Tio Tungstênio: Memórias de uma Infância Química

6. A terra da estibina

 

ACHO QUE FUI UM TANTO ARREDIO em minha escola, The Hall, pelo menos na época do meu primeiro retorno a Londres. Meu amigo Eric Korn, que me conhecera antes da guerra — tínhamos mais ou menos a mesma idade e éramos levados por nossas babás para brincar em Brondesbury Park —, supunha que alguma coisa acontecera comigo. Comentou que, antes da guerra, eu era agressivo e normal, entrava em brigas, me defendia, dizia o que pensava, mas que agora parecia intimidado, medroso, não começava brigas nem conversas, era retraído, mantinha distância. De fato, eu mantinha distância da escola, em quase todos os aspectos. Pois tinha medo de mais intimidações ou surras, e demorei a perceber que a escola podia ser um lugar agradável. Mas fui persuadido (ou forçado — não me lembro mais) a me tornar escoteiro. Julgou-se que isso me faria bem, me obrigaria a me misturar a outros meninos da minha idade, me ensinaria habilidades “necessárias” para a vida ao ar livre, como acender fogueira, acampar, seguir rastros — embora não fosse muito clara a serventia que isso teria na Londres urbana. Mas, por alguma razão, nunca as aprendi realmente. Eu não tinha senso de direção nem memória visual — no jogo chamado Kim’s Game, em que era preciso memorizar uma série de objetos, eu era tão inepto que se chegou a cogitar em de ciência mental. As fogueiras que eu preparava nunca se acendiam, ou então se apagavam em poucos segundos; minhas tentativas de fazer fogo friccionando dois gravetos nunca deram certo (embora eu conseguisse esconder o fato durante algum tempo pegando emprestado o isqueiro de meu irmão), e minhas tentativas de montar uma tenda desencadeavam a hilaridade universal.

As únicas coisas de que eu realmente gostava em ser lobinho eram o fato de todos nós usarmos uniforme (o que reduzia meu constrangimento, minha sensação de ser diferente), as invocações a Akela, o lobo cinzento, e nossa identi cação com os lhotes de lobo de O livro da selva — uma doce origem mítica que falava ao meu lado romântico. Mas a vida real de escoteiro, pelo menos para mim, falhava continuamente em todos os aspectos.

Essa situação culminou no dia em que nos disseram para fazer um damper como aqueles que Baden Powell, o fundador do escotismo, preparava em suas temporadas na África. Dampers, pelo que eu sabia, eram bolos achatados e duros de farinha sem fermento; mas quando fui procurar farinha na cozinha de casa, o pote estava vazio. Eu não queria perguntar onde havia mais farinha, nem sair para comprar — a nal, esperava-se que fôssemos versáteis e autossu cientes —, por isso dei uma olhada ao redor e, para minha alegria, descobri lá fora um pouco de cimento, deixado pelos pedreiros que estavam construindo um muro. Não consigo reconstruir o processo mental pelo qual me persuadi de que o cimento poderia substituir a farinha, mas o fato é que usei o cimento: transformei-o em pasta, temperei (com alho), moldei um bolo oval semelhante a um damper e assei no forno. Ficou duro, duríssimo — mas, en m, os dampers eram mesmo duríssimos. Quando o levei para a reunião dos lobinhos no dia seguinte e o entreguei ao nosso chefe, o sr. Baron, ele cou espantado, mas (acredito) contente, ou intrigado, com o peso daquele alimento, e a nutrição extraordinariamente substanciosa que ele prometia. O sr. Baron pôs meu damper na boca e mordeu, sendo recompensado com um tremendo estalo de um dente se quebrando. Ele instantaneamente cuspiu fora o que mordera; ouviram-se algumas risadinhas, e então se fez um pavoroso silêncio: toda a matilha de lobinhos me encarou.

“Como foi que você preparou este damper, Sacks?”, perguntou o sr. Baron, numa voz ameaçadoramente calma. “O que pôs nele?”

“Pus cimento, senhor”, respondi. “Não achei farinha.”

