Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Fabrício Viana · Capítulo 1 de 1 · parte 6/6

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Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

– Sim, você já me disse isso.

– Pois é, eles só não noticiam – disse Gabriel, enxugando as lágrimas. – O pior de tudo é que não tenho provas para colocar o Ronaldo na cadeia. Como vou provar que a droga veio dele? Não tem nota fiscal, não é algo legal. Entende? Meu amigo morreu por conta de uns trocados! Uns míseros trocados! – Gabriel voltou a chorar muito. – Eu já tentei denunciá-lo anonimamente, mas nunca o pegam. Dealer sempre roda, eles não duram muito, pois a polícia sempre pega. Ronaldo sobrevive, dia após dia, muito provavelmente matando mais gente. E para quê? Para pagar seu aluguel? Levar comida para dentro de casa? Tudo isso é muito ruim, Junior. Muito ruim mesmo!

– Sinto muito, Gabriel. Sinto muito mesmo. – E tem mais coisas. Soube que ele promove encontros de sexo em vários lugares aqui de São Paulo com casais heterossexuais, onde todos transam sem camisinha.

– Sério? – Junior espantou-se.

– Sim. Já fiz uma pesquisa na internet e achei vários sites dele. Festas temáticas. Até denunciei, mas de nada adianta. Eles vão e criam outros grupos.

– Mas sobre esse lance de sexo sem camisinha, só participa quem quer, não?

– Sim. Cada cabeça, uma sentença. Mas minha mágoa não é por isso. Qualquer um que opte por transar sem camisinha deve assumir a responsabilidade por seu próprio corpo. O Leandro sempre me disse isso. Por isso não se deve confiar em nada nem em ninguém – concluiu Gabriel. – O que me deixa triste mesmo é a morte do meu amigo tão querido. E por besteira!

– Calma, Gabriel. Calma. Estou aqui do seu lado. Não fica assim! – Eu sei, mas eu tenho medo de te perder também. Muito medo de que algo aconteça com você e eu volte a ficar sozinho – Gabriel finalmente abriu seu coração.

– Mas já somos bons amigos, não somos? – Sim, somos. Só que não é esta a questão. Michele foi embora. Leandro e Heller são meus únicos amigos além de você. – E o Xande?

– O Xande é seu amigo.

– E todas aquelas pessoas nas redes sociais? – Muitos eu nem conheço. Ficam adicionando, cutucando e mandando mensagens. Eu nem entro lá por causa disso. – Mas a gente nunca vai se separar – Junior tentou confortá-lo. – Mesmo que eu namore ou você namore, ficaremos juntos para sempre. – Promete?

– Prometo. Prometo de verdade. E eu não vou mais procurar pelo Ronaldo. Depois do que fiquei sabendo, perdi todo o carinho por ele. Não quero nem amizade.

– Que bom. Ele não é boa pessoa. Por mais bonito que o cara seja, por mais que tenha boa lábia e seja muito inteligente, ele escolheu a forma errada de ganhar a vida. Nossa vida não é só isso, Junior, não pode ser só isso!

Apesar da história triste, Gabriel tentava sempre mostrar ao Junior as coisas boas. Sempre tentava mostrar que a vida na cidade grande não era só baladas. Havia pontos turísticos, bons restaurantes, peças de teatro, cinemas e uma infinidade de lugares próximos para se visitar, ou até mesmo longe. Que eles poderiam fazer isso por toda a vida, solteiros ou namorando outras pessoas, não importava. Desde que estivessem sempre juntos. A amizade dos dois era tão sincera, forte e intensa que muita gente, quando percebia, não entendia. Na verdade, a maioria, quando via a união dos dois, invejava. E muito.

Mas algo terrível estava prestes a acontecer.

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CAPÍTULO 21

– Toma, Junior – disse Leandro, ao visitá-lo no dia seguinte. – Outro livro, Leandro?

– Sim. Você já terminou o livro da Marli Porto?

–Sim, terminei, e gostei muito. Quero ler “Bem-te-vi”, que ela também escreveu... deve ser lindo, não?

– Ele é incrível. Mas hoje, bom, eu trouxe mais dois livros para você ler. Este primeiro se chama “Cléo e Daniel”, de um amigo psiquiatra que faleceu há alguns anos. Ele era anarquista.

– E fala sobre o quê?

– Então, eu não gostei muito do livro, nem de como o autor desenvolveu o enredo. Na verdade, eu não gostei de quase nada. Gosto é gosto! Mas tem algumas sacadas legais nele.

– Sério? Me conta!

– Tem uma cena onde a Cléo e o Daniel se encontram apaixonadamente na Praça da República.

– Aqui em São Paulo?

– Sim! – Leandro se empolgou. Depois continuou. – Mesmo sendo um casal heterossexual, eles começam a se beijar na Praça da República de forma tão apaixonada que as pessoas que passavam, vendo o amor sincero dos dois, com muita inveja do amor que não possuem na vida, começam a apedrejá-los de raiva.

– Nossa!

– Sim, a inveja pelo amor do outro é tão forte que as pessoas não conseguem se conrolar. É uma cena absurda mas verdadeira. As pessoas sentem muita inveja de casais que se amam! Gosto desta parte porque ele pega em uma necessidade humana básica e que, às vezes, pode ser terrível, que é amar e ser amado. Ou não amar e não ser amado. – Eu quero ler!

– Por isso comprei para você. Não é o melhor livro que eu li na vida, mas, como eu disse, tem algo legal nele. 

– E o outro livro?

– O outro livro que trouxe é “Uma história de amor com final feliz”, também de um psiquiatra – Leandro mostrou algumas páginas. – Um pouco do que ele escreveu aqui eu também não gostei, mas ele fala sobre o funcionamento do amor. Porque somos incompletos. E por aí vai. Ele diz que, para uma relação de amor ser feliz, não deve existir relação. Bom, é mais ou menos isso. Espero que você entenda e goste! – Eu também, Leandro. Obrigado. Mas eu gostei dos livros com temática gay. Tem mais?

