Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Fabrício Viana · Capítulo 1 de 1 · parte 3/6

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Theus: Do Fogo à Busca de Si Mesmo

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Ronaldo, sem saber o que fazer, saiu dali correndo. Junior, desesperado, se abaixou e começou a chorar.

– Agora você chora, né, seu marica! Por que não chorou antes? Para dar a bunda você não chora, né? Filho do demônio!

A cena foi realmente horrível. Junior, naquele sofá, se recordando de tudo, voltou a chorar. Todas as palavras horríveis que ele poderia escutar de seu pai ele escutou naquele dia. E aquilo estava apenas começando. Seu pai foi gritando e batendo nele do depósito de trigo até a porta de sua casa. Sua mãe, ao escutar os gritos, correu para a porta da casa. – Antônio, pare com isso! O que está acontecendo?

– Seu filho, Josefa... ou melhor, sua filha! Peguei dando a bunda para o Ronaldo quase agora! – ele não parava de bater em Junior. – Não, não pode ser...

– É, sim... eu vi tudo! Esse desgraçado! – Meu Deus, então era verdade! Que desgraça, meu Deus! Que desgraça! – sua mãe também começou a chorar. O desespero foi total. Alguns vizinhos escutaram a gritaria e foram correndo contar ao pastor Silas o que tinham visto. O pastor, que sempre era chamado para resolver brigas familiares, tratou logo de se arrumar e se dirigir à casa do casal. Quando chegou, o Sr. Antônio continuava batendo em Junior.

– Calma, Sr. Antônio. Acalme-se, homem de Deus! – o pastor entrou às pressas dentro da casa.

– Como vou me acalmar, pastor?

Neste momento, Junior correu para seu quarto. Seu pai continuou. – Esse menino é um desgraçado! Olha o que ele estava fazendo, pastor! E pior, com o seu primo Ronaldo! Eu vou matar aquele desgraçado! – seu pai pegou uma arma que estava escondida dentro do guarda-roupa. – Não faça besteira, Sr. Antônio, o senhor está com a cabeça quente! Acalme-se! Tudo vai se resolver.

Com jeito, o pastor se aproximou e conseguiu tirar a arma da mão de Antônio e guardá-la de volta. Junior, que tinha ido para seu quarto, foi desprezado até por sua mãe, que, na sala, não parava de chorar e também de orar e invocar o perdão de Deus.

Já a raiva de seu pai era tão grande que ele mal conseguia escutar os conselhos do pastor, tanto que não demorou muito e ele se levantou, foi até o quarto de Junior e pegou algumas roupas. Depois, agarrou o menino e o levou até a porta de casa. Em seguida, jogou tudo no meio da rua e falou para quem quisesse ouvir:

– A partir de hoje, você não é mais meu filho! Não tive um filho para ele ser viado! Quer ser viado, vai ser, mas no olho da rua! – gritou seu pai, fechando a porta em seguida.

Junior, sem saber para onde ir, começou a andar sozinho pela estrada. Ele, que não parava de chorar, não acreditava no que estava acontecendo. “Fui expulso de casa? O que foi que eu fiz, meu Deus? Como eu pude me deixar envolver com algo tão pecador? Isso só pode ser um castigo. Perdão, meu senhor! Perdão! Juro que nunca mais farei isso. Nunca mais, meu senhor! Me ajude! Por favor! Tenha misericórdia!”, culpava-se a toda hora, não imaginando o que ainda estava por vir. 1021140915180008151005000521000514190914050900010013090308051 2050003151315000405030906180118000519200519000315040907151900 0120050001071518010019150005120100050013091408010013010500190 102051300040500202104150009191915

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CAPÍTULO 9

Desorientado, Junior passou aquela madrugada na rua, completamente abandonado, dormindo em um banco sujo na beira da estrada. Nunca tinha lhe passado pela cabeça que qualquer coisa daquele tipo pudesse acontecer. Ele sabia que fazia algo proibido e que Deus não aprovava. Mas não sabia que, por causa disso, ele seria expulso de casa e perderia o amor de seus pais. “E agora? O que vai acontecer? E o Ronaldo? Onde ele está?” As dúvidas reinavam em sua cabeça e, com muito custo, ele conseguiu pregar os olhos por algumas horas.

Logo cedo, quando acordou naquela estrada, Junior, ainda atordoado, viu sua mãe de longe com uma sacola na mão. Ela andava com a cabeça baixa, seguindo em sua direção.

– Mãe... – disse ele com uma voz de menino carente, assim que ela se aproximou.

– Vim trazer algo para você comer – a mãe nem olhou para ele. – Mãe, me perdoa... por favor...

– O que você fez não tem perdão... pegue logo sua comida se não eu levo embora! – ela entregou-lhe a sacola com desprezo. – Mãe, por favor, eu juro que nunca mais vou fazer isso! Nunca mais... – Junior começava a chorar. Naquele momento, ele só queria seu abraço.

– Para de chorar, Junior! Nunca imaginei que teria um filho invertido! Que decepção, meu Deus! Que decepção! – gritou ela, fazendo cara de desaprovação.

– Desculpa mãe. Eu estou arrependido. Juro! Nunca mais vou fazer isso. Nunca mais! Passei a noite toda orando e pedindo perdão! Por favor, mãe, me dá um abraço...

– Não, Junior... eu não dei à luz um filho torto! Um filho imundo! Você é uma aberração! Você envergonhou seu pai, envergonhou sua mãe, envergonhou Deus e todos aqui do Mirizola – ela citou o nome do bairro onde moravam e se afastou. – Ande, coma logo! – ela continuou, ainda com desprezo. – Você tem sorte que o pastor Silas passou a noite conversando com seu pai. Ele explicou que você está doente, muito doente! Isso que você fez não é coisa de Deus! Deus não fez Adão e Ivo, ele fez Adão e Eva para serem felizes no paraíso! 

Junior, pegando a comida e escutando o sermão de sua mãe, chorava de soluçar.

