Tio Tungstênio: Memórias de uma Infância Química

22. Cannery Row

 

NO VERÃO DEPOIS DA GUERRA fomos para a Suíça, porque era o único país no continente que não fora devastado pelos combates e ansiávamos por normalidade após seis anos de bombardeios, racionamento, austeridade e aperto. A transformação saltou à vista assim que cruzamos a fronteira — os novos e reluzentes uniformes dos funcionários da alfândega suíça contrastavam com os fardamentos puídos do lado francês. O próprio trem pareceu car mais limpo e claro, mover-se com nova e ciência e velocidade. Chegando a Lucerna, fomos transportados numa berlinda elétrica. Era um carro alto, aprumado, com enormes janelas de vidro laminado, um veículo que meus pais tinham visto na infância, mas no qual nunca haviam entrado; a veterana berlinda nos levou silenciosamente ao hotel Schweizerhof, um hotel vasto e esplêndido como eu jamais imaginara. Meus pais costumavam escolher acomodações relativamente modestas, mas dessa vez seus instintos os conduziram na direção oposta, ao hotel mais suntuoso, mais aparatoso de Lucerna — uma extravagância a que eles se julgavam com direito após seis anos de guerra.

O Schweizerhof permanece em minha mente por outra razão: foi onde dei o primeiro (e último) concerto de minha vida. Passara-se pouco mais de um ano desde a morte da sra. Silver, minha professora de piano, um ano em que eu nem sequer abrira o instrumento, mas agora alguma coisa radiosa, libertadora, fez com que eu me expandisse, deu-me vontade de tocar novamente, de súbito, e para outras pessoas. Embora houvesse sido treinado em Bach e Scarlatti, sob a in uência da sra. Silver passara a gostar dos românticos — especialmente Schumann e as incitantes, exuberantes mazurcas de Chopin. Muitas daquelas obras estavam tecnicamente fora de meu alcance, mas eu as sabia de cor, todas as cinquenta e tantas, e podia ao menos (encorajava-me) dar uma ideia de como elas eram, de sua vitalidade. Eram miniaturas, mas pareciam conter todo um mundo.

Meus pais, de algum modo, persuadiram o hotel a organizar um concerto no salão, permitir que eu usasse o piano de cauda (o maior que eu já vira, um Bösendorfer com algumas teclas extras inexistentes em nosso Bechstein), e anunciar que, na próxima quinta-feira à noite, seria apresentado um recital do “jovem pianista inglês Oliver Sacks”. Isso me apavorou, e fui cando cada vez mais nervoso conforme a data se aproximava. Mas, chegada a hora, vesti meu melhor terno (fora feito para meu bar mitzvah no mês anterior). Entrei no salão, z uma reverência, armei um sorriso e (quase molhando as calças de terror) sentei-me ao piano. Após os compassos iniciais da primeira mazurca, empolguei-me e a levei até uma oreada conclusão. Houve aplausos, sorrisos e perdão para meus erros, por isso ataquei a seguinte, e a seguinte, e a seguinte, concluindo por m com uma obra póstuma (que eu vagamente imaginava ter sido completada após a morte de Chopin).

Essa apresentação me proporcionou um prazer raro, especial. Minha química, mineralogia e ciência eram, todas elas, coisas privadas, compartilhadas com meus tios e ninguém mais. O recital, em contraste, foi aberto e público, com apreciação e troca, dar e receber. Foi o princípio de algo novo, o começo de uma comunicação.

Aproveitamos escandalosamente o luxo do Schweizerhof, passando o que nos pareciam horas nas enormes banheiras de mármore, comendo até estourar no opulento restaurante. Mas por m nos fartamos daqueles excessos de deleite e começamos a perambular pela velha cidade de ruas tortuosas e vistas repentinas de montanha e lago. Pegamos o trem funicular que subia por trilhos de engrenagens até o topo do monte Rigi — era a primeira vez que eu andava num trem daquele tipo e que ia ao topo de uma montanha. Fomos então ao vilarejo alpino de Arosa, onde o ar era frio e seco, e ali pela primeira vez eu vi a edelvais e a genciana e as minúsculas igrejas de madeira pintada, e ouvi o corne alpino ressoar de vale a vale. Foi em Arosa, creio, mais do que em Lucerna, que uma súbita sensação de júbilo nalmente me invadiu, um sentimento de libertação e alívio, uma percepção da doçura da vida, de um futuro, de uma promessa. Eu tinha treze anos — treze anos! —; a vida não estaria à minha espera?