– Tem sim. Eu estou lendo dois que comprei no site da Editora Orgástica. Mas não sei se você pode!

– Por quê?

– Um tem contos homoeróticos.

– Contos homoeróticos? O que é isso?

– Tipo contos eróticos, só que entre homens. – Existem livros assim?

– Claro que existem. Existem livros de todos os tipos e para todos os gostos! – Leandro sorriu. – Eu ainda estou terminando de ler. E são contos

muito picantes. O nome dele é “Ursos Perversos”. O outro que comecei a

ler é “Orgias Literárias da Tribo. Se for bom, eu compro e te dou de presente também. Eu já li algumas coisas na internet e os dois são muito bons. Este último ganhou inclusive dois prêmios de literatura, um do PapoMix e um da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, a ONG que realiza a maior parada LGBT do mundo! – Nossa! Devem ser bons mesmo! Vou querer, sim. Mais uma vez obrigado!

– Imagina. E o Gabriel, já deveria ter chegado, não? – Sim, daqui a pouco ele chega.

– E a terapia? Como está?

– Estou indo, e o Francisco está me ajudando muito. Eu não sabia que pessoas sem problemas também faziam terapia.

– Fazem sim, para se conhecerem melhor. Na vida, a gente repete comportamentos que aprendemos desde criança. Só uma pessoa de fora consegue analisá-lo e nos ajudar a melhorar. Pena que nem todos tenham condições financeiras de fazer, mas é ótimo. Ainda mais quando se pega um terapeuta bom.

– E quando o terapeuta é gay, melhor ainda, né? – Junior sorriu. – Como assim?

– O Francisco não é gay? – questionou Junior, confuso. – Não. Por que você acha isso dele?

– Não sei. Vi que você e ele, assim como outros gays, são amigos em comum no Facebook.

– Ah, o Facebook. Maldito Facebook! – sorriu. – Por que você diz isso?

– O Facebook engana, Junior. Pior, ele só mostra o grande mundo, que na verdade é pequeno, do seu círculo de amigos. Você cai em uma grande armadilha dentro dele.

– Não entendi.

– Vou explicar. Se você vai a uma balada gay, você faz amizades lá, correto?

– Sim.

– Aí você adiciona no Facebook, certo? – Sim.

– Então, você começa a interagir com estas pessoas. As pessoas com quem você mais interage, segundo a tecnologia do Facebook, são as pessoas sobre as quais você receberá mais notícias e publicações quando acessá-lo. – E?

– E aí que mora o perigo. Você fica restrito a este grande, mas pequeno, universo. O universo dos amigos em comum. – Acho que estou entendendo.

– Sim, o Facebook usa um algorítimo para te mostrar as publicações que mais tem relação com o seu universo. Ou com o universo que ele imagina que seja seu. Se você quer aprender coisas novas, ampliar seus horizontes, tem que tomar cuidado com essa rede social. E também não imaginar coisas, como se o Francisco também fosse gay. Não, ele não é. Embora eu gostaria que fosse. Ele é uma graça, não? – Sim. É uma graça mesmo! Mas sobre a terapia, ele disse que eu estou indo muito bem. Contei a ele que fui visitar meus pais, e tudo o que já havia te contado. Ele disse que isso foi muito bom, pois eu consegui resolver muitas coisas internas. Menos a parte do meu pai, que continua não me aceitando.

– Junior, o grande desejo de todo homossexual, ou da maioria dos homossexuais que conheci, é que os pais os aceitem. Que seus pais os amem, do jeito que são. Só que isso nem sempre acontece, essa é a triste realidade.

– Sim, o Francisco está me ajudando com isso. – Mas não é porque seu pai ou sua mãe não o aceitam que o mundo acabou. Ou que você tenha que mudar toda a sua vida e seguir a vida que eles acham que você deve seguir. Quem deve escolher é você. Eles te amando ou não, você é quem terá que cuidar de si mesmo. Batalhar por estudo, emprego, cuidar da sua vida e seguir adiante. Nem todo pai ou mãe é amoroso e quer ver seus filhos próximos.

– Sim, eu tenho percebido isso.

– Graças à terapia, obviamente, mas a quantidade de gente perdida neste mundo é muito grande. Muito grande mesmo – suspirou Leandro. – Eu não faço ideia das estatísticas, e nem acredito no que é dito por aí, mas eu suspeito que a quantidade de homens que gostam de outros homens, mesmo com namoradas ou esposas, é absurdamente grande. No meu bairro mesmo, eu sei que uns quatro caras, casados, gostam de homem e suas esposas nem desconfiam.

– Eu imagino.

– E a grande preocupação são estes que não são assumidos. Eles são praticamente bombas-relógio prestes a estourar. Criticam o cara que faz pegação no banheiro, mas, quando não tem ninguém olhando, são os primeiros a chupar alguém escondido lá mesmo. – Nem me fala. Eu já vi muito isso acontecer. – Eu e o Heller que o digamos. Nestes anos todos em uma relação aberta, já pegamos vários caras casados. São muitos. E também muita gente interesseira, perturbada ou querendo tirar alguma vantagem de nós dois, até pequenos furtos já tivemos em nossa casa. Por isso não saímos com qualquer um e a qualquer hora. São riscos que não desejamos correr. Sem falar nas DSTs.

– Verdade. E vocês dois, estão bem?

