A Balada de Adam Henry
Capítulo 1
Londres. Sessões do tribunal encerradas havia um a sem ana. O tem po im placável de j unho. Fiona May e, j uíza do Tribunal Superior, em casa na noite de dom ingo e deitada num a chaise longue, olha além de seus pés calçados com m eia para o fundo da sala e a vista parcial das estantes em butidas j unto à lareira; do lado oposto, perto de um a j anela alta, um a pequena litografia de Renoir representando um a m ulher no banho, com prada trinta anos atrás por cinquenta libras. Provavelm ente falsa. Abaixo da gravura, no centro de um a m esa redonda de nogueira, um vaso azul. Nenhum a recordação de sua origem . Nem de quando pusera flores nele pela últim a vez. Havia um ano a lareira não era acesa. Gotas de chuva enegrecidas caíam de form a irregular no suporte de ferro da lareira, estalando ao se chocarem com as folhas de j ornal am arrotadas que j á com eçavam a am arelar com o passar do tem po. Um tapete Bokhara cobrindo as largas tábuas enceradas. Na m argem de seu cam po de visão, um piano de cauda curta sobre cuj o tam po negro e reluzente se viam fotografias da fam ília em m olduras de prata. No chão, ao lado da chaise longue e a seu alcance, o rascunho de um a sentença. E Fiona, deitada de costas, desej ando que todas aquelas coisas fossem parar no fundo do m ar.
Na sua m ão, o segundo copo de uísque com água. Ela estava trêm ula depois de um a discussão m uito desagradável com o m arido. Raram ente bebia, m as o Talisker com água da torneira era um bálsam o, e ela pensou que poderia atravessar a sala até o aparador para se servir de um terceiro. Menos uísque, m ais água, pois estaria no tribunal am anhã e agora era a j uíza de plantão, disponível para atender a qualquer pedido repentino em bora ainda estivesse se recuperando. Ele tinha feito um a declaração chocante e lhe im posto um fardo insuportável. Pela prim eira vez em anos ela havia de fato gritado, e um tênue eco ainda soava em seus ouvidos. “Seu idiota! Seu idiota de merda!” Desde suas visitas alegres a Newcastle, quando adolescente, ela não tinha dito um único palavrão em voz alta, em bora algum a palavra possante vez por outra invadisse seus pensam entos quando ouvia um a argum entação interesseira ou um a opinião legal irrelevante.
E então, não m uito depois, ofegante com o insulto, disse em voz alta pelo m enos duas vezes: “Com o você ousa m e dizer isso?”.
Não chegava a ser um a pergunta, m as ele respondeu calm am ente. “Eu preciso. Tenho cinquenta e nove anos. É m inha últim a chance. Ainda não m e m ostraram nenhum a prova de vida no Além .”
Um com entário presunçoso, e ela ficou sem palavras. Apenas o olhou fixam ente, talvez de boca aberta. Agora, deitada na chaise longue, lhe ocorreu a resposta: “Cinquenta e nove? Jack, você tem sessenta! É patético, é vulgar”.
Na verdade, o que ela havia dito, sem m uita convicção, foi: “Isso é ridículo dem ais!”.
“Fiona, qual foi a últim a vez que fizem os sexo?”
Quando tinha sido? Ele j á havia perguntado isso antes, em tons que variavam do queixoso ao irritadiço. Mas o passado recente, m ovim entado dem ais, é difícil de recordar. A Vara de Fam ília fervilhava com estranhos conflitos, argum entos especiosos, m eias verdades íntim as, acusações exóticas. E, com o em todos os ram os do direito, pequenas peculiaridades circunstanciais precisavam ser assim iladas rapidam ente. Na sem ana anterior ela ouvira as alegações finais de um casal de j udeus, com graus diversos de ortodoxia, que estava se divorciando e disputava a educação das filhas. O rascunho da decisão estava no chão ao lado dela. No dia seguinte, se apresentaria diante dela um a inglesa desesperada, m agérrim a e pálida, altam ente educada, convencida de que, m algrado as garantias dadas pela corte, sua filha estava prestes a ser levada pelo pai, um hom em de negócios m arroquino e m uçulm ano praticante, para viver em Rabat, onde ele pretendia se instalar definitivam ente. Além disso, disputas rotineiras sobre a residência de crianças, casas, pensões, rendas, heranças. Só as grandes fortunas vinham ao Tribunal Superior. A riqueza em geral não conseguia trazer um a felicidade duradoura. Os pais logo aprendiam o novo vocabulário e os procedim entos legais aplicáveis às crianças, pasm os ao se verem com batendo a pessoa que um dia haviam am ado. E, aguardando nos bastidores, m eninos e m eninas identificados apenas pelo prim eiro nom e nos docum entos constantes dos processos, pequenos Bens e Sarahs, atônitos, se abraçando enquanto os deuses acim a deles batalhavam até o am argo fim , indo da Vara de Fam ília para o Tribunal Superior e de lá para o Tribunal de Recursos.
Todo esse sofrim ento tinha tem as em com um , refletindo a uniform idade dos com portam entos hum anos, m as continuava a fasciná-la. Ela acreditava ser capaz de inj etar razoabilidade em situações onde não havia m ais esperança. De m odo geral, acreditava nos preceitos da Lei da Criança. Em m om entos de otim ism o, considerava esse estatuto um m arco im portante no progresso da civilização, por colocar, num texto legal, as necessidades das crianças acim a das de seus pais. Os dias de Fiona May e eram cheios e à noite, recentem ente, se sucediam os j antares, um a com em oração no Middle Tem ple Hall em hom enagem a um colega que se aposentava, um concerto no Kings Place (Schubert, Scriabin), e táxis, m etrô, roupas para buscar na lavanderia, a redação de um a carta a fim de arranj ar um a escola especial para o filho autista da arrum adeira e, por fim , algum as horas de sono. Onde entrava o sexo? No m om ento, ela não sabia dizer.
“Eu não costum o anotar.”
Ele estendeu as m ãos, encerrando a discussão.
Ela o viu atravessar a sala e se servir de um a dose de uísque, o Talisker que ela estava bebendo. Ultim am ente ele parecia m ais alto, com m ovim entos m ais ágeis. Enquanto observava suas costas, veio-lhe a fria prem onição de que seria rej eitada, a hum ilhação de ser trocada por um a m ulher m ais j ovem , deixada para trás, inútil e solitária. Ela se perguntou se deveria sim plesm ente aceitar qualquer coisa que ele quisesse, m as depois rechaçou esse pensam ento.
Ele havia cam inhado na direção dela com o copo na m ão e sem oferecer o Sancerre, com o costum ava fazer naquela hora.
“O que você quer, Jack?”
“Vou viver esse caso.”
“Você quer se divorciar.”
“Não. Quero que fique tudo igual. Sem falsidades.”
“Não entendo.”
“Entende, sim . Você não m e disse certa vez que pessoas casadas por m uito tem po acabam tendo vontade de se tornar irm ão e irm ã? Pois chegam os lá, Fiona. Eu m e tornei seu irm ão. É acolhedor, carinhoso, e eu te am o, m as antes de m orrer quero viver um a grande paixão.”
Interpretando erroneam ente o arquej o de surpresa dela com o um a risada, quem sabe com o um m uxoxo zom beteiro, ele disse ríspido: “Êxtase, quase desm aiando de prazer. Lem bra? Quero sentir isso outra vez, m esm o que você não queira. Ou talvez você queira.”
Ela o olhou com um a expressão de descrença.
“É isso aí.”
Foi então que ela recobrou a voz e lhe disse que tipo de idiota ele era. Ela tinha um a forte convicção do que era convencionalm ente correto. O fato de que, até onde Fiona sabia, ele sem pre lhe fora fiel tornava a proposta ainda m ais indecorosa. Ou, se ele a havia enganado antes, tinha feito isso de m odo brilhante. Ela j á sabia o nom e da m ulher. Melanie. Bem próxim o do nom e de um tipo fatal de câncer de pele. Sabia que poderia ser reduzida a pó pelo rom ance dele com aquela especialista em estatística de vinte e oito anos de idade.
“Se você fizer isso, está tudo term inado entre nós. Sim ples assim .”
“É um a am eaça?”
“Um a prom essa solene.”