Na viagem de volta, paramos em Zurique (a cidade onde o jovem Einstein havia morado e trabalhado, tio Abe me contou), e essa estada, em outros aspectos sem nada de notável, permanece em minha memória por um motivo muito especial. Meu pai, que sempre procurava uma piscina onde quer que estivesse hospedado, localizou uma grande piscina municipal na cidade. Imediatamente começou a percorrê-la com as poderosas braçadas que eram sua especialidade, mas eu, estando mais propenso à preguiça, subi numa prancha de cortiça que achei por lá e decidi, para variar, deixar-me utuar, car apenas boiando. Perdi a noção do tempo, deitado quieto na prancha ou remando de leve. Uma estranha tranquilidade, uma espécie de êxtase me arrebatou — uma sensação que eu às vezes tivera em sonhos. Eu já havia utuado em pranchas de cortiça ou boias de borracha antes, mas dessa vez algo mágico estava acontecendo, uma imensa onda de prazer que foi crescendo devagar, me elevando, numa subida que parecia nunca chegar, e por m amainou em lânguida beatitude. Foi a mais bela, a mais serena sensação que já tive.

Só quando tirei o calção de banho percebi que provavelmente tivera um orgasmo. Não me ocorreu associar isso a “sexo” ou a outras pessoas; não me senti angustiado nem culpado — mas não comentei com ninguém, aceitando aquele acontecimento como uma bênção ou graça mágica, privada, que viera para mim espontaneamente, sem ter sido pedida. Tive a sensação de haver descoberto um grande segredo.

 

Em janeiro de 1946 mudei do The Hall, minha escola preparatória em Hampstead, para um colégio muito maior em Hammersmith, o St. Paul. Foi ali, na Biblioteca Walker, que conheci Jonathan Miller: eu estava escondido num canto, lendo um livro do século XIX sobre eletrostática — lendo, por alguma razão, sobre “ovos elétricos” —, quando uma sombra caiu sobre a página. Ergui os olhos e vi um garoto espantosamente alto, magricela e desajeitado, de rosto muito expressivo, olhos brilhantes e travessos e uma exuberante cabeleira ruiva. Começamos a conversar, e temos sido grandes amigos desde então.

Antes dessa época eu tivera apenas um amigo de verdade, Eric Korn, que eu conhecia quase desde que nasci. Eric também mudou do The Hall para o St. Paul um ano depois, e então ele, Jonathan e eu formamos um trio inseparável, unidos não só por nossos laços pessoais mas também por laços de família (nossos pais, trinta anos antes, haviam estudado medicina juntos, e nossas famílias permaneceram amigas). Jonathan e Eric não compartilhavam realmente meu amor pela química — embora tivessem participado do experimento em que atiramos sódio no lago e de dois outros —, mas se interessavam muito por biologia, e era inevitável, quando chegasse a hora, que viéssemos a frequentar a mesma turma de biologia e que nos encantássemos com o professor dessa matéria, Sid Pask.

Sid era um professor esplêndido. E também intolerante, fanático, atormentado por uma pavorosa gagueira (que não cansávamos de imitar) e sem nenhuma inteligência excepcional. Por dissuasão, ironia, zombaria ou força, o sr. Pask nos desviava de todas as outras atividades — esportes e sexo, religião e família, e de todas as outras matérias da escola. Exigia que fôssemos tão fanáticos quanto ele.

A maioria de seus alunos o considerava um mandão insuportável, chato e intransigente. Faziam de tudo para escapar do que viam como a tirania fútil e pedante do professor. A luta prosseguia por algum tempo, e então, subitamente, deixava de haver resistência — cavam livres. Pask não mais os criticava, parava de fazer exigências ridículas sobre o tempo e a energia dos recalcitrantes.

Mas alguns de nós, a cada ano, reagiam ao desa o de Pask. Em troca, ele se entregava inteiro a nós — todo o seu tempo, toda a sua dedicação à biologia. Ficávamos até tarde da noite com ele no Natural History Museum (certa vez me escondi em uma galeria e consegui passar a noite lá). Sacri cávamos todos os ns de semana em expedições para coletar plantas. Em janeiro, madrugávamos em dias gélidos para frequentar seu curso sobre água doce. E uma vez por ano — essa lembrança ainda guarda uma doçura quase insuportável — íamos com ele a Millport para três semanas de biologia marinha.

