Um Acidente e Outras Histórias
Agatha Christie
UM ACIDENTE
E OUTRAS
HISTÓRIAS
Tradução de
MARIA APARECIDA MORAES REGO
Título original em inglês:
THE ACCIDENT AND OTHER STORIES
©1923, 1924, 1929, 1934, 1935, 1937 by Agatha Christie
The Accident, Philomel Cottage, Sing a Song of
Sixpence, Mr. Eastwood’s Adventure, The Regatta
Mystery, Problem of Pollensa Bay, Yellow Iris, Miss Marple Tells
a Story, In a Glass Darkly.
Direitos exclusivos no Brasil para
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Maria Angélica, 168 — Lagoa — CEP 22461 — Tel.: 286-7822
Endereço Telegráfico: NEOFRONT Rio de Janeiro — RJ
Proibida a exportação para Portugal
e países africanos de língua portuguesa.
Capa:
ROLF GUNTHER BRAUN
Diagramação:
CELSO NASCIMENTO
Revisão:
HELOÍSA FORTES MENDES DE OLIVEIRA
FICHA CATALOGRÁFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ) Christie, Agatha, 1891-1976.
C479a Um Acidente e outras histórias; tradução de Maria
Aparecida Morais Rego. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978.
1. Ficção policial e de mistério (Literatura inglesa) I.
Título.
C
DD-823.0872
77- 0642 CDU-820-312.4
ÍNDICE
O Chalé do Rouxinol
................................................... 06
Uma Canção de Meio Xelim
........................................ 34
Um Acidente
............................................................... 57
A Aventura de Anthony Eastwood
............................... 69
O Mistério da Regata
.................................................. 91
Problema na Baía de Polensa
.................................... 112
Os Íris Amarelos
....................................................... 134
Miss Marple conta uma História
............................... 155
No Fundo do Espelho
................................................ 167
O CHALÉ DO ROUXINOL
— Até logo, querida.
— Até logo, meu bem.
Apoiada ao portãozinho rústico, Alix Martin
acompanhou com o olhar o vulto do marido que se
afastava na estrada em direção ao povoado. Logo
perdeu-o de vista numa curva, mas ali permaneceu,
na mesma posição, ajeitando distraidamente uma
madeixa de seus belos cabelos castanhos que o
vento desarranjara, o olhar distante e sonhador.
Alix Martin não era bela, nem mesmo a rigor
graciosa, porém o seu rosto, o rosto de uma mulher
que já passara da primeira juventude, iluminara-se e
suavizara-se, de tal forma que os seus antigos
colegas de escritório dificilmente a reconheceriam.
A Senhorita Alix King havia sido uma jovem
eficiente, organizada, de maneiras um tanto secas,
obviamente capaz, decidida.
A vida fora dura para ela. Durante quinze
anos, dos dezoito aos trinta e três, ganhara o seu
sustento (e também, por sete anos desse período, o
de uma mãe inválida) trabalhando como
estenodatilógrafa. Fora a luta pela subsistência que
endurecera as linhas suaves do seu rosto juvenil.
Houvera romance, é verdade. Um romance muito discreto com Dick Windyford, um colega de
escritório. Muito feminina, no íntimo, Alix sempre
soubera, sem o deixar transparecer, que ele a
amava. Aparentemente, porém, eram amigos e nada
mais. Com o seu parco salário Dick ainda pagava os
estudos de um irmão mais novo e não pudera,
portanto, pensar em casamento.
E então, súbita e imprevisivelmente, ela vira-
se livre da faina diária. Uma prima distante de Alix
falecera e deixara-lhe os bens, alguns milhares de
libras, o bastante para proporcionar-lhe uma renda
de umas poucas centenas de libras por ano. Para
Alix era a liberdade, a vida, a independência. Agora
ela e Dick não precisariam esperar mais.
Porém a reação de Dick foi inesperada. Ele
nunca lhe falara abertamente de amor, e agora
parecia ainda menos inclinado a fazê-lo. Passou a
evitá-la, mostrando-se irritadiço e taciturno, e Alix
logo compreendeu a verdade: ela tornara-se uma
mulher de posses e o orgulho e a dignidade de Dick
impediam-no de se declarar.
Ela não lhe quis menos bem por isso, e já
estava cogitando em dar o primeiro passo quando
pela segunda vez foi colhida pelo inesperado:
conheceu Gerald Martin na casa de uma amiga, ele
apaixonou-se violentamente por ela e no fim de uma semana estavam noivos. Alix, que sempre se
considerara uma natureza racional, viu-se
perdidamente enamorada.
Sem querer, ela encontrara o meio de
estimular o seu antigo amor. Dick Windyford viera
procurá-la, chegando a gaguejar em sua cólera
impotente.
— O homem é para você um perfeito
estranho! Você nada sabe sobre ele!
— Sei que o amo.
— Como pode saber? Numa semana?
— Nem todos levam onze anos para descobrir
que estão apaixonados por uma mulher! —
exclamou Alix encolerizada.
O rosto dele perdeu a cor.
— Gosto de você desde que a conheci. Pensei
que também gostava de mim.
Alix foi honesta.
— Eu também pensei — ela admitiu. — Mas
isso foi antes de saber o que era o amor.
Dick explodiu em súplicas, rogos e até mesmo
ameaças — ameaças contra o homem que o
suplantara. Alix ficou atônita ao descobrir o vulcão
que existia sob o plácido exterior do homem que
julgara tão bem conhecer.
A cena voltou-lhe à mente na manhã ensolarada, enquanto ela se apoiava no portão do
chalé. Estava casada há um mês e sua felicidade era
idílica. Apesar disso, naquela momentânea ausência
do marido que lhe era tão caro, uma leve ansiedade
maculava sua felicidade perfeita. E a causa daquela
ansiedade era Dick Windyford.
Por três vezes desde o seu casamento, o
mesmo sonho a perturbara. O cenário mudava, mas
os fatos principais eram sempre os mesmos. Ela via o
marido caído morto no chão aos pés de Dick Windyford, e
sabia clara e distintamente que fora a mão deste que
desferira o golpe fatal.
