Um Acidente e Outras Histórias

Agatha Christie · Capítulo 4 de 9

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Um Acidente e Outras Histórias

A Aventura de

ANTHONY EASTWOOD

 

Anthony Eastwood olhou para o teto e em

seguida para o chão. Dali o seu olhar subiu

lentamente pela parede da direita, até que com um

súbito esforço de vontade concentrou novamente

sua atenção na máquina de escrever.

A folha virgem de papel só era maculada por

um título escrito em maiúsculas: “O MISTÉRIO DO

SEGUNDO PEPINO”.

Era um belo título. Anthony pensou que

qualquer um que o lesse ficaria imediatamente

interessado e curioso. — O mistério do segundo

pepino, diriam, sobre o que será? Um pepino? O

segundo pepino? Sem dúvida tenho de ler essa

história! — E ficariam todos encantados e

entusiasmados pela consumada perícia com que

aquele mestre da ficção policial tecera uma trama

sensacional acerca de um simples vegetal.

Até aí tudo bem. Eastwood sabia tão bem

quanto qualquer um como deveria ser a história; o

problema era que de alguma forma não conseguia

começar. Os dois elementos essenciais para uma

história de detetive eram o enredo e o título, o resto não passava de mero trabalho braçal. Algumas

vezes o título, por si só, dava origem à trama que

quase se desenrolava sozinha, mas naquela manhã o

título continuava a adornar solitário o topo da

página sem que nem um esboço do enredo se

estivesse formando.

Outra vez os olhos do rapaz procuraram

inspiração no teto, no tapete e no papel da parede

sem que uma única idéia se materializasse.

— Darei à heroína o nome de Sônia — disse

Anthony para se animar — Sônia ou talvez Dolores.

Terá uma cútis branca como marfim, sem que sofra

de anemia, e olhos insondáveis como dois lagos

profundos. O herói vai-se chamar George, ou John,

um nome bem curto e britânico. O jardineiro, pois

suponho que terá de existir um jardineiro para que

possamos introduzir esse diabo desse pepino na

história, bem, ele poderá ser um escocês gaiato e

pessimista, sempre preocupado com a possibilidade

de geadas precoces...

Aquele método funcionava algumas vezes,

mas naquela manhã não estava dando resultado.

Embora Anthony pudesse ver Sônia, George e o

cômico jardineiro claramente, eles não se

mostravam dispostos a se mexer e agir.

Naturalmente eu poderia transformar o pepino numa banana, pensou Anthony desalentado,

ou numa alface ou couve de Bruxelas... Ah, couve

de Bruxelas! Bruxelas poderia ser uma mensagem

cifrada, um criptograma indicando um sinistro

barão belga...

Por um momento ele julgou ver uma réstia de

luz que entretanto logo se desfez. O barão belga não

se materializou e Anthony lembrou-se subitamente

que pepinos não eram compatíveis com geadas

precoces, o que dava fim às divertidas observações

do jardineiro ranzinza.

— Droga! — desabafou Eastwood e

levantando-se apanhou o Daily Mail. Talvez algum

pobre diabo tivesse morrido em circunstâncias que

servissem de inspiração a um agoniado escritor. As

manchetes do dia, porém, só falavam em política

local e internacional. Anthony largou o jornal

enfadado.

Pegou então um romance que estava sobre a

mesa, fechou os olhos, e desceu o dedo ao acaso

sobre uma das páginas. O destino escolheu a

palavra “carneiros”. Imediatamente, com espantosa

clareza, os elementos de uma história delinearam-se

no seu cérebro. Linda jovem, noivo morto na

guerra, ela perde a razão e vai cuidar de um

rebanho de carneiros nas montanhas da Escócia, reencontro místico com o noivo morto, cena final

com carneiros, luar, a jovem caída morta e na neve

as marcas dos passos de duas pessoas se afastando...

Daria uma linda história. Anthony saiu de seu

devaneio com um suspiro e balançou tristemente a

cabeça. Sabia muito bem que o seu editor não queria

aquele tipo de conto, por mais belo que fosse. O tipo

que lhe agradava e que exigia de seus escritores (e

pelo qual às vezes pagava regiamente) versava

sobre misteriosas jovens de cabelos negros

apunhaladas no coração e jovens heróis

injustamente perseguidos, terminando com o súbito

esclarecimento do enigma, sendo a culpa do

personagem menos suspeito comprovada por

indícios altamente improváveis... ou seja, item por

item, “O Mistério do Segundo Pepino”.

