Trilogia do adeus

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 2 de 3 · parte 3/3

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Trilogia do adeus

Menina escrevendo com o pai

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

a sua, a nossa, história ganhando com esse João uma nova estradinha. É manhã de domingo nesta folha em que escrevo: de tênis e roupa esportiva, eu caminho com o fone de ouvido, não escuto o som do que acontece à minha frente. Eu penso em Mateus, meu irmão. Meio-irmão seria mais correto dizer. Não sei por quê, mas nesse momento eu sinto falta dele, a gente lá com o pai, a gente uma praça e o tempo passeando por nós. Sinto falta da gente lá, com o pai, sinto falta do Mateus, meu meio-irmão — mesmo morando hoje na casa dele. Saudades inteiras, porque não há saudades pela metade. Saudades a gente sente a qualquer hora, como a vida. A vida é — também o que já foi —, a qualquer hora.

Ele, João, um país. Eu conheço um pouco desse país, mas falta muito ainda para eu descobrir. Já não vejo mais nada lá embaixo, estamos entre as nuvens, eu e ele num voo São Paulo–Rio de Janeiro, segunda fileira do avião, poltronas 2A e 2B, e não importa o antes e o depois, só o durante, e o durante é novamente agora, nós dois no céu azul, entrando numa nuvem imensa, o mundo branco, branco, a gente saindo dele — tudo azul outra vez. O pai folheia a revista de bordo, eu permaneço à janela vendo céu e nuvem lá fora, céu e nuvem que não me cansam, céu e nuvem que me fascinam, e eu estou feliz, tão feliz quanto uma criança pode estar quando não sabe ainda que, um dia, terá de provar a tristeza em igual medida. Eu vou conhecer o morro do Pão de Açúcar, vou sentir temor quando o bondinho balançar na ancoragem, e, no dia seguinte, subirei até o Cristo Redentor, vou tirar fotos da cidade quieta lá embaixo com meu celular, vou olhar tudo com os meus olhos voltados para dentro, pedirei pipoca ao pai, e ele comprará, iremos no Jardim Botânico, deitaremos na grama, e, ao contemplar o céu, eu vou ver um avião, eu vou apontar para o alto e dizer, olha, pai, a gente viajou num daquele, mas, por enquanto, estamos aqui, nesse avião, talvez outra menina com seu pai, deitada na grama do Jardim Botânico, esteja apontando para nós dois, pois já estamos sobrevoando o Rio, descendo, descendo, só uma hora, tão curta a viagem, e o pai me levará a uma praia distante, Recreio do Bandeirantes, e, depois a outra ainda mais distante, praia da Macumba, eu vou comer milho verde e vou passar mal, mas agora nós estamos no avião, estamos ainda a caminho, a pai vira a página da revista e surge um mapa-múndi, eu me inclino pra ver, ele me mostra com a ponta do dedo as rotas, São Paulo–Paris, Paris–Milão, Rio de Janeiro–Madri, Manaus–Orlando, e eu sigo outras rotas na página com o meu próprio indicador. O pai me pergunta que país eu gostaria de conhecer, e eu respondo, Espanha, ele sorri e pergunta, qual mais?, eu digo, Itália, e ele, mais um, Bia, e eu, Tailândia, e ele, Tailândia? O que você sabe sobre a Tailândia?, e eu, sincera, digo, nada, e acrescento, por isso quero ir lá! O pai diz que houve um tempo em que só os ricos viajavam de avião, diz que hoje não, tanto que estamos ali, embora as passagens aéreas ainda sejam caras, é preciso dinheiro para conhecer até mesmo o nosso país. E então ele diz que, quando eu crescer, se eu não puder conhecer muitos países, eu posso conhecer pessoas, e, cada pessoa, ele diz, cada pessoa é um país. Mas um país pra gente conhecer não como turista, que só passa, conhecer como quem fica e se deixa lá, conhecer não com os olhos dos outros, nem da máquina fotográfica, mas com os nossos próprios olhos, os olhos que registram para dentro e não só para fora. Eu gostei do que ele disse, fiquei pensando em todo mundo que eu conhecia, cada pessoa um país, a Catarina, a avó Helena, o Mateus, a Neuza… O avião vai pousar, eu vejo a cidade cercada pelo mar, é meio-dia, o horizonte é todo sol, eu vejo uns prédios e umas casas, vejo a pista do aeroporto se aproximando, e, ao fundo, refletido no vidro da janela, o rosto do meu pai. Um país lá fora, e outro, o país João, junto a mim.

