Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Fabrício Viana · Capítulo 1 de 1 · parte 5/6

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Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

– Vejo que meu tempo está acabando, né? – Junior enxugava as lágrimas. – Aliás, por que o tempo da terapia é tão curto? – ele mudou de assunto, algo previsível, já que ele acabara de entrar em contato com um nó afetivo profundo.

– Ele não é curto, ele é quase perfeito! – Francisco brincou, mas voltou a falar sério em seguida. – O tempo ideal para os conteúdos importantes aparecerem é de 45 minutos. Mais do que isso fica cansativo e não existe progresso. Por isso também a longa pausa de alguns dias após estes minutos. A mente precisa absorver e trabalhar sozinha em cima da última sessão.

– É que eu ainda tenho tanta coisa para falar com o senhor... – Junior recordou-se da traição que havia lhe acontecido na última sexta-feira. – Tudo a seu tempo, Junior!

– Tudo bem, doutor. Bom, vou indo. Obrigado e até a próxima semana.

– Até.

Francisco abriu a porta e ficou imaginando que Junior só receberia alta da terapia quando parasse de chamá-lo de doutor. Francisco era terapeuta, não médico. E mesmo já tendo sinalizado isso a Junior, simbolicamente, era como se Junior visse uma relação entre médico e doente. Ou, melhor dizendo, médico e alguém que tinha uma doença e precisava ser curado. Sua homofobia internalizada ainda era muito forte e ele precisava, assim como muitos homossexuais, até mesmo os assumidos, se livrar dela.

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CAPÍTULO 15

Assim que Junior chegou em casa, a primeira coisa que fez foi ver se Gabriel havia chegado. Pelo barulho do chuveiro, sim. Ele estava se banhando. Junior então foi até a porta do banheiro, que estava encostada, empurrou-a e, sem olhar diretamente para aquele corpo maravilhoso, começou a encher Gabriel de perguntas.

– Nossa, Gabriel! Onde você estava? – perguntou com voz trêmula, ansioso por uma resposta, mas feliz por vê-lo bem. – Oi, Junior. Já chegou? Você está vindo da terapia, né? – Sim, mas, diga, onde você estava esse tempo todo? Estou até agora sem notícias suas. Nem para dar um telefonema! – Calma, Junior. A história é longa. Senta aí que eu te conto. – Tudo bem, mas independentemente da história, não vejo motivos para não ter me ligado para avisar. A gente não combinou que um sempre ligaria para o outro? – Junior lembrou o pacto que havia feito com o amigo. – Sim, me desculpe. Mas aconteceram muitas coisas. – Tudo bem, conte.

– Lembra-se da Patrícia? Amiga da Michele? – Sim, claro que me lembro.

– Ela foi assassinada!

– O quê? Como assim? – disse Junior, perplexo. – Então, saímos do teatro e outra amiga em comum dela ligou. Disse que a Patty havia marcado um encontro com um cara pelo Grindr. – E aí? Conta!

– Então, o cara mandou foto bonita. Depois ligou para ela. Com uma voz irresistível, perguntou se estava em casa sozinha. Disse que ele estava cheio de tesão e que faria loucuras com ela – Gabriel desligou o chuveiro e pegou a toalha para se enxugar. – Ela, vendo a foto e escutando a voz, pensou que era apenas alguém querendo sexo. Nada mais. E como estava com muita vontade, topou.

– Isso que não entendo. Essa travesti faz programa e mesmo assim sai caçando homem pelo Grindr?

– Pois é. Também não entendo. Mas eu nunca achei que ela se prostituía por que precisava, e sim porque era ninfomaníaca mesmo. Só que isso não tem mais importância. O fato é que o cara combinou um horário. Ela aceitou. Quando chegou ao apartamento, era o mesmo da foto, porém, ao abrir a porta, entraram ele e mais dois caras que estavam escondidos. – No apartamento dela?

– Sim, foi um assalto! Um golpe! Estão usando os aplicativos para celular.

– Por isso eu não tenho nenhum instalado. Morro de medo. – Pois é. Eles entraram e fizeram a limpa em tudo. Prenderam-na no banheiro e ficaram ali por várias e várias horas. Enquanto roubavam, tiravam sarro dela e ficavam decidindo se a matariam ou não. – E como você sabe destes detalhes?

– Eles foram embora e decidiram não matá-la, foi quando ela ligou para a amiga da Michele e contou tudo. Ainda no telefone, a amiga só escutou os tiros. Eles voltaram e a apagaram.

– Credo, que horror! 

– Sim, saímos de lá e fomos direto ao apartamento dela. Tentei te ligar e não consegui. Depois meu celular ficou sem sinal. Deixei recado na sua caixa postal, não viu?

– Não. Meu celular está uma droga. Preciso mudar! – Junior, foram três tiros na cabeça e oito facadas! Todas dadas após a morte!

– Oito facadas?

– Pois é. Isso é muita crueldade. A polícia acredita que, além do roubo, a motivação da morte foi a transfobia, afinal, ninguém esfaqueia alguém morto oito vezes.

– Nossa, jamais suspeitaria disso tudo. Que horrível. E a Michele, como está?

– Ela está transtornada! Literalmente transtornada – respondeu Gabriel enquanto colocava a cueca e suas roupas. Depois continuou. – Ainda bem que ela estudou, prestou concurso para trabalhar naquele banco e passou. Deve começar em breve. Assim, ela larga seus pacientes e essa vida.

– Tomara mesmo – Junior sabia que Michele, namorada do Gabriel, diferente de outras travestis, era muito estudiosa e batalhadora. Conseguia ver um mundo muito além da prostituição, ou de seus pacientes, como ela os chamava.

– Só é uma pena que ela terá que se mudar para outro estado. E eu não irei junto.

– Como assim?

– A vaga para a qual ela passou no concurso é para outro estado. – Mas e vocês dois?

– A gente já sabia que um dia terminaria. A gente se gosta muito, muito mesmo, mas a Michele sabia que nossa relação não era algo que levaríamos por muito tempo – disse ele olhando nos olhos de Junior. – Mas vocês se dão tão bem.

