Vozes femininas da poesia latino-americana: Cecília e as poetisas uruguaias

Apreciações sobre a prática do ensaio ceciliano

Apreciações sobre a prática do ensaio

ceciliano

 

No ano de 1935, Cecília Meireles é nomeada professora de literatura da Universidade do Distrito Federal, que havia sido fundada em abril do mesmo ano. Além de oferecer cursos livres sobre Literatura Oriental, ela também chega a ministrar aulas nas disciplinas "Literatura Luso-brasileira" e "Técnica e Crítica Literária". Como se sabe, essa instituição não perdura muito, por conta das instabilidades políticas da época, sendo extinta em 1939. Um ano depois, já casada com Heitor Grillo, ela vai dar aulas no Texas, na Universidade de Austin. A partir desse período em que a escritora exerce a atividade de docente universitária, é interessante observar sua vasta produção crítica, que engloba desde traduções a palestras sobre literatura proferidas em diversos países.

Em relação às conferências, sobressaem-se "Batuque, samba e macumba", realizada no ano de 1934, em Portugal, e publicada um ano depois em separata do Mundo Portuguê-s; Problemas da literatura infantil (1951), que se refere a uma série de palestras sobre litera-tura infantil, lançada pela Imprensa Oficial de Minas Gerais; "O elemento oriental em García Lorca", editada em 1956 pela Fundação Dulcina; "O folclore na literatura brasileira", pronunciada na capital gaúcha em 1957. Também são bastante relevantes as conferências proferidas nos Estados Unidos e México sobre literatura e cultura brasileiras em 1940; na Casa dos Açores, no ano de 1955, com João Afonso e Vitorino Nemésio, assim como as cinco palestras ministradas em 1958 em Israel; e, por fim, o objeto de análise deste trabalho, a conferência "Expressão feminina da poesia na América", proferida em 1956 e publicada em 1959 pelo MEC no volume Trê-s conferê-ncias sobre cultura

hispano-americana.

"Expressão feminina da poesia na América" corresponde, em linhas gerais, a um ensaio que apresenta um panorama da produção lírica de autoria feminina na América hispânica, em que se discute a maneira como essas mulheres se manifestam dentro do âmbito literário, em especial, na poesia.

Sobre o caráter do ensaio, não somente o termo em sua concepção atual, mas também seu entendimento como gênero estético teriam sido criados por Montaigne, em 1580, com a sua obra Essais (Lima, 1946, p.9). Para o filósofo francês, a escritura ensaística cor responde a um exercício da razão, uma negação do autoritarismo, uma atitude crítica. Segundo enfatiza Silvio Lima, a natureza crítica do ensaio já está na própria etimologia do vocábulo, que se origina de exagium, ou seja, examinar, analisar. Assim, o autoexercício, uma maneira de treinar o conhecimento, faz parte do sentido imanente desse gênero.

A experiência, o saber que provém da vida, também equivale a outro aspecto do texto ensaístico: "vivê-ncia, universalidade, exercício, autonomia crítica. Elas representam o nervo não só do ensaio deMontaigne, mas de todo o ensaio e de o ensaísmo em geral" (Lima, 1946, p.63, grifo do original).

Assim como Montaigne, Georg Lukács vê o ensaio como "experimentos em si mesmos" ou "autoexperimentos", conforme apontou Carlos Eduardo J. Machado (2004, p.17-8). Em outras palavras, seria uma maneira de pensar por si só e para si só, exercitando o livre exame, o espírito crítico. Em "Sobre a essência do ensaio: carta a Leo Popper", prefácio de Almas e formas (1911), o autor húngaro trata do ensaio como "'estudos históricos-literários'. Como tal ele é uma crítica científica como gênero artístico: o ensaio é uma forma de arte". (Machado, 2004, p.12)

Sabe-se que na Europa central, principalmente na Alemanha, a forma ensaística tem grande importância; será utilizada para desenvolver estudos minuciosos sobre questões relacionadas à cultura, entre outros assuntos. Compartilhando essa "visão peculiar" sobre o ensaio, juntamente a Lukács, há nomes como Walter Benjamin, Georg Simmel, Karl Krauss, Rudolf Kassner e Theodor Adorno (Machado, 2004 p.13). Para este último:

O ensaio, porém, não admite que seu âmbito de competência

lhe seja prescrito. Em vez de alcançar algo cientificamente ou

criar artisticamente alguma coisa, seus esforços ainda

espelham a disponibilidade de quem, como uma criança, não

tem vergonha de se entusiasmar com oque os outros já fizeram.

O ensaio reflete o que é amado e odiado, em vezde conceber o

espírito como uma criação a partir do nada, segundo o modelo

de uma irrestrita moral do trabalho. Felicidade e jogo lhe são

essenciais. Ele não começa com Adão e Eva, mas com aquilo

sobre o quedeseja falar; diz o que a respeito lhe ocorre e

termina onde sente terchegado ao fim, não onde nada mais

resta a dizer: ocupa, desse modo,um lugar entre os

despropósitos. (Adorno, 2003, p.16-7, grifos meus)

Conforme apontou Adorno sobre o caráter elementar do ensaio, este não apresenta um comprometimento enquanto forma. Oscila entre o científico e o artístico, joga despropositadamente com o conteúdo explorado. Assim, por meio de um tom "descompromissado", "Expressão feminina da poesia na América" se coloca de maneira contestadora, propondo uma série de reflexões sobre a escrita de autoria feminina latino-americana. É desse modo, "como uma criança que não tem vergonha", que o texto ceciliano esboça a face precursora da escritora brasileira, no que tange aos estudos acerca da crítica feminista no Brasil, abrindo caminho para novas discussões que giram em torno desse tema polêmico. Ser pioneiro, como Cecília mesma mencionou na crônica "Precursoras brasileiras", trata-se de uma tarefa difícil, "nem sempre é uma grande virtude; pode ser simples casualidade. Mas, afinal de contas, é sempre uma casualidade importante".

Nesse sentido, pretende-se, a seguir, analisar minuciosamente o referido ensaio de Cecília Meireles, com o intuito de mostrar a atuação de Cecília frente aos estudos literários feministas na América Latina, pontuando como esse trabalho progressivo e permanente de reflexão, característico do gênero ensaístico, está presente em seu texto.