Mas eu aposto dez por um que ele irá

substituir o título por alguma droga, como por

exemplo “Um Crime Nefando”, e isso sem mesmo

me consultar, considerou Anthony. Oh, que diabo

de telefone!

Dirigiu-se mal-humorado ao aparelho e pegou

o fone. Fora interrompido duas vezes na última

hora; a primeira fora engano, e na segunda vira-se

obrigado a aceitar um convite para um jantar na

casa de uma assanhadíssima senhora da sociedade que ele detestava, mas cuja pertinácia o derrotara.

— Alô! — ele rosnou ao telefone.

Uma voz de mulher, suave e acariciante,

respondeu com um leve sotaque estrangeiro:

— É você, amor? — perguntou ela com

doçura.

— Bem... — respondeu cautelosamente

Eastwood. — Quem está falando?

— Sou eu, Carmem. Escute, amor, estou sendo

perseguida, estou em perigo, venha depressa! É

uma questão de vida ou morte, venha agora!

— Desculpe-me — retrucou Anthony

cortesmente. — Receio que haja algum engano...

Antes que pudesse acrescentar mais alguma

coisa, ela interveio.

— Madre de Dios! Estão chegando! Se

descobrirem que estou telefonando, vão-me matar.

Não me abandone. Venha logo, salve-me! Você sabe

onde é, na rua Kirk 320. A senha é pepino...

Depressa...

Ele ouviu o leve estalido quando ela desligou

o aparelho na outra extremidade.

— Ora, macacos me mordam! — exclamou o

Sr. Eastwood perplexo.

Dirigiu-se ao pote de fumo e encheu

cuidadosamente o cachimbo.

— Só pode ter sido algum truque do meu

subconsciente — disse para si. — Ela não pode ter

dito pepino... Que coisa mais estranha! Será que ela

disse ou não disse pepino?

Pôs-se a andar de um lado para o outro,

irresoluto.

— Rua Kirk, 320. Que história será essa? Ela

agora deve estar esperando que o seu homem

chegue. Gostaria de ter explicado... Rua Kirk, 320, a

senha é pepino... Oh, não! É impossível, é um

absurdo, deve ter sido uma alucinação do meu

cérebro cansado.

Olhou com uma careta para a máquina de

escrever.

— Para que você serve? Eu gostaria de saber.

Estive olhando para você a manhã inteira, e de nada

me adiantou. Um autor deveria buscar inspiração

na vida... na vida, você ouviu? Vou sair agora

mesmo para procurar inspiração.

Enfiou um chapéu na cabeça, contemplou por

um instante com afeição a sua inestimável coleção

de objetos antigos esmaltados e saiu do

apartamento.

A rua Kirk, como todos os londrinos sabem, é

uma artéria longa e sinuosa, em grande parte

ocupada por antiquários. Ali é vendida toda a sorte de mercadorias espúrias a preços atraentes, vendo-

se também lojas de objetos de bronze, cristal, e de

artigos de segunda mão de aspecto decadente.

O número 320 era ocupado por uma loja de

cristais antigos. Estava superlotada por objetos de

vidro de toda a espécie. Anthony teve de

locomover-se com a máxima cautela para não

derrubar os copos de vinho que se alinhavam sobre

os balcões e não bater a cabeça nos candelabros que

faiscavam e balançavam no teto baixo. Uma senhora

muito idosa estava sentada nos fundos da loja.

Ostentava um forte buço que muito colegial teria

invejado, e sua expressão era truculenta.

A velha olhou para Anthony e perguntou

numa voz poderosa:

— O que deseja?

Rapaz que se embaraçava com facilidade,

Anthony ficou sem jeito e imediatamente perguntou

o preço de uns copos para vinho branco.

— Quarenta e cinco xelins a meia dúzia.

— Quarenta e cinco, é? — repetiu Anthony. —

São bem bonitos. E esses, quanto custam?

— Não são lindos? É cristal Waterford antigo.

Faço-lhe o par por dezoito guinéus.

Eastwood sentiu que se estava metendo numa

enrascada e que dali a pouco acabaria comprando alguma coisa, hipnotizado pelo olhar ameaçador da

velha. Contudo não se decidiu a sair.

— E aquilo ali? — perguntou apontando para

um lustre.

— Trinta e cinco guinéus.

— Ah, é caro demais — lamentou o rapaz.

— O que está procurando? — perguntou a

velha. — Um presente de casamento?