Eu e ele centenas de vezes, frente a frente, partilhando uma refeição. Mudam as toalhas, os talheres e os copos, mudam as travessas e os pratos, as nossas posições à mesa, as paredes ao fundo, mudam as companhias ao nosso redor, a nossa idade, e tudo segue igual, a gente acalmando a fome, dizendo o que se costuma dizer em qualquer hora, as coisas menores no meio das maiores, essas se confundindo com aquelas. Tantos encontros entre as levezas e as urgências da vida diante um do outro, e, no entanto, nada tão significativo, senão que estar ali com ele era algo maior e eu nem me dava conta. Nada tão significativo senão também uma coisa menor que se deu uma noite, uma única vez, e aqui vai se repetir com a precariedade das minhas palavras. Eu apenas senti, eu vou sentir de novo — o futuro talvez me explique o que na ocasião eu não consegui compreender. É um dia de semana, terça ou quarta, não me recordo, tanto faz. Importa que eu estou com o pai, esquentamos a comida no micro-ondas, vamos jantar. Algum assunto nos leva a conversar, é assim com todo mundo, a conversa é como o pão que acompanha a comida, às vezes são fatias generosas que passam de uma mão a outra, às vezes são migalhas, perguntar como foi o seu dia?, responder com um resumo, ou mencionando um fato que vivemos pela manhã, é próprio da vida, tanto é o seu silêncio e o seu inalcançável sentido, que temos de verbalizar, temos de falar para suportar o mistério que, por natureza, se cala ante a nossa ignorância. Eu, então, olho para o pai como a gente olha outra pessoa, no normal da hora, enquanto vamos nos servindo do diálogo, como da comida, eu olho o pai, eu olho meu prato, olho o garfo pegando o arroz, olho o rosto dele à minha frente, e, de súbito, para o meu assombro, eu não vejo o que sempre vejo, eu vejo algo que eu nunca havia percebido sob o comum do meu ver, eu vejo que tudo é lento, os seus gestos sem vigor, como se o que está no pai — a sua existência — sofresse para estar ali, sofresse para nutrir a sua luz pálida, a qual ele se agarra com sua força máxima, embora já no limite da exaustão. Algo querendo ficar ali comigo e, igualmente, querendo ir, talvez não por desejo, e, sim, por saber que é inevitável. Eu olho o pai e posso ver os seus dentes cansados e escuros, mastigando devagar, devagar, quase incapaz de macerar a carne. Eu vejo os gestos do pai se expressarem numa linguagem que eu não sei traduzir, mas que me comove, me lacera, me atordoa. Eu vejo o pai comendo, sem perceber que eu estou vendo algo a mais em seus movimentos, que eu estou vendo os movimentos do sim, tão frágeis, e os do não com sua potência, bruta e impiedosa, e eu sei que houve o tempo em que o não, no extremo oposto, era só uma teia condenada à progressiva e arrasadora manifestação do sim. O pai ergue o rosto e me vê, o pai vê a névoa que se adensa em meus olhos, e, surpreso, o pai me revê, talvez em busca, nas minhas feições, desse algo que eu estou vendo nele, mas não compreendo, o pai me olha e diz, o que aconteceu, filha?, e eu, eu não digo nada, eu ia dizer, não é nada, é só a vida, eu ia dizer, é só a vida, a minha e a sua, nossas vidas partindo em velocidade diferente, eu ia dizer, é a minha vida que ainda é e a sua vida que está deixando de ser. Mas eu não digo nada. Naquele momento e, agora, ao revivê-lo, eu não digo nada. Eu me levanto da mesa, eu vou para o quarto, eu deito na cama, eu fecho os olhos, eu sinto uma imensa tristeza. Uma imensa tristeza que só não é mais imensa porque, presa a ela, há uma migalha de alegria, um sim do tempo, uma breve permissão para nos manter ainda unidos, aqui.

Mas eu ainda não sei muitas coisas. Coisas com as quais eu vou me acostumar. Depois da primeira vez, vem a segunda, a terceira — o que a gente tem de ser se impõe, queiramos ou não. Daqui a alguns minutos, eu vou, novamente, passar por uma primeira vez, o primeiro beijo, mas vai ser um beijo importante só por ser o primeiro, porque haverá o segundo, o terceiro, e eles serão melhores, só que eu ainda não dei esse beijo, eu vou dar, quer dizer, eu marquei um encontro com o Danilo, então ainda nada posso dizer desse beijo, senão o que acontece na minha imaginação, eu dei esse beijo mil vezes antes, eu sonho que vai ser de um jeito, daí modifico uns detalhes e o novo arranjo me agrada mais, eu me prendo a ele, como a Bia criança a seu balão verde, mas na hora do beijo-beijo vai ser diferente, eu já conheço um pouco as engrenagens da realidade, que nunca coincide com o desenho em nosso pensamento. Os minutos já passaram, eu logo estarei com o Danilo, queria ter conversado com a Catarina, ela já beijou o Vitor, mas eu menti pra ela, disse que já tinha beijado um menino lá no acampamento, então estou sozinha, sinto um tremor, um não querendo segurar todos os meus sins, mas eu quero, e não há volta, eu já estou com os dois pés na alegria, quando o beijo acabar, adianto aqui, eu atingirei a glória, e então vou sair correndo, de repente, para surpresa do Danilo, vou sair correndo, depois que as línguas se encontrarem meio sem jeito, vou sair correndo, não de medo, nem de vergonha, vou sair correndo para ficar comigo, com a grandeza do meu gesto, pensando no Danilo, apaixonada por ele. E é nesse estado, de encantamento, que chego em casa, o pai se encolheu todo no sofá, velhinho, eu penso que ele dorme, mas ele está só de olhos fechados, e ele pergunta, tudo bem, filha?, o pai, mesmo de olhos fechados, sabe que eu estou tentando me controlar — a felicidade dá coices em meu peito —, e eu respondo, imitando a minha voz normal, porque ela sumiu de mim, a voz que fala por mim é a da euforia, eu respondo, tudo, tudo bem, pai!, e eu agradeço mentalmente ao universo por ele não me perguntar mais nada, por me deixar com o meu segredo, saboreando de novo, em devaneio, o meu primeiro beijo. Mas o pai não costuma ficar no sofá, todo encolhido, de olhos fechados, algo o perturba, eu pressinto, e pergunto, com as mesmas palavras, tudo bem, pai?, e ele responde que é só uma dor de cabeça, já tomou uma aspirina, logo passa. É o primeiro sinal, depois virá o segundo, o terceiro… não há volta. Mas nós ainda não sabemos. Ele vai adormecer ali mesmo. E eu vou para o quarto, continuar o meu sonho.

 

