Tio Tungstênio: Memórias de uma Infância Química

4. “Um metal ideal”

 

VOLTEI PARA LONDRES no verão de 1943. Após quatro anos de exílio, eu era um menino de dez anos retraído e perturbado em alguns aspectos, mas apaixonado por metais, plantas e números. A vida estava começando a reassumir algum grau de normalidade, apesar dos onipresentes estragos dos bombardeios, do racionamento, dos blecautes e do papel no e ruim em que eram impressos os livros. Os alemães haviam recuado em Stalingrado, os Aliados tinham desembarcado na Sicília; poderia demorar anos, mas agora a vitória era certa.

Um sinal disso, para mim, foi o fato de meu pai ganhar, por meio de uma série de intermediários, uma coisa inusitada: uma banana do norte da África. Nenhum de nós vira uma banana desde o início da guerra, e por isso meu pai a dividiu, solenemente, em sete segmentos iguais: um para minha mãe, outro para ele, outro para tia Birdie, um para mim e um para cada um de meus irmãos. O minúsculo pedaço foi posto na língua, como uma hóstia, lentamente saboreado e engolido. Seu gosto era voluptuoso, quase extático, ao mesmo tempo uma recordação e um símbolo de tempos passados e um antegozo de tempos futuros, uma garantia, um sinal, talvez, de que eu voltara para casa para car.

No entanto, muita coisa havia mudado, e minha própria casa me desconcertava por estar diferente, nada parecida, em muitos aspectos, com a casa organizada e estável que fora antes da guerra. Éramos, suponho, uma família comum de classe média, mas naquela época famílias assim contavam com uma equipe de empregados, essenciais em nossas vidas, dado que crescíamos tendo pais ocupadíssimos e, em certa medida, “ausentes”. Havia a ama mais velha, Yay, que estivera conosco desde o nascimento de Marcus, em 1923 (eu nunca tive certeza de como soletrar seu nome, mas imaginava, depois de aprender a ler, que o certo era “Yea”, pois lera partes da Bíblia e me fascinara com palavras como lo [vede], hark [ouvi] e yea [em verdade]). Havia também Marion Jackson, minha babá, a quem eu me afeiçoara intensamente — a primeira palavra inteligível que falei (me disseram) foi seu nome, cada sílaba pronunciada com lentidão e atenção infantis. Yay usava touca de babá e uniforme, que me davam a impressão de severidade e inacessibilidade, mas Marion Jackson vestia roupas brancas e macias, macias como penas de pássaro, e nelas eu me aninhava e me sentia totalmente seguro.

Havia Marie, a cozinheira-arrumadeira, com seu avental engomado e mãos avermelhadas, e uma “diarista”, cujo nome esqueci, que vinha para ajudá-la. Além dessas quatro mulheres, havia Don, o motorista, e Swain, o jardineiro, que dividiam entre si o trabalho pesado da casa.

Disso tudo, bem pouco sobreviveu à guerra. Yay e Marion Jackson desapareceram — éramos todos “crescidos” agora. O jardineiro e o motorista haviam ido embora, e minha mãe (então com cinquenta anos) decidiu dirigir seu próprio carro. Esperava-se que Marie voltasse, mas ela nunca retornou, e no lugar dela era tia Birdie quem fazia as compras

e cozinhava.1

Também sicamente a casa mudara. O carvão tornara-se escasso, como tudo o mais no tempo da guerra, e a enorme caldeira fora fechada. Havia um pequeno queimador a óleo, com capacidade muito limitada, e muitos dos aposentos supér uos da casa haviam sido lacrados.

Agora que eu era “crescido”, deram-me um quarto maior, que fora o de Marcus, já que ele e David estavam na universidade. Ali eu tinha meu próprio aquecedor a gás, uma velha escrivaninha e uma estante só para mim; pela primeira vez na vida sentia que tinha um lugar meu, um espaço. Passava horas em meu quarto, lendo, sonhando com números, química e metais.

Acima de tudo, eu exultava por poder novamente visitar tio Tungstênio — sua fábrica parecia relativamente inalterada (embora o tungstênio andasse um tanto escasso, devido à grande quantidade necessária à produção de aço-tungstênio para blindagens). Acho que ele também gostou muito de ter seu jovem protegido de volta, pois passava horas comigo em sua fábrica e em seu laboratório, respondendo às minhas perguntas no mesmo ritmo em que eu as fazia. Em seu escritório ele tinha vários armários com porta de vidro, um dos quais continha uma série de lâmpadas elétricas; havia diversas lâmpadas de Edison do início da década de 1880, com lamentos de bra de carbono, uma lâmpada de 1897, com lamento de ósmio, e várias lâmpadas da virada do século, com lamentos de tântalo, cujo traçado lembrava uma teia de aranha. E havia também as lâmpadas mais recentes — orgulho e interesse especiais de meu tio, pois algumas delas tinham sido inventadas por ele —, com lamentos de tungstênio de todas as formas e tamanhos. Uma delas, batizada de “Lâmpada do Futuro?”, não tinha

lamento, e trazia a palavra Rênio escrita em um cartão ao lado dela.

Eu já ouvira falar da platina, mas os outros metais — ósmio, tântalo, rênio — eram novidade para mim. Tio Dave guardava amostras de todos eles, e de alguns de seus minérios, num armário ao lado das lâmpadas. Enquanto os manuseava, ele discorria sobre suas qualidades únicas, soberanas, como haviam sido descobertos, como eram re nados e por que eram tão apropriados para fabricar lamentos. À medida que tio Dave falava sobre os metais lamentosos, “seus” metais, eles se tornavam, aos meus olhos, especialmente desejáveis e signi cativos — nobres, densos, infusíveis, fulgentes.

Ao pegar uma pepita desgastada de metal cinzento, dizia: “Densa, não é?”, e a jogava para mim. “É uma pepita de platina. É assim que elas são encontradas, como pepitas de metal puro. A maioria dos metais é encontrada em combinações com outras coisas, nos minérios. Existem pouquíssimos outros metais que ocorrem sem mistura, como a platina — apenas o ouro, a prata, o cobre e um ou outro mais.” Esses outros metais já eram conhecidos havia milhares de anos, ele explicou, mas a platina fora “descoberta” apenas duzentos anos antes — embora os incas a valorizassem por séculos, ela era ignorada pelo resto do mundo. De início, a “prata pesada” foi considerada um estorvo, um adulterante do ouro, e a jogavam fora nas partes mais profundas do rio para que não voltasse a “sujar” as bateias dos mineiros. Mas em ns da década de 1700 o novo metal já encantara toda a Europa — era mais denso, mais pesado que o ouro e, como o ouro, era “nobre” e nunca embaciava. Seu brilho equiparava-se ao da prata ( platina, em espanhol, signi ca “pequena prata”).

A platina frequentemente era encontrada com dois outros metais, o irídio e o ósmio, ainda mais densos, duros e refratários. Nessa parte da explicação meu tio tirou do armário e me passou às mãos duas amostras, simples ocos do tamanho de lentilhas, mas que eram espantosamente pesados. Era “osmirídio”, uma liga natural de ósmio e irídio, as duas substâncias mais densas do mundo. Algo na qualidade das coisas pesadas e densas — não sei dizer o quê — me eletrizava, dava-me uma sensação in nita de segurança e conforto. O ósmio, além disso, tinha o mais alto ponto de fusão de todos os metais do grupo da platina, contou tio Dave, e por isso houve uma época em que, apesar de ser raro e caro, fora usado para substituir lamentos de platina em lâmpadas.

A grande virtude dos metais do grupo da platina era que, apesar de nobres e moldáveis como o ouro, tinham pontos de fusão muito mais elevados, sendo por isso ideais para a aparelhagem química. Cadinhos feitos de platina suportavam as mais altas temperaturas; béqueres e espátulas de platina aguentavam os ácidos mais corrosivos. Tio Dave tirou do armário um pequeno cadinho, primorosamente liso e brilhante. Parecia novo. “Isto foi feito mais ou menos em 1840”, falou. “Um século de uso, e quase nenhum desgaste.”

Jack, o lho mais velho de meu avô, tinha catorze anos em 1867, quando foram encontrados diamantes nas proximidades de Kimberley, na África do Sul, e então teve início a grande corrida dos diamantes. Na década de 1870, Jack e dois irmãos — Charlie e Henry (este último nasceu surdo e se comunicava na linguagem de sinais) — foram para a África do Sul em busca de fortuna, dando consultoria sobre diamante, urânio e minas de ouro (sua irmã Rose os acompanhou). Em 1873, meu avô casou-se novamente; teve mais treze lhos, e os velhos mitos da família — uma combinação, talvez, de relatos de seus lhos mais velhos, das histórias de Rider Haggard sobre as minas do rei Salomão e de antigas lendas sobre o Vale dos Diamantes — levaram dois dos lhos nascidos em seguida (Sydney e Abe) a juntar-se a seus meios-irmãos na África. Tempos depois, dois dos irmãos mais novos, Dave e Mick, também foram para lá, e assim, em certa época, sete dos irmãos Landau estavam trabalhando na África como consultores em mineração.

