Um Acidente e Outras Histórias
A Aventura de
ANTHONY EASTWOOD
Anthony Eastwood olhou para o teto e em
seguida para o chão. Dali o seu olhar subiu
lentamente pela parede da direita, até que com um
súbito esforço de vontade concentrou novamente
sua atenção na máquina de escrever.
A folha virgem de papel só era maculada por
um título escrito em maiúsculas: “O MISTÉRIO DO
SEGUNDO PEPINO”.
Era um belo título. Anthony pensou que
qualquer um que o lesse ficaria imediatamente
interessado e curioso. — O mistério do segundo
pepino, diriam, sobre o que será? Um pepino? O
segundo pepino? Sem dúvida tenho de ler essa
história! — E ficariam todos encantados e
entusiasmados pela consumada perícia com que
aquele mestre da ficção policial tecera uma trama
sensacional acerca de um simples vegetal.
Até aí tudo bem. Eastwood sabia tão bem
quanto qualquer um como deveria ser a história; o
problema era que de alguma forma não conseguia
começar. Os dois elementos essenciais para uma
história de detetive eram o enredo e o título, o resto não passava de mero trabalho braçal. Algumas
vezes o título, por si só, dava origem à trama que
quase se desenrolava sozinha, mas naquela manhã o
título continuava a adornar solitário o topo da
página sem que nem um esboço do enredo se
estivesse formando.
Outra vez os olhos do rapaz procuraram
inspiração no teto, no tapete e no papel da parede
sem que uma única idéia se materializasse.
— Darei à heroína o nome de Sônia — disse
Anthony para se animar — Sônia ou talvez Dolores.
Terá uma cútis branca como marfim, sem que sofra
de anemia, e olhos insondáveis como dois lagos
profundos. O herói vai-se chamar George, ou John,
um nome bem curto e britânico. O jardineiro, pois
suponho que terá de existir um jardineiro para que
possamos introduzir esse diabo desse pepino na
história, bem, ele poderá ser um escocês gaiato e
pessimista, sempre preocupado com a possibilidade
de geadas precoces...
Aquele método funcionava algumas vezes,
mas naquela manhã não estava dando resultado.
Embora Anthony pudesse ver Sônia, George e o
cômico jardineiro claramente, eles não se
mostravam dispostos a se mexer e agir.
Naturalmente eu poderia transformar o pepino numa banana, pensou Anthony desalentado,
ou numa alface ou couve de Bruxelas... Ah, couve
de Bruxelas! Bruxelas poderia ser uma mensagem
cifrada, um criptograma indicando um sinistro
barão belga...
Por um momento ele julgou ver uma réstia de
luz que entretanto logo se desfez. O barão belga não
se materializou e Anthony lembrou-se subitamente
que pepinos não eram compatíveis com geadas
precoces, o que dava fim às divertidas observações
do jardineiro ranzinza.
— Droga! — desabafou Eastwood e
levantando-se apanhou o Daily Mail. Talvez algum
pobre diabo tivesse morrido em circunstâncias que
servissem de inspiração a um agoniado escritor. As
manchetes do dia, porém, só falavam em política
local e internacional. Anthony largou o jornal
enfadado.
Pegou então um romance que estava sobre a
mesa, fechou os olhos, e desceu o dedo ao acaso
sobre uma das páginas. O destino escolheu a
palavra “carneiros”. Imediatamente, com espantosa
clareza, os elementos de uma história delinearam-se
no seu cérebro. Linda jovem, noivo morto na
guerra, ela perde a razão e vai cuidar de um
rebanho de carneiros nas montanhas da Escócia, reencontro místico com o noivo morto, cena final
com carneiros, luar, a jovem caída morta e na neve
as marcas dos passos de duas pessoas se afastando...
Daria uma linda história. Anthony saiu de seu
devaneio com um suspiro e balançou tristemente a
cabeça. Sabia muito bem que o seu editor não queria
aquele tipo de conto, por mais belo que fosse. O tipo
que lhe agradava e que exigia de seus escritores (e
pelo qual às vezes pagava regiamente) versava
sobre misteriosas jovens de cabelos negros
apunhaladas no coração e jovens heróis
injustamente perseguidos, terminando com o súbito
esclarecimento do enigma, sendo a culpa do
personagem menos suspeito comprovada por
indícios altamente improváveis... ou seja, item por
item, “O Mistério do Segundo Pepino”.
