Um Acidente e Outras Histórias

Agatha Christie · Capítulo 8 de 9

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Um Acidente e Outras Histórias

Miss Marple Conta uma

HISTÓRIA

 

Meus queridos Raymond e Joan, acho que

nunca lhes contei um caso muito curioso que me

aconteceu há alguns anos. Não desejo de forma

alguma parecer presunçosa; sei que em comparação

com você, Raymond, que escreve aqueles livros

avançadíssimos sobre todos aqueles rapazes e

moças desagradáveis, e com você Joan, que pinta

aqueles quadros extraordinários cheios de pessoas

quadradas com curiosas protuberâncias (são

interessantíssimos, querida, como diz Raymond,

com muita delicadeza pois é o mais bondoso dos

sobrinhos), eu sou irremediavelmente vitoriana. Ad-

miro os Srs. Alma-Tadena e Frederic Leighton,

embora para vocês dois eles sejam

irremediavelmente vieux jeu. Mas o que é mesmo

que eu estava dizendo? Ah, sim, que eu não queria

parecer presunçosa mas não pude deixar de ficar

um pouquinho envaidecida porque só com o auxílio

de um pouquinho de bom-senso consegui resolver

um problema que estava desafiando cabeças muito

mais aguçadas do que a minha. Embora eu

realmente devesse ter visto desde o início que a solução era óbvia...

Bem, vou-lhes contar a minha pequena

história, e se acharem que me envaideci com a

minha participação na mesma, devem-se lembrar

que ao menos ajudei um ser humano que estava

numa grande aflição.

A primeira vez que ouvi falar neste caso foi

uma noite por volta das nove horas quando Gwen

(lembram-se de Gwen, a minha criadinha de cabelos

vermelhos?) veio avisar-me que o Sr. Petherick e um

outro cavalheiro queriam ver-me. Gwen,

corretamente, levara-os à sala de estar. Eu estava

lendo na sala de jantar porque acho um desperdício

acender duas lareiras no início da primavera.

Dizendo a Gwen que preparasse uma bandeja

com alguns cálices, dirigi-me à sala de estar. Não sei

se por acaso estão lembrados do Sr. Petherick que

morreu há dois anos atrás. Foi um bom amigo

durante muitos anos e cuidava de todos os meus

problemas legais. Era um homem muito perspicaz e

um excelente solicitador. Agora é o filho dele quem

trata dos meus interesses, um ótimo rapaz, muito

atualizado, mas que não me inspira tanta confiança

quanto o Sr. Petherick.

Expliquei ao Sr. Petherick sobre as lareiras e

imediatamente ele ofereceu-se para passar à sala de jantar e apresentou-me o amigo, o Sr. Rhodes, um

homem ainda jovem (não tinha muito mais do que

uns quarenta anos). Vi logo que ele tinha algum

problema muito sério. Suas maneiras eram

esquisitas, diria até que rudes se não tivesse

percebido que o pobre estava debaixo de uma

grande tensão.

Quando nos acomodamos na sala de jantar e

Gwen trouxe a bandeja, o Sr. Petherick explicou a

razão de sua visita.

— Miss Marple — disse ele — perdoará o seu

velho amigo por ter tomado uma liberdade?

Estamos aqui para consultá-la.

Não entendi o que ele queria dizer, mas ele

prosseguiu:

— Em casos de doença procuramos ouvir

duas opiniões: a do clínico da família e a do

especialista. É costume considerar mais valiosa a

segunda, mas não estou bem de acordo com isto. O

especialista só tem experiência no seu campo,

enquanto o clínico, embora talvez tendo menos

conhecimentos, possui uma experiência muito mais

ampla.

Compreendi o que ele queria dizer porque há

pouco tempo uma das minhas sobrinhas correu com

a filha a um conhecido dermatologista, sem consultar o médico da família que ela já considerava

um velho gagá. O especialista indicou um

tratamento dispendiosíssimo e só depois

descobriram que a criança estava com um tipo raro

de sarampo.

Menciono este caso (embora tenha horror a

digressões) para mostrar que aceitei o ponto de

vista do Sr. Petherick, embora não tivesse ainda

uma idéia de onde ele estava querendo chegar.

— Se o Sr. Rhodes está doente... — eu comecei

mas calei-me logo porque o pobre homem soltou

uma risada lúgubre.