– Sim, mas algumas pessoas se separam, às vezes, para seguir sua vida profissional. Eu não quero deixar São Paulo para seguir com ela para o interior. Não quero abandonar o pouco que eu conquistei aqui. Inclusive... – Eu?

– Sim, você. – disse Gabriel, olhando para outro lugar. Tentando, mais uma vez, mudar de assunto.

– Gabriel, posso te fazer uma pergunta? – Pode, claro que pode!

– Você gosta de mim?

– Gosto. Por que está me perguntando isso? – Eu sei que você gosta. Mas pergunto no outro sentido, algo a mais, você gosta de mim tendo esse algo a mais? – Junior, muito envergonhado, decidiu ir direto ao assunto que ele e Leandro haviam começado. – Não, Junior. Claro que não. Não tem nada a ver – Gabriel desconversou.

– Tudo bem. Eu só queria saber.

– Ok – Gabriel olhou para baixo. Depois continuou. – E você, sente algo por mim?

– Claro que não, Gabriel. Não tem nada a ver – respondeu Junior. Porém, ele sentia, e muito. Mas, para não perder a amizade do Gabriel, disse que não.

– Entendi. Então, já gravou seu número da sorte? – Mais uma vez, tentando mudar de assunto.

– Aquele que está na minha carteira?

– Sim, eu já decorei. É o 200500011315! – disse Gabriel, todo amoroso.

– Espera. Deixa eu pegar o papel na minha carteira – disse Junior. – Uau, é isso mesmo, você decorou o meu número da sorte! – Sim, e você, me promete uma coisa? – Prometo, claro!

– Nunca, nunca mesmo, perca esse número. E nunca, nunca mesmo, esqueça que fui eu quem o criou para você. Promete? – Prometo, Gabriel, prometo – Junior viu que o amigo tinha os olhos cheios de lágrimas. Ele sabia que aquilo era algo muito importante para ele. Talvez mais para Gabriel que para ele mesmo, afinal, eram só números. – Obrigado, Junior. Muito obrigado.

Gabriel, já vestido, foi em direção a Junior e lhe deu um abraço bem apertado. Neste momento, Junior lhe contou o que estava planejando. – Não acredito. Mas já se passaram tantos anos, você tem certeza? – Sim, eu preciso ir. E será neste final de semana. Já até comprei as passagens para Capão Bonito.

– Sério?

– Sim.

– Então eu vou com você.

– Não, não precisa. Fique com a Michele, ela está precisando de você neste momento.

– É verdade – Gabriel refletiu. – Perder uma amiga assassinada não é para qualquer um. Você promete que me liga? – Só se você me prometer que também me liga. – Sim, combinado, ligamos ou mandamos mensagens, faremos tudo. Só não perderemos mais contato. Me preocupo muito com você! – Eu também.

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CAPÍTULO 16

Junior chegou à rodoviária de Capão Bonito por volta das 15 horas. O tempo estava nublado e sua última lembrança daquele lugar era do pastor Silas o despachando para Belo Horizonte. “Nossa, quanto tempo se passou! Como será que andam as coisas? Será que o Ronaldo ainda mora perto? Como estão meus pais? Será que serei aceito?”, perguntava-se a todo momento. 

Junior então pegou um táxi e se dirigiu para o bairro do Mirizola. Ao ver sua casa de longe, a saudade bateu mais forte. Algumas pessoas podem imaginar que alguns anos longe de casa são pouco tempo. Pode até ser. Mas não para Junior, que convivia com seus pais todos os dias e do nada tinha sido expulso de casa, ficado internado em um lugar estranho e, no final, acabara fugindo para a cidade grande. Aqueles anos pareciam mesmo uma eternidade. Mas seu maior medo era mesmo do reencontro com seus pais. Como eles o receberiam? Esta era, de fato, a sua maior dúvida. O táxi então deu a volta e, conforme orientações de Junior, pegou uma estrada de barro que dava nos fundos da plantação de milho. Junior sabia que naquele horário seus pais estariam trabalhando e, por isso, a melhor forma de reencontrá-los era dando a volta. O táxi foi embora. Junior entrou na plantação e, conforme se aproximou, viu de longe seu pai trabalhando de costas. Seu coração disparou. O frio na barriga foi inevitável. “Será que vou em sua direção? E se ele me rejeitar? É melhor eu esperar aqui e ver como será sua reação.”, pensou rapidamente. Em determinado momento, Sr. Antônio, que até então arrumava algumas caixas de milho, se levantou, virou para olhar o milharal e deu de cara com Junior a poucos metros de distância. O velho não acreditou na imagem que seus olhos proporcionavam. Apesar do boné, das roupas novas e de uma pequena mala, aquele garoto era mesmo seu filho. Seu querido filho Junior. A alegria do pai foi imediata.

– Junior, meu garoto! – seu pai largou tudo e foi andando em sua direção. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. – Pai! – gritou ele, também andando na direção do pai, com os olhos cheio de lágrimas.

Os dois então se abraçaram fortemente, olhando-se vez ou outra nos olhos, chorando muito. De um lado, Junior não acreditava que ele estava sendo abraçado por seu pai, que não só o havia expulsado de casa como também lhe dissera as piores palavras naquele momento tão delicado. Do outro, Sr. Antônio não acreditava que seu filho, até então dado como desaparecido, estava ali, na sua frente, vivo. Em carne e osso. A cena era realmente marcante. Junior chorou de soluçar. Seu pai, que sempre fora durão, também não conseguiu se conter. Pareciam duas crianças em prantos. Depois de um tempo se abraçando e chorando muito, seu pai pegou sua mala e o chamou para entrar em casa. No caminho, Junior perguntou:

– Onde está a mãe? – ele se recordou da última vez que a vira entrar, de costas, em sua antiga casa, após ela tê-lo destratado. Seu pai ficou quieto como se não tivesse escutado a pergunta. Junior entrou na casa, percebeu uma certa bagunça no lugar e, a pedido de seu pai, sentou-se no sofá de dois lugares. Em seguida, seu pai fechou a porta, lhe ofereceu um copo de leite de cabra e sentou-se no sofá à frente. Sr. Antônio, ainda lhe olhando como se não acreditasse no que via, pediu que ele escutasse toda a história com calma.

