Vozes femininas da poesia latino-americana: Cecília e as poetisas uruguaias

Crítica feminista na América Latina

 

Al buscar nuestra palabra y exponerla en forma de escritura

estamos estableciendo nuestro orden símbólico. Al abrir nuestra

palabra estamos concurriendo con una visión más en las

diversas visiones del imaginario colectivo que es la cultura. Al

atrevernos a exponer nuestro deseo en la palabra, no estamos

ya hablando desde la carencia. Pero al escribirnos, sobre todo,

nos estamos "constituyendo como raza", inventándonos,

creando nuestra identidad – realidad – sujeto mujer y mestiza.

Soledad Farina

A prática do feminismo em países do Terceiro Mundo apresenta um traço bastante peculiar, manifestando-se nas atividades políticas. Estudiosas como Beatriz Sarlo e Jean Franco chamam a atenção para a importância que as mulheres tiveram no processo político latino-americano.

Na América Latina, dois eventos contribuíram para o

ressurgimento dos movimentos de mulheres – os regimes

autoritários dos anos 70 e a dificuldade extrema provocada pela

crise das dívidas externas e pelas políticas neoconservadoras

postas em prática sem o escudo protetor do Estado de bem-

estar social. (Franco, 1992, p.11)

Convém ainda lembrar que, apesar da presença de estudos teóricos nas décadas de 1970 e 1980, é a partir da segunda metade dos anos 1980 que aparecem notáveis reflexões que permeiam a crítica feminista na América Latina. Jorgelina Corbata (2002, p.15) cita como marco a obra La sartén por el mango (1985), organizada por Patricia Elena González e Eliana Ortega, em que se notam trabalhos pioneiros, como "La crítica literaria feminista y la escritora en América Latina", de Sara Castro Klaren, e "Las tretas del débil", de Josefina Ludmer. Corbata também destaca a atuação de Sylvia Molloy e Beatriz Sarlo no livro Women's writing in Latin American (1991). Essas autoras, em síntese, irão propor uma releitura das feministas francesas e anglo-americanas, pensando nas particularidades étnico-político-sociais do Terceiro Mundo.

Sob esse aspecto, os estudos de Gloria Anzaldúa, Tey Diana Rebolledo e Norma Aracón vão ao encontro das discussões que problematizam o poder e o discurso autoritário exercido pelas teorias vindas de fora da América Latina.

Com ênfase na relação entre Norte/Sul, Francine Masiello (1996), no artigo "Tráfico de identidades: mujeres, cultura y política de representación en la era neoliberal", resgata as reflexões de Jean Franco para alertar sobre os riscos do discurso dominante difundido pelas metrópoles. Acerca disso, Corbata comenta:

En su análisis del poder de la mediación como discurso cultural,

a Masiello le interesa sobre todo su examen en relación con la

identidad femenina. Y es allí donde encuentra que las autoras

norteamericanas que estudian mujeres latinoamericanas

practican a menudo formas de rescate y conversión en el

proceso de lo que llama "fantasear al otro", acentuando en

especial las diferencias entre el sistema del norte y del sur.

(Corbata, 2002, p.31)

Já Nelly Richard, sob influência da escola francesa, analisa as especificidades do feminino dentro do contexto latino-americano, observando:

Esta concepción interactiva de la diferencia-mujer es sin duda la

que mejor sirve de reflexión del femenismo latinoamericano ya

que permite pluralizar el análisis de las muchas gramáticas de

la violencia, de la imposición y de la segregación, de la

colonización y de la dominación, que se intersecta en la

experiencia de la subartenidad. (Richard apud Corbata, op.cit.,

p.35)

Ainda em relação às questões que permeiam os possíveis aspectos característicos da escrita de autoria feminina, tem-se o notável ensaio de Cristina Piña, "Las mujeres y la escritura: el gato de Cheshire". Nesse texto, com base nas ideias de Kristeva, a autora fala de certos temas e formas recorrentes na produção de algumas escritoras.

No que se refere ao posicionamento da crítica tradicional, vale destacar as considerações de Sylvia Molloy (1991), que mostra como a imagem de muitas escritoras é construída de maneira estereotipada:

la visión de Delmira Agustini como la virgen licenciosa;

Alfonsina Storni como una ridícula virago; Victoria Ocampo

como la anfitriona con veleidades intelectuales; Gabriela Mistral

como la madre espiritual; Norah Lange como la dadaísta

extravagante y Silvina Ocampo como la excéntrica perversa.

(Molloy apud Corbata, 2002, p.20-1, grifos do original)

Outro nome de grande representatividade no que diz respeito aos estudos da crítica feminista na América Latina é o de Rosario Castellanos; segundo apontou Beth Miller (1987, p.94), "Castellanos viu desde cedo os problemas da mulher dentro de um contexto social, econômico e histórico. Ela relaciona a luta da mulher com outras lutas". Miller ainda considera a atuação da escritora mexicana como um "ponto de partida do movimento feminista contemporâneo no México" (ibidem, p.98).

