Tio Tungstênio: Memórias de uma Infância Química

9. Consultas domiciliares

 

MEU PAI NÃO ERA DADO A EMOÇÕES nem à intimidade, ao menos no contexto, nos limites da família. Mas havia algumas ocasiões, preciosas ocasiões, em que eu realmente me sentia próximo dele. Tenho a lembrança de, ainda muito pequeno, vê-lo em nossa biblioteca, lendo; tamanha era sua concentração que nada o perturbava, pois tudo o que estava fora do círculo de sua lâmpada cava totalmente apagado em sua mente. Quase sempre ele lia a Bíblia ou o Talmude, embora também possuísse uma vasta coleção de livros sobre o hebraico, língua que falava

uentemente, e judaísmo — a biblioteca de um gramático e erudito. Ver

sua intensa concentração na leitura e as expressões que lhe surgiam no rosto enquanto lia (um sorriso involuntário, um esgar, uma expressão de perplexidade ou prazer) talvez tenha despertado em mim a atração pela leitura bem precocemente, e assim, mesmo antes da guerra, eu às vezes me juntava a ele na biblioteca, lendo meu livro ao lado dele, em um companheirismo íntimo porém silencioso.

Quando não era chamado para atender pacientes em casa à noite, meu pai sentava-se após o jantar com um charuto em forma de torpedo. Corria os dedos delicadamente sobre ele, levava-o ao nariz para sentir seu aroma e pureza e, se estivesse do seu gosto, fazia uma incisão em V na ponta com seu cortador. Acendia-o cuidadosamente com um fósforo comprido, girando-o para que se acendesse por igual. A ponta se esbraseava quando ele tragava, e sua primeira exalação era um suspiro de satisfação. Soltava suas baforadas suavemente enquanto lia, e o ar azul e opalescente da fumaça nos envolvia em uma nuvem fragrante. Eu adorava o aroma dos belos havanas que ele fumava, adorava ver o cilindro de cinzas crescer, e me perguntava de que tamanho ele caria antes de cair no livro de meu pai.

Eu me sentia mais próximo dele, verdadeiramente seu lho, quando nadávamos juntos. A paixão de meu pai, desde muito pequeno, foi a natação (assim como seu pai fora nadador também), e quando mais jovem ele fora um campeão, ganhando a corrida de 24 quilômetros na costa da ilha de Wight por três anos seguidos. Ele familiarizou cada um de nós com a água quando éramos bebês, levando-nos para nadar nos lagos arti ciais de Hampstead Heath, os Highgate Ponds.

Suas braçadas lentas e medidas para cobrir quilômetros não eram muito apropriadas para um garotinho. Mas eu percebia como meu velho pai, grandalhão e desajeitado em terra, se transformava na água, tornando-se gracioso como um boto; e eu, inseguro, nervoso e também extremamente desajeitado, descobria em mim aquela mesma deliciosa transformação, encontrando na água um novo ser, um novo modo de existir. Tenho uma vívida lembrança de um verão em que passamos férias no litoral, no mês seguinte ao meu quinto aniversário, quando entrei correndo no quarto de meus pais e puxei com força o corpanzil de baleia de meu pai. “Venha, papai! Vamos nadar!”, pedi. Ele se virou devagar e abriu um olho: “Que história é essa, acordar um velho de quarenta e três anos deste jeito, às seis da manhã?”. Agora que meu pai está morto e eu na casa dos sessenta, a recordação desses meus puxões matinais de tanto tempo atrás me fazem querer rir e chorar.

Tempos depois, íamos nadar juntos na grande piscina ao ar livre em Hendon, ou no Welsh Harp em Edgware Road, um pequeno lago (eu nunca soube se era natural ou arti cial) onde meu pai já tivera um barco. Depois da guerra, aos doze anos, pude começar a acompanhar suas braçadas e manter o mesmo ritmo, nadando em sincronia com ele.