– Sim, estamos bem. Na verdade, começamos a namorar um cara que conhecemos em Florianópolis neste Carnaval. Alias, um dos melhores lugares e período para o tursimo GLS. Enfim, ele é gente boa, e tem algo a mais que só o sexo entre nós três. Já trocamos alianças. Tudo indica que o namoro vai durar. Já fizemos até planos de comprar uma casa juntos, os três. O problema é que ele vive terminando e querendo voltar a toda hora. Em poucos meses, já terminamos e voltamos várias vezes. E isso às vezes cansa.

– Sério?

– Sério. Eu evito comentar com as pessoas porque, você sabe, se dizer que somos gays já causa uma certa polêmica, imagina dizer que somos gays e namoramos a três? Das duas, uma: ou ficam com inveja, imaginando que role só putaria, o que não é verdade, ou saem por aí criticando pelas costas.

– Pura hipocrisia.

– Sim, e tem muita hipocrisia. Muita mesmo. E como é apenas namoro, tudo pode continuar dando certo ou não. Ninguém sabe – Leandro olhou no relógio. – Mas eu já vou embora.

– Já? Você mal chegou.

– Eu vim trazer seus livros de presente e falar com o Gabriel. Ele falou que precisava conversar comigo pessoalmente. – Sobre o que iriam falar?

– Não sei. Ele só tem eu de confidente, e mesmo assim ele é um cara muito fechado. Você sabe disso.

– Mas você nem faz ideia? – Junior perguntou, se lembrando da conversa que haviam tido sobre o Ronaldo e seu amigo que falecera. – Não, só que ele queria dividir comigo uma descoberta. Sobre uma relação que não é relação e que pode se tornar algo para sempre – disse Leandro, rindo em seguida. – Coisa de gente doida. Mas quem sabe, na loucura dele, ele tenha encontrado algo?

– Ou não, né? – Junior também sorriu.

– Sim, ou não. Afinal, a regra para todas as relações, de amizade, afetivas, sexuais, enfim, é a simplicidade, a autenticidade e a transparência. O resto vai rolando com o tempo.

– Verdade. Mas nem todo mundo é sincero, né? – Não, e não são sinceros com medo de perder o amor do outro. O medo é sempre este, perder o outro. Mesmo que o outro seja só um amigo. – Eu imagino que sim.

– No consultório mesmo, estou atendendo uma jovem que é HIV positiva. Ela pegou do ex marido, que transava com várias mulheres sem ela saber. Porém, ela toma a medicação, os antirretrovirais, e isso faz com que a carga viral dela seja baixa, isto é, indetectável. Resumindo, mesmo que ela transe com outras pessoas sem camisinha, como a carga viral é indetectável graças à medicação, as chances de ela transmitir o HIV para outras pessoas são muito baixas, quase raras – Junior ficou espantado com a informação. Leandro continuou. – Pelo que li, e eu posso estar errado porque não sou médico e nem especialista em infectologia, não existem estudos de casos de gente que tome antirretrovirais e tenha transmitido o HIV aos seus parceiros. Mesmo assim, ela reluta em contar a verdade para seu atual namorado, por medo de perder seu amor. – E eles transam sem camisinha?

– Há seis anos. Como ela ficou preocupada, pediu para ele fazer exames. Afinal, se ele pegou, deve começar o tratamento. Assim, não corre risco de morte por doenças oportunistas e pode ter uma vida tão saudável quanto qualquer outra pessoa.

– E ele pegou HIV dela? Transando tanto tempo sem proteção? – Não. Felizmente não. Ele não pegou nada. O problema é que ele pediu para ela fazer também, preocupado com ela. – Nossa, imagino o desespero dela.

– Sim, pois ela já sabe que tem, mas nunca contou. E estava aliviada porque o risco de ela transmitir é baixo.

– Mas, neste tempo todo, ela não contou por quê? – Por medo de peder o amor. Justamente o que eu estava te falando. Claro, o caso é um pouco complexo. Ele disse, logo no início, que não gostava de camisinha. Ela insistiu. E aconteceu de transarem sem. Mas a maioria dos outros namorados que ela teve desapareceu por preconceito depois que ela contou. Qualquer um, por medo, preconceito ou instinto de sobrevivência, simplesmente desaparece.

– Mas isso é errado.

– Concordo. E esse é o dilema. Contar e o cara ir embora ou não contar e ele ficar? Se ela tivesse o HIV e não tomasse medicação, e infelizmente muita gente tem e não toma porque não sabe que tem, a probabilidade de ela transmitir seria alta, pois sua carga viral seria grande. – Eu tenho muito medo de pegar doenças – disse Junior sem pensar. – Óbvio. Quem gosta de ficar doente? Ninguém! Só que existe muita falta de informação. O jeito é se prevenir. Ou, se fizer sem com qualquer pessoa, mesmo a mais puritana, deve entender que o risco é sempre seu por não ter usado. Deve-se assumir sozinho a responsabilidade pelo que se faz com seu próprio corpo e nunca culpar o outro por pegar qualquer tipo de doença. Se você optou por transar sem camisinha, o risco é sempre seu. Logo, não se arrisque e use camisinha sempre! Prevenção é sempre o melhor remédio e você nunca perde nada por isso! – É verdade – Junior suspirou.

– Mas para encerrar o assunto, quando puder, pesquise o blog de um cara chamado Jovem Soropositivo. Tem muita informação relevante lá. Casos que ele cita, médicos e estudos. Inclusive este de que quem tem HIV e toma remédio, por conta de a carga viral ser indetectável, é mais dificil transmitir. Do blog dele, dá para pegar as referências e fazer novas pesquisas. Assim, você não acha que ele inventa as coisas. – Obrigado pelo exemplo – Junior bocejou. O assunto, para ele, começou a ficar chato.

– Mas já vou indo. O Gabriel deve ter passado em algum lugar. Já deveria estar aqui, né? Por favor, avise a ele que eu vim e que eu voltarei outro dia. Pode ser?