A essa altura ela havia recuperado a calm a. De fato parecia sim ples. A hora de propor um casam ento aberto era antes da cerim ônia e não trinta e cinco anos depois. Arriscar tudo o que tinham para que ele pudesse reviver um prazer sensual! Quando tentou se im aginar querendo algo sem elhante para si própria — seu “últim o êxtase” seria seu prim eiro —, só lhe vinham à m ente confusão, encontros secretos, desapontam ento, cham adas telefônicas em m á hora. A dura tarefa de aprender a conviver com alguém novo na cam a, inventar novas carícias, todo o fingim ento. Ao final, a necessidade de desfazer o nó, o esforço exigido para abrir o j ogo e ser sincera. Depois, nada m ais com o era antes. Não, ela preferia um a vida im perfeita, a que tinha agora.
No entanto, deitada na chaise longue, diante dela se ergueu o insulto em sua verdadeira dim ensão, o fato de que Jack estava preparado para pagar por seus prazeres com a infelicidade dela. Im piedoso. Ela o vira seguir em frente à custa de outras pessoas, quase sem pre com um a boa razão. Isso era novo. O que teria m udado? Ao se servir do uísque de m alte, ele ficara ereto, os pés bem afastados, os dedos da m ão livre se m ovendo ao ritm o de um a canção que só ele ouvia, quem sabe um a canção com partilhada, m as não com ela. Ferindo-a e não ligando para isso — algo novo. Ele sem pre fora am ável, leal e bondoso. E, com o a Vara de Fam ília provava diariam ente, a bondade era o ingrediente hum ano m ais essencial. Ela tinha o poder de afastar um a criança de um pai insensível, e às vezes o fazia. Mas afastar a si m esm a de um m arido insensível? Quando se sentia frágil e solitária? Onde estava o j uiz que iria protegê-la?
A autocom iseração nos outros a incom odava, e agora ela se recusava a aceitar isso nela. Melhor tom ar um terceiro drinque. Mas só derram ou um a dose pequena, adicionou m uita água e voltou para a chaise longue. Sim , tinha sido o tipo de conversa que ela deveria ter anotado. Im portante não se esquecer, avaliar a ofensa cuidadosam ente. Quando am eaçara rom per o casam ento caso ele fosse em frente, Jack apenas se repetira, dizendo outra vez com o a am ava e sem pre am aria, que não queria m udar de vida, que suas necessidades sexuais não atendidas lhe causavam grande infelicidade, que havia aquela oportunidade única que ele desej ava aproveitar com o conhecim ento dela e, assim esperava, com a concordância dela. Estava falando com toda a franqueza. Poderia ter feito às escondidas, “pelas costas dela”. Pelas costas m agras e rancorosas dela.
“Ah”, ela m urm urou. “Muito decente de sua parte, Jack.”
“Bom , na verdade…”, ele disse, e não term inou a frase.
Fiona teve a im pressão de que ele ia lhe dizer que a relação j á havia com eçado, e ela não suportaria ouvir isso. Nem precisava. Viu tudo com clareza. Um a bonita especialista em estatística trabalhando com a probabilidade decrescente de que um m arido voltasse para a esposa am argurada. Viu um a m anhã ensolarada, um banheiro que não conhecia e Jack, ainda com um a m usculatura apreciável, vestindo pela cabeça um a cam isa de linho branco sem iabotoada com seu j eitão im paciente, um a cam isa usada sendo j ogada na direção da cesta de roupa suj a e ficando ali pendurada por um a das m angas antes de escorregar para o chão. Que horrível. Aconteceria, com ou sem sua concordância.
“A resposta é não.” Ela havia usado um tom crescente, tal qual um a professorinha durona. Acrescentou: “O que você esperava que eu dissesse?”.
Ela se sentia im potente e queria que a conversa term inasse. Havia um a decisão a ser finalizada antes do dia seguinte para publicação no Family Law Reports. O destino das duas estudantes j udias j á havia sido decidido na sentença que ela proferira no tribunal, m as ainda precisava trabalhar no texto, a fim de que ele ficasse m ais elegante e à prova de qualquer recurso. Do lado de fora, a chuva de verão tam borilava nas j anelas; ao longe, m ais além da Gray ’s Inn Square, os pneus sibilavam no asfalto encharcado. Ele a abandonaria e o m undo seguiria em frente.
Seu rosto tinha endurecido ao dar de om bros e se voltar para sair da sala. Vendo suas costas se afastarem , sentiu o m esm o m edo gélido, e o teria cham ado de volta não fosse o receio de ser ignorada. Mas o que poderia dizer? Me abrace, m e beij e, fique com a garota. Ela ouvira os passos dele no vestíbulo, a porta do quarto sendo fechada com firm eza e depois o silêncio invadindo o apartam ento, o silêncio e a chuva que havia um m ês não parava.
Prim eiro os fatos. As duas partes pertenciam aos círculos fechados da com unidade haredi do norte de Londres, com posta de j udeus ultraortodoxos. O casam ento dos Bernstein havia sido arranj ado por seus pais, que não esperavam ser questionados. Arranj ado e não forçado, insistiam as duas partes num raro gesto de entendim ento. Treze anos depois, todos concordavam — inclusive o m ediador, o assistente social e a j uíza — que se tratava de um m atrim ônio im possível de reparar. O casal estava separado. Os dois m al e m al conseguiam cuidar das filhas, Rachel e Nora, que viviam com a m ãe e m antinham contatos prolongados com o pai. A ruína do casam ento com eçara nos prim eiros anos. Após o nascim ento laborioso da segunda m enina, a m ãe se tornou incapaz de ter outros filhos devido a um a cirurgia radical. Com o o pai alm ej ava ardentem ente um a grande fam ília, o doloroso distanciam ento com eçou ali. Depois de um período de depressão (prolongado, disse o pai; curto, disse a m ãe), ela estudou na Universidade Aberta, obteve um a boa qualificação e iniciou a carreira de professora prim ária tão logo as filhas entraram para a escola. Essa situação não era bem -vista pelo pai nem por m uitos dos parentes. Na com unidade haredi, cuj as tradições se m antêm inalteradas há séculos, espera-se que as m ulheres criem os filhos (quanto m aior o núm ero deles, m elhor) e cuidem da casa. Um diplom a universitário e um em prego eram extrem am ente raros. Um a figura de destaque na com unidade serviu com o testem unha do pai e confirm ou essa inform ação.
Os hom ens tam bém não recebiam um a educação prim orosa. Desde a adolescência, tinham de dedicar a m aior parte do tem po ao estudo da Torá. Em geral, não cursavam a universidade. Em parte por causa disso, m uitos haredi possuíam parcos recursos. Mas não os Bernstein, em bora isso viria a acontecer depois que acertassem as contas com os advogados. Um avô com participação na patente de um a m áquina para descaroçar azeitonas havia doado dinheiro ao casal. Eles deveriam gastar tudo o que possuíam para pagar as advogadas, am bas bem conhecidas pela j uíza. Na superfície, a disputa tinha a ver com a educação escolar de Rachel e Nora. Entretanto, o que estava realm ente em j ogo era o contexto geral da form ação das m eninas. A luta era pela alm a delas.
Os m eninos e as m eninas haredi eram educados em separado para preservar sua pureza. Roupas da m oda, televisão e internet eram proibidas, assim com o o convívio com crianças a quem eram perm itidas tais distrações. Não se podia entrar em casas onde não fossem obedecidas de m odo estrito as regras kosher. Todos os aspectos da existência cotidiana eram totalm ente ditados por costum es que vinham de longa data. O problem a tivera início com a m ãe, que estava rom pendo com a com unidade, em bora não com o j udaísm o. Malgrado as obj eções paternas, ela j á estava m andando as crianças para um a escola secundária j udaica com alunos de am bos os sexos e onde eram perm itidas a televisão, a m úsica pop, a internet e o relacionam ento com crianças não j udias. Ela queria que as m eninas ficassem na escola até depois dos dezesseis anos e cursassem um a universidade se quisessem . No seu depoim ento por escrito, havia m anifestado o desej o de que as filhas conhecessem m elhor com o viviam as outras pessoas, que fossem socialm ente tolerantes, que tivessem a oportunidade de seguir algum a carreira que ela não tivera e, com o adultas, fossem autossuficientes do ponto de vista econôm ico, tendo a chance de encontrar um m arido com capacitações profissionais que lhes perm itissem aj udar a criar um a fam ília. Ao contrário de seu m arido, que dedicava todo o tem po a estudar e ensinava a Torá oito horas por sem ana sem nenhum a rem uneração.
A despeito de toda a razoabilidade de sua posição, Judith Bernstein — rosto pálido e ossudo, cabelo crespo e arruivado contido por um enorm e prendedor azul — não era um a presença fácil no tribunal. Seus dedos sardentos e agitados que não cessavam de passar bilhetes para os advogados, os constantes suspiros em surdina, os olhares para o teto e o franzir da boca sem pre que os advogados do m arido falavam , o rem exer im próprio e ruidoso num a grande bolsa de pele de cam elo, dali retirando um m aço de cigarros e um isqueiro no m om ento m ais tenso de um a longa tarde — sem dúvida obj etos provocativos no esquem a existencial de seu m arido — e os colocando lado a lado, ao alcance para quando a sessão fosse suspensa. Fiona via tudo isso de seu ponto de observação m ais elevado, porém fingia não ver.
O depoim ento por escrito do sr. Bernstein visava persuadir a j uíza de que sua esposa era um a m ulher egoísta, com dificuldade de controlar a raiva (na Vara de Fam ília um a acusação com um , frequentem ente m útua), que dera as costas a seus votos conj ugais e discutia com os pais dele e com os m em bros da com unidade, afastando as m eninas de am bos. Pelo contrário, afirm ou Judith do banco de testem unhas, eram seu sogro e sua sogra que se recusavam a ver as crianças até que elas retom assem o antigo padrão de vida, repudiando o m undo m oderno, inclusive os m eios de com unicação sociais, e a própria Judith m antivesse um lar kosher segundo a concepção deles.
O sr. Julian Bernstein, alto e m agro com o um dos j uncos que haviam ocultado Moisés quando bebê, se curvava sobre os docum entos do caso com a expressão de quem pede desculpas, enquanto o advogado acusava sua esposa de ser incapaz de separar suas necessidades das necessidades das crianças. O que ela dizia que elas necessitavam era o que desej ava para si própria. Estava arrancando as m eninas de um am biente fam iliar cálido e seguro, disciplinado m as carinhoso, cuj as regras e ritos forneciam respostas a todas as contingências, cuj a identidade era clara, seus m étodos com provados no curso do tem po, e cuj os m em bros eram em geral m ais felizes e m ais realizados que os habitantes do m undo secular e consum ista que os cercava — um m undo que zom bava da vida espiritual e cuj a cultura de m assa denegria as j ovens e as m ulheres adultas. Suas am bições eram frívolas, seus m étodos, desrespeitosos, senão destrutivos. Ela am ava m uito m ais a si m esm a do que às m eninas.
Ao que Judith respondeu com voz roufenha que nada denegria um a pessoa, m enino ou m enina, m ais do que a negação de um a educação decente e a dignidade de um trabalho honesto; que, ao longo de toda a sua infância e j uventude, lhe haviam dito que seu único obj etivo na vida era m anter um a boa casa para o m arido e cuidar dos filhos — e que isso tam bém era um m odo de conspurcar seu direito de escolher um obj etivo por conta própria. Quando decidiu estudar na Universidade Aberta, enfrentando grandes dificuldades, tinha sido ridicularizada, vista com desprezo e am aldiçoada. Prom etera a si própria que as m eninas não sofreriam as m esm as lim itações.
Os advogados da outra parte concordaram por razões táticas (porque esta era claram ente a posição da j uíza) que a questão não se restringia aos m étodos educacionais. A corte deveria escolher, para benefício das crianças, entre a obediência total à religião ou algo m enos rígido. Entre culturas, identidades, estados de espírito, aspirações, conj untos de relações fam iliares, definições fundam entais, lealdades básicas, futuros incognoscíveis.
Em tais m atérias, havia um a propensão sub-reptícia e inata em prol do status quo, desde que ele parecesse benigno. O rascunho da sentença de Fiona tinha vinte e um a páginas, abrindo-se com o um grande leque no chão e esperando que ela pegasse um a página de cada vez para fazer anotações com um lápis de ponta m acia.
Nenhum som vindo do quarto, nada além do m urm úrio do tráfego deslizando sob a chuva. Ela se sentia m agoada por tentar perceber algum ruído feito por ele, a atenção concentrada, prendendo a respiração, à espera do ranger da porta ou de um a tábua do assoalho. Querendo ouvir, tem endo ouvir.
Nos círculos dos m agistrados, Fiona May e, m esm o quando ausente, era elogiada por sua prosa incisiva, quase irônica, quase entusiasm ada, assim com o pelo m odo conciso com que expunha a disputa. Durante um alm oço, o próprio lorde que presidia o Judiciário havia m urm urado a seu com panheiro de m esa: “Im parcialidade divina, inteligência diabólica, e ainda é bonita”. Em sua própria opinião, a cada ano ela se aproxim ava um pouco m ais de um a exatidão que alguns poderiam qualificar com o pedante, de um a definição inquestionável que um dia poderia ser citada com frequência, com o Hoffm an no caso Piglowska contra Piglowski, ou Bingham , ou Ward, ou o indispensável Scarm an, todos utilizados por ela naquela prim eira página que pendia de seus dedos sem ser lida. Estaria sua vida prestes a m udar? Será que os am igos eruditos, ainda estupefatos, em breve sussurrariam nos alm oços no Lincoln’s Hall ou no Middle Tem ple: Então, ele foi m esm o posto para fora de casa? Para fora do adorável apartam ento da Gray ’s Inn, onde ela se sentaria sozinha até que finalm ente o aluguel, ou o passar dos anos, subindo com o a lúgubre m aré do Tâm isa, tam bém a expulsaria?
De volta ao trabalho. Parte um : “Pano de fundo”. Após algum as observações rotineiras sobre as casas dos pais, sobre onde as crianças residiam e os contatos com o pai, ela descreveu num parágrafo à parte a com unidade haredi e com o, dentro dela, as práticas religiosas dom inavam a vida cotidiana. A distinção entre o que se devia a César e a Deus era inexistente, assim com o o era para m uçulm anos praticantes. Seu lápis pairou sobre a página. Será que tratar m uçulm anos e j udeus com o iguais não pareceria desnecessário ou provocador, pelo m enos para o pai? Som ente se ele se revelasse irracional, o que ela achava não ser o caso. Elim inar a frase.
A segunda parte era intitulada “Diferenças m orais”. O tribunal estava sendo cham ado a escolher um a educação para duas m eninas, a escolher entre valores. E, nesse tipo de caso, de pouco servia apelar para o que era aceitável de m odo geral por toda a sociedade. Aqui ela invocava lorde Hoffm ann: “Trata-se de j ulgam entos de valor sobre os quais pessoas razoáveis podem diferir. Com o os m agistrados tam bém são pessoas, isso significa que é inevitável certo grau de diversidade na aplicação de valores…”.
Na página, refletindo seu gosto crescente pelas digressões serenas e m eticulosas, Fiona dedicou várias centenas de palavras à definição de bem -estar, seguida por um a consideração dos padrões a serem alcançados para garanti-lo. Concordou com lorde Hailsham que bem -estar e felicidade eram term os inseparáveis, abarcando tudo o que se m ostrava relevante para o desenvolvim ento de um a criança na sua condição de ser hum ano. Endossou a opinião de Tom Bingham ao aceitar que estava obrigada a assum ir um a perspectiva de m édio e longo prazo, pois a criança de hoj e bem poderia estar viva no século XXII. Citou a passagem de um a sentença proferida por lorde Lindley em 1893 no sentido de que o bem -estar não podia ser avaliado em term os puram ente financeiros ou apenas em referência ao conforto físico. Ela se valeria da interpretação m ais am pla. O bem -estar e a felicidade deviam incorporar o conceito filosófico de um a vida virtuosa, relacionando alguns ingredientes relevantes, m etas que um a criança poderia perseguir: liberdade econôm ica e m oral; virtude, com paixão e altruísm o; um trabalho satisfatório a exigir em penho na solução de problem as; um a rede florescente de relações pessoais; a conquista da estim a de seus pares; e a busca por significados m aiores para sua existência, assim com o m anter, ocupando lugar central em sua vida, um ou alguns poucos relacionam entos im portantes definidos acim a de tudo pelo am or.
Sim , neste últim o elem ento essencial ela estava fracassando. O uísque com água a seu lado perm anecia intocado: a visão daquele am arelo-urina e seu cheiro agressivo de cortiça agora a repeliam . Ela deveria estar m ais irritada, deveria estar conversando com algum velho am igo — e tinha vários —, deveria cam inhar com passo firm e para o quarto a fim de exigir m aiores esclarecim entos. Mas se sentia reduzida a um ponto geom étrico feito de pura ansiedade. A sentença precisava estar pronta para ser publicada no dia seguinte na hora aprazada, ela tinha de trabalhar. Sua vida particular não era nada. Ou deveria ter sido. Sua atenção continuava dividida entre a página que segurava e, a quinze m etros de distância, a porta fechada do quarto. Obrigou-se a ler um longo parágrafo sobre o qual tinha dúvidas desde que o lera em voz alta no tribunal. Mas não havia m al algum num a afirm ação robusta do óbvio. O bem -estar era social. A com plexa teia das relações de um a criança com a fam ília e os am igos constituía o ingrediente crucial. Nenhum a criança era um a ilha. O hom em com o anim al social, na fam osa frase de Aristóteles. Com quatrocentas palavras sobre esse tem a, ela se lançou ao m ar, as referências eruditas (Adam Sm ith, John Stuart Mill) enfunando as velas de Fiona. O tipo de alcance hum anista que toda boa sentença exige.
Prosseguindo, era dito que o bem -estar constitui um conceito mutável, a ser avaliado segundo os padrões atuais de um hom em ou m ulher razoáveis. O que era suficiente um a geração atrás, poderia não ser bastante hoj e. Além do m ais, não cabia a um tribunal secular decidir sobre crenças religiosas ou diferenças teológicas. Todas as religiões m ereciam respeito desde que, segundo lorde Purcha, fossem “legal e socialm ente aceitáveis”, e não, na form ulação m ais som bria de lorde Scarm an, “im orais ou socialm ente ofensivas”.
Os tribunais deveriam se m ostrar cuidadosos ao intervir a favor das crianças caso isso contrariasse os princípios religiosos dos pais. Às vezes a intervenção seria necessária. Mas quando? Em resposta, ela invocou um de seus favoritos, o sábio lorde Munby do Tribunal de Recursos. “A infinita variedade da condição hum ana im pede qualquer definição arbitrária.” O toque adm irável de Shakespeare: nem o hábito estiola sua variedade infinita. As palavras a tiraram dos trilhos. Ela sabia de cor a fala de Enobarbus, tendo certa vez interpretado esse papel com o estudante de direito, um a encenação só de m ulheres num gram ado no Lincoln’s Inn Fields durante um a ensolarada tarde de verão. Pouco depois de ter sido retirado de suas costas doloridas o fardo dos exam es para ser adm itida com o advogada. Por volta dessa época, Jack se apaixonara por ela e, não m uito tem po depois, ela por ele. A prim eira relação sexual entre os dois ocorreu num quarto de sótão que alguém lhes em prestara, tórrido sob o teto banhado pelo sol da tarde. Um a portinhola que não abria dava para leste, m ostrando um a fatia do Tâm isa na direção do Pool de Londres.
Ela refletiu sobre a am ante presente ou futura dele, Melanie, a especialista em estatística que encontrara um a única vez — um a j ovem silenciosa, com pesadas contas de âm bar e clara preferência por sapatos de salto alto e fino capazes de destruir qualquer assoalho antigo de tábuas de carvalho. Outras mulheres saciam/ Os apetites que satisfazem, mas ela cria fome/ Daquilo que mais pode prover. Podia ser sim plesm ente isso, um a obsessão doentia, um vício que o afastasse de casa, o entortasse, consum indo tudo o que com partilhavam em m atéria de passado e de futuro, com o tam bém de presente. Ou Melanie pertencia, com o era sem dúvida o caso de Fiona, às “outras m ulheres”, as que saciam , e ele voltaria depois de duas sem anas, o apetite aplacado, fazendo planos para as férias da fam ília.
Insuportável de um m odo ou de outro.
Insuportável e fascinante. E irrelevante. Ela se forçou a retornar às páginas, ao resum o dos argum entos oferecidos por am bas as partes — um sum ário eficiente, com um a dose satisfatória de com paixão controlada. Vinha a seguir seu relato acerca do relatório da assistente social designada pela corte. Mulher gorducha e bem -intencionada, frequentem ente ofegante, cabelo despenteado, blusa desabotoada e para fora da saia. Caótica, duas vezes atrasada para as sessões devido a algum problem a com plicado com as chaves do carro, docum entos trancados no autom óvel e um a criança a ser apanhada na escola. No entanto, em vez do blá-blá-blá para satisfazer as duas partes, seu relato era bem fundado, até m esm o incisivo, e Fiona o citou de form a positiva. O que vinha depois?
Levantou os olhos e viu o m arido no outro lado da sala servindo-se de m ais um drinque, um bem grandinho, três dedos, talvez quatro. E descalço, com o quando ele, um professor boêm io, m uitas vezes ficava em casa no verão. Daí ter chegado sem se fazer ouvir. Provavelm ente tinha ficado deitado na cam a, contem plando por m eia hora os arabescos nos frisos de gesso do teto, refletindo sobre a irracionalidade de Fiona. A tensão dos om bros encurvados, o m odo com o enfiou de volta a rolha — um golpe seco com a ponta do polegar — sugeriam que ele tinha cam inhado até ali em silêncio para ter um a discussão. Ela conhecia os sinais.
Jack deu m eia-volta e se aproxim ou dela com a bebida, sem ter posto um a gota de água no copo. As m eninas j udias, Rachel e Nora, teriam de pairar acim a e atrás de Fiona com o anj os cristãos, aguardando um pouco m ais. O deus secular delas tam bém tinha seus problem as. Do ponto m ais baixo em que se encontrava, ela tinha um a boa visão das unhas do pé dele — cuidadosam ente aparadas, m eias-luas j ovens e reluzentes, nenhum indício das m anchas de fungos que conspurcavam os pés dela. Ele se m antinha em form a j ogando tênis com os colegas e se exercitando com pesos no escritório, que procurava levantar cem vezes ao longo de cada dia. Ela não fazia m ais do que carregar sua pesada pasta de docum entos nas dependências do tribunal e levá-la até seu gabinete subindo pelas escadas em vez de pegar o elevador. Ele era bonito de um a form a desorganizada, um queixo quadrado m as assim étrico, um a expressão audaciosa em que os dentes ficavam visíveis e encantava os alunos, surpresos pela aparência algo dissoluta de um professor de história antiga. Fiona nunca im aginou que ele pudesse encostar um dedo nas alunas. Agora tudo parecia diferente. Talvez, m algrado seu envolvim ento de toda um a vida com as fraquezas hum anas, ela tivesse se m antido inocente, excluindo negligentem ente a si própria e a Jack da condição geral. O único livro que ele escrevera para um público não erudito, um a biografia vívida de Júlio César, o tinha feito quase fam oso de um m odo respeitável e em nada espalhafatoso. Um a secundaristazinha atrevida poderia ter se j ogado nos braços dele de form a irresistível. Havia, ou costum ava haver, um sofá em seu escritório. Bem com o um a tabuleta que dizia Ne Pas Déranger levada do Hôtel de Crillon ao fim da distante lua de m el deles. Esses eram pensam entos novos, era assim que o verm e da suspeita infestava o passado.
Ele se sentou na cadeira m ais próxim a. “Você não pôde responder à m inha pergunta, por isso vou te dizer. Já se passaram sete sem anas e um dia. Você, honestam ente, está satisfeita com isso?”
Ela disse com serenidade: “Você j á está tendo esse caso?”.
Ele sabia que era m elhor responder a um a pergunta difícil com outra pergunta. “Você acha que está velha dem ais? É isso?”
Ela disse: “Porque, se j á estiver, gostaria que fizesse as m alas e saísse agora”.
Um gesto que a feria diretam ente, sem prem editação, trocando sua torre pelo bispo dele, loucura total e sem volta. Se ele ficasse, hum ilhação; se partisse, o abism o.
Ele se instalava na cadeira dele, um m óvel de m adeira e couro enfeitado com tachas de m etal que o faziam lem brar um instrum ento m edieval de tortura. Ela nunca gostara do gótico vitoriano, m uito m enos agora. Jack cruzou o tornozelo sobre o j oelho, a cabeça inclinada enquanto a olhava com um a expressão de pena ou condescendência, e ela afastou o rosto. Sete sem anas e um dia tam bém tinha um quê de m edieval, com o um a sentença proferida pela corte crim inal itinerante. Preocupava Fiona a possibilidade de que ela pudesse ter algum a culpa no cartório. Eles tinham m antido um a vida sexual decente por m uitos anos, regular e vigorosam ente sim ples: nas prim eiras horas da m anhã ao acordarem nos dias úteis, antes que as ofuscantes preocupações da j ornada de trabalho penetrassem as pesadas cortinas do quarto. Nos fins de sem ana à tarde, algum as vezes depois de um j ogo de tênis, duplas m istas na Mecklenburgh Square. Apagando todas as reclam ações pelas pixotadas do parceiro. Na verdade, um a vida am orosa bastante prazerosa, além de funcional, por conduzi-los suavem ente ao resto de suas existências sem precisar j am ais ser discutida, o que constituía um a de suas alegrias. Não tinham nem um vocabulário próprio para defini-la — um a das razões pela qual a m agoava ouvi-lo m encionar aquilo agora e por m al ter notado o lento declínio do ardor e da frequência.