Às vezes eu acompanhava meu pai nas manhãs de domingo em suas visitas médicas. As consultas domiciliares eram o que ele mais gostava de fazer, pois além de visitas médicas elas eram sociais e sociáveis, davam-lhe acesso a uma família e a um lar, permitiam-lhe conhecer as pessoas e suas condições, ver toda a natureza e o contexto de uma doença. O exercício da medicina, para ele, não consistia apenas em diagnosticar uma doença; tinha de ser visto no contexto da vida do paciente, das particularidades de sua personalidade, de seus sentimentos, de suas reações.

Ele levava uma lista datilografada de doze pacientes e seus endereços, e eu me sentava ao seu lado, no banco do passageiro, enquanto ele me explicava, em palavras muito humanas, o que cada um tinha. Quando chegávamos, saíamos juntos do carro, e geralmente ele me deixava carregar sua valise médica. Às vezes eu o acompanhava ao quarto do doente e me sentava quieto enquanto ele fazia perguntas e examinava o paciente — questionário e exame que pareciam rápidos e super ciais, mas que chegavam ao fundo e expunham, para ele, as origens de cada enfermidade. Eu gostava de vê-lo percutir o tórax, dando pancadinhas delicadas mas decididas com seus dedos fortes e grossos, apalpando, sentindo os órgãos e o estado em que se encontravam no interior do corpo. Mais tarde, quando fui estudar medicina, percebi que mestre da percussão ele era, capaz de discernir mais coisas apalpando, percutindo e auscultando um tórax do que a maioria dos médicos perceberia olhando uma radiogra a.

Outras vezes, se o paciente estivesse muito doente ou se o mal fosse contagioso, eu me sentava com a família na cozinha ou na sala de jantar. Depois que meu pai via o paciente no andar de cima, ele descia, lavava as mãos meticulosamente e ia para a cozinha. Gostava de comer, e conhecia o conteúdo da geladeira das casas de todos os seus pacientes — e as famílias pareciam ter prazer em dar comida àquele bom doutor. Atender pacientes, encontrar seus familiares, passar um tempo agradável e comer eram, todas elas, atividades inseparáveis na medicina que ele exercia.

Atravessar de carro a City, o centro nanceiro, deserto aos domingos, era uma experiência opressiva em 1946, pois a devastação dos bombardeios ainda era recente, e a reconstrução mal começara. Isso

cava mais evidente no East End, onde talvez um quinto das

construções havia sido arrasado. Mas ainda existia ali uma sólida comunidade judaica, e restaurantes e delicatéssens como não havia outros no mundo. Meu pai zera residência no London Hospital em Whitechapel Road, e quando moço fora por dez anos o médico da comunidade que falava o iídiche na região. Relembrava essa época com uma ternura sem igual. Às vezes visitava seu velho consultório em New Road — fora ali que todos os meus irmãos haviam nascido, e agora era o consultório de um sobrinho seu, Neville.

Percorríamos “The Lane”, o trecho de Petticoat Lane entre Middlesex Street e Commercial Street, onde todos os comerciantes apregoavam as mercadorias de suas bancas. Meus pais haviam mudado do East End em 1930, mas meu pai ainda conhecia muitos dos vendedores pelo nome. Tagarelando com eles, voltando ao iídiche de sua juventude, meu velho pai (como assim, “velho”? Eu agora tenho quinze anos a mais do que os cinquenta que ele tinha naquela época) rejuvenescia, parecia um garoto, revelava a pessoa que fora antigamente, mais animada, que eu normalmente não via.

Sempre íamos a Marks of the Lane, onde se comprava latke [panqueca de batata] por seis pence, e os melhores salmões e arenques defumados de Londres, um salmão de uma maciez inacreditável, de derreter na boca, uma das experiências genuinamente paradisíacas deste mundo.