– Pode deixar. E não se esqueça daqueles dois outros livros que me prometeu.

– Sim, “Ursos Perversos” e “Orgias Literárias da Tribo”. Pode deixar. Vou terminar de ler e, se forem tão bons quanto me disseram, compro e te dou de presente. Até breve.

Leandro foi embora. Junior olhou para o relógio e começou a se perguntar onde estaria Gabriel naquele momento. Foi então que aconteceu algo que ele jamais imaginara.

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CAPÍTULO 22

– Por favor, o senhor Prometheus Romualdo Amante Junior. – É ele, quem deseja? – questionou Junior ao telefone. – Meu nome é Fátima. O senhor é parente do Gabriel Silva Ferreira Viana?

– Não somos parentes, apenas moramos juntos. – Preciso falar com algum parente dele! – interrompeu ela. – Os parentes do Gabriel moram no Panamá. Por quê? Aconteceu algo?

– Sim. Ele acabou de ser internado na UTI. O estado dele é grave. Só um momento, por favor. – disse ela, enquanto ele já entrava em desespero. – Bom, como ele não tem alguém mais próximo que você, pode vir até aqui, por favor? É que encontramos seu telefone na carteira dele como contato de emergência.

– Sim, claro que sim. Mas o que aconteceu? – Não temos autorização para falar ao telefone. Venha o mais rápido possível, por favor.

A mulher passou o nome do hospital e o endereço. Ficava perto da multinacional farmacêutica em que Gabriel trabalhava. Junior, com a frase dela em sua cabeça, “o estado dele é grave”, tratou de ir logo ao seu encontro.

Quando Junior chegou ao hospital, ao dar o nome do Gabriel, teve que preencher uma ficha enorme com vários dados, até que foi atendido por um médico.

– Boa noite. Você é o Prometheus? – o médico estranhou seu nome ao ler a ficha que ele havia preenchido.

– Sim, sou eu, onde está o Gabriel? O que aconteceu com ele? – Junior, segundo consta aqui, ele estava trabalhando normalmente quando desmaiou. Ele se recuperou e o levaram para a enfermaria da empresa. Lá, enquanto estava sendo atendido, Gabriel desmaiou novamente. E desta vez, por um período muito grande. – O que isso quer dizer, doutor?

– Quando alguém desmaia, o fluxo sanguíneo no cérebro é interrompido por um breve período. A visão escurece e a pessoa perde a consciência. Depois volta rapidamente. O problema é, definitivamente, quando o desmaio é longo. Com a perda do fluxo sanguíneo, o cérebro fica sem oxigênio, o que pode acarretar sequelas irreparáveis. – Não acredito! Onde ele está? Eu preciso vê-lo! – Junior já estava entrando em desespero.

– Acalme-se. Neste momento, ele passa pela segunda cirurgia – disse o médico, esperando o melhor momento para contar o pior. – Segunda cirurgia?

– Sim. O convênio dele é um dos melhores, poucos têm acesso a este hospital. Mas não podemos fazer milagres. Quando ele chegou aqui, a primeira coisa que fizemos foi um exame de sangue. E foi detectada leucemia aguda.

– Leucemia? O que é isso?

– Câncer. Câncer no sangue.

– Mas isso não dá em criança?

– Não, adultos também têm. Existem vários tipos, e a dele é aguda. Muitas vezes aparece do nada e de uma forma muito agressiva. Infelizmente, a que o Gabriel tem é o tipo mais grave. Não existem estudos que apontem para um motivo específico. E, para piorar, na maioria dos casos não se encontra um doador compatível a tempo. – Meu Deus. Não acredito nisso! – Junior começou a chorar. O médico, humano, mas acostumado a dar notícias daquele tipo, apenas observava. Junior chorava de soluçar. O médico esperou ele se acalmar. Quando viu que poderia prosseguir com a conversa, perguntou: – E os parentes dele?

– Eles moram no Panamá, doutor. É uma família muito rica, são políticos lá. Gabriel, quando mais novo, veio ao Brasil fazer estágio, gostou daqui e resolveu ficar. Seus pais não gostaram. Falaram que se ele ficasse, seria por sua conta e risco. Ele decidiu ficar. Daí eles apenas se falam por telefone, e vez ou outra ele vai para lá, visitá-los. Eles não gostam do Brasil.

– Entendo, mas é primordial que eles saibam! Mesmo porque, a doação poderá vir deles, ainda mais se eles possuem recursos. – Deve ter o número deles em algum lugar lá no apartamento, vou procurar. Mas antes preciso ver o Gabriel.

– Ele não vai poder receber visitas tão cedo. Infelizmente, não sabemos o que este último desmaio afetou. Como está tarde, pode dormir no quarto dele que o convênio cobre. Mas ele não irá para o quarto tão cedo. O estado dele, neste momento, é mesmo muito grave. – Doutor, como é possível isso? Ele estava bem, esbanjando saúde. Do nada acontece isso?

– Pois é, são as fatalidades da vida. Eu trabalho em hospital há anos. Se as pessoas tivessem mais consciência da morte, que pode acontecer a qualquer momento e para qualquer um, talvez elas fossem mais felizes. Talvez elas vivessem o hoje como se não houvesse o amanhã. O médico, com muita experiência, sabia exatamente o que estava falando. Milhares de pessoas morrem todos os dias e muitos pelas coisas mais absurdas. Um vizinho dele, um garoto de 10 anos, havia falecido havia poucos meses engasgado com um gole de suco de laranja. Seu organismo havia entrado em colapso, o jovem parou de respirar e seu cérebro simplesmente parou de funcionar. Tragédias existem aos milhares e todos nós estamos constantemente suscetíveis a elas. Junior agradeceu a atenção e foi para o quarto reservado a Gabriel. De lá, ele fez ligações para Michele, Leandro, Heller e também Xande. Ninguém acreditava que isso estava acontecendo com Gabriel, rapaz tão querido por todos. Porém, a Xande, Junior pediu que passasse no apartamento deles, já que ele tinha uma cópia da chave, e pegasse um dos cadernos de anotações do Gabriel. Lá, ele tinha quase certeza, estaria o telefone dos pais do Gabriel.

