Vozes femininas da poesia latino-americana: Cecília e as poetisas uruguaias

Ao redor das crônicas cecilianas

 

 

Sabe-se que Cecília Meireles também se dedicou à escrita de crônicas, publicadas em diversos jornais, como Diário de Notícias,A Manhã, Correio Paulistano, entre outros. Não é de se estranharque, diante do próprio gênero, os temas tratados nesses textos sejam os mais diversos. No que concerne às crônicas que indicam o engajamento ceciliano diante das questões do feminismo, cabe destacar "Toda América unida para vitória", publicada pela primeira vez em 24 de março de 1943 em A Manhã; e "Precursoras brasileiras", editada inicialmente na Folha Carioca de 19 de junho de 1945.

"Toda América unida para vitória" começa com Cecília relatando o recebimento do Emblema da Vitória que lhe foi enviado dos Estados Unidos por Evangelina A. de Vaughan. Esta, confor me destaca a poetisa brasileira, "é uma senhora peruana, radicada em Nova York, antiga presidente da Unión de Mujeres Americanas, grande animadora do movimento feminino dos Estados Unidos e em todas as Américas" (Meireles, 1998, p.35). O emblema, de acordo com as palavras de Vaughan, "simboliza todos os anelos da mulher americana, defensora dos ideais democráticos" (ibidem, p.35)

O texto segue comentando a importância da figura feminina nos Estados Unidos. A mulher americana é apontada aqui como um elemento de equilíbrio a essa sociedade:

A mulher americana é um elemento suavizador [...] Na América,

o homem ganha dinheiro, – mas a mulher estuda maneiras de

usá-lo em benefício social. E, como a ação feminina é, na

verdade, eficiente, os dois resultados se equilibram, causando,

em tempos normais, o bem-estar dos grupos em que influem.

(Ibidem, 1998, p.36)

Cecília ainda esclarece que o emblema tem como finalidade principal proporcionar melhores condições de estudos às mulheres de países sul-americanos:

a campanha do Emblema da Vitória se destina a estabelecer,

com o produto da sua venda, fundos para bolsas de estudo a

serem oferecidas às mulheres das repúblicas sul-americanas

que desejarem estudar nos Estados Unidos, preparando-se

para a defense work. (Ibidem, p.38)

Cabe lembrar que essa crônica foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial. Diante desse contexto, chama-se a atenção para a consciência feminina que apesar de vivenciar momentos conturbados, consegue pensar e agir em prol de um mundo menos desigual:

Multiplicam-se os aviões, submarinos, bombas, tanques de

guerra e o número de mortos. Mas as mulheres americanas

pensam na resistência, na defesa, na união de todas as

mulheres de boa vontade – o que significa uma educação

melhor da humanidade futura, uma outra compreensão das

coisas, uma estrutura diferente do mundo. Sem dúvida os

homens querem o mesmo: mas querem-no aos berros, berros

de canhão, de altos explosivos, berros de desespero, de

sofrimento, de maldição. (Meireles, 1998, p.38)

Por meio desses comentários realizados por Cecília Meireles, é possível notar o seu comprometimento com as questões que englobam o feminismo; prova disso é o recebimento do Emblema da Vitória, destinado a pessoas que se distinguem na causa da união entre os países americanos, como também aquelas que se preocupam com os interesses da mulher.

Em relação à crônica "Precursoras brasileiras", Cecília menciona uma entrevista cedida por ela em Washington a uma jovem jornalista. A cronista fala do entusiasmo da entrevistadora em querer saber algo que fosse "primeiro": "E nunca mais me esqueci do interesse daquela jovem por essa definição de pioneira, que parecia significar tanto, aos seus olhos" (ibidem, p.227). Partindo dessa observação, a autora chama a atenção para o trabalho de Barros Vidal, a quem ela aponta como grande precursor, uma vez que ele publica um livro a respeito de mulheres brasileiras que se destacaram em diversos âmbitos sociais. Ainda sobre Barros Vidal, a poetisa salienta:

ele é um precursor, à frente de suas precursoras; também ele

realiza o que não fora realizado, vencendo com longa

perseverança os abismos de silêncio e as florestas de enredos

que se abrem e se fecham diante dos passos de todos que

querem, na verdade caminhar. (Ibidem, p.228)

O trabalho de Vidal, para Cecília, representa um estudo notável que resgata a história dessas mulheres pioneiras, mostrando, por conseguinte, a dificuldade que elas enfrentaram por terem sido "as primeiras":

fazer pela primeira vez alguma coisa que não está prevista na

rotina dos tempos, enfrentar os preconceitos, sobretudo quando

se é pobre mulher, –criatura a quem nem todos ainda conferem

o masculino privilégio (ai, tão mal empregado!) de ter alma...?

[...] não afasto a da gratidão que o autor merece, da parte de

toda mulher que se tenha esforçado em realizar obra de

utilidade – quando neste mundo, segundo opiniões abalizadas,

e seguidas, uma mulher já faz muito quando consegue ser

bonita. (Meireles, 1998, p.228, grifos meus)

Nesse último fragmento, toca-se nitidamente na questão do preconceito sofrido pelas mulheres e dos rótulos que lhes são empregados. Fica clara aqui também a indignação da cronista diante dessa postura masculina.

A autora conclui, dessa forma, que ser "primeiro" é uma tarefa tanto importante quanto difícil e necessária:

Ser-se o primeiro em qualquer coisa nem sempre é uma grande

virtude; pode ser simples casualidade. Mas, afinal de contas, é

sempre uma casualidade importante. O pioneiro não faz

obrigatoriamente, as melhores coisas; mas, às vezes, o difícil é

mesmo começar – e depois que alguém deu um passo, embora

não muito seguro nem muito avançado, já o caminho pode ir

ficando mais compreensível, e daí por diante a marcha se vai

fazendo como por si mesma, rápida e natural. (Ibidem, 1998,

p.227)

No que tange à atuação intelectual de Cecília Meireles, parece que ela, assim como as "precursoras" de Vidal, posiciona-se de maneira bastante pioneira. Ainda convém mencionar a colaboração da escritora brasileira a partir de 1930 no periódico Portugal Feminino (Oliveira, 2006). Trata-se de uma revista envolvida com as causas feministas que contou com a participação tanto das portuguesas quanto das brasileiras. Além da contribuição de textos de mulheres ligadas ao CNMP (Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas), representantes do Brasil, como Bertha Lutz, também cooperaram com seus artigos combativos. Publicaram nesse periódico, junta mente com Cecília, escritoras como Florbela Espanca, Ana de Castro Osório, Fernanda de Castro, entre outras. Sobre PortugalFeminino comenta Rosa Maria Lamas:

O tom de modéstia inicial, quando foi fundada a revista, mudou

rapidamente num de crescente confiança no projecto. A razão

principal deste optimismo estava certamente na colaboração de

escritoras epoetisas famosas do meio literário portuguê-s e

brasileiro, mas devia-setambém ao facto de o Portugal

Feminino oferecer as suas páginas a poetisas desconhecidas –

e é aqui que encontramos muitos nomes de membros do

CNMP.(Lamas, 1993, p.98, grifo meu)

Depois de transitar pelos textos poéticos e pelas crônicas de Cecília Meireles, cabe, agora, destacar a atuação de Cecília como tradutora, atividade que também revela uma preocupação da autora brasileira em tratar de assuntos relacionados ao universo feminino