Um Acidente e Outras Histórias

Agatha Christie · Capítulo 3 de 9

Páginas do PDF

Um Acidente e Outras Histórias

Um Acidente

 

— Estou-lhe dizendo, é a mesma mulher. Não

há dúvida alguma!

O Capitão Haydock olhou para o rosto

animado e ansioso do seu amigo e suspirou.

Gostaria que Evans não se mostrasse tão positivo e

veemente. Durante sua longa carreira naval o velho

capitão aprendera a não se intrometer em coisas que

não lhe diziam respeito. Já o seu amigo Evans,

antigo inspetor da polícia, possuía uma filosofia de

vida muito diferente. “Agir baseado nas

informações recebidas” fora seu lema no passado, e

com o passar do tempo continuara a procurar suas

próprias informações. Evans fora um oficial

inteligente e alerta, e merecera a sua justa

promoção. Mesmo agora, quando se aposentara e

fora viver no pequeno chalé campestre de seus

sonhos, seu instinto profissional ainda estava bem

vivo.

— É muito raro eu esquecer um rosto — ele

afirmou com complacência. — É a Sr.a Anthony.

Sim, é a Sr.a Anthony sem dúvida alguma. No

momento em que você me apresentou a Sr.a

Merrowdene, vi logo que era ela.

O Capitão Haydock remexeu-se na cadeira constrangido. O casal Merrowdene eram os seus

vizinhos mais próximos, fora o próprio Evans, e a

identificação da Sr.a Merrowdene com a heroína de

uma causa célebre o afligia.

— Já faz muito tempo — ele retorquiu sem

convicção.

— Nove anos — tornou Evans, preciso como

sempre. — Nove anos e três meses. Lembra-se do

caso?

— Vagamente.

— Descobriram que Anthony costumava

tomar arsênico. — explicou Evans — e absolveram-

na.

— Bem, e por que não a deveriam absorver?

— Não havia motivo algum. Com as provas

existentes era o único veredicto possível.

Absolutamente correto.

— Então não existe nada errado — disse

Haydock. — Não vejo por que nos preocuparmos.

— Quem está preocupado?

— Pensei que você estivesse.

— Nem um pouco.

— Está tudo acabado, encerrado — concluiu o

capitão. — Se a Sr.a Merrowdene teve o infortúnio

de num determinado momento de sua vida ser

julgada por assassinato e absolvida...

— Eu não diria que ser absolvida é um

infortúnio — interveio Evans.

— Você sabe muito bem o que estou querendo

dizer — replicou irritado o Capitão Haydock. — Já

que a pobre senhora passou por uma experiência

tão angustiante, acho que não deveríamos

desenterrar o assunto.

Evans não respondeu.

— Vamos, Evans. Essa senhora estava

inocente, você mesmo o disse.

— Eu não disse que ela estava inocente. Disse

que foi absolvida.

— É a mesma coisa.

— Nem sempre.

O Capitão Haydock, que começara a bater o

cachimbo contra o braço de sua poltrona, deteve-se

e inclinou-se para a frente com uma expressão

alerta.

— Ha! ha! — exclamou ele. — Então é para

esse lado que os ventos sopram, é? Acha que ela era

culpada?

— Não diria isso. Eu não sei. Anthony estava

habituado a tomar arsênico. A esposa preparava a

dose. Certo dia, por um engano, ele toma uma dose

excessiva. O erro foi dele ou da esposa? Ninguém

podia saber, e o júri acertadamente absolveu-a. Foi uma decisão correta, não a censuro. Mas mesmo

assim, gostaria de saber.

O Capitão Haydock tornou a concentrar suas

atenções no cachimbo.

— Bem — disse ele recostando-se

confortavelmente, — não é da nossa conta.

— Não tenho tanta certeza...

— Mas certamente...

— Ouça-me um minuto. Lembra-se do que o

marido, o tal Merrowdene, nos disse essa tarde em

seu laboratório, quando estava entretido com

aqueles testes?

— Lembro-me. Ele mencionou o teste de

Marsh para arsênico. Disse que você deveria

conhecê-lo, era do seu ramo, e riu-se. Penso que não

diria isso, nem por um único momento se achasse...