— Espero morrer com o pescoço quebrado

dentro de alguns meses — declarou ele.

E o caso veio à baila. Ocorrera há pouco

tempo um assassinato em Barnchester, uma cidade

que fica a uns trinta quilômetros daqui. Na época

não prestei muita atenção ao caso, pois a aldeia

estava alvoroçada devido a uns incidentes com a

nossa enfermeira distrital, e os acontecimentos

exteriores como um terremoto na Índia e o

assassinato em Barnchester foram eclipsados pelo

nosso escandalozinho local. Apesar disso, lembrava-

me de ter lido a respeito de uma mulher

apunhalada num hotel, embora não tivesse fixado o

seu nome. Agora parecia que esta mulher fora esposa do Sr. Rhodes, e como se isso já não fosse

suficientemente ruim, suspeitavam que ele próprio

a matara.

Tudo isso o Sr. Petherick explicou-me com

muita clareza, dizendo que embora o veredicto do

inquérito preliminar tivesse sido “assassinada por

pessoa ou pessoas desconhecidas”, o Sr. Rhodes

tinha motivos para acreditar que provavelmente

seria preso dentro de um ou dois dias, e assim

procurara o Sr. Petherick e colocara-se em suas

mãos. O Sr. Petherick disse-me que naquela tarde

haviam estado com Sir Malcolm Olde, e que se o

caso fosse a julgamento, Sir Malcolm defenderia o

Sr. Rhodes.

Sir Malcolm era um advogado jovem, de

métodos modernos e já concebera uma certa linha

para a defesa. Porém o Sr. Rhodes Petherick não

estava inteiramente satisfeito com esta linha.

— As idéias de Sir Malcolm, minha cara Miss

Marple — disse o Sr. Petherick — estão deturpadas

pelo que chamo de “ponto de vista do especialista”.

Ele só vê uma coisa ao examinar um caso: a linha de

defesa mais plausível. E com isto às vezes ignora o

que para mim é o ponto vital: aquilo que realmente

aconteceu.

E após dizer-me algumas palavras bondosas e muito elogiosas sobre a minha perspicácia e o meu

conhecimento da natureza humana, ele pediu

permissão para contar-me a história na esperança

que eu pudesse sugerir alguma explicação.

Pude ver que o Sr. Rhodes estava totalmente

descrente de que eu lhe pudesse ser útil, e

aborrecido por ter sido levado à minha casa. Porém

o Sr. Petherick ignorou-o e relatou-me os aconte-

cimentos da noite de 8 de março.

O Sr. e a Sr.a Rhodes estavam hospedados no

Crown Hotel em Barnchester. A Sr.a Rhodes, que,

pelo que me deu a entender discretamente o Sr.

Petherick, era ligeiramente hipocondríaca,

recolhera-se ao leito logo após o jantar. Ela e o

marido ocupavam quartos contíguos ligados por

uma porta de comunicação. O Sr. Rhodes na ocasião

escrevia um livro sobre a pré-história e estava

trabalhando em seu quarto. Às onze horas, ele

arrumou os papéis e preparou-se para dormir, indo

ver antes de deitar se a mulher queria alguma coisa.

Encontrou a luz da cabeceira acesa e a mulher

deitada sobre a cama com um punhal no coração.

Estava morta pelo menos há uma hora, ou talvez

mais. Constataram-se os seguintes pontos: a outra

porta do quarto da Sr.a Rhodes que abria para o

corredor estava fechada por dentro e aferrolhada; a única janela do quarto estava trancada; segundo o

Sr. Rhodes, ninguém entrara no quarto, a não ser a

arrumadeira que trouxera um saco de água quente;

a arma encontrada no ferimento era uma adaga

italiana que a Sr.a Rhodes costumava usar para

cortar papéis e que estivera sobre a cômoda. A arma

não tinha impressões digitais.

A situação, portanto, resumia-se no seguinte: a

não ser o Sr. Rhodes e a arrumadeira, ninguém

havia entrado no quarto da vítima.

Indaguei sobre a criada.

— Foi o nosso primeiro cuidado — disse o Sr.