Millport, na costa oeste da Escócia, tinha uma estação de biologia marinha primorosamente equipada, onde sempre éramos acolhidos calorosamente e apresentados a todos os experimentos que estivessem em curso. (Na época estavam sendo feitas observações fundamentais sobre o desenvolvimento dos ouriços-do-mar, e lorde Rothschild foi in nitamente paciente com os entusiasmados colegiais que se amontoavam para espiar suas placas de Petri contendo os plúteos, as larvas transparentes de ouriço-do-mar.) Jonathan, Eric e eu cruzamos várias vezes a praia rochosa, contando todos os animais e algas marinhas que podíamos encontrar em sucessivas porções de dez centímetros quadrados, descendo do topo recoberto de líquen da rocha (Xanthoria parietina era o eufônico nome desse líquen) até a linha da costa e as lagoas formadas pela maré. Eric era particularmente astuto e engenhoso, e uma ocasião, quando precisávamos suspender um o de prumo para determinar uma vertical, mas não sabíamos onde prendê-lo, Eric arrancou uma lapa, espécie de molusco, da base de uma rocha, prendeu a ponta do o de prumo embaixo da concha e a encaixou

rmemente no alto da pedra, como uma tacha natural.

Todos nós adotamos grupos zoológicos particulares: Eric enamorou-se dos pepinos-do-mar, as holotúrias; Jonathan, dos peludos vermes iridescentes chamados poliquetas, e eu, das lulas e sibas, polvos, cefalópodes — os mais inteligentes e, para mim, os mais belos dos invertebrados. Um dia fomos todos para o litoral, até Hythe, em Kent, onde os pais de Jonathan haviam alugado uma casa para o verão, e saímos para um dia de pesca em uma traineira comercial. Os pescadores geralmente devolviam ao mar as sibas que iam parar em suas redes (esses moluscos não eram um prato muito apreciado na Inglaterra). Mas eu, fanaticamente, insisti que eles as guardassem para mim, e por isso devia haver dúzias delas no convés quando lá chegamos. Levamos todas as sibas para casa em baldes e tinas, guardamos em grandes jarros no porão, acrescentando um pouco de álcool para conservá-las. Como os pais de Jonathan não estavam em casa, não hesitamos. Poderíamos levar todas as sibas para a escola, para Sid — imaginamos seu sorriso espantado quando entrássemos com elas —, e haveria uma siba para cada aluno dissecar, duas ou três para os entusiastas dos cefalópodes. Eu faria uma pequena palestra sobre elas no Field Club, discorreria sobre sua inteligência, seu grande cérebro, seus olhos de retinas eretas, suas rápidas mudanças de cor.

Alguns dias mais tarde, quando os pais de Jonathan estavam prestes a retornar, ouvimos baques surdos vindos do porão; descemos para investigar e deparamos com uma cena grotesca: as sibas, malconservadas, tinham apodrecido e fermentado, e os gases produzidos haviam explodido os jarros, atirando grandes nacos de siba nas paredes e no chão; até no teto havia fragmentos grudados. O fedor fortíssimo de putrefação era horroroso, inimaginável. Fizemos o possível para raspar as paredes e remover os pedaços explodidos e incrustados de siba. Lavamos todo o porão com mangueira, nauseados, mas a fedentina não quis saber de ir embora, e quando abrimos as janelas e portas para arejar o porão, ela se alastrou pela casa como um miasma, espalhou-se por cinquenta metros em todas as direções.

Eric, sempre engenhoso, sugeriu que disfarçássemos o cheiro ou o substituíssemos por outro ainda mais forte, porém agradável — essência de coco daria conta do recado, decidimos. Fizemos uma vaquinha e compramos um frasco bem grande da essência, demos uma ducha em todo o porão com ela e depois a distribuímos prodigamente pelo resto da casa, dentro e fora.

