Um Acidente e Outras Histórias

Agatha Christie · Capítulo 2 de 9

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Um Acidente e Outras Histórias

Uma Canção de Meio Xelim

 

Sir Edward Palliser, K. C, residia no número 9

de Queen’s Anne Close, um beco sem saída que no

coração de Westminster mantém uma atmosfera

tranqüila e antiquada, contrastando com o bulício

do século XX. O local Convinha admiravelmente a

Sir Edward Palliser.

Sir Edward fora um dos mais eminentes

advogados criminais de sua época, e mesmo agora

que se retirara dos tribunais, entretinha-se reunindo

uma excelente biblioteca de criminologia. Escrevera

também um livro sobre as reminiscências de

criminosos célebres.

Naquela noite, Sir Edward estava sentado em

frente à acolhedora lareira de sua biblioteca,

saboreando um esplêndido cafezinho, enquanto

sacudia desaprovadoramente a cabeça sobre as

teorias engenhosas mas completamente

ultrapassadas de Lombroso. A porta abriu-se

silenciosamente e o seu bem treinado criado cruzou

o grosso tapete.

— Uma jovem deseja vê-lo, senhor.

— Uma jovem?

Sir Edward surpreendeu-se. O acontecimento

quebrava a sua rotina diária. Talvez fosse a sua sobrinha Ethel, pensou. Não, nesse caso Armour a

teria anunciado. Cautelosamente perguntou:

— Ela não se identificou?

— Não, senhor. Mas disse estar bem certa de

que o senhor desejaria vê-la.

— Faça-a entrar — ordenou Sir Palliser

sentindo-se agradavelmente curioso.

Uma jovem alta e morena de uns trinta anos,

com um costume negro bem cortado e um

chapeuzinho também negro, dirigiu-se a Sir Edward

com a mão estendida e uma expressão ansiosa.

Armour retirou-se fechando silenciosamente a

porta.

— Sir Edward, está-me reconhecendo, não?

Sou Magdalen Vaughan.

— Ora, naturalmente — ele apertou a mão

estendida com calor. Lembrava-se perfeitamente

agora. A viagem de volta da América a bordo do

Siluric! Fizera a corte a esta criança encantadora,

pois ela era pouco mais de uma criança então, uma

corte discreta, de um homem mais velho e

experimentado. Ela era então adoravelmente jovem,

ansiosa, pronta para admirá-lo e adorá-lo como a

um herói, feita sob medida para cativar o coração de

um homem que se aproximava dos sessenta. A lem-

brança tornou mais caloroso o seu aperto de mão.

— Mas que prazer! Sente-se, por favor.

Ele ofereceu-lhe uma poltrona, conversando

com fluência e naturalidade enquanto se

perguntava o motivo da sua vinda. Quando por fim

esgotou as trivialidades, fez-se um silêncio.

As mãos dela apertavam nervosamente os

braços da cadeira. Ela umedeceu os lábios e por fim

falou, de uma forma abrupta.

— Sir Edward, quero que me ajude.

Ele surpreendeu-se e retrucou mecanicamente.

— Como?

Ela prosseguiu, agora com mais veemência:

— O senhor disse que se algum dia eu

precisasse do seu auxílio, se houvesse qualquer

coisa que pudesse fazer por mim... eu poderia

contar com o senhor.

Sim, ele dissera isso. Era o tipo de frase

própria para um momento de despedida.

Lembrava-se de sua própria voz embargada, de

como levara a mão dela aos lábios...

— “Se algum dia houver algo que eu possa

fazer... Lembre-se, pode contar comigo!”

Sim, muitas frases desse tipo são

pronunciadas, porém quão raramente tais

promessas são cumpridas! E certamente nunca

depois de... quantos mesmo? Nove ou dez anos. Lançou-lhe um rápido olhar. Ela ainda era uma

jovem muito bonita, mas perdera o que para ele

constituíra o seu encanto: o ar de juventude

intocada. Talvez o seu rosto fosse até mais

interessante agora, um homem mais novo

provavelmente pensaria assim, porém Sir Edward

estava muito longe de sentir aquela onda de calor e

emoção que o envolvera naquela viagem

transatlântica.

Seu rosto assumiu uma expressão cautelosa e

profissional e disse de forma resoluta:

— Certamente, minha querida jovem. Terei o

máximo prazer de fazer tudo que estiver ao meu

alcance, mas duvido que lhe possa ser de grande

ajuda atualmente.

Se acaso estava preparando o caminho para

uma recusa, ela não percebeu. Era do tipo que só via

uma coisa de cada vez, e no momento o que ela via

era o seu próprio problema. Nem por um segundo

duvidou da boa vontade de Sir Edward.

— Estamos numa terrível enrascada.

— Estamos? Casou-se?