Mas eu aposto dez por um que ele irá
substituir o título por alguma droga, como por
exemplo “Um Crime Nefando”, e isso sem mesmo
me consultar, considerou Anthony. Oh, que diabo
de telefone!
Dirigiu-se mal-humorado ao aparelho e pegou
o fone. Fora interrompido duas vezes na última
hora; a primeira fora engano, e na segunda vira-se
obrigado a aceitar um convite para um jantar na
casa de uma assanhadíssima senhora da sociedade que ele detestava, mas cuja pertinácia o derrotara.
— Alô! — ele rosnou ao telefone.
Uma voz de mulher, suave e acariciante,
respondeu com um leve sotaque estrangeiro:
— É você, amor? — perguntou ela com
doçura.
— Bem... — respondeu cautelosamente
Eastwood. — Quem está falando?
— Sou eu, Carmem. Escute, amor, estou sendo
perseguida, estou em perigo, venha depressa! É
uma questão de vida ou morte, venha agora!
— Desculpe-me — retrucou Anthony
cortesmente. — Receio que haja algum engano...
Antes que pudesse acrescentar mais alguma
coisa, ela interveio.
— Madre de Dios! Estão chegando! Se
descobrirem que estou telefonando, vão-me matar.
Não me abandone. Venha logo, salve-me! Você sabe
onde é, na rua Kirk 320. A senha é pepino...
Depressa...
Ele ouviu o leve estalido quando ela desligou
o aparelho na outra extremidade.
— Ora, macacos me mordam! — exclamou o
Sr. Eastwood perplexo.
Dirigiu-se ao pote de fumo e encheu
cuidadosamente o cachimbo.
— Só pode ter sido algum truque do meu
subconsciente — disse para si. — Ela não pode ter
dito pepino... Que coisa mais estranha! Será que ela
disse ou não disse pepino?
Pôs-se a andar de um lado para o outro,
irresoluto.
— Rua Kirk, 320. Que história será essa? Ela
agora deve estar esperando que o seu homem
chegue. Gostaria de ter explicado... Rua Kirk, 320, a
senha é pepino... Oh, não! É impossível, é um
absurdo, deve ter sido uma alucinação do meu
cérebro cansado.
Olhou com uma careta para a máquina de
escrever.
— Para que você serve? Eu gostaria de saber.
Estive olhando para você a manhã inteira, e de nada
me adiantou. Um autor deveria buscar inspiração
na vida... na vida, você ouviu? Vou sair agora
mesmo para procurar inspiração.
Enfiou um chapéu na cabeça, contemplou por
um instante com afeição a sua inestimável coleção
de objetos antigos esmaltados e saiu do
apartamento.
A rua Kirk, como todos os londrinos sabem, é
uma artéria longa e sinuosa, em grande parte
ocupada por antiquários. Ali é vendida toda a sorte de mercadorias espúrias a preços atraentes, vendo-
se também lojas de objetos de bronze, cristal, e de
artigos de segunda mão de aspecto decadente.
O número 320 era ocupado por uma loja de
cristais antigos. Estava superlotada por objetos de
vidro de toda a espécie. Anthony teve de
locomover-se com a máxima cautela para não
derrubar os copos de vinho que se alinhavam sobre
os balcões e não bater a cabeça nos candelabros que
faiscavam e balançavam no teto baixo. Uma senhora
muito idosa estava sentada nos fundos da loja.
Ostentava um forte buço que muito colegial teria
invejado, e sua expressão era truculenta.
A velha olhou para Anthony e perguntou
numa voz poderosa:
— O que deseja?
Rapaz que se embaraçava com facilidade,
Anthony ficou sem jeito e imediatamente perguntou
o preço de uns copos para vinho branco.
— Quarenta e cinco xelins a meia dúzia.
— Quarenta e cinco, é? — repetiu Anthony. —
São bem bonitos. E esses, quanto custam?
— Não são lindos? É cristal Waterford antigo.
Faço-lhe o par por dezoito guinéus.
Eastwood sentiu que se estava metendo numa
enrascada e que dali a pouco acabaria comprando alguma coisa, hipnotizado pelo olhar ameaçador da
velha. Contudo não se decidiu a sair.
— E aquilo ali? — perguntou apontando para
um lustre.
— Trinta e cinco guinéus.
— Ah, é caro demais — lamentou o rapaz.
— O que está procurando? — perguntou a
velha. — Um presente de casamento?
— Isso mesmo — concordou rapidamente
Anthony. — Mas eles têm um gosto muito
requintado.