Por volta das quatro horas da manhã, Junior, que dormia preocupado e muito desconfortável naquele hospital, foi acordado com a equipe médica levando Gabriel para o quarto, ainda inconsciente e cheio de acessos presos em suas veias para a entrada de medicação.

– Como ele está? – perguntou Junior assim que eles entraram. – Ele está bem – disse um dos médicos que acompanhava a equipe. – Mas precisa descansar. Pelos sedativos, ele não irá acordar tão cedo, e só quando ele acordar veremos o que pode ter sido afetado ou não em seu organismo – continuou o médico, enquanto a equipe tirava Gabriel da maca e o colocava na cama do quarto, ao lado da cama de visitantes. – Tudo bem.

– Você é parente dele?

– Não, amigo.

– Tudo bem. Aqui tem um botão. Se ele acordar ou acontecer qualquer coisa, por favor, aperte-o. Temos uma enfermeira de plantão. Se houver qualquer reação dele, avise! – disse o médico enquanto ele e a equipe saíam do quarto.

Junior ficou ali, olhando o amigo, sem acreditar no que estava acontecendo.

– Gabriel, Gabriel, pode me ouvir?

E nada de ele reagir.

– Gabriel, se estiver me escutando, saiba que você irá sair dessa! – Junior segurava a mão de Gabriel e, com a outra mão, acariciava seu rosto. – Vamos sair dessa juntos! Não se preocupe! Estou aqui do seu lado! – dizia ele, ainda segurando fortemente a mão do amigo.

Os minutos se passaram e Junior, naquele quarto, começou a ficar com sono. Até que resolveu dormir.

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CAPÍTULO 23

– Bom dia! – a enfermeira entrou no quarto logo cedo. – Bom dia! – respondeu Junior, abrindo os olhos assustado. – E ele? Como está?

Junior olhou para seu amigo. Gabriel, felizmente, abriu seus olhos lentamente.

– Gabriel! Gabriel! Não acredito que está bem! Fale comigo, meu amigo!

Gabriel, virando lentamente seu rosto em direção a Junior, tentou abrir a boca, mas não conseguia falar uma palavra. Junior viu seus olhos cheios de lágrimas, provavelmente por ter visto Junior ao seu lado. Ele realmente queria falar algo, mas não conseguia. A enfermeira, vendo aquilo, falou:

– Não tente falar, Gabriel! Você passou por cirurgias complexas. Precisa descansar. Feche os olhos.

– Gabriel, entendendo o que ela dizia, olhou para Junior e, lentamente, voltou a dormir.

– Ele ficará bem, não se preocupe! – disse ela, olhando para Junior. – Não consigo não me preocupar. Ele é praticamente tudo o que eu tenho nesta vida.

– Vocês são amigos?

– Sim, muito amigos. Ele cuida muito de mim, e eu dele. – Isso é muito bom. Amizade assim é difícil hoje em dia. – Sim. Ele vai ficar bom?

– Claro que vai! – disse ela, que repetia aquilo para todo mundo, independentemente da doença e da sua gravidade.

– Assim espero!

– Vamos. O café da manhã para acompanhantes não é servido no quarto, você precisa ir até o refeitório e, se demorar muito, ficará sem comer, pois eles encerram o serviço muito cedo. – Tudo bem. Vou aproveitar e ligar para nossos amigos.

Junior despediu-se de Gabriel, foi até o refeitório e, de lá, conversou com todos. Michele disse que só poderia visitá-los no final de semana. Como o emprego era recente, ela não poderia abandonar tudo assim, rapidamente, e pediu, por favor, que ele a mantivesse informada de tudo. Leandro e Heller estavam trabalhando e prometeram passar lá mais tarde. Xande foi o único que conseguiu faltar ao trabalho. Ele acordou cedo, passou no apartamento e pegou todos os cadernos de anotações do Gabriel. – Já estou a caminho do hospital! – disse Xande ao telefone.

Quando chegou ao hospital, eles conversaram e Junior explicou tudo o que o médico tinha lhe dito sobre o estado de saúde do Gabriel. Eles então entraram no quarto, mas Gabriel estava dormindo. A enfermeira, que passava em frente, disse que havia lhe dado um leve sedativo e que ele dormiria o dia todo até os antibióticos fazerem efeito. Junior então pegou os cadernos, a maioria contendo apenas os rabiscos matemáticos do Gabriel, que Xande pegara sem necessidade. Porém, em um deles, estava o telefone dos pais de Gabriel.

Junior ligou e, só depois de diversas tentativas, conseguiu falar com sua mãe do amigo. Ela ficou muito abalada e disse que estaria, naquele mesmo momento, pegando o pegaria o primeiropróximo voo ao Brasil para visitáa-lo.

No final da tarde, com a visita de Leandro e Heller, Gabriel abriu os olhos. Sua aparência estava um pouco melhor, mas ainda estava muito abatido. Xande e Junior tentaram falar com ele, sem sucesso. Ele apenas os observava. Parecia tentar falar, mas nenhum som saía de sua boca, era como se metade do rosto dele não conseguisse se mexer. Os dois, preocupados, chamaram a enfermeira.

– Junior, começaremos uma bateria de exames. Precisamos entender o que está acontecendo com ele. Tudo é muito recente e o estado dele ainda não é bom. – disse a enfermeira, do lado de fora do quarto, sem que Gabriel escutasse. – Você conseguiu falar com os familiares dele? –Sim, consegui. A mãe dele disse que pegaria um voo ainda hoje para cá.

