Um Acidente e Outras Histórias
Problema na Baía de Polensa
O navio que fazia a ligação entre Barcelona e
Maiorca deixou o Sr. Parker Pyne em Palma nas
primeiras horas da manhã, e imediatamente ele
experimentou uma desilusão.
Os hotéis estavam cheios. O melhor que lhe
puderam arranjar foi um cubículo abafado abrindo
para um pátio interno num hotel do centro da
cidade, acomodação que o Sr. Parker Pyne não
estava disposto a tolerar. O proprietário do hotel
observou com indiferença o seu desapontamento.
— Que esperava o senhor? — comentou
encolhendo os ombros. Palma tornara-se muito
popular! O câmbio era favorável. Todo mundo, os
ingleses, os americanos, todos vinham para Maiorca
no inverno. O lugar estava superlotado. Duvidava
até que o cavalheiro conseguisse hospedagem em
outro hotel, com exceção talvez do Formentor, onde
os preços eram tão escorchantes que até os turistas
recuavam.
O Sr. Parker Pyne tomou um café com um
brioche é saiu para ver a catedral, mas descobriu
que o seu estado de espírito não estava apropriado
para admirar belezas arquitetônicas. Procurou e
encontrou um motorista de táxi prestativo com o qual conferenciou num mau francês misturado ao
espanhol do local sobre os méritos e as
possibilidades de Soler, Alcudia, Polensa e
Formentor, onde os hotéis eram bons mas muito
dispendiosos.
O Sr. Parker Pyne perguntou o preço médio
da diária.
Eles pediam uma quantia ridícula e absurda,
esquecendo-se de que os ingleses procuravam a ilha
justamente porque os preços eram acessíveis,
respondeu o motorista.
O recém-chegado concordou plenamente. Mas
qual era mesmo a diária do Formentor?
Era caríssima!
Sim, certamente, mas QUAL EXATAMENTE
ERA O PREÇO DA DIÁRIA?
Finalmente o motorista resolveu responder em
termos de algarismos. Tendo-se submetido há
pouco aos preços extorsivos dos hotéis do Egito e de
Jerusalém, a cifra não assustou demasiadamente o
Sr. Parker Pyne.
A bagagem do Sr. Parker Pyne foi enfiada de
qualquer jeito na mala do carro e o táxi arrancou
pelo litoral em direção de Formentor. No caminho
tentariam encontrar uma hospedagem mais em
conta.
Entretanto não chegaram a alcançar aquele
ninho de plutocratas, pois após atravessar as ruelas
estreitas de Polensa, ao atingir a costa, passaram em
frente ao Hotel Pino D’Oro, um hotelzinho junto ao
mar do qual se descortinava um panorama que na
fina névoa da manhã possuía a delicadeza de uma
gravura japonesa.
No instante em que o viu, o Sr. Parker Pyne
decidiu que era aquele o hotel que lhe servia.
Mandou parar o táxi e com a esperança de encontrar
um abrigo atravessou os portões de ferro batido.
O prédio pertencia a um casal idoso que não
falava inglês, nem francês, mas apesar disso um
acordo satisfatório foi firmado e o Sr. Parker Pyne
conseguiu um quarto com vista para o mar. O
motorista retirou a bagagem do carro, congratulou-
se com o seu passageiro por ter-se livrado “das
monstruosas exigências” dos novos hotéis, recebeu
seu pagamento e partiu com uma alegre saudação
espanhola.
O novo hóspede olhou o relógio e percebendo
que ainda faltava um quarto para as dez, dirigiu-se
a um pequeno terraço inundado pelo já agora
deslumbrante sol da manhã, e pela segunda vez
naquele dia pediu um café com brioches.
Viam-se quatro mesas no terraço: a dele, uma que estava sendo arrumada e mais duas já
ocupadas. Na mesa mais próxima estava uma
família de quatro pessoas: o pai, a mãe e duas filhas
já de meia idade. Na última mesa, num canto do
terraço, sentava-se um casal de nacionalidade
inglesa, obviamente mãe e filho.
A mulher, de uns cinqüenta e cinco anos, com
cabelos grisalhos bem tratados, usava um discreto
costume de tweed sem pretensões à última moda, e
aparentava aquele sereno auto-domínio típico da
inglesa habituada a viajar pelo estrangeiro.
O rapaz sentado à sua frente teria uns vinte e
cinco anos e também era um tipo característico de
sua classe e faixa etária. Não era feio nem bonito,
nem alto nem baixo, e evidentemente seu
relacionamento com a mãe era dos melhores.