Uma fotogra a que tínhamos em nossa casa (e que hoje está na minha) mostra a família em 1902 — meu avô, barbudo e patriarcal, sua segunda esposa, Chaya, e seus treze lhos. Minha mãe aparece como uma garotinha de seis ou sete anos, e sua irmã caçula, Dooggie — a mais nova dos dezoito lhos —, como uma bolinha fofa no chão. Quem observa com atenção pode ver que as imagens de Abe e Sydney foram enxertadas na foto (o fotógrafo redistribuiu os outros para dar espaço aos dois), pois na época eles ainda estavam na África do Sul — detidos, e

talvez em perigo, na Guerra dos Bôeres.2

Os meios-irmãos mais velhos, já casados e radicados, permaneceram na África do Sul. Nunca voltaram para a Inglaterra, embora histórias sobre eles circulassem constantemente na família, histórias que eram magni cadas a um grau de lenda pela mitopeia familiar. Os irmãos mais novos — Sydney, Abe, Mick e Dave — voltaram para a Inglaterra quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, munidos de narrativas e troféus exóticos de seus dias de mineração — inclusive minerais de todos os tipos.

Tio Dave adorava manusear os metais e minerais de seu armário, deixar que eu os pegasse, dissertar sobre seus prodígios. Acho que ele via a Terra inteira como um gigantesco laboratório natural, onde o calor e a pressão causavam não só grandes movimentos geológicos, mas também inúmeros milagres químicos. “Veja estes diamantes”, ele dizia, mostrando-me um exemplar da célebre mina de Kimberley. “São quase tão antigos quanto a Terra. Formaram-se há bilhões de anos, nas profundezas da Terra, sob pressões inimagináveis. E então foram trazidos à superfície neste kimberlito, viajando centenas de quilômetros pelo manto terrestre, atravessando a crosta até por m chegarem à superfície. Talvez nunca vejamos o interior da Terra diretamente, mas este kimberlito e seus diamantes são uma amostra de como é por lá. As pessoas já tentaram fabricar diamantes”, ele acrescentou, “mas não

conseguem obter as temperaturas e pressões necessárias.”3

Numa das visitas, tio Dave mostrou-me uma grande barra de alumínio. Depois de ver os densos metais do grupo da platina, espantei-me com a leveza do alumínio, não muito mais pesado que um pedaço de madeira. “Vou mostrar a você uma coisa interessante”, ele disse. Pegou um pedaço menor de alumínio, com uma superfície lisa e brilhante, e o lambuzou de mercúrio. Subitamente — como se fosse alguma doença terrível —, a superfície se rompeu e uma substância branca, como um fungo, rapidamente se formou, cresceu meio centímetro, um centímetro, e continuou crescendo até que o alumínio estivesse totalmente consumido. “Você já viu ferro enferrujar, oxidar-se, quando combinado ao oxigênio do ar”, meu tio explicou, “mas aqui, com o alumínio, é um milhão de vezes mais rápido. Esta grande barra ainda está bem brilhante, pois é recoberta por uma na camada de óxido, que a protege de mudanças adicionais. Mas quando a friccionamos com mercúrio, destruímos esse revestimento da superfície, o alumínio ca sem proteção e se combina com o oxigênio em segundos.”

Para mim, aquilo era mágico, assombroso, mas também um pouco assustador — ver um metal claro e brilhante reduzido em instantes a uma massa de óxido em desintegração. Fazia-me pensar em uma maldição ou feitiço, o tipo de desintegração que eu às vezes via nos sonhos. Eu cava com a impressão de que o mercúrio era perverso, um destruidor de metais. Ele fazia isso com todo tipo de metal?

“Não se preocupe”, respondeu meu tio, “os metais que usamos aqui são perfeitamente seguros. Se eu puser esta barrinha de tungstênio no mercúrio, ela não será afetada de jeito nenhum. Se eu a guardar por um milhão de anos, continuará tão brilhante quanto agora.” O tungstênio, pelo menos, era estável num mundo precário.

