A Balada de Adam Henry
Capítulo 3
Quando seu táxi parou devido ao trânsito pesado da ponte de Waterloo, Fiona decidiu que aquela excursão tinha a ver ou com um a m ulher à beira de um colapso nervoso que com etia um erro sentim ental de avaliação técnica ou com a possibilidade de salvar ou condenar um rapaz por causa das crenças de sua seita m ediante a intervenção direta de um a corte laica. Não acreditava que podia ser as duas coisas. A questão perm aneceu em suspenso enquanto ela olhava para a esquerda, a j usante do rio e na direção da catedral de St. Paul. A m aré vazava rapidam ente. O poeta Wordsworth, descrevendo o que vira de um a ponte próxim a, tinha razão: para qualquer lado que se olhasse, a m elhor paisagem urbana do m undo. Até m esm o sob a chuva constante. Ao lado dela estava Marina Greene. Exceto por algum as palavras à toa, não haviam conversado depois de saírem do tribunal. O que era inteiram ente apropriado para m anter a distância. E Greene, desinteressada ou m uito acostum ada com a vista rio acim a, à sua direita, estava concentrada no celular, lendo, teclando, franzindo a testa com o é com um nos dias de hoj e.
Alcançando enfim a m argem sul, viraram à direita, rum ando bem devagar para a m ontante do rio e levando quase quinze m inutos para chegarem a Lam beth Palace. O telefone de Fiona estava desligado, sua única defesa contra a com pulsão de conferir m ensagens de texto e e-m ails a cada cinco m inutos. Ela tinha escrito um a m ensagem que não enviara: Você não pode fazer isso!. Mas ele estava fazendo aquilo, e o ponto de exclam ação dizia tudo — ela era um a idiota. O em ocionalism o de seu estado de espírito, que gostava de m onitorar, era inteiram ente novo. Um a m istura de tristeza e indignação. Ou de carência e fúria. Ela o queria de volta, ela nunca m ais queria vê-lo de novo. A vergonha tam bém estava presente. Mas o que ela havia feito? Afundado no trabalho, negligenciado o m arido, deixado que um caso a absorvesse dem ais? Porém ele tinha seu próprio trabalho, seus estados de espírito variados. Ela fora hum ilhada e não queria que ninguém soubesse, ia fingir que estava tudo bem . Sentia-se conspurcada pela necessidade de m anter segredo. O que era aquilo, a vergonha? Ao saber do que acontecera, um a de suas am igas sensatas certam ente insistiria com ela para que telefonasse a Jack e exigisse um a explicação. Im possível. Ainda tem ia ouvir o pior. Tudo o que pensava agora sobre a situação j á havia lhe ocorrido m uitas vezes antes, m as, não obstante, ela com eçava de novo. Com o se cam inhasse na direção contrária em um a esteira rolante, um estado do qual só escapava pelo sono artificialm ente induzido. Sono — ou por essa excursão m uito pouco ortodoxa.
Chegaram por fim à Wandsworth Road a m enos de quarenta quilôm etros por hora, a velocidade de um cavalo a galope. Passaram à direita por um velho cinem a transform ado em quadras de squash, onde, m uitos anos atrás, Jack j ogara até o lim ite de sua resistência física para term inar em décim o prim eiro lugar num a com petição aberta a todos os londrinos. E ela, esposa j ovem e leal, algo enfastiada, assistiu a tudo um pouco distante da parede de vidro, consultando de tem pos em tem pos suas anotações sobre um caso de estupro que estava defendendo e que acabaria por perder. Oito anos de cadeia para o cliente indignado. Quase certam ente sem culpa. Com razão, ele nunca a perdoou.
Ela tinha a ignorância e o desdém de um a habitante da parte norte de Londres pelo labirinto interm inável de ruas pobres que se estendia ao sul do Tâm isa. Nenhum a estação de m etrô que desse significado a um em aranhado de vilarej os engolidos pela cidade fazia m uito tem po, loj as tristes e garagens desonestas entrem eadas de casas m am bem bes do período eduardiano e blocos horríveis de apartam entos, covis dom inados por traficantes de drogas. As m ultidões de pedestres, absortas em preocupações que lhe pareceriam estranhas, pertenciam a outra cidade, a um a longínqua cidade que não era a dela. Com o saber que estavam atravessando Clapham Junction não fosse um a tabuleta desbotada e engraçada na fachada de um a loj a de produtos elétricos fechada com tábuas? Reconhecendo em seu íntim o um a m isantropia crescente, obrigou-se a relem brar o propósito da m issão. Ia visitar um m enino gravem ente enferm o.
Fiona gostava de hospitais. Com treze anos, quando seguia prazerosam ente de bicicleta para a escola, um bueiro m al tam pado a fez voar por cim a do guidão. Um a leve concussão e vestígios de sangue na urina a m antiveram no hospital para observação. Não havia vagas na ala pediátrica — um ônibus cheio de estudantes voltara da Espanha com um vírus intestinal desconhecido. Ela foi posta na enferm aria fem inina e lá ficou por um a sem ana, fazendo exam es em nada exigentes. Isso aconteceu em m eados da década de 1960, quando o espírito da época não havia ainda com eçado a questionar e a desestruturar as pom posas hierarquias m édicas. A enferm aria vitoriana, com seu teto alto, era lim pa e bem organizada, a assustadora irm ã que supervisionava as pacientes protegia as m ais novas, porém as velhas senhoras (algum as das quais, pensando agora, tinham uns trinta anos) gostaram e cuidaram dela, que nunca perguntou de que elas sofriam . Era a queridinha de todas e se entregou a um a nova existência. As antigas rotinas da casa e da escola sum iram de todo. Quando um a ou duas senhoras desapareceram de suas cam as durante a noite, ela não pensou m uito sobre aquilo. Estava totalm ente a salvo de histerectom ias, câncer e m orte, passando um a sem ana gloriosa sem sustos ou dores.