– Ótimo. Eles são de onde mesmo?

– Cidade do Panamá.

– E chegam em quanto tempo?

– Voos diretos são difíceis de conseguir. Mas, se não me engano, Gabriel me disse que, quando ele ia para lá, levava de 9 a 14 horas, em média. Dependendo das conexões. Mas amanhã é certo que ela chegue. – Tudo bem. Pelo menos você conseguiu falar com eles, isso é muito importante. Vou chamar a equipe médica, você e seu amigo podem continuar aqui no quarto se quiserem. Ou podem ir para casa e voltar mais tarde. Os exames são demorados e vocês não poderão acompanhá-lo na maioria deles.

– Eu prefiro ficar.

– Você é quem sabe. Mas, realmente, não será necessário, já que ele não ficará no quarto. Se quiser ir para casa, eu anoto seu telefone e faço questão de te ligar caso haja alguma alteração no quadro clínico. – Pode ser. Se você puder fazer isso por mim, agradeço. – Faço sim, claro.

Junior passou seu número e, relutante, foi com Xande para casa. No dia seguinte, logo após o almoço, voltou ao hospital sozinho. Ao entrar no quarto, viu apenas uma mulher que ele reconheceu na hora: a mãe do Gabriel.

– Olá, você deve ser o Junior. Gabriel me mandou algumas fotos suas por e-mail.

– Sim, ele me falou que a senhora não tinha perfil nas redes sociais. – Não. Além de não gostar, não tenho tempo para isso. Nossa vida é muito agitada por lá por conta do meu marido, que é um político muito famoso.

– Sim, ele já me contou brevemente sobre isso. Aliás, onde está o Gabriel?

– Fazendo mais exames, segundo a enfermeira – ela olhou para os ladose viu os cadernos de Gabriel. Junior explicou a ela sobre aqueles rabiscos e contas que ninguém entendia.

– O Xande, com a intenção de me trazer seu telefone, acabou trazendo estes cadernos a mais. São contas do Gabriel. Ele passa as horas vagas rabiscando estes cadernos.

– Ai, ai, ai. Meu filho não perdeu essa mania! – disse ela, olhando os cadernos.

– Ele sempre fez isso?

– Sim, desde pequeno.

– Sério?

– Na escola, por conta de uma brincadeira, começou a criar um código só dele. Um código simples, mas que raras pessoas entendem. – Código? Como assim? – Junior perguntou surpreso. – É simples. Ele e o amiguinho dele, na escola, para trocar informações sem a professora ou outros saberem, inventaram este código numérico. Pelo que estou vendo aqui, não existe nenhum número sem sentido. São todos códigos. E, todos estes cadernos, pelo que estou vendo, são na verdade um diário – Ela, que já havia decorado muitos dos números, conseguiu ver claramente que se tratava mesmo de um diário. Junior, curioso, perguntou a ela como aqueles códigos poderiam ser decifrados.

– Eu te explico, sente-se aqui. A lógica é muito simples, – ela abriu um dos cadernos – mas se você não conhecer, não conseguirá decifrar o código.

A mãe de Gabriel sentou-se na cama, pegou um papel em branco e escreveu nele todas as 26 letras do alfabeto: A – B – C – D – E – F – G – H – I – J – K – L – M – N – O – P – Q – R – S – T – U – V – W – X – Y – Z. Em seguida, ao lado de cada letra, ela inseriu os números de 1 a 26 em sequência. Logo, sua pequena tabela ficou desta forma:

A: 01 G: 07 M: 13 S: 19 Y: 25 B: 02 H: 08 N: 14 T: 20 Z: 26 C: 03 I: 09 O: 15 U: 21

D: 04 J: 10 P: 16 V: 22

E: 05 K: 11 Q: 17 W: 23

F: 06 L: 12 R: 18 X: 24

– Entendi. Então, cada número composto por dois algarismos é uma letra?

– Sim, isso mesmo.

– E quando tem 00?

– É um espaço entre as letras. Ele só não elaborou códigos para ponto, vírgula, exclamação, acentos e caracteres especiais. Como eu disse, essa codificação começou com uma brincadeira da escola e é muito simples mesmo.

– Entendi. Muito obrigado por explicar. – De nada. Ele é um menino querido e gosta muito de você. Sempre que me ligava falava de você, e muito bem. Fico feliz por ele ter alguém bacana ao seu lado.

– Obrigado.

– Bom, como ele não virá novamente para o quarto, vou aproveitar minha visita ao Brasil e resolver algumas coisas por aqui. Caso aconteça algo, você pode me ligar? Por gentileza?

– Claro! Ligarei sim, pode deixar.

A mãe de Gabriel se despediu e deixou Junior ali no quarto do hospital, com aqueles cadernos. Como não tinha nada para fazer, Junior resolveu decifrar alguns dos escritos de seu amigo. Foi exatamente naquele momento que ele se recordou do primeiro número que Gabriel havia lhe dado, semanas depois de se conhecerem, e que nunca mais tinha saído de sua carteira. Sim, aquele número que Gabriel havia até decorado e que se parecia muito com aqueles códigos:

200500011315.

Junior nem imaginava que isso era, de fato, um código. Só sabia que era um número da sorte, que Gabriel havia calculado especialmente para ele e que ele jamais deveria perder. Então, ao traduzir, ele teve uma das maiores surpresas de sua vida. Aquele número era uma declaração de amor. Uma declaração que dizia:

TE AMO

Sem saber o que fazer, Junior, surpreso e sem acreditar no que lia, olhou a capa de todos os cadernos e notou que todos eles tinham a mesma sequência inicial:

10211409151800050007010218090512 102114201519001601180100190513161805

Quando traduziu as duas linhas numéricas, seguindo a mesma tabela de códigos, a tradução o surpreendeu novamente. Dizia:

JUNIOR E GABRIEL

JUNTOS PARA SEMPRE

1021140915180001071518010005192015210003151300132109201500191 5141500130119001401150003151419090715001601180118000405001605 1419011800051300172101142015002215030500050005191605030901120 0161518000116011805030518000513001309140801002209040100010718 0104050315000100040521190020150415190015190004090119001615180 0200518000315121503010415002215030500051300130521000301130914 0815002005000113150002150100141509200500042118130100020513

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1021140915180001071518010005192015210003151300132109201500191 5141500130119001401150003151419090715001601180118000405001605 1419011800051300172101142015002215030500050005191605030901120 0161518000116011805030518000513001309140801002209040100010718 0104050315000100040521190020150415190015190004090119001615180 0200518000315121503010415002215030500051300130521000301130914 0815002005000113150002150100141509200500042118130100020513

 

CAPÍTULO 24

Junior ainda não conseguia acreditar no que estava lendo. Mesmo levando tempo para decifrar cada código, cada página, ele deparava a cada minuto com os fragmentos dos sentimentos, até então ocultos, de Gabriel por ele. Foi quando, decifrando mais algumas partes, algumas coisas começaram a fazer sentido, pois não eram apenas declarações de amor, e sim explicações de por que Gabriel fazia tudo aquilo e havia tanto tempo.

“Junior, toda relação amorosa um dia acaba. Leandro me disse isso. Eu fui pesquisar sozinho e descobri mais coisas. Coisas que nem ele sabe. Sim, Junior. Descobri que o único jeito de ter você, para sempre, é não tendo você. Acredita nisso, Theus? Você acredita nisso, meu amado Junior?”

E Junior ia traduzindo, cada vez mais rápido, os pequenos textos.

“Estou aqui te olhando. Você dorme como um anjo. Tenho vontade de te agarrar. De te beijar. De te fazer carinho. De te pegar no colo. Amo tanto você, Junior. Amo desde a primeira vez em que o vi. Na verdade, não acreditei quando o vi pela primeira vez. Você não é igual, claro que não, mas você é muito parecido com o Marcos, meu amigo que eu lhe disse que morreu em um acidente de carro. Na verdade, a história não é bem essa. Um dia eu te conto. E ele também não era apenas um amigo, ele foi meu primeiro e único namorado. É verdade! Quando vim ao Brasil pela primeira vez, eu o conheci e nos apaixonamos. Por isso nunca mais desejei voltar ao Panamá. Eu só não contava com ele me deixando, e assim tão cedo, por causa dessa infeliz droga. Malditas são as drogas do mundo! Eu sofri muito com a perda dele. Foram incontáveis anos. Até então, nunca havia imaginado encontrar novamente alguém por quem me apaixonaria. Pelo menos não até você aparecer em minha vida. Meu querido Theus. Meu querido Junior!”

Junior, a cada texto traduzido, emocionava-se mais. Foi então que, desesperado, sozinho naquele quarto de hospital, ele ligou para Leandro e pediu que ele viesse encontrá-lo imediatamente. Enquanto esperava, com lágrimas nos olhos diante de tanto amor declarado pelo amigo, ele continuava traduzindo.

“O motivo de eu não me declarar Theus é simples. Já parou para ver quantos casais se formam e se separam? Pode levar dias, semanas, meses ou anos, mas a maioria deles um dia acaba. E é isso que eu quero evitar com você. Se formos só amigos, talvez possamos ficar juntos pelo resto de nossas vidas. Tudo bem que falta o sexo. Ah, o sexo! Tenho vergonha de lhe dizer isso, mas eu me masturbo tanto pensando em você. Eu te desejo muito mesmo. Mas ainda não é tempo de tentarmos algo. Eu faria facilmente sexo com qualquer amigo meu, você mesmo sabe disso. Mas eu sei que você não. E meu medo é que isso abale nossa amizade. Talvez mais para a frente você entenda e possa, quem sabe, separar as coisas. Amor e sexo não necessariamente devem caminhar juntos, diz um dos teóricos que eu estudei. Ele fala que o futuro das relações será termos vínculos afetivos e sexuais, de maneira superficial, com alguns poucos amigos. Que seremos seres completos e não precisaremos mais tanto do outro, daquele amor romântico, sufocante. Será? Eu ainda não sei. Só sei que, neste momento, o meu medo de te perder é tão grande que eu prefiro não começar nada. Se a gente não começar, a gente não termina. Não tem como terminar algo que não começamos, concorda? Agora descanse. Sempre escrevo mais à noite, quando eu posso te observar dormindo, cuidar de você e ver, de fato, o quanto você se tornou importante na minha vida. Te amo, Junior. Sempre te amarei.”

Junior, ao ler aquelas palavras, começou a chorar. Ele, que queria tanto um amor sincero ao seu lado, não imaginava que já possuísse um tão próximo e tão desejado. Foi então que, não percebendo as horas passarem durante aquelas traduções numéricas, viu Leandro chegar.

– Oi, Junior, o que aconteceu? Cadê o Gabriel? – Leandro, ao ver Junior em prantos, entrou às pressas no quarto. – Calma, ainda não aconteceu nada. Feche a porta. Preciso te contar outra coisa.

– Está bem, conte. Você me deixou desesperado. Larguei tudo e vim ver o que havia acontecido, já imaginando o pior. – O Gabriel não melhorou. Passou por cirurgias, fizeram exames e não conseguiram detectar o motivo dos desmaios. Só a leucemia, que é grave. Mas eu quero te falar sobre estes cadernos – Junior mostrou-os a Leandro, inclusive com suas anotações a lápis, decifrando alguns daqueles códigos.