Conversavam humoradamente e o rapaz atendia as
necessidades dela com presteza.
Dali a pouco o olhar da senhora cruzou-se
com o do Sr. Parker Pyne seguido logo adiante de
uma cortês indiferença, mas ele percebeu que havia
sido assimilado e rotulado.
Sua nacionalidade inglesa fora reconhecida e
sem dúvida, no devido tempo, alguma observação
amável e inofensiva ser-lhe-ia dirigida.
O Sr. Parker Pyne não fazia objeções a ser interpelado. No estrangeiro seus compatriotas
tendiam ligeiramente a entediá-lo, mas sempre
estava disposto a uma conversa leve e amena. Seria
constrangedor omitir-se num pequeno hotel e tinha
certeza que aquela mulher possuía o que costumava
chamar de excelentes “maneiras de hotel”.
O rapaz inglês levantou-se, fez alguma
observação jocosa e entrou no salão. A mulher
pegou sua bolsa e a correspondência e acomodou-se
numa cadeira de frente para o mar. De costas para o
Sr. Parker Pyne desdobrou o Continental Daily Mail.
Ao servir o seu último gole de café, o Sr.
Parker Pyne olhou casualmente na direção dela. No
mesmo instante alarmou-se e temeu pela
tranqüilidade de suas férias. As costas da mulher
eram horrivelmente expressivas. Já observara
muitas vezes no passado aquela postura. A rigidez,
a tensão dos músculos, mesmo sem ver o rosto sabia
que lágrimas contidas queimavam os olhos dela, e
que a mulher mantinha o controle com um rígido
esforço.
Erguendo-se furtivamente, como um animal
acuado, o Sr. Parker Pyne refugiou-se no hotel.
Menos de meia hora atrás assinara o seu nome no
registro de hóspedes que continuava sobre o balcão.
Lá estava em sua caligrafia clara: C. Parker Pyne, Londres.
Algumas linhas acima encontrou o que
procurava sem dificuldades: Sr.a R. Chester e Sr.
Basil Chester, Holm Park, Devon.
Apanhando a caneta, o Sr. Parker Pyne
corrigiu rapidamente a própria assinatura. Meio
ilegível, lá ficou: Christopher Pyne.
Se a Sr.a Chester estava infeliz na Baía de
Polensa, ele é que não iria facilitar-lhe uma consulta
ao Sr. Parker Pyne. Sempre lhe causava um
profundo espanto constatar em suas viagens pelo
exterior o número de pessoas que o conheciam de
nome e haviam lido seus anúncios. Na Inglaterra
milhares de pessoas liam o Times todos os dias, e no
entanto podiam afirmar, sem faltar com a verdade,
que nunca haviam visto o seu nome. Já no
estrangeiro os ingleses liam os jornais londrinos de
fio a pavio, e nenhuma notícia, e nem mesmo os
anúncios classificados, lhes escapava.
Suas férias já haviam sido interrompidas
várias vezes por toda uma série de problemas,
desde assassinato até chantagem. Em Maiorca ele
estava decidido a ter paz. Sentia instintivamente
que uma mãe aflita poderia perturbar
consideravelmente aquela paz.
O Sr. Parker Pyne instalou-se muito confortavelmente no Pino D’Oro. A uma pequena
distância, um hotel maior era freqüentado por uma
boa quantidade de turistas ingleses, e nas
redondezas fixara-se uma colônia de artistas. Podia
caminhar pelo litoral até uma aldeia de pescadores.
Ali havia algum comércio e um pequeno bar onde
uma turma animada se reunia. Tudo muito
tranqüilo e aprazível. As moças do local usavam
calças compridas e amarravam lenços coloridos em
volta dos seios e os jovens de cabelos compridos
discutiam sobre valores artísticos e arte abstrata no
Mac’s Bar.
No dia seguinte à chegada do Sr. Parker Pyne,
a Sr.a Chester dirigiu-lhe algumas palavras
convencionais sobre a vista e a possibilidade de o
tempo conservar-se bom. Em seguida deu dois
dedos de prosa com uma senhora alemã a respeito
de tricô e travou um ameno diálogo sobre a sombria
situação política com dois cavalheiros
dinamarqueses que tinham o hábito de levantar-se
de madrugada e andar onze horas por dia.
O Sr. Parker Pyne achou muito simpático o
jovem Basil Chester, que sempre o tratava
cerimoniosamente de “senhor” e escutava com toda
a cortesia as palavras do homem mais velho.