Mas embora isto, em si, já fosse horrível, havia
algo ainda mais pavoroso. Isto é, pavoroso ao
despertar, pois no sonho tudo lhe parecia
perfeitamente natural e inevitável. Ela, Alix Martin,
sentia-se satisfeita com a morte do marido, estendia as
mãos ao assassino e algumas vezes agradecia-lhe. O
sonho terminava sempre da mesma maneira, com
Dick Windyford apertando-a em seus braços.
Alix nada dissera ao marido sobre o sonho,
mas ficara mais perturbada do que gostaria de
admitir. Seria o sonho uma advertência, uma
advertência contra Dick Windyford?
Ela foi despertada de seus devaneios pela
campainha estridente do telefone no interior do chalé. Dirigiu-se para dentro e apanhou o fone. Às
primeiras palavras seus joelhos cederam e ela
encostou-se na parede.
— Quem é mesmo que está falando?
— Alix? O que há com a sua voz? Eu não a
reconheci. É Dick.
— Oh! — fez Alix. — Onde... onde você está?
— No Brasão dos Viajantes. É esse o nome,
não? Ou será que você não conhece o albergue do
povoado? Estou de férias... vim pescar um pouco
por aqui. Tem objeções a que eu dê uma passadinha
para ver o feliz casal esta noite depois do jantar?
— Tenho — atalhou Alix bruscamente. —
Você não deve vir.
Houve uma pausa, e então a voz de Dick,
sutilmente alterada, fez-se ouvir novamente.
— Desculpe — ele disse em tom formal. —
Não os incomodarei, naturalmente.
Alix interveio aflita. Ele deveria estar achando
estranhíssimo o seu comportamento. E era mesmo
estranho. Seus nervos deviam estar em péssimo
estado.
— Eu só quis dizer que... hoje à noite temos
um compromisso — ela explicou tentando
aparentar naturalidade. — Você... você não quer vir
jantar conosco amanhã?
Mas Dick evidentemente percebera a falta de
cordialidade em sua voz.
— Muito obrigado — ele retrucou no mesmo
tom formal — mas devo viajar a qualquer momento.
Só estou esperando um amigo. Adeus, Alix — ele
hesitou por um momento e então acrescentou num
tom diferente: — Desejo-lhe muitas felicidades,
minha querida.
Alix desligou o telefone com uma sensação de
alívio.
Ele não deve vir aqui, ela disse a si mesma. Ele
não deve vir aqui. Ora, mas eu sou mesmo uma
tola! Em que estado fiquei! Mesmo assim, ainda
bem que ele não vem.
Apanhou um rústico chapéu de palha que
estava sobre a mesa e saiu. No jardim parou para
contemplar as palavras entalhadas sobre a varanda:
Chalé do Rouxinol.
— Não acha esse nome muito pretensioso? —
ela perguntara uma vez a Gerald antes do
casamento.
Ele rira.
— Em Londres você nunca teve oportunidade
de ouvir um deles cantar, não é? Ainda bem. Os
rouxinóis só deviam cantar para casais apaixonados.
Havemos de ouvi-los nas noites de verão em nosso próprio lar.
Ao lembrar-se da ocasião em que ouvira pela
primeira vez o canto da avezinha, Alix, em pé junto
ao portão da casa, corou feliz.
Fora Gerald quem encontrara o chalé.
Procurara Alix vibrando de entusiasmo. Descobrira
o lugar ideal para eles, uma preciosidade, uma jóia,
uma oportunidade rara. Quando Alix o viu,
também ficou encantada. É verdade que o local era
muito isolado, a três quilômetros do povoado mais
próximo, porém o chalé era delicioso com seu ar
antiquado, banheiros confortáveis, aquecimento, luz
elétrica e telefone, e ela sucumbira
instantaneamente a seus encantos. Mas surgira um
empecilho. O proprietário, um homem rico que
reformara a casa com capricho, recusou-se a alugá-
la. Só lhe interessava vender.
Embora possuísse uma boa renda, Gerald
Martin não podia tocar no capital. Poderia obter no
máximo mil libras e o proprietário do chalé queria
três mil. Porém Alix, que se encantara pela casa, foi
em auxílio do noivo. Seus bens, ações ao portador,
eram facilmente conversíveis em dinheiro; ela
poderia vender metade para a compra da casa. E
assim o Chalé do Rouxinol era seu agora, e nunca,
nem por um segundo, lamentara a sua decisão. É certo que os criados não apreciavam a paz
campestre, e na verdade não tinham nenhum no
momento, mas Alix, que ansiara por uma vida
doméstica, sentia um grande prazer em preparar
com esmero as pequenas refeições e cuidar da casa.
Duas vezes por semana, um velho do povoado
vinha tratar do jardim colorido no momento por
magníficos canteiros de flores.
Ao chegar ao canto da casa, Alix espantou-se
ao ver o velho jardineiro debruçado sobre umas
folhagens. Surpreendeu-se pois ele costumava
trabalhar às segundas e sextas e aquela era uma
quarta-feira.
— Olá, George, o que está fazendo por aqui?
— ela perguntou aproximando-se.
O velho levantou-se com um sorriso levando a
mão à aba do antiquado boné.
— Eu sabia que a senhora ia ficar espantada,
dona, mas acontece que vai ter uma festa de
aniversário na sexta-feira, e eu disse pra mim
mesmo: “Aposto que o Sr. Martin e a sua boa
senhora não se vão importar se eu for na quarta em
vez da sexta.”
— Não tem mesmo importância — anuiu Alix.
— Espero que se divirta na festa.
— Eu pretendo — replicou George com simplicidade. — É ótimo a gente poder comer à
vontade quando não é a gente que paga. A mesa de
chá é sempre muito farta nas festas do meu
senhorio. Mas vim também porque pensei que era
bom falar com a senhora antes que fosse embora
para saber o que vou plantar nos canteiros. A dona
não sabe quando vai voltar, não é?
— Eu? Mas não vou a lugar nenhum!
George olhou-a espantado.
— Então não vai para Londres amanhã?
— Não. Quem lhe deu semelhante idéia?
George indicou o povoado com o queixo.
— Encontrei o patrão no povoado ontem. Ele
me disse que ia com a senhora para Londres
amanhã e não tinha certeza de quando ia voltar.
— Que tolice! — retrucou Alix rindo. — Você
deve tê-lo entendido mal.