Evans interrompeu-o.

— Sim, ele não diria se soubesse, não é? Há

quanto tempo eles estão casados? Seis anos, não foi

o que você me disse? Aposto o que você quiser que

ele não tem a mínima idéia de que a esposa seja a

famosa Sr.a Anthony.

— E certamente não será por meu intermédio

que ele vai saber — replicou rigidamente o Capitão

Haydock.

Evans não lhe deu atenção e prosseguiu.

— Você interrompeu-me há pouco. Depois do

teste de Marsh, Merrowdene aqueceu uma

substância numa pipeta, dissolveu o resíduo

metálico em água e provocou a sua precipitação

adicionando nitrato de prata. Este é um teste

simples e preciso para cloratos. Mas por acaso li um

trecho do livro que estava aberto sobre a mesa: “O

H2SO4 decompõe os cloratos com a formação de Cl4O2. Se

a mistura for aquecida, ocorrerão violentas explosões.

Portanto, deve ser conservada fria e só empregada em

pequenas quantidades.”

Haydock olhou perplexo para o amigo.

— Bem, e daí?

— Em nossa profissão também temos testes,

testes para determinar se houve ou não um

assassinato. Um deles é pesar os fatos com cuidado

e dissecar os resíduos após descontar os

preconceitos e a imprecisão habitual das

testemunhas. Mas existe um outro teste, de grande

precisão, mas muito perigoso, como o do ácido

sulfúrico: “um assassino raramente contenta-se com um

único crime.” Dê-lhe tempo, faça-o sentir-se livre de

suspeitas e ele cometerá outro. Um homem é preso.

Será que ele assassinou a esposa? Talvez as provas

sejam inconclusivas. Mas pesquise o seu passado, e

se descobrir que ele teve várias mulheres e que todas morreram de forma um tanto estranha, pode

ter certeza! Não estou falando em termos jurídicos,

compreenda, estou falando em certeza moral. E uma

vez de posse dessa certeza podemos prosseguir e

procurar provas.

— E então?

— Estou chegando ao ponto principal. Esse

método funciona quando o criminoso já possui um

passado. Mas e se o apanharmos no seu primeiro

crime? Então esse teste não produzirá uma reação.

Mas suponhamos que o prisioneiro seja absolvido e

recomece a vida sob outro nome. Irá ou não repetir

o crime?

— Que idéia horrível!

— Ainda acha que não é de sua conta?

— Sim, acho. Você não tem nenhum motivo

para pensar que a Sr.a Merrowdene não seja uma

mulher completamente inocente.

O ex-inspetor permaneceu em silêncio por

alguns momentos. Então, lentamente, explicou:

— Disse-lhe que investigamos o passado dela

e não encontramos nada. Isso não é inteiramente

verdade. Ela teve um padrasto. Aos dezoito anos,

ela interessou-se por um jovem e esse padrasto

utilizou sua autoridade para afastá-los. Ela e o

padrasto foram dar uma volta junto a um penhasco. Houve um acidente. O homem aproximou-se

demasiado do abismo, o terreno cedeu, e ele caiu e

morreu.

— Você não acha...

— Foi um acidente, um acidente. A dose

excessiva de Anthony foi outro acidente. Ele nunca

teria ido a julgamento se não houvesse transpirado

a existência de um outro homem, que por sinal deu

no pé. Pelo jeito não ficou satisfeito com a decisão

do júri. Ouça, Haydock, quanto a mim, receio que

haja outro “acidente”, na vida dessa mulher!

O velho capitão deu de ombros.

— Já se passaram nove anos do julgamento.

Por que haveria de acontecer logo agora um outro

“acidente”, como diz você?

— Eu não disse agora, disse algum dia, se

aparecer um motivo suficientemente forte.

O Capitão Haydock tornou a dar de ombros.

— Bem, não sei como é que você vai impedir

isso.

— Nem eu — replicou Evans azedo.

— Eu deixá-la-ei em paz — opinou o capitão.

— Intrometer-se na vida dos outros nunca dá bons

resultados.