Sob influência das obras de Woolf e Beauvoir, Castellanos também irá problematizar o desnível socioeconômico existente entre a América Latina e os Estados Unidos, questionando a falta de iniciativa das mulheres mexicanas. "Será que não há mulheres entre nós? Será que os rituais de abnegação as atarantou de tal maneira que não se dão conta de quais são as suas condições de vida?" (Castellanos apud Miller, op.cit., p.97)

Ainda no México, destaca-se o nome de Eliana Poniatowska, como os de Luisa Valenzuela e Tununa Mercado, na Argentina; Cristina Peri Rossi, no Uruguai; Diameda Eltit e Gabriela Mora, no Chile. Esta última vê a crítica feminista como aquela capaz de realizar uma leitura que questione "os cânones estabelecedores de hierarquias de qualidade, obrigando o reexame dos princípios e os métodos que têm contribuído para formar nossos juízos" (Duarte, 1990, p.21).

De acordo com o que foi mencionado até o momento, percebe-se que as ideias difundidas por francesas e anglo-americanas foram cruciais para a tomada de consciência das feministas nos países subdesenvolvidos. Ao tratar, entretanto, de crítica feminista latino-americana, as preocupações atuais consistem em não perder de vista as particularidades evidentes na América Latina.

É importante mencionar que o enfoque pós-colonialista, com base nas ideias de Foucault sobre poder, irá despertar na crítica feminista desta região um olhar mais atento às questões que norteiam a condição de marginalizados quanto à língua, ao discurso e à identidade em relação à Europa.

Conforme destaca Heloisa Buarque de Hollanda, analisar as questões relacionadas aos diversos contextos sociais na América Latina é essencial, já que "apontam um caminho interessante para a própria ampliação e para o desenvolvimento da reflexão feminista contemporânea" (Hollanda, 1992, p.9).

Compartilhando dessa ideia, em "Como e porque somos feministas", Simone Pereira Schmidt (2004) atenta para a importância de olhar as especificidades da América Latina, sem deixar de lado a contribuição das "matriarcas", como ela denomina, ou mesmo as teorias vindas de outros países.

Não há como, efetivamente escrever a história do feminismo

reivindicando uma especificidade construída a partir de fora da

nossa experiência. Por isso talvez a tarefa mais urgente para a

teoria feminista agora seja a de reler sua história do movimento

de mulheres na América Latina e as teorias produzidas no

espaço acadêmico, traduzidas (no sentido de tradução

assinalado por Homi Bhabha como tarefa da crítica pós-Diante dessa perspectiva, pode-se afirmar que a principal proposta da crítica feminista na América Latina hoje é fazer outra leitura das teorias europeias e norte-americanas, com a finalidade de estabelecer um corpus teórico, fundamentado em suas respectivas circunstâncias, que apresente, portanto, as especificidades culturais latino-americanas.

colonial) dos grandes centros hegemônicos. (Schmidt, 2004,

p.21)

Ainda sobre esse assunto, Suely Gomes Costa (2004) observa que as discussões que giram em torno das desigualdades entre os sexos prevaleceram em relação ao tema da subordinação de classes/ etnias/raças.

Ainda que o paradigma do patriarcalismo tenha sido relevante

para o processo de tomada de consciência das relações de

poder e dominação entre os sexos, é preciso revê-lo. Esta

escolha teórica oculta muito da complexidade social, quando

desconsidera sistemas de poder e subordinação, postos pelas

relações de classes etnias/raças e gerações em suas

interseções; aqueles "entre lugares" de que fala Homi Bhabha.

(Costa, 2004, p.25)

A respeito dessa questão, Jean Franco chama a atenção também para o fato de o movimento feminista ainda representar os interesses da classe média, presos aos ideais dos movimentos

europeus e norte -americanos:

apesar do número crescente de grupos feministas na América

Latina e do sucesso dos três encuentros feministas, o

feminismo enquanto tal ainda está muito no âmbito das classes

médias, principalmente da itelligentsia familiarizada com os

movimentos da Europa e dos EstadosUnidos. [...] Embora

muitos grupos feministas da América Latina enfatizem sua

"autonomia" por não desejarem que os objetivos feministas se

subordinem à política dos movimentos de mulheres, é

exatamente essa relação que dá ao feminismo latino-americano

uma forma bem distinta. Há um imperativo social na América

Latina do qual não se pode fugir. Esse imperativo social não

aparece só nos encuentros feministas, mas também, de forma

mais perturbadora e controvertida,nos textos de mulheres.

(Franco,1992, p.12)