— Não, falo de mim e do meu irmão. Ah! E de

William e Emily também. Mas preciso explicar tudo.

Tenho, isto é, tinha uma tia, a Sr.ta Crabtree. Talvez

tenha lido a seu respeito nos jornais. Foi horrível! Ela morreu... foi assassinada.

— Ah! — o rosto de Sir Edward assumiu

imediatamente uma expressão interessada. — Há

cerca de um mês atrás, não foi?

A moça fez um gesto afirmativo.

— Um pouco menos. Três semanas.

— Sim, lembro-me. Golpearam-na na cabeça

em sua própria casa. O assaltante não foi apanhado.

Magdalen Voughan fez novo gesto de

assentimento.

— Não foi apanhado, nem acredito que seja.

Sabe, talvez não exista nenhum assaltante.

— O quê?

— Sim, é horrível. Não transpirou nos jornais,

mas é a opinião da polícia. Ela sabe que não entrou

ninguém em casa naquela tarde.

— Está querendo dizer...

— Que foi um de nós quatro. Deve ter sido.

Eles não sabem quem... e nós também não. Não

sabemos. E ficamos nos entreolhando e

conjecturando... Oh! Se ao menos pudesse ter sido

um estranho! Mas não vejo como.

Sir Edward fitou-a. Seu interesse crescia.

— Quer dizer que a família está sob suspeita?

— Sim, isso mesmo. A polícia não o diz

claramente, todos têm sido corteses e simpáticos, mas revistaram toda a casa e interrogaram a nós e a

Martha várias vezes. Como não sabem quem foi,

estão aguardando os acontecimentos. Estou com

tanto medo... estou terrivelmente apavorada!

— Minha cara jovem, vamos, deve estar

exagerando.

— Não estou, não. Foi um de nós, deve ter

sido um de nós.

— Quem são os quatro a que se referiu?

Magdalen levantou a cabeça e falou de forma

mais controlada:

— Eu e Matthew, para começar. A tia Lily era

nossa tia-avó, irmã de minha avó materna. Fomos

morar com ela quando tínhamos quatorze anos

(somos gêmeos, como sabe). Há também William

Crabtree, sobrinho dela, filho de um irmão. Mora lá

com a esposa, Emily.

— Ela os sustentava?

— Mais ou menos. Ele tem algum dinheiro,

mas não é forte e tem de ficar em casa. É um homem

pacato e sonhador. Estou certa de que não poderia

ter... Oh! É horrível até mesmo pensar nisso!

— A situação toda ainda está muito obscura

para mim. Talvez não se importe em expor os fatos,

se isto não a perturbar em excesso.

— Oh, não! Eu quero contar-lhe. Tudo está muito claro ainda em minha mente, terrivelmente

claro! Tínhamos tomado o chá, entende, e cada qual

retornado às suas ocupações. Eu estava costurando,

Matthew datilografando um artigo — ele faz um

pouco de jornalismo — e William às voltas com os

seus selos. Emily não descera para o chá. Tomara

um remédio para dor de cabeça e estava deitada.

Como vê, estávamos todos entretidos com alguma

coisa. Quando Martha entrou na sala para servir a

ceia, às sete e meia, encontrou tia Lily morta. Seu

crânio estava... oh, é horrível!... fraturado.

— Suponho que encontraram a arma do

crime?

— Sim. Foi um peso de papéis de bronze que

costumava ficar sobre a mesa à porta. A polícia

examinou-o à procura de impressões digitais, mas

não havia nenhuma. Alguém o limpara.

— E qual foi a primeira suposição da polícia?

— Pensamos naturalmente num ladrão. As

três gavetas da secretária estavam abertas, como se

alguém as houvesse revolvido, e naturalmente

pensamos que fora um ladrão. Mas então chegou a

polícia e disse que ela estava morta há mais ou

menos uma hora. Perguntaram a Martha se alguém

entrara na casa, e ela negou. Todas as janelas

estavam trancadas por dentro e não existiam sinais aparentes de terem sido forçadas. Foi então que

começaram a nos fazer perguntas...

Ela calou-se. Seus seios arfavam. Seus olhos

amedrontados e suplicantes voltaram-se para Sir

Edward em busca de conforto.

— Quem se beneficiou com a morte de sua

tia?

— É simples: todos nos beneficiamos

igualmente. Ela deixou o seu dinheiro dividido em

partes iguais entre nós quatro.

— E qual o valor de seus bens?

— O advogado disse-nos que após o

pagamento dos impostos restarão oitenta mil libras.

Sir Edward abriu mais os olhos, surpreendido.

— É uma soma considerável. Os quatro

sabiam, naturalmente, a quanto montava a fortuna

de sua tia?

Magdalen sacudiu negativamente a cabeça.