Mas ela sem pre o am ara, sem pre fora afetuosa, leal, dedicada. No ano passado havia cuidado dele carinhosam ente quando quebrara a perna e o pulso em Méribel durante um a ridícula corrida m ontanha abaixo contra velhos colegas de escola. Ela lhe dera prazer, m ontara em cim a dele — lem brava-se agora — em m eio ao alvo esplendor do gesso. Ela não sabia com o se referir a essas coisas em sua própria defesa e, além disso, esse não era o terreno no qual estava sendo atacada. Não era devoção que lhe faltava, e sim paixão.
E tam bém havia a idade. Não a deterioração total, ainda não, m as seus prim eiros indícios com eçavam a transparecer, assim com o sob determ inada luz é possível vislum brar o adulto no rosto de um m enino de dez anos. Se, esparram ado à sua frente, Jack parecia absurdo durante aquela conversa, m uito m ais ela lhe pareceria. Os pelos brancos do peito dele, dos quais ele se orgulhava m uito, se encaracolavam acim a do botão da cam isa com o único propósito de declarar que não eram m ais negros; o cabelo, com o de costum e se tornando m ais ralo no alto com o o de um m onge, era deixado com prido num esforço de com pensação pouco convincente; as pernas m enos m usculosas j á não preenchiam de todo o j eans, e os olhos, com um a leve sugestão de vazio no futuro, refletiam o encovado das faces. Diante disso, que tal os tornozelos dela engrossando num a resposta sedutora, as nádegas se inflando com o nuvens no verão, a cintura se dilatando enquanto as gengivas se retraíam ? Tudo isso ainda em m ilím etros paranoicos. Muito pior, a ofensa especial que os anos reservam a certas m ulheres, quando os cantos da boca com eçam a cair, gerando um a expressão de constante reprovação. Muito adequada a um a j uíza que usava peruca e franzia a testa para um advogado do alto de seu trono. Mas a um a am ante?
E ei-los ali, com o adolescentes, se preparando para discutir a causa de Eros.
Taticam ente astucioso, Jack ignorou o ultim ato dela, dizendo: “Não acho que devíam os desistir, não é m esm o?”.
“É você quem está se afastando.”
“Acho que tam bém cabe a você um a parte disso.”
“Não sou eu quem está se preparando para destruir nosso casam ento.”
“É você quem diz isso.”
Ele falou em tom razoável, proj etando as cinco palavras bem no fundo das dúvidas de Fiona, adaptando-as à propensão que ela tinha de acreditar que, num conflito tão em baraçoso com o aquele, os erros seriam provavelm ente seus.
Ele tom ou um gole cauteloso de uísque. Não ia ficar bêbado a fim de afirm ar suas necessidades. Seria sério e racional, quando ela preferiria que Jack confessasse seus erros em alto e bom som .
Olhando no fundo dos olhos de Fiona, ele disse: “Você sabe que eu te am o”.
“Mas gostaria de alguém m ais j ovem .”
“Gostaria de ter um a vida sexual.”
Sua oportunidade de fazer prom essas ternas, atraí-lo de volta, se desculpar por ter andado m uito ocupada, cansada ou indisponível. Mas ela desviou o olhar e nada disse. Não ia se dedicar sob pressão a reviver um a vida sensual que no m om ento não lhe apetecia. Sobretudo quando acreditava que o caso j á havia com eçado. Ele não se dera ao trabalho de negá-lo. E ela não iria perguntar de novo. Não era só um a questão de orgulho. Ela tem ia ainda sua resposta.
“Bem ”, ele disse após um a longa pausa. “Você não gostaria?”
“Não com esse revólver apontado para a m inha cabeça.”
“O que você quer dizer com isso?”
“Ou eu tom o j eito, ou você vai para Melanie.”
Ela pressupunha que, em bora com preendendo perfeitam ente o que havia sido dito, ele desej ava ouvi-la pronunciar o nom e da m ulher, coisa que Fiona j am ais fizera em voz alta. Isso provocou um trem or ou um a contração dos m úsculos do rosto dele, um incontrolável sinal de excitação. Ou então se devia à frase sem rebuços, o “vai para”. Será que ela j á o tinha perdido? Sentiu-se repentinam ente tonta, com o se sua pressão tivesse caído e em seguida disparado para cim a. Endireitou o corpo na chaise longue, depositando no chão a página da sentença ainda em sua m ão.
“Não é bem assim ”, ele dizia. “Olhe, encare isso pelo avesso. Suponha que você estivesse no m eu lugar e eu no seu. O que você faria?”
“Não iria arranj ar um hom em e depois abrir negociações com você.”
“O quê, então?”
“Iria descobrir o que poderia estar preocupando você.” Sua voz soou afetada a seus próprios ouvidos.
Ele fez um gesto largo com as m ãos. “Ótim o!” O m étodo socrático, tal com o usado, sem dúvida, com seus alunos. “Então, o que está preocupando você?”
Apesar de toda a idiotice e desonestidade da troca de palavras, era a única pergunta possível e ela a havia provocado, porém se irritou com ele, tratada com condescendência, e preferiu não responder. Em vez disso, olhou m ais além de onde ele se encontrava, na direção do piano que m al tinha sido tocado nas últim as duas sem anas e para as fotografias com m olduras de prata, postas sobre o tam po, com o era com um nas casas de cam po. Os dois casais de pais, da época do casam ento até a senilidade; as três irm ãs dele; os dois irm ãos dela, suas m ulheres e m aridos atuais e passados (deslealm ente, eles não elim inavam ninguém ); onze sobrinhos e sobrinhas e as treze crianças que eles haviam trazido ao m undo. A vida se acelerando para plantar a população de um pequeno vilarej o sobre um piano de cauda curta. Ela e Jack não haviam dado nenhum a contribuição, ninguém , lim itando-se a reuniões de fam ília, presentes de aniversário quase todas as sem anas, férias que congregavam várias gerações nos castelos m ais baratos. Hospedavam no apartam ento m uitos m em bros da fam ília. No fim do corredor havia um pequeno depósito com um a cam a de arm ar, cadeira de bebê e cercado para crianças pequenas, além de três cestas de vim e cheias de brinquedos m astigados e desbotados m as prontos para o próxim o rebento. E o castelo deste verão, a dezesseis quilôm etros de Ullapool, aguardava a decisão deles. Segundo o folheto de propaganda m al im presso, havia um fosso, um a ponte levadiça ainda em operação e um a m asm orra com ganchos e argolas de ferro nas paredes. A tortura de ontem era hoj e um a sensação para os hóspedes com m enos de doze anos. Ela pensou outra vez na sentença m edieval, sete sem anas e um dia, um período iniciado nas últim as etapas do caso dos irm ãos siam eses.
Todo o horror e a pena, assim com o o próprio dilem a, estam pados na fotografia m ostrada à j uíza e a ninguém m ais. Filhos ainda m uito novos de um pai j am aicano e de um a m ãe escocesa, eram vistos no berço de um a unidade pediátrica de tratam ento intensivo em m eio a um a profusão de tubos, unidos pela pelve e com partilhando o m esm o torso, as pernas form ando ângulos retos com as espinhas dorsais e lem brando um a estrela-do-m ar com suas m uitas pontas. Um a régua fixada ao longo da incubadora m ostrava que aquele conj unto indefeso, e tão hum ano, tinha sessenta centím etros de com prim ento. Suas m edulas e a base das espinhas eram fundidas, os olhos estavam fechados, quatro braços erguidos num sinal de que se rendiam à decisão do tribunal. Seus nom es apostólicos, Matthew e Mark, não haviam encoraj ado um raciocínio claro em certos círculos. Eles com partilhavam um único órgão, a bexiga, que estava principalm ente no abdom e de Mark e que, com o observou um m édico, “se esvaziava livre e espontaneam ente através de duas uretras separadas”. O coração de Matthew era grande, m as “com pouca capacidade de contração”. A aorta de Mark se ligava à de Matthew, e era o coração de Mark que sustentava os dois. O cérebro de Matthew era gravem ente m alform ado e incom patível com um desenvolvim ento norm al, sua caixa torácica não possuía um pulm ão funcional. Ele não tinha, segundo um a enferm eira, “os pulm ões que lhe perm itissem chorar”.