— Isso mesmo — concordou rapidamente

Anthony. — Mas eles têm um gosto muito

requintado.

— Bem, bem — tornou a velha levantando-se

com uma expressão determinada. — Todos gostam

de objetos de cristal antigo. Tenho aqui este par de

garrafas para licor... e este jogo de cálices que

qualquer noiva irá adorar.

Os dez minutos seguintes foram de agonia

para Anthony que estava inteiramente sob o

domínio da velha. Todos os tipos concebíveis de

cristais desfilaram ante os seus olhos. O desespero

apoderou-se dele.

— Lindo, muito lindo — elogiou sem

entusiasmo colocando sobre o balcão um grande

cálice que ela lhe trouxera. Súbito, gaguejando ele

perguntou: — Ah, será que a senhora tem um

telefone aqui?

— Não, não tenho, mas há uma cabine

telefônica no correio aí em frente. Mas o que vai

levar, o cálice ou esses copos para uísque?

Não sendo mulher, Anthony desconhecia

totalmente a sutil arte de sair de uma loja sem

comprar nada.

— Prefiro o jogo para licor — ele admitiu com

desânimo.

Era o mais barato. Seria horrível ter de

comprar o lustre.

Desalentado pagou pelo presente.

Subitamente, quando a velha já estava embrulhando

o pacote, recuperou a coragem. Afinal, no máximo

ela o julgaria excêntrico, e de qualquer maneira, que

importância tinha o que ela pensasse?

— Pepino — ele disse com voz clara e firme.

A velha interrompeu bruscamente o que

estava fazendo.

— Ah? O que o senhor disse?

— Nada — mentiu Anthony apressadamente.

— Oh! pensei que o senhor tivesse dito

pepino.

— E disse mesmo — admitiu dessa vez

desafiadoramente Anthony.

— Ora — explicou a velha senhora, — por que

não disse logo? Fazendo-me perder tempo. Entre por aquela porta e suba as escadas. Ela está à sua

espera.

Como um sonho, Anthony seguiu a indicação

da mulher e subiu por uns degraus sujíssimos. No

topo, uma porta dava para uma minúscula sala de

estar. Sentada numa cadeira, com os olhos fixos na

porta e uma expressão ansiosa no rosto, estava uma

jovem.

Que jovem! Possuía realmente a pele de

marfim sobre a qual Anthony escrevera com tanta

freqüência. E seus olhos! Que olhos! Não era

inglesa, via-se imediatamente. Tinha um ar exótico

que transparecia até na simplicidade do vestido

elegante e dispendioso.

Anthony deteve-se no umbral, embaraçado.

Chegara o momento das explicações. Porém, com

um grito de prazer a jovem levantou-se e atirou-se

em seus braços.

— Você veio! — ela exclamou. — Você veio!

Oh! Benditos sejam os santos e a Santa Mãe de

Deus!

Anthony, que não costumava deixar passar as

boas oportunidades, abraçou a jovem com

entusiasmo. Por fim ela afastou-se e levantou o

rosto para ele com encantadora timidez.

— Nunca o teria reconhecido — ela declarou.

— Não teria mesmo.

— Não? — indagou Anthony sem convicção.

— Não. Até os seus olhos parecem diferentes.

Você é dez vezes mais atraente do que eu julgava.

— Sou mesmo?

Em seu íntimo Anthony se dizia: Calma rapaz.

Calma. Tudo está indo muito bem, não perca a

cabeça.

— Posso beijá-lo novamente?

— Naturalmente — anuiu Anthony

entusiasticamente. — Quanto quiser.

Fez-se um agradabilíssimo interlúdio.

Gostaria de saber quem diabos eu sou, pensou

o rapaz. Faço votos que o verdadeiro camarada não

apareça por aqui. Ela é um amor de pequena.

Súbito a jovem afastou-se e seu rosto assumiu

uma expressão aterrorizada.

— Não o seguiram até aqui?

— Deus do céu, não!

— Eles são muito espertos. Você não os

conhece como eu. Bóris é um demônio.

— Eu darei um jeito em Bóris.

— Você é valente como um leão! Sim, como

um leão! Eles são uns canalhas, todos eles. Ouça, em

tenho a coisa. Se soubessem, eles me matariam.

Estava com medo, não sabia o que fazer, e então pensei em você... Quieto, o que foi isso?

Ressoavam passos na loja. Fazendo-lhe um

gesto para que permanecesse onde estava, ela

dirigiu-se silenciosamente às escadas. Voltou pálida,

de olhos arregalados.