— Não, foi uma grande surpresa para nós. A

tia Lily sempre foi muito parcimoniosa com o seu

dinheiro. Só mantinha uma empregada e estava

sempre falando em economia.

Sir Edward balançou a cabeça pensativo.

Magdalen inclinou-se em sua direção.

— O senhor vai me ajudar, não vai?

Essas palavras atingiram desagradavelmente Sir Edward, justamente quando ele começava a se

interessar pela história em si.

— Minha querida jovem, na realidade o que

posso fazer? Se deseja uma boa orientação jurídica

posso indicar-lhe...

Ela interrompeu-o.

— Não, não é isso que eu quero! Quero a sua

ajuda, a sua mão de amigo!

— É desvanecedor ouvir isso, mas...

— Quero que venha até a nossa casa. Quero

que faça perguntas e tire suas próprias conclusões.

— Mas minha querida...

— Lembre-se, o senhor prometeu. Disse que

em qualquer parte, a qualquer momento que eu

precisasse de ajuda...

O olhar dela era súplice mas confiante. Ele

sentiu-se envergonhado e estranhamente

enternecido. Que extraordinária sinceridade a dela,

como podia crer tão cegamente numa promessa oca

de há dez anos atrás como se esta fosse um

compromisso sagrado! Quantos homens não

haviam dito aquelas mesmas palavras, que eram

quase um clichê, e a quão poucos dentre eles fora

exigido o seu cumprimento.

Sem muita convicção, Sir Edward disse:

— Estou certo de que muitas pessoas poderão orientá-la melhor do que eu.

— Tenho muitos amigos, naturalmente — ele

achou graça na ingênua autoconfiança daquela

afirmação, — mas nenhum deles é inteligente como

o senhor. O senhor está acostumado a interrogar

suspeitos, e com toda a sua experiência certamente

saberá.

— Saberei o quê?

— Se cada um de nós é inocente ou culpado.

O rosto severo do causídico amenizou-se num

leve sorriso. Estava convencido de que a grosso

modo sempre soubera a verdade, embora, muitas

vezes, os jurados não compartilhassem de sua

opinião.

Magdalen empurrou para trás o chapeuzinho

com um gesto nervoso, correu os olhos pela sala e

comentou.

— Como isto aqui é silencioso! Não anseia às

vezes por um pouco de barulho?

O beco sem saída! Inadvertidamente as

palavras dela, ditas ao acaso, tocaram-no

profundamente. O seu beco sem saída. Sim, mas

sempre restava um caminho, o mesmo por onde

entrara: o caminho de volta para o mundo... Laivos

de impetuosidade e juventude agitaram-se em seu

íntimo. A singela confiança da jovem despertara a melhor faceta de sua natureza, e o problema que ela

lhe apresentara interessara vivamente ao

criminologista inato. Queria ver as pessoas de quem

ela falara. Queria formar o seu próprio conceito.

Em voz alta Sir Edward disse:

— Se está realmente convencida de que posso

ser-lhe útil... Note que eu não prometo nada.

Esperava que a jovem ficasse extasiada, pasma

de alegria, mas ela recebeu a notícia calmamente.

— Sabia que podia contar com o senhor.

Sempre pensei no senhor como um verdadeiro

amigo. Quer acompanhar-me agora?

— Não. Acho que será melhor se lhe fizer uma

visita amanhã. Quer me dar o nome e o endereço do

advogado da Sr.ta Crabtree? Desejo fazer-lhe

algumas perguntas.

Ela escreveu duas linhas numa folha e

entregou-a ao advogado. Levantou-se então e disse

com alguma timidez:

— Eu... estou realmente gratíssima. Até

amanhã.

— E o seu endereço?

— Ora, que tolice a minha. Palatine Walk, 18,

Chelsea.

Eram três horas da tarde do dia seguinte. Sir

Edward Palliser aproximava-se do número 18 de Palatine Walk com passos sóbrios e cadenciados.

Descobrira várias coisas nesse interregno. Aquela

manhã fizera uma visita à Scotland Yard, cujo

diretor-adjunto era um velho amigo seu, e tivera

também uma entrevista com o advogado da falecida

Sr.ta Crabtree. Tinha, em conseqüência, uma visão

mais clara do caso. O procedimento da Sr.ta Crabtree

no que dizia respeito ao dinheiro era bastante

peculiar. Nunca utilizara um talão de cheques.

Costumava escrever ao advogado para que lhe

arranjasse uma determinada quantia em notas de

cinco libras, quantia essa quase sempre invariável:

trezentas libras, e ia apanhar o dinheiro de táxi, para

ela o único meio de transporte seguro. Fora disso,

nunca saía de casa.

Na Scotland Yard Sir Edward descobriu que o

ângulo financeiro fora cuidadosamente examinado.