– Hoje à noite você irá para Belo Horizonte. O pastor Silas disse que lá tem um sítio que cura pessoas doentes como você. Você vai ficar curado! Ele tem amigos pastores que hoje são casados, têm filhos e se livraram deste mal. Você vai ficar bem também!

Que lembrança triste. O que ele mais queria naquele momento era um abraço de sua mãe e escutar dela que ele ainda era seu garoto amado. Mas não. Ela ficou tão envergonhada e decepcionada com o filho que “não era mais homem” que todo o seu amor se transformou em ódio. Por isso, a todo momento ela se manteve fria, com desprezo e distante daquele que até então era a maior preciosidade de sua vida.

Quando a noite chegou, ele, que havia passado o dia na rua sozinho, abandonado e desorientado, se reencontrou mais uma vez com sua mãe. Ela estava de carro com o pastor Silas e um amigo dele. O pastor, reforçando que ele estava doente e que precisava de ajuda, disse que ele iria passar alguns meses em uma fazenda de recuperação em Belo Horizonte. Que os custos seriam pagos por seu pai e que, por isso, ele deveria aproveitar ao máximo a estadia e, principalmente, os ensinamentos de nosso senhor Jesus Cristo, o Deus vivo.

Junior, que estava completamente perdido e sem opções, concordou. Então, o pastor lhe deu um livro cujo título era “A Cura da Homossexualidade” e pediu que ele lesse no caminho, dentro do ônibus, pois a viagem era longa. Mas que ele deveria ficar despreocupado, pois já estava tudo pronto para ele partir.

– Vou levar você agora para a rodoviária de Capão Bonito – continuou o religioso. – Lá, você pegará um ônibus direto para Belo Horizonte. O pastor Elias, meu amigo, estará lá lhe aguardando. Tenha fé em Deus. Junto com o livro tem também uma Bíblia, mais um presente meu.

Em seguida, o pastor Silas deixou sua mãe em casa e partiu para a rodoviária. Ela, ao descer do carro, entrou sem olhar para trás e sem se despedir. “Como pode? Minha própria mãe não ter se despedido de mim?”, pensou ele. Para piorar, Junior sabia que nunca mais a veria e aquela era a última imagem que ele teria dela.

Chegando na rodoviária, triste e abandonado, Junior entrou naquele ônibus e, com a cabeça borbulhando, passou a viagem inteira orando enquanto se arrependia amargamente de seus pecados. 1301091900211301001415092005000500052100051920152100011721090 0200500150219051822011404150004050014150920050014011500030114 1915000405000601260518000919191500140115000301141915000405000 321090401180004050022150305

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CAPÍTULO 10

Tudo aconteceu muito rápido e era a primeira noite que ele passava fora de casa e na presença de estranhos, tanto na rodoviária quanto no ônibus. Não tinha como não culpar o sexo por tudo aquilo. Era algo tão recente, tão triste e tão marcante que ele jamais poderia esquecer toda aquela experiência. E tudo por causa, novamente, do sexo. Assim que chegou na rodoviária de Belo Horizonte, e ele também se recordou de tudo com detalhes, lá estavam o pastor Elias e o Abimael lhe aguardando.

– Seja bem vindo, Junior! – o pastor Elias estendeu a mão para cumprimentá-lo.

Junior o cumprimentou, mas não respondeu nada. Elias, entendendo o que o garoto sentia, continuou.

– Eu sou o pastor Elias, este aqui é o Abimael, meu braço direito. Você deve estar cansado e confuso. Não se preocupe, meu filho, tudo vai passar e ficar bem... – Elias o ajudou, pegando uma das malas.

Abimael foi na frente, eles entraram em um carro e, no caminho, o pastor disse que a viagem seria longa, pois o CRADH, Centro de Recuperação dos Amigos que Deixaram a Homossexualidade, ficava em uma fazenda a quase três horas de distância. Para ajudar, o pastor explicou que lá ele teria acompanhamento psicológico, participaria de palestras e grupos de ajuda, escutaria testemunhos de vida e teria várias atividades bíblicas que o ajudariam a ter uma vida digna aos olhos de Deus. Quando chegaram, e já era de madrugada, Abimael pediu que ele não fizesse barulho, pois mais de 60 jovens estavam dormindo. Depois explicou a primeira regra do lugar: – Cada quarto, Junior, tem quatro camas na forma de dois beliches. Porém, uma das camas, em cada quarto, é reservada ao que chamamos de Monitor de Deus. Ele é responsável pela segurança, pelos ensinamentos da Santa Palavra e, principalmente, por não deixar o mal se fazer presente. Por isso, o uso do banheiro junto com outra pessoa é terminantemente proibido. Não se pode entrar com acompanhante e nem demorar mais do que o tempo previsto dentro do banheiro. Tentamos evitar também, além do vício do homossexualismo, o pecado da masturbação e tudo o que remete ao sexo impuro. Deus não abençoa nada que não seja da natureza humana. Junior prestava atenção a tudo. Ele não sabia que se masturbar também era considerado pecado. Isso fez com que ele ficasse pior ainda, dada a quantidade de vezes que ele já tinha se masturbado em sua vida.

– Vem comigo, seu quarto fica logo ali. Aliás, seu monitor é aquele rapaz – Elias apontou para um homem que os esperava na porta do quarto. – Ele se chama Davi, tem 49 anos e está com a gente há quase cinco primaveras. Ele vai lhe indicar a única cama vaga deste quarto e, amanhã, te explicar o funcionamento do lugar. O importante agora é você dormir e descansar.

Abimael e o pastor Elias lhe desejaram boa noite e foram para seus aposentos. Davi, muito atencioso, recepcionou Junior e falou novamente sobre a regra de não poder entrar, jamais, no banheiro acompanhado de outro interno. E ainda completou dizendo que nem no banheiro nem em nenhum outro lugar. Que, se isso acontecesse, ele estaria não só se traindo e caindo em desgraça, mas principalmente traindo Deus, que tudo via e tudo sabia.

Junior, absurdamente exausto, entregou suas malas para Davi, que as guardou no guarda-roupa, e em seguida deitou-se na única cama vazia do beliche. Davi se deitou na outra, apagou a luz e desejou boa noite.