– Que história, pai? – perguntou ele, imaginando que seu pai e sua mãe haviam se separado.

– Junior, depois que você foi internado em Belo Horizonte... tanto sua mãe como eu, mesmo explodindo de ódio e vergonha, passamos todas as noites orando a Deus e chorando muito, sentindo sua falta aqui dentro de casa... – seu pai falou e, não se contendo, começou novamente a chorar. Junior só prestava atenção. Ele queria saber tudo o que tinha acontecido durante sua ausência. Seu pai, sempre com lágrimas nos olhos, continuou.

– E você realmente fez muita falta, meu filho! – ele chorava mais ainda. – Mas sabe o que nós nunca entendemos? – perguntou o velho em meio às lágrimas.

– O quê, pai?

– Por que você, naquela fazenda, nunca respondeu às nossas cartas e nunca estava disponível para falar ao telefone. – Como assim? – Junior arregalou os olhos. – Desde o primeiro dia, o pastor Silas disse que nós, depois de algum tempo, poderíamos enviar cartas ou ligar para saber como você estava. Uma visita sairia muito cara, não tínhamos condições. Então, na primeira quinzena, sua mãe resolveu te escrever para saber como você estava.

– Vocês me escreveram? Como assim? – Escrevemos... mas você não respondeu nenhuma das cartas de sua mãe. Resolvemos ligar, depois, e o pastor Elias disse que você estava com um comportamento agressivo, recusando as orientações e que, por isso, não era aconselhável tentarmos contato. Ele dizia que assim que Deus tocasse seu coração, você entraria em contato. Mas você nunca entrou. – Não acredito que o pastor Elias fez isso comigo e com vocês! – Como assim, meu filho? – seu pai enxugava as lágrimas. – Pai, todo mundo lá recebia cartas e eu nunca recebi nada. Nunca. Até que eu reclamei e o pastor Elias me disse que vocês ainda estavam com raiva de mim e, por isso, não escreveriam tão cedo. – Mas isso não é verdade! Nós escrevemos várias cartas. Todo dia e toda noite não só lembrávamos de você, como você era e sempre foi nosso único filho! É claro que nós escrevemos! – Sr. Antônio, assim como Junior, percebeu que algo estava errado. Em seguida, o pai continuou: – A saudade foi tão grande que, quando você completou seis meses lá, nós ligamos várias vezes até que o pastor Elias disse que você havia fugido e ido para a casa do seu amigo Ronaldo – disse seu pai, evitando usar as mesmas palavras que lhe haviam sido ditas pelo telefone, isto é, que Junior tinha ido para a casa de seu namorado.

– Então foi isso o que ele disse?

– Sim, foi isso mesmo. Sua mãe e eu entramos em desespero. Imediatamente, procuramos o pastor Silas para saber sobre o paradeiro de seu primo Ronaldo, mas ele também não sabia. Disse que, após aquele problema, – olhou para o lado com desgosto, depois continuou – o Ronaldo se mudou para Curitiba sozinho e nunca mais deu as caras por aqui. Como ele se mudou antes de você fugir, nós ficamos confusos. No desespero, acionamos a polícia e mobilizamos todos aqui para tentar te encontrar. – A polícia?

– Sim. Passamos muito tempo te procurando. Mas você sabe como é pobre, né? Pobre não tem nada nesse mundo, e a polícia, que quase não dá conta de tanto bandido, não iria perder tanto tempo procurando um marmanjão do seu tamanho.

– Nossa... – Junior estava cada vez mais surpreso. – O que foi, meu filho?

– Eu não imaginava tudo isso... – ele abaixou a cabeça. – Eu acreditava que vocês, naquela época, me odiassem e quisessem me ver longe para sempre...

– Não. Nos primeiros dias, até queríamos mesmo. Mas o tempo passou e o coração bateu mais forte. Durante muito tempo, eu e sua mãe planejamos ter um filho, mas nunca aconteceu. Até que, do nada, você apareceu, quando já estávamos perdendo as esperanças. Você era o bebê mulato mais lindo desse mundo. E continua sendo. Nunca iríamos te abandonar por isso...

– Mas e a mãe, onde ela está?

– Junior, meu filho... – seu pai disse, abaixando a cabeça. – Sua mãe, depois que você foi dado como desaparecido, fez de tudo para te encontrar. Ela chorava muito pelos cantos da casa. Às vezes eu a pegava falando sozinha. Achava que ela estava ficando louca. Dizem que a gente só sente falta quando perde, e isso é verdade. Eu ainda consegui ser forte. Mas ela não. – Sr. Antônio fez um momento de silêncio, depois continuou. – O desespero e a tristeza foram tão grandes que ela parou de trabalhar no milharal, de frequentar a igreja, de fazer as coisas de casa e de se alimentar. Parecia que uma parte dela também tinha sumido. Eu tentei muitas vezes reanimá-la, mas não adiantou. Ela chamava por você dia e noite pela casa, em suas orações, pedidos e até telefonemas que dava sem discar número algum.

– Mas o que aconteceu com ela, pai? Por favor, me conte logo! – Junior já estava preocupado.

– Ela começou a adoecer. Depois de alguns anos, ela já estava muito doente. Os médicos mandaram levá-la a um médico da cabeça e depois fazer alguns exames, mas nunca havia nada. Falaram que era tudo “psicomáticos ”. Ou alguma coisa assim. 