Algumas vezes os três ingleses tomavam café juntos após o jantar. Depois do terceiro dia, Basil passou a
retirar-se após uns dez minutos, deixando o Sr.
Parker Pyne num tête-à-tête com a Sr.a Chester.
Os dois falavam sobre o cultivo de flores, da
situação lamentável da libra inglesa, de como se
tornara dispendioso o turismo na França e das
dificuldades de obter-se um chá realmente bom.
Todas as noites, quando o rapaz se retirava, o
Sr. Parker Pyne percebia o leve tremor dos lábios da
mãe, logo controlado. Ela se refazia imediatamente
e discorria de forma amena sobre os temas acima
mencionados.
Pouco a pouco ela começou a falar de Basil —
de como ele se distinguira no colégio e fora querido
por todos, do orgulho que o pai teria sentido se
ainda fosse vivo, do quão grata era por Basil nunca
se ter tornado rebelde.
— Naturalmente eu sempre o encorajo a
procurar gente jovem, mas ele parece mesmo
preferir a minha companhia — ela declarou
revelando um contido mas evidente prazer no fato.
Desta vez, porém, o Sr. Parker Pyne não
replicou com o seu tato costumeiro. Em vez disso,
redargüiu:
— Ah... Bem, mas parece que por aqui há
muita gente jovem. Não no hotel, mas pelas redondezas.
A estas palavras a Sr.a Chester retesou-se e
retrucou que sem dúvida o lugar estava cheio de
artistas. Talvez ela fosse antiquada, mas...
Certamente a arte verdadeira era uma outra coisa,
mas ali muitos jovens usavam-na como desculpa
para não fazer nada... e as jovens bebiam demais.
No dia seguinte Basil disse ao Sr. Parker Pyne:
— Estou muito satisfeito por tê-lo encontrado
aqui, senhor, especialmente por causa de minha
mãe. Ela gosta muitíssimo de conversar com o
senhor à noite.
— O que costumavam fazer logo que
chegaram aqui?
— Para falar a verdade, costumávamos jogar
pique.
— Entendo.
— Mas as cartas cansam logo, e na verdade fiz
alguns amigos aqui, uma turma muito divertida.
Acho que minha mãe não os aprova... — e ele riu
como se o fato fosse engraçado. — Mamãe é muito
antiquada. Choca-se até pelo fato de as moças
usarem calças compridas.
— É mesmo? — redargüiu o Sr. Parker Pyne.
— Eu sempre digo a ela que é preciso
acompanhar a época... as moças inglesas do nosso meio são terrivelmente enfadonhas.
— Compreendo — disse o Sr. Parker Pyne.
A situação interessava-o. Ali era um simples
espectador de um drama em miniatura, sem que
fosse chamado a tomar parte no mesmo.
Foi então que o pior (do ponto de vista do Sr.
Parker Pyne) aconteceu. Uma senhora de suas
relações, muito tagarela, hospedou-se no Mariposa.
Encontrou-a no salão de chá acompanhado pela Sr.a
Chester.
Ao vê-los a recém-chegada praticamente
berrou:
— Ora! Se não é o Sr. Parker Pyne, o primeiro
e único Sr. Parker Pyne! E Adela Chester! Já se
conhecem? Já? Estão hospedados no mesmo hotel?
Adela, ele é um mágico, a maravilha do século, “A
Solução Instantânea Para Todos os Seus
Problemas”! O quê? Você não sabia? Mas deve ter
ouvido falar nele! Não leu o seu anúncio? “Está em
apuros? Procure o Sr. Parker Pyne”. Não há nada que
ele não possa fazer. Une casais que se estão
engalfinhando, proporciona aventuras excitantes
aos que perderam o interesse pela vida. Este homem
é um verdadeiro mágico!
E prosseguiu por aí afora enquanto a
intervalos o Sr. Parker Pyne refutava modestamente os elogios. Não estava gostando dos olhares que a
Sr.a Chester lhe dirigia. E gostou ainda menos de vê-
la afastar-se na companhia de sua eloqüente
propagandista.
O clímax chegou mais depressa do que ele
esperava. Naquela noite, após o café, a Sr.a Chester
falou abruptamente:
— Quer me acompanhar à saleta, Sr. Pyne?
Tenho algo a dizer-lhe.
Ele pôde apenas anuir e submeter-se.
O autocontrole da Sr.a Chester estava se
tornando muito tênue e rompeu-se quando a porta
da saleta fechou-se às suas costas. Ela sentou-se e
rompeu em lágrimas.
— É meu filho, Sr. Parker Pyne. O senhor
precisa salvá-lo. Nós precisamos salvá-lo. Não
posso mais suportar isso.