“Você viu que quando a camada super cial é rompida, o alumínio se combina muito rapidamente com o oxigênio do ar, formando este óxido branco, chamado alumina”, prosseguiu tio Dave. “Acontece coisa parecida com o ferro quando enferruja; a ferrugem é um óxido de ferro. Alguns metais são tão ávidos por oxigênio que se combinam com ele, embaciando, formando um óxido, assim que são expostos ao ar. Alguns chegam a retirar oxigênio da água, por isso é preciso mantê-los em um tubo selado ou imersos em óleo.” Meu tio me mostrou alguns pedaços de metal de superfície esbranquiçada dentro de uma garrafa com óleo. Pescou um dos pedaços e o cortou com um canivete. Fiquei surpreso por ele ser tão mole; eu nunca tinha visto um metal ser cortado daquela maneira. A superfície do corte tinha um fulgor prateado. Aquilo era cálcio, disse meu tio, e era tão ativo que nunca ocorria na natureza como metal puro, mas somente como compostos ou minerais dos quais tinha de ser extraído. Os paredões de rocha brancos de Dover eram greda, ele mencionou; outros eram feitos de calcário — estas eram diferentes formas do carbonato de cálcio, o principal componente da crosta terrestre. O metal cálcio se oxidara completamente enquanto conversávamos; sua superfície brilhante transformara-se em branca e opaca. “Está se transformando em cal”, disse meu tio, “óxido de cálcio.”

Mas, cedo ou tarde, os solilóquios e as demonstrações de meu tio diante do armário voltavam ao seu metal. “Tungstênio!”, ele dizia. “De início, ninguém percebeu que metal perfeito ele era. Possui o mais elevado ponto de fusão de todos os metais, é mais resistente que o aço e se mantém forte a altas temperaturas — um metal ideal!”

Meu tio guardava uma variedade de barras e lingotes de tungstênio no escritório. Alguns ele usava como peso de papel, mas outros não tinham nenhuma função discernível, exceto dar prazer a seu dono e fabricante. E, de fato, em comparação, as barras de aço e até as de chumbo pareciam leves e de algum modo porosas, frágeis. “Estes pedaços de tungstênio têm uma extraordinária concentração de massa”, ele dizia. “Poderiam ser letais como armas — muito mais letais do que o chumbo.”

Haviam tentado produzir balas de canhão com tungstênio no início do século, ele acrescentou, mas tiveram muita di culdade para trabalhar com o metal — embora o usassem às vezes para fazer pesos de pêndulos. Se alguém quisesse pesar a Terra, sugeriu meu tio, e tomar uma massa muito densa e compacta como “peso da balança”, o melhor jeito seria usar uma gigantesca esfera de tungstênio. Meu tio calculou que uma bola de apenas sessenta centímetros de diâmetro pesaria mais de duas toneladas.

Um dos minérios do tungstênio, a xilita, devia seu nome ao grande químico sueco Carl Wilhelm Scheele, o primeiro a demonstrar que aquele minério continha um novo elemento, comentou meu tio. O minério era tão denso que os mineiros o chamavam de “pedra pesada”, tung sten, nome que depois foi dado ao próprio elemento. A xilita era encontrada em belos cristais cor de laranja, que à luz ultravioleta emitiam uma intensa uorescência azul. Meu tio guardava amostras de xilita e outros minerais uorescentes num armário especial em seu escritório. Eu imaginava que a luz baça de Farringdon Road numa noite de novembro se transformaria quando ele ligasse sua lâmpada de Wood e os pedaços luminosos dentro do armário subitamente brilhassem em tons laranja, turquesa, carmesim e verde.

Embora a xilita fosse a maior fonte de tungstênio, o metal fora obtido primeiramente de um mineral diferente, a volframita [wolfram]. De fato, às vezes o tungstênio era chamado wolfram, e ainda conservava o símbolo químico W. Isso me fascinava, pois meu segundo nome era Wolf. Pesados veios dos minérios de tungstênio eram frequentemente encontrados com minério de estanho, e o tungstênio di cultava ainda mais o processo de isolar o estanho. Por isso, continuou meu tio, originalmente fora dado ao metal o nome wolfram, porque, como um animal faminto [o lobo, ou wolf ], ele “roubava” o estanho. Eu gostava do nome wolfram, sua qualidade animal agressiva, sua evocação de um místico lobo famélico — e pensava nisso como um laço unindo Tio Tungstênio — Tio Wolfram — e eu, O. Wolf Sacks.