Mark m am ava com o qualquer criança, alim entando-se e respirando pelos dois, fazendo “todo o trabalho” e, por isso, sendo anorm alm ente m agro. Matthew, sem nada para fazer, engordava. Se um a providência não fosse tom ada, o coração de Mark m ais cedo ou m ais tarde não resistiria ao esforço, m atando am bos. Matthew dificilm ente viveria m ais do que seis m eses. Quando m orresse, levaria com ele o irm ão. Um hospital de Londres solicitava com urgência a perm issão para separar os gêm eos e salvar Mark, que tinha potencial para ser um a criança saudável. Para fazê-lo, os cirurgiões precisariam gram pear e cortar a aorta com partilhada, com isso m atando Matthew. A partir de então, iniciariam um a com plicada série de procedim entos reparadores em Mark. Os pais am orosos, católicos devotos que viviam num vilarej o na costa norte da Jam aica, recusavam -se a aprovar o assassinato por convicção religiosa. Deus lhes havia dado a vida, só ele podia acabar com ela.
Em parte, ela se recordava de um a algazarra prolongada e horrível que assaltava sua atenção, m il alarm es de carros, m il bruxas em frenesi dando corpo ao lugar-com um : a m anchete berrante, sensacionalista. Médicos, padres, âncoras de rádio e televisão, colunistas de j ornais, colegas, parentes, m otoristas de táxi, todo o país tinha um a opinião. Os ingredientes narrativos eram ponderáveis: bebês num a situação trágica, pais bondosos, solenes e eloquentes, apaixonados um pelo outro e por seus filhos, vida, am or, m orte e um a corrida contra o tem po. Cirurgiões m ascarados lutando contra um a crença sobrenatural. Quanto à gam a de posições, num extrem o se encontravam as pessoas de persuasão laica e utilitária, im pacientes com os porm enores j urídicos, abençoados por um a fácil equação m oral: um a criança salva é m elhor que duas m ortas. No extrem o oposto, aqueles não apenas convencidos da existência de Deus, m as de conhecerem sua vontade. Citando lorde Ward, Fiona lem brou a todas as partes nas linhas de abertura de sua sentença: “Este tribunal lida com m atérias de Justiça, não de m oral, e nossa tarefa consistiu em descobrir, assim com o é nosso dever aplicar, os princípios legais relevantes na situação posta diante de nós — um a situação única”.
Nessa terrível disputa só havia um resultado desej ável ou m enos indesej ável, m as não era fácil abrir um a estrada legal para atingi-lo. Sob a pressão do tem po, com um m undo ruidoso à espera, ela encontrou, em pouco m enos de um a sem ana e treze m il palavras, um cam inho plausível. Ou pelo m enos assim pareceu acreditar o Tribunal de Recursos, trabalhando com um prazo fatal ainda m ais rígido que o dela um dia após ser proferida sua sentença. No entanto, não havia lugar para a suposição de que um a vida valia m ais que outra. Separar os gêm eos significaria m atar Matthew. Não separá-los significaria, por om issão, m atar am bos. O espaço legal e m oral era restrito e a questão precisava ser colocada com o a escolha do m al m enor. Não obstante, a j uíza estava obrigada a considerar o que correspondia ao m elhor interesse de Matthew. Certam ente não a m orte. Mas a vida tam bém não era um a opção. Ele tinha um cérebro rudim entar, nenhum pulm ão, um coração inútil, provavelm ente sentia dor e estava condenado a m orrer — em breve.
Num a nova form ulação, que o Tribunal de Recursos aceitou, Fiona argum entou que Matthew, ao contrário do irm ão, não tinha interesses a serem preservados.
Entretanto, se era preferível, o m enor dos m ales ainda poderia ser ilegal. Com o j ustificar um assassinato, abrir o corpo de Matthew para cortar a aorta? Fiona rej eitou a noção defendida energicam ente pelo advogado do hospital no sentido de que a separação dos gêm eos era análoga a desligar o equipam ento de sustentação vital de Matthew, que naquele caso era Mark. A intervenção cirúrgica era invasiva dem ais, um a intrusão grande dem ais na integridade corporal de Matthew, para ser considerada um a suspensão de tratam ento. Em vez disso, ela foi encontrar seu argum ento na “doutrina da necessidade”, um conceito estabelecido na lei consuetudinária segundo o qual, em certas circunstâncias lim itadas que nenhum parlam ento j am ais ousaria definir, era perm issível violar a lei crim inal a fim de evitar um m al m aior. Ela se referiu ao caso em que hom ens arm ados sequestraram um avião em Londres e aterrorizaram os passageiros, porém foram inocentados de qualquer crim e porque fizeram aquilo para evitar a perseguição sofrida em seu próprio país.
No que tange à im portantíssim a questão da intenção, o propósito da cirurgia não era m atar Matthew, e sim salvar Mark. Com o Matthew, apesar de sua total im potência, estava m atando Mark, era necessário perm itir que os m édicos fossem em socorro dele para rem over um risco fatal. Matthew m orreria depois da separação não porque havia a intenção de m atá-lo, m as porque, em isolam ento, ele era incapaz de florescer.
O Tribunal de Recursos concordou, o recurso dos pais foi indeferido e, dois dias depois, às sete da m anhã, os gêm eos entraram na sala de cirurgia.
Os colegas que Fiona m ais prezava a procuraram para um aperto de m ãos ou escreveram o tipo de cartas que m erece ser guardado num a pasta especial. Sua sentença era elegante e correta, assim j ulgavam as pessoas do ram o. A cirurgia de reparação em Mark foi exitosa, o interesse público se esvaiu e foi dirigido para outro assunto. Mas ela ficou infeliz, não conseguia deixar o caso de lado, perm anecia acordada à noite durante horas, repassando os detalhes, reescrevendo certas passagens da sentença, tom ando novos rum os. Ou m editava sobre tem as de fam ília, incluindo sua própria falta de filhos. Ao m esm o tem po, com eçaram a chegar em pequenos envelopes de cor pastel os pensam entos m alévolos dos devotos. Eles eram de opinião que se devia perm itir que am bas as crianças m orressem , repudiando assim a decisão dela. Alguns em pregavam linguagem ofensiva, outros m anifestavam vontade de feri-la. Uns poucos desses últim os afirm avam saber onde ela m orava.
Aquelas sem anas intensas haviam deixado um a m arca, que apenas se esbatera. O que exatam ente a havia perturbado? A pergunta de seu m arido era a m esm a que ela se fazia, e ele agora aguardava um a resposta. Antes das audiências, Fiona tinha recebido um parecer do Arcebispo Católico Rom ano de Westm inster. Na sentença, ela observou, num parágrafo respeitoso, que o arcebispo preferia que Mark m orresse j unto com Matthew, a fim de não interferir nos desígnios de Deus. Não a surpreendia ou afetava o fato de que religiosos desej assem elim inar o potencial de um a vida válida a fim de sustentar um preceito teológico. A própria lei tinha problem as sim ilares quando perm itia que m édicos sufocassem , desidratassem ou privassem de nutrição certos pacientes desenganados até m orrerem , em bora não perm itisse o alívio instantâneo de um a inj eção fatal. À noite seus pensam entos retornavam à fotografia dos gêm eos e a dezenas de outras que havia estudado, assim com o à porm enorizada inform ação técnica transm itida pelos m édicos especialistas com respeito ao que havia de errado com os bebês, sobre quanto de carne infantil seria necessário cortar, rasgar, separar e dobrar a fim de dar a Mark um a vida norm al, reconstruindo órgãos internos, executando um a rotação de noventa graus em suas pernas, genitais e intestinos. No escuro do quarto, enquanto Jack roncava serenam ente a seu lado, ela parecia olhar por sobre um precipício. Nas fotografias relem bradas de Matthew e Mark, via um a nulidade cega e sem propósito. Um ovo m icroscópico deixara de se dividir no m om ento certo devido a um defeito em certo ponto de um a cadeia de eventos quím icos, um a m inúscula perturbação na cascata de reações proteicas. Um evento m olecular se inflacionara com o um universo em expansão para ocupar um a larga região da m iséria hum ana. Nenhum a crueldade, nenhum a vingança, nenhum fantasm a se m ovendo de m odo m isterioso. Nada m ais que um gene transcrito erroneam ente, um a receita de enzim as defeituosa, um elo quím ico rom pido. Um processo de perda natural tão indiferente quanto sem sentido. Que apenas punha em relevo a vida saudável e form ada com perfeição, m as tam bém aleatória, igualm ente sem propósito. Pura sorte, chegar ao m undo com seu corpo devidam ente form ado e com tudo nos lugares certos, ter pais am orosos e não cruéis, escapar à guerra e à pobreza por um acidente geográfico ou social. E, por isso, descobrir que é m uito m ais fácil ser virtuoso.