Como era costume, Davi acordou todos muito cedo na manhã seguinte. Junior, que pela segunda vez dormira fora de casa, só observou o novo lugar sem sair da cama. O primeiro colega de quarto que ele viu, além de Davi, foi um alemão cabeludo, magrinho e de olhos claros, que se levantou da cama e fez questão de ir cumprimentá-lo. – Olá, seja bem vindo, irmão! Eu sou o Felipe, muito prazer! – ele estendeu sua mão. – Aquele ali é o Fernando e o outro é o Lucas – apontou para os demais. Junior, um pouco tímido, estendeu a mão e o cumprimentou. Ele era realmente muito receptivo. Davi, preocupado com o horário, pediu que todos se apressassem para não perderem o café da manhã e, olhando para Junior, explicou mais uma vez o que já tinha dito aos demais:

– Sempre que eu precisar sair do convívio de vocês, mesmo que seja por alguns minutos, os que ficarem serão os olhos de Deus no meu lugar. Qualquer anormalidade é sinal de que o mal está tentando nos corromper. Portanto, irmãos, sejamos fortes. Lembrem-se do sangue derramado de Cristo, do motivo de estarem aqui e de quanto é importante abandonar este vício demoníaco. Já falei sobre a minha vida para vocês e falo de novo para que o Junior também a conheça. Eu já estive no lugar de vocês e, graças ao CRADH e a nosso Senhor, hoje eu estou casado e tenho uma esposa maravilhosa que me dá muito orgulho. Se eu consegui, vocês também conseguem, certo? Depois da conversa, um a um, usaram o banheiro para fazer suas necessidades, lavar o rosto, escovar os dentes ou tomar um banho rápido. Quando terminaram, foram para o refeitório tomar café.

– Junior, aqui, cada semana é escolhido um grupo para preparar o café, outro para cuidar da horta, outro para cuidar da limpeza, do almoço, do jantar e assim por diante. Como temos muitas despesas e vivemos das doações voluntárias de familiares e amigos, todos aqui fazem um pouco de tudo! – explicou Davi. Quando o café terminou, o grupo de Junior foi para um galpão onde, todos os dias, os internos se encontravam para ouvir palestras, sermões ou testemunhos, para orar, estudar a Bíblia e fazer suas atividades com o objetivo de se livrar da doença pecaminosa chamada homossexualismo.

Era verdade, aquele CRADH, que mais parecia um retiro espiritual misturado a um centro de recuperação de viciados em drogas, era uma ramificação com base religiosa muito forte não só em Minas Gerais, mas também em várias regiões do Brasil. Todo o seu trabalho era baseado na pregação da palavra de Deus, até mesmo por alguns psicólogos voluntários que se denominavam “Psicólogos da Fé em Cristo”, mas que usavam a Bíblia para promover suas pseudo terapias de cura. Sim, todas camufladas com o bonito nome de “Aconselhamento Espiritual Bíblico”, já que, na prática, eles sabiam que eram proibidos de promover explicitamente a cura da tal homossexualidade.

Porém, naquele primeiro dia, escutando vários pastores e internos antigos que davam seus testemunhos, Junior paralelamente se recordou de sua casa, de Capão Bonito, da sua vida, do milharal, de seus pais e... do Ronaldo! Por mais que ele tentasse evitar, tudo era muito recente, e Ronaldo era seu melhor amigo e o havia acompanhado até então durante quase todos os seus momentos. Eles se viam, conversavam e brincavam sexualmente e afetivamente de manhã, de tarde e à noite em suas férias. Sem falar que, embora ele não tivesse consciência disso, o que ele sentia por Ronaldo não era só um amor fraterno entre amigos. Tinha algo muito mais forte que crescera ao longo dos meses de convivência. A saudade, a vontade de vê-lo, de estar próximo, de ter notícias suas e de, quem sabe, voltar a beijá-lo era mesmo muito grande. Mas tudo ainda estava muito confuso em sua cabeça e a prioridade era ter de volta o amor de seus pais.

Quando a noite chegou, Junior, que passara o dia em atividades contra o homossexualismo, se deitou e pegou rápido no sono. Agora, sentado no sofá de Gabriel, ele se lembrou inclusive que, na segunda madrugada dentro daquela fazenda, ele acordou com Fernando, seu colega de quarto, se masturbando escondido debaixo dos cobertores no beliche. Não sabendo ao certo o que fazer, Junior acordou Davi e contou o que Fernando estava fazendo. Estranhamente, pela alienação que o cegava, Fernando agradeceu por ter sido entregue e disse que entendia que Junior estava sendo apenas “os olhos de Deus”. Mesmo assim, nenhum deles se livrou do sermão dado por Davi. – Fernando, entre no chuveiro e tome um banho gelado de cinco minutos. Estarei contando no relógio. Evite tocar nas partes íntimas. A água que é usada para o batismo irá auxiliar em sua purificação, limpando a carne que é a moradia de Deus – Davi falou referindo-se ao corpo de Fernando. – Enquanto isso, Junior, acorde os demais. Vamos todos orar para nosso Deus todo poderoso até o dia amanhecer – continuou ele.

Quando Fernando saiu do banho, os demais já estavam acordados orando pelo pecado cometido pelo irmão. Davi, que tinha a função de ensinar e evangelizar, continuou: – Meus irmãos, entendam uma coisa: o sexo é sujo e por isso deve ser usado apenas para a reprodução, finalidade única para a qual foi criado por nosso Deus vivo. Jogar ou desperdiçar o sêmen é jogar fora a origem da vida. Só existe um lugar em que o sêmen deve ser depositado, e este lugar é o santo ventre de uma mulher. Assim Deus fez o ser humano,

baseado na natureza e na concepção sadia dos dois sexos. Qualquer coisa que fuja disso é obra do inimigo de Deus, aquele que quer nos corromper e nos levar para a vida mundana e perversa. Amém?

E assim eles concordaram e oraram até o dia amanhecer.