— Madre de Dios! É a polícia. Eles vão subir.

Você tem uma faca ou um revólver?

— Minha querida, não está pretendendo que

eu mate um policial, não é?

— Oh! Mas você está louco! Vão prendê-lo e

não escapará da forca.

— Da forca? — repetiu Eastwood, sentindo um

desagradável arrepio percorrer-lhe a espinha.

Soaram passos nas escadas.

— Eles vêm aí — sussurrou a jovem. — Negue

tudo, é a única esperança.

— Isto é fácil — murmurou o rapaz baixinho.

No instante seguinte dois homens entraram

no quarto. Não usavam uniforme, mas seu porte

revelava uma inequívoca autoridade. O mais baixo,

um homem moreno, com tranqüilos olhos

cinzentos, tomou a palavra.

— Conrad Fleckman, está preso pelo

assassinato de Ana Rosenburg. Tudo o que disser

poderá ser usado como prova contra você. Eis aqui

o mandado de prisão. É melhor que venha por bem.

A jovem sufocou um grito. Anthony deu um

passo à frente com um sorriso sereno.

— Está cometendo um erro, detetive —

retrucou cortesmente. — Meu nome é Anthony

Eastwood.

Os dois detetives não se deixaram

impressionar pela declaração.

— Veremos isso depois — tornou o que se

mantivera calado até então. Enquanto isso,

acompanhe-nos.

— Conrad — gemeu a moça. — Conrad, não

deixe que o levem.

Anthony olhou para os dois detetives.

— Os senhores com certeza permitirão que eu

me despeça dessa jovem, não?

Com mais compreensão do que ele esperara,

os dois policiais dirigiram-se para a porta. Anthony

puxou a jovem para perto da janela e disse-lhe

rapidamente em voz baixa:

— Escute, eu disse a verdade. Não sou Conrad

Fleckman. Quando me telefonou esta manhã,

fizeram a ligação errada. Meu nome é Anthony

Eastwood. Atendi a seu pedido de socorro porque...

bem, porque quis.

Ela fitou-o incrédula.

— Você não é Conrad Fleckman?

— Não.

— Oh! — exclamou a jovem com uma

expressão constrangida. — E eu o beijei!

— Não faz mal — tranqüilizou-a o rapaz. —

Os cristãos primitivos beijavam-se habitualmente. É

um ótimo costume. Agora ouça: vou acompanhar

esses dois, mas logo provarei a minha identidade.

Enquanto isso a deixarão em paz e você poderá

avisar esse seu querido Conrad. Mais tarde...

— Sim?

— Bem, meu telefone é NW 1743. Tome

cuidado para não errar a ligação novamente.

Ela lançou-lhe um olhar cativante, indecisa

entre as lágrimas e um sorriso.

— Eu não esquecerei. Não esquecerei, mesmo.

— Então está bem. Adeus... Olhe...

— O que é?

— Por falar em cristãos primitivos... Uma vez

mais não faria mal algum, não acha?

Ela enlaçou o pescoço do rapaz com os braços.

Seus lábios apenas roçaram os dele.

— Eu gosto de você. Sim, gosto de você. Não

se esqueça disso, aconteça o que acontecer.

Anthony afastou-se dela com relutância e

dirigiu-se a seus captores.

— Estou pronto para acompanhá-los. Não pretendem deter essa jovem, não?

— Não, senhor. Nada temos contra ela —

disse o homem mais baixo cortesmente.

Camaradas decentes, esses policiais da

Scotland Yard, pensou Anthony ao segui-los pelos

estreitos degraus.

Não havia sinal da velha na loja, mas Anthony

percebeu uma respiração ofegante ao passar junto à

porta dos fundos. Adivinhou que ela estava atrás da

mesma, observando cautelosamente os

acontecimentos.

Fora, na rua, Anthony respirou fundo e

dirigiu-se ao mais baixo dos dois policiais:

— Agora, Inspetor... O senhor é um Inspetor,

não?

— Sim, senhor. Inspetor-Detetive Verral. Este

é o Sargento-Detetive Carter.

— Bem, Inspetor Verral, chegou o momento

de falarmos a sério. Eu não sou esse Conrad não-sei-

o-que-lá. Meu nome é Anthony Eastwood e sou

escritor. Se me acompanhar até o meu apartamento,

posso dar-lhe provas da minha identidade.

O tom decidido com que Anthony falou

pareceu impressionar os detetives. Pela primeira

vez o rosto de Verral assumiu uma expressão de

dúvida.