Se a Sr.ta Crabtree viva fosse, faria dentro de poucos

dias um novo pedido de dinheiro, portanto as

trezentas libras anteriores deveriam ter-se esgotado,

ou quase. Mas este era, certamente, um ponto de

difícil verificação. As despesas trimestrais da casa

eram bem inferiores a trezentas libras. Por outro

lado, a Sr.ta Crabtree tinha o hábito de distribuir

notas de cinco libras entre os amigos e parentes

necessitados. Assim, era impossível precisar a quantia existente na casa no dia do crime. Porém

não se encontrara uma única nota de cinco libras.

Era justamente esta questão que ocupava o

pensamento de Sir Edward quando chegou à

residência da morta.

A porta da casa, um sobrado de dois

pavimentos sem porão, foi aberta por uma mulher

idosa e frágil com um olhar alerta que o conduziu a

uma grande sala dupla à esquerda do estreito

vestíbulo. Magdalen veio ao seu encontro e ele pôde

ver com maior clareza traços de tensão nervosa em

seu rosto.

— Pediu-me que viesse interrogá-los, e aqui

estou eu — disse Sir Edward apertando-lhe a mão

com um sorriso. — Em primeiro lugar, quero saber

quem viu sua tia pela última vez, e a que horas foi

isso.

— Foi às cinco horas, depois do chá. Martha

foi a última pessoa que esteve com ela. Fora fazer

alguns pagamentos aquela tarde e trouxera os

recibos e o troco para a tia Lilly.

— A Sr.ta confia em Martha?

— Oh, totalmente. Ela já estava com a tia Lilly

há uns trinta anos, eu creio. É honestíssima.

Sir Edward fez um gesto de assentimento.

— Mais outra pergunta: por que a sua prima, a Sr.ta Crabtree, tomou um remédio para dor de

cabeça?

— Ora, porque estava com dor de cabeça.

— Sim, certamente, mas havia algum motivo

específico para essa dor de cabeça?

— Bem, de certa forma, sim. Houve uma cena

no almoço. Emily é muito emotiva e nervosa, e às

vezes costumava discutir com tia Emily.

— Elas discutiram durante o almoço?

— Sim. Tia Lilly sabia ser irritante em

assuntos de pouca monta. Tudo começou por causa

de uma ninharia, e num minuto ela e Emily

armaram uma terrível discussão. Emily começou a

dizer coisas horríveis, que certamente iria lamentar,

a dizer que iria embora dali e nunca mais voltaria,

que até o pão que comia lhe era dado de má

vontade, e toda uma série de tolices. E tia Lilly

retrucou que quanto mais cedo ela e o marido

fizessem as malas e saíssem, melhor. Mas nenhuma

das duas estava falando a sério.

— Porque o Sr. e a Sr.a Crabtree não tinham

dinheiro para tomar tal atitude?

— Ora, não é só isso. William gostava da tia

Lilly. Gostava mesmo.

— Por acaso houve outras discussões naquele

dia?

Magdalen corou.

— Está-se referindo a mim? Aquele

espalhafato todo só porque eu queria ser modelo?

— Sua tia não concordava?

— Não.

— Por que queria ser modelo, Sr.ta Magdalen?

A profissão parece-lhe atraente?

— Não, mas qualquer coisa seria melhor do

que continuar a viver aqui.

— Sim, mas agora a Senhorita terá uma boa

renda, não?

— Ah, sem dúvida. Agora será diferente —

admitiu a jovem com total simplicidade.

— E seu irmão? Também discutiu com sua tia?

— Matthew? Não, de forma alguma.

— Então ninguém poderá insinuar que ele

também tinha um motivo para desejar a morte de

sua tia?

Sir Edward percebeu a expressão consternada

do rosto dela.

— Eu tinha esquecido — tornou o advogado

em tom casual. — Ele deve bastante dinheiro, não?

— Sim, pobre Matthew.

— Mas agora isto poderá ser resolvido.

— É verdade... — ela suspirou. — E será um

alívio.

E ela continuava a não perceber coisa alguma!

Ele mudou de assunto rapidamente:

— Seus primos e seu irmão estão em casa?

— Estão. Disse-lhes que o senhor viria, e todos

estão ansiosos para ajudar. Oh! Sir Edward, sinto

que de alguma forma o senhor vai descobrir que

está tudo bem... que nenhum de nós teve coisa

alguma a ver com o crime... que afinal, foi mesmo

um estranho.

— Não posso fazer milagres. Talvez seja capaz

de descobrir a verdade, mas não posso garantir que

a verdade lhe agrade.

— Não? Mas eu sinto que o senhor pode fazer

qualquer coisa, qualquer coisa!

Ela retirou-se. Perturbado, o advogado

pensou: o que ela quis dizer com isso? Estará

insinuando que eu proteja alguém? Quem?

Suas conjecturas foram interrompidas pela

entrada de um homem de cerca de cinqüenta anos

com uma constituição congenitamente vigorosa,

mas encurvado. Vestia-se com desalinho, e seus

cabelos haviam sido escovados sem esmero. Parecia

bem humorado, mas distraído.

— Sir Edward Palliser? Muito prazer.

Magdalen pediu-me que viesse. É muita bondade

sua querer ajudar-nos, embora na minha opinião nunca será descoberto o criminoso. Não creio que

peguem o camarada.

— Acredita então que foi um assaltante,

alguém de fora?

— Bem, deve ter sido. Não poderia ser

ninguém da família. Esses camaradas estão cada dia

mais espertos. Escalam paredes como gatos e

entram em qualquer lugar.

— Onde estava, Sr. Crabtree, quando ocorreu

a tragédia?

— Estava entretido com meus selos, no meu

pequeno gabinete do andar superior.

— Não ouviu nada?

— Não, nunca ouço coisa alguma quando

estou absorvido em alguma ocupação. É uma

deficiência minha, mas é a verdade.

— Este gabinete a que se refere, fica em cima

desta sala?

— Não, nos fundos.

A porta tornou a abrir. Uma mulher

pequenina e loura entrou. Suas mãos contraíam-se

nervosamente. Parecia agitada e exasperada.

— William, por que não me esperou? Disse-

lhe para esperar.

— Desculpe, querida. Esqueci. Sir Edward

Palliser, minha esposa.

— Como está, Sr.a Crabtree? Espero que a

minha vinda não a tenha perturbado. Sei que devem

estar todos ansiosos para esclarecer os fatos.

— Sim, naturalmente. Mas não tenho nada

para lhe dizer... tenho, William? Eu estava

dormindo... em meu quarto... e só acordei quando

Martha gritou.

Suas mãos continuavam crispadas.

— Onde fica seu quarto, Sr.a Crabtree?

— Em cima desta sala. Mas não ouvi nada.

Nem podia, estava dormindo.

Sir Edward não conseguiu obter dela

nenhuma outra informação. Não sabia de nada, não

ouvira nada, estivera dormindo, ela repetiu várias

vezes com a obstinação de uma mulher

amedrontada. Porém o advogado sabia que

provavelmente era a pura verdade.

Por fim desculpou-se dizendo que queria

fazer algumas perguntas a Marta. William Crabtree

ofereceu-se para conduzi-lo à cozinha. No vestíbulo,

Sir Edward quase colidiu com um jovem alto que se

dirigia à porta da frente.

— O senhor é Matthew Vaughan?

— Sim, mas olhe aqui, não posso esperar.

Tenho um compromisso.

— Matthew! — admoestou-o a irmã da escada. — Oh, Matthew, você prometeu!

— Eu sei, mana, mas não posso ficar. Tenho

de encontrar um camarada. Mas de qualquer forma,

o que adiantaria ficar falando sobre essa porcaria? A

polícia já nos encheu o suficiente. Não agüento mais

essa história!

A porta da frente fechou-se com estrépito às

costas do Sr. Matthew Vaughan.

Sir Edward foi conduzido à cozinha onde

Martha passava a ferro a roupa da semana. Ela

estava com o ferro no ar. Sir Edward fechou a porta.

— A Sr.ta Vaughan pediu o meu auxílio —

explicou. — Espero que não tenha objeções em

responder algumas perguntas.

Ela sacudiu a cabeça após fitá-lo alguns

segundos.

— Nenhum deles a matou, senhor. Sei o que

está pensando, mas não é verdade! É difícil

encontrar pessoas tão distintas como eles.

— Não duvido, mas as qualidades da família

não constituem uma prova de sua inocência.

— Talvez não, senhor. A lei é muito esquisita.

Mas existem provas, como quer o senhor. Nenhum

deles poderia tê-la matado sem que eu o soubesse.

— Mas certamente...

— Sei o que estou falando, senhor. Ah! Escute só isso...

“Isso” eram fortes rangidos que vinham do

teto.

— São as escadas, senhor. Toda vez que

alguém desce ou sobe, esses degraus rangem desse

jeito horroroso, por mais cuidado que se tome. A

Sr.a Crabtree estava deitada em seu quarto, o Sr.

Crabtree estava remexendo naqueles infelizes selos,

e a Sr.ta Magdalen estava costurando em sua

máquina. Se algum deles tivesse descido essas

escadas, eu teria sabido. E ninguém desceu!

A velha criada falou com tal confiança que o

advogado ficou impressionado. Ela seria uma boa

testemunha, pensou. Impressionaria o júri.

— Talvez não tenha percebido o barulho.

— Não, eu perceberia sim. Perceberia mesmo

que não estivesse prestando atenção, como a gente

percebe pelo barulho da porta que alguém saiu.

Sir Edward mudou de tática.

— Então três membros da família estão fora

de questão. Mas ainda resta um quarto. O Sr.

Matthew Vaughan também estava lá em cima?

— Não. Estava no quarto pequeno, embaixo,

aí do lado, e estava escrevendo a máquina. Dá para

ouvir perfeitamente daqui. Ele não parou de

escrever um só momento. Posso jurar. O barulho da máquina é um bocado irritante.

Sir Edward calou-se por alguns instantes.

— Foi você que a encontrou, não foi?

— Sim, senhor. Fui eu. A pobre estava caída

no chão com o cabelo cheio de sangue. E ninguém

ouviu nada por causa do barulho da máquina do Sr.

Matthew.

— Está convencida então de que ninguém

bateu a porta?

— Como teria sido possível, sem que eu

soubesse? A campainha toca aqui na cozinha. E só

há uma porta de entrada.

Ele olhou-a bem nos olhos.

— Gostava da Sr.ta Crabtree?

O rosto dela adquiriu uma genuína e

inconfundível expressão de ternura.

— Sim, senhor. Eu gostava muito dela. Se não

fosse pela Sr.ta Crabtree... Bem, estou ficando velha e

não me importo mais de falar nisso. Fiquei

esperando criança quando era moça, e a Sr.ta Lilly

me apoiou e me recebeu de volta quando tudo

terminou. Eu teria morrido por ela, teria mesmo.

Sir Edward sabia quando alguém estava

sendo sincero, e a sinceridade das palavras de

Martha era inequívoca.

— Então, que você saiba, ninguém entrou pela porta da frente.

— Não, ninguém poderia ter entrado.

— Note que eu ressalvei “que você saiba”,

pois a Sr.ta Crabtree poderia estar a espera de

alguém e abrir ela mesma a porta.

— Oh! — exclamou Martha desconcertada.

— É uma possibilidade, não? — insistiu Sir

Edward.

A velha criada estava obviamente confusa.

Não podia negar e no entanto desejaria fazê-lo. Por

quê? Porque sabia que a verdade era outra. Seria

esse o motivo? O culpado era uma das quatro

pessoas da família? Queria Martha proteger o

criminoso? As escadas teriam rangido? Teria

alguém descido furtivamente e Martha saberia

quem era esse alguém?

Sir Edward estava convencido, entretanto, que

ela própria era honesta. Ele insistiu no ponto,

observando-a.

— A Sr.ta Crabtree poderia tê-lo feito, não? A

janela da sala dá para a rua. Ela poderia ter visto

chegar a pessoa que estava esperando e aberto a

porta do vestíbulo para deixá-la entrar. Talvez

quisesse manter essa visita em segredo.

Martha parecia aflita, mas por fim admitiu

com relutância:

— Talvez tenha razão, senhor. Nunca pensei

nisso. É, talvez ela estivesse esperando algum

cavalheiro. É, pode ser.

Era como se Martha estivesse começando a

perceber os pontos positivos naquela hipótese.

— Você foi a última pessoa a vê-la, não foi?

— Sim, senhor, depois que tirei a mesa do chá.

Levei os recibos e o troco do dinheiro que me dera

para ela conferir.

— Ela deu-lhe o dinheiro em notas de cinco

libras?

— Só uma nota, senhor — retrucou Martha

chocada. — As despesas da cozinha nunca

chegaram a cinco libras. Eu sou muito cuidadosa.

— Onde ela guardava o dinheiro?

— Não sei ao certo, senhor. Mas diria que ela

o carregava consigo em sua bolsa de veludo preto.

Mas também ela poderia guardá-lo numa das

gavetas do seu quarto. Estavam sempre trancadas.

Ela gostava muito de trancar as coisas, embora às

vezes perdesse as chaves.

Sir Edward fez um gesto de assentimento.

— Não sabe quanto dinheiro ela tinha em

casa? Quero dizer ao todo.

— Não, senhor. Não sei dizer.

— E ela não disse nada que poderia levá-la a concluir que estava esperando alguém?

— Não, senhor.

— Tem certeza? O que ela disse, exatamente?

— Bem — começou Martha refletindo, — ela

disse que o açougueiro era um velhaco desonesto, e

disse que eu comprara mais duzentos gramas de

chá do que deveria, e também que era uma tolice da

Sr.a Crabtree não gostar de margarina. Ah, ela não

gostou de uma das moedas de meio xelim que lhe

trouxe no troco, uma dessas moedas novas como

folhas de carvalho. Cismou que era falsa, e tive um

trabalhão para convencê-la do contrário. Disse

também que o peixeiro mandara hadoque em vez

de pescada, se eu havia reclamado, e respondi que

sim. Acho que foi só isso, senhor.