— Bem, bem — tornou a velha levantando-se
com uma expressão determinada. — Todos gostam
de objetos de cristal antigo. Tenho aqui este par de
garrafas para licor... e este jogo de cálices que
qualquer noiva irá adorar.
Os dez minutos seguintes foram de agonia
para Anthony que estava inteiramente sob o
domínio da velha. Todos os tipos concebíveis de
cristais desfilaram ante os seus olhos. O desespero
apoderou-se dele.
— Lindo, muito lindo — elogiou sem
entusiasmo colocando sobre o balcão um grande
cálice que ela lhe trouxera. Súbito, gaguejando ele
perguntou: — Ah, será que a senhora tem um
telefone aqui?
— Não, não tenho, mas há uma cabine
telefônica no correio aí em frente. Mas o que vai
levar, o cálice ou esses copos para uísque?
Não sendo mulher, Anthony desconhecia
totalmente a sutil arte de sair de uma loja sem
comprar nada.
— Prefiro o jogo para licor — ele admitiu com
desânimo.
Era o mais barato. Seria horrível ter de
comprar o lustre.
Desalentado pagou pelo presente.
Subitamente, quando a velha já estava embrulhando
o pacote, recuperou a coragem. Afinal, no máximo
ela o julgaria excêntrico, e de qualquer maneira, que
importância tinha o que ela pensasse?
— Pepino — ele disse com voz clara e firme.
A velha interrompeu bruscamente o que
estava fazendo.
— Ah? O que o senhor disse?
— Nada — mentiu Anthony apressadamente.
— Oh! pensei que o senhor tivesse dito
pepino.
— E disse mesmo — admitiu dessa vez
desafiadoramente Anthony.
— Ora — explicou a velha senhora, — por que
não disse logo? Fazendo-me perder tempo. Entre por aquela porta e suba as escadas. Ela está à sua
espera.
Como um sonho, Anthony seguiu a indicação
da mulher e subiu por uns degraus sujíssimos. No
topo, uma porta dava para uma minúscula sala de
estar. Sentada numa cadeira, com os olhos fixos na
porta e uma expressão ansiosa no rosto, estava uma
jovem.
Que jovem! Possuía realmente a pele de
marfim sobre a qual Anthony escrevera com tanta
freqüência. E seus olhos! Que olhos! Não era
inglesa, via-se imediatamente. Tinha um ar exótico
que transparecia até na simplicidade do vestido
elegante e dispendioso.
Anthony deteve-se no umbral, embaraçado.
Chegara o momento das explicações. Porém, com
um grito de prazer a jovem levantou-se e atirou-se
em seus braços.
— Você veio! — ela exclamou. — Você veio!
Oh! Benditos sejam os santos e a Santa Mãe de
Deus!
Anthony, que não costumava deixar passar as
boas oportunidades, abraçou a jovem com
entusiasmo. Por fim ela afastou-se e levantou o
rosto para ele com encantadora timidez.
— Nunca o teria reconhecido — ela declarou.
— Não teria mesmo.
— Não? — indagou Anthony sem convicção.
— Não. Até os seus olhos parecem diferentes.
Você é dez vezes mais atraente do que eu julgava.
— Sou mesmo?
Em seu íntimo Anthony se dizia: Calma rapaz.
Calma. Tudo está indo muito bem, não perca a
cabeça.
— Posso beijá-lo novamente?
— Naturalmente — anuiu Anthony
entusiasticamente. — Quanto quiser.
Fez-se um agradabilíssimo interlúdio.
Gostaria de saber quem diabos eu sou, pensou
o rapaz. Faço votos que o verdadeiro camarada não
apareça por aqui. Ela é um amor de pequena.
Súbito a jovem afastou-se e seu rosto assumiu
uma expressão aterrorizada.
— Não o seguiram até aqui?
— Deus do céu, não!
— Eles são muito espertos. Você não os
conhece como eu. Bóris é um demônio.
— Eu darei um jeito em Bóris.
— Você é valente como um leão! Sim, como
um leão! Eles são uns canalhas, todos eles. Ouça, em
tenho a coisa. Se soubessem, eles me matariam.
Estava com medo, não sabia o que fazer, e então pensei em você... Quieto, o que foi isso?
Ressoavam passos na loja. Fazendo-lhe um
gesto para que permanecesse onde estava, ela
dirigiu-se silenciosamente às escadas. Voltou pálida,
de olhos arregalados.