“A natureza nos oferece cobre, prata e ouro nativos, como metais puros”, dizia meu tio, “e, na América do Sul e nos Urais, oferece também metais do grupo da platina.” Ele gostava de pegar os metais nativos em seu armário — os torcidos e lantejoulas de cobre rosado, prata escurecida, grânulos de ouro garimpados por mineiros na África do Sul. “Imagine como deve ter sido ver o metal pela primeira vez — súbitas centelhas re etindo a luz do sol, brilhos súbitos numa rocha ou no fundo de um rio!”, ele devaneava.

Mas a maioria dos metais era encontrada em forma de óxidos, às vezes chamados óxidos de cálcio, e sabia-se que esses minérios eram insolúveis, incombustíveis, infusíveis e, como escreveu um químico setecentista, “desprovidos de esplendor metálico”. No entanto, como se percebeu, eles eram muito próximos dos metais e podiam, de fato, ser convertidos em metais quando aquecidos com carvão, enquanto os metais puros se tornavam óxidos de cálcio quando aquecidos ao ar. Mas não se entendia o que realmente ocorria nesses processos. Muito antes da teoria pode haver um profundo conhecimento prático, meu tio comentou: compreendia-se como era possível, na prática, fundir minérios para extrair metais, mesmo não se entendendo exatamente o que acontecia.

Meu tio me fez visualizar a primeira fusão de metal: homens das cavernas poderiam ter usado rochas contendo um minério de cobre — malaquita verde, talvez — para cercar uma fogueira onde preparavam comida e de repente percebido, quando a madeira se tornava carvão, que a rocha verde estava sangrando, transformando-se num líquido vermelho, o cobre derretido.

Sabemos, ele prosseguiu, que se aquecermos os óxidos com carvão, o carbono do carvão se combina com o oxigênio dos óxidos e, dessa maneira, os “reduz”, deixando o metal puro. Sem a capacidade de obter metais a partir de seus óxidos, ele dizia, nunca teríamos conhecido outras variedades além do punhado de metais nativos. Nunca teria existido uma Idade do Bronze, muito menos uma Idade do Ferro; nunca teríamos tido as fascinantes descobertas do século XVIII, quando uma dúzia e meia de novos metais (incluindo o tungstênio!) foram extraídos de seus minérios.

Tio Dave mostrou-me o óxido túngstico puro obtido da xilita, a mesma substância que Scheele e os d’Elhuyar, os descobridores do

tungstênio, haviam preparado.4 Peguei a garrafa das mãos de meu tio; continha um pó amarelo denso que era surpreendentemente pesado, quase tanto quanto o ferro. “Basta aquecê-lo com um pouco de carbono num cadinho, até car rubro-incandescente”, ele disse. Misturou então o óxido amarelo com carbono e colocou o cadinho em um canto da grande fornalha. Poucos minutos depois, retirou-o com tenazes compridas e, enquanto a mistura esfriava, vi que uma mudança fascinante ocorrera. O carbono tinha desaparecido totalmente, e também a maior parte do pó amarelo; no lugar deles havia grânulos de metal cinzento com um tênue brilho, exatamente como os d’Elhuyar haviam visto em 1783.

“Existe uma outra maneira de fazer isso”, disse meu tio. “É mais espetacular.” Ele misturou o óxido túngstico a alumínio namente pulverizado, depois acrescentou açúcar, perclorato de potássio e ácido sulfúrico. O açúcar, o perclorato e o ácido incendiaram-se imediatamente, o que, por sua vez, ateou fogo no alumínio e no óxido túngstico, e estes queimaram com grande intensidade, emitindo uma chuva de centelhas brilhantes. Quando as centelhas se extinguiram, vi no cadinho um glóbulo de tungstênio branco-incandescente. “Essa é uma das reações mais violentas que existem”, disse meu tio. “Chamam-na processo termítico; você pôde ver por quê. Ele é capaz de gerar uma temperatura de 3 mil graus ou mais — su ciente para derreter o tungstênio. Você viu que precisei usar um cadinho especial revestido com magnésia, que suporta a alta temperatura. É muito perigoso, pode haver uma explosão se não tivermos muito cuidado — e na guerra, obviamente, usam esse processo para fazer bombas incendiárias. Mas, nas condições certas, é um método excelente, e tem sido usado para obter todos os metais difíceis — cromo, molibdênio, tungstênio, titânio, zircônio, vanádio, nióbio, tântalo.”

Raspamos os grânulos de tungstênio do cadinho, depois os lavamos cuidadosamente com água destilada, os examinamos com uma lupa e os pesamos. Meu tio trouxe um minúsculo cilindro graduado de 0,5 mililitro, encheu-o com água até a marca de 0,4 mililitro e então colocou lá dentro os grânulos de tungstênio. A água subiu um vigésimo de mililitro. Escrevi os números exatos e z o cálculo — o tungstênio pesava pouco menos de um grama e sua densidade era 19. “Excelente”, disse meu tio. “É mais ou menos isso que os d’Elhuyar obtiveram quando o produziram pela primeira vez, na década de 1780.”

E acrescentou: “Agora tenho aqui vários metais diferentes, todos em grânulos. Que tal você praticar pesando-os, medindo seu volume e calculando sua densidade?”. Passei a hora seguinte empolgadíssimo na tarefa, e descobri que meu tio me fornecera uma variedade imensa, que ia de um metal prateado, um pouco embaciado, com densidade menor que 2, a um de seus grânulos de osmirídio (eu reconheci o metal), cuja densidade era quase doze vezes maior. Quando medi a densidade de um minúsculo grânulo amarelo, vi que era exatamente igual à do tungstênio — 19,3, para ser exato. “Está vendo?”, meu tio comentou. “A densidade do ouro é quase igual à do tungstênio, mas a prata é bem mais leve. É fácil sentir a diferença entre ouro puro e prata revestida de ouro — mas seria difícil com o tungstênio revestido de ouro.”

Scheele era um dos grandes heróis do tio Dave. Descobrira não só o ácido túngstico e o ácido molíbdico (do qual se fez o novo elemento, molibdênio), mas também o ácido uorídrico, o sulfeto de hidrogênio, a arsina e o ácido prússico, além de uma dúzia de ácidos orgânicos. Tudo isso, comentou tio Dave, ele fez sem ajuda de ninguém, sem assistentes, sem nanciamento, sem cargo nem salário na universidade; fez trabalhando sozinho, tentando pagar as contas com seus rendimentos de boticário numa cidadezinha provinciana sueca. Ele descobrira o oxigênio, não por um feliz acidente, mas obtendo-o de vários modos diferentes; descobrira o cloro e mostrara o caminho para a descoberta do manganês, do bário e de outra dezena de coisas.

Scheele era totalmente devotado ao trabalho, disse meu tio, não ligava a mínima para fama e dinheiro, e compartilhava seus conhecimentos, todos os que possuía, com qualquer pessoa. Fiquei impressionado com a generosidade de Scheele, e também com sua engenhosidade, com o modo como (na prática) ele cedeu a descoberta efetiva de elementos a seus alunos e amigos — a descoberta do manganês a Johan Gahn, a do molibdênio a Peter Hjelm, e a do tungstênio aos irmãos d’Elhuyar.

Dizia-se que Scheele nunca esquecia nada que se relacionasse com a química. Nunca esquecia a aparência, o cheiro e a sensação produzida por uma substância ao toque, nem o modo como ela se transformava nas reações químicas; nunca esquecia nada do que lia ou ouvia sobre os fenômenos da química. E parecia indiferente, ou desatento, à maioria das outras coisas, sendo inteiramente dedicado à sua única paixão, a química. A absorção pura e apaixonada dos fenômenos — anotando tudo, não se esquecendo de nada — constituiu o ponto forte de Scheele.

Para mim, Scheele era o epítome da paixão cientí ca. Eu via integridade, bondade essencial em uma vida imersa na ciência, um caso de amor eterno. Eu nunca tinha pensado muito no que poderia ser quando “crescesse” — crescer era difícil de imaginar —, mas agora eu sabia: queria ser químico. Um químico como Scheele, um químico do século XVIII ingressando nesse campo de estudo, examinando todo o mundo inexplorado das substâncias naturais e minerais, analisando-as, perscrutando seus segredos, descobrindo as maravilhas de metais novos e desconhecidos.

OceanofPDF.com