Petherick. — Mary Hill já trabalha há dez anos no

Crown Hotel, e não parece haver absolutamente

motivo algum para que ela de repente matasse uma

hóspede. Além disso, ela é muito obtusa, quase uma

débil mental. Sua história não varia: levou o saco de

água quente para a Sr.a Rhodes e encontrou-a

sonolenta, quase dormindo. Francamente, eu não

posso acreditar, e tenho certeza de que nenhum júri

acreditaria que ela cometeu o crime.

O Sr. Petherick prosseguiu acrescentando

alguns detalhes. No topo das escadas do Crown

Hotel existe uma pequena sala de estar onde os

hóspedes às vezes param para tomar uma xícara de

café. A última porta do corredor que sai à direita desta sala é a porta do quarto do Sr. Rhodes. Logo

em seguida o corredor dobra num ângulo reto

novamente para a direita, e a primeira porta é a

porta do quarto da Sr.a Rhodes. Na ocasião do

crime, essas duas portas podiam ser vistas por

testemunhas. A primeira, a do quarto do Sr. Rhodes,

que chamaremos de porta A, podia ser vista por

quatro pessoas: dois caixeiros-viajantes e um casal

idoso que tomava café. Segundo eles, a não ser o Sr.

Rhodes e a arrumadeira, ninguém entrou no quarto

A. Quanto à outra porta B no outro corredor, um

eletricista que estava trabalhando junto à mesma,

jura que ninguém entrou ou saiu da porta B, a não

ser a arrumadeira.

O caso sem dúvida era curioso e interessante.

Em face das circunstâncias, parecia que o Sr. Rhodes

tinha assassinado a esposa. Contudo eu podia ver

que o Sr. Pethefick estava convencido da inocência

do seu cliente, e o Sr. Petherick é um homem muito

sagaz.

No inquérito o Sr. Rhodes contara uma

história vaga e meio incoerente sobre uma mulher

que escrevera cartas ameaçadoras à sua esposa. Pelo

que compreendi, tal relato fora muito pouco

convincente. A pedido do Sr. Petherick, o Sr.

Rhodes repetiu sua história.

— Para ser sincero, eu mesmo nunca acreditei

nisso. Pensava que Amy inventara tudo.

Pelo jeito a Sr.a Rhodes fora dessas pessoas de

imaginação larga que romanceiam tudo o que lhes

acontece. A quantidade de aventuras que, a

acreditar nela, lhe aconteciam a cada ano era

simplesmente incrível. Se escorregava numa casca

de banana, dizia ter escapado por um triz da morte.

Se o abajur pegava fogo, fora salva no último

instante de uma casa em chamas. O marido

acostumara-se a não fazer caso de suas histórias e

simplesmente não deu importância ao caso de uma

criança ferida num acidente de carro e cuja mãe

jurara vingar-se dela. Esse tal acidente teria

acontecido antes do casamento da Sr.a Rhodes, e

embora ela tivesse mostrado ao marido umas cartas

que pareciam ter sido escritas por uma louca, este

suspeitara que a própria esposa as tivesse forjado.

Na verdade ela fizera isso umas duas vezes já. Era

uma mulher com tendências histéricas, ávida por

excitações constantes.

Ora, não me causou estranheza o

comportamento da Sr.a Rhodes. Na realidade temos

na aldeia uma mulher que age exatamente da

mesma forma. O perigoso é que quando acontece

realmente alguma coisa extraordinária com essas pessoas, ninguém acredita que estejam falando a

verdade. Pelo que compreendi, a polícia achou que

o Sr. Rhodes inventara essa história improvável

para afastar de si as suspeitas.

Perguntei se havia alguma mulher hospedada

sozinha no hotel. Parece que havia duas: a Sr.a

Granby, uma viúva anglo-indiana, e a Sr.ta

Carruthers, uma solteirona desengonçada que

trocava todas as consoantes sibilantes pelo xiz. O Sr.

Petherick acrescentou que a polícia realizara

investigações cuidadosas, e não encontrara ninguém

que tivesse visto alguma delas perto da cena do

crime, e não fora descoberta nenhuma ligação entre

as duas e o casal. Pedi-lhe uma descrição das duas

mulheres. Disse-me o Sr Petherick que a Sr.a Granby

tinha cabelos vermelhos muito maltratados e cerca

de uns cinqüenta anos. Suas roupas eram

extravagantes, feitas em sua maioria de seda india-

na. Já a Sr.ta Carruthers teria uns quarenta anos,

cabelos bem curtos, e usava pince-nez e costumes de

corte masculino.

— Ai, ai, ai. Isto dificulta muito as coisas.

O Sr. Petherick lançou-me um olhar

interrogativo, mas eu não quis acrescentar mais

nada no momento, e assim perguntei o que Sir

Malcolm Ode dissera.

Pelo jeito Sir Malcolm estava disposto a jogar

todos os seus trunfos na tese do suicídio. O Sr.

Petherick disse que o médico legista era totalmente

contrário a essa hipótese, além do fato que o punhal

não tinha nenhuma impressão digital. Contudo Sir

Malcolm estava certo de poder apresentar

testemunhos médicos conflitantes e sugerir uma

explicação para a ausência de impressões.

Perguntei ao Sr. Rhodes a sua opinião e ele

respondeu-me que achava todos os médicos uns

idiotas, mas que ele próprio não podia realmente

acreditar que a mulher houvesse se suicidado.

— Ela não era desse tipo — disse ele com

simplicidade e acreditei nele. Pessoas histéricas

geralmente não cometem suicídio.

Refleti um pouco e perguntei se a porta do

quarto da Sr.a Rhodes dava diretamente para o

corredor. O Sr. Rhodes disse-me que não, a porta do

quarto dava para um pequeno saguão que abria

para um lavatório. Fora esta porta do quarto para o

saguão que havia sido encontrada trancada e

aferrolhada por dentro.

— Sendo assim — retruquei — o caso me

parece extremamente simples.

E na verdade, era mesmo. O caso mais simples

do mundo. E no entanto ninguém conseguira ver isto.

Tanto o Sr. Petherick quanto o Sr. Rhodes

ficaram me olhando tão espantados que até fiquei

sem jeito.

— Talvez a Senhorita não tenha pesado bem

as dificuldades — disse o Sr. Rhodes.

— Pesei, sim — repliquei. — Só existem

quatro possibilidades: ou a Sr.a Rhodes foi morta

pelo marido, ou foi morta pela arrumadeira, ou

cometeu suicídio, ou então foi morta por um

estranho que ninguém viu entrar nem sair.

— Esta última hipótese é impossível —

interveio o Sr. Rhodes. — Ninguém podia entrar ou

sair pelo meu quarto sem que eu visse, e mesmo se

alguém conseguisse entrar no quarto de minha

mulher sem ser visto pelo eletricista, como poderia

ter saído deixando a porta trancada e aferrolhada

por dentro?

O Sr. Petherick olhou para mim e disse

encorajadoramente: — Bem, Miss Marple?

— Gostaria de fazer uma pergunta —

retruquei. — Sr. Rhodes, como era a arrumadeira?

Poderia descrevê-la?

Ele respondeu que não tinha reparado muito.

Acreditava que fosse mais alta do que baixa, mas

não se lembrava se os cabelos eram claros ou escuros. Voltei-me para o Sr. Petherick e fiz-lhe a

mesma pergunta.

Ele disse que ela era de estatura média, tinha

cabelos louros, olhos azuis e era muito corada.

O Sr. Rhodes comentou: — É melhor

observador do que eu, Petherick.

Atrevi-me a discordar e perguntei ao Sr.

Rhodes se poderia descrever a minha empregada.

Nem ele nem o Sr. Petherick conseguiram fazê-lo.

— Não vêem o que isto significa? —

perguntei. — Ambos estavam preocupados com os

próprios problemas, e a pessoa que os recebeu era

apenas uma criada. O mesmo se aplica ao Sr.

Rhodes no hotel. Estava absorto em seu trabalho e

viu somente uma arrumadeira, com um uniforme e

um avental. Porém o Sr. Petherick olhou a mesma

mulher de forma diferente, avaliando-a como uma

pessoa.

— E foi com isso que a assassina contou.

Como eles ainda não compreendiam, tive de

explicar.