Os pais de Jonathan chegaram uma hora mais tarde; ao se aproximar da casa, sentiram um estonteante cheiro de coco. Mas quando chegaram mais perto atingiram uma zona dominada pelo fedor de siba putrefata — os dois cheiros, os dois vapores, por alguma curiosa razão, haviam se organizado em zonas alternadas de cerca de um metro e meio de largura. E quando eles entraram na cena do nosso acidente, do nosso crime, o porão, não puderam suportar o fedor por mais de alguns segundos. Nós três caímos em grande desgraça por causa desse incidente, especialmente eu, que com a minha ganância começara tudo (uma única siba não teria bastado?) e que fora tolo por não perceber a quantidade de álcool correta. Os pais de Jonathan tiveram de antecipar o m das férias e deixar a casa (que, como quei sabendo, permaneceu inabitável durante meses). Mas meu entusiasmo pelas sibas continuou intacto.

Talvez esse entusiasmo tivesse uma razão química além de biológica, pois as sibas (como muitos outros moluscos e crustáceos) tinham sangue azul em vez de vermelho, já que evoluíra nelas um sistema de transporte de oxigênio totalmente diferente do que nós, os vertebrados, possuíamos. Enquanto nosso pigmento respiratório vermelho, a hemoglobina, continha ferro, o pigmento respiratório azulado das sibas, hemocianina, continha cobre. Tanto o ferro como o cobre tinham um excelente potencial de redução: podiam facilmente captar oxigênio, passando a um estado de oxidação maior, e então liberá-lo, reduzir-se, conforme a necessidade. Eu me perguntei se seus vizinhos na tabela periódica (alguns com potencial de oxidação e redução ainda maior) já teriam sido explorados como pigmentos respiratórios, e me empolguei ao saber que algumas ascídias, do grupo dos tunicados, eram muito ricas em vanádio e possuíam células especiais, os vanadócitos, destinadas a armazenar esse elemento. Por que o continham era um mistério; eles não pareciam ser parte de um sistema de transporte de oxigênio. Tive a absurda e petulante ideia de que poderia resolver esse enigma durante nossas excursões anuais a Millport. Mas não fui além de coletar um monte de ascídias (com a mesma voracidade, o mesmo exagero que me

zera juntar tantas sibas). Mas estas eu podia incinerar, pensei, e medir o

teor de vanádio em suas cinzas (eu lera que ele poderia exceder a 40% em algumas espécies). E isso me deu a única ideia comercial que já tive na vida: iniciar uma cultura de vanádio — hectares de pradarias marinhas semeadas com ascídias. Eu as usaria para extrair o precioso vanádio da água do mar, como elas vinham fazendo com grande e ciência nos últimos 300 milhões de anos, e então o venderia por quinhentas libras a tonelada. O único problema que percebi, horrorizado com meus pensamentos genocidas, seria o verdadeiro holocausto de ascídias que isso demandaria.

O orgânico, com todas as suas complexidades, estava invadindo minha vida, transformando-me, nos redutos de meu corpo. De repente, comecei a crescer muito depressa; brotavam pelos em meu rosto, nas axilas, ao redor dos órgãos genitais, e a voz — ainda nitidamente aguda como a de um soprano quando entoei minha haftorah — agora começava a mudar, a trocar de tom desordenadamente. Nas aulas de biologia na escola adquiri um súbito e intenso interesse pelos sistemas reprodutivos de animais e plantas, particularmente os “inferiores”, invertebrados e gimnospermas. A sexualidade das cicadáceas, dos gincos, me intrigava: o modo como preservavam espermatozoides sem motilidade, como as samambaias, mas possuíam sementes tão graúdas e bem protegidas. E os cefalópodes, as lulas, eram ainda mais interessantes, pois os machos inseriam um braço modi cado contendo espermatóforos na cavidade do manto das fêmeas. Eu ainda estava bem longe da sexualidade humana, da minha própria, mas começava a achar a sexualidade um tema extremamente fascinante, quase tão interessante, a seu modo, quanto a valência e a periodicidade.

Porém, por mais apaixonados que estivéssemos pela biologia, nenhum de nós conseguia ser mais monomaníaco que o sr. Pask. Havia nele todos os impulsos da juventude, da adolescência, e toda a energia de mentes que desejavam explorar em todas as direções, ainda não prontas para se comprometer.