Carter, aparentemente, era mais duro de

convencer.

— Ah, é? — retrucou com ironia. — Mas se

não me engano a jovem chamou-o de Conrad

mesmo.

— Ah, esta é outra questão. Não me incomodo

de admitir que por... razões pessoais apresentei-me

àquela jovem como sendo esse tal Conrad. Por

razões particulares, entendam.

— Sua história é muito pouco convincente —

observou Carter. — Nada disso, o senhor vai nos

acompanhar. Chame aquele táxi, Joe.

O táxi parou e os três homens entraram.

Anthony fez uma última tentativa, virando-se para

Verral que lhe pareceu o mais acessível dos dois.

— Escute, caro Inspetor. Que mal pode haver

nos senhores me acompanharem ao meu

apartamento para verificarem se estou falando a

verdade? Deixem o táxi esperando, fica por minha

conta. De qualquer modo não perderão mais de

cinco minutos.

Verral olhou-o com atenção.

— Farei o que deseja — ele acedeu

subitamente. — Por estranho que pareça, acredito

que o senhor esteja falando a verdade. Não quero

fazer papel de idiota aparecendo no departamento com o homem errado. Qual é o endereço?

— Brandenburg Mansions, 48.

Verral inclinou a cabeça para fora e gritou o

endereço para o motorista. Em silêncio os três

aguardaram até chegar ao prédio. Quando Carter

desceu, Verral fez sinal a Anthony que o seguisse.

— Não há necessidade de grosserias —

declarou ao sair do carro. — Vamos entrar como

amigos. Façamos de conta que o Sr. Eastwood está

trazendo dois convidados.

Anthony ficou muito grato por tal atitude. Sua

opinião a respeito do Departamento de

Investigações Criminais crescia a cada minuto.

No vestíbulo tiveram a sorte de encontrar

Rogers, o porteiro. Anthony deteve-se.

— Boa-noite — Rogers — cumprimentou

casualmente.

— Boa-noite, Sr. Eastwood — respondeu o

porteiro respeitosamente. Gostava de Anthony, cuja

liberalidade nem sempre era imitada por seus

vizinhos.

Anthony deteve-se já com o pé no primeiro

degrau das escadas.

— Rogers, lembra-se por acaso de há quanto

tempo moro aqui? — perguntou no mesmo tom

casual. — Estava discutindo esse ponto aqui com os meus amigos.

— Deixe-me ver, senhor... Acho que há quase

quatro anos.

— Foi o que pensei.

Anthony olhou para os detetives com uma

expressão triunfante. Carter resmungou, mas Verral

sorriu.

— Um ponto a seu favor, senhor, mas ainda

não é o bastante — ele replicou. — Vamos subir.

Anthony abriu a porta do apartamento com a

sua chave, lembrando-se aliviado que Seamark, o

seu criado, estava de folga. Quanto menos

testemunhas houvesse daquele vexame, melhor.

A máquina de escrever estava como a deixara.

Carter encaminhou-se até a mesa e com uma voz

lúgubre leu o título da folha:

— “O Mistério do Segundo Pepino.”

— É uma história que vou escrever —

explicou Anthony.

— Outro ponto a seu favor — tornou Verral

com um olhar maroto, balançando a cabeça. — E

por falar nisso, como é a história? Qual era o

mistério do segundo pepino?

— Aí é que me pegaram — retorquiu

Anthony. — Foi esse segundo pepino que deu

origem a toda essa confusão.

Carter observava-o atentamente. Súbito

sacudiu a cabeça e com um gesto sugestivo apontou

para a própria testa:

— É meio pancada, coitado — murmurou em

voz audível.

— Mas agora, senhores, vamos ao nosso caso

— disse o rapaz com determinação. — Aqui estão

algumas cartas endereçadas a mim, meu talão de

cheques, notas dos meus editores. O que mais

desejam?

Verral examinou os papéis que Anthony lhe

entregara.

— Quanto a mim, estou satisfeito — declarou

respeitosamente o detetive. — Isto é suficiente. Mas

não posso assumir sozinho a responsabilidade de

liberá-lo. Embora pareça inegável que o senhor

reside aqui há alguns anos com o nome de

Eastwood, sempre existe a possibilidade de que

Anthony Eastwood e Conrad Fleckman sejam a

mesma pessoa. Preciso revistar o seu apartamento,

tirar suas impressões digitais e telefonar para a sede

do departamento.