– Não, pai, não fala isso... – Junior se preparou para o pior. – Sim, meu filho. O doutor disse que ela ficou tão triste com sua perda que começou a ter doenças que não existiam. Mas que a cabeça dela acreditava que tinha. Eu nunca tinha escutado algo assim – tomou um pouco de água, depois continuou. – Lembrei, era tudo psicossomático! Isso, essa era a palavra. Aos poucos, a tristeza foi tão profunda que ela começou a ficar doente. A mente começou a gerar, sozinha, várias doenças. Junior então começou a chorar. Sr. Antônio continuou. – Foi difícil, meu filho. Foram os dias mais tristes da minha vida. Meu único filho estava desaparecido e minha amada morrendo sem eu poder fazer nada. 

Sr. Antônio também voltou a chorar. Depois continuou. – Até que um dia aconteceu... Era de manhã quando eu acordei e, ao olhar para sua mãe, ela estava olhando para cima com os olhos arregalados. Parecia que ela estava esperando eu acordar para me dizer algo antes de morrer. Eu disse bom dia, mas ela não respondeu. Em seguida, ela virou lentamente o rosto e me fez prometer que eu o encontraria e lhe pediria o seu perdão. Que ela estava indo, mas que precisava muito ser perdoada. Junior, que já estava chorando, começou a chorar mais ainda. Seu pai, muito emocionado por se recordar daquela triste cena, continuou com dificuldade:

– Mas isso não foi tudo o que ela disse antes de morrer naquela manhã. As últimas palavras de sua mãe, depois de quase 15 minutos agonizando na cama, ao meu lado, foram: “Diga ao nosso filho que eu o amo muito!”

Neste momento, Sr. Antônio chorou mais ainda. Junior, escutando que sua mãe o amava e que tinha feito questão de dizer isso antes de morrer, começou a gritar, sentindo a dor seca no estômago pela perda de sua mãe. – Não, pai, não... por favor... diga que tudo isso não aconteceu... – ele entrou em desespero.

Seu pai se levantou, sentou-se ao seu lado e o abraçou fortemente, tentando consolá-lo.

– Seja forte, meu filho. Os médicos de cabeça não sabiam o que fazer. Falaram que ela não estava reagindo com sua perda – disse o pai, tentando confortá-lo.

– Como isso foi acontecer? Minha mamãezinha querida? – Junior gritou, esperneou e chorou muito se recordando de sua amada mãe, de todas as manhãs em que ela havia lhe servido o café da manhã, levado para a igreja, ensinado a orar, a ter bons costumes e a ser um homem direito. Não, aquilo não estava acontecendo.

Por causa da terrível notícia, Junior ficou em estado de choque por vários minutos. Seu pai, que durante toda a vida não havia demonstrado sentimentos, conversado muito com o menino ou lhe dado afeto, agarrou-o com toda a força do mundo, tentando acalmar seu filho diante da trágica notícia. Em seguida, quando Junior ficou mais calmo, Sr. Antônio se levantou e foi preparar alguma coisa para ele comer. – Venha aqui, meu filho. Você deve estar com fome! Junior se levantou e, ainda atordoado, o seguiu até a cozinha. Enquanto seu pai lhe preparava um lanche, ele olhou aquele velho franzido imaginando o quanto ele devia se sentir só naquela casa sem ele nem sua mãe por perto. Até que, para quebrar o silêncio, Junior puxou assunto: – Sabe, pai, de lá da fazenda, eu fugi e fui para... – Não, Junior! Por favor. Não me conte nada! – interrompeu seu pai bruscamente. – Depois de fugir de lá, você fez o que fez. Mas agora está aqui e nada do que aconteceu neste período importa! Junior ficou confuso. Seu pai continuou, sem olhar para ele. – O que importa agora é que você voltou para casa! Está curado! É um novo homem e vai ajudar seu pai com essa terra abençoada que Deus nos deu de presente! – disse ele calmamente, enquanto terminava de fazer o lanche.

Junior ficou ali, imóvel, sem saber o que fazer ou falar. Ele tinha realmente escutado aquilo de seu pai? Mas ele não tinha perdoado? Esquecido tudo? Não estava feliz por vê-lo? Então seu pai interrompeu seus pensamentos e continuou a falar:

– Amanhã vamos ao túmulo de sua mãe. Você vai levar flores e vai dar o perdão para que ela possa descansar em paz lá no reino de nosso Deus todo poderoso. Amém?

– Amém! – respondeu ele, depois de alguns segundos em silêncio. Seu pai o abraçou, foram até seu antigo quarto e arrumaram as coisas para que ele pudesse passar a noite ali. Antes, Junior mandou uma mensagem para Gabriel dizendo que tudo estava bem. Gabriel, que estava acordado, respondeu e disse para ele não deixar de mandar notícias, e que também estava tudo bem com eles em São Paulo.

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CAPÍTULO 17

Vários sentimentos distintos atordoavam Junior naquela madrugada em Capão Bonito. Era felicidade por estar de volta ao seu lar, confusão por seu pai não querer saber sobre seu passado e tristeza pela morte de sua mãe. Ele não esperava sentir tanta coisa diferente ao mesmo tempo. Em sua mente, antes de chegar até lá, ou seus pais o acolheriam totalmente, sem preconceitos, querendo saber tudo de sua vida, ou eles o ignorariam, fazendo-o voltar para casa mais cedo do que planejava. Mas não aquilo. Sem falar nas cartas que ele nunca recebera enquanto estava internado na fazenda. Mais um sentimento diferente que começou a ocupar sua alma. “Como pode?”, pensou, revoltado. “Será que o pastor Elias ficou tão apaixonado por mim a ponto de nos enganar, evitando que eu e meus pais mantivéssemos contato? Desgraçado! Precisava de tudo isso para me manter preso naquele lugar? Meu Deus, parece que tudo isso é um pesadelo. Parece história de filme, cena de novela ou um daqueles livros de histórias do Leandro. Se eu contar a alguém, ninguém vai acreditar que tudo isso me aconteceu.”

Junior, sem ter o que fazer naquele quarto, pegou o livro que havia ganhado, leu alguns capítulos e pegou rapidamente no sono, só acordando no domingo.