O silêncio cresceu, estendeu-se; tudo pareceu congelar numa espécie de quadro vivo imóvel. Esforçando-se para se controlar e (acredito) não me bater, o sr. Baron fez um discurso breve e exaltado: eu parecia um bom rapaz, ele disse, bem-comportado, embora tímido, incompetente e muito trapalhão, mas aquela história do damper dava muito o que pensar — eu percebia o que estava fazendo, tinha a intenção de causar mal? Tentei dizer que era só brincadeira, mas não consegui emitir nenhum som. Eu era apenas incrivelmente estúpido, ou era perverso, talvez demente? Qualquer que fosse o caso, eu me comportara muito mal, ferira meu chefe, traíra os ideais da matilha de lobinhos. Não tinha condições de ser um escoteiro, e assim o sr. Baron sumariamente me expulsou.

O termo * acting out ainda não fora inventado, mas o conceito vinha sendo frequentemente discutido, a menos de dois quilômetros da escola, na clínica Hampstead. Anna Freud estava encontrando todo tipo de comportamento perturbado e delinquente em jovens que haviam sofrido traumas durante a evacuação da guerra.

A Biblioteca Pública de Willesden era um curioso edifício triangular construído em ângulo com a rua Willesden Lane, a poucos minutos de nossa casa. Por fora parecia enganosamente pequeno, mas seu interior era vasto, com dezenas de nichos e compartimentos abarrotados de livros, mais livros do que eu jamais vira na vida. Assim que a bibliotecária se assegurou de que eu era capaz de manusear os livros e usar o catálogo, deu-me livre acesso ao acervo e me permitiu pedir livros da biblioteca central e até mesmo, às vezes, pegar livros raros e levar para casa. Eu era um leitor voraz, mas não metódico; passava os olhos pelo livro, folheava, demorava-me num trecho como bem entendia; e, embora meus interesses já estivessem fortemente enraizados nas ciências, eu também, de vez em quando, retirava livros de aventura ou histórias de detetives. Minha escola, The Hall, não ensinava ciências e, por isso, pouco me interessava — nosso currículo, na época, baseava-se apenas nos clássicos. Mas isso não era um problema, pois as leituras particulares na biblioteca me proporcionavam minha verdadeira educação, e eu dividia meu tempo livre, quando não estava com tio Dave, entre a biblioteca e as maravilhas dos museus de South Kensington, que foram cruciais para mim durante toda a minha infância e adolescência.

Os museus, em especial, permitiam-me vaguear à vontade, sem pressa, passando de uma sala a outra, de uma vitrine a outra sem ser obrigado a seguir nenhum currículo, assistir a aulas, fazer exames ou competir. Ir à escola dava uma sensação de passividade e obrigação, ao passo que nos museus podíamos ser ativos, explorar, como no mundo. Os museus — bem como o zoológico e o jardim botânico de Kew — incutiram-me o desejo de sair pelo mundo e explorar pessoalmente, ser um colecionador de rochas, de plantas, um zoólogo ou um paleontólogo. (Cinquenta anos depois, ainda são os museus de história natural e os jardins botânicos que procuro toda vez que vou a uma nova cidade ou país.)

Entrava-se no Geological Museum como em um templo, através de um grande arco de mármore anqueado por enormes vasos de uorita, uma forma de espato úor. O andar térreo era ocupado por gabinetes abarrotados e vitrines de minerais e gemas. Havia dioramas mostrando vulcões, poços de lama borbulhantes, lava em processo de resfriamento, minerais em cristalização, lentos processos de oxidação e redução, subindo e descendo, mexendo-se, metamorfoseando-se, e com isso tínhamos uma noção não apenas dos produtos das atividades da Terra — suas rochas, seus minerais —, mas dos processos físicos e químicos que continuamente os produziam.

No andar superior havia um colossal aglomerado de estibina — negros e reluzentes prismas lanciformes de sulfeto de antimônia. Eu já tinha visto sulfeto de antimônia no laboratório do tio Dave, na forma de um pó preto sem nada de notável, mas ali, no museu, eles se apresentavam em cristais de quase dois metros de altura. Eu venerava aqueles prismas; tornaram-se uma espécie de totem ou fetiche para mim. Aqueles cristais fabulosos, os maiores de seu tipo no mundo, haviam sido trazidos da mina de Ichinokawa, dizia a legenda, na ilha japonesa de Shikoku. Eu planejava, quando crescesse e pudesse viajar, fazer uma visita a essa ilha, e prestar meu tributo ao deus. A estibina é encontrada em muitos lugares, quei sabendo mais tarde, mas aquela primeira visão associou-a em minha mente indissoluvelmente ao Japão, e assim o Japão, mesmo tempos depois, era para mim a Terra da Estibina. De modo semelhante, a Austrália se tornou a Terra da Opala, além de ser a Terra do Canguru e do Ornitorrinco.

Havia também no museu uma grande massa de galena — devia pesar mais de uma tonelada —, que se moldara na forma de brilhantes cubos cinza-escuro de uns doze a quinze centímetros de lado, com frequência contendo cubos menores dentro deles. Esses cubos menores, por sua vez (eu podia vê-los examinando com minha lente de aumento), tinham cubos ainda menores que pareciam brotar de sua superfície. Quando mencionei esse fato ao tio Dave, ele explicou que a galena era totalmente cúbica, e que se eu pudesse vê-la magni cada 1 milhão de vezes, continuaria a ver cubos, com cubos menores ligados a eles. A forma dos cubos de galena, de todos os cristais, disse meu tio, era uma expressão do modo como seus átomos se dispunham, os padrões tridimensionais xos ou retículos cristalinos que eles formavam. Isso ocorria porque as ligações entre eles, que eram de natureza eletrostática, e a disposição efetiva dos átomos em um retículo cristalino re etiam a mais densa aglomeração que as atrações e repulsões entre os átomos permitiam. Eu achava fascinante que um cristal fosse construído da repetição de inúmeros retículos cristalinos idênticos — que ele fosse, efetivamente, um retículo cristalino gigante autorreplicante. Os cristais eram como microscópios colossais, que nos permitiam ver a con guração dos átomos que os compunham. Eu quase podia ver, em imaginação, os átomos de chumbo e os átomos de enxofre que compunham a galena — imaginava-os vibrando levemente com energia elétrica, mas sempre rmemente mantidos em suas posições, juntando-se então uns aos outros, coordenados em um retículo cúbico in nito.

Eu tinha visões (especialmente depois de ouvir histórias sobre meus tios em seus tempos de mineração) nas quais eu era uma espécie de geólogo menino, munido de talhadeira e martelo, coletando amostras para minha coleção, descobrindo espécies minerais nunca antes descritas. Cheguei a minerar em nosso jardim, mas não encontrei muita coisa além de uma ou outra lasca de mármore e sílex. Ansiava por partir em excursões geológicas, ver pessoalmente os padrões das rochas, a riqueza do mundo mineral. Esse desejo era insu ado por minhas leituras, não só relatos de grandes naturalistas e exploradores, mas também de livros mais modestos que me caíam nas mãos, como o livreto The geological story , de Dana, com suas belas ilustrações, e meu favorito, Playbook of metals , do século XIX, cujo subtítulo era Personal narratives of visits to coal, lead, copper and tin mines [Narrativas pessoais de visitas a minas de carvão, chumbo, cobre e estanho]. Eu também queria visitar várias minas, não só as de cobre, chumbo e estanho da Inglaterra, mas igualmente as de ouro e diamante que haviam atraído meus tios para a África. Entretanto, isso não sendo possível, o museu podia ser para mim um microcosmo do mundo — compacto, atrativo, uma destilação da experiência de inúmeros colecionadores e exploradores, de seus tesouros materiais, suas re exões e ideias.

Eu devorava as informações nas legendas de cada amostra. Entre os encantos da mineralogia estavam os belos e frequentemente antigos termos usados. Vug, tio Dave explicou, era um termo usado pelos antigos mineiros de estanho da Cornualha, e vinha do dialeto córnico vooga (ou fouga), que signi cava câmara subterrânea; em última análise, esse termo provinha do latim fovea, depressão. Intrigava-me que aquela palavra esquisita e feia testemunhasse quanto a mineração era antiga, do tempo da primeira colonização da Inglaterra pelos romanos, atraídos pelas minas de estanho da Cornualha. O próprio nome do minério de estanho, cassiterita, provinha das Cassiterides, as “Ilhas de Estanho” dos romanos.