— Minha cara senhora, como um simples
estranho...
— Mas Nina Wicherley disse que não há nada
que o senhor não possa fazer. Disse-me para confiar
completamente no senhor, que o senhor poria tudo
nos eixos!
Intimamente o Sr. Parker Pyne amaldiçoou a
intrometida Sr.a Wicherley, mas disse resignado:
— Bem, conte-me o problema. Trata-se de uma garota, suponho?
— Ele falou-lhe sobre ela?
— Só indiretamente.
As palavras jorraram em torrente da boca da
Sr.a Chester. A garota era horrível, bebia, dizia
palavrões, andava praticamente nua. A irmã,
moradora do local, era casada com um holandês,
artista. Aquele grupo todo não prestava. Mais da
metade dos casais viviam juntos sem serem casados.
Basil estava completamente mudado. Sempre fora
tão quieto, tão interessado em seus estudos, estava
até pensando em se dedicar à arqueologia...
— Bem — retrucou o Sr. Parker Pyne — a
natureza reserva sua desforra...
— O que quer dizer com isso?
— Não é saudável para um jovem viver
enfiado nos livros quando devia estar bancando o
idiota por causa de moças bonitas.
— Por favor, fale sério, Sr. Parker Pyne.
— Eu estava falando muito sério. Acaso essa
jovem é a mesma que estava tomando chá com a
senhora ontem?
Ele notara as calças compridas de flanela
cinza, o lenço vermelho amarrado negligentemente
em volta dos seios, a boca escarlate e o fato de que a
jovem pedira um coquetel em vez de chá.
— O senhor a viu? Terrível, não? Muito
diferente das moças que Basil costumava admirar.
— A senhora não lhe deu muitas chances de
conhecer muitas moças, deu?
— Eu?
— Ele tem permanecido muito tempo em sua
companhia! Isto é mau! Entretanto, diria que ele
ultrapassará essa crise se a senhora não precipitar as
coisas.
— O senhor não está compreendendo! Ele
quer casar-se com essa tal de Betty Gregg. Eles estão
noivos.
— Já chegou a isso?
— Já, Sr. Parker Pyne. O senhor precisa fazer
alguma coisa. Deve evitar que meu filho faça esse
casamento desastroso. Sua vida ficará arruinada.
— Só nós mesmos é que arruinamos as nossas
vidas.
— Mas Basil arruinará a sua — afirmou com
ênfase a Sr.a Chester.
— Não estou preocupado com Basil.
— Preocupa-se então com a moça?
— Não, estou preocupado com a senhora. Está
desperdiçando a sua vida.
A Sr.a Chester encarou-o, levemente surpresa.
— Os anos que vão dos vinte aos quarenta são anos cerceados, restritos pelos laços pessoais e
emocionais. Isto é inevitável, é a vida. Inicia-se
então um novo estágio. Passamos a refletir, a
observar, a descobrir muita coisa sobre os demais, e
a verdade sobre nós mesmos. A vida torna-se real,
significativa. Vemo-la com um todo e não somente
como uma cena em que participamos como atores.
Nenhum homem, nenhuma mulher completa-se
antes dos quarenta e cinco. É quando a
individualidade se afirma.
A Sr.a Chester retrucou:
— Sempre me dediquei completamente a
Basil. Ele tem sido tudo para mim.
— Pois não devia ter sido. É por isso que a
senhora agora está pagando. Ame-o o quanto
desejar, mas lembre-se que é Adela Chester, um ser
humano, e não somente a mãe de Basil.
— Sofrerei muitíssimo se Basil arruinar a sua
vida — murmurou a Sr.a Chester.
Ele fitou as linhas delicadas do seu rosto, a
expressão tristonha da boca. Ela era uma mulher
amorável, não queria que sofresse.
— Verei o que posso fazer — ele disse.
Quando encontrou Basil, o rapaz mostrou-se
loquaz, ansioso para defender o seu ponto de vista.
— A situação está infernal. Mamãe está sendo intransigente, preconceituosa, convencional. Se ela
se permitisse, veria que ótima moça é Betty.
— E Betty?
— Ora, Betty também não está facilitando em
nada as coisas! Se ao menos fizesse um pequeno
esforço de adaptação, assim como usar um pouco
menos de batom, isso poderia fazer muita diferença.
No entanto ela parece exagerar de propósito para
parecer bem... bem moderna quando mamãe está
por perto.
O Sr. Parker Pyne sorriu.