Mesmo assim ela se perguntou o que teria dito
Gerald para que o velho tirasse uma conclusão tão
curiosa. Ela nunca mais queria pôr os pés em
Londres.
— Eu detesto Londres! — exclamou
subitamente com ênfase.
— Ah! Bem, devo ter entendido mal — tornou
George placidamente — mas me pareceu que foi
isso mesmo que ele disse. Mas fico satisfeito que a senhora fique por aqui. Ninguém pára mais quieto
hoje em dia, e não sei qual é a graça que Londres
tem. Eu nunca precisei ir lá. O problema é que hoje
tem carros demais. Depois que alguém compra um
carro não consegue mais ficar parado num lugar só.
O Sr. Ames, o antigo dono dessa casa, era um
homem muito pacato até que comprou um carro.
Não passou um mês e ele pôs o chalé à venda. E
olhe que ele gastou aqui um bocado de dinheiro,
com água quente em toda a parte, luz elétrica e tudo
o mais. Eu disse pra ele: “O senhor nunca mais vai
ver a cor do seu dinheiro”, mas ele respondeu: “essa
casa vale fácil duas mil libras”. E olhe que tinha
razão.
— Ele obteve três mil — tornou Alix sorrindo.
— Duas mil — teimou George. — Isso foi
muito comentado na ocasião.
— Na realidade foram três mil — insistiu Alix.
— As mulheres sempre fazem confusão com
números — replicou George pouco convencido. —
A dona não me vai dizer que o Sr. Ames teve a
coragem de dizer na sua cara que queria três mil
libras por essa casa?
— Não foi a mim que ele disse, foi a meu
marido.
George abaixou-se e tornou a se ocupar do canteiro.
— Ele vendeu por duas mil libras — repetiu
obstinadamente.
Alix não insistiu. Dirigiu-se a um canteiro
mais afastado e começou a colher uma braçada de
flores. Ia voltando para casa com uma perfumada
carga quando viu um pequeno objeto verde escuro
caído entre a folhagem. Abaixou-se. Era a agenda de
bolso do seu marido.
Ela folheou as páginas com um sorriso
divertido. Logo nos primeiros dias do casamento
percebera que o seu emotivo e impulsivo Gerald
era, estranhamente, metódico e ordeiro. Fazia uma
questão extremada de que as refeições obedecessem
a um horário rígido e planejava com antecedência e
precisão todas as suas atividades.
Folheando a agenda, sorriu ao ver que no dia
14 de maio ele anotara: “Casar com Alix, St. Peter,
2h30min.”
Mas que grande bobo, murmurou Alix
virando as páginas. Súbito deteve-se,
— Quarta-feira, 18 de junho. Ora, é hoje!
No espaço reservado para aquele dia, Gerald
escrevera em sua caligrafia precisa e legível: “21
horas”. Mais nada. O que Gerald pretendia fazer às
nove da noite, perguntou-se Alix. Sorriu ao pensar que num romance aquele diário teria certamente
revelado algum segredo perigoso e sem dúvida
conteria o nome de outra mulher. Folheou o
caderninho distraidamente. Datas, compromissos,
referências a transações comerciais, mas um só
nome de mulher — o dela.
Alix guardou a agenda no bolso. Ao dirigir-se
para casa com as flores, entretanto, assaltou-a uma
leve inquietação. As palavras de Dick Windyford
soaram a seus ouvidos como se ele estivesse ali, a
seu lado: “Esse homem é para você um perfeito
estranho! Você nada sabe sobre ele!”
Era verdade. O que sabia ela sobre Gerald?
Afinal ele tinha quarenta anos. Deve ter existido
outras mulheres em sua vida.
Alix afastou com impaciência esses
pensamentos. Não podia se perder em conjecturas,
tinha um problema mais premente para resolver.
Devia ou não contar ao marido que Dick Windyford
telefonara?
Sempre havia a possibilidade de que Gerald o
encontrasse casualmente no povoado. Mas neste
caso, com certeza, ele mencionaria o fato quando
voltasse, e o problema estaria resolvido. Caso
contrário, o que faria? Alix sentiu uma nítida
inclinação a deixar as coisas como estavam.
Se contasse ao marido, certamente ele
sugeriria que convidassem Dick Windyford para o
Chalé do Rouxinol, e ela teria de explicar que o
próprio Dick se convidara e ela recorrera a um
pretexto para mantê-lo afastado. E o que diria
quando Gerald perguntasse o motivo? Ele riria se
lhe contasse o sonho, ou, pior ainda, perceberia a
importância que o sonho tinha para ela. Por fim, um
tanto envergonhada, Alix resolveu não dizer nada.
Aquele era o primeiro segredo que se interpunha
entre ela e o marido, e a idéia a constrangia.
Ao ouvir os passos de Gerald voltando do
povoado pouco antes do almoço, Alix correu para a
cozinha e fingiu estar ocupada no fogão para
esconder a sua perturbação. Logo se tornou
evidente que Gerald não vira Dick Windyford. Ela
sentiu-se ao mesmo tempo aliviada e envergonhada,
pois via-se agora obrigada a conservar em segredo o
telefonema.
Só à noite, depois de uma ceia simples e
frugal, quando estavam sentados na sala de estar
com o teto cortado por vigas de carvalho e as janelas
abertas para o ar noturno docemente perfumado
pelas malvas e goivos do jardim, foi que Alix se
lembrou da agenda.
— Olhe o que eu encontrei num dos canteiros — disse atirando a caderneta no colo do marido.
— Devo tê-la deixado cair quando estava
regando as plantas.
— É, e agora conheço todos os seus segredos...
— Não tenho segredos — retrucou Gerald
sacudindo a cabeça.
— Não? E quanto ao compromisso para hoje
às nove horas?
— Ora, isso... — por um momento ele pareceu
desconcertado, mas então sorriu como se estivesse
achando algo muito engraçado, e acrescentou: —
Tenho um compromisso com uma mulher muito
bonita, Alix. Tem olhos azuis e cabelos castanhos, e
se parece muito com você.
— Acho que está fugindo do assunto —
tornou Alix com fingida severidade.
— Não estou, não. Para falar a verdade, era
um lembrete para revelar um filme hoje à noite. E
quero a sua ajuda.