Meu pai sempre tivera um apetite de leão, e o strudel e o arenque que comia nas casas dos pacientes, seguidos pelo latke no mercado, eram, em sua concepção, apenas o aperitivo da refeição de verdade. Havia uma dúzia de excelentes restaurantes kosher num perímetro de poucos quarteirões, cada qual com suas incomparáveis especialidades. O que seria hoje: o Bloom’s, em Aldgate, ou o Ostwind’s, onde podíamos nos deliciar com os inebriantes aromas que subiam da padaria instalada no porão? Ou o Strongwater’s, onde serviam um tipo especial de kreplach, chamado varenikas, do qual meu pai era fã inveterado? Mas em geral acabávamos mesmo era no Silberstein’s, onde, além do restaurante de carnes no térreo, havia um restaurante de laticínios no andar de cima, com esplêndidas sopas feitas no leite e peixes. Meu pai adorava as carpas, cuja cabeça ele sugava com chupões barulhentos, com imenso gosto.

Papai era um motorista calmo, impassível quando saía para suas consultas domiciliares — naquela época possuía um Wolseley sóbrio e muito vagaroso, apropriado ao racionamento de petróleo ainda em vigor —, mas antes da guerra ele mostrara uma faceta muito diferente. Seu carro era então um Chrysler, americano, potente e veloz como não se via nos anos 1930. Também tinha uma motocicleta, uma Scott Flying Squirrel, com motor de dois tempos de 600cc refrigerado a água e um escapamento estridente como um grito. Atingia quase trinta cavalos-vapor, e meu pai gostava de dizer que ela mais parecia um cavalo voador. Ele adorava decolar naquela motocicleta quando tinha uma manhã de domingo livre, ávido por livrar-se da cidade e se entregar ao vento e à estrada, esquecendo por momentos seus pacientes e preocupações. Às vezes eu sonhava que era eu quem estava andando, ou voando, de motocicleta, e decidi que quando crescesse compraria uma.

Quando foi publicado The mint, de T. E. Lawrence, em 1955, li para meu pai um ensaio, “The road”, que Lawrence escrevera sobre sua motocicleta (nessa época eu tinha uma moto, uma Norton):

Uma arisca motocicleta trazendo em si um toque de sangue é melhor

do que todos os animais de montaria da terra, por ser uma extensão

lógica de nossas faculdades, e por sugerir, provocar o excesso [...]

Meu pai sorriu e assentiu, lembrando seus dias de motoqueiro.

Meu pai originalmente pensou em seguir carreira acadêmica na área de neurologia, e zera residência (junto com o pai de Jonathan Miller) sob a orientação de Sir Henry Head, o eminente neurologista do London Hospital. Na época, o próprio Head, ainda no auge de suas capacidades, começara a sofrer do mal de Parkinson, e isso, meu pai contou, às vezes o fazia atravessar em passos acelerados toda a velha ala da neurologia, involuntariamente, em movimentos de festinação, sendo necessário que um de seus pacientes o parasse. Como tive di culdade para imaginar a cena, meu pai, excelente mímico, imitou a festinação de Head, desembestando por Exeter Road em passos cada vez mais velozes e fazendo com que eu corresse para pegá-lo. Os problemas de Head, na opinião de meu pai, o tornaram especialmente sensível aos problemas de seus pacientes, e acho que as imitações de meu pai — ele imitava asma, convulsões, paralisias, qualquer coisa —, saídas de sua vívida imaginação de como seriam aqueles males em outras pessoas, serviam ao mesmo propósito.

Quando chegou o momento de abrir o próprio consultório, meu pai concluiu, apesar de sua especialização em neurologia, que a clínica geral seria algo mais real, mais “vivo”. Talvez tenha recebido mais do que pedira, pois quando inaugurou seu consultório no East End, em setembro de 1918, a grande epidemia de in uenza estava começando. Ele atendera soldados feridos quando residente no London Hospital, mas aquilo não era nada em comparação com o horror de ver pessoas em paroxismos de tosse, arquejantes, sufocando com líquido nos pulmões, cando roxas e morrendo no meio da rua. Dizia-se que um homem ou mulher jovem e saudável podia morrer três horas depois de pegar aquela gripe. Naqueles três desesperados meses do nal de 1918, a gripe matou mais gente que a própria Grande Guerra, e meu pai, como todo médico na época, se viu sobrecarregado, às vezes trabalhando 48 horas ininterruptas.