Os nomes dos minerais fascinavam-me particularmente — seus sons, associações, a evocação de pessoas e lugares. Os nomes mais antigos davam a ideia de antiguidade e alquimia: coríndon e galena, ouro-pigmento e realgar. (Esses, dois sulfetos de arsênico eram eufônicos quando pronunciados juntos [orpiment e realgar] e me faziam pensar em um casal de ópera, como Tristão e Isolda.) Havia a pirita, o ouro dos trouxas, em cubos metálicos brônzeos, e a calcedônia, o rubi, a sa ra e o espinélio. Zircão soava a algo oriental, calomelano, a grego — sua doçura melí ua, seu “mel”, desmentido por seu veneno. Havia o sal amoníaco, nome de sonoridade medieval. Havia o cinabre, o pesado e rubro sulfeto de mercúrio, o massicote e o mínio, os óxidos de chumbo gêmeos.

Havia minerais batizados com nomes de pessoas. Um dos minerais mais comuns, responsável por boa parte do vermelho que havia no mundo, era o óxido de ferro e hidrogênio chamado goethita. Teria recebido esse nome em homenagem a Goethe, ou ele próprio a descobrira? Eu lera que ele tinha paixão por mineralogia e química. Muitos minerais tinham nomes de químicos — gailussita, xilita, berzelianita, bunsenita, liebignita, crookesita e a bela e prismática “prata-rubi”, a proustita. Havia a samarskita, batizada em homenagem a um engenheiro de minas, coronel Samarski. E outros nomes que eram mais evocativos de lugares: stolzita, um tungstato de chumbo, e também scholzita. Quem teriam sido Stolz e Scholz? Pareciam-me nomes prussianos, o que, depois da guerra, suscitava um sentimento antigermânico. Eu imaginava Stolz e Scholz como o ciais nazistas de voz estridente, que carregavam bengalas de estoque e usavam monóculo.

Outros nomes atraíam-me simplesmente pelo som ou pelas imagens que suscitavam. Eu gostava de palavras clássicas que descreviam propriedades simples — as formas cristalinas, cores, con gurações e a óptica dos minerais —, como diaspório, anastásio, micrólito e policroíta. Um grande favorito era a criolita — pedra de gelo, da Groenlândia, com índice de refração tão baixo que a tornava transparente, quase

fantasmagórica, e, como o gelo, invisível na água.1

Muitos elementos haviam recebido nomes do folclore ou da mitologia, o que às vezes revelava um pouco de sua história. Cobalto provinha de kobold, um duende ou espírito mau; níquel originara-se de nickel , ou diabo; ambos eram termos usados por mineiros saxões quando os minérios de cobalto e níquel se mostravam traiçoeiros, não se prestando ao que se esperava deles. O tântalo suscitava visões de Tântalo atormentado no inferno pela água que se afastava toda vez que ele se curvava para bebê-la; li que esse elemento recebeu seu nome porque seu óxido era incapaz de “beber água”, ou seja, de se dissolver em ácidos. O nióbio devia seu nome à lha de Tântalo, Níobe, porque esses dois elementos eram sempre encontrados juntos. (Meu livro de 1860 incluía nessa família um terceiro elemento, o pelópio — Pelópio era o lho de Tântalo, que foi preparado e servido como refeição aos deuses pelo pai — porém mais tarde se comprovou que esse elemento não existia.)

Outros elementos tinham nomes retirados da astronomia. Havia o urânio, descoberto no século XVIII e batizado com o nome do planeta Urano; alguns anos mais tarde, o paládio e o cério ganharam seus nomes em homenagem aos asteroides recém-descobertos Palas e Ceres. O telúrio tinha um belo nome grego, e nada mais natural que, ao ser descoberto seu análogo mais leve, ele recebesse o nome de selênio,

como a Lua.2

Encantava-me ler sobre os elementos, como haviam sido descobertos, conhecer não só os aspectos químicos, mas também o lado humano do empreendimento; tudo isso, e muitas outras coisas, aprendi em um livro fascinante publicado pouco antes da guerra por Mary Elvira Weeks, The discovery of the elements. Nesse livro obtive uma vívida ideia da vida de muitos químicos, da grande variedade, e às vezes excentricidade, de caráter que eles encerravam. E ali encontrei citações de cartas de químicos antigos, que falavam dos momentos de empolgação e desalento no tateante caminho para suas descobertas, da ocasional perda de rumo, dos becos sem saída e da tão esperada concretização do objetivo.