Gerald Martin era um aficionado da
fotografia. Possuía uma máquina fotográfica um
tanto antiquada, mas com lentes excelentes, e
revelava seus próprios filmes numa câmara escura
que improvisara na pequena adega.
— E esta tarefa tem de ser executada
precisamente às vinte e uma horas — disse Alix caçoando levemente do marido.
Gerald ficou um tanto agastado.
— Minha querida — retrucou com um leve
toque de impaciência. — Se sempre planejássemos
tudo com precisão, levaríamos todas as nossas
tarefas a bom termo.
Alix ficou em silêncio alguns momentos
fitando o marido que fumava. A sua cabeça morena
apoiada no encosto da poltrona estava virada para o
teto, e o queixo escanhoado de contornos precisos
destacava-se contra o fundo escuro. Subitamente,
sem saber o motivo, viu-se envolvida por uma onda
de pânico e exclamou, antes de poder controlar-se:
— Oh, Gerald! Gostaria de conhecê-lo melhor!
O marido voltou o rosto espantado para ela.
— Mas, minha cara Alix! Você já sabe tudo
sobre mim. Contei-lhe sobre minha infância em
Northumberland, sobre minha vida na África do Sul
e esses últimos dez anos no Canadá onde obtive
sucesso.
— Ora, negócios! — atalhou Alix.
Gerald soltou uma súbita gargalhada.
— Sei o que está procurando: casos de amor,
não é? Vocês mulheres são todas iguais. Só estão
interessadas no elemento pessoal, na vida íntima.
Alix sentiu a garganta seca, mas insistiu, hesitante:
— Bem, mas deve ter havido outras
mulheres... Se ao menos eu soubesse...
Novo silêncio caiu entre eles. Gerald Martin
franziu a testa com uma expressão indecisa.
Quando tornou a falar seu tom era grave, sem traços
do tom trocista de há pouco:
— Alix, você está parecendo a última esposa
do Barba-Azul. Considera sensata essa atitude?
Existiram mulheres na minha vida, sim. Não vou
negar, nem me acreditaria se negasse, mas posso lhe
jurar que nenhuma delas significou coisa alguma
para mim.
Suas palavras tinham uma aura de sinceridade
que confortou a esposa.
— Está satisfeita, Alix? — tornou Gerald com
um sorriso fitando-a com um ar curioso. — O que
lhe despertou esses pensamentos desagradáveis,
logo essa noite?
Ela levantou-se e começou a andar de um lado
para o outro.
— Não sei — replicou. — Estive nervosa o dia
inteiro.
— Estranho — disse Gerald baixinho, como se
falasse consigo mesmo. — Muito estranho.
— Por que acha que é estranho?
— Ora, minha querida, não se zangue. Achei
estranho apenas porque você é sempre tão meiga e
calma.
Alix deu um sorriso forçado.
— Hoje tudo parecia estar conspirando para
me irritar — ela confessou. — Até o velho George
pôs na cabeça a idéia ridícula que íamos embora
para Londres, e disse-me que foi você quem lhe
contou isso.
— Onde esteve com ele? — inquiriu George
em tom abrupto.
— Ele veio trabalhar hoje em vez de sexta-
feira.
— Velho idiota! — rosnou Gerald
encolerizado.
Alix fitou-o surpresa. O rosto do marido
estava convulsionado de raiva. Nunca o vira assim
tão irritado. Vendo a sua surpresa, Gerald esforçou-
se para recuperar o controle.
— Bem, mas ele é mesmo um velho tolo — ele
protestou.
— O que lhe disse para lhe dar tal impressão?
— Eu? Eu não disse nada. Pelo menos... Oh,
sim, agora me lembro. Fiz um gracejo qualquer a
respeito de ir a pé até Londres amanhã e ele deve
ter-me tomado ao pé da letra. Ou talvez tenha ouvido mal. Você esclareceu-o, naturalmente, não?
Olhou-a, ansioso pela resposta.
— Sim, mas ele é aquele tipo de velho que
quando mete uma idéia na cabeça... Bem, não a tira
de lá tão facilmente.
Alix falou-lhe então sobre a teimosia de
George a respeito do preço do chalé.
Gerald ficou em silêncio alguns momentos
antes de responder com vagar:
— Ames estava disposto a receber duas mil
libras à vista e mil parceladas, ficando a casa
hipotecada. Deve ser esta a origem da confusão.
— É bem provável — concordou Alix e
levantando os olhos para o relógio acrescentou em
tom zombeteiro: — Já deveríamos estar lá embaixo,
Gerald. Você já está atrasado cinco minutos.
Um sorriso estranho passou pelos lábios de
Gerald Martin.
— Mudei de idéia — disse lentamente. — Não
revelarei as fotografias esta noite.
Coisa curiosa é a mente de uma mulher. Ao
deitar-se aquela noite, Alix estava tranqüila e
satisfeita. Sua felicidade momentaneamente
ameaçada reafirmara-se triunfante. Porém, ao
anoitecer do dia seguinte compreendeu que forças
sutis tentavam solapá-la. Dick Windyford não tornara a telefonar, mas influências que Alix julgava
procederem dele atuavam sobre a sua mente. Ouvia
a intervalos as suas palavras: “O homem é para
você um perfeito estranho... Nada sabe sobre ele.” E
logo sobrepunha-se a imagem do marido, nítida
como uma fotografia, dizendo: “Você está
parecendo a última esposa do Barba-Azul.
Considera sensata essa atitude?” Por que ele dissera
isso?
Suas palavras ocultavam uma advertência,
quase uma ameaça. Era como se tivesse dito: “É
melhor não se intrometer em minha vida, Alix. Pode
levar um choque tremendo.”
Pela manhã de sexta-feira Alix convencera-se
de que houvera uma mulher na vida de Gerald, um
quarto de Barba-Azul que ele tentava
cuidadosamente ocultar-lhe. Seu ciúme, lento no
despertar, era agora violento.
Aquele compromisso para as nove horas seria
um encontro com uma mulher? Seria aquela história
de revelação apenas uma inspiração de momento?
Três dias antes ela teria jurado que conhecia
profundamente o marido. Agora este se lhe
afigurava um estranho de quem nada sabia.