Logo nas primeiras horas do dia, Junior escutou o galo cantar. Os pássaros também faziam barulho. Fazia tempo que ele não acordava em um ambiente assim. Ele então se levantou e foi até a cozinha, onde encontrou seu pai.

– Bom dia, filho! Estou preparando nosso café. Vamos comer e ir ao túmulo de sua mãe.

– Tudo bem, vamos sim! – ele respondeu, sonolento, enquanto olhava pela janela e sentia o agradável cheiro de mato, típico da região interiorana em que a casa de seus pais se encontrava. Os dois tomaram café e, em seguida, foram até a cidade. Compraram flores e se dirigiram ao cemitério. Sr. Antônio fez questão de pegar a Bíblia antes de sair de casa. No caminho, disse que eles iriam também para a igreja orar à noite. Junior, que sabia que estava só de passagem e que deveria estar em São Paulo na segunda-feira de manhã para ir ao terapeuta e depois procurar emprego, ficava pensando em como contar ao seu pai que ele era apenas uma visita. Mas aquele não era o momento. Ainda não.

Quando chegou ao cemitério, Junior, que estava muito triste pela morte de sua mãe, foi até o túmulo indicado por seu pai com as flores na mão e ficou horrorizado com as condições do lugar. Era tudo muito estranho. Ao chegar no cemitério, tinha visto lápides enormes, algumas estátuas e construções maravilhosas de famílias. Ingenuamente, ele imaginou que sua mãe também estaria enterrada em um lugar bonito como aquele. Afinal, era sua mãe, isto é, a pessoa mais importante do mundo. Mas quando seu pai apontou o lugar em que ela fora enterrada, o choque foi grande, tanto que ele não conseguiu disfarçar.

– Pai, a mãe está enterrada ali?

– Sim, meu filho... – seu pai percebeu que ele não havia gostado do lugar. – Foi tudo o que consegui fazer – o pai ainda tentou se justificar. – Eles cobram muito caro por um pedaço de terra no cemitério. Se não tiver dinheiro para pagar, eles enterram as pessoas em qualquer lugar e, depois de algum tempo, eles desenterram, juntam os ossos e jogam em gavetas, como se fossem depósitos. Não se preocupam nem um pouco com o fim deles. Se os ossos se misturam ou se perdem com o tempo, para eles, tanto faz. Mas eu fiz de tudo para que sua mãe tivesse pelo menos um lugar digno para descansar em paz. Não tem luxo, mas este espaço é dela. Ninguém mais pode ser enterrado aqui.

– Mas quando alguém morre, a pessoa não é enterrada sem precisar pagar? E aqueles monumentos enormes e estátuas que vimos no meio do cemitério?

– Quando alguém morre, se não tiver dinheiro, é enterrado em qualquer lugar e acontece o que eu falei. Os ossos são jogados por aí. Não sei como funcionam todos os cemitérios, talvez alguns sejam diferentes. Mas os que conheço são assim. E aquelas estátuas e grandes monumentos são de famílias ricas. Um lugar daqueles, mais simples, custa quase o preço de dois carros novos de aluguel por mês. Só quem tem muito dinheiro é enterrado naqueles lugares – lamentou-se o pai. – Pobre é pobre, meu filho, até depois de morto.

Junior suspirou. O lugar em que sua mãe estava enterrada era mesmo muito simples. Apenas uma lápide com o nome escrito e, logo acima, uma porção de terra com alguns capins crescendo. Seu pai explicou que até isso eles cobravam. Por isso ele, todos os meses, ia visitar sua esposa, carpir e arrumar seu túmulo. Junior pediu um momento para seu pai. Ele queria ficar a sós com a mãe.

O pai se afastou, ele se ajoelhou, colocou as flores em cima do túmulo e começou a conversar baixinho com ela.

– Minha mãe querida... Se eu soubesse que isso ia acontecer, que eu estaria longe de casa quando a senhora mais precisava de mim, eu jamais teria feito tudo o que eu fiz, mãe... nunca... Foi por causa deste pecado que eu fui tirado de vocês... – Junior voltou a chorar. Depois de um tempo, ele continuou. – Mas sabe, mãe, muita coisa me aconteceu desde então. E todos estes dias eu senti muita falta da senhora e do pai. Muita mesmo. A senhora foi muito dura comigo naquele dia, me dando comida como se eu fosse um animal qualquer, como se eu fosse um lixo. Depois me deu as costas e entrou em casa... Mas, como a senhora me ensinou, Deus nos deu o dom do perdão... E eu te perdoo. Eu te perdoo, minha mãe querida. Eu sei que a senhora só fez tudo aquilo porque estava com raiva. Eu entendo, minha mamãezinha querida.

Mais uma vez, Junior chorava de soluçar, não saindo mais nenhuma palavra de sua boca. Ele ficou ali, parado, por vários minutos, até que seu pai, vendo o estado do filho, se aproximou, colocou a mão em seu ombro e pediu que eles fossem embora. Junior se levantou, olhou mais uma vez o túmulo e disse mentalmente: “Mãe, eu te perdoo. Descanse em paz! Eu te amo!”

Os dois voltaram para casa em silêncio. Não tinham o que falar ou o que conversar. Mesmo porque Junior jamais imaginava encontrar aquela situação. Quando chegaram em casa, seu pai fez almoço e eles passaram a tarde toda no milharal. O pai, tentando distrair o rapaz daquela notícia triste, falou sobre a plantação, as colheitas, os ajudantes e tudo o mais que poderia dizer do lugar. Junior escutou tudo e, por mais que a intenção de seu pai fosse distraí-lo, tudo acabava lembrando Ronaldo e, principalmente, sua mãe.

Quando a noite chegou, seu pai pediu que ele tomasse um banho e vestisse uma de suas roupas para irem à igreja orar. Junior não comentou que ele tinha parado de frequentar a igreja, mas, mesmo assim, foi junto com seu pai. Quando chegou, com o culto já começando, Junior tentou se recordar de algumas pessoas. E conseguiu. Mas não eram pessoas com quem ele mantinha contato. Quando o pastor começou a falar, ele perguntou ao seu pai:

– Mas quem é ele? – Junior olhou para o pastor. – É o novo pastor!