— Madre de Dios! É a polícia. Eles vão subir.
Você tem uma faca ou um revólver?
— Minha querida, não está pretendendo que
eu mate um policial, não é?
— Oh! Mas você está louco! Vão prendê-lo e
não escapará da forca.
— Da forca? — repetiu Eastwood, sentindo um
desagradável arrepio percorrer-lhe a espinha.
Soaram passos nas escadas.
— Eles vêm aí — sussurrou a jovem. — Negue
tudo, é a única esperança.
— Isto é fácil — murmurou o rapaz baixinho.
No instante seguinte dois homens entraram
no quarto. Não usavam uniforme, mas seu porte
revelava uma inequívoca autoridade. O mais baixo,
um homem moreno, com tranqüilos olhos
cinzentos, tomou a palavra.
— Conrad Fleckman, está preso pelo
assassinato de Ana Rosenburg. Tudo o que disser
poderá ser usado como prova contra você. Eis aqui
o mandado de prisão. É melhor que venha por bem.
A jovem sufocou um grito. Anthony deu um
passo à frente com um sorriso sereno.
— Está cometendo um erro, detetive —
retrucou cortesmente. — Meu nome é Anthony
Eastwood.
Os dois detetives não se deixaram
impressionar pela declaração.
— Veremos isso depois — tornou o que se
mantivera calado até então. Enquanto isso,
acompanhe-nos.
— Conrad — gemeu a moça. — Conrad, não
deixe que o levem.
Anthony olhou para os dois detetives.
— Os senhores com certeza permitirão que eu
me despeça dessa jovem, não?
Com mais compreensão do que ele esperara,
os dois policiais dirigiram-se para a porta. Anthony
puxou a jovem para perto da janela e disse-lhe
rapidamente em voz baixa:
— Escute, eu disse a verdade. Não sou Conrad
Fleckman. Quando me telefonou esta manhã,
fizeram a ligação errada. Meu nome é Anthony
Eastwood. Atendi a seu pedido de socorro porque...
bem, porque quis.
Ela fitou-o incrédula.
— Você não é Conrad Fleckman?
— Não.
— Oh! — exclamou a jovem com uma
expressão constrangida. — E eu o beijei!
— Não faz mal — tranqüilizou-a o rapaz. —
Os cristãos primitivos beijavam-se habitualmente. É
um ótimo costume. Agora ouça: vou acompanhar
esses dois, mas logo provarei a minha identidade.
Enquanto isso a deixarão em paz e você poderá
avisar esse seu querido Conrad. Mais tarde...
— Sim?
— Bem, meu telefone é NW 1743. Tome
cuidado para não errar a ligação novamente.
Ela lançou-lhe um olhar cativante, indecisa
entre as lágrimas e um sorriso.
— Eu não esquecerei. Não esquecerei, mesmo.
— Então está bem. Adeus... Olhe...
— O que é?
— Por falar em cristãos primitivos... Uma vez
mais não faria mal algum, não acha?
Ela enlaçou o pescoço do rapaz com os braços.
Seus lábios apenas roçaram os dele.
— Eu gosto de você. Sim, gosto de você. Não
se esqueça disso, aconteça o que acontecer.
Anthony afastou-se dela com relutância e
dirigiu-se a seus captores.
— Estou pronto para acompanhá-los. Não pretendem deter essa jovem, não?
— Não, senhor. Nada temos contra ela —
disse o homem mais baixo cortesmente.
Camaradas decentes, esses policiais da
Scotland Yard, pensou Anthony ao segui-los pelos
estreitos degraus.
Não havia sinal da velha na loja, mas Anthony
percebeu uma respiração ofegante ao passar junto à
porta dos fundos. Adivinhou que ela estava atrás da
mesma, observando cautelosamente os
acontecimentos.
Fora, na rua, Anthony respirou fundo e
dirigiu-se ao mais baixo dos dois policiais:
— Agora, Inspetor... O senhor é um Inspetor,
não?
— Sim, senhor. Inspetor-Detetive Verral. Este
é o Sargento-Detetive Carter.
— Bem, Inspetor Verral, chegou o momento
de falarmos a sério. Eu não sou esse Conrad não-sei-
o-que-lá. Meu nome é Anthony Eastwood e sou
escritor. Se me acompanhar até o meu apartamento,
posso dar-lhe provas da minha identidade.
O tom decidido com que Anthony falou
pareceu impressionar os detetives. Pela primeira
vez o rosto de Verral assumiu uma expressão de
dúvida.