Lembrou-se de sua ira insensata contra o velho
George, tão em desacordo com o seu habitual bom-humor. Um pequeno detalhe, um fato isolado,
talvez, mas que mostrava que ela não conhecia
realmente o homem que era seu marido.
Na tarde da sexta-feira, Alix constatou a falta
de vários pequenos artigos em sua cozinha e
sugeriu ao marido que continuasse entretido no
jardim enquanto iria ao povoado fazer compras.
Para sua surpresa, Gerald opôs-se violentamente a
esse plano, e insistiu para que ela ficasse em casa.
Ele próprio iria ao povoado. Alix viu-se obrigada a
ceder, mas a insistência do marido espantou-a e
alarmou-a. Por que estaria ele tão ansioso em evitar
que ela fosse às compras?
Súbito ocorreu-lhe uma explicação que
elucidaria por completo a questão: seria possível
que Gerald, sem lhe dizer nada, houvesse
encontrado Dick Windyford? Seu ciúme,
adormecido na época do casamento, só despertara
mais tarde. E se acontecera o mesmo a Gerald? Não
estaria o marido ansioso para impedi-la de rever
Dick Windyford? Essa hipótese ajustava-se tão bem
aos fatos, e era tão tranqüilizadora para o espírito
perturbado de Alix, que ela a acolheu com
entusiasmo.
Entretanto a hora do chá veio encontrá-la
inquieta e angustiada, lutando contra um impulso que a perseguia desde a saída de Gerald. Por fim,
tranqüilizando a consciência com o pretexto de que
o aposento precisava de uma boa arrumação,
dirigiu-se ao quarto de vestir do marido, levando
um pano de pó para manter a ilusão de
domesticidade.
Se ao menos eu tivesse a certeza, ela pensava.
Se ao menos eu pudesse ter a certeza...
Em vão tentou convencer-se de que o marido
teria destruído há muito tempo qualquer indício
comprometedor. Sua mente argumentava que às
vezes os seres humanos conservavam as provas
mais perigosas e conclusivas apenas por um
sentimentalismo exagerado.
Por fim, Alix sucumbiu à tentação. Com as
faces rubras de vergonha, ofegante, revolveu maços
de cartas e documentos, revirou as gavetas e até
examinou os bolsos do marido. Só duas gavetas lhe
escaparam: a gaveta inferior da cômoda e uma
gavetinha à direita da escrivaninha. As duas
estavam trancadas. Mas Alix perdera agora todo o
escrúpulo, convicta de que numa dessas gavetas
encontraria provas da existência dessa mulher
imaginária do passado que a obcecava. Lembrou-se
de que Gerald deixara suas chaves jogadas
displicentemente sobre a mesa da sala. Desceu para apanhá-las e começou a experimentá-las, uma a
uma. A terceira chave abriu a gaveta da
escrivaninha. Alix puxou-a com ansiedade.
Deparou com um talão de cheques, uma carteira
cheia de notas e um pequeno maço de cartas preso
com uma fita adesiva.
Com a respiração irregular, Alix desprendeu a
fita. Nova onda de rubor subiu-lhe às faces. Deixou
cair as cartas na gaveta, fechando-a à chave. As
cartas eram suas, cartas que escrevera a Gerald
Martin antes do casamento.
Ergueu-se e dirigiu-se à cômoda, mais por
uma questão de levar a busca até o fim do que pela
esperança de encontrar alguma coisa, porém
descobriu desapontada que nenhuma das chaves de
Gerald ajustava-se à fechadura da gaveta. Sem se
dar por vencida, Alix correu os outros quartos e
reuniu uma coleção de chaves. Para sua satisfação, a
chave do armário do quarto de hóspedes ajustou-se
à fechadura da cômoda. Dando volta à chave, ela
abriu a gaveta. Nada havia ali senão um velho rolo
de recortes de jornais sujos e descorados pelo
tempo.
Alix respirou aliviada. Todavia relanceou a
vista pelos recortes com curiosidade em saber o que
Gerald achara tão interessante naqueles papéis empoeirados. Quase todos eram recortes de jornais
americanos de sete anos atrás, acerca do julgamento
do célebre escroque Charles Lemaitre. Suspeitavam
de que este assassinara suas vítimas, pois fora
encontrado um esqueleto feminino sob o piso de
uma das casas que alugara, e a maior parte de suas
“esposas” desaparecera.
Um dos mais talentosos advogados dos
Estados Unidos defendera-o da acusação com
consumada perícia. O veredicto da legislação
escocesa “não há provas” seria o mais adequado ao
caso, mas na América ele fora declarado inocente da
acusação principal, embora sentenciado a uma
longa pena devido aos outros crimes que lhe foram
imputados.
Alix recordava-se da celeuma gerada pelo
caso na época e da sensação que a fuga de Lemaitre
acarretara cerca de três anos depois. Na ocasião os
jornais ingleses haviam debatido exaustivamente a
personalidade do criminoso e a extraordinária
fascinação que exercia sobre as mulheres,
comentando a sua excitabilidade no tribunal, seus
veementes protestos de inocência e seus súbitos
desfalecimentos provocados por uma deficiência
cardíaca, mas que os desavisados atribuíam a seu
evidente talento dramático.
Um dos recortes trazia um retrato do homem.
Alix examinou-o interessada. O rosto de erudito
com uma barba longa e tratada fazia-lhe lembrar
alguém. Quem? Súbito, com um choque,
compreendeu. O homem do retrato parecia-se com
Gerald. Talvez por isso ele houvesse guardado os
recortes. Correu os olhos pelo parágrafo sob a
fotografia. O acusado possuía uma agenda em que
anotara certas datas, e a promotoria afirmava que
essas datas assinalavam os assassinatos de suas
vítimas. Uma das testemunhas, uma mulher;
identificara o prisioneiro por uma verruga no pulso
esquerdo, logo abaixo da palma da mão.
Alix deixou cair o recorte, presa de uma
vertigem. No pulso esquerdo, logo abaixo da palma, seu
marido tinha uma pequena cicatriz...
O quarto rodou à sua volta. Mais tarde achou
estranho que de imediato houvesse adquirido a
firme convicção de que Gerald Martin era Charles
Lemaitre, mas aceitou a idéia num relâmpago. Fatos
esparsos rodopiaram em seu cérebro para encaixar-
se como peças de um quebra-cabeças.