— Betty e mamãe são duas pessoas
maravilhosas. Pensei que elas iriam dar-se às mil
maravilhas.
— Ainda tem muito que aprender, meu jovem
— retrucou o Sr. Parker Pyne.
— Gostaria que viesse conhecer Betty para
trocarmos idéias sobre o problema.
O Sr. Parker Pyne aceitou rapidamente a
sugestão.
Betty, sua irmã e o marido desta viviam numa
casinha antiga a pouca distância do mar, num
ambiente de refrescante simplicidade. A mobília
consistia numa mesa, três cadeiras e camas.
Algumas prateleiras continham a louça essencial
para uma refeição frugal. Hans era um rapaz vibrante de cabelos louros rebeldes que falava com
incrível rapidez num inglês muito estranho sem
parar de andar de um lado para o outro. Stella, sua
mulher, era baixinha e muito clara e Betty Gregg
possuía cabelos vermelhos, sardas e um olhar
brejeiro. Ele notou que ela não estava tão maquilada
como na véspera no Pino D’Oro.
A jovem ofereceu-lhe um coquetel e disse-lhe
piscando um olho:
— Está por dentro do nosso problema?
O Sr. Parker Pyne fez um gesto de
assentimento.
— E de que lado está? Dos jovens apaixonados
ou da mãe desaprovadora?
— Posso fazer-lhe uma pergunta?
— Certamente.
— A Senhorita agiu com tato?
— Nem um pouquinho — admitiu com
franqueza a Srta. Gregg. — Mas aquela jararaca me
provocou — ela acrescentou dando uma olhada
para ver se Basil estava por perto. — Aquela mulher
me deixa maluca de raiva. Todos esses anos ela
conservou Basil atado às suas saias, fazendo-o
desempenhar um papel de bobo. Mas Basil não é
nenhum boboca. E ainda por cima ela mantém
aquela pose irritante de velha dama!
— Não acho que isto seja mau. Só não está
muito na moda atualmente.
Betty Gregg sorriu subitamente.
— Como as cadeiras Chippendale na era
vitoriana, não? Foram todas guardadas nos sótãos, e
hoje são consideradas lindas.
— Mais ou menos isso.
Betty Gregg refletiu.
— Talvez o senhor tenha razão. Para ser
franca, foi Basil quem me deixou de pé atrás. Estava
ansioso demais que eu causasse uma boa impressão
à sua mãe. E acabei tomando a atitude exatamente
contrária. Ainda acho que ele desistiria de mim, se a
mãe o pressionasse.
— Talvez — retrucou o Sr. Parker Pyne — se
ela soubesse como agir.
— O senhor pretende orientá-la? Sabe que por
si só ela nunca descobrirá a maneira adequada. Vai
continuar sendo contra mim, e isso não lhe trará
proveitos. Mas se o senhor interferisse...
Ela mordeu os lábios e ergueu os olhos
cândidos para ele.
— Já ouvi falar do senhor. Dizem que conhece
a natureza humana. Acha que eu e Basil
formaríamos um bom casal?
— Gostaria que me respondesse a três perguntas.
— É um teste de compatibilidade? Está certo,
vá em frente.
— A Srta. dorme com as janelas fechadas ou
abertas?
— Abertas. Gosto de ar fresco.
— Gosta das mesmas comidas que Basil
aprecia?
— Sim.
— Gosta de dormir cedo ou tarde?
— Para ser franca, cedo. Às dez e meia começo
a bocejar e sinto-me cheia de energia pela manhã.
Mas não conte isso a ninguém, hem?
— Os dois deverão dar-se muito bem — disse
o Sr. Parker Pyne.
— Esse teste me parece muito superficial.
— Parece, mas não é. Sei no mínimo de sete
casamentos que fracassaram porque o marido
gostava de ficar acordado até a meia-noite e a
mulher caía de sono às nove, e vice-versa.
— É uma pena que Basil e eu não possamos
ser felizes com as bênçãos da mãe dele.
O Sr. Parker Pyne tossiu.
— Acho que posso dar um jeito nisso.
Ela fitou-o incrédula.
— O senhor não está tentando me enganar?
Ele assumiu uma expressão inescrutável.
Com a Sr.a Chester, o Sr. Parker Pyne
mostrou-se tranqüilizador, mas lacônico. Um
noivado não era um casamento. Ele iria passar uma
semana em Soler e aconselhava-a a adotar uma
atitude neutra, pelo menos aparentemente
conciliatória.
A semana em Soler foi muito agradável,
porém ao voltar o Sr. Parker Pyne descobriu que
acontecimentos inesperados haviam modificado a
situação.
