobre aquilo especificamente e não sobre outras coisas? Com o desenho animado o mecanismo é semelhante. Quando analisei, percebi que algo com seus pais iria surgir a qualquer momento. Essa música que você escutou na TV e que o fez se recordar de sua mãe e de seu passado foi uma espécie de gota d’água para que a caixa de emoções presas começasse a transbordar. Se não fosse a música, seria outra coisa. Pode ter certeza disso.

– Entendi – Junior respondeu pensativo. Francisco continuou. – E, embora você já tenha me dito sobre seu passado, sobre a descoberta do sexo com a Maiara, sobre o Ronaldo, sua ida a um puteiro, sobre sua família, sobre o pastor Elias e sobre várias coisas que você fez desde que chegou aqui em São Paulo, você nunca mais falou sobre seus pais na terapia. Você os ignorou, reprimiu e escondeu todo este tempo. Bem lá no fundo. Então, uma hora eles iriam aparecer. Junior ficou parado pensando. Em seguida, soltou de uma vez: – Na verdade, eu penso em visitá-los neste final de semana. Francisco percebeu que Junior queria algum comentário seu incentivando ou desmotivando sua ida.

– Veja bem, Junior, eu sou terapeuta. Não posso decidir coisas por você. Minha função é apenas mostrar caminhos que você não consegue ver sozinho, e assim promover seu crescimento ou o que chamamos na psicologia analítica de processo de individuação. Mas, se faz tempo que você não os vê, sente saudades e quer ter notícias, por que não? O que me preocupa enquanto analista é este resíduo negativo sobre a homossexualidade, que em sua mente ainda é doença. Ainda é pecado. Afinal, por mais que você tenha parado de frequentar a igreja por livre e espontânea vontade, é muito óbvio que algo aí dentro o perturba. E essa falta dos pais, diante de tudo o que lhe aconteceu, pode ter alguma ligação com esta angústia interna. Tudo indica que as coisas estão ligadas de alguma forma.

– Mas de que forma, doutor?

– Se você ainda não tem esta resposta, é porque ela não quer aparecer para você. Você não está forte o suficiente para encará-la de frente. Assim são as angústias humanas.

Ao ouvir falar de angústias, Junior imediatamente se lembrou de seu recente pesadelo. Olhou para o relógio e percebeu que seu tempo estava acabando. Então resolveu acelerar a conversa. – Por falar nisso, eu tive novamente aquele sonho ruim... – E como foi desta vez? – Francisco perguntou sem se surpreender, afinal, tudo se encaixava.

– Foi mais ou menos como das outras vezes. Eu estava dentro de uma casa. Uma casa estranha. De repente, algo maléfico do meu tamanho se aproximou e eu lutei contra ele. Mesmo lutando, eu sabia que nenhum dos dois venceria. Cansado, eu comecei a fugir e, enquanto corria, senti que ele me perseguia. Depois de um tempo, tudo começou a pegar fogo. Quando acordei, angustiado, percebi que eu estava suando muito. O senhor disse que, neste tipo de terapia, o sonho era importante, não? Esse sonho eu tenho faz tempo... – Junior lamentou-se.

– Eu sei, Junior. Você já me contou sobre ele de diferentes formas ao longo da terapia. E eu não tinha analisado ainda porque todo sonho e seu significado simbólico têm ligação com o material inconsciente de cada um. Eu precisava de tempo para te conhecer melhor e não interpretar nada de forma equivocada. E consegui.

– Você conseguiu interpretá-lo?

– Sim. Para começar, me diga, qual é o seu primeiro nome? – Francisco sabia que Junior não gostava de falar sobre seu primeiro nome. Algo que ele escondia de todos.

– Prometheus. – ele respondeu, olhando para baixo. – E por que você tem este nome?

– Porque meu pai tem.

– Sim, mas por que você também teve? – Por causa da minha mãe... ela gostava tanto deste nome que convenceu meu pai a me registrar igual, apenas incluindo o Junior no final. – Mas e seu pai? Ele gostava deste nome, Prometheus? Por que sua avó escolheu este nome para ele? – Francisco insistiu no assunto, tentando chegar aonde queria.

– Minha mãe contava que minha avó, quando mais nova, escutou de sua professora uma história dos livros em que um homem roubou o fogo dos deuses e deu-o aos homens de presente. Segundo ela, ele se chamava Prometeus. Ela gostou tanto da história que anotou o nome e registrou meu pai. Por erro do cartório, colocaram “th” no final. – Sim, e é aí que quero chegar...

– Mas meu pai também nunca gostou deste nome estranho. No interior, tem gente com nomes muito mais esquisitos, eu sei. Mas meu pai odiava tanto que todos os chamavam de Sr. Antônio, apelido que ele mesmo criou.