Semanas se passaram e, cada dia mais, Junior estava convencido de que ele realmente era um pecador e que, graças a Deus, ele poderia esquecer seu amigo Ronaldo, eliminar todos os desejos impuros, nunca mais se masturbar, ter de volta o amor de seus pais, casar, ter filhos e construir uma família abençoada. Porém, junto com a esperança de tudo voltar a ser normal, ele começou a ter também pesadelos e sonhos repetitivos todas as madrugadas. O mais interessante era que os sonhos eram formados sempre por imagens obscuras de homens nus, movimentos de corpos simulando sexo e imagens distorcidas de alguns rapazes que ele tinha acabado de conhecer naquela fazenda. No final destes sonhos, e isso também o deixava perturbado, ele sentia a presença do mal que aparecia disfarçado de fogo queimando tudo ao seu redor. Por mais que ele fugisse, o fogo estava sempre por perto. Junior, que não contava sobre estes sonhos a ninguém, sabia que eles eram obras do demônio, que, a todo custo, tentava puxá-lo para as trevas. Mas ele, como tinha escutado certa vez do pastor Elias, aprendeu que deveria lutar sempre contra o seu maior inimigo: ele mesmo.

– Meus filhos! – disse o pastor Elias certo dia. – Nós criamos esta fazenda para ampará-los. Não temos nenhuma grande igreja por trás deste trabalho pagando nossas contas, exceto aquelas que, voluntariamente, contribuem financeiramente para ajudar a ajudá-los. Fora isso, temos nossos pastores, monitores, psicólogos, palestrantes e colaboradores, que, também voluntariamente, vêm aqui com o coração cheio de amor abençoado pensando em vocês. Por isso, meus filhos, que eu digo, não é nada fácil abandonar o vício do homossexualismo. Como eu já disse a vocês, é um trabalho difícil e que não depende apenas da gente. Ele depende principalmente de vocês mesmos! Ponham em sua cabeça esta frase: seu maior inimigo é você! – ele escreveu a frase na lousa e a grifou.

Depois de uma pequena pausa para que aqueles 60 pares de olhos gravassem aquela mensagem, ele continuou: – Eu falo que o maior inimigo é você mesmo porque o sexo, o desejo, o tesão, meus irmãos, é usado pelo senhor das trevas para corromper o homem. Para corromper você quando você menos espera. E o que fazer quando isso acontece, pastor Elias? Eu respondo, meus filhos! Orem ao senhor. Ocupem a mente. Tomem banho gelado se for preciso. Leiam a Bíblia. Saiam de casa e preguem a palavra do senhor. Saibam que, muitas vezes, o problema do outro é muito maior do que o seu e ele está só precisando escutar a palavra. E não tenham vergonha ou medo. Jesus não tinha! Com estas atitudes, meus filhos, o mal os deixará temporariamente. Ouviram? Temporariamente! Porque quando você menos esperar, ele estará lá, de novo, o tentando e perseguindo. A luta, meus irmãos, é constante. E é sempre você contra você mesmo! Amém?

Todos sempre concordavam com tudo. Mesmo assim, Junior, que lutava consigo mesmo e acreditava que sua vida poderia ser mudada, que ele só tinha feito brincadeiras malignas com o Ronaldo e que ele não gostava de homens, não deixava de perceber certas incoerências naquele ambiente. Logo nas primeiras semanas, por exemplo, ele notou que muitos daqueles que se diziam curados, que constituíram família e abandonaram o vício, falavam de uma maneira não muito condizente com suas expressões faciais. Tanto que, em seus testemunhos, a palavra “felicidade” era regularmente mencionada, mas seus rostos, fora dos olhares menos atentos, demonstravam tristeza e sofrimento. Algo estava errado e Junior, sempre curioso, só precisava descobrir o que era.

Sem falar que, durante sua estadia naquela fazenda, Junior escutou histórias, depoimentos e testemunhos bastante diversificados sobre as práticas terríveis dos pervertidos homossexuais. Foi lá que ele ouviu falar em boates, pegações em banheiros, dark rooms, saunas gays, clubes de sexo e orgias, encontros de homens casados e outros assuntos que só demonstravam o mal em todos os lugares.

Estes relatos, na prática, só o perturbavam ainda mais, aumentando significativamente seus pesadelos e o esforço que tinha que fazer para ignorar, contornar e negar qualquer instinto sexual. Afinal, seu principal objetivo deveria ser conquistado: ter de volta o amor de seus pais. E ele só queria isso. O problema era que os pais de Junior nunca mais haviam mantido contato com o garoto, desde o primeiro dia de sua estadia naquela fazenda. O que fez com que ele, não aguentando a espera, pedisse permissão ao monitor Davi para conversar pessoalmente com o pastor Elias sobre isso. – Pastor? Posso entrar? – perguntou ele, batendo em sua porta.

– Entre, meu filho.

– Pastor Elias, boa tarde. Pedi permissão ao Davi para vir aqui falar com o senhor. É sobre meus pais, todo mês temos visita ou recebemos cartas e eu, até agora, não recebi nada.

– Eu sei, meu filho, e isso também me preocupa. Mas você não é o único caso, é assim mesmo que as coisas às vezes funcionam. – Mas, pastor, como vou saber ou ter notícias deles? Como vou saber se eles ainda me amam? Se me perdoaram? – Calma, Junior. Nosso trabalho é de formiguinha. Este é um assunto delicado, eu mesmo já disse que deveríamos ter duas fazendas, uma para os filhos e outra para os familiares e amigos, pois muitos pais realmente não entendem e custam a aceitar este deslize.

– Então é isso? Eles ainda estão tristes com o que aconteceu? Mas já faz quase dois meses, e nenhum tipo de contato. – Sim. Para ser sincero, eu conversei com eles estes dias e devo dizer que eles realmente estão muito tristes e chocados ainda. – Sério? O senhor falou com eles? – Junior arregalou os olhos.