A primeira coisa que viu ao entrar no Pino
D’Oro foi a Sr.a Chester tomando chá com Betty
Gregg. Basil não estava presente. A Sr.a Chester
parecia abatida e Betty também tinha má cor. Usava
muito pouca maquilagem e suas pálpebras
revelavam que estivera chorando.
Cumprimentaram-no amavelmente, mas
nenhuma delas mencionou Basil. Subitamente
ouviu a moça reter a respiração como se alguma dor
a aguilhoasse. O Sr. Parker Pyne virou a cabeça.
Basil Chester vinha subindo as escadas que
davam para a praia. Ao seu lado estava uma jovem
de beleza tão extraordinária que faria qualquer
homem perder o fôlego. Morena, tinha um corpo
maravilhoso, e só um cego não notaria o fato pois só levava sobre o corpo um vestido leve de crepe azul
claro. Usava uma maquilagem ocre e um batom
vermelho alaranjado, e os cosméticos apenas
acentuavam ainda mais sua beleza exótica. Quanto
ao jovem Basil, parecia incapaz de tirar os olhos
dela.
— Você está muito atrasado, Basil — disse a
mãe. — Tinha combinado levar a Betty até o Mac’s.
— A culpa foi minha — replicou a bela
desconhecida numa voz langorosa. — Estivemos
dando umas voltas por aí. — E virando-se para o
rapaz acrescentou: — Meu anjo, arranje-me algo
bem estimulante.
Ela sentou-se, livrou-se dos sapatos e esticou
os pés bem tratados cujas unhas verde-esmeralda
combinavam com as unhas das mãos. Não prestou
nenhuma atenção às duas mulheres, mas inclinou-
se para o Sr. Parker Pyne e comentou:
— Esta ilha é horrível! Antes de encontrar
Basil eu estava morrendo de tédio. Mas ele é um
amor!
— Sr. Parker Pyne, Srta. Ramona —
apresentou-os a Sr.a Chester.
A jovem sorriu sedutoramente para o homem
mais velho.
— Acho que vou chamá-lo de Parker — sussurrou. — Meu nome é Dolores.
Basil voltou com as bebidas. A Srta. Ramona
dividiu sua atenção (que em grande parte consistia
em lançar olhares profundos e significativos) entre
Basil e o Sr. Parker Pyne, não tomando o menor
conhecimento da presença das duas mulheres. Betty
ainda tentou umas duas vezes tomar parte na
conversa, mas a outra moça limitava-se a olhar para
ela e bocejar.
Subitamente Dolores levantou-se.
— Acho que já vou indo. Estou hospedada no
outro hotel. Alguém quer levar-me até lá?
Basil ergueu-se imediatamente.
— Vou com você.
A Sr.a Chester interveio:
— Basil, meu querido...
— Eu volto já, mamãe.
— Ele não é mesmo o queridinho da mamãe?
— disse a Srta. Ramona para ninguém em
particular. — Você a obedece como um cachorrinho,
não?
Basil corou embaraçado. A Srta. Ramona
cumprimentou a Sr.a Chester com uma ligeira
inclinação de cabeça, endereçou um sorriso
estonteante ao Sr. Parker Pyne e afastou-se
acompanhada por Basil.
Depois que eles saíram houve um silêncio
constrangido. O Sr. Parker Pyne não quis ser o
primeiro a falar. Betty Gregg abria e fechada
nervosamente as mãos olhando para o mar. O rosto
corado da Sr.a Chester revelava cólera.
Betty disse numa voz pouco firme:
— Bem, o que o senhor acha da nova
aquisição da Baía de Polensa?
Cautelosamente o Sr. Parker Pyne respondeu.
— Um pouquinho... Ahn... exótica.
— Exótica? — disse Betty com uma risada
curta e amarga.
A Sr.a Chester atalhou:
— Ela é horrível, horrível! Basil deve estar
louco.
Betty interveio vivamente:
— Não há nada de errado com Basil.
— Aquelas unhas... — tornou a Sr.a Chester
com um arrepio de náusea.
Súbito Betty levantou-se.
— Sr.a Chester, acho que vou para casa. Afinal
resolvi não ficar para o jantar.
— Oh, querida, Basil ficará tão desapontando!
— Ficará mesmo? — replicou Betty com uma
curta risada. — Acho que vou, de qualquer forma.
Estou com dor de cabeça.
Ela sorriu para os dois e afastou-se. A Sr.a
Chester virou-se para o Sr. Parker Pyne.