Mas o conselho não agradou ao ex-inspetor.

Ele era um homem paciente mas obstinado. Despediu-se do amigo e dirigiu-se ao povoado

examinando as possíveis e exeqüíveis linhas de

ação.

Ao entrar no correio para comprar alguns

selos, ele esbarrou no objeto de seus cuidados,

George Merrowdene. O antigo professor de química

era um homem baixo, de aspecto bondoso, gentil e

sonhador, totalmente distraído. Reconheceu o

inspetor, cumprimentando-o cordialmente, e

abaixou-se para recolher as cartas que deixara cair

com o impacto. Evans também curvou-se, e sendo

mais rápido, apanhou primeiro os papéis e

devolveu-os a seu dono com um pedido de

desculpas.

Nisso os seus olhos reconheceram no envelope

de cima o nome e o endereço de uma companhia de

seguros muito conhecida. Suas suspeitas

reacenderam-se.

Tomou uma resolução instantânea. O inocente

Professor Merrowdene nem percebeu por que

estava sendo acompanhado pelo ex-inspetor, e

muito menos a razão pela qual este conduziu a

conversa para o campo dos seguros.

Evans atingiu o seu objetivo sem dificuldades.

Merrowdene forneceu-lhe espontaneamente a

informação de que acabara de fazer um seguro de vida em benefício da esposa, e pediu a opinião de

Evans sobre a companhia.

— Fiz alguns investimentos muito

importantes — ele explicou — e em conseqüência a

minha renda diminuiu. Se me acontecesse alguma

coisa, minha esposa ficaria numa péssima situação.

Esta apólice irá assegurar o futuro dela.

— Ela não fez objeções? — perguntou Evans

de forma casual. — Algumas mulheres são contra,

sabe. Acham que dá azar, ou coisa semelhante.

— Não, Margaret é muito prática — retrucou

Merrowdene sorrindo. — Não é nem um pouco

supersticiosa. Na verdade, acho que a idéia partiu

dela. Não me queria ver preocupado.

Evans conseguira a informação que

procurava. Despediu-se logo depois. Sua boca

adquiria uma expressão severa. O falecido Sr.

Anthony também fizera um seguro de vida em

favor da esposa poucas semanas antes de morrer.

Acostumado a confiar em seus instintos,

sentia-se seguro de suas deduções, mas saber como

agir era um outro problema. Não queria prender

um criminoso em flagrante, mas impedir a execução

de um crime, o que era bem diferente e muito mais

difícil.

Passou toda a manhã imerso em reflexões.

Havia aquela tarde no comando uma festa de

barraquinhas em benefício da liga de caridade local,

e o ex-inspetor compareceu e participou da pescaria

de prendas, arriscou seu palpite quanto ao peso do

leitão, e entrou no jogo das argolas, sempre com a

mesma expressão concentrada no rosto. Até mesmo

investiu meia coroa nos conselhos de Madame Zara

e sua bola de cristal, sorrindo ao se lembrar de suas

próprias diligências oficiais contra as cartomantes.

Ele não prestou muita atenção à voz

monótona e entorpecedora da mulher até que uma

frase captou sua atenção:

— ... E breve, muito breve mesmo, o senhor

será envolvido numa questão de vida ou morte... de

vida ou morte para alguém.

— Ei, o que disse? — perguntou Evans

abruptamente.

— Trata-se de uma decisão. O senhor terá de

tomar uma decisão. Precisa ser cuidadoso, muito,

muito cuidadoso... Se cometer um erro um

pequenino erro...

— Sim?

Madame Zara estremeceu. Mesmo achando

que tudo aquilo era uma tolice, o inspetor ficou

impressionado.

— Devo avisá-lo: o senhor não pode se enganar. Se o fizer, vejo claramente o resultado — morte!

Esquisito, muito esquisito, ele pensou. Morte.

Estranho ela ter dito logo aquilo.

— Se eu cometer um erro, a conseqüência será

a morte de uma pessoa? É isto que quis dizer?

— Sim.

— Neste caso — retrucou Evans levantando-se

e dando à mulher uma moeda de meia coroa, — não

devo errar, não é?