Carter, aparentemente, era mais duro de
convencer.
— Ah, é? — retrucou com ironia. — Mas se
não me engano a jovem chamou-o de Conrad
mesmo.
— Ah, esta é outra questão. Não me incomodo
de admitir que por... razões pessoais apresentei-me
àquela jovem como sendo esse tal Conrad. Por
razões particulares, entendam.
— Sua história é muito pouco convincente —
observou Carter. — Nada disso, o senhor vai nos
acompanhar. Chame aquele táxi, Joe.
O táxi parou e os três homens entraram.
Anthony fez uma última tentativa, virando-se para
Verral que lhe pareceu o mais acessível dos dois.
— Escute, caro Inspetor. Que mal pode haver
nos senhores me acompanharem ao meu
apartamento para verificarem se estou falando a
verdade? Deixem o táxi esperando, fica por minha
conta. De qualquer modo não perderão mais de
cinco minutos.
Verral olhou-o com atenção.
— Farei o que deseja — ele acedeu
subitamente. — Por estranho que pareça, acredito
que o senhor esteja falando a verdade. Não quero
fazer papel de idiota aparecendo no departamento com o homem errado. Qual é o endereço?
— Brandenburg Mansions, 48.
Verral inclinou a cabeça para fora e gritou o
endereço para o motorista. Em silêncio os três
aguardaram até chegar ao prédio. Quando Carter
desceu, Verral fez sinal a Anthony que o seguisse.
— Não há necessidade de grosserias —
declarou ao sair do carro. — Vamos entrar como
amigos. Façamos de conta que o Sr. Eastwood está
trazendo dois convidados.
Anthony ficou muito grato por tal atitude. Sua
opinião a respeito do Departamento de
Investigações Criminais crescia a cada minuto.
No vestíbulo tiveram a sorte de encontrar
Rogers, o porteiro. Anthony deteve-se.
— Boa-noite — Rogers — cumprimentou
casualmente.
— Boa-noite, Sr. Eastwood — respondeu o
porteiro respeitosamente. Gostava de Anthony, cuja
liberalidade nem sempre era imitada por seus
vizinhos.
Anthony deteve-se já com o pé no primeiro
degrau das escadas.
— Rogers, lembra-se por acaso de há quanto
tempo moro aqui? — perguntou no mesmo tom
casual. — Estava discutindo esse ponto aqui com os meus amigos.
— Deixe-me ver, senhor... Acho que há quase
quatro anos.
— Foi o que pensei.
Anthony olhou para os detetives com uma
expressão triunfante. Carter resmungou, mas Verral
sorriu.
— Um ponto a seu favor, senhor, mas ainda
não é o bastante — ele replicou. — Vamos subir.
Anthony abriu a porta do apartamento com a
sua chave, lembrando-se aliviado que Seamark, o
seu criado, estava de folga. Quanto menos
testemunhas houvesse daquele vexame, melhor.
A máquina de escrever estava como a deixara.
Carter encaminhou-se até a mesa e com uma voz
lúgubre leu o título da folha:
— “O Mistério do Segundo Pepino.”
— É uma história que vou escrever —
explicou Anthony.
— Outro ponto a seu favor — tornou Verral
com um olhar maroto, balançando a cabeça. — E
por falar nisso, como é a história? Qual era o
mistério do segundo pepino?
— Aí é que me pegaram — retorquiu
Anthony. — Foi esse segundo pepino que deu
origem a toda essa confusão.
Carter observava-o atentamente. Súbito
sacudiu a cabeça e com um gesto sugestivo apontou
para a própria testa:
— É meio pancada, coitado — murmurou em
voz audível.
— Mas agora, senhores, vamos ao nosso caso
— disse o rapaz com determinação. — Aqui estão
algumas cartas endereçadas a mim, meu talão de
cheques, notas dos meus editores. O que mais
desejam?
Verral examinou os papéis que Anthony lhe
entregara.
— Quanto a mim, estou satisfeito — declarou
respeitosamente o detetive. — Isto é suficiente. Mas
não posso assumir sozinho a responsabilidade de
liberá-lo. Embora pareça inegável que o senhor
reside aqui há alguns anos com o nome de
Eastwood, sempre existe a possibilidade de que
Anthony Eastwood e Conrad Fleckman sejam a
mesma pessoa. Preciso revistar o seu apartamento,
tirar suas impressões digitais e telefonar para a sede
do departamento.