– Sim, e eles me contaram um pouco de você, que sua mãe sempre teve dificuldades para engravidar e, quando eles estavam quase perdendo as esperanças, um milagre aconteceu e você veio ao mundo. Você, desde pequeno, foi muito bem criado pelos dois, que, durante toda a sua vida, fizeram planos para que você fosse feliz, frequentasse a igreja, tivesse uma boa esposa e filhos. E aí, por motivo de forças malignas, esse sonho acabou e se tornou um pesadelo. É difícil, muito difícil, para um pai ou uma mãe aceitar qualquer prática sodomita.

– Mas, pastor, por que eles não entram em contato? – Junior insistiu em sua principal queixa.

– Junior, eles estão chocados e você ainda não é digno do perdão deles. Eles precisam de mais tempo para perdoar e voltar a te amar. E isso pode demorar anos. Tanto que recomendo que você não os procure, deixe-os sentirem falta, perceberem que te amam e, aí sim, eles entram em contato. Tenha paciência, meu filho. – Tudo bem, pastor. – Junior concordou, suspirando. – O senhor está certo. Vou ter paciência – disse ele ainda triste.

Junior não percebeu naquele momento, mas algo estranho acontecia.

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CAPÍTULO 11

Junior já estava naquela fazenda havia aproximadamente seis meses quando, com muita saudade de seus pais e sem ter qualquer notícia deles, pediu novamente para conversar com o pastor Elias.

– Entre, Junior.

– Pastor, estou muito preocupado. Vou fazer seis meses aqui e nada de informações dos meus pais. O que está acontecendo? O senhor conseguiu falar com eles?

– Não, Junior, são muitos internos e, para muitos, a ligação acaba ficando cara pela distância, tanto para eles quanto para nós. Mas não se preocupe, tudo está bem.

– Mas são seis meses e nenhuma visita, nenhum telefonema e nenhuma carta. Carta é o que meus amigos daqui mais recebem. E eu nunca recebo nada – ele reclamou com um tom indignado, quase chorando de tanta saudade.

– Calma, Junior. Logo seus pais virão te ver ou entrarão em contato. Espere Deus tocar no coração deles. Tudo no seu tempo. – Não, pastor, não dá mais para aguentar, preciso ter notícias deles! – Junior, pense de outra forma, aprenda a observar as coisas que não são facilmente observadas – o pastor se dirigiu para a janela daquela casa, que ficava no alto de um morro. – Venha até aqui e olhe lá fora. Junior foi até a janela, de onde pôde ver praticamente toda a fazenda. Em seguida, o pastor Elias continuou. – Veja bem, meu jovem. Tudo aqui é muito grande e isso gera um custo absurdo. Vai desde o aluguel do sítio até a comida que cada um come. Sem falar na luz, na água e outras despesas.

– Mas o que isso tem a ver? – perguntou ele, confuso.

– Isso quer dizer que, infelizmente, não podemos manter nenhum interno aqui no sítio gratuitamente. Adoraríamos, mas não podemos. Se você está aqui há todos estes meses, é porque seus pais continuam pagando sua estadia. Todos os meses. E não é um valor baixo. Entendeu? – Ainda não.

– Então pense comigo. Todos os meses, seus pais vão até o banco e depositam seu suado dinheiro em nossa conta. Nós pedimos seis salários mínimos mensais, mas, em alguns casos, como o seu, aceitamos o que a família pode contribuir, isto é, no mínimo quatro salários mínimos. Menos que isso não.

Junior, ainda olhando para fora da janela, prestou atenção a tudo o que o pastor falava. E ele continuou:

– Então, Junior, todos os meses seus pais pegam o dinheiro suado que ganham no milharal e vão até o banco pensando em você. Exclusivamente em você. “Estamos indo depositar o dinheiro que garante a estadia e as boas condições do nosso filho”, devem pensar. E isso é amor! Se eles não te amassem, não estariam pagando e você não teria todo este apoio em um momento tão difícil, amém?

Junior, entendendo e se comovendo com a sua história, começou a chorar.

– Então eles me amam, pastor? – Junior perguntou com o rosto cheio de lágrimas; afinal, desde que havia entrado naquele sítio, esta era a primeira confirmação de que seus pais ainda o amavam. – Sim, Junior, embora não mantenham contato, eles pensam em você pelo menos uma vez por mês – Elias se aproximou do garoto para lhe dar um fraterno abraço.

A cena foi realmente digna de filme. Era como se pai e filho se abraçassem carinhosamente. Junior se recordava muito bem daquele dia. Aquele abraço lhe trouxe a sensação de paz, tranquilidade, aconchego e, depois de alguns segundos abraçado e ainda chorando, lhe trouxe também a sensação de algo que aumentava de volume dentro da calça do pastor Elias. Sim, o pastor ficou excitado em poucos segundos, e Junior sentiu aquele imenso volume rígido do religioso.

“O que é isso?”, pensou Junior. O susto do garoto ao sentir aquele negócio duro encostando nele foi automático, assim como a sua atitude de se afastar imediatamente do pastor, que, constrangido, não sabia o que dizer. – Desculpe, meu filho... Não foi minha intenção – disse Elias, totalmente envergonhado.

Junior, não entendendo nada, parou imediatamente de chorar. Em seguida, o pastor Elias continuou:

– Junior, me perdoe... Entenda que eu também sou filho de Deus e, por isso, imperfeito – ele tentou se explicar, ainda muito constrangido. – Você não sabe o esforço que eu também faço contra tudo isso – continuou com os olhos cheio de lágrimas, e agora era a vez do pastor de chorar. – Mas... você... você não disse que não sentia nada há anos? – perguntou Junior confuso, relembrando os vários testemunhos do pastor Elias em que ele afirmara várias vezes que estava totalmente curado. – Sim. Eu disse. Pelo menos até você aparecer por aqui. – respondeu ele baixinho e ainda envergonhado.

– O que você quer dizer com isso?