Falou em tom de brincadeira, mas ao sair sua

boca adquirira uma expressão determinada. Ele não

podia cometer um lapso sequer. Fácil de dizer, mas

não tão fácil de evitar. Mas uma vida, uma valiosa

vida humana dependia disso.

Não tinha ninguém para ajudá-lo. Viu ao

longo o vulto do seu amigo Haydock, contudo não

devia contar com ele. Nada de intromissões em

assuntos alheios, era o lema de Haydock. E isso era

impossível naquele caso.

Haydock conversava com uma mulher.

Quando ela se afastou e encaminhou-se em sua

direção, o inspetor reconheceu-a. Era a Sr.a

Merrowdene. Seguindo um impulso, ele colocou-se

deliberadamente no caminho dela.

A Sr.a Merrowdene era uma bela mulher.

Possuía uma testa larga e serena, lindíssimos olhos castanhos e uma expressão tranqüila. Parecia uma

madona italiana, semelhança que ela acentuava

repartindo o cabelo no meio e prendendo-o atrás

das orelhas. Sua voz era profunda e hipnótica.

Sorriu para Evans, um sorriso aberto e cordial.

— Eu a reconheci de longe, Sr.a Anthony,

quero dizer, Sr.a Merrowdene — disse ele

consertando com rapidez o seu lapso deliberado

enquanto a observava disfarçadamente.

Ela não vacilou e sustentou com firmeza e

orgulho o olhar nele.

— Estava procurando o meu marido —

replicou com naturalidade. — O senhor viu-o em

algum lugar?

— Estava do lado de lá.

Os dois seguiram na direção indicada

conversando tranqüila e agradavelmente. O

inspetor sentiu aumentar a sua admiração. Que

mulher! Que autocontrole, que maravilhoso

aplomb! Uma mulher notável, e muito perigosa.

Muito perigosa, tinha a certeza.

Sentia-se ainda inquieto, embora satisfeito

com o seu primeiro passo. Ela estava avisada de que

fora reconhecida. Isto deixá-la-ia de sobreaviso. Não

iria arriscar-se. E havia ainda Merrowdene. Se

pudesse avisá-lo...

Encontraram o homenzinho contemplando

distraído uma boneca de porcelana que lhe coubera

numa rifa. A esposa sugeriu que fossem para casa e

ele concordou de boa vontade. A Sr.a Merrowdene

virou-se para o inspetor e convidou-o:

— Não quer tomar uma xícara de chá conosco,

Sr. Evans?

Haveria em seu tom um leve desafio? Ele

julgou que sim.

Seguiram para o chalé do casal conversando

sobre fatos amenos e banais. O sol brilhava, soprava

uma leve aragem, tudo ao redor era aprazível e

rotineiro.

A criada fora à quermesse, explicou a Sr.a

Merrowdene quando chegaram ao encantador e

antiquado chalé, e foi ao quarto retirar o chapéu. Na

volta colocou a chaleira para ferver num pequeno

fogareiro de prata e retirou de uma prateleira junto

à lareira três pratinhos e três pequeninas tigelas.

— Temos um chá chinês muito especial — ela

explicou — e sempre o bebemos no estilo chinês, em

tigelas e não em xícaras...

Ela interrompeu o que estava dizendo e

examinando mais de perto uma das tigelas, trocou-a

por uma outra com uma exclamação de

aborrecimento.

— George, mas que coisa mais sem jeito!

Esteve utilizando novamente essas tigelas, não?

— Sinto muito querida — desculpou-se o

professor. — Elas são muito adequadas aos meus

fins, e as que encomendei ainda não chegaram.

— Um dia desses você nos vai envenenar a

todos — admoestou-o a mulher com um sorriso. —

Mary vê essas tigelas no laboratório e torna a

guardá-las, sem se dar o trabalho de lavá-las, a

menos que haja algum resíduo bem visível no

fundo. Ora, outro dia mesmo você colocou cianeto

de potássio numa delas! Não percebe o perigo,

George?

Merrowdene demonstrou uma leve irritação.