— Parece-me um bom plano — comentou
Anthony. — Esteja à vontade. Meus segredos estão
todos à sua disposição.
O inspetor sorriu. Era bastante humano para um detetive.
— Quer esperar no quarto dos fundos com
Carter, enquanto procedo à busca?
— Está bem — anuiu Anthony com relutância.
— Não poderia ser de outra forma, poderia?
— Como assim?
— O senhor e dois uísques com soda
poderiam fazer-me companhia no quarto dos
fundos enquanto o seu amigo sargento revista o
apartamento.
— Se preferir assim, senhor...
— Eu prefiro.
Deixaram Carter vasculhando o conteúdo da
escrivaninha com perícia profissional. Ao sair da
sala ouviram-no pegar o telefone e chamar a
Scotland Yard.
— Assim está melhor — disse Anthony
sentando-se ao lado da bandeja de uísque, tendo
antes atendido hospitaleiramente as necessidades
do Inspetor Verral.
— Devo beber primeiro para mostrar que o
uísque não está envenenado?
O inspetor sorriu.
— Isto é muito irregular — comentou. —
Porém em nossa profissão acabamos por adquirir
certa intuição. Vi logo de início que havíamos cometido um erro, embora tenhamos, naturalmente,
de seguir os regulamentos. Não se pode escapar da
burocracia, não é, senhor?
— Suponho que não — lamentou Anthony. —
Mas o sargento ainda não me parece muito
amistoso.
— Ah, mas ele é um ótimo profissional. Seria
difícil iludi-lo.
— Já percebi — anuiu Anthony e acrescentou:
— Por falar nisso, inspetor, se não há objeções,
gostaria de saber alguma coisa sobre o crime que
cometi.
— Como assim, senhor?
— Ora, vamos, não vê que estou morrendo de
curiosidade? Quem era Ana Rosenburg, e por que
eu a teria matado?
— Amanhã o senhor vai ler toda a história nos
jornais.
— “Amanhã talvez eu seja eu mesmo com
mais os dez mil anos de ontem” — tornou Anthony
citando Fitzgerald. — Na verdade acho que o
senhor poderia perfeitamente satisfazer a minha
natural curiosidade, inspetor. Esqueça um pouco
essa sua discrição profissional e conte-me tudo.
— Isto seria muito irregular, senhor.
— Ora, meu caro inspetor, logo quando nos estávamos tornando tão bons amigos?
— Bem, Ana Rosenburg era uma judia alemã
que morava em Hampstead. Sem meios visíveis de
subsistência, ela estava cada dia mais rica.
— Comigo dá-se justamente o contrário —
comentou Anthony. — possuo meios visíveis de
subsistência e estou a cada ano mais pobre. Talvez
eu progredisse mais se morasse em Hampstead.
Sempre ouvi dizer que o lugar é muito revigorante.
— No passado — continuou Verral, — ela
negociou com roupas de segunda mão.
— Então está explicado — interveio Anthony.
— Isto me lembra quando vendi meus uniformes de
gala depois da guerra. O apartamento estava
superlotado de calças vermelhas e alamares
dourados, dispostos de forma a realçar seu aparato.
Entrou um homem gordo de terno xadrez que veio
num Rolls Royce, acompanhado por um comparsa
com uma mala. Ofereceram uma libra pelo lote.
Tive de juntar um capote e meus binóculos Zeiss
para obter duas libras. O ajudante meteu tudo na
mala e o gordo me estendeu uma nota de dez libras
e pediu o troco!
— Há cerca de dez anos atrás — prosseguiu o
inspetor — vieram para Londres muitos refugiados
espanhóis, entre os quais um certo Dom Fernando Ferrarez com sua esposa e um filho. Eram muito
pobres e a mulher estava doente. Ana Rosenburg foi
ao quarto onde moravam e perguntou se tinham
alguma coisa para vender. Dom Fernando não
estava, e sua esposa resolveu desfazer-se de um
espetacular xale espanhol, maravilhosamente
bordado, o último presente que recebera do marido
antes de fugirem da Espanha. Quando Dom
Fernando voltou, ficou furioso com a venda e tentou
inutilmente recuperar o xale. Quando por fim
conseguiu encontrar a compradora de roupas
usadas, ela declarou que vendera o xale para uma
mulher desconhecida. O espanhol ficou
desesperado. Dois meses mais tarde foi apunhalado
na rua e morreu em conseqüência dos ferimentos.
Dali em diante, Ana Rosenburg começou a desfrutar
de um luxo muito suspeito. Nos dez anos que se
seguiram sua casa foi assaltada nada menos do que
oito vezes. Quatro dessas tentativas foram
frustradas e nada foi roubado. Das outras vezes,
entre as perdas estava sempre um xale qualquer.
O inspetor calou-se, mas prosseguiu
obedecendo a um gesto de encorajamento de
Anthony:
— Uma semana atrás, Carmem Ferrarez, a
filha de Don Fernando que estava num convento na França, chegou a esse país. Seu primeiro ato foi
procurar Ana Rosenburg em Hampstead. Ali teria
havido uma violenta cena entre ela e a velha. Um
dos criados ouvia-a ameaçar ao sair: — “Você vai
ver! Esses anos todos ganhou fortunas com ele, mas
juro solenemente que no final ele lhe trará má sorte.
Não tem nenhum direito a ele, e vai chegar o dia em
que desejará nunca ter visto o Xale das Mil Flores!”
— Três dias depois — acrescentou o inspetor
— Carmem Ferrarez desapareceu misteriosamente
do hotel em que estava hospedada. Em seu quarto
foi encontrado um nome e um endereço, o de
Conrad Fleckman, e também um bilhete de alguém
que se dizia antiquário perguntando-lhe se queria
desfazer-se de um xale bordado que estaria em seu
poder. O endereço dado no bilhete era falso... Não
há dúvida que este xale é o centro do mistério.
Ontem de manhã Conrad Fleckman foi à casa de
Ana Rosenburg. Ficaram a sós mais de uma hora, e
quando ele saiu a velha foi obrigada a deitar-se, tão
pálida e desfeita ficara com a entrevista. Mas deu
ordens para que se ele viesse procurá-la novamente,
deveria ser recebido. À noite passada, ela levantou-
se e saiu por volta das nove horas. Não voltou. Foi
encontrada essa manhã na casa ocupada por
Conrad Fleckman com um punhal no coração. No chão, ao seu lado, estava... Quer dar um palpite?
— O xale? — balbuciou Anthony. — O Xale
das Mil Flores?
— Algo muito mais horripilante do que isso.
Algo que elucidou por completo o mistério que
cercava o xale e tornou claro o seu valor... Desculpe-
me, acho que é o chefe.
Alguém tocara mesmo a campainha. Anthony
controlou como pôde a impaciência e esperou a
volta do inspetor. Estava tranqüilo quanto a sua
situação, agora. Assim que tirassem as suas
impressões digitais verificariam o engano.
E depois, talvez, quem sabe, Carmem
telefonaria...
O Xale das Mil Flores! Que história estranha...
o tipo de história que criava um cenário adequado à
extraordinária beleza da jovem.
Carmem Ferrarez...
Com um esforço ele arrancou-se do devaneio.
Como estava demorando o inspetor! Levantou-se e
abriu a porta. O apartamento estava estranhamente
silencioso. Verral teria ido embora? Certamente não
sem o avisar.
Atravessou o seu quarto. Vazio, assim como o
living. Estranhamente vazio. Tinha um aspecto
desolado e frio. Deus do céu! Seus objetos esmaltados... a prataria!
Atordoado, percorreu o apartamento. Por toda
a parte a mesma coisa. O apartamento fora
despojado.
Todos os seus objetos de valor, e Anthony
tinha o gosto requintado de um colecionador,
haviam sido roubados.
Com um gemido o rapaz deixou-se cair numa
poltrona com a cabeça entre as mãos. A campainha
da porta da frente o despertou. Quando a abriu
deparou com Rogers.
— Desculpe-me, senhor — disse o porteiro —
mas aqueles cavalheiros acharam que o senhor
poderia estar precisando de alguma coisa.
— Que cavalheiros?
— Os seus dois amigos, senhor. Ajudei-os a
empacotar as coisas o melhor que pude. Foi uma
sorte eu ter aqueles dois caixotes lá no porão.
Rogers olhou para o chão e acrescentou:
— Varri a palha o melhor que pude.
— Você empacotou as minhas coisas aqui? —
gemeu Anthony.
— Sim, senhor. Não era o que o senhor
queria? Foi o que o cavalheiro alto me disse. Vi que
o senhor estava conversando com o outro lá no
quarto dos fundos e não quis perturbá-lo.
— Eu não estava conversando com ele, ele é
que me estava passando na conversa — retrucou
Anthony. — Que os diabos o levem!
Rogers tossiu.