Minha história e minha geogra a, quando menino, a história e a geogra a que me emocionavam, baseavam-se mais na química do que em guerras e acontecimentos mundiais. Eu acompanhava os sucessos dos químicos antigos mais de perto do que os das forças adversárias na guerra (talvez, de fato, isso me ajudasse a car isolado da atemorizante realidade que eu vivia). Ansiava por ir à “ultima Thule”, o lar no extremo norte do elemento túlio, e visitar o pequeno povoado de Ytterby, na Suécia, que dera o nome a nada menos que quatro elementos (itérbio, térbio, érbio e ítrio). Desejava ir à Groenlândia, onde eu imaginava que existissem cordilheiras inteiras transparentes, quase invisíveis, da fantasmagórica criolita. Eu queria ir a Strontian, na Escócia, ver o povoado que dera o nome ao estrôncio. Toda a Grã-Bretanha, para mim, podia ser vista da ótica de seus numerosos minérios de chumbo — havia a matlockita, nome derivado de Matlock, no Derbyshire; a leadhilita, inspirada em Leadhills, no Lanarkshire; a lanarkita, também de Lanarkshire; e o belo sulfato de chumbo anglesita, de Anglesey, Gales. (Também havia a cidade de Lead, em South Dakota — uma cidade que eu gostava de imaginar como feita de chumbo metálico.) Os nomes geográ cos de elementos e minerais destacavam-se, para mim, como luzes no mapa do mundo.

Ver os minerais no museu estimulou-me a comprar, por alguns pence, saquinhos de “minerais sortidos” em uma loja do bairro; continham pedacinhos de pirita, galena, uorita, cuprita, hematita, gipsita, siderita, malaquita e diversas formas de quartzo; tio Dave poderia contribuir para enchê-los com coisas mais raras, como pequeninos fragmentos de xilita que haviam se desmembrado da peça principal. A maioria dos meus espécimes de minerais estava muito desgastada, quase sempre eram fragmentos minúsculos que um verdadeiro colecionador desprezaria, mas me davam a sensação de ser dono de uma amostra da natureza.

Foi olhando os minerais no Geological Museum e estudando suas fórmulas químicas que aprendi sobre sua composição. Alguns tinham uma composição simples e invariável, como o cinabre, um sulfeto de mercúrio que sempre continha as mesmas proporções de mercúrio e enxofre, onde quer que o espécime fosse encontrado. Mas não se aplicava a muitos outros minerais, incluindo o favorito de tio Dave, a xilita. Embora idealmente a xilita fosse tungstato de cálcio puro, alguns espécimes continham também uma certa quantidade de molibdato de cálcio. Inversamente, o molibdato de cálcio puro ocorria na natureza como o mineral powellita, mas alguns espécimes de powellita também continham pequenas quantidades de tungstato de cálcio. De fato, era possível ter qualquer intermediário entre os dois, de um mineral que era 99% tungstato e 1% molibdato a um que era 99% molibdato e 1% tungstato. Isso porque o tungstênio e o molibdênio tinham átomos, íons de tamanho semelhante, e assim um íon de um elemento podia substituir o outro no retículo cristalino do mineral. Mas, sobretudo, era porque o tungstênio e o molibdênio pertenciam ao mesmo grupo químico ou família, e a natureza os tratava de modo muito parecido por suas propriedades químicas e físicas semelhantes. Portanto, o tungstênio e o molibdênio tendiam, ambos, a formar compostos semelhantes com outros elementos, e a ocorrer naturalmente como sais acidíferos que se cristalizavam em solução sob condições semelhantes.

Esses dois elementos formavam um par natural, eram irmãos químicos. Essa relação fraternal era ainda mais íntima nos elementos nióbio e tântalo, que em geral ocorriam juntos nos mesmos minerais. E a fraternidade beirava a de gêmeos idênticos nos elementos zircônio e háfnio, que não só invariavelmente ocorriam juntos nos mesmos minerais, como também eram tão semelhantes quimicamente que decorreu um século antes de serem distinguidos — a própria natureza di cilmente podia fazer essa distinção.

Vagueando pelo Geological Museum também adquiri uma noção da imensa variedade, dos milhares de minerais diferentes na crosta terrestre e das abundâncias relativas dos elementos que os compunham. O oxigênio e o silício eram, de longe, os mais comuns — havia mais minerais de silicato do que qualquer outro, isso sem mencionar todas as areias do planeta. E nas rochas normais do mundo — gredas e feldspatos, granitos e dolomitas — podia-se ver que magnésio, alumínio, cálcio, sódio e potássio sem dúvida compunham nove décimos ou mais da crosta terrestre. O ferro também era comum: parecia haver áreas inteiras da Austrália vermelhas como Marte por causa do ferro. E eu podia acrescentar pequeninos fragmentos de todos esses elementos, na forma de minerais, à minha coleção.

O século XVIII, disse meu tio, fora uma época grandiosa na qual se descobriram e isolaram novos metais (não só o tungstênio, mas uma dúzia de outros também), e o grande desa o para os químicos setecentistas foi como separar esses novos metais de seus minérios. Foi assim que a química, a verdadeira química, se estruturou: investigando inúmeros minerais diferentes, analisando-os, decompondo-os para ver o que continham. A verdadeira análise química — ver o que reagia com os minerais ou como eles se comportavam quando eram aquecidos ou dissolvidos — evidentemente requeria um laboratório, mas havia observações elementares que podiam ser feitas em quase qualquer lugar. Podia-se pesar um mineral na mão, estimar sua densidade, observar seu brilho, a cor de seu veio em um prato de porcelana. A dureza variava imensamente, e com facilidade se podia obter uma aproximação — o talco e a gipsita podiam ser riscados com a unha; a calcita, com uma moeda; a uorita e a apatita, com uma faca de aço; e o ortoclásio, com uma lima de aço. O quartzo arranhava vidro, e o coríndon arranhava tudo, exceto o diamante.

Um modo clássico de determinar a densidade relativa ou a gravidade especí ca de um espécime era pesar um fragmento de mineral duas vezes, no ar e na água, para obter a razão entre sua densidade e a da água. Outro modo, mais simples, e que me dava especial prazer, era examinar a utuabilidade de diferentes minerais em líquidos de diferentes gravidades especí cas — para isso era preciso usar líquidos “pesados”, pois todos os minerais, com exceção do gelo, eram mais densos que a água. Consegui arranjar uma série de líquidos pesados: primeiro, o bromofórmio, que era quase três vezes mais denso que a água, depois, o iodeto de metileno, ainda mais denso, e então uma solução saturada de dois sais de tálio, chamada solução de Clerici. Essa solução tinha uma gravidade especí ca bem superior a quatro, e apesar de parecer água comum, muitos minerais e até alguns metais utuavam nela facilmente. Eu gostava de levar meu frasquinho de solução de Clerici para a escola, pedir às pessoas que o segurassem e ver a cara de surpresa que elas faziam ao sentir seu peso, quase cinco vezes maior do que esperavam.

Eu era tímido na escola (um relatório escolar me descreveu como “acanhado”), e Brae eld acrescentara um especial retraimento; mas quando eu tinha uma maravilha natural — fosse um estilhaço de bomba, um pedaço de bismuto com seus terraços de prismas lembrando uma aldeia asteca em miniatura, ou minha garra nha de solução de Clerici, tão densa e espantosa aos sentidos, ou ainda o gálio, que derretia na mão (depois consegui um molde e z uma colher de gálio, que diminuía e se derretia quando alguém mexia o chá com ela) — perdia toda a timidez e me aproximava dos outros sem hesitação, esquecendo totalmente o medo.

* Em psicologia, “atuação” ou “passagem ao ato”, a expressão de um impulso ou fantasia diretamente em um comportamento. (N. T.)

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