– Mas e o pastor Silas?

Sr. Antônio ficou pensativo. Em seguida contou ao rapaz: – A Maiara, a filha do pastor Silas, lembra? Quando ficou mais velha, contou à mãe dela o que o pai fazia com ela escondido – disse ele, constrangido.

Junior, já sabendo o que ele fazia, decidiu não perguntar ao pai, dando a entender que ele já imaginava se tratar de sexo. Em seguida, seu pai continuou.

– A cidade inteira não acreditou. Foi um escândalo gigantesco. Sua esposa quase o matou. Depois de poucos dias, ele foi preso. Muita gente tentou ir à delegacia. Eles levaram pedras e pedaços de pau para bater nele. Queriam um linchamento em praça pública. Mas as autoridades não deixaram. O risco era tanto que ele foi transferido para um presídio em outra cidade. Foi quando este novo pastor ocupou seu lugar. – E a Maiara? – Junior perguntou, preocupado com a garota. – Ela e a mãe ficaram tão envergonhadas com tudo que venderam a casa e se mudaram para Salvador, indo morar perto dos parentes. Nunca mais tivemos notícias.

– Nossa... – Junior ficou mesmo espantado com a história. – É, meu filho. A gente imaginava que ele fosse um homem santo. Um homem de bem. E esta notícia caiu como uma bomba. Ele até pediu demissão do cargo de vereador dias antes de ser preso. Ele sabia que isso arruinaria seu trabalho. Principalmente com Deus. – Não sei o que falar, pai. Fico preocupado com a Maiara. – Não fique. Dizem que ela está muito bem, não teve sequelas ou problemas. Formou-se em jornalismo, casou-se, teve filhos e é dona de uma empresa de marketing e comunicação.

– Que bom, meu pai. Que bom.

– Pois é, foi uma história triste e vergonhosa. Talvez a segunda de nossa cidade!

Seu pai não falou diretamente, mas deu a entender que a primeira história triste e vergonhosa era a de Junior, quando ele foi pego tentando dar a bunda para o Ronaldo. Junior tentou prestar atenção ao culto, mas só se recordava das últimas palavras de seu pai, “história triste e vergonhosa”. Quando o culto terminou, eles voltaram para casa e seu pai falou o quanto ele estava feliz por seu retorno. Disse que, no dia seguinte, eles acordariam cedo e iriam juntos trabalhar no milharal, que tudo voltaria a ser como era antigamente. Junior não sabia como contar ao seu pai que ele estava mesmo só de visita. Porém, o que ele não conseguia engolir era as várias indiretas que seu pai havia dado sobre a sua sexualidade. Ele não quis saber sobre seu passado, citou uma vez que ele estava curado e ainda lhe recordou da história “triste e vergonhosa”.

Junior dormiu mais uma vez em sua antiga casa e, na segunda-feira, antes de seu pai acordar, ele se trocou em silêncio e se arrumou para ir embora. Antes, foi até a cozinha, pegou um pedaço de papel e deixou um recado para seu pai:

“Pai, sei que pode ser difícil para o senhor entender, mas eu tenho uma

nova vida, estou morando em São Paulo e estou construindo meu futuro lá. Não tenho nada ainda, estou desempregado, mas tenho um teto e não estou

passando fome. Vim apenas como uma visita. Queria te contar tudo o que

eu passei e como estou vivendo agora, mas o senhor não deixou. Eu

prometo que vou tentar entender. Mas não posso viver aqui novamente, não

do mesmo jeito que saí daqui. Minha vida hoje é diferente, e não sei se o

senhor um dia irá entender ou aceitar. Parece que não. Mas esta é a minha nova vida. Estou deixando meu endereço aqui com o senhor. Quando puder,

me escreva dando notícias. Eu farei questão de vir visitá-lo novamente. Só

quero que saiba de uma coisa, pai. Eu te amo muito! Fique com Deus.

 Abraço forte de seu filho, Junior.”

Junior deixou o bilhete sobre a mesa e colocou um peso em cima, para que não voasse e sumisse. Em seguida, saiu da casa, se despediu do lugar e dirigiu-se à rodoviária, que ficava no centro da cidade. Quando chegou, comprou a primeira passagem do dia e voltou para São Paulo, sentindo saudades do Gabriel, da Michele, de seus amigos e da agitada cidade grande.

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CAPÍTULO 18

Assim que chegou em casa, Junior foi ao quarto de Gabriel. Ele estava na cama, só de cueca, com a TV desligada e rabiscando seus números. Fazendo cálculos e mais cálculos que ninguém entendia, talvez nem ele. Ao ver Junior, abriu o maior sorriso.

– Que bom que você chegou, Theus! – raramente Gabriel o chamava assim, só quando estava mesmo muito carente. – Sim. Foi uma viagem tensa, nem sei por onde começar... – Vamos lá fazer uma vitamina, daí você me conta!

Gabriel se levantou e Junior percebeu que ele estava levemente excitado. Mesmo assim, desviou o olhar. Em seguida, enquanto fazia a vitamina, Junior contava com detalhes tudo o que acontecera com sua mãe, seu pai, as cartas que eles haviam enviado enquanto ele estava internado e que nunca tinham chegado e outras coisas mais, como a negação de seu pai e o bilhete que deixara para ele.

– Nossa, para o tal Elias não te entregar as cartas nem te passar o telefone, ele deve ter se apaixonado mesmo por você, hein? – Provavelmente. Não tem outra explicação – Junior refletiu junto, depois continuou – O que eu acho estranho é que me considero muito comum. Não tenho nada de especial, nem bonito eu sou. Sem falar que não tenho dinheiro e só consegui me encontrar graças a você, à ajuda do Leandro com o amigo terapeuta e outras coisas. Se não, eu estaria bem pior. 