– Estes são os cadernos do Gabriel! Mas, espera... – ele olhou as anotações de Junior. – São códigos? – disse, surpreso, assim que percebeu. – Sim, são códigos! Na verdade, são declarações de amor! Leandro leu as anotações na capa de um deles, em que estava escrito “Junior e Gabriel, juntos para sempre”. Então, começou a olhar algumas das traduções feitas por Junior.

– Não acredito no que estou lendo. Até hoje nunca vi algo tão puro como isso em minha vida – Leandro, que tinha anos de experiência com casais, começou a chorar.

– Pois é, sempre desejei um grande amor, e ele estava a todo momento do meu lado. Cuidando de mim.

– É verdade. De um jeito diferente, mas sim, um amor realmente forte e maravilhoso! – disse Leandro, vendo todos aqueles cadernos. Os dois se abraçaram e começaram a chorar de soluçar. Até que a notícia inesperada chegou.

– Sr. Prometheus?

Junior e Leandro, que choravam muito, se separaram, colocaram os cadernos sobre a cama e prestaram atenção ao que uma médica desconhecida, que acabara de entrar no quarto, tinha para falar.

– O Sr. Gabriel teve sérias complicações. Ele teve um novo desmaio e, com a falta de oxigênio no cérebro, mais um problema cardíaco, ele não resistiu e veio a falecer há poucos minutos. Lamento – disse a médica sem rodeios.

– Não! Não! Não pode ser! Eu preciso vê-lo. Eu preciso falar com ele. Ele não pode fazer isso comigo! Ele não pode! – Junior começou a gritar. Leandro, que também não acreditava no que tinha acabado de escutar, segurava Junior com força.

– Não! Não! Eu preciso vê-lo, doutora, eu preciso falar com ele... – lentamente, Junior perdeu as forças e caiu no chão. Leandro, não sabendo o que fazer, apenas o consolava abraçando-o fortemente, enquanto sentia a mesma dor pela perda do amado Gabriel.

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CAPÍTULO 25

Semanas se passaram. O mundo ficou frio e sem cor. Junior continuou morando no apartamento de Gabriel. A mãe do amigo, sabendo dos cadernos e da declaração de amor de seu filho, havia transferido todos os bens dele a Junior.

– Junior, foi um choque para mim a notícia de que meu filho era apaixonado por você e, antes, por outro rapaz – disse ela naquela mesma semana. – Eu não esperava isso, de verdade! Peço desculpas por minha sinceridade – falava com o olhar triste. – Queria que ele se casasse com uma mulher, tivesse filhos e me trouxesse muitas alegrias. Não que ele não conseguisse me trazer com outro homem. Você me entende, não? – Entendo. Entendo que não é fácil para uma mãe aceitar isso – Junior, que ainda não acreditava no que havia acontecido, lembrou-se também de sua falecida mãe.

– Mas, mesmo assim, eu aceito meu filho do jeito que ele é, ou foi – disse ela, ainda muito triste. – Só que hoje nada mais podemos fazer. Nada mais. Nosso Gabriel se foi. Nosso amado Gabriel. Os dois, sozinhos naquele apartamento, se abraçaram e começaram a chorar. Ela, uma mulher de negócios, sempre forte e firme, realmente não conseguia controlar sua dor. Com dificuldades, ela continuou. – Mas sabendo do amor puro que ele sentia por você, vou transferir este apartamento e tudo o que ele tem para o seu nome. – Antes que Junior começasse a falar, ela continuou – E eu faço questão! Sei que esta é a melhor decisão. E que ele, esteja onde estiver, vai ficar feliz com isso. – Muito obrigado. Não sei o que dizer. – Não diga nada, apenas aceite. Você não está ganhando apenas os bens dele, está ganhando minha amizade – disse ela, olhando em seus olhos. – Assim como ele cuidava de você, eu também vou cuidar. Você tem meus telefones e podemos nos falar sempre. Qualquer problema que você tenha, eu virei visitá-lo. Só te peço um favor.

– Pode falar.

– Toma cuidado com o mundo. Homens ou mulheres, tem muita gente interesseira. Gente que mora longe, vem para a capital, não tem onde ficar e finge amor. E fingem muito bem. Felizmente, não foi o que aconteceu entre você e meu filho. Eu sei que, mesmo que demore, você vai encontrar novamente um grande amor. E eu farei questão de ser a madrinha de casamento. Você merece todo o amor do mundo!

Aquelas palavras doíam na alma. Junior não queria um novo amor, queria Gabriel. E, a todo momento, ele pensava em seu anjo. “Por que, meu Deus, ele não tentou algo comigo? Por que ele não se declarou? Eu tinha o direito de saber! Eu passei por tantas coisas em minha vida até chegar aqui! Por que ele fez isso comigo? Medo de a gente terminar? Não queria me ter para não me perder? Que idiotice! Isso é muito injusto. Ele sabia que eu queria um grande amor. Ele estava ao meu lado e nunca me falou nada. Deveríamos ter pelo menos tentado. Iríamos começar e um dia terminar? Talvez. Mas como iríamos ter certeza se não tentássemos? E outra, poderíamos abrir a relação, poderíamos discutir outros rumos e pensar em novas possibilidades. Por que você fez isso comigo, Gabriel? Por quê? Tínhamos um futuro juntos pelo resto de nossas vidas. Mas agora é tarde, você me deixou. Você não tentou.

Você.

Não.

Tentou.”

 

FIM

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Table of Contents

CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 8

CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 14

CAPÍTULO 15

CAPÍTULO 16

CAPÍTULO 17

CAPÍTULO 18

CAPÍTULO 19

CAPÍTULO 20

CAPÍTULO 21

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CAPÍTULO 23

CAPÍTULO 24

CAPÍTULO 25

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