— Gostaria de nunca ter vindo a esse lugar.
O Sr. Parker Pyne balançou tristemente a
cabeça.
— O Sr. não devia ter-se afastado — tornou a
Sr.a Chester. — Se estivesse aqui isto não teria
acontecido.
— Minha cara senhora, asseguro-lhe que em
questões de mulheres bonitas eu não teria nenhuma
influência sobre o seu filho. Ele parece ter uma
natureza muito... suscetível.
— Pois não costumava ter — retrucou a
chorosa senhora. — Bem — tornou o Sr. Parker
Pyne tentando ser otimista, — essa nova atração
parece ter esfriado o entusiasmo do seu filho pela
Srta. Gregg. Isso deve-lhe dar alguma satisfação.
— Não sei do que o senhor está falando —
replicou a Sr.a Chester. — Betty é um amor de
pequena e dedicadíssima a Basil. Dada a situação,
ela está-se comportando maravilhosamente. Acho
que meu filho deve ter enlouquecido.
O Sr. Parker Pyne nem piscou ante esta
espantosa mudança de atitude. Estava acostumado
às incoerências do comportamento feminino.
— Ele não está louco, só enfeitiçado — disse brandamente.
— Aquela criatura é insuportável.
— Mas belíssima.
A Sr.a Chester bufou.
Basil subiu correndo a escadaria do terraço.
— Olá, mamãe, aqui estou eu. Onde está
Betty?
— Foi para casa. Estava com dor de cabeça, o
que não é de admirar.
— Ela está fazendo pirraça, a senhora quer
dizer.
— Acho que está sendo cruel com a Betty,
Basil.
— Pelo amor de Deus, mamãe, deixe disso. Se
Betty for fazer uma cena toda vez que eu falar com
outra mulher, vamos ter um belo casamento, sem
dúvida.
— Vocês estão noivos.
— Sim, estamos noivos, mas isto não significa
que não possamos ter os nossos amigos particulares.
Hoje em dia todo mundo leva a sua própria vida e
tenta deixar de lado essa história de ciúmes.
O rapaz acrescentou depois de uma pausa:
— Olhe aqui, já que Betty não vai jantar
conosco... Acho que vou voltar para o Mariposa.
Convidaram-me para jantar lá.
— Oh, Basil...
O rapaz lançou-lhe um olhar exasperado e
desceu correndo os degraus.
A Sr.a Chester dirigiu um olhar eloqüente ao
Sr. Parker Pyne.
— Está vendo só? — disse ela.
Ele estava.
Dois dias depois os acontecimentos atingiram
o clímax. Betty e Basil haviam combinado fazer um
piquenique numa praia distante. Quando a moça
chegou ao Pino D’Oro descobriu que Basil
esquecera a promessa e fora passar o dia no
Formentor com a turma de Dolores Ramona.
A única reação visível de Betty foi uma
contração de lábios. Dali a pouco, entretanto,
levantou-se e disse para a Sr.a Chester (as duas
mulheres estavam sozinhas no terraço):
— Não faz mal, não tem importância. Mas
mesmo assim, acho melhor darmos tudo por
acabado.
A jovem retirou do dedo o anel de sinete que
Basil lhe dera. (Ele pretendia comprar um anel de
noivado mais tarde.)
— Quer entregar isto a ele, Sr.a Chester? Diga-
lhe que está tudo bem, que não se preocupe.
— Betty, querida, não faça isso! Ele a ama de verdade!
— É, parece mesmo — tornou a jovem com
uma curta risada. — Não, eu tenho algum orgulho.
Diga-lhe que está tudo bem e que... lhe desejo boa
sorte.
Quando Basil voltou, ao entardecer, encontrou
uma tempestade.
Ao ver o anel, enrubesceu ligeiramente.
— Então é assim que ela se sente? Bem,
também acho que é melhor.
— Basil!
— Bem, mamãe, para ser franco, não nos
estávamos dando muito bem ultimamente.
— E de quem era a culpa?
— Não acho que seja minha. O ciúme é uma
emoção insuportável. Na realidade, não
compreendo por que a senhora está tão alterada. Foi
a senhora mesma quem me pediu para não casar
com Betty!
— Isso foi antes de conhecê-la. Basil, meu
querido, você não está pensando em casar-se com
essa outra mulher, está?
Basil Chester respondeu com simplicidade:
— Casar-me-ia com ela nesse instante se ela
quisesse. Mas receio que não queira.
Um arrepio gelado percorreu a espinha da Sr.a Chester.