Nessas circunstâncias, ele contratou sua irmã Alida — jovem viúva com dois lhos que voltara da África do Sul para Londres três anos antes — para trabalhar como sua assistente no dispensário. Mais ou menos na mesma época contratou outro jovem médico, Yitzchak Eban, para ajudá-lo nas rondas. Yitzchak era natural de Yaniski, a mesma aldeiazinha lituana onde vivera a família Sacks. Alida e Yitzchak haviam sido amigos de infância, mas em 1895 a família dele fora para a Escócia, poucos anos antes de os Sacks chegarem a Londres. Reunidos vinte anos depois, trabalhando juntos na atmosfera febril e frenética da epidemia, Alida e Yitzchak se apaixonaram — casaram-se em 1920.

Na infância tivemos relativamente pouco contato com tia Alida (embora eu a julgasse a mais espirituosa e esperta de todas as minhas tias — tinha súbitas intuições, súbitos arroubos de pensamento e sentimento que passei a considerar característicos da “mente Sacks”, em contraste com os processos mentais mais metódicos, mais analíticos dos Laudau). Mas tia Lina, a irmã mais velha de meu pai, era uma presença constante. Era dez anos mais velha que papai, muito miúda — 1,45 metro, de salto alto —, mas tinha uma vontade férrea, uma determinação implacável. Trazia os cabelos tingidos de dourado, ásperos como os das bonecas, e exalava um odor misto de alho, suor e patchuli. Foi Lina quem mobiliou nossa casa, e era Lina quem muitas vezes nos fornecia, na casa de número 37, certas iguarias especiais que ela própria preparava — bolos de peixe (Marcus e David a chamavam de Bolo de Peixe por causa disso), substanciosos e esfarelentos cheesecakes e, na Páscoa judaica, pãezinhos matzoh de uma densidade incrivelmente telúrica, que afundavam na sopa como pequeninos planetesimais. Indiferente às sutilezas sociais, ela em casa se debruçava na mesa para assoar o nariz na toalha. Mas, apesar disso, era uma companhia adorável, cativando e

ertando, mas também ouvindo com toda a atenção, julgando o caráter

e as motivações de todos à sua volta. Ela arrancava con dências dos

incautos e, com sua memória diabólica, gravava tudo o que ouvia.1

Mas ela era impiedosa e sem escrúpulos por uma causa nobre: levantar dinheiro para a Universidade Hebraica em Jerusalém. Ela parecia ter dossiês de todo mundo na Inglaterra, ou às vezes imaginava tê-los, e assim que se certi cava de suas informações e fontes, pegava o telefone: “Lorde G.? É Lina Halper quem fala”. Pausa. Respiração suspensa. Lorde G. sabia o que estava por vir. “Sim”, ela prosseguia, simpática. “Sim, o senhor me conhece. Foi aquele caso — não, não entremos em detalhes —, aquele caso em Bognor, em março de 23. [...] Não, é claro que não o mencionarei, será nosso segredinho — quanto posso marcar aqui para o senhor? Cinquenta mil, talvez? Nem posso lhe dizer quanto isso signi caria para a Universidade Hebraica.” Com esse tipo de chantagem, Lina angariava milhões de libras para a universidade, a mais e ciente arrecadadora de fundos, provavelmente, que a instituição já teve.

Lina, consideravelmente mais velha, fora a “mãezinha” de seus irmãos muito mais novos quando chegaram à Inglaterra em 1899, vindos da Lituânia; após a morte precoce de seu marido, ela se apoderou de meu pai, em certo sentido, e competia com minha mãe pela companhia e afeto dele. Eu estava sempre cônscio da tensão, da velada rivalidade entre elas, e tinha a sensação de que meu pai — brando, passivo, indeciso — era puxado de um lado para o outro entre as duas.