Na penumbra do cinema, quando tudo ao redor perde a forma e se torna sombra, apenas a luz da tela conserva os traços definidos das coisas, os traços que me permitem dizer com segurança essa sou eu, e esse, na poltrona ao lado, é meu pai, e os vultos, adiante e atrás, perceptíveis pela silhueta de suas cabeças, são os outros, recolhidos também na escuridão. Eu sou tão pequena que o pai teve de colocar um suporte sobre a poltrona para que meus olhos ganhassem altura e eu pudesse ver o filme, assim é nesse momento, e assim será por alguns anos, até que eu cresça, e eu cresço, uma menina em nada diferente da média, é o que diz o pediatra, é o que diz o meu boletim escolar, é o que diz a professora de dança, é o que diz o meu corpo quando o vejo nos olhos dos meninos. Eu cresço, ao acender das luzes no fim de cada sessão eu estou um pouquinho maior, maior e diferente, diferente no meu igual, eu me vejo de maria-chiquinha, trança, franjinha, tererê, rabo-de-cavalo, eu me vejo nas mais variadas salas de cinema de shoppings, e elas são, para mim, uma mesma e única sala, eu me vejo assistindo a dezenas de filmes, um balde de pipoca e um copo de coca-cola no colo, e em quase todos eles, eu estou com quem? Quem, durante anos, assistiu a todos esses filmes comigo? O pai se divertia, o pai se diverte, ele rouba uma pipoca do meu balde, e eu gosto de ver o pai desse jeito, contente, e mais contente eu fico de ver o pai assim, mais do que o contente que a história me faz, o pai dorme, eu nem ligo, o pai dorme, às vezes até ronca, eu cutuco, acorda, pai, você tá perdendo o filme, e ele acorda, assustado, não é simples voltar à consciência, é sempre um susto, um susto bom, se a gente quer, mas primeiro um susto, depois o bom, estou aqui, é o bom, o bom com seus males, e uma manhã, ele me desperta massageando o dedo devagarzinho sobre o meu nariz, uma manhã ele me diz, acordar é reiniciar o mundo em nós, e o pai ali, o mundo recomeçando nele, o país João, com minha cutucada, o país João sai da noite e retorna ao dia para continuar a sua história — e eu nela. Na penumbra do cinema, eu estou: tenho a idade que tenho agora, segundo ano da faculdade, o professor quem pediu que assistíssemos a esse filme, e, então, eu lembro do pai. Ele se diverte aqui, depois ele dorme, eu não ligo, mas aí ele começa a roncar, eu cutuco, acorda, pai, você tá perdendo o filme, e eu fico esperando que ele, assustado, acorde. Apenas a luz da tela lá adiante conserva os traços definidos das coisas, os traços que me permitem dizer com segurança essa sou eu, e, na poltrona ao lado, não há ninguém. O país João só pode recomeçar seu giro dentro de mim.

Sim, dentro. Mas antes, ao lado. Estou sentada no sofá de casa, sou criança, e ele, ao lado, me mostra, nas páginas de um grande livro que apoia sobre os joelhos, alguns de seus quadros preferidos. Diz o que mais o encanta em cada um, aponta os detalhes, menciona o nome do pintor. Eu gosto, eu gosto de estar ali, sentada, perto do pai. Agora estamos anos mais à frente, eu tenho sete ou oito anos, passamos, de sala em sala, vendo as pinturas da retrospectiva do Salvador Dalí, e, então, cansados, sentamos num banco do museu. O quadro diante de nossos olhos é A persistência da memória. Eu aprendi a ler há pouco tempo, as palavras me fascinam, as palavras me alargam. Um dia, no futuro, hoje, vão me limitar. Estamos sentados diante de A persistência da memória. Eu penso no nome dos quadros que vimos ali, e também nos de outras exposições a que fomos, e nos dos quadros daquele grande livro do pai. Digo a ele que gosto de nomes simples, assim: A tentação de Santo Antônio. Girafas queimando. Crianças em roda. Velhos marinheiros. Nascer do sol. Homens colhendo trigo. Mulher e bebê. O pai diz, eu também. Então, de volta ao agora agora e, como numa sucessão de quadros, eu me vejo sentada em