— Lamento muito que tenha havido essa
necessidade.
— Que necessidade?
— O senhor precisar vender as suas
preciosidades.
— Hum? Ah, sim, Ha! Ha! — o rapaz deu uma
risada sem graça. — Aqueles meus amigos já devem
ter ido embora, não?
— Ah, sim senhor. Já fez algum tempo.
Coloquei os caixotes no carro, o cavalheiro alto
tornou a subir e logo os dois desceram correndo e
foram embora... Desculpe-me, senhor, há alguma
coisa errada?
A pergunta de Rogers era cabível. O gemido
que Anthony deixara escapar teria preocupado
qualquer um.
— Está tudo errado, Rogers, obrigado. Mas
posso ver claramente que a culpa não é sua. Agora
eu preciso falar ao telefone.
Cinco minutos depois Anthony despejava a
sua história nos ouvidos atentos do Inspetor Driver
que estava sentado à sua frente com um caderninho de notas.
Pouco simpático, esse inspetor, pensou
Anthony. Nada parecido com a minha imagem de
um detetive. Diria que é falso. Eis outro exemplo
espantoso da superioridade da arte sobre a natu-
reza.
Finalmente Anthony terminou a narrativa. O
inspetor fechou o caderninho.
— Bem? — indagou o rapaz ansioso.
— Claro como o dia — replicou o inspetor. —
Foi a quadrilha dos Pattersons: um louro alto, um
moreno baixo e uma moça. Têm feito muitos
“trabalhinhos” ultimamente.
— Uma moça?
— Sim, de cabelos negros e muito bonita.
Funciona como isca, geralmente.
— Uma jovem espanhola.
— Ela se faz passar por tal. Na verdade nasceu
em Hampstead.
— Eu bem que disse que o lugar era
revigorante — murmurou Anthony.
— Sim, está bem claro — repetiu o inspetor
levantando-se para sair. — Ela telefonou e
engabelou-o com uma história qualquer até sentir
que o senhor iria em seu socorro. Foi procurar então
a velha Gibson que costuma ceder por uma boa gorjeta o seu quarto no sobrado a pessoas que
receiam encontrar-se em público. Amantes,
compreende, não criminosos. O senhor caiu na
esparrela, eles o acompanharam e enquanto um
deles o entretinha, o outro arrecadava a mercadoria.
São os Pattersons, sem dúvida, é bem o estilo deles.
— E minhas coisas? — perguntou Anthony
ansioso.
— Faremos o que estiver a nosso alcance,
senhor. Mas os Pattersons são invulgarmente
espertos.
— É o que parece — retrucou Anthony com
azedume.
O inspetor retirou-se. A porta se fechara há
apenas alguns instantes quando a campainha tocou.
Anthony atendeu e deparou com um garoto
portando um embrulho.
— Encomenda para o senhor.
Anthony recebeu-a algo surpreso. Não estava
esperando coisa alguma. De volta à sala de estar,
cortou o barbante. Era o jogo para licor!
— Droga! — explodiu o rapaz.
Então percebeu no fundo de um dos cálices
uma delicada e minúscula rosa artificial. Seu
pensamento voltou ao quarto do sobrado da rua
Kirk.
“Gosto de você. Sim, eu gosto de você. Não se
esqueça disso, aconteça o que acontecer...”
Será que ela...
Anthony refreou-se com energia.
— Nada disso, meu amigo — advertiu a si
mesmo. Seu olhar bateu na máquina de escrever.
Dirigiu-se à escrivaninha e sentou-se com uma
expressão determinada.
O MISTÉRIO DO SEGUNDO PEPINO
Seu rosto adquiriu novamente um ar
sonhador. O Xale das Mil Flores... O que teria sido
encontrado no chão ao lado do cadáver? Qual seria
a coisa horripilante que explicava todo o mistério?
Na verdade, nada. Tratava-se apenas de uma
invencionice para captar a sua atenção, e o narrador
empregara o velho truque das Mil e Uma Noites,
interrompendo a narrativa no ponto mais
emocionante.
Mas não poderia existir um objeto que
explicasse todo o mistério? Não poderia?
Provavelmente, se alguém se aplicasse a fundo ao
problema.
Anthony puxou com decisão a folha de papel
da máquina e colocou uma nova. Resolutamente começou a bater um novo título.
O MISTÉRIO DO XALE ESPANHOL
Contemplou as palavras em silêncio por
alguns instantes e então começou a bater com
rapidez...