— Parece-me um bom plano — comentou

Anthony. — Esteja à vontade. Meus segredos estão

todos à sua disposição.

O inspetor sorriu. Era bastante humano para um detetive.

— Quer esperar no quarto dos fundos com

Carter, enquanto procedo à busca?

— Está bem — anuiu Anthony com relutância.

— Não poderia ser de outra forma, poderia?

— Como assim?

— O senhor e dois uísques com soda

poderiam fazer-me companhia no quarto dos

fundos enquanto o seu amigo sargento revista o

apartamento.

— Se preferir assim, senhor...

— Eu prefiro.

Deixaram Carter vasculhando o conteúdo da

escrivaninha com perícia profissional. Ao sair da

sala ouviram-no pegar o telefone e chamar a

Scotland Yard.

— Assim está melhor — disse Anthony

sentando-se ao lado da bandeja de uísque, tendo

antes atendido hospitaleiramente as necessidades

do Inspetor Verral.

— Devo beber primeiro para mostrar que o

uísque não está envenenado?

O inspetor sorriu.

— Isto é muito irregular — comentou. —

Porém em nossa profissão acabamos por adquirir

certa intuição. Vi logo de início que havíamos cometido um erro, embora tenhamos, naturalmente,

de seguir os regulamentos. Não se pode escapar da

burocracia, não é, senhor?

— Suponho que não — lamentou Anthony. —

Mas o sargento ainda não me parece muito

amistoso.

— Ah, mas ele é um ótimo profissional. Seria

difícil iludi-lo.

— Já percebi — anuiu Anthony e acrescentou:

— Por falar nisso, inspetor, se não há objeções,

gostaria de saber alguma coisa sobre o crime que

cometi.

— Como assim, senhor?

— Ora, vamos, não vê que estou morrendo de

curiosidade? Quem era Ana Rosenburg, e por que

eu a teria matado?

— Amanhã o senhor vai ler toda a história nos

jornais.

— “Amanhã talvez eu seja eu mesmo com

mais os dez mil anos de ontem” — tornou Anthony

citando Fitzgerald. — Na verdade acho que o

senhor poderia perfeitamente satisfazer a minha

natural curiosidade, inspetor. Esqueça um pouco

essa sua discrição profissional e conte-me tudo.

— Isto seria muito irregular, senhor.

— Ora, meu caro inspetor, logo quando nos estávamos tornando tão bons amigos?

— Bem, Ana Rosenburg era uma judia alemã

que morava em Hampstead. Sem meios visíveis de

subsistência, ela estava cada dia mais rica.

— Comigo dá-se justamente o contrário —

comentou Anthony. — possuo meios visíveis de

subsistência e estou a cada ano mais pobre. Talvez

eu progredisse mais se morasse em Hampstead.

Sempre ouvi dizer que o lugar é muito revigorante.

— No passado — continuou Verral, — ela

negociou com roupas de segunda mão.

— Então está explicado — interveio Anthony.

— Isto me lembra quando vendi meus uniformes de

gala depois da guerra. O apartamento estava

superlotado de calças vermelhas e alamares

dourados, dispostos de forma a realçar seu aparato.

Entrou um homem gordo de terno xadrez que veio

num Rolls Royce, acompanhado por um comparsa

com uma mala. Ofereceram uma libra pelo lote.

Tive de juntar um capote e meus binóculos Zeiss

para obter duas libras. O ajudante meteu tudo na

mala e o gordo me estendeu uma nota de dez libras

e pediu o troco!

— Há cerca de dez anos atrás — prosseguiu o

inspetor — vieram para Londres muitos refugiados

espanhóis, entre os quais um certo Dom Fernando Ferrarez com sua esposa e um filho. Eram muito

pobres e a mulher estava doente. Ana Rosenburg foi

ao quarto onde moravam e perguntou se tinham

alguma coisa para vender. Dom Fernando não

estava, e sua esposa resolveu desfazer-se de um

espetacular xale espanhol, maravilhosamente

bordado, o último presente que recebera do marido

antes de fugirem da Espanha. Quando Dom

Fernando voltou, ficou furioso com a venda e tentou

inutilmente recuperar o xale. Quando por fim

conseguiu encontrar a compradora de roupas

usadas, ela declarou que vendera o xale para uma

mulher desconhecida. O espanhol ficou

desesperado. Dois meses mais tarde foi apunhalado

na rua e morreu em conseqüência dos ferimentos.