— Acho que as coisas se passaram assim: a

arrumadeira entrou pela porta A, atravessou o

quarto do Sr. Rhodes para levar o saco de água

quente para a Sr.a Rhodes e saiu pelo saguão para o

corredor B. X, como chamaremos a assassina, entrou pela porta B no pequeno saguão, escondeu-se no

lavatório e esperou até a arrumadeira sair. Então

entrou no quarto da Sr.a Rhodes, apanhou a adaga

em cima da cômoda (sem dúvida explorara o quarto

antes), dirigiu-se até à cama, apunhalou a mulher

adormecida, limpou o cabo da adaga, trancou e

aferrolhou a porta pela qual entrara e saiu pelo

quarto em que o sr. Rhodes trabalhava.

O Sr. Rhodes interveio: — Mas eu tê-la-ia

visto! E o eletricista também a teria visto entrar!

— Não, aí é que o senhor se engana — eu

disse. — O senhor não a veria, não, se ela estivesse

com um uniforme de arrumadeira.

Deixei a idéia penetrar-lhes no cérebro e então

continuei:

— O senhor estava absorto em seu trabalho.

Pelo canto do olho viu uma arrumadeira entrar, ir

até o quarto de sua esposa e sair. Era o mesmo

uniforme, mas não era a mesma mulher. Foi isso

que as pessoas que tomavam café viram: uma

arrumadeira entrar, e uma arrumadeira sair. O

mesmo se deu com o eletricista. Eu diria que se

arrumadeira fosse bonita, a natureza humana sendo

o que é, os homens teriam notado o seu rosto. Mas

como ela era apenas uma prosaica mulher de meia

idade... Bem, todos viram apenas o seu uniforme, não a mulher em si.

O Sr. Rhodes bradou: — Quem era ela?

— Bem — retruquei — isso vai ser um pouco

difícil. Deve ter sido ou a Sr.a Granby ou a Sr.ta

Carruthers. Pela descrição eu diria que é possível

que a Sr.a Granby use habitualmente uma peruca,

podendo simplesmente tê-la retirado para

desempenhar o papel de arrumadeira. Por outro

lado, a Sr.ta Carruthers com o seu cabelo bem curto

poderia facilmente enfiar uma peruca para

desempenhar o seu papel. Mas acho que os

senhores descobrirão facilmente qual das duas é a

assassina. Pessoalmente, aposto na Sr.ta Carruthers.

E na realidade, meus queridos, foi assim que

terminou a história. Carruthers era um nome falso, e

ela era mesmo a mulher que procurávamos. Havia

insanidade em sua família. A Sr.a Rhodes fora uma

motorista extremamente descuidada e perigosa e

atropelara a sua filhinha. A perda levara a pobre

mulher à loucura. Ela ocultara com muita

sagacidade a sua insanidade que só transparecera

nas cartas alucinadas que havia escrito para a sua

futura vítima. Há algum tempo ela estava seguindo

a Sr.a Rhodes e preparara cuidadosamente os seus

planos. Na manhã seguinte ao crime despachara

pelo correio bem cedo o uniforme de arrumadeira e a peruca. Ao ser acusada sucumbiu e confessou

logo. A pobre está internada em Broadmoor agora.

Era completamente louca, sem dúvida, mas

planejou o crime com muita astúcia.

O Sr. Petherick procurou-me mais tarde

trazendo-me uma carta muito delicada do Sr.

Rhodes. Na verdade, cheguei a corar. O meu amigo

perguntou-me nessa ocasião: — Só mais uma

coisinha: o que a faz pensar que era mais provável

que a assassina fosse a Sr.ta Carruthers, e não a Sr.a

Granby? Nunca tinha visto nenhuma delas!

— Bem — respondi — foi a dicção dela. O

senhor mesmo me disse que ela trocava todas as

consoantes sibilantes pelo xis. Ora, na realidade isso

é muito pouco comum, principalmente numa

mulher ainda jovem, de uns quarenta anos. Todos

esses xises me pareceram simplesmente um exagero

de encenação de alguém que estava representando

um papel.

Não lhes direi o que o Sr. Petherick retrucou,

mas foi algo muito elogioso para mim, e na verdade

não pude evitar de me sentir um bocadinho

envaidecida.

Sabem, é extraordinário como muitas coisas

nesse mundo às vezes acontecem para o bem. O Sr.

Rhodes casou-se novamente, desta vez com uma moça muito simpática e sensata. Os dois agora têm

uma menininha linda e — adivinhem só — convida-

ram-me para madrinha.

Não foi muito gentil da parte deles?

Só espero que não achem que eu me esteja

estendendo demais...