muitos lugares, desde que nasci, o pai sempre comigo. Eu me vejo na cadeirinha de sua bicicleta, eu me vejo na cadeira da copa e no sofá de casa, na poltrona do cinema, do avião, do ônibus, no banco do parque, no chão do meu quarto, no tapete da nossa sala, no seu carro, eu me vejo sentada na areia da praia, eu me vejo sentada na cadeira de um teleférico, na rede de uma pousada na serra, eu me vejo sentada à mesa de um restaurante, eu me vejo sentada à beira da piscina, a Bia sentada numa cadeira da varanda, a Bia no canto da cama do pai, a Bia sentada em seu colo. Em todos os quadros, o mesmo nome, tão simples: Menina com pai. Mas, agora, enquanto escrevo, sentada aqui, sozinha, o nome deve ser Menina sem pai. Eu penso um pouco mais. As palavras chegam devagarzinho e se assentam em mim. Eu penso: quem está dentro nunca se ausentará. Eu penso: quem tem um amor assim, nunca está só. Nome do quadro: Menina escrevendo com pai.

E aquele dia em que torci o pé, e aquele outro em que fomos visitar a mãe do Mateus que tinha quebrado a tíbia, e aquela tarde em que assaltaram o pai à porta de casa, e aquela vez que ele ficou horas tentando lembrar o nome de um amigo de infância, e aquela vez que encontramos na rua um dos seus alunos, e aquele domingo que fomos levar flores no túmulo de minha mãe, e aquela vez que ele me deu uma dura porque fiquei horas no telefone com a Catarina, mas isso foi mais para a frente, e aquela vez em que ele me contou que tinha assistido pela tevê, junto com o avô André, o homem pisar pela primeira vez na Lua, mas isso foi antes, e aquela vez que ele e o Mateus recordaram o ataque ao World Trade Center, os dois estavam assistindo ao noticiário e aí veio o segundo avião, e aquelas vezes, tantas, que ele falava de umas pessoas, lá do seu tempo, como se eu soubesse quem eram, um tal de Bob Dylan, que depois eu passei a gostar — na aula de inglês, traduzimos a letra de uma de suas músicas —, e El Greco, e um escritor chamado Raduan Nassar que ele adorava, e o Paco de Lucía, e aquele dia que ele estava lendo um livro e eu um gibi da Mônica, e ele disse, bonito isso, e me mostrou numa página a frase, na música de Bach, o silêncio que se faz também é de Bach, e aí nós ficamos em silêncio — hoje eu sei que aquele era o nosso silêncio —, e aquelas manhãs de domingo que íamos à feira, e ele experimentava as frutas antes de comprar, abacaxi docinho, Bia, e nós estamos lá agora, aquele cheiro bom de tangerina no ar, estamos rindo do pregão dos feirantes, menina bonita não paga, mas também não leva; olha a bacia dona Maria, e aquele dia que ele teve de arrancar um dente, e depois fazer um implante, e aquele aniversário quando ele me deu um anel feito com o ouro de sua aliança, e aquela tarde que eu senti nele aquele cheiro, aquele cheiro da avó Helena, aquele cheiro inevitável de todas as peles envelhecidas, aquele cheiro de raiz que depois de tanto sol busca novamente a terra profunda, e aquele nosso entardecer sentados na Pedra do Baú, e aquele dia que ele foi almoçar com uma amiga e a Neuza disse, amiga?, e aquela vez que eu comprei um chaveiro pra ele, com a mesada que ele mesmo me dava, e ele usou até o fim para carregar a chave de casa, e aquela vez que eu peguei um trecho de conversa entre ele e o Mateus, cuida da Bia, se for preciso, venda a casa pra ela estudar, e aquela noite que eu mostrei ao pai a tatuagem de cruz em minha nuca, e a cara dele quando apareci com os cabelos pintados de azul, e aquela vez que ele perguntou quem era o garoto com brinco de argola, e eu respondi, o Rafa, meu namorado, e aquele dia que ele viu a cartela de anticoncepcional na pia do banheiro, e aquele dia que ele foi me buscar no aeroporto, a viagem a Cancún, formatura do ensino médio, a viagem a Cancún que ele pagou em dez vezes, o pai lá, bonito e frágil, quieto e velhinho, no meio de tanta gente, e aquela foto dele com a mãe no porta-retratos da sala, agora no meu criado-mudo, e aqueles dias de muitos e muitos nãos, aqueles dias em que mais do que eu e ele era a minha geração e a dele que guerreavam, e todos aqueles outros dias com seus acontecimentos que, mais tarde, se tornaram lembranças, lembranças que escaparam da teia do esquecimento, lembranças que são só minhas, e me fazem ser o que sou, assim como as lembranças dos outros são só dos outros, a vida sendo o que é em cada um — esses e aqueles dias que são, enfim, o tempo indo embora de nós. Aqueles dias são pequenas recordações, como confetes, azuis uns, vermelhos outros, aqueles dias faíscam entre recordações maiores, elásticas, e todas não são mais que retalhos de uma vida a dois. Retalhos do tecido que é o pai para mim. Retalhos que eu mal sei emendar com esses fios de sol e sombra das palavras. E aqueles dias que ele se irritava com ninharias? Eu pensava que ao chegar a certa idade, a gente atingiria a suprema sabedoria, e aí a gente só ligaria para o que é importante. Mas, o pai me disse certa vez, nós envelhecemos e continuamos humanos, Bia. Por mais que a gente aprenda, ainda é pouco. Por mais que a gente aprenda — e o pai aprendeu muito para ensinar —, a gente não se eleva quase nada. Triste pensar assim. O bonito é que, contrariando o que ele disse, até o fim, eu tenho certeza, o pai tentou se desprender do chão.