A compra da casa fora realizada com o seu
dinheiro, somente com o seu dinheiro resultante da
venda das ações ao portador que confiara a Gerald.
Compreendeu então o verdadeiro significado do seu sonho. Nas profundezas de sua mente o seu
subconsciente sempre temera Martin e desejara
fugir dele, e esta parte do seu ser procurara auxílio
em Dick Windyford. Fora por isso que pudera
aceitar a verdade tão facilmente, sem dúvidas ou
hesitações. Ela deveria ser mais uma das vítimas de
Lemaitre, em um futuro muito próximo, talvez...
Uma exclamação escapou-lhe dos lábios.
Quarta-feira, 21 horas. O porão, com as lajes tão
fáceis de remover! Já uma vez ele enterrara uma de
suas vítimas num porão. Ele planejara o novo crime
para a noite de quarta-feira... Mas anotar a hora de
antemão de forma tão metódica era ato de um
louco! Não, era apenas lógico. Gerald sempre
anotara seus compromissos, e um assassinato para
ele deveria ser apenas um assunto comercial.
Porém, o que a salvara? O que poderia tê-la
salvo? Gerald apiedara-se dela no último instante?
Não. A resposta ocorreu-lhe instantaneamente: o
velho George.
Compreendia agora a cólera incontida do
marido. Sem dúvida ele preparara o caminho
dizendo a todos que encontrara que no dia seguinte
partiriam para Londres. E então George viera
trabalhar inesperadamente, falara-lhe sobre a
viagem, e ela negara tal plano. Seria demasiado arriscado matá-la naquela mesma noite, pois o
velho jardineiro poderia repetir a conversa. Ela
escapara por pouco. Se não tivesse mencionado
acidentalmente aquela conversa trivial... Alix
estremeceu.
Não havia tempo a perder. Precisava fugir
logo dali, antes que ele voltasse. Recolocou
apressadamente os recortes na gaveta, fechou-a e
trancou-a à chave.
Nesse momento imobilizou-se, petrificada.
Ouvira o rangido peculiar do portãozinho do
jardim. Seu marido estava de volta.
Por uns instantes Alix ficou paralisada. Com
esforço dirigiu-se furtivamente para a janela e
espiou por trás das cortinas.
Sim, era o marido. Gerald sorria e cantarolava
uma canção. Na mão trazia um objeto que quase fez
parar o coração da aterrorizada Alix. Uma pá, nova
em folha.
Seu instinto avisou-a: Seria aquela noite...
Entretanto restava-lhe ainda uma chance.
Sempre cantarolando o marido dirigira-se para os
fundos da casa. Sem hesitar um momento, ela
desceu correndo as escadas e atravessou a varanda.
Mas ao chegar ao jardim viu o marido na outra
extremidade da casa.
— Olá! — disse ele. — Aonde vai com tanta
pressa?
Alix esforçou-se desesperadamente para
aparentar calma e tranqüilidade. Perdera aquela
oportunidade, mas poderia ter outra se não
despertasse as suspeitas dele. Até mesmo agora,
talvez...
— Ia dar uma volta até o fim da alameda —
ela respondeu numa voz que a seus próprios
ouvidos soou hesitante e insegura.
— Ótimo — retorquiu Gerald. — Vou com
você.
— Não... por favor, Gerald. Estou... nervosa,
com dor de cabeça. Prefiro ir sozinha.
Ele fitou-a demoradamente. Alix julgou ver a
suspeita infiltrar-se em seu olhar.
— O que há com você, Alix? Está pálida,
trêmula.
— Não há nada — ela atalhou
propositadamente ríspida. — É só uma dor de
cabeça. O passeio me fará bem.
— Está certo, mas não adianta dizer que não
quer a minha companhia — declarou Gerald com
seu sorriso fácil. — Eu vou, quer você queira, quer
não.
Ela não ousou mais protestar. Se ele suspeitasse que sabia...
Com esforço conseguiu recobrar parte de sua
calma habitual. Tinha porém a inquietante sensação
que ele a observava, não de todo satisfeito. Sentia
que não conseguira afastar completamente as suas
suspeitas.
Quando voltaram à casa, ele insistiu para que
ela se deitasse e trouxe água-de-colônia para
banhar-lhe as têmporas. Portava-se como o marido
dedicado de sempre. Alix sentiu-se tão
desamparada e indefesa como se tivesse os pés e as
mãos amarrados.
Não a deixou só nem por um minuto.
Acompanhou-a à cozinha e ajudou-a a colocar na
mesa os pratos frios já preparados. A garganta dela
contraía-se a cada passagem do alimento, mas
forçou-se a cear e a aparentar alegria e naturalidade.
Sabia agora que estava lutando por sua vida. Estava
sozinha com aquele homem, a quilômetros do
auxílio mais próximo, totalmente à sua mercê. Sua
única chance era afastar-lhe as suspeitas para que a
deixasse só alguns momentos, apenas o suficiente
para alcançar o telefone no vestíbulo e pedir
socorro. Era a sua única esperança agora. Sentiu um
alento passageiro ao lembrar-se de que ele já adiara
seus planos uma vez. E se ela lhe dissesse que Dick Windyford viria vê-los naquela noite?
As palavras já se atropelavam em seus lábios
quando resolveu silenciar. Ele não deixaria que seus
planos fossem frustrados uma segunda vez. Sua
calma ocultava uma determinação, um júbilo, que a
apavorava. Se falasse iria precipitar os
acontecimentos. Ele a mataria ali mesmo e
serenamente telefonaria a Dick inventando qualquer
história a respeito de ter de se ausentar inesperada-
mente. Ah! Se ao menos Dick Windyford estivesse a
caminho do chalé... Se Dick...
Uma idéia repentina ocorreu-lhe. Lançou um
rápido olhar ao marido como se temesse que ele
pudesse ler seus pensamentos. Com a formação de
um plano sua coragem revigorou-se. Seu
comportamento tornou-se tão natural que ela
mesma se surpreendeu.
Preparou o café e levou-o à varanda onde
costumava sentar-se nas noites quentes.