Embora Lina fosse considerada por muitos da família uma espécie de monstro, ela tinha um fraco por mim, tanto quanto eu por ela. Foi especialmente importante para mim, talvez para todos nós, no início da guerra, pois estávamos em Bournemouth passando as férias de verão quando foi declarada a guerra, e nossos pais, sendo médicos, tiveram de partir imediatamente para Londres, deixando nós quatro com a babá. Voltaram duas semanas depois e meu alívio, nosso alívio, foi imenso. Recordo-me de sair correndo pela trilha do jardim quando ouvi a buzina do carro e me jogar com todo o peso do corpo nos braços de minha mãe, quase a derrubando. “Fiquei com saudade”, chorei, “ quei com muita saudade.” Ela me abraçou, um longo abraço, apertando-me em seus braços, e o sentimento de perda, de medo, subitamente se dissipou.

Nossos pais prometeram voltar novamente muito em breve. Tentariam dar um jeito de vir no m de semana seguinte, disseram, mas tinham muito que fazer em Londres — minha mãe estava atarefada em cirurgias de emergência, meu pai estava organizando os clínicos gerais da região para atender feridos em bombardeios aéreos. Mas no m de semana eles não vieram. Passou-se mais uma semana, e outra, e outra, e acho que alguma coisa se rompeu dentro de mim nesse período, pois quando eles nalmente apareceram, seis semanas depois da primeira visita, não corri para abraçar minha mãe como da primeira vez, e a tratei com frieza, distanciamento, quase como uma estranha. Creio que ela

cou chocada e perturbada com isso, mas não soube como transpor o

abismo que se abrira entre nós.

Nessa altura, quando não havia mais como se enganar quanto aos efeitos da ausência de nossos pais, tia Lina chegou, assumiu a direção da casa, passou a cozinhar, organizou nossas vidas e se tornou uma mãezinha para nós todos, preenchendo a lacuna deixada pela ausência de nossa mãe.

Esse pequeno interlúdio não durou muito — Marcus e David partiram para a faculdade de medicina, Michael e eu fomos mandados para Brae eld. Mas nunca esquecerei o carinho da tia Lina para comigo nessa época, e depois da guerra adquiri o hábito de visitá-la em Londres, em sua sala de pé-direito alto e brocados na Elgin Avenue. Ela me servia cheesecake, às vezes bolo de peixe e um cálice de vinho doce, e eu ouvia suas recordações da terra natal. Meu pai tinha apenas três ou quatro anos quando emigrou, e não se lembrava de lá; Lina, então com catorze anos, tinha recordações vívidas e fascinantes de Yaniski, o povoado próximo a Vilna onde todos nasceram, e de seus pais, meus avós, como eram quando relativamente jovens. Talvez ela tivesse um sentimento especial por mim porque eu era o mais novo, ou porque eu tinha o nome de seu pai, Elivelva, Oliver Wolf. Eu também tinha a impressão de que ela se sentia solitária e gostava das visitas do seu jovem sobrinho.

E havia o irmão mais novo de meu pai, Bennie. Ele fora excomungado, saíra do rebanho familiar aos dezenove anos, quando fora para Portugal e desposara uma moça não judia. Isso era um crime tão escandaloso, tão hediondo aos olhos da família que o nome desse meu tio nunca mais foi mencionado. Mas eu sabia que havia alguma coisa escondida, algum tipo de segredo de família; agrava certos silêncios, certos constrangimentos às vezes, quando meus pais cochichavam um com o outro, e certa vez vi uma foto de Bennie em uma das estantes entalhadas de tia Lina (ela disse que era outra pessoa, mas detectei a hesitação em sua voz).

Meu pai, que sempre fora robusto, começou a ganhar peso depois da guerra, e decidiu frequentar em intervalos regulares um spa em Gales. Essas visitas nunca pareciam fazer muito efeito do ponto de vista da perda de peso, mas ele voltava delas parecendo feliz e bem-disposto, a palidez londrina substituída por um saudável bronzeado. Foi só depois de sua morte, muitos anos mais tarde, que, olhando seus papéis, encontrei um maço de passagens de avião que contava a verdadeira história: ele nunca tinha ido a nenhum spa — lealmente, em segredo, ele visitara Bennie em Portugal durante todos aqueles anos.

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