Minhas inclinações haviam sido predominantemente cientí cas por quatro anos; impelira-me uma paixão pela ordem, pela beleza formal — a beleza da tabela periódica, a beleza dos átomos de Dalton. O átomo quântico de Bohr parecia-me uma coisa celestial, preparado, por assim dizer, para durar uma eternidade. Às vezes eu sentia uma espécie de êxtase diante da beleza intelectual formal do universo. Mas agora, com o princípio de novos interesses, às vezes sentia o oposto, uma espécie de vazio ou aridez íntima, pois a beleza, o amor pela ciência já não me satisfaziam inteiramente, e eu ansiava pelo humano, pelo pessoal.

Foi a música, especialmente, que despertou essa sede e a avivou; a música me fazia estremecer, ou me dava vontade de chorar, de gemer; a música parecia penetrar meu íntimo, determinar meu estado — embora eu não soubesse dizer o que ela “pretendia”, por que me afetava daquela maneira. Mozart, sobretudo, fazia nascerem sentimentos de uma intensidade quase insuportável, mas de nir esses sentimentos estava além das minhas capacidades, talvez além do poder da própria linguagem.

A poesia assumiu uma importância nova, pessoal. Tínhamos “estudado” Milton e Pope na escola, mas agora comecei a descobri-los por conta própria. Havia versos de Pope de uma ternura arrebatadora — “die of a rose in aromatic pain” [morrer de uma rosa em dor aromática] — que eu sussurrava para mim mesmo vezes sem conta, até me transportarem a outro mundo.

Jonathan, Eric e eu crescêramos amando a leitura e a literatura. A mãe de Jonathan era romancista e biógrafa, e Eric, o mais precoce de nós três, lia poesia desde os oito anos. Minhas leituras tendiam mais para história e biogra a, especialmente narrativas pessoais e diários. (Eu também começara a escrever meu próprio diário nessa época.) Como minhas preferências eram (na opinião de Eric e Jonathan) um tanto restritas, eles me apresentaram a uma variedade maior de autores — Jonathan, a Selma Lagerlöf e Proust (eu só tinha ouvido falar de Joseph-Louis Proust, o químico, e não de Marcel), e Eric a T. S. Eliot, cuja poesia, Eric asseverou, era mais sublime que a de Shakespeare. E foi Eric quem me levou ao restaurante Cosmo, em Finchley Road, onde, tomando chá com limão e comendo strudel, ouvíamos um jovem poeta e estudante de medicina, Dannie Abse, recitar os poemas que acabara de escrever.

Nós três decidimos, com grande atrevimento, fundar uma Sociedade Literária no colégio; era bem verdade que já existia uma — a Milton Society —, mas estava moribunda havia anos. Jonathan seria o secretário, Eric, o tesoureiro, e eu (embora me achasse o mais ignorante dos três, e também o mais tímido) seria o presidente.

Anunciamos uma primeira reunião exploratória, e um curioso grupo apareceu. Queríamos muito convidar gente de fora para fazer palestras para nós — poetas, dramaturgos, romancistas, jornalistas —, e coube a mim, o presidente, incentivá-los a vir. Um número espantoso de escritores de fato compareceu às nossas reuniões — atraídos (imagino) pela pura excentricidade dos convites, a absurda mistura de puerilidade e maturidade, e a ideia, talvez, de uma multidão de garotos entusiasmados que realmente haviam lido suas obras e estavam doidos para conhecê-los. O maior trunfo teria sido Bernard Shaw — mas ele me enviou um encantador cartão-postal, dizendo, numa caligra a trêmula, que adoraria poder vir, mas estava velho demais para viajar (tinha 93 anos e três quartos na época, ele escreveu). Com nossos oradores convidados e as veementes discussões decorrentes, nós nos tornamos muito populares, e às vezes cinquenta ou setenta garotos compareciam às nossas reuniões semanais, muito mais do que já se vira nas sonolentas reuniões da Milton Society. Adicionalmente, publicávamos um jornal mimeografado, todo borrado de tinta roxa, o Prickly Pear, que incluía composições dos alunos, ocasionalmente algum texto de um mestre e, mais ocasionalmente ainda, algo escrito por escritores “de verdade”.

Mas justamente o nosso sucesso, e talvez outras ideias, nunca declaradas explicitamente — de que estávamos zombando da autoridade, de que tínhamos intuitos subversivos, de que tínhamos “matado” a Milton Society (que, reagindo às nossas atividades, suspendera suas infrequentes reuniões), e de que éramos um bando de garotos judeus irritantes, barulhentos e espertos que precisavam ser postos em seu lugar —, levou à nossa extinção. Um belo dia, o diretor do colégio mandou me chamar e disse, sem rodeios: “Sacks, sua sociedade está dissolvida”.