Durante algum tem po aquele caso a deixara entorpecida, se im portando m enos, sentindo m enos, se ocupando de seus afazeres sem contar nada a ninguém . Mas se tornara enj oadiça em m atéria de corpos, quase incapaz de olhar o dela ou o de Jack sem sentir repugnância. Com o se abrir sobre isso? Pouco plausível dizer a ele, àquela altura de sua carreira com o m agistrada, que determ inado caso, entre tantos outros, pudesse tê-la afetado tão intim am ente devido à sua tristeza, a seus detalhes viscerais e ao intenso interesse público. Durante algum tem po, um a parte dela m orrera j unto com o pobre Matthew. Tinha sido ela quem havia despachado um a criança do m undo, quem em pregara trinta e quatro páginas elegantem ente escritas para j ustificar sua elim inação. Pouco im porta que, por causa de sua cabeça intum escida e um coração que não se contraía, Matthew estivesse condenado a m orrer. Ela era não m enos irracional que o arcebispo, tendo passado a considerar com o m erecida aquela sensação de que algo m urchara dentro de si. A sensação desapareceu, porém deixou um a cicatriz em sua m em ória m esm o depois de sete sem anas e um dia.
Não ter um corpo, flutuar sem nenhum a restrição física teria sido o m elhor para ela.
A batida do copo de Jack no tam po de vidro a trouxe de volta para a sala e para a pergunta dele. Jack a olhava fixam ente. Mesm o se ela soubesse com o form ular um a confissão, seu estado de espírito não perm itiria isso. Tam pouco nenhum a dem onstração de fraqueza. Tinha um trabalho a fazer, concluir a sentença para ser publicada, com os anj os à espera. O problem a não era seu estado de espírito. O problem a era a escolha que seu m arido fazia, a pressão que ele estava aplicando. De repente ela se viu outra vez com raiva.
“Pela últim a vez, Jack. Você está se encontrando com ela? Vou interpretar seu silêncio com o um sim .”
Mas ele tam bém estava agitado, fora da cadeira, se afastando na direção do piano, onde parou, um a m ão pousada na cauda erguida, recobrando a paciência antes de dar m eia-volta. Naquele instante, o silêncio entre eles se expandiu. A chuva cessara, os carvalhos nos Walks haviam se aquietado.
“Pensei que tivesse m e expressado com clareza. Estou tentando ser franco com você. Alm ocei com ela. Não aconteceu nada. Queria falar com você antes, queria…”
“Bom , você falou e teve a sua resposta. E agora?”
“Me conte o que aconteceu com você.”
“Quando foi esse alm oço? Onde?”
“Na sem ana passada, no trabalho. Não foi nada.”
“O tipo de nada que leva a um caso.”
Jack perm aneceu no fundo da sala. “Então é isso”, ele disse, o tom de voz controlado. Um hom em razoável testado até o lim ite da exaustão. Incrível com o ele achava que podia tapeá-la com aquelas atitudes teatrais. Durante seus anos com o m agistrada, crim inosos reincidentes, j á idosos e analfabetos, alguns desdentados, tinham se apresentado diante dela e exibido um a atuação m ais convincente im provisando do banco dos réus.
“Então é isso”, ele repetiu. “Sinto m uito.”
“Você entende o que está prestes a destruir?”
“Eu podia dizer o m esm o. Algum a coisa está acontecendo e você não m e diz o que é.”
Deixe-o ir, disse um a voz, sua própria voz em pensam ento. E im ediatam ente ela foi tom ada pelo velho m edo. Não podia, não tencionava tocar sozinha o resto de sua vida. Duas velhas am igas íntim as, da sua idade, separadas dos m aridos havia m uito tem po, ainda odiavam entrar desacom panhadas num a sala apinhada de gente. E, além do sim ples brilho social, tam bém contava o am or que sabia sentir por ele. Não o sentia agora.
“O seu problem a”, ele disse da outra ponta da sala, “é que você nunca acha que precisa se explicar. Você se afastou de m im . Deve ter passado pela sua cabeça que eu notei isso e que m e im portei. Daria até para aguentar, acho, se eu acreditasse que não fosse durar. Ou se eu soubesse o m otivo. Por isso…”
Ele estava com eçando a cam inhar na direção dela, m as Fiona nunca soube qual foi a conclusão nem perm itiu que sua irritação crescente fornecesse um a resposta, pois naquele instante o telefone soou. Ela levantou o aparelho num gesto autom ático. Estava de plantão e, claro, era seu assistente, Nigel Pauling. Com o sem pre, a voz hesitante, quase gaguej ando. Mas ele era sem pre eficiente e agradavelm ente distante.
“Desculpe incom odá-la tão tarde, m inha senhora.”
“Não faz m al. Diga o que há.”
“Recebem os um telefonem a de um advogado que representa o hospital Edith Cavell, em Wandsworth. Eles precisam fazer um a transfusão de sangue de em ergência num paciente com câncer, um rapaz de dezessete anos. Ele e os pais se recusam a dar o consentim ento. O hospital gostaria…”
“Por que estão se recusando?”
“Testem unhas de Jeová, m inha senhora.”
“Entendo.”
“O hospital quer ter um docum ento dizendo que é legal seguir em frente m esm o sem o desej o deles.”
Ela olhou para o relógio de pulso. Um pouco m ais de dez e m eia da noite.
“Quanto tem po tem os?”
“Dizem que vai ser perigoso depois de quarta-feira. Extrem am ente perigoso.”
Ela olhou ao redor. Jack j á havia saído da sala. Ela disse: “Então agende um a audiência em regim e de urgência para as duas da tarde de quinta-feira. E notifique as partes. Instrua o hospital a inform ar os pais. Eles poderão recorrer. Designe para o rapaz um guardião com representação legal. Mande o hospital apresentar seus elem entos de j uízo até as quatro da tarde de am anhã. O oncologista encarregado do caso tam bém deve fornecer um relatório na qualidade de testem unha”.
Por um instante, ela teve um breve branco m ental. Lim pou a garganta e continuou. “Quero saber por que ele precisa de sangue. E os pais devem fazer o possível para apresentar seus argum entos até o m eio-dia da terça-feira.”
“Vou fazer isso agora m esm o.”
Ela foi até a j anela e contem plou o lado oposto da praça, onde form as de árvores assum iam um sólido tom negro ao final do lento crepúsculo de j unho. Por enquanto, as luzes am arelas dos lam piões de rua ilum inavam apenas pequenos círculos na calçada. O tráfego de dom ingo à noite j á rareava e quase nenhum som chegava a seus ouvidos da Gray ’s Inn Road ou da High Holborn. Ouviu som ente os esparsos pingos de chuva nas folhas e o gorgolej o m usical de um a calha próxim a. Observou o gato do vizinho contornar cuidadosam ente um a poça e se dissolver na escuridão debaixo de um arbusto. A retirada de Jack não a perturbou. A troca entre eles vinha rum ando para um a franqueza m uito penosa. Não havia com o negar o alívio de ser im pelida para um terreno neutro, a charneca sem árvores dos problem as dos outros. Mais um a vez a religião. Havia algum consolo. Com o o rapaz tinha quase dezoito anos, a m aioridade, seus desej os constituiriam a preocupação central.