As palavras de Martha tiveram o condão de

trazer à mente de Sir Edward uma imagem mais

nítida da morta do que qualquer descrição formal.

Em tom casual ele comentou:

— A sua patroa era bastante difícil de

contentar, não?

— Ela era muito exigente, mas coitada, saía

muito pouco, e vivendo assim trancada precisava

distrair-se com alguma coisa. Ela pode ter sido

impertinente, mas era muito caridosa. Nenhum

mendigo que batesse à porta saía daqui com as mãos abanando.

— Alegra-me ver que ao menos uma pessoa

lamenta a sua morte, Martha.

A velha criada prendeu a respiração.

— Está querendo dizer que... Oh! mas todos

aqui gostavam dela, no fundo. Todos discutiam com

ela de vez em quando, mas não era para valer.

Sir Edward levantou a cabeça. Um degrau

rangera.

— É a Sr.ta Magdalen que está descendo.

— Como sabe? — retrucou ele.

A velha criada corou.

— Conheço os passos dela — murmurou.

Sir Edward deixou a cozinha com rapidez.

Martha tinha razão. Magdalen acabara de chegar ao

pé da escada. Ela dirigiu-lhe um olhar inquiridor.

— Não fiz muitos progressos ainda — disse-

lhe Sir Edward, e acrescentou: — Por acaso viu as

cartas que o correio trouxe para sua tia no dia de

sua morte?

— Estão todas guardadas. A polícia já as

examinou, naturalmente.

Ela o conduziu à sala de estar e, abrindo uma

gaveta que estava fechada a chave, apanhou uma

bolsa grande de veludo negro com um antiquado

fecho de prata.

— Esta é a bolsa de titia. Conservei-a

exatamente como estava no dia em que morreu.

Sir Edward agradeceu e despejou o conteúdo

da bolsa sobre a mesa. Aquela devia ser um

exemplo típico de bolsa de uma velha dama

excêntrica. Encontrou algumas moedas de prata,

duas castanhas de gengibre, uma folha com um

poema de péssima qualidade sobre os

desempregados, um almanaque farmacêutico, um

pedaço grande de cânfora, um par de óculos e três

cartas: uma numa caligrafia trêmula de alguém que

assinara “sua prima Lucy”, um recibo de conserto

de um relógio, e uma circular de uma instituição de

caridade.

Depois de examinar tudo minuciosamente, Sir

Edward recolocou os objetos na bolsa e entregou-a a

Magdalen com um suspiro.

— Obrigado, Sr.ta Magdalen, mas receio que

essa bolsa não tenha sido de grande ajuda.

— Já se vai?

— Sim.

— Mas... tudo vai ficar bem?

— Nenhum membro da lei comprometer-se-ia

com uma declaração tão precipitada — esquivou-se

Sir Edward em tom solene e saiu. Imerso em seus

pensamentos o advogado desceu a rua. Sentiu que a solução do enigma estava bem ali, ao alcance de sua

mão, e no entanto não conseguia agarrá-la. Precisa

de mais alguma coisa, um pequeno indício. Só para

indicar-lhe o caminho.

Uma mão pousou-lhe no ombro. Sir Edward

sobressaltou-se.

— Estava procurando o senhor, Sir Edward.

Queria desculpar-me por minha estupidez de meia

hora atrás. Receio que o meu gênio não seja dos

melhores. Foi uma bondade sua incomodar-se com

os nossos problemas. Por favor, pergunte-me o que

quiser. Se eu puder ajudar de qualquer forma...

Súbito Sir Edward enrijeceu-se. Olhava

fixamente, não para Matthew, mas para o outro

lado da rua. Perplexo, Matthew repetiu:

— Se eu puder ajudar de alguma forma...

— Pois já ajudou, meu caro jovem — disse Sir

Edward — fazendo com que eu parasse nesse lugar

e levando minha atenção a fixar-se em algo que

talvez não percebesse de outra forma.

Ele apontou para um pequeno restaurante do

outro lado da rua.

— Os Vinte e Quatro Melros? — perguntou

Matthew intrigado.

— Exatamente.

— O nome é esquisito, mas disseram-me que a comida é razoável.

— Não pretendo arriscar-me — retorquiu Sir

Edward. — Minha infância já está bem mais

distante do que a sua, meu amigo, mas por isso

mesmo tenho uma recordação bem precisa dos

versinhos infantis. Se não me engano, há um que

diz: Uma canção de meio xelim, um punhado de centeio e

vinte e quatro melros, para um bom recheio... e vai por

aí adiante. O resto não nos importa no momento.

Sir Edward deu uma volta de cento e oitenta

graus.