Ela saiu à procura do Sr. Parker Pyne e
encontrou-o lendo placidamente um livro num
cantinho abrigado.
— O senhor precisa fazer alguma coisa! O
senhor precisa fazer alguma coisa! Meu filho vai
arruinar a vida dele!
O Sr. Parker Pyne estava ficando um pouco
cansado daquela história de Basil Chester estar a
ponto de arruinar a vida dele.
— O que posso fazer?
— Procure aquela criatura horrível, e se for
necessário, suborne-a!
— Isso pode-lhe sair muito caro.
— Não importa.
— Mas seria lamentável. Talvez haja um outro
meio.
Ela olhou-o interrogativamente. O Sr. Parker
Pyne balançou a cabeça.
— Não posso prometer nada, mas verei o que
posso fazer. Já tive casos semelhantes antes. Ah, e
por falar nisso, não diga nada a Basil. Seria
desastroso.
— Naturalmente não direi nada.
À meia-noite o Sr. Parker Pyne voltou do
Hotel Mariposa. A Sr.a Chester estava à sua espera.
— Bem? — ela perguntou ansiosa.
Os olhos dele brilhavam.
— A Srta. Dolores Ramona sairá de Polensa
amanhã de manhã, e à noite deixará a ilha.
— Oh! Sr. Parker Pyne! Como conseguiu isso?
— Não lhe custará um centavo — replicou o
Sr. Parker Pyne com os olhos faiscando. — Estava
com a impressão que possuía argumentos para
convencê-la, e estava certo.
— O senhor é maravilhoso! Nina Wycherley
tinha razão. O senhor pode-me dizer quais os seus...
honorários?
O Sr. Parker Pyne estendeu-lhe a mão bem
tratada.
— Nem um centavo. Foi um prazer. Espero
que tudo se resolva bem. Naturalmente o rapaz
ficará muito aborrecido quando descobrir que ela
partiu sem deixar o endereço. Seja paciente com ele
por uma ou duas semanas.
— Se ao menos Betty o perdoasse...
— Ela irá perdoá-lo, sim. Formam um belo
casal. Mas talvez seja mesmo melhor que eu me vá
antes que ele resolva apaixonar-se por uma terceira
moça.
O Sr. Parker Pyne debruçou-se sobre a
amurada do navio contemplando as luzes de Palma. Ao seu lado estava Dolores Ramona. Ele a
congratulava:
— Um ótimo trabalho, Madeleine. Ainda bem
que tive a idéia de telegrafar-lhe. O que é mais
estranho é que na realidade você seja uma moça tão
pacata e sossegada.
Madeleine de Sara, vulgo Dolores Ramona,
vulgo Maggie Sayers, respondeu recatadamente:
— Alegra-me que o senhor esteja satisfeito. Foi
uma semana muito agradável. Agora acho que vou
descer e deitar-me antes que o navio deixe o cais. O
mar e eu não somos muito compatíveis.
Alguns minutos depois alguém colocou a mão
no ombro do Sr. Parker Pyne. Ele virou-se e
deparou com Basil Chester.
— Tinha de despedir-me do senhor e
agradecer por mim e por Betty. Ela envia-lhe um
abraço carinhoso. A sua idéia foi ótima. Mamãe e
Betty agora são inseparáveis. Não me agradou
enganar a minha velha, mas ela estava se tornando
muito difícil. De qualquer forma, agora está tudo
bem. Só preciso tomar cuidado e manter um ar
desapontado por mais alguns dias. Betty e eu lhe
somos infinitamente gratos.
— Desejo-lhes todas as felicidades — disse o
Sr. Parker Pyne.
— Obrigado.
Após uma pequena pausa, Basil perguntou
com uma indiferença um tanto forçada:
— A Srta... de Sara... está por aqui? Gostaria
de agradecer-lhe também.
O Sr. Parker Pyne lançou-lhe um olhar
penetrante.
— Receio que a Srta. de Sara tenha ido deitar-
se — respondeu.
— Ah, que pena... Bem, talvez eu possa vê-la
em Londres, um dia desses.
— Para ser preciso, ela deve ir para a América
imediatamente, a serviço.
— Oh! — fez Basil com uma expressão de
desapontamento. — Bem, preciso ir indo...
O Sr. Parker Pyne sorriu. No caminho para o
seu camarote bateu à porta de Madeleine.
— Como está você, minha querida? Está bem?
Nosso jovem amigo esteve aqui. Está sofrendo do
costumeiro ataque de Madeleinite. Num dia ou dois
ficará bom, mas não há dúvida que você é muito
perturbadora.