– Você é especial, sim, Junior. Muito! – Gabriel não conseguiu disfarçar sua admiração. – As pessoas são diferentes e únicas! Eu mesmo não me vejo mais vivendo longe de você! – soltou, sem pensar muito no que estava dizendo. Ele realmente estava muito carente. Junior ficou sem reação. Gabriel continuou. – Toma a vitamina, do jeito que você gosta, com banana, maçã, mamão e aveia.

Junior tomou e Gabriel, sempre mudando de assunto, falou sobre Michele.

– Então, a Michele vai embora daqui a 15 dias. Já conversamos muito. Antes de se mudar, ela quer fazer sua despedida em uma balada com todos os amigos. E disse que você tem que ir junto! – Nossa, não consigo vê-la sem você, e vice-versa. – Não se preocupe, ela estará bem. E não iremos terminar totalmente o namoro por conta disso. Combinamos de nos ver de vez em quando. Daí ela vem para São Paulo e passa um final de semana com a gente. – Que bom! Assim não existe separação! E se ela arrumar outro cara por lá?

– É o risco que todos corremos. Mesmo porque nenhum relacionamento dura tanto.

– Que pensamento ruim é esse, Gabriel? – São as teorias do Leandro. Ele não encheu você com elas ainda? – Algumas coisas sim. Sobre relação aberta, sobre a busca do ser humano por sua metade e que, quando encontra, depois de algum tempo, quer mudar, provar carne nova e coisas assim. – É verdade. Mas eu acho que descobri um jeito de as coisas serem para sempre.

– Como assim, Gabriel? Tem um jeito de as relações serem para sempre? São esses números que você não para de calcular? – Junior sorriu, olhando outros cadernos do Gabriel espalhados pela cozinha. – Quase isso. Daqui a alguns anos eu te falo se minha teoria é certa. Preciso pesquisar mais!

– Tudo bem.

– Enquanto isso, vamos organizar a balada da Michele. Quero que seja muito especial para todos nós.

– Sim. Será mesmo!

– E logo você estará empregado. E fará uma faculdade, não pode deixar os estudos de lado.

– Eu sei, já estou pesquisando algumas coisas. Gosto da área de Veterinária ou de leis, quem saber fazer Direito. Fiz algumas pesquisas na internet. Pensei até em fazer Psicologia.

– Que bom, já é um começo. Ter cargo operacional é uma coisa, mas persistir nele, não pode. Você é inteligente, pode ir mais longe. Aliás, todos podemos!

– Concordo. Você mesmo é um bom exemplo. Quando te conheci, ganhava pouco. Estudou, fez muitos cursos na área comercial e hoje ganha muito dinheiro. Vai comprar seu terceiro apartamento. Daqui a alguns anos, nem precisará trabalhar. Viverá só da renda dos aluguéis! – Sim, e aí eu e você poderemos viajar pelo mundo! – Você e eu? – Junior perguntou surpreso. Gabriel realmente o deixava confuso.

– Sim – Gabriel tentou disfarçar. – Eu, você, seu namorado e minha namorada. Todos juntos.

– Entendi. Bom, vamos sim. Claro!

 

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CAPÍTULO 19

Os dias se passaram até que a balada para comemorar a nova etapa da vida de Michele chegou. A pista estava cheia. Michele, Junior, Gabriel, Leandro, Heller, enfim, todos foram. Até mesmo Xande, que, até então, havia jurado nunca mais usar nenhum tipo de droga. A noite correu perfeita até que Junior avistou, de longe, quem menos podia esperar: Ronaldo! “O quê? Não acredito que Ronaldo está aqui.” Junior olhou de novo e era realmente Ronaldo. Aquele cara safado que ele havia conhecido quando mais novo, que tinha comido o Pedro, levado Junior para o puteiro e toda a história que nós já sabemos. Não acreditando no que estava vendo, Junior seguiu em sua direção. – Ronaldo, é você? – perguntou Junior, vendo seu amigo sem camisa, com o corpo malhado e um pouco tonto. – Junior! Caralho! Que porra! Não acredito que você está aqui, meu moleque! – disse ele todo sorridente, com bafo de bebida, quando o reconheceu.

– Sim, sou eu. Eu é que não estou acreditando que te encontrei por aqui – Junior não conseguia disfarçar a felicidade, afinal, fazia anos que eles não se viam.

– Vamos lá fora conversar. Aqui não tem como! – Sim, vamos sim.

Junior e Ronaldo saíram da pista e foram em direção ao fumódromo. Em seguida, eles começaram a falar sobre tudo o que lhes acontecera até então. Junior contou toda a sua história, sobre Gabriel e sobre sua nova vida. Ronaldo, por sua vez, confiando no antigo amigo, tentou resumir um pouco.

– Pois então, eu e o Pedro fomos para Curitiba. Tentamos saber seu paradeiro, mas nada. O pastor Silas me deu dinheiro e eu resolvi sumir daquela cidadezinha. Pedro largou minha prima, arrumou outra mulher por lá e se casou – Ronaldo acendeu um cigarro. – Ele disse que não queria mais nada entre homens. Vai entender.

– E você?

– Eu vim para São Paulo. Tentar a sorte grande. Comer umas mulheres. Meter em alguns caras. Nada demais. – Você continua safado!

– Sim, muito. Coloca a mão no meu pau, está muito duro! – falou Ronaldo, pegando no pênis.

– Para com isso!

– Você é quem sabe. Se quiser, vamos ali no banheiro. Todo mundo mete em banheiro de balada. Vamos?

– Não, nem pensar. Está louco?

– Nada, é tranquilo. Mas se você não quer, não faça nada que não queira! – ele sempre repetia isso. Em seguida, desconversou. – Enfim, e o seu amigo, Gabriel o nome dele, não? Nome de anjo! – Sim, praticamente um anjo. Eu não seria nada sem ele – suspirou Junior. – Deve estar na outra pista com a Michele, daqui a pouco ele aparece me procurando. Não posso ficar muito tempo longe que ele me procura.

– Fica no seu pé?

– É, digamos que ele cuida de mim. E eu gosto. Me sinto protegido – Junior sorriu.