Àquela altura, toda a conversa mudou da água para o vinho. Ou melhor, mudou da água para a cachaça mesmo. Daquelas bem fortes. – Junior, sou um dos fundadores deste lugar, já escrevi livros, já dei palestras em vários lugares deste imenso Brasil contra o homossexualismo, promovi diversos encontros bíblicos de ex-gays, me casei, tive filhos e tenho uma reputação religiosa a zelar. Porém, desde que eu o vi pela primeira vez aqui na fazenda, o mal tem me consumido de corpo e alma. Não paro de pensar em você, de te observar, de te espiar e de arrumar pretextos para estar sempre próximo. – desabafou ele, enquanto saía de perto e sentava com a cabeça baixa em uma cadeira. – Pastor Elias, do que você está falando? Junior, que recebeu aquela bomba toda de uma vez, custou mesmo a acreditar.

– Nada, meu jovem. Não estou falando nada. Não aconteceu nada. – disse o pastor, tentando mudar de assunto. Ele sabia que não poderia se abrir completamente com o rapaz sob o risco de colocar todo o seu trabalho a perder.

– Junior, isso foi apenas um deslize meu. Por favor, vamos esquecer isso! – disse ele ainda com os olhos cheios de lágrimas. – Pastor, eu estou aqui já tem seis meses! Sabe o que são seis meses? É metade de um ano. É muito tempo! – Junior começou a ficar irritado. – Aprendi muitas coisas aqui e o senhor é meu maior exemplo. Não só meu, mas de muitos outros irmãos. Você fundou este lugar junto com o Abimael. Disse que não sentia mais os desejos perversos há anos! – Junior, me desculpe, eu realmente não sei o que aconteceu. Mas desde que você apareceu, minha cabeça virou alvo de desejos malignos. – desabafou Elias, voltando a se abrir.

– Mas como isso pode acontecer? Não é apenas algo passageiro? Tomou banho gelado?

– Sim, meu filho. Vários banhos e a quase todo momento... por favor, não conte isso a ninguém... – ele pediu envergonhado. – Tudo bem. Mas como isso foi acontecer? – Eu também não sei. No primeiro dia em que fomos te buscar, eu te achei um rapaz bonito. Mas não senti nada. Com os dias, com seu sorriso, seu olhar, seu jeito, eu comecei a te olhar com outros olhos. No início fiquei bastante confuso e não sabia o que fazer. O tempo passou e eu continuo não sabendo.

– Mas isso não pode estar acontecendo. E por que justamente comigo?

– Eu não sei, Junior. Não sei mesmo. Mas aqui dentro nós sabemos que nem todos os internos conseguem se livrar deste mal completamente – soltou, querendo dividir alguns segredos.

– Como assim, pastor?

– Não sei se devo te contar.

– Não, agora conte! Por favor!

– Tudo bem, mas você promete não contar a ninguém? – Prometo.

– Você sabe quem é o Felipe? O alemãozinho cabeludo e de olhos claros que divide o quarto com você?

– Sim, ele é um dos meus grandes amigos aqui dentro, foi o primeiro que me cumprimentou quando cheguei. – Então, ele é um antigo caso do Abimael. – Do que você está falando?

As surpresas estavam cada vez piores.

– Junior, nós tentamos a todo o custo vencer este mal. Mas nem sempre conseguimos. O Abimael, que me ajudou a fundar este lugar, há anos vinha escondendo de mim este relacionamento. Até que eu descobri – disse o pastor.

– Como? Do que você está falando?

– Era madrugada. O Abimael disse ao Davi que o Felipe iria ajudá-lo a organizar a biblioteca para uma festa que iríamos fazer na manhã do dia seguinte. Ele foi e eles realmente passaram a madrugada inteira arrumando o lugar. Porém, no primeiro horário da parte da manhã, poucas horas antes da festa começar, eu fui lá ver como havia ficado e os dois estavam em um canto escondido se beijando e se masturbando mutuamente. O Abimael tentou se explicar, mas não tinha explicação. Sentamos nós três e eles abriram o jogo. Eles mantinham relacionamento há mais de dois anos aqui e continuam mantendo, escondido. Tanto que o Felipe já deveria ter retornado para seu lar e só está aqui por causa do Abimael. – Meu Deus, que loucura! E os dois são casados e têm filhos! – Junior não se conformava com aquilo, afinal, ele havia convivido com os dois e chegara a conhecer suas esposas e filhos pessoalmente quando vieram visitá-los.

– Sim, é vergonhoso o que estou te contando, e até terrível, mas é o que acontece. E também é o que está acontecendo comigo em relação a você. A propósito, deixe eu te perguntar, você, nestes meses todos, conseguiu se livrar deste mal?

Junior, sabendo que poderia ser sincero diante das confissões do pastor, falou a verdade:

– Não – ele respondeu com a cabeça baixa. – Eu fico excitado e me masturbo escondido de vez em quando.

Elias apenas o observava, talvez imaginando-o se masturbando. Junior continuou.

– Eu não sei, mas desde que vim para cá, ouvi falar tanto contra o homossexualismo que cada vez tenho mais vontade de praticá-lo – ele continuou, agora era a sua vez de ficar envergonhado. – Em outro momento, Junior, eu o aconselharia a esquecer isso. Mas tenho tanta vontade de beijá-lo que não sei o que dizer – Elias olhava-o nos olhos. Junior se recordou das outras conversas em que o pastor também havia olhado para ele daquele jeito.

– Mas, pastor, isso acontece com todos aqui? – Não. Claro que não. Muitos daqui conseguem e vivem felizes longe deste vício. Mas nem todos são fortes. Ainda mais quando são tentados. E você é a minha maior tentação. – disse o pastor, aproximando-se e tentando beijá-lo.

Junior, não querendo aquilo, se revoltou e empurrou o pastor Elias para longe. Em seguida começou a falar alto.

– Então tudo isso é uma farsa? – Junior olhou para os lados, quase surtando de raiva.

– Não, Junior! Por favor, fale baixo!

Neste momento, Elias percebeu que tinha falado demais. – Pastor, eu passei seis meses da minha vida aqui, sendo convencido de algo que não existe! Seis longos meses!

– Por favor, se acalme! Fale baixo!