Dali em diante, Ana Rosenburg começou a desfrutar

de um luxo muito suspeito. Nos dez anos que se

seguiram sua casa foi assaltada nada menos do que

oito vezes. Quatro dessas tentativas foram

frustradas e nada foi roubado. Das outras vezes,

entre as perdas estava sempre um xale qualquer.

O inspetor calou-se, mas prosseguiu

obedecendo a um gesto de encorajamento de

Anthony:

— Uma semana atrás, Carmem Ferrarez, a

filha de Don Fernando que estava num convento na França, chegou a esse país. Seu primeiro ato foi

procurar Ana Rosenburg em Hampstead. Ali teria

havido uma violenta cena entre ela e a velha. Um

dos criados ouvia-a ameaçar ao sair: — “Você vai

ver! Esses anos todos ganhou fortunas com ele, mas

juro solenemente que no final ele lhe trará má sorte.

Não tem nenhum direito a ele, e vai chegar o dia em

que desejará nunca ter visto o Xale das Mil Flores!”

— Três dias depois — acrescentou o inspetor

— Carmem Ferrarez desapareceu misteriosamente

do hotel em que estava hospedada. Em seu quarto

foi encontrado um nome e um endereço, o de

Conrad Fleckman, e também um bilhete de alguém

que se dizia antiquário perguntando-lhe se queria

desfazer-se de um xale bordado que estaria em seu

poder. O endereço dado no bilhete era falso... Não

há dúvida que este xale é o centro do mistério.

Ontem de manhã Conrad Fleckman foi à casa de

Ana Rosenburg. Ficaram a sós mais de uma hora, e

quando ele saiu a velha foi obrigada a deitar-se, tão

pálida e desfeita ficara com a entrevista. Mas deu

ordens para que se ele viesse procurá-la novamente,

deveria ser recebido. À noite passada, ela levantou-

se e saiu por volta das nove horas. Não voltou. Foi

encontrada essa manhã na casa ocupada por

Conrad Fleckman com um punhal no coração. No chão, ao seu lado, estava... Quer dar um palpite?

— O xale? — balbuciou Anthony. — O Xale

das Mil Flores?

— Algo muito mais horripilante do que isso.

Algo que elucidou por completo o mistério que

cercava o xale e tornou claro o seu valor... Desculpe-

me, acho que é o chefe.

Alguém tocara mesmo a campainha. Anthony

controlou como pôde a impaciência e esperou a

volta do inspetor. Estava tranqüilo quanto a sua

situação, agora. Assim que tirassem as suas

impressões digitais verificariam o engano.

E depois, talvez, quem sabe, Carmem

telefonaria...

O Xale das Mil Flores! Que história estranha...

o tipo de história que criava um cenário adequado à

extraordinária beleza da jovem.

Carmem Ferrarez...

Com um esforço ele arrancou-se do devaneio.

Como estava demorando o inspetor! Levantou-se e

abriu a porta. O apartamento estava estranhamente

silencioso. Verral teria ido embora? Certamente não

sem o avisar.

Atravessou o seu quarto. Vazio, assim como o

living. Estranhamente vazio. Tinha um aspecto

desolado e frio. Deus do céu! Seus objetos esmaltados... a prataria!

Atordoado, percorreu o apartamento. Por toda

a parte a mesma coisa. O apartamento fora

despojado.

Todos os seus objetos de valor, e Anthony

tinha o gosto requintado de um colecionador,

haviam sido roubados.

Com um gemido o rapaz deixou-se cair numa

poltrona com a cabeça entre as mãos. A campainha

da porta da frente o despertou. Quando a abriu

deparou com Rogers.

— Desculpe-me, senhor — disse o porteiro —

mas aqueles cavalheiros acharam que o senhor

poderia estar precisando de alguma coisa.

— Que cavalheiros?

— Os seus dois amigos, senhor. Ajudei-os a

empacotar as coisas o melhor que pude. Foi uma

sorte eu ter aqueles dois caixotes lá no porão.

Rogers olhou para o chão e acrescentou:

— Varri a palha o melhor que pude.

— Você empacotou as minhas coisas aqui? —

gemeu Anthony.

— Sim, senhor. Não era o que o senhor

queria? Foi o que o cavalheiro alto me disse. Vi que

o senhor estava conversando com o outro lá no

quarto dos fundos e não quis perturbá-lo.

— Eu não estava conversando com ele, ele é

que me estava passando na conversa — retrucou

Anthony. — Que os diabos o levem!

Rogers tossiu.