— Ah, Alix — disse Gerald, — vamos revelar
aqueles filmes essa noite.
Um arrepio percorreu-lhe a espinha, porém
ela conseguiu retrucar com aparente indiferença:
— Precisa mesmo de minha ajuda? Estou
muito cansada hoje.
— É coisa rápida — ele replicou com um sorriso. — Prometo-lhe que não se sentirá mais
cansada depois.
Essas palavras pareciam diverti-lo. Alix
estremeceu. Tinha de executar o seu plano. Era
agora ou nunca. Levantou-se.
— Vou telefonar para o açougueiro — ela
declarou com naturalidade. — Não precisa se
levantar.
— Para o açougueiro? A esta hora da noite?
— Sei que o açougue está fechado, seu bobo.
Mas ele deve estar em casa e quero que me traga
umas costelas de vitela bem cedo, antes que alguém
as compre. Ele é um amor de velhinho. Faz
qualquer coisa por mim.
Ela dirigiu-se para o vestíbulo com passos
rápidos e fechou a porta às suas costas. Ainda ouviu
Gerald dizer:
— Não feche a porta.
Ela replicou no mesmo instante.
— Não quero que as mariposas entrem.
Detesto mariposas. Está com receio de que eu vá
namorar o açougueiro, querido?
Ela apanhou o fone e pediu o número do
Brasão dos Viajantes. Fizeram a ligação
instantaneamente.
— O Sr. Windyford ainda está aí? Posso falar com ele?
Seu coração deu um salto. Aterrorizada viu a
porta se abrir e o marido entrar no vestíbulo.
— Ei, não fique aqui, Gerald — ela disse com
uma careta. — Não gosto que ouçam as minhas
conversas ao telefone.
Ele limitou-se a rir e deixou-se cair numa
cadeira.
— Tem certeza de que está telefonando para o
açougueiro?
Alix desesperou-se. Seu plano falhara. Num
minuto Dick estaria no telefone. Deveria arriscar
tudo e chamar por socorro?
Então, enquanto nervosamente ligava e
desligava o pequeno interruptor que permitia que a
sua voz fosse ou não ouvida na outra extremidade,
um outro plano ocorreu-lhe à mente.
Não será fácil, ela pensou. Terei de me
controlar, dizer as palavras certas sem hesitar um
instante. Mas acho que é possível. Tem de ser
possível.
Naquele momento ouviu a voz de Dick
Windyford do outro lado. Alix respirou fundo.
Ligou o interruptor com dedos firmes e falou :
— Aqui é a Sr.a Martin do Chalé de Rouxinol. Por
favor, venha (ela desligou o interruptor) amanhã de manhã com seis costeletas bem bonitas de vitela (ela
tornou a ligar o interruptor). É muito importante
(desligou-o). Muito obrigada, Sr. Hexworthy.
Espero que o meu telefonema a essa hora não o
tenha incomodado, mas essas costeletas são
realmente (ligou o interruptor) uma questão de vida
ou morte (desligou-o). Sim, é isso mesmo. Amanhã
de manhã (ela tornou a ligar) o mais cedo possível.
Ofegante, ela recolocou o fone no gancho e
virou-se para o marido.
— Então é assim que conversa com o seu
açougueiro, é?
— É o que eu chamo de “toque feminino” —
retrucou Alix brejeiramente.
Mal podia conter sua excitação. Gerald não
suspeitara de nada. Dick viria, mesmo sem
compreender.
— Não gostei muito daquele café que você me
deu — queixou-se Gerald. — Estava muito amargo.
— É uma marca nova. Comprei para
experimentar. Mas se não gostou, voltarei ao antigo.
Alix apanhou o seu trabalho de tapeçaria e
começou a bordar. Gerald leu algumas páginas do
seu livro. Por fim, levantou os olhos para o relógio e
largou o livro.
— São oito e meia. É uma boa hora para irmos ao porão concluirmos a nossa tarefa.
O bordado escapou das mãos de Alix.
— Ah, ainda não. Vamos esperar até às nove.
— Não, querida. Eu marquei para as oito e
meia. Você poderá ir deitar-se mais cedo.
— Prefiro esperar até às nove.
— Você sabe que quando estabeleço um
horário, sigo-o rigidamente. Venha, Alix. Não vou
esperar nem mais um minuto.
Alix olhou para ele. Sem querer uma onda de
terror a imobilizou. Ele arrancara a máscara. Suas
mãos crispavam-se, seus olhos brilhavam de
excitação, passava e repassava a língua pelos lábios
secos. Não se esforçava mais para ocultar a
excitação.
É verdade, ele não pode esperar, parece um
louco, pensou ela.
O marido aproximou-se dela e, segurando-a
pelos ombros, fê-la levantar-se.
— Vamos querida, ou vou carregá-la até lá.
Seu tom era brincalhão, mas ocultava uma
indisfarçada ferocidade que a aterrorizava. Com um
supremo esforço ela libertou-se e encostou-se à
parede. Estava indefesa. Não podia escapar, não
podia fazer nada.
— Vamos agora, Alix — ele insistiu.
— Não, não!
Ela gritara com as mãos estendidas numa
tentativa inútil de mantê-lo à distância.
— Pare! Gerald... tenho algo para lhe dizer...
algo para confessar...
Ele deteve-se.
— Para confessar? — perguntou curioso.
— Sim, para confessar.
Escolhera as palavras a esmo. Agora teria de
continuar, lutando desesperadamente para
conservar sua atenção.
O rosto dele assumiu uma expressão de
desprezo.
— Um antigo amante, suponho — disse ele
com ironia.
— Não — retrucou Alix. — É uma outra coisa.
Você a classificaria como... um crime.
Viu imediatamente que escolhera as palavras
certas. Conseguira interessá-lo. Recuperou seu
sangue-frio, sentindo mais uma vez que estava no
controle da situação.
— É melhor sentar-se — ela acrescentou com
tranqüilidade, e atravessando a sala sentou-se em
sua velha poltrona e até mesmo apanhou o bordado.
Mas por trás de seu ar calmo, os pensamentos
atropelavam-se febrilmente. Teria de inventar uma história que prendesse o interesse do marido até
que o socorro chegasse.
— Contei-lhe que fui durante quinze anos
uma estenodatilógrafa — ela começou lentamente.
— Isto não é toda a verdade. Esse período foi
interrompido por duas vezes. A primeira foi
quando eu tinha vinte e dois anos. Conheci um
homem já idoso com alguns bens. Ele apaixonou-se
por mim e pediu-me em casamento. Aceitei.
Casamo-nos — Alix fez uma pausa. — Então pedi-
lhe que fizesse um seguro de vida em meu favor.
Ela notou o súbito aumento de interesse no
rosto do marido e prosseguiu com uma confiança
renovada.
— Durante a guerra trabalhei algum tempo
num hospital. Tinha a meu cargo a manipulação de
todas as drogas raras e dos venenos.
Ela calou-se, observando-o. Ele estava
profundamente interessado agora. Assassinato era
assunto atraente para um assassino. Ela arriscara
tudo naquela cartada, e ganhara. Lançou um olhar
ao relógio. Eram vinte e cinco para as nove.
— Existe um certo veneno, um pozinho
branco de aspecto inofensivo. Uma única pitada
significa morte. Conhece alguma coisa a respeito de
veneno?
A pergunta ocultava uma certa ansiedade. Se
a resposta fosse afirmativa ela teria de ser muito
cuidadosa.
— Não — respondeu Gerald. — Sei muito
pouco sobre o assunto.
Ela respirou aliviada.
— Mas certamente já ouviu falar em hioscina,
não? Pois este veneno a que me refiro atua de forma
semelhante, mas não deixa nenhum vestígio.
Qualquer médico diria que a morte foi causada por
colapso cardíaco. E eu roubei uma pequena quanti-
dade dele, e o guardei.
Ela fez nova pausa, reunindo suas forças.
— Prossiga — disse Gerald.
— Não, estou com medo. Não lhe posso dizer.
Talvez um outro dia.
— Agora — ele ordenou impaciente. — Quero
saber.
— Bem, já estávamos casados há um mês. Fui
muito atenciosa com o meu marido, muito
carinhosa e dedicada. Ele só se referia a mim
elogiosamente. Todos os vizinhos sabiam que eu era
uma esposa modelo. Eu preparava o seu café todas
as noites. Certa noite, quando não havia mais
ninguém em casa, coloquei uma pitada desse
alcalóide mortal em sua xícara...
Alix calou-se e enfiou a linha na agulha. Ela
que nunca pisara num palco em toda a sua vida,
rivalizava nesse momento com a maior atriz do
mundo. Vivia com maestria o papel de uma
assassina sem escrúpulos.
— Tudo correu tranqüilamente. Fiquei
sentada observando-o. Sua respiração tornou-se
difícil e ele pediu mais ar. Abri a janela. Mas ele não
conseguiu mais se mover. Dali a pouco, morreu.
Calou-se com um sorriso nos lábios. Faltava
um quarto para as nove. Eles deviam estar
chegando.
— De quanto foi o seguro? — perguntou
Gerald.
— Cerca de duas mil libras. Mas joguei na
Bolsa e perdi. Voltei ao trabalho do escritório, mas
sem intenções de ficar ali muito tempo. Conheci
então outro homem. Eu conservara meu nome de
solteira e ele não descobriu que eu havia sido
casada. Era um homem mais novo, atraente e cheio
de vida. Tivemos um casamento rápido em Sussex.
Ele não quis fazer seguro de vida, mas fez um
testamento em meu favor. Gostava que eu mesma
preparasse o seu café, assim como o meu primeiro
marido.
Alix sorriu com um ar pensativo e acrescentou com simplicidade.
— O meu café é muito bom.
Prosseguiu:
— Fiz muitos amigos no povoado onde
morávamos. Todos tiveram muita pena de mim
quando o meu marido faleceu subitamente de
colapso cardíaco. Só não gostei do médico. Não que
ele suspeitasse de mim, mas a morte repentina de
meu marido o surpreendeu muitíssimo. Não sei
bem porque voltei para o escritório. Provavelmente
foi o hábito. Meu segundo marido deixou-me
quatro mil libras. Desta vez apliquei bem o meu
dinheiro. Foi então que...
Mas não pôde continuar. Gerald Martin, com
o rosto congestionado, ofegante, engasgado,
apontava para ela o indicador trêmulo.
— O café!... Meu Deus! O café!
Ela ficou olhando para ele.
— Agora sei porque estava amargo! Você é
um demônio! E este é mais um dos seus truques!
Suas mãos convulsas agarraram os braços da
cadeira. Estava prestes a jogar-se sobre ela.
— Você me envenenou!
Alix recuou até a lareira. Aterrorizada abriu os
lábios para negar, mas conteve-se. Mais um instante
ele iria atacá-la. Reuniu todas as suas forças e sustentou o olhar nele.
— Sim — ela admitiu. — Eu o envenenei. O
veneno já deve estar agindo nesse instante. Você
não pode mais se levantar dessa cadeira... Não pode
mais se mover...
Se pudesse conservá-lo ali, por alguns poucos
minutos... Ah! O que fora aquilo? Eram passos na
estrada. O portão rangeu. Os passos aproximavam-
se da varanda. A porta do vestíbulo se abriu.
— Você não pode mover-se — ela repetiu.
E passando pelo marido, correu para o
vestíbulo para cair desmaiada nos braços de Dick
Windyford.
— Meu Deus! Alix! — ele exclamou.
Virando-se para o homem que o
acompanhava, um indivíduo robusto com uniforme
de policial, acrescentou:
— Vá ver o que está acontecendo naquela sala.
Colocou Alix com cuidado num divã e
ajoelhou-se a seu lado.
— Minha menina — ele murmurou. — Minha
pobre menininha. O que andaram fazendo com
você?
As pálpebras dela estremeceram e ela
murmurou o nome de Dick.
A mão do policial no ombro do rapaz trouxe-o à realidade.
— Não há nada na sala, senhor, apenas um
homem sentado numa cadeira. Parece que ele se
assustou muito com alguma coisa e...
— E o quê?
— Bem, senhor, ele... está morto.
A voz de Alix quebrou o silêncio. Como se
estivesse sonhando, ainda com os olhos fechados,
ela disse:
— Dali a pouco... — e o seu tom era o de quem
fazia uma citação — morreu.