– Não! Não consigo ter calma! Bem que eu percebi algo estranho no ar, mas nunca poderia imaginar isso! Pior de tudo, meus pais não mandam notícia e eu fico aqui trancado neste sítio, aprendendo que posso me curar quando os próprios fundadores mostram uma cura inexistente! Desculpe, mas aqui eu não fico mais!

– Não fica mais? E se você não ficar aqui, você vai para onde? Para a casa de seus pais? Você só pode estar brincando, garoto – o pastor começou também a levantar a voz, mas em tom sarcástico. – E por que não? Já se passaram meses, com certeza meus pais já me perdoaram, melhor do que ficar aqui neste antro de pecado, perdição e sodomia! – ele gritou, indignado.

– Se você acha isso, então vá. Seus pais te amam, depositam o dinheiro todo mês, mas eles não suportariam olhar para um filho tão torto como você! – ele usou de propósito a mesma palavra que sua mãe havia usado e que Junior tinha comentado numa dinâmica de grupo. O pastor sabia mesmo como usar a psicologia para atingir a alma de qualquer um. Tanto que o Junior imediatamente começou a chorar, recordando-se de sua mãe.

– Mas eu vou para algum lugar! Começar uma vida nova. Não posso ficar em um lugar em que não me sinto bem. – Junior ainda chorava. – Aliás, eu me sentia, pelo menos até algumas horas atrás. Como vocês podem fazer isso com as pessoas? E pior, com Deus? – continuou ele. – Pois então, meu jovem, esqueça tudo isso. Vamos fazer de conta que não aconteceu nada aqui, vamos orar, vamos voltar como tudo era antes, amém? – Elias falou calmamente, com a maior cara de pau do mundo.

– Não! Aqui eu não fico mais! – Junior enxugou os olhos e saiu decididamente em direção à porta.

Junior, extremamente nervoso, saiu da sala do pastor Elias, foi até seu quarto, pegou suas roupas e documentos e se dirigiu para a portaria da fazenda. Davi o viu de longe e tentou barrá-lo, mas o pastor Elias fez sinal para deixá-lo ir. Junior estava tão abalado que tremia muito. O pastor, com medo de que ele estragasse tudo lá dentro, não fez questão alguma de segurá-lo.

Quando Davi perguntou o motivo da revolta e da saída repentina de Junior, Elias apenas disse que ele não aguentou a saudade do ex-namorado. E que eles tinham perdido mais uma ovelha para os lobos. A mesma história que contou também para os pais do garoto.

Junior, chocado com a realidade e com as confidências absurdas daquele lugar, andou por aquelas estradas desertas mais uma vez se sentido sozinho, abandonado e sem rumo. Era a segunda vez que ele sentia isso em tão pouco tempo. Por sorte, uma caminhonete parou na estrada e perguntou para onde ele estava indo.

– São Paulo. Estou indo para São Paulo – Junior falou, sem pensar. – Você tem sorte, rapaz! Estou indo para lá, vou fazer uma entrega na capital, bem no centro, e posso te deixar na Praça da República. Está bom para você?

– Sim, está ótimo – respondeu ele, um pouco atordoado, sem fazer a mínima ideia de onde seria a tal praça.

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CAPÍTULO 12

Ainda sentado naquele sofá dentro do apartamento de Gabriel, Junior ia relembrando tudo o que acontecera.

Aquela viagem que ele fez de Belo Horizonte para São Paulo foi longa, e Junior dormiu a maior parte dela. O homem que lhe dera carona não era muito de conversar e isso ajudou, pois o que ele mais precisava era ficar sozinho. Mesmo assim, a preocupação e o medo do desconhecido eram grandes. Ele já tinha escutado várias histórias boas e ruins sobre São Paulo, mas era a primeira vez que pisaria em uma cidade grande. E sem nenhum conhecido por perto.

Conforme a caminhonete se aproximava da capital, Junior admirou perplexo a beleza da paisagem cinzenta. Nunca tinha visto tantas casas juntas, coloridas, algumas em construção, e, a partir do momento em que chegaram ao centro, prédios gigantescos com andares que ele não dava conta de contar. Tudo era muito grande e tinha tanta gente nas ruas andando com pressa que pareciam formigas.

O relógio do centro, ele se lembrava muito bem, marcava quase quatro horas da tarde quando o motorista da caminhonete o deixou na rua Arouche, do lado da Praça da República e próximo de uma das saídas do metrô. Antes de ir embora, o motorista lhe deu um pacote com o que havia sobrado do lanche que os dois tinham feito juntos na estrada. Ele sabia que Junior estava sem dinheiro, mas ficou despreocupado, pois o rapaz falou que seus parentes estariam ali dentro de algumas horas para pegá-lo. Tudo mentira. Quando a caminhonete se foi, Junior não sabia o que fazer nem para onde ir. Curioso, ele começou a andar pela Praça da República, entrou na rua 7 de Abril, depois atravessou a Barão de Itapetininga, entrou na rua 24 de Maio e foi parar nos fundos do Teatro Municipal. Quando deu a volta e viu o teatro de frente, ele ficou tão admirado com o prédio que passou vários minutos observando os detalhes daquela magnífica construção. Era a primeira vez que ele via um prédio conhecido e histórico de perto. O mesmo prédio que ele tinha visto em um livro da escola quando mais novo.

Tudo era muito bonito. Pelo menos até uma senhora que andava às pressas esbarrar nele e o xingar de idiota por ficar no meio do caminho. “Que recepção!”, pensou. Mas isso, por um lado, foi bom porque o lembrou de que, embora bonito, aquele lugar também poderia ser hostil e perigoso. Ele então seguiu em frente e foi parar no Viaduto do Chá. Olhou para baixo, viu alguns jardins, bancos, garotos brincando de skate, homens, mulheres, executivos, meninos de rua e prostitutas. Depois ele desceu e ficou lá no meio, parado, pensando na vida e observando tudo o que poderia ser observado.