– E você?

– E eu acabei usando Junior. Se alguém me pergunta o primeiro nome, eu não falo... não gosto dele. Na escola, alguns me chamavam de Theus. Às vezes, o Gabriel me chama assim. Aliás, ele é o único que me chama de Theus hoje em dia, mas só quando ele está muito carente. – Eu sei. Você já tinha me dito isto. Mas, veja que interessante... você cresceu e, com certeza, alguém contou a história para você... Você se lembra da primeira vez que escutou falar do mito grego de Prometeus ? Junior, quieto, tentou se recordar da primeira vez que alguém havia lhe contado a história.

– Sim, foi uma professora da escola. Na verdade, todos os professores, no início do ano, ao chamar meu nome pela lista, se surpreendiam e citavam esse mito grego. Até que um dia uma professora me disse que o Prometeus era um titã que tinha roubado o fogo dos deuses, que significava o conhecimento, e dado como presente aos homens. Porém, por causa do roubo, ele fora castigado.

– E qual era este castigo?

– Pelo que me lembro das histórias que eu li depois, ele foi acorrentado em uma montanha e todo dia uma águia vinha e devorava seu fígado. Como ele era imortal, seu fígado se regenerava e, no outro dia, a mesma águia o devorava novamente, fazendo-o sofrer por quase 30 mil anos.

– Sim, é isso mesmo. Esta é a questão primordial e tudo indica que tenha algo a ver com seus sonhos.

– Como assim? – perguntou ele confuso. – Veja bem... todo sonho repetitivo é um nó psíquico de energia presa. Ou, na forma mais fácil para entender, tudo o que você reprime, esconde, camufla e ignora é transformado em símbolos pelo inconsciente. Dependendo da força, esse nó psíquico aparece camuflado nos sonhos por meio de vários símbolos.

– Mas o que isso tem a ver? – perguntou Junior, ainda confuso. – Já reparou que, em todo sonho que me conta, você sempre está fugindo? Ou lutando contra um mal? Um demônio? Que sempre tem fogo queimando tudo? Sexo? Homens? Você cai e se afunda na lama? – Sim – ele respondeu, recordando-se de alguns. – Pois então, quando um sonho se repete muito, ele pode ser interpretado. O seu, aparentemente, é uma mistura do mito grego de Prometeu, ou também chamado de Prometeus em alguns lugares, com a condenação evangélica da homossexualidade sobre a qual você escutou desde pequeno. Sua mente transformou tudo em símbolos e está nos mostrando com angústia e desespero o negativismo homossexual inserido em seu inconsciente. Que é o que nós, psicólogos, chamamos de homofobia internalizada: mesmo assumido, algo lá no fundo ainda diz que é errado. Francisco ficou parado observando as reações de Junior. Depois de alguns segundos, ele continuou e, usando o mesmo simbolismo, foi direto ao ponto:

– No seu caso, é como se você estivesse sofrendo pelo fogo que roubou dos deuses. É como se você, por ter escolhido a vida e o sexo homossexual, estivesse sendo castigado por eles. Todos os dias. – Pelos deuses?

– Mais ou menos. Pense um pouco. Quem tinha e ainda tem o poder de te castigar? Os deuses do Olimpo?

Junior ficou parado, pensando. Em seguida, teve um estalo em sua consciência e soltou:

– Meus pais! – disse ele, perplexo com a revelação. – Sim. Você sofre o castigo divino dos deuses, você sofre a ira divina de seus pais. Compreende esta mistura psíquica? Quando disse que, mais cedo ou mais tarde, os conteúdos apareceriam, eu estava falando disso. Parece que o ponto, neste momento, são mesmo seus pais, o amor deles e a relação com o conflito interno da aceitação dos teus desejos. Junior imediatamente começou a chorar. E a chorar muito. Francisco, feliz com o desenvolvimento da terapia, teve mais uma vez a certeza de que escolhera a profissão certa, pois na terapia, quando alguém chorava voluntariamente ou soltava uma parte da energia presa, como Junior fazia, era porque uma parte de um nó afetivo, dos muitos que todos nós carregamos em menor ou maior grau, estava se desfazendo. Francisco, vendo o choro desesperado do rapaz, permaneceu neutro sentado em sua cadeira. Ele, experiente, sabia que jamais poderia consolá-lo. Junior precisava externalizar tudo aquilo sozinho, perceber algumas coisas e, nos próximos dias, absorver outras. Depois de alguns minutos chorando muito, já se recuperando e voltando ao normal, Junior olhou para o relógio de paredc e disse:

Continuar: parte 5 de 6