A vida está em nós em qualquer minuto. E o último minuto ainda é um minuto da vida. Quando já sabíamos o que ia acontecer, eu ouvi, um dia, o pai cantarolar baixinho uma canção. Depois, numa tarde de domingo, a gente na sala, sem fazer nada senão viver aquela tarde de domingo, Mateus e Gisele e o João no carrinho de bebê, eu ouvi o pai cantar de novo, e perguntei, que música é essa, pai?, e ele respondeu que era “You got me singing”, do Leonard Cohen, e eu fui lá procurar no Google. A letra da música dizia algo como “você me faz cantar, mesmo que a notícia seja ruim, você me faz cantar, mesmo que o mundo esteja acabando”. Aí eu fiquei pensando em quem seria esse “você” para o pai. Quem fazia o pai cantar naquela hora de partida? Eu, o Mateus, o João, minha mãe, todos nós juntos? “Você me faz cantar, mesmo que o mundo esteja acabando.” Eu não sei naquela tarde de domingo, e continuo sem saber agora, quem era esse “você” para o pai. Mas eu gosto de pensar que era a vida, a vida que ainda havia nele. Ela o fazia cantar, apesar de todas as suas dores. A vida, apesar do que estava por vir.

De repente. De repente, eu acho, não é o que ocorre de uma hora para outra, sem que esperássemos. De repente é o instante exato em que algo que vinha bem devagar, tão devagar que nem percebíamos, finalmente chega. O dedo do tempo aperta a tecla play e, como se do nada, o fato se desencadeia, de uma vez. Mas o movimento da mão a se erguer já há muito acontecia. É como um corte. Antes do golpe abrupto, a calmaria dos gestos. É como um corte. E de todo corte brota uma ferida. De repente, minha mão segura outra. É a mão do pai, acabamos de sair do táxi, e ele caminha lentamente, não se sente bem, andou com tonturas nos últimos dias, por isso estamos aqui, a poucos metros do pronto-socorro. Mateus viajou a trabalho, a Gisele lá com o João, se você quiser, Bia, eu vou junto, ela me diz pelo celular, mas eu não, não se preocupe, eu mesma levo o pai, eu cresci, eu cuido dele, eu seguro firme a sua mão, há gretas na calçada, desníveis, sobe-e-desce de pedras, ele pode tropeçar. O pai já não enxerga bem, e, a essa altura, não faz tanto sol como naquela manhã, quando ele me levou na Escola Serelepe, eu posso me ver de novo carregando a mochila de rodinhas. A fraca claridade da tarde já anuncia a noite, eu não preciso colocar a mão sobre os olhos, o sol não pode me ofuscar, eu não preciso erguer os olhos para ver, nesse instante triste, o rosto do meu pai, eu não sei o que ele sente, eu não posso ter o que é do outro, isso eu aprendi, e se eu não sei o que ele sente, nem posso livrá-lo de seu sentir, eu experimento algo que nunca provei antes com igual intensidade, compaixão é o seu nome, eu logo vou saber. Chegamos à esquina, falta só atravessar a rua. Eu seguro a mão do pai com força, ele percebe, caminhamos devagar, como o devagar que antecede o de repente. Antes desse de repente, estão todos os meus anos até aqui. O pai comigo em cada um deles. Nós dois, com nossos cortes. Já quase em margens distintas.

É óbvio. Mas dói. E porque dói, eu escrevo. Todos os minutos de sua vida. O seu livro de cabeceira. Um certo jeito de ver o mundo. As metáforas. As aulas, durante décadas. Os erros — tantos — e os acertos. Uma lembrança, que eu não sei qual é. Um amor: minha mãe. Um sonho que ele me contou, e todos os outros que eu desconheço, mas que o moveram até a última noite. Seus olhos verdes. A escoliose. As Confissões, de Santo Agostinho. A mãe do Mateus. Mateus. João, seu avô. João, seu neto. O vinho tinto. O perfume de jasmim. A lua. As estrelas. O sol nos meus olhos naquela manhã. A dor de dente. O silêncio. As sessões de cinema. Um filme de Fellini. O arroz-doce, sua sobremesa predileta. O seu rosto mouro quando jovem. A solidão. A pizza de escarola. A segunda-feira. O domingo. A tia Marisa. O girassol. A varanda de casa. O seu coração de granito lírico. Granada. Os poemas de García Lorca. A brincadeira de falar sem conectivos. As cicatrizes. A xícara de café. As sinfonias de Beethoven. Ele cantando baixinho “You got me singing”. As suas conquistas. Os seus segredos. As suas traições. As verdades que só ele conheceu. As mentiras. A sua história, única. É óbvio. Mas dói. E porque dói, eu escrevo. Todos os seus dias alegres e tristes. Todas as pessoas — incluindo eu, Bia. Tudo vai desaparecer em minutos. A sua jornada vai acabar daqui a pouco para o mundo mundo. Mas

não para o mundo em mim.

Um dia esse dia chega, e esse dia chegou. Podia ter sido mais adiante, de outra maneira, mas não foi. E eu vou viver esse dia agora, aqui — e até o fim de minha história. O pai, o pai está ali, deitado, sem se mover naquela cama do hospital, os cabelos ralos e grisalhos sobre o travesseiro, os olhos fechados ainda vão se abrir algumas vezes, e eu estou ao seu lado. Eu estou ao seu lado, e é provável que ele não saiba que há alguém aqui, e que esse alguém sou eu, Beatriz, a sua filha com Juliana. Podia ser o Mateus, mas o Mateus está viajando. Ao contrário do que eu mesma supunha, não sinto medo. Vinte anos juntos. Nem pouco, nem muito. O que foi, o que é. O pai está ali, e eu estou aqui, nessa poltrona tão diferente daquela lá de casa, onde eu, menina, sempre o encontrava com um livro na mão, o que foi, Bia?, ele me perguntava, às vezes erguendo apenas o olhar da página do livro para a minha, que se escrevia à sua frente. O pai está ali, eu estou aqui, e nós temos pouco tempo. Temos pouco tempo, e não há o que fazer senão viver esse tempo. Minhas palavras não vão mais fazer sentido para ele; por isso, eu apenas o observo, é tudo o que posso lhe oferecer. Eu estou aqui, e ali está o pai, sob o lençol branco. Nenhum momento dos que eu já vivi, alegre ou triste, pode superar este agora. Estou encharcada do tempo presente. O pai está ali — quase não ouço a sua respiração —, a tarde se espicha lá fora, e eu estou aqui, a observá-lo, enquanto o universo segue o seu ritmo. O pai está ali, o pai ainda está ali, e eu estou aqui. Temos pouco tempo. Nenhum momento pode superar este nosso agora. Mesmo sendo este agora o último momento dele, e o primeiro, a partir de hoje, na minha escala de dor. Quase 100% de tristeza em mim, falta só um grão, esse grão ao qual eu me apego — esse grão, que é estar aqui, com ele, na vida da escrita. Ninguém pode ter o que é do outro. Um mundo inteiro vai terminar com o pai. Eu me vejo na cadeirinha de sua bicicleta, o pai na frente pedalando, aquela claridade forte, agora eu sei, é o sol, aquela sombra que subitamente o encobre é uma nuvem, a chuva logo vai desabar, aquele silêncio que se faz, eu sei, é o nosso silêncio. Agora eu me vejo no parque, com ele, segurando-o, meu balão

verde. E sem que eu possa evitar, suavemente o balão se solta de meus dedos.

O que fazer agora sem o pai, o mundo enorme, eu tão pequena, como na foto, em seu colo, e

hoje do mesmo jeito, criança ainda, sendo mulher só pelos olhos dos outros, eu no fundo a sua Bia? O que fazer agora, eu sem o pai, só com a minha (nossa) história? Só com a minha (nossa) história sem poder fazer que ela seja outra? O meu adeus do tamanho do universo, o universo que não é inteiro luto, o universo que é também luta, vida e morte se misturando, estrela e buraco negro, o universo que continua sem o pai, que segue com ele vivo em mim, o que fazer com toda a sua presença, se ele, agora se ausentou para sempre? O que fazer desse mundo que se apaga com ele? Tão pouco tempo essa vida nos deu, tão pouco tempo essa vida nos dá, a qualquer um de nós ela sempre faltará, a vida, a vida poderia nos ceder uns dias a mais, para deixar os papéis menos soltos, a louça limpa sobre a pia, a alça da bolsa consertada, o que fazer, senão aceitar? Aceitar não ter vivido com a mãe, não me lembrar do rosto dela, a mãe que correu todos os riscos para me gerar, que foi embora tão cedo para me trazer aqui. Aceitar que tudo se desfaz ante o muro da realidade, não apenas a minha boneca-de-pano — que eu deixei anos sobre a cama só para agradar o pai. Aceitar que, às vezes, somos o Planeta Dor, o Sol Solidão, a Galáxia Desespero. Aceitar, aceitar, a gente sendo o que se é, graveto, palavra única

na folha em branco, como a árvore na paisagem, ela só ela, árvore vivendo, alheia ao olhar do céu, contínua e silenciosa, com seus galhos invisíveis, a vida correndo nela sem ninguém perceber. Aceitar a madrugada nascer da noite, a noite nascer da tarde, a tarde do dia. Aceitar que a verdade muda o curso dos sonhos e dos rios. Aceitar que o jeito que o pai me ensinou a ver o mundo o torna mais bonito, o pai e suas metáforas em cores. Aceitar, aceitar que ele não está mais nos atos de minha vida. Aceitar o destino como quem aceita o corte no pé, o caminho percorrido que não se pode retroceder. Aceitar a nossa história, que, depois de ler seu caderno, eu ressuscito aqui com meus inúmeros defeitos.

Ninguém pode ter o que é do outro. O que é nosso é só nosso. Até os defeitos. E essa é a minha história. Fragmentos do pai nela. Eu escrevi, eu escrevo agora, depois que ele se foi. Ele se foi, mas está lá, bonito, bonito e alegre, alegre e triste, no meu livro de presença. Meu pai, João. Escrevi, escrevo agora, assim, sem muita ordem, entrelaçando tempos, porque não sei fazer de outro jeito. Talvez um dia eu saiba, eu gosto de aprender. Eu gosto de conhecer pessoas, pessoas países. Escrevi, escrevo agora, com lápis. O lápis da Minnie, que, anos atrás roubei

da Catarina — e, quando fui devolver, ela me deu.