— Mary não tem nada que remover utensílios

do laboratório. Ela está proibida de tocar em

qualquer coisa lá.

— Mas com freqüência deixamos lá nossas

xícaras de chá vazias. Como ela vai perceber a

diferença? Seja razoável, querido.

O professor dirigiu-se resmungando ao

laboratório, enquanto a Sr.a Merrowdene despejava

com um sorriso a água fervendo sobre o chá e

apagava com um sopro a chama do fogareiro de

prata.

Em sua perplexidade, Evans começou a perceber uma pequena luz. Por algum motivo a Sr.a

Merrowdene estava revelando o seu jogo. Seria

aquele o futuro “acidente”? Estava deliberadamente

chamando atenção para aquele fato para preparar o

seu álibi. Assim, um dia quando sucedesse o

“acidente”, ele seria forçado a testemunhar em favor

dela. Mas era uma estupidez da parte dela, pois

antes disso...

Subitamente ele prendeu a respiração. Ela

enchera as três tigelas de chá. Colocara uma diante

dele, outra em sua frente e a terceira numa mesinha

ao lado da poltrona diante da lareira em que o

marido costumava sentar-se, e ao fazê-lo um sorriso

estranho subiu a seus lábios.

Foi o sorriso que o advertiu.

Ele compreendeu!

Que mulher notável, que mulher perigosa! Ele

não poderia provar nada. Ela pensara que ele não

suspeitaria simplesmente porque era “cedo

demais”. Era uma mulher de uma incrível rapidez

de pensamento e ação.

Evans respirou fundo e inclinou-se para ela:

— Sr.a Merrowdene, sou um homem de

caprichos estranhos. Será que a senhora teria a

bondade de satisfazer a um desses meus caprichos?

Ela assumiu uma expressão de curiosidade, não de suspeita.

Evans levantou-se, pegou a tigela que estava

na frente dela e, levando-a até à mesinha,

substituiu-a pela tigela do marido que foi colocar

diante da Sr.a Merrowdene.

— Gostaria que tomasse esse chá.

Serenos, imperscrutáveis, os olhos dela

cruzaram-se com os do inspetor. Então, lentamente

o seu rosto perdeu a cor.

Ela estendeu a mão e pegou a taça. Ele

prendeu a respiração. E se estivesse errado, o tempo

todo?

A mulher levou a taça aos lábios, mas no

último momento, com um estremecimento,

inclinou-se para a frente e despejou com um gesto

rápido o conteúdo num vaso de avencas. Em

seguida recostou-se e fitou-o num desafio.

Evans deixou escapar um suspiro de alívio e

tornou a sentar-se.

— E agora? — indagou ela.

Sua voz modificara-se. Adquiria uma

expressão zombeteira, provocante.

Ele respondeu sóbria e tranqüilamente:

— A senhora é uma mulher muito inteligente,

Sr.a Merrowdene. Creio que me entenderá. Não

deve haver uma... repetição. Compreende o que quero dizer?

— Sim.

A voz era controlada, sem expressão. Ele fez

um gesto de assentimento, satisfeito. Ela era uma

mulher inteligente e não queria ser enforcada.

— A uma longa vida para a senhora e para

seu marido — disse ele significativamente enquanto

levava a taça aos lábios.

Seu rosto alterou-se numa horrível contorção...

Ele tentou gritar, levantar-se... Seus membros

crisparam-se, o rosto ficou roxo. Evans caiu da

cadeira em convulsões mortais.

A Sr.a Merrowdene inclinou-se para a frente,

observando-o. Um leve sorriso subiu-lhe aos lábios.

Ela falou baixo e gentilmente:

— O senhor cometeu um erro, Sr. Evans.

Pensou que eu quisesse matar George... Que

estupidez a sua, que grande estupidez...

Ficou sentada por um minuto observando o

morto, o terceiro homem que ameaçara atravessar-

se em seu caminho e separá-la do homem que

amava.

Seu sorriso aumentou. Parecia mais do que

nunca uma madona. Então levantou a voz e

chamou:

— George! George!... Venha aqui! Receio que tenha acontecido um acidente pavoroso... Pobre Sr.

Evans...