“Como assim, senhor?”, gaguejei. “Não pode simplesmente ‘dissolver’ nossa sociedade.”

“Sacks, eu posso fazer o que bem entender. Sua sociedade literária está dissolvida a partir deste momento.”

“Mas por quê, senhor?”, perguntei. “Quais são suas razões?”

“Não tenho de explicá-las a você, Sacks. Não tenho de ter razões. Pode ir agora, Sacks. Vocês não existem. Não existem mais.” Ele estalou os dedos — um gesto de dispensa, de aniquilação — e voltou ao trabalho.

Levei a notícia a Eric e Jonathan e a outros que haviam sido membros de nossa sociedade. Ficamos indignados e perplexos, mas nos sentimos totalmente desamparados. O diretor tinha autoridade, poder absoluto, e não havia coisa alguma que pudéssemos fazer para resistir a ele ou contrariá-lo.

Cannery Row foi publicado em 1945 ou 1946, e devo ter lido a obra logo depois — talvez em 1947, quando começara a estudar biologia na escola e a biologia marinha fora adicionada à minha lista de interesses. Eu adorava a gura de Doc, sua procura do lhote de polvo nas lagoas formadas pela maré próximo a Monterey, os milk-shakes de cerveja que ele tomava com os rapazes, a tranquilidade e a doçura idílicas de sua vida. Pensei que também gostaria de ter uma vida como a dele, viver na mágica, mítica Califórnia (que, com os lmes de caubói, já era para mim uma terra de fantasia). A América ocupava cada vez mais os meus pensamentos à medida que eu entrava na adolescência — os Estados Unidos haviam sido nosso grande aliado na guerra; seu poder, seus recursos eram quase ilimitados. Não haviam feito a primeira bomba atômica? Soldados americanos de licença andavam pelas ruas de Londres — seus gestos, seu modo de falar pareciam exprimir uma autocon ança, uma despreocupação, uma tranquilidade quase inimagináveis após seis anos de guerra. A revista Life, em suas grandes páginas duplas, mostrava montanhas, des ladeiros, desertos, paisagens de vastidão e magni cência nunca vistas na Europa, ao lado de cidades americanas habitadas por gente sorridente, animada, bem nutrida, morando em casas resplandecentes, frequentando lojas bem abastecidas, desfrutando uma vida de fartura e alegria inimaginável para nós, que ainda carregávamos o fardo do rigoroso racionamento, da preocupação com fazer economia. Ao glamour dessa imagem de beatitude transatlântica, de espontaneidade e esplendor desmedidos, musicais como Annie get your gun e Oklahoma! adicionavam uma força mitopeica. Foi nessa atmosfera de exagero romântico que Cannery Row e sua sequência, Sweet Thursday (apesar de doentia), tiveram tamanho impacto sobre mim.

Se na época que passei em St. Lawrence eu às vezes imaginava um passado mítico, agora começara a ter fantasias sobre o futuro, a imaginar-me um cientista ou naturalista na costa ou no imenso interior americano. Li relatos sobre a jornada de Lewis e Clark, li Emerson e Thoreau e, sobretudo, li John Muir. Apaixonei-me pelas sublimes e românticas paisagens de Albert Bierstadt e pelas belas e sensuais fotogra as de Ansel Adams (na ocasião, tive fantasias em que me tornava fotógrafo de paisagens).

Aos dezesseis ou dezessete anos, profundamente apaixonado por biologia marinha, escrevi para laboratórios de biologia marinha em todo o território americano — de Woods Hole em Massachusetts ao Scripps Institution em La Jolla, ao Golden Gate Aquarium em San Francisco e, naturalmente, a Cannery Row, em Monterey (a essa altura, eu já sabia que “Doc” era uma pessoa real, Ed Ricketts). De todos eles recebi respostas amáveis, creio, aplaudindo meu interesse e entusiasmo, mas também deixando patente que precisavam, além disso, de quali cações reais e que eu deveria pensar em voltar a entrar em contato assim que me formasse em biologia (quando nalmente fui para a Califórnia, dez anos depois, não foi como biólogo marinho, mas como neurologista).

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