À tarde, depois da escola, chegavam suas am igas, im pressionadas por visitarem um hospital sem a presença de nenhum adulto. Passada a novidade, três ou quatro m eninas ficavam em volta da cam a de Fiona prendendo o riso por qualquer bobagenzinha — um a enferm eira passando de cara am arrada, a saudação exagerada de um a velhinha sem dentes, alguém no fundo da enferm aria vom itando ruidosam ente por trás de um biom bo.
Antes e depois do alm oço, Fiona se sentava a sós na sala de estar com um caderno de exercícios no colo, planej ando seus possíveis futuros — concertista de piano, veterinária, j ornalista, cantora. Fazia diagram as dessas vidas possíveis. Nas linhas que se separavam do tronco estavam a universidade, um m arido parrudo e heroico, filhos m aravilhosos, um a fazenda de criação de ovelhas, um a profissão de sucesso. Até aquela altura, nunca havia pensado em direito.
No dia em que recebeu alta, circulou pela enferm aria com seu uniform e escolar, a m ochila pendurada no om bro e observada por sua m ãe, se despedindo chorosam ente e fazendo prom essas de m anter contato. Nas décadas que se seguiram teve sorte em m atéria de saúde, só voltando a hospitais nos horários de visita. Mas ficou m arcada para sem pre. Todo o sofrim ento e a dor que via em fam iliares e am igos não eram capazes de destruir um a associação im provável entre hospitais e bondade, com o fato de ser notada com o alguém especial e protegida do pior. Por isso, quando o prédio de vinte e seis andares do hospital geral Edith Cavell surgiu em m eio à névoa que envolvia os carvalhos e do outro lado da praça central de Wandsworth, Fiona teve, erroneam ente e por um instante, um a expectativa agradável.
Ela e a assistente social olharam para a frente, m ais além dos gaguej antes lim padores de para-brisas, quando o táxi se aproxim ou de um sinal de neon azul que anunciava ainda haver vagas para seiscentos e quinze carros. Num m orrote coberto de gram a, tal qual um forte da Idade da Pedra, levantava-se a torre circular de vidro desenhada por um arquiteto j aponês e com revestim ento de azulej os de um verde sem elhante ao dos aventais dos cirurgiões, construído com base em em préstim os caríssim os durante o governo trabalhista de m eados da década de 1990. As nuvens baixas de verão encobriam os andares superiores.
Ao cam inharem em direção à entrada, um gato saiu debaixo de um carro estacionado e correu na frente delas, levando Marina Greene a retom ar a conversa, fazendo um m inucioso relato de com o seu gato, um coraj oso felino inglês de pelo curto, botava para correr os cachorros da vizinhança. Fiona sentiu sim patia por aquela j ovem e solene m ulher de cabelo ralo cor de areia, que vivia num conj unto habitacional com três filhos de m enos de cinco anos e o m arido policial. O gato não tinha m aior relevância. Não queria que nada prej udicial se interpusesse entre elas, agudam ente consciente da preocupação com partilhada com o que iriam em breve se confrontar.
Fiona perm itiu-se um a m aior liberdade: “Um gato que não se am edronta. Espero que você tenha contado essa história ao Adam ”.
Marina respondeu baixinho: “Na verdade, contei”, e voltou a ficar em silêncio.
Entraram num átrio envidraçado da altura do prédio. Árvores inglesas, j á m aduras m as pouco viçosas, se esforçavam para crescer no saguão em m eio às alegres cadeiras e m esas de estabelecim entos que com petiam entre si para oferecer café e sanduíches. Mais acim a, e depois ainda m ais para o alto, outras árvores cresciam em plataform as que se proj etavam das paredes curvas. As plantas m ais distantes pareciam arbustos vistos em silhueta contra o teto de vidro a cem m etros de altura. As duas m ulheres atravessaram o assoalho de tábuas claras, contornaram um balcão de inform ações e um a m ostra de desenhos de crianças enferm as. Um a longa escada rolante as levou ao m ezanino, onde um a livraria, um a floricultura, um a banca de j ornais, um a loj a de lem brancinhas e um business center circundavam um a fonte. Música new age, etérea e sem m odulações, se m esclava com o som da água que j orrava. Tudo típico de um aeroporto m oderno. Com destinos diferentes. Naquele andar, havia pouco sinal de doenças, nenhum equipam ento m édico. Os pacientes se m isturavam agradavelm ente com os visitantes e os funcionários. Aqui e ali viam -se pessoas de cam isola, dando um a im pressão algo dissoluta. Fiona e Marina seguiram placas sem elhantes às que se usam nas estradas: Oncologia pediátrica, Medicina nuclear, Flebotomia. Entraram por um largo corredor de piso reluzente que as levou a um conj unto de elevadores, e elas subiram em silêncio até o nono andar, onde a partir de um corredor idêntico, depois de virarem três vezes à esquerda, elas chegaram à unidade de tratam ento intensivo. Passaram por um alegre m ural de m acacos pulando através dos galhos de um a floresta. Agora, por fim , o ar parado tinha o cheiro de hospital: de com ida levada dali havia algum tem po, antissépticos e, m ais tênue, de algum a coisa doce. Nem frutas nem flores.
O posto das enferm eiras estava estrategicam ente localizado diante de um a série sem icircular de portas fechadas m as dotadas de portinholas de observação. O silêncio, só quebrado por um zum bido elétrico, e a falta de luz natural davam a im pressão de que j á era de m adrