Trilogia do adeus
Menina escrevendo com o pai
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
E no próximo domingo, Dia das Mães, lição de casa, fazer um desenho ou escrever um bilhete para minha mãe, minha mãe Juliana, a mãe que eu não tenho, e, não apenas nesse ano, mas em todos os anos na escola a mesma tarefa, para as outras crianças deve ser um sim grande, enquanto para mim é e sempre será um não maior que todos os sins sussurrados em meus ouvidos, porque não ter uma mãe para aprender a ser a sua filha é (também e sobretudo) o que eu tenho. Esse vazio me pertence inteiramente, essa perda eu ganhei quando completei um ano de vida. Eu nunca vou poder fazer brigadeiro com minha mãe Juliana, como a Catarina e a mãe dela, eu nunca vou poder rir pra minha mãe à beira do fogão, e ela pra mim no instante em que eu lamber a colher de brigadeiro, eu jamais poderei dar a ela uma lembrança no Dia das Mães, embora ela seja a lembrança que o mundo me entrega (com indiferença) nesse e nos demais Dia das Mães, eu jamais poderei dar a ela um desenho ou um bilhete nesse dia, tampouco me dar a ela em todos os dias que vou viver sem a sua presença, e também em todos os dias que o tempo nos daria para vivermos juntas. Eu sei visceralmente a falta que ela me faz, só não sei (ainda) a falta que ela vai me fazer; os meus primeiros anos se acumulam uns sobre os outros, aumentando a minha estatura, já tenho nove anos, um metro e vinte de altura, e, agora, eu já sei, eu sei e
eu sinto a imensidão de sua ausência desde o meu início e para o nosso sempre, eu
sei e eu sinto que ninguém pode ter o que não é seu, ninguém
pode ter, senão eu, a mãe que eu não tenho. Meu também, e só meu, é aquilo que eu não posso (mais) ter, o oco entre uma lembrança e outra que tenho de minha mãe, esse oco dolorido que se faz em mim também é dela, assim como é do outro tudo o que ele não pode ter, o que o outro não tem é diferente do que eu não tenho, eu só posso fazer uma homenagem para minha mãe com os nãos da minha (nossa) história, eu só posso erguer as mãos vazias e dizer, toma, mãe, não fiz para você; e o pai, o pai, no próximo domingo, Dia das Mães, nesse domingo que já é hoje, o pai, como quem procura a dedo o local da minha ferida, ele facilmente o encontra, e hoje, no Dia das Mães, o pai não me leva ao parque, nem disfarça a verdade que dilacera nós dois, o pai me chama à sala, o pai liga o videocassete e me mostra pela primeira e única vez o filme do meu parto, o pai me mostra que a mãe está ali — e aqui, plenamente em meu ser —, sim, ela, minha mãe Juliana, está acesa nessas cenas que eu revejo, ela anos atrás me trazendo de novo à luz, ela acesa no pai ao meu lado, eu vejo nos olhos do pai que ele a acende mais e mais pra mim quando me olha, nos olhos do pai eu vejo o rosto dela, como eu a vejo escrita (por toda a vida) entre as linhas, claras e ocultas, do meu próprio rosto.
Não foi como ele imaginou, que seria parte do programa de um curso, igual o seu de professor, a aula de hoje é, e naquele dia, abrindo o velho álbum de fotografias da família, apresentaria um a um, os seus, meus, parentes, não, não dessa vez, também o planejado não coincidiu com a realidade, o pai estava lá arrumando umas gavetas, não o pai João bobo, o pai João organizado, tudinho no seu lugar, a Neuza dizia, dá até raiva, as coisas sempre em ordem, nada de toalha molhada na cama, cuecas pelo chão, e esse dá até raiva da Neuza, eu acho, era admiração dela, o pai gostava de simetria, pelo menos dentro de casa, ele corrigia o tapete torto na sala, os livros, ele pegava, e depois lá, guardadinhos na estante, assim como os meus brinquedos — ele deixava que eu espalhasse pelo chão, mas, depois, vinha com a lei, hora de recolher! —, o pai devolvia as coisas à sua condição de coisas. Então, ele estava lá arrumando umas gavetas, eu vi a caixa e perguntei, o que tem aí, pai?, e ele, umas fotos, e eu, de quem?, e ele, da minha família, quer ver?, e, eu respondi, sim, com a cabeça, eu sabia que ele esperava esse sim, eu já sabia ler umas frases na sua cartilha, e, como se tocando joias de muito cuidado, ele abriu a caixa e, a cada rosto que aparecia, me explicava quem era e a circunstância da foto, essa é sua bisavó Sara, quando chegou ao Brasil; esse é meu pai, seu avô André, no quintal de casa; esse é meu primo Tiago; e essa é minha mãe, sua avó Luíza; essa é a sua tia Marisa com dez anos, primeira comunhão; e aqui a sua tia Marisa de novo, olha só a fita azul na cabeça dela — e aí eu dei uma risada, a tia Marisa, e o pai gostou, e ele continuou, continuou, esse sou eu com sete anos; e aqui o seu irmão Mateus, veja só, com um ano, o pai continuou, não tinha mesmo como parar, ele queria, eu queria, as imagens saltando da sua mão para os nossos olhos, ele, quase nem parecia, alegre, triste, alegre
de novo, triste, até que chegamos à última foto, e ele nem precisou dizer quem era:
era ele, talvez na minha idade, eu já sabia ver o pai velho no menino que ele fora. Então, depois de guardar todas as fotos na caixa, ele se volta para mim. E, sem que o pai esperasse pelo meu gesto — e eu também —, eu me atiro sobre ele e, enlaçando seu pescoço, eu abraço, abraço todo aquele meu povo silencioso.
E aí, não muito tempo depois, outro abraço, mas então ao avesso. Não como plano, para ele retribuir, só o sincero gesto, o seu, do pai. Eu lá comigo, aquela tarde e, subitamente, eu de novo à beira, no estado de me estranhar, menos claridade, mais sombra, eu mais na ignorância do que na sabedoria, sem ter como aplicar o meu parco entendimento, e, então, o desfecho, fulminante, para me devolver ao susto, o sangue ali, vindo do oculto, não da pele já aqui afora, como a grama, lá do fundo de dentro, como a água do escuro da terra, só um fio, sim, mas a surpresa espessa. Tia Marisa tinha dito uma vez, de raspão, algo sobre esse fato, coisa de mulher, mas o dizer fica na gente como roupa, que se pode tirar, o acontecer não, o acontecer fica grudado na gente, total, e eu, eu me lavei, mas continuei suja de dúvidas, aflita por uma calma. E a Neuza, no simples dela, me confortou, passou de leve pelo assunto, igual fazia com o pano de pó sobre os móveis, explicou sem muito explicar, até me cumprimentou, como se aquilo fosse uma grandeza. E logo a avó Helena, um pouco mais de certeza no meu espanto, a dizer o que gerações e gerações de mães tornaram dito quase invariável, era o fim da infância, viva!, eu me tornara mocinha, seria assim todo mês, ela ia me comprar absorvente, agora cuidado com os meninos, e mais, e pronto, e tudo de uma vez, enquanto o acontecer ainda estava quente em mim. Outro mundo me começou ali e vai seguir daí em diante em mim, eu já sei. No finzinho da tarde, quando o pai chega, eu estou na varanda, tão sozinha eu me sinto com meu corpo, e ele, de longe, me olha devagar, me olha com a vida inteira dele, e vem vindo, como se vem no dia a dia, e já perto de mim, mais perto, bem perto — perto, ele, que não era de toques, de súbito, me abraça. Me abraça, e já no instante seguinte se solta e, sem me perguntar nada, entra em casa. O pai sabe, a avó Helena deve ter contado. Eu ainda não sei o que o seu abraço me diz. Mas amanhã, e para sempre, eu vou saber.
Eu, a ferida viva, que levou a mãe, ela a ferida oca em mim, a mãe, Juliana, que não recordo, se não fosse aquele vídeo de meu nascimento, Juliana, bonita e triste e frágil e doente e adeus, Juliana, meu imenso vazio todo cheio dela, linha que estará a qualquer tempo lá, no meu começo, não importa que fim eu vá dar ao meu novelo, quem me desfiar chegará a ela, ovo que o destino quebrou facilmente entre os dedos, Juliana que se foi sem me vestir de borboleta, sem me ver de maria-chiquinha, sem ver como me pareço com ela, Juliana, minha mãe, filha de Carlos e Helena, Juliana, minha mãe, que pena se eu, Bia, sou o seu fim bonito, mãe, que pena se eu fosse, também, o fim bonito dele, pai, eu chegando só para os dois se terminarem, como as sinfonias de Beethoven, sem a grandeza delas, mas bonitas alegres, em suas notas definitivas, Juliana, que me teve entre os braços quase o mesmo
tempo que em seu ventre, eu no seu escuro, e ela no escuro do quarto, em repouso, me tecendo silenciosamente, enquanto o dia explodia de luz lá fora, Juliana, que me passou o segredo de fabricar vidas, Juliana que só conheço pela sua muda presença em meus genes, Juliana, minha mãe, que nunca ouviu de mim uma palavra, a primeira que todos dizem, mamãe, Juliana, meu machucado invisível que, como o de Quíron, não tem cura, Juliana, que amo mesmo sem a convivência necessária para se aprender a amar, Juliana, que me bordou sob o signo do perigo, quem me desfiar um dia chegará a ela — que bonito, eu digo a esse é, que bonito, eu digo, que o pai, meu velho pai, o pai encontrou a mãe, Juliana, pra me começar.
E também um dia, Mateus lá em casa, a tia Marisa contando a ele sobre um menino, um menino que era bonito, não que, naquele agora, velho, não fosse mais, que tudo tinha lá a sua beleza, até as ruínas, tão lindo o Coliseu, sim, as coisas, no fim, podiam também ser belas, até mais que no começo, que o começo é um preparar para que, no final, se chegue ao máximo, e daquela maneira, a tia Marisa estava falando como o pai, devia trazer lá nos seus olhos o ver de toda a família, embora a tia Marisa fosse falante e o pai silencioso. Ela, minha madrinha, cuidara de mim muitas vezes, quando eu bem pequenina, ela e a avó Helena, o pai, e tirando a Neuza, todos eram cheios de anos, todos velhos, mais perto desse tipo de beleza que ela dizia, a beleza própria do fim, e, enquanto ela falava, o Mateus ouvia de um jeito admirado, o Mateus meio que com uma felicidade quieta nele, e a tia lá tagarelando sobre o menino, que o menino ajudava o pai e a mãe no restaurante, o menino com um cuidado, quase amor pelos livros, tarde atrás de tarde a buscá-los na biblioteca da pequena cidade, o menino, pra desentristecer, até punha durex nuns volumes maltratados. O menino colava com esmero as capas rasgadas, devolvia os livros mais novos — e eu ali pensando, como a gente podia usar algo e esse algo, em vez de se acabar, esse algo se renovava? —, e a tia contando umas coisas menores do menino, e eram essas coisas que estavam fazendo grande a atenção do Mateus, e a minha, eu percebi, e a tia, satisfeita com a sua narrativa, no gosto de estar ali resgatando o menino do esquecimento, como se a verdade falasse por ela, e era o menino quem apanhava as romãs para a avó, já miudinha e curvada, se preparando pra voltar à terra, a terra que ela tanto cultivara, de pé, na hacienda ao redor de Granada, o menino bicava às escondidas a sangria do avô, o menino desde menino aquele gosto por bicicleta, o menino e ela vindo de um mundo não de céu, mas de chão, dos próprios pés para palmilhá-lo, e eu, de dedos cruzados pra ela ter mais dele pra contar, eu ouvindo a música daquela história, eu já gostando do menino, e a tia debulhando outros feitos dele, mais pra frente, o menino rindo da fita azul nos cabelos dela, e aí, aquele clarão, aí quando eu entendi que era do pai que ela falava, aí, aquele clarão — aí, aí eu gostei ainda mais daquele menino. E aí eu percebi que gostar é coisa grande, igual descobrir: parece que se dá de uma vez, o sentimento já pronto, mas não, gostar começa lá atrás, uma coisinha de nada, gostar é demorado, a gente devagar até atingir o de repente de perceber, o total, o coração mínimo pra segurar aquilo tudo, a gente se inflando de uma alegria, só nossa, pra suportar o inesperado de saber. Aí, isso: eu podia ter descoberto de outro jeito, o grande de gostar, mas foi naquela tarde, pela voz da tia Marisa, que gostei mais, muito mais (do que eu já gostava) do pai.
De repente, de novo, o assunto, o machucado, mas não aquele curável com iodo ou com o tempo, um outro, maior, eu também maior, doze anos, e, por isso mesmo o susto, com as palavras da avó Helena, ela e o pai em conversa, o café, que ele mesmo coara, na mesa, a Bia está tão parecida com a mãe!, e o pai, o pai fechando os olhos, como se para ver a mãe, minha mãe Juliana, o amor dele, amor grande para tão curto convívio, eu só tive a exata dimensão desse amor anos mais tarde, o pai fechando os olhos, abrindo-os, em seguida, para me ver à sua frente, eu no chão, em postura de índia, de olho na tevê, de ouvido neles, os dois em sussurros, e no rosto dele, no rosto do pai um tremor, um quase nada, movimento de árvore que só o pássaro pode perceber, e eu senti mais do que vi, porque ele, abrindo os olhos, deve ter revivisto a mãe em mim, e a mãe, levinha, os bracinhos de grilo, o pescoço que lembrava o das mulheres de Modigliani, a mãe, levinha, devia estar pesada nas pálpebras do pai, porque o pai baixou a cabeça, num sim para avó, devia estar doendo nele, estava doendo em mim, e, embora eu fosse parecida com a mãe, era o que dissera a avó Helena com aquelas palavras, era o que ele dissera com seu silêncio — eu ainda não sabia ver direito, é preciso vivever para ver —, embora eu fosse parecida com a mãe, Juliana, naquele aspecto eu era igual a ele, João, o machucado não cicatrizava, a demora era maior, muito maior que o normal.
Diante da folha em branco, não sei como dar corda hoje no passado, fatos se sobrepõem em meus olhos, fatias de tempo se embaralham, uma recordação salta do caldo do todo, como um peixe, para a realidade de agora, não a realidade de antes, na qual ela foi gerada, uma recordação salta, escorrega pelas minhas mãos e eu, apesar de estabanada, consigo enfim segurá-la. O mecanismo de reviver começa a girar, elegendo as palavras. Hoje é cerimônia de formatura, fim do ensino fundamental pra mim. Eu estou nos quinze, Beatriz, tão longe, e tão perto, da Bia com sua mochila de rodinhas, seguindo com o pai para a Escola Serelepe, o sol quase a me cegar, quanta coisa até saltar desse hoje e chegar a esta manhã, em que escrevo, é como se tivesse entre as mãos em concha um punhado de água do mar, e nela todo o mar do tempo, todo o mar de sempre, indo e vindo, o início uma onda, o fim outra onda, essa nascendo na espuma daquela que morre, o gosto do sal jamais outro gosto senão o do sal, em qualquer idade. Eu desço do palco, não sem antes ver o pai, o Mateus e a Gisele, eles anunciaram ontem que vão se casar no ano que vem, e de fato eles se casam, e agora seguem juntos, João filho dos dois já aprendeu até a andar, eu desço do palco não sem antes ver a avó Helena e o avô Carlos, a tia Marisa, eu desço do palco e retorno às primeiras fileiras, e eu olho para trás, lá atrás está o começo, eu vejo o pai, tão velho perto dos outros pais, o carro na vaga de idosos, o pai, nós dois ondas, ondas, fim de uma, começo de outra. Uma recordação salta hoje em mim, como um peixe, se contorce no ar e retorna ao caldo do todo. Grão de sal no branco da folha.
O tempo, igual uma dessas portas, de vaivém, sem fechadura, sem chave, o tempo velho, as dobradiças rangendo, a gente entra e sai fácil do passado para o presente, e vice-versa, como agora — estou no banco de trás do carro, uma Bia maior, esquecida já de uns começos, acostumada com certas partes de mim — outras não, nunca! —, e é noite, uma noite também menos criança, noite adulta, que cresceu rápido, logo vai ser noite plena, quando a gente chegar lá, na pousada, nas montanhas, onde vamos passar o feriado. Mateus se opôs, viagem longa, estrada em espiral, o pai não enxerga mais direito — os dias não fazem só bem, os dias também nos pioram, mas eu não percebi ainda, eu me vejo melhorada, cada vez mais bonita, a Neuza diz, estou contente com meu rosto, apesar de umas espinhas —, Mateus discordou, mas o pai e eu resolvemos subir a serra. Estou no banco de trás do carro, deitada, e, pelo vidro, vejo a sombra dos pinheiros ao redor — já sei diferenciar pinheiros de eucaliptos —, e, do vazio entre seus galhos, o céu, azul-escuro, transborda, como um tecido, e as estrelas cintilam nele, parecem frutas de luz pendendo dos pinheiros, e eu sigo ali, deitada, vendo as estrelas, vendo, vendo, porque ver não é só lançar os olhos como uma rede, ver é um continuum, eu estou compreendendo nesse momento, enquanto viajamos, enquanto o carro serpenteia pela serra, ver é um continuum, ver é continuar vendo no instante seguinte, vendo o mesmo, no seu igual diferente, uma camada de olhar sobre a outra, e,
então, eu me espanto, estou à beira de alguma coisa que vai me doer, e quero me afastar, o confuso mais confuso em mim, o claro menos claro, é um continuum eu escrevi, e lá, naquele agora, que lembro e conto, não no agora agora que sou aqui, naquele agora, eu não uso essa palavra, eu falo do
ontem com o meu hoje, eu aprendi a palavra continuum há pouco na faculdade, o tempo, igual a uma dessas portas de vaivém, sem fechadura, sem chave, e, de repente, eu queria desver, voltar à minha ignorância, mas eu sigo vendo as estrelas no céu azul-escuro que vaza entre os pinheiros. Estou no banco de trás do carro, deitada, de olhos fechados, quase pronta para sentir essa dor, da qual não vou me esquecer, estou no final de sentir o que se tornará essa lembrança, eu ouço o ruído monótono do motor, eu ouço o pai perguntar, está tudo bem aí, Bia?, ele sabe que, se estou muda, o mundo ruge em mim, e eu, eu minto, eu tenho meus motivos para mentir, vou entendê-los nos minutos seguintes, eu minto e digo, sim, porque eu não vejo o pai, eu só vejo o seu vulto no banco da frente. E aí eu penso nas estrelas, eu fecho os olhos, eu penso, de súbito, no filho do Mateus que vai nascer, João, o pai vai ganhar um neto, eu serei tia, igual à tia Marisa, eu fecho os olhos, ainda vejo um restinho de estrelas, elas se apagam sob minhas pálpebras, e eu ainda penso nelas, e aí eu igualo o passado ao presente, aí eu penso no pai, que bom seria se ele permanecesse um pouco mais, se ele não se apagasse logo, mas, não, aí o susto, o meu espanto se completa, porque eu me dou conta de que o meu querer é um continuum, mas um continuum cujo avanço a realidade, com seu poder, vai barrar. Um portão de ferro, blindado, é a realidade, com fechadura, chave, corrente, cadeado. Não que eu não soubesse, a gente nasce suspeitando, mas agora eu capto a proximidade. O carro já subiu por tanta estrada, não preciso procurar placas para ter certeza de que estamos no fim da serra. Fecho os olhos com força e sei que haverá neblina quando eu os abrir novamente. E frio, muito frio, a pele já me avisa. Meus ouvidos zumbem. Fecho os olhos com força, a imagem das estrelas resiste um segundo e desaparece. Vou me lembrar dessa noite dois anos depois, quando estiver no acampamento de férias, mirando as estrelas, junto com a Catarina, vou dizer a ela, agora feche os olhos, você ainda vê as estrelas, não é? Vou me lembrar, mas eu ainda não sei que vou me lembrar, estou no antes, não vivi o suficiente para o depois que virá, estou nessa noite ainda, as pernas encolhidas, é mais uma primeira vez pra mim. Fecho os olhos com força. Sozinha, deitada no banco de trás do carro, experimento a espessura da escuridão, como uma roupa pesada sobre meu corpo. Fecho os olhos com força, uma folha da porta de vaivém se entreabre, posso ver o pai do outro lado. Fecho os olhos com força e peço, baixinho, ao destino, que se atrase, nós juntos um pouco mais desse lado. Fecho os olhos com força e sinto a água quente vazando pelo meu rosto abaixo.
Um dia o pai falou que um tal Jorge Luis Borges, a quem então eu desconhecia, disse que só havia dez metáforas no mundo, todas as demais eram filhas delas, a da lua, da espada, do mar, da serpente, e deu uma porção de exemplos, assim de cabeça, de escritores que ele tinha lido, o pai trazia uma imensidão colada na memória, e outros exemplos no ato ele inventou, hoje eu sei, e, então, eu tive um susto, quando ele disse que, na certa, também era assim com a gente, só havia dez pessoas na nossa história, dez pessoas para delimitar a nossa pele e a nossa polpa, assim como só havia vinte e três letras do alfabeto, e com elas todas as histórias poderiam ser — e seriam — escritas: eu comecei a pensar que aquela brincadeira, criada anos antes pelo pai, de falar sem conectivos, driblando a sintaxe, era uma metáfora, o vazio entre as palavras, o oco entre um pensamento e outro, a ausência no vácuo da presença, o eco não do grito mas do silêncio. O espaço para entrar o que não é só meu, mas também do outro. Daí recordei uma frase do pai, está escrita lá no caderno dele: metáforas em cores a partir de clichês cinzentos. Só que hoje eu me peguei com a metonímia. Metonímia: o pai e eu. A parte pelo todo. O todo na parte. Ou as definições que se encontram por aí: nenhuma palavra é a coisa que ela, palavra, nomeia. Toda palavra é tão somente algo que substitui a coisa. Então, eu penso: se eu emprego uma palavra no lugar de outra, não chego à coisa, mas apenas a outra forma de nomeá-la. Assim, se eu, Beatriz, estou aqui — e nenhuma palavra é capaz de me tornar, senão em seu reino, o que eu de fato sou —, quem eu substituo no lugar em que ocupo? Assim, se o pai não é o pai senão nas palavras que substituem, pra mim, a sua presença, por que essa dor só de pensar nele? Assim, se o pensamento é uma dupla substituição — da coisa e da palavra por uma imagem —, por que essa dupla ausência não me leva ao espaço dentro do espaço em que se encontra a verdade, a coisa coisa, não a coisa palavra? Assim, qual mundo, de fato, o mundo, aos meus olhos, substitui? Assim, que texto está no lugar, original, deste meu texto? De que coisa coisa ele é o substituto? Não sei. E também não importa. A cada linha que escrevo aqui,
eu me lembro do pai. O tempo todo. Eu, Beatriz, a sua parte.
O tempo todo. Depois daquela noite, o carro subindo a serra, a sombra do pai no banco da frente, eu deitada no banco de trás, as estrelas no céu azul-escuro vazando entre os pinheiros, duas palavras se enlaçaram, o tempo todo, no nosso dia a dia, depois daquela noite: já e ainda. Uma para mim, outra para ele. Eu ainda durmo tarde, isso vai mudar daqui dois anos, mas por enquanto eu ainda durmo tarde. O pai, antes não, mas agora o pai já dorme cedo, e cada dia mais. Eu ainda não comecei a gostar de vinho tinto, mas eu vou gostar, uma bicadinha de vez em quando. O pai que eu sempre vi tomar vinho tinto, o pai bonito e quieto, a taça sobre a mesinha, o livro entre as mãos, o pai já não bebe mais. Eu ainda não tive nenhuma doença, o pai sempre de olho, por causa da mãe, se a fragilidade dela não passou pra mim. Eu ainda não tive. O pai já toma remédios diariamente. Eu ainda gostaria de andar de bicicleta com ele nos fins de semana, um passeio leve, pelo bairro mesmo, como anos atrás. Talvez ele até quisesse, mas o pai já deu a bicicleta dele pra Neuza. Eu ainda não escolhi a profissão. O pai já se aposentou. Eu ainda não tirei carta de motorista, daqui dois anos eu vou tirar, eu acabo de tirar. O pai já não deveria mais dirigir. Eu ainda não para muitas coisas, sim para tantas outras, e todas rumo à certeza de ser, num tempo adiante, quando maduras. O pai também já para muitas coisas, mas muitas coisas que apontam para outra certeza, num tempo adiante, quando já terão passado do ponto de ser. E se invertêssemos o sinal das duas palavras em busca de um novo sentido? Eu não mais ainda e o pai não mais já. Eu já para certas coisas, o pai ainda. O pai ainda.
Também. Também naquele dia ele estava lá, comigo. Eu não queria ir, nem ver, mas eu fui, e eu vi, o pai me levou, ele nem conhecia o Edu, mas ele conhecia a vida, a hora que o “nunca mais” começa a valer. Foi assim, mais rápido que a minha mãe. Foi numa esquina. O Edu em cima da moto, devagar, na dúvida. Para cá, o Edu no colégio, segunda-feira, aula dupla de álgebra, as meninas tietes, o Edu bonito, bonito e alegre, alegre e jovem, entrando na sala. Para o outro lado, a camionete em alta velocidade, sem tempo de frear, o Edu, bonito e alegre, alegre e jovem, no asfalto, adeus. O Edu, para lá. Adeus. Eu não queria ir, nem ver, mas eu fui, e eu vi, o pai me levou. Chegamos, eu não sabia como agir — eu ainda não sei —, e vi lá de fora, entre gente desconhecida, uns colegas de classe, a diretora da escola, outros professores. Estranhei, logo na entrada, uma fila diante de um livro sobre um cavalete, eu não sabia o que era aquilo, eu estava assustada, eu tinha medo de errar, mas, mesmo assim, perguntei baixinho pro pai o que estava acontecendo ali, pensei até que me repreenderia, mas ele respondeu, é o livro de presença, e eu, e pra que serve?, eu precisava me distrair um instante, e ele explicou, para os presentes ali escreverem seu nome, e aí nós entramos, e eu, antes de ver o Edu, eu vi que as pessoas conversavam, e eu me espantei, imaginava que estariam todas em silêncio, mas não, falavam entre si como se nada tivesse acontecido, talvez tentando também se distrair um instante, hoje eu sei. Num canto, vi uma senhora com um terço na mão, sussurrando uma oração. Do outro, vi a Catarina abraçada à sua mãe, chorando, ela tão aturdida quanto eu, o Edu, bonito e alegre, alegre e jovem, adeus. O pai me levou até a família do Edu, eu não queria, mas eu fui, eu fui e vi a dor, eu só vi, porque eu não podia sentir a dor deles, mas eu estava triste, triste e atônita, e fiquei ainda mais quando vi o Edu, era outro Edu, não o nosso. Depois saímos, lá fora o sol-todo-poderoso no céu, e, de repente, eu e o pai conversando, eu e ele no café ali pertinho, eu com receio de pedir um pão de queijo, não sabia se podia viver aquele dia do mesmo jeito, o Edu, adeus. Mas o pai estava comigo, e o susto foi, aos poucos, saindo de mim. Na hora de ir embora, apontei o livro de presença e perguntei, a gente não vai assinar? O pai respondeu, não precisa, e me deu a mão. Não entendi. Por que não deixar o nosso nome lá? Hoje eu entendo: a presença não está na escrita, mas em escrever juntos a história.
A vida é a qualquer hora. O que a gente está fazendo, seja uma coisa boa ou não, um sonho, uma viagem, a leitura de um livro, tudo é vida. Até o último momento. Não há como deixá-la de lado, como uma roupa que não gostamos mais, a vida acontece o tempo todo. E, em boa parte desse tempo, não percebemos que ela é só o que temos — a nossa história, que a gente vai escrevendo sem bússola, a gente nada sabe do próximo minuto senão ao chegar nele, o agora agora é imprevisível como o agora antes ou o agora seguinte. E um agora antes, que vai se tornar um agora agora, me pede de novo para acontecer: as férias chegaram e eu não sei o que vou fazer. Mas, justamente por não saber — eu continuo sem saber tantas coisas —, eu me sinto livre, eu nada espero, eu sou apenas a Bia de férias. No ano passado eu fui com a Catarina ao acampamento. Nesse agora, eu acho que não vou a lugar algum, mas o Mateus veio visitar o pai, a Gisele com ele, e a Gisele conversa comigo, e, enquanto nós duas conversamos, a nossa vida é aquela hora, e, então, ela me convida para passar uns dias na casa dos pais dela que vivem num sítio perto de Ribeirão Preto. Eu não me animo para ir, eu não sei se vou gostar, eu não digo nada, mas o pai gosta da ideia, e o pai diz, sim, o pai agradece a Gisele, o pai diz que Ribeirão Preto é perto de Cravinhos, cidadezinha para onde o bisavô André e a bisavó Sara foram trabalhar na lavoura de café quando chegaram de Granada, o pai diz que o avô João e a avó Luíza viveram em Cravinhos, que ele, pai, nasceu lá, que, ali agora só se vê canavial, mas o clima é agradável, lá agora tem um entreposto de flores vindas de Holambra, tão lindas as violetinhas, as rosas, as gérberas, o pai está contente só de falar, a vida é a qualquer hora — falar, eu percebo, é também a gente ser naquele instante, tudo é a gente sendo. O agora seguinte vem e, na mesa do jantar, o pai percebe
que eu não botei o pé na felicidade, aquela felicidade que sentimos quando estamos de férias, ele me diz que o mundo não é só aqui, tudo o que é diferente nos aumenta, ele pede pra eu ir, pra eu experimentar, ele me dá chance de não gostar e, se eu não gostar, eu posso voltar, eu pego um ônibus e ele me espera na rodoviária. E, então, então eu vou, e eu vou gostar, eu vou amar, eu vou fazer descobertas que, naquele agora, eram grandes — as descobertas, nesse agora agora, eu sei, são sempre grandes quando
somos pequenos, as descobertas são sempre grandes porque nunca deixamos de ser pequenos. E enquanto eu estava lá, o pai estava em casa, longe, o pai estava ausente de meus dias, e eu queria dizer a ele as coisas que eu estava descobrindo, o riacho, eu nunca tinha visto um riacho, um riacho bonito, bonito
e limpo, e a nascente, onde a água brotava da terra, e os cavalos, que lindos!, os
passarinhos, as laranjeiras em flor, tão gostoso o perfume delas, e a Pandora, a cachorrinha do dona Zélia, a Pandora foi quase sentir de novo a glória quando ela veio correndo pra mim, quando ela dormia aos meus pés, mas a gente não pode ter o que não é nosso, a gente é também o que a gente não tem, o que a gente não tem mas gosta, o riacho, os cavalos, a Pandora. Enquanto eu estava lá, vivendo a minha vida distante do pai, eu queria dizer a ele que estava adorando, e uma noite eu telefonei para ele, eu estava atolada inteiramente na felicidade, eu queria que ele soubesse, eu queria agradecer, ele tinha me ensinado que é preciso experimentar antes de decidir pelo sim ou pelo não, a vida era grande pra mim àquela hora, mas, talvez por timidez, ou porque outras pessoas podiam ouvir, eu diminuí aquela grandeza, eu me contive, eu não contei o quanto aquele lugar estava me ampliando. A gente não tira férias da vida, a vida é a qualquer hora. Mesmo se a gente se atrasa para dizer algo que gostaria. Assim, nesse agora agora, eu digo ao meu pai, eu digo a ele tudo o que não disse naquela noite.
Eu não sei tantas coisas, eu só tenho vinte anos de dias e tardes e noites, eu estou aqui, com tudo o que eu não sei, abraçada a essas e a outras lembranças, pequenas lembranças que vão e vêm, que espocam em minha memória e se espatifam contra o presente. Eu me vejo agora abrindo a porta de casa, a tempestade irrompe lá fora, eu saio correndo, o pai não me deixou ir à festa, o Danilo está à minha espera, o Danilo que agora é apenas a recordação do meu primeiro beijo, o Danilo que era o meu amor naquele então, eu saio correndo indignada para lugar nenhum, as águas se misturam em minha face, não sei o que é chuva e o que é lágrima, eu e o pai as mesmas águas; e aí já é uma noite de verão, as janelas abertas, o ventilador girando pra lá e pra cá, eu estou ensinando a ele, meu pai, velhinho, como se comunicar por WhatsApp, e ele me faz uma pergunta, e eu explico, e ele, que foi professor, ele diz que eu ensino bem, eu levo jeito, e aí eu digo, eu tenho a quem puxar; e, então, eu agora com sete anos, me caíram dois dentes da frente, estamos à mesa do café da manhã, eu falo assobiando, eu respingo saliva, o pai ri, a Neuza também, olha a janelinha!, e daqui a pouco é outra tarde, eu sento pertinho dele, pego uma almofada como se fosse minha boneca-de-pano, eu e o pai assistindo a um jogo de vôlei, e logo mais chegamos à praia, a areia acaricia a sola dos meus pés, já estamos debaixo do guarda-sol, eu quero milho verde, e eu vou passar mal, eu estou passando mal, eu vomito no colo do pai, e ele cuida de mim, e o tempo, em zigue-zague, nos atira meses à frente na plateia do Cirque du Soleil, eu e ele batemos palma para o palhaço, os dois aflitos com os acrobatas, as lembranças não param, não vão parar nunca. São centenas de fatos embaralhados, que cumpriram seu papel de ser fatos preliminares de outros, maiores, que a minha mente escolheu aqui para lembrar. E eu lembro, eu lembro, e tudo se torna, de novo, vida presente.
É manhã de domingo, estou há dois anos da idade que tenho atualmente. De tênis e roupa esportiva, caminho pela praça do bairro, e, com o fone de ouvido, não escuto o som do que acontece à minha frente, crianças que gritam, cachorros latindo, canto de pássaros, nem as batidas do meu coração, eu escuto umas músicas que baixei da internet, não é o Beethoven que a tia Marisa e o pai amam, mas é o que me toca nesse momento da vida. Já que não ouço o barulho de fora, e para não ser surpreendida por uma bicicleta, ou algum corredor apressado, olho para trás de vez em quando, e lembro, não nessa hora em que ando, mas nesta em que escrevo, mais presente que a outra, uma frase do pai, caminho percorrido é caminho percorrido. Nessa manhã de domingo, depois de uma volta na praça, eu vou ver por acaso um homem se exercitando nos aparelhos de ginástica, à sombra das árvores, e, por um segundo, eu penso que ele é o Mateus, meu irmão. Mas, ao me aproximar, eu vejo que não é o Mateus. E, mesmo não sendo, o Mateus já grudou no meu pensamento, e eu vou dar uma volta pensando nele. A Neuza diz que ele é a cara do pai, eu não sou boa para ver os traços de uma pessoa na outra —, não descobri ainda nem pra que eu sirvo, que profissão seguir, e no ano que vem vou prestar o vestibular como treineira —, mas, claro, eu percebo o pai no Mateus, eu percebo o pai também no meu rosto, não sempre, só às vezes é que ele se revela, pelo menos aos meus olhos, no Mateus e em mim. O Mateus é filho de outra mãe, os traços de sua mãe e do meu pai, nosso pai, se escondem um no outro, eu só consigo distinguir bem esse daquele quando menos espero, e não é uma questão do olhar, é da vontade desses traços se mostrarem ou não. A Catarina brinca, diz que o Mateus é o meu pai na versão jovem, o Mateus quem levou a gente, tantas vezes, pra encontrar a galera no shopping. O pai sempre gostou do Mateus lá em casa, ele e o pai assistindo a uns filmes de ação, eu lembro, sou criança, brinco no tapete com uma Barbie, e os dois lá, quietos, a luz azul da tevê no rosto de ambos, a vida ali, caminhando de um para o outro, tão parecidos eles, mas eu nem noto. O Mateus, nos últimos anos, vem todo dia em casa, preocupado com o pai, o pai velhinho, o Mateus a qualquer hora que o pai precisasse ele vinha, o Mateus muito mais com o pai, mesmo depois de se casar com a Gisele, o pai alegre alegre com o João, outro João, seu neto, e