A noite chegou em poucas horas e a fome também. Ele pegou o resto do lanche, comeu e se preocupou em achar um canto para dormir. O policiamento era grande e, antes de tentar dormir em algum banco público, ele viu policiais enxotando alguns mendigos daquele tal Vale do Anhangabaú. Sem saber o que fazer, ele decidiu voltar para a mesma rua em que o motorista o havia deixado. Quando chegou lá, arrumou um canto perto da saída do metrô, se agachou e adormeceu. A madrugada no centro de São Paulo, embora com pouquíssimas pessoas, acabava sendo tão barulhenta quanto o dia. Carros de polícia passando com a sirene ligada, alguns raros ônibus, pessoas entrando ou saindo dos prédios, mais mendigos, enfim, tudo era motivo para acordá-lo de minuto em minuto naquele lugar estranho. Foi aí que a sorte, talvez a maior de sua vida, apareceu para contemplá-lo. Caso contrário, ele estaria provavelmente na rua abandonado até hoje.

Deviam ser quase duas horas da manhã quando Junior, a poucos metros de distância, viu o início de uma briga com um rapaz que era prensado contra a parede por dois homens fortes vestindo regatas. Eles começaram a dar socos e pontapés no rapaz, que gritava por socorro. – Por favor, alguém me ajude! – gritou ele, demonstrando não conseguir se defender sozinho.

Junior, que nunca tinha brigado com alguém, se levantou e seguiu na direção deles. Um dos caras que estava batendo gritou e pediu para ele não se meter. Junior ignorou e partiu para cima de um deles. O rapaz que apanhava, vendo que tinha ajuda, buscou energias e partiu para cima do outro. Agora eram dois contra dois. Porém, com a briga equilibrada, os covardes desistiram e caíram fora. Antes, um deles gritou, olhando para Junior: 

– Você se meteu com gente que não conhece! Você vai morrer, neguinho! Da próxima vez que eu te encontrar, você não me escapa! Os dois caras de regata saíram correndo. Junior, vendo que o rapaz que havia apanhado estava bastante machucado e com o rosto sangrando, perguntou:

– Você está bem?

– Não. Estou um pouco tonto. Eles acertaram muito a minha cabeça e acho que eu torci meu pé. – falou o rapaz, com dificuldades para respirar. – Vamos sair daqui, eles podem voltar com mais gente! – continuou ele. – Sim, vamos, mas... para onde?

– Você conhece a avenida São João? Moro perto do metrô Santa Cecília. É só seguir aqui direto – disse ele, apontando para a outra ponta da rua que dava para o Largo do Arouche.

– Não conheço nada aqui. É a primeira vez que venho para São Paulo.

– Fica a uns 10 minutos a pé. Vamos! Eu te mostro o caminho! Junior, percebendo que ele tinha dificuldades para se levantar e andar, ofereceu seu ombro como apoio e o ajudou a caminhar até a sua casa. Quando chegaram no apartamento, o rapaz, muito machucado, disse para ele ficar à vontade, pois iria tomar um banho e um remédio para a dor. Depois de longos minutos no banho, ele voltou e, ainda de toalha, agradeceu.

– Muito obrigado pela ajuda. A tontura está passando e a dor também. – o rapaz falou enquanto pegava roupas que estavam jogadas em cima de vários cadernos no sofá. – Qual é o seu nome? – perguntou em seguida, enquanto se vestia na frente do Junior. – Junior, e o seu?

– O meu nome é Gabriel. Muito prazer – disse ele, apertando as mãos de Junior. – Obrigado por ter me ajudado. Você apareceu em uma boa hora... – continuou, enquanto o olhava fixamente.

Junior, percebendo o olhar, perguntou: – O que foi? Por que está me olhando? – Desculpe! É que você me lembra uma pessoa muito querida – Gabriel respondeu enquanto abaixava a cabeça, sentindo a dor da perda. – Era um amigo. Ele morreu em um acidente de carro – continuou, ainda triste.

Junior ficou quieto. Gabriel mudou de assunto. – Mas e você, mora onde, Junior? O que você estava fazendo no centro da cidade naquele horário?

– Bem, eu... – Junior suspirou. – É uma longa história! – ele tentou encerrar ali mesmo o assunto.

– Pode falar, Junior. Sou todo ouvidos! – Gabriel insistiu. – Bem... eu fui expulso de casa... depois meus pais me internaram em uma fazenda em Belo Horizonte. Fiquei seis meses lá e, como eles nunca me visitaram, resolvi fugir... e aqui estou. – disse ele, o mínimo possível. – Cheguei ontem a São Paulo. Não conheço nada e nem tenho onde ficar. Estou perdido – continuou, sem falar nada sobre a homossexualidade.

– Mas agora você está limpo? – Gabriel perguntou, imaginando que a fazenda onde estivera internado fosse de viciados em drogas. – Sim, estou – ele respondeu, imaginando que Gabriel soubesse sobre a fazenda religiosa contra o homossexualismo, afinal, fazia tempo que ele não praticava o vício maligno.

– Imagino o quanto deve ter sido difícil superar tudo isso. Está com fome? Vou pegar algo para você comer.

Enquanto Gabriel trazia um lanche, Junior perguntou: – E você, o que estava fazendo lá? Por que a briga? Gabriel, também demonstrando não querer falar sobre o assunto, pensou um pouco e deu uma resposta qualquer. – Eu estava em uma balada. Aí aqueles caras imaginaram que eu estava dando em cima de uma garota que era namorada de um deles. Por isso a briga.

Junior ficou imaginando a cena enquanto comia seu lanche. Em seguida, Gabriel continuou.

– Bom, pelo jeito você não tem onde ficar, né? Meu apartamento não tem nada. Apenas este sofá, estas duas cadeiras, uma mesa, geladeira, fogão e colchão. A TV pifou e está no conserto. Se quiser, pode passar esta noite aqui. Eu pego alguns cobertores e fazemos outro colchão para você. – Sério? – Junior perguntou espantado, não acreditando no convite. – Sim! Vamos arrumar tudo agora mesmo! Você deve estar com vontade de tomar um banho quente. Vai lá. Daqui a pouco eu levo uma toalha e você pode usar umas roupas minhas para dormir. Enquanto isso, vou arrumar a sua cama.

Continuar: parte 4 de 6