Talvez fosse perverso encontrar nessa súbita interrupção um a prom essa de liberdade. No outro lado da cidade, um adolescente confrontava a m orte em razão de suas crenças ou da de seus pais. A m issão dela não consistia em salvá-lo, e sim decidir o que era razoável e legal. Gostaria de ver o rapaz, se afastar por um a ou duas horas do pântano dom éstico e do tribunal, viaj ar, m ergulhar nas com plexidades, form ular um j ulgam ento baseado em suas observações. As crenças dos pais poderiam ser um a afirm ação das crenças do filho, ou um a sentença de m orte que ele não ousava desafiar. Atualm ente, investigar por conta própria era raríssim o. Lá pela década de 1980, um m agistrado ainda podia colocar o adolescente sob a tutela da corte e encontrar-se com ele em seu gabinete de trabalho, no hospital ou em casa. Sabe-se lá com o, um ideal nobre havia sobrevivido até os tem pos m odernos, am assado e enferruj ado com o um a velha arm adura. Os j uízes representavam o m onarca e, durante séculos, haviam desem penhado o papel de guardiões das crianças da nação. Nos dias de hoj e, assistentes sociais do serviço de apoio e aconselham ento da Vara de Fam ília faziam isso e apresentavam um relatório. O velho sistem a, vagaroso e ineficiente, preservava o toque hum ano. Agora, m enos atrasos, m ais form ulários com quadradinhos para serem assinalados, m ais coisas a aceitar na base da confiança. A vida das crianças ficava guardada nas m em órias dos com putadores, com bastante precisão m as com m uito m enos bondade.
Visitar o hospital era um capricho sentim ental. Ela abandonou a ideia ao se afastar da j anela e voltar para a chaise longue. Sentou-se com um suspiro im paciente e recom eçou a trabalhar na sentença sobre as m eninas j udias de Stam ford Hill, cuj o bem -estar estava em disputa. As últim as páginas de sua conclusão se encontravam de novo em suas m ãos. Mas naquele instante Fiona não conseguiu se obrigar a exam inar sua própria prosa. Não era a prim eira vez que o absurdo e a inutilidade de se envolver com um caso a paralisavam tem porariam ente. Pais escolhendo um a escola para os filhos — questão inocente, im portante, corriqueira e privada que um a m istura letal de am argas discrepâncias e dinheiro dem ais haviam transform ado num a m onstruosa tarefa burocrática, em m aços de docum entos j urídicos tão num erosos e pesados que precisavam ser levados num carrinho para o tribunal, em horas de debates educados, audiências form ais, decisões postergadas, todo o circo sendo erguido m uito lentam ente em m eio à hierarquia j udicial com o um balão invertido e m al ancorado ao terreno. Se os pais não eram capazes de se pôr de acordo, a lei, relutantem ente, via-se obrigada a decidir. Fiona presidiria com toda a seriedade e obediência aos procedim entos que se exigem de um cientista nuclear. Deliberaria sobre o que havia com eçado com am or e term inado em ódio. Todo o assunto deveria ter sido tratado por um assistente social, que levaria m eia hora para chegar a um a decisão sensata.
Fiona havia se decidido em favor de Judith, a inquieta m ulher de cabelo arruivado que, segundo o oficial de j ustiça, a cada interrupção disparava pelos salões com piso de m árm ore e arcos de pedra polida do Tribunal até o Strand para fum ar m ais um cigarro. As crianças deveriam continuar a frequentar a escola m ista escolhida para elas pela m ãe. Poderiam perm anecer lá até os dezoito anos, quando iriam cursar a universidade se assim desej assem . A sentença m ostrava respeito pela com unidade haredi, pela continuidade de suas veneráveis tradições e rituais, acrescentando que o tribunal nada tinha a dizer sobre suas crenças específicas, lim itando-se a notar que elas eram claram ente observadas com sinceridade. No entanto, as testem unhas da com unidade arroladas pelo pai tinham contribuído para prej udicar seu caso. Um a figura respeitada havia dito, talvez com excessivo orgulho, que as m ulheres haredi tinham de se devotar a criar um “lar seguro” e que não era relevante a educação depois dos dezesseis anos. Outro representante da com unidade disse que era m uito incom um , m esm o para os m eninos, seguir algum a profissão. Um terceiro havia se revelado um pouco enfático dem ais em sua opinião de que m eninas e m eninos precisavam ser m antidos separados na escola a fim de preservarem sua pureza. Tudo isso, Fiona escrevera, estava m uito distante do com portam ento costum eiro dos pais e das opiniões prevalecentes no sentido de que as crianças deveriam ser encoraj adas em suas aspirações. Essa deveria ser tam bém a opinião de pais j udiciosos e razoáveis. Ela aceitava o parecer da assistente social de que, caso as m eninas fossem devolvidas à sociedade fechada do pai, perderiam todo e qualquer contato com a m ãe. Era m enos provável acontecer o inverso.
Acim a de tudo, o dever da corte era tornar possível que as crianças chegassem à idade adulta em condições de tom arem as próprias decisões sobre a vida que desej avam levar. As m eninas poderiam optar pela versão da religião esposada pelo pai ou pela m ãe, ou poderiam encontrar m aior satisfação em outro tipo de vida. Depois dos dezoito anos, estariam fora do alcance dos pais e do tribunal. Para finalizar, Fiona deu um a cham ada de leve no pai ao observar que o sr. Bernstein tinha se valido de duas advogadas e se beneficiado da experiência de um a assistente social designada pela corte, a astuta e desorganizada funcionária do serviço de assistência à vara, além de estar im plicitam ente obrigado a obedecer aos ditam es de um a j uíza. Ele deveria se perguntar por que negar às suas filhas a oportunidade de exercerem um a profissão.
Term inado. As correções seriam feitas em seu últim o rascunho na m anhã do dia seguinte. Ela se pôs de pé e se espreguiçou, pegando depois os copos de uísque para lavá-los na cozinha. A água m orna correndo por suas m ãos serviu para acalm á-la, m antendo-a abstraída j unto à pia por um m inuto ou m ais. Mas tam bém estava atenta a qualquer ruído vindo de Jack. O gorgolej ar dos velhos encanam entos lhe deixaria saber se ele se preparava para dorm ir. Voltou à sala de visitas a fim de apagar as luzes e se sentiu atraída outra vez para a posição j unto à j anela.
Na praça, não longe da poça que o gato contornara, seu m arido puxava um a m ala. Pendurada ao om bro, a pasta que usava no trabalho. Chegou ao carro, o carro deles, abriu a porta, pôs a bagagem no banco traseiro, entrou e ligou o m otor. Quando os faróis foram acesos e as rodas da frente viradas até o lim ite para que ele pudesse sair do espaço apertado onde o carro fora estacionado, ela ouviu o som distante do rádio. Música pop. Mas ele odiava m úsica pop.
Jack provavelm ente havia feito a m ala no início da noite, bem antes de com eçarem a conversar. Ou, talvez, no m eio da conversa, quando se retirara para o quarto. Em vez de agitação, raiva ou tristeza, sentiu apenas cansaço. Pensou que devia ser prática. Se fosse para a cam a agora, poderia dispensar o sonífero. Voltou à cozinha, dizendo a si m esm a que não estava procurando por um bilhete na m esa de pinho, onde eles sem pre deixavam os recados. Trancou a porta da frente e apagou as luzes do vestíbulo. O quarto dava a im pressão de não ter sido tocado. Abriu a porta de correr do arm ário de roupas e, com olho de m ulher, calculou que ele levara três paletós, dos quais o m ais novo de linho cor de m arfim com prado na Gieves & Hawkes. No banheiro, resistiu à tentação de abrir o arm ário de rem édios para avaliar o conteúdo da bolsinha de toalete dele. Já sabia o bastante. Na cam a, seu único pensam ento sensato foi o de que ele devia ter tom ado m uito cuidado para atravessar o vestíbulo sem que ela ouvisse, fechando a porta centím etro furtivo por centím etro furtivo.
Nem isso foi suficiente para im pedir seu m ergulho no sono. Mas o sono não trouxe a libertação, pois em m enos de um a hora se viu cercada de acusadores. Ou de pessoas pedindo aj uda. Os rostos se fundiam e se separavam . O bebê gêm eo, Matthew, com a cabeça enorm e e sem orelha e o coração que não se contraía, apenas a olhava fixam ente, com o j á fizera em outras noites. As irm ãs, Rachel e Nora, lhe falavam num tom pesaroso, relacionando erros que podiam ser dela ou das próprias m eninas. Jack chegava m ais perto, em purrando a testa recentem ente enrugada contra seu om bro, explicando num a voz lam urienta que ela tinha o dever de am pliar as escolhas dele no futuro.
Quando o despertador tocou às seis e m eia, ela se sentou subitam ente e, por um m om ento, olhou sem entender para o lado vazio da cam a. Depois cam inhou até o banheiro e com eçou a se preparar para um dia no tribunal.