– Entendi.

Naquele momento, apareceu um cara e falou algo no ouvido de Ronaldo, que, disfarçadamente, tirou algo do bolso e entregou em sua mão. O cara olhou para os lados, deu dinheiro para Ronaldo e saiu. Foi então que Gabriel apareceu, junto com Michele.

– De onde você o conhece? – perguntou Gabriel, sem se dirigir a Ronaldo.

– É o Ronaldo! Lembra que te contei sobre ele? – Sim, lembro sim. Vamos embora? – Gabriel seguiu sem cumprimentar Ronaldo.

– Aconteceu algo? – Junior estranhou.

– Não aconteceu nada! Só quero ir embora. Vamos? – Tudo bem, vamos.

Junior se despediu de Ronaldo, pegou seu telefone e combinaram de se ver no dia seguinte. No caminho, dentro do táxi e na presença de Michele, Gabriel não se conteve e soltou:

– Não sabia que o Ronaldo de que você falava era ele, Junior. – Por quê? Você o conhece?

– Eu não gosto dele. Outra hora te conto. Vamos embora, esse cara acabou com a minha noite!

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CAPÍTULO 20

As semanas se passaram e Junior não conseguia entender como o telefone do Ronaldo havia sumido de sua agenda do celular. Como Gabriel não falou mais nada sobre ele, Junior resolveu também não tocar no assunto. Michele já havia viajado e os dois só se falavam por telefone. Em uma noite, assim que Gabriel chegou do trabalho, Junior começou a conversar sobre o dia a dia e, como quem não quer nada, perguntou.

– E o Ronaldo? Lembra-se do Ronaldo? – O que tem ele? 

– Queria conversar com ele, mas o telefone que anotei sumiu da minha agenda. É muito estranho ter sumido, não? – Se você anotou, deve estar aí em algum lugar – disse Gabriel, que havia deletado o telefone naquela mesma noite sem Junior perceber. – Ele me contou um pouco sobre sua história. Eu nem imaginava que ele morava por aqui. Vamos para a balada ver se o reencontramos? Queria muito falar com ele.

– Tudo bem, vou falar de onde eu conheço o Ronaldo. Ok? – Sim, tudo bem.

– Sente-se. A história não é muito agradável. – Pode falar.

– Então, ele é um dealer famoso por aqui. – Dealer?

– Sim, dealer é um nome bonitinho para traficante de drogas. – É por isso que você não gosta dele? – perguntou Junior, incisivo. – Não exatamente por isso. Mas você se lembra do dia em que nos conhecemos? Depois que você me trouxe para o apartamento? – Sim. Lembro sim. Você ficou me encarando logo após o banho. – Isso mesmo. E fiquei te olhando. Falei que você lembrava um amigo que havia falecido em um acidente de carro – Gabriel suspirou, querendo chorar. – Mas não foi um acidente de carro que o matou. – Eu me lembro de você falar algo naquela época. Mas o que tem ele? Você nunca falou sobre ele.

– Sim. E eu esperava nunca ter que falar, mas vamos lá – disse Gabriel com os olhos cheios de lágrimas. – Nós fomos para esta mesma balada em que encontramos o Ronaldo. Naquele dia, eu e ele tomamos ecstasy. Na verdade, a gente tomava todo final de semana. – Todo final de semana?

– Sim. Morávamos juntos. Nossa semana, aos poucos, passou a ficar desinteressante. Contávamos os dias, as horas e os minutos para que chegasse sempre o próximo sábado para tomar ecstasy novamente. A droga em si não vicia, mas estávamos viciado no comportamento. Nada na semana dava tanta alegria quanto a felicidade sintética. A felicidade comprada. Foi um período ótimo, até perceber o quanto estávamos nos afundando em tristeza e depressão durante a semana. – Mas e aí, o que aconteceu?

– Uma noite Junior, ele quis experimentar mais coisas e comprou GHB do Ronaldo. É um liquido que você mistura na bebida e aumenta o apetite sexual, dizem.

– É aquele que você me contou que usam para lubrificar motor de avião?

– Esse mesmo.

– Que loucura!

– Sim, mas neste dia eu não quis e ele tomou sozinho. Colocou na bebida, deu dois goles e caiu em coma minutos depois. – Dois goles? Em coma?

– Apenas dois goles, e caiu bem no meio da pista de dança. – Credo, que horror.

– Sim. Não sei o que o Ronaldo vendeu para ele, mas não era GHB. Talvez alguma mistura que esse desgraçado tenha feito em casa só para ganhar dinheiro desses otários. E como tudo é ilegal, tem muita gente vendendo qualquer coisa na noite e dizendo que é algo bom. O outro? Que se foda! – disse revoltado.

– Nossa, não acredito que o Ronaldo tenha feito isso. Ele era um cara tão legal. Apenas safado, mas era legal.

– Então, ele pode ter sido legal no passado. Só sei que meu amigo caiu em seguida. Só deu tempo de levá-lo à enfermaria e de lá para o hospital. Ele morreu no caminho, agonizando, comigo segurando sua mão – Gabriel então começou a chorar. Junior, que nunca tinha visto seu amigo chorar, o abraçou, comovido.

– Sinto muito, Gabriel. Não sabia desta história. E estou surpreso pelo Ronaldo estar envolvido. Para mim, essa história sua era antiga. E você me disse naquele dia que ele havia morrido em um acidente de carro. – Não, não é história antiga. E eu não pretendia te contar isso nunca – Gabriel chorava igual a uma criança. – Foi quando começamos a curtir a noite. Todo final de semana estávamos lá. Fizemos muitos amigos, pelo menos as pessoas se diziam nossas amigas. Eram tão amigos que não sobrou nenhum. A amizade só existia mesmo enquanto a droga estava na cabeça de todos – Gabriel falava, enquanto se recuperava aos poucos. – Muita gente está morrendo usando drogas, muita gente mesmo. E não só em baladas gays, em tudo quanto é balada! As drogas estão acabando com o mundo!

Continuar: parte 6 de 6