— Lamento muito que tenha havido essa

necessidade.

— Que necessidade?

— O senhor precisar vender as suas

preciosidades.

— Hum? Ah, sim, Ha! Ha! — o rapaz deu uma

risada sem graça. — Aqueles meus amigos já devem

ter ido embora, não?

— Ah, sim senhor. Já fez algum tempo.

Coloquei os caixotes no carro, o cavalheiro alto

tornou a subir e logo os dois desceram correndo e

foram embora... Desculpe-me, senhor, há alguma

coisa errada?

A pergunta de Rogers era cabível. O gemido

que Anthony deixara escapar teria preocupado

qualquer um.

— Está tudo errado, Rogers, obrigado. Mas

posso ver claramente que a culpa não é sua. Agora

eu preciso falar ao telefone.

Cinco minutos depois Anthony despejava a

sua história nos ouvidos atentos do Inspetor Driver

que estava sentado à sua frente com um caderninho de notas.

Pouco simpático, esse inspetor, pensou

Anthony. Nada parecido com a minha imagem de

um detetive. Diria que é falso. Eis outro exemplo

espantoso da superioridade da arte sobre a natu-

reza.

Finalmente Anthony terminou a narrativa. O

inspetor fechou o caderninho.

— Bem? — indagou o rapaz ansioso.

— Claro como o dia — replicou o inspetor. —

Foi a quadrilha dos Pattersons: um louro alto, um

moreno baixo e uma moça. Têm feito muitos

“trabalhinhos” ultimamente.

— Uma moça?

— Sim, de cabelos negros e muito bonita.

Funciona como isca, geralmente.

— Uma jovem espanhola.

— Ela se faz passar por tal. Na verdade nasceu

em Hampstead.

— Eu bem que disse que o lugar era

revigorante — murmurou Anthony.

— Sim, está bem claro — repetiu o inspetor

levantando-se para sair. — Ela telefonou e

engabelou-o com uma história qualquer até sentir

que o senhor iria em seu socorro. Foi procurar então

a velha Gibson que costuma ceder por uma boa gorjeta o seu quarto no sobrado a pessoas que

receiam encontrar-se em público. Amantes,

compreende, não criminosos. O senhor caiu na

esparrela, eles o acompanharam e enquanto um

deles o entretinha, o outro arrecadava a mercadoria.

São os Pattersons, sem dúvida, é bem o estilo deles.

— E minhas coisas? — perguntou Anthony

ansioso.

— Faremos o que estiver a nosso alcance,

senhor. Mas os Pattersons são invulgarmente

espertos.

— É o que parece — retrucou Anthony com

azedume.

O inspetor retirou-se. A porta se fechara há

apenas alguns instantes quando a campainha tocou.

Anthony atendeu e deparou com um garoto

portando um embrulho.

— Encomenda para o senhor.

Anthony recebeu-a algo surpreso. Não estava

esperando coisa alguma. De volta à sala de estar,

cortou o barbante. Era o jogo para licor!

— Droga! — explodiu o rapaz.

Então percebeu no fundo de um dos cálices

uma delicada e minúscula rosa artificial. Seu

pensamento voltou ao quarto do sobrado da rua

Kirk.

“Gosto de você. Sim, eu gosto de você. Não se

esqueça disso, aconteça o que acontecer...”

Será que ela...

Anthony refreou-se com energia.

— Nada disso, meu amigo — advertiu a si

mesmo. Seu olhar bateu na máquina de escrever.

Dirigiu-se à escrivaninha e sentou-se com uma

expressão determinada.

 

O MISTÉRIO DO SEGUNDO PEPINO

 

Seu rosto adquiriu novamente um ar

sonhador. O Xale das Mil Flores... O que teria sido

encontrado no chão ao lado do cadáver? Qual seria

a coisa horripilante que explicava todo o mistério?

Na verdade, nada. Tratava-se apenas de uma

invencionice para captar a sua atenção, e o narrador

empregara o velho truque das Mil e Uma Noites,

interrompendo a narrativa no ponto mais

emocionante.

Mas não poderia existir um objeto que

explicasse todo o mistério? Não poderia?

Provavelmente, se alguém se aplicasse a fundo ao

problema.

Anthony puxou com decisão a folha de papel

da máquina e colocou uma nova. Resolutamente começou a bater um novo título.

 

O MISTÉRIO DO XALE ESPANHOL

 

Contemplou as palavras em silêncio por

alguns instantes e então começou a bater com

rapidez...