— Aonde vai? — perguntou Matthew

Vaughan.

— Para a sua casa, meu amigo.

Voltaram em silêncio. Matthew Vaughan

lançava olhares intrigados a seu companheiro. Sir

Edward entrou, dirigiu-se à gaveta da sala, apanhou

a bolsa de veludo e abriu-a. Olhou para Matthew e

o jovem relutantemente deixou a sala.

Sir Edward espalhou as moedas sobre a mesa.

Examinou-as e fez um gesto de assentimento. Sua

memória não falhara.

Levantou-se e tocou a sineta, escondendo

antes alguma coisa em sua mão direita.

Martha respondeu ao chamado.

— Se não estou enganado, Martha, você me disse que teve um pequeno problema com sua

falecida patroa por causa de uma moeda nova de

meio xelim.

— Sim senhor.

— Ah! Mas o que é muito curioso, Martha, é

que entre as moedas desta bolsa não há nenhuma

moeda nova de meio xelim. Há duas moedas aqui de

meio xelim, mas são moedas antigas.

Ela fitou-o com um ar perplexo.

— Compreende o que significa isso? Alguém

entrou nessa sala naquela tarde, alguém a quem sua

patroa deu meio xelim... Acho que ela deu a moeda em

troca disso...

Com um gesto rápido, ele estendeu-lhe a mão

direita com a folha contendo os versos de pé

quebrado sobre o desemprego.

Um simples olhar foi suficiente. A expressão

dela era reveladora.

— É inútil continuar, Martha. Eu sei de tudo.

É melhor me contar.

Ela deixou-se cair numa cadeira. As lágrimas

escorriam pelo seu rosto.

— É verdade!... É verdade... A campainha não

tocou direito, eu não estava certa, e acabei

resolvendo ir ver. No momento em que cheguei à

porta da sala, ele a golpeou. O rolo de notas de cinco libras estava sobre a mesa, na frente dela... foi

por causa do dinheiro que ele fez isso... pensou que

ela estava sozinha em casa porque ela mesma abriu

a porta para ele. Nem pude gritar. Fiquei paralisada

e então ele virou-se... e vi que era o meu filho... Ele

sempre foi um mau elemento. Dei-lhe todo o

dinheiro de que podia dispor. Já esteve preso duas

vezes. Deve ter vindo me ver, e então, como não

atendi a porta, a Sr.ta Crabtree foi abrir... ele deve ter

ficado sem jeito e então deu a ela esse folheto sobre

o desemprego. A patroa, como era caridosa, disse-

lhe para entrar e apanhou na bolsa a moeda de meio

xelim... E o tempo todo o rolo de notas de cinco

libras estava lá, sobre a mesa, desde que eu lhe dera

o troco. E então o demônio apossou-se do meu Ben

e ele aproximou-se por trás dela e a atacou.

— E você... — encorajou-a Sir Edward.

— Oh! senhor, o que eu podia fazer? Ele é da

minha carne! O pai dele era um mau elemento, e

Ben puxou ao pai... mas era meu filho. Empurrei-o

para fora e voltei para a cozinha, e na hora de

sempre fui pôr a mesa para a ceia. Acha que agi

muito mal, senhor? Tentei não contar mentiras

quando o senhor me interrogou.

Sir Edward levantou-se.

— Pobre mulher — ele disse com sentimento.

— Lamento muito por você, mas a lei precisa seguir

o seu curso.

— Ele fugiu do país, senhor. Não sei onde ele

está.

— Então há uma chance de que seu filho

possa escapar da forca, mas não conte com isso.

Quer chamar a Sr.ta Magdalen?

— Oh! Sir Edward! O senhor foi maravilhoso!

— exclamou Magdalen quando ele terminou a sua

breve exposição. — Salvou-nos a todos. Como posso

agradecer-lhe?

Sir Edward sorriu e deu-lhe uma pancadinha

afetuosa na mão, a própria encarnação de um

grande homem. A pequena Magdalen estivera

encantadora a bordo do Siluric. Ah! aquele

maravilhoso esplendor dos dezessete anos! Ela já o

perdera, naturalmente.

— Da próxima vez que precisar de um

amigo... — começou o advogado.

— Irei direto ao senhor!

— Não, não! — exclamou alarmado Sir

Edward. — É exatamente o que não deve fazer.

Procure um homem mais jovem.

Escapando com habilidade dos

agradecimentos da família, ele chamou um táxi e

instalou-se no banco de trás com um suspiro de alívio. Agora até mesmo o encanto primaveril dos

dezessete anos parecia-lhe uma questão discutível.

Realmente não podia comparar-se a uma bela

biblioteca de criminologia.

O táxi entrou em Queen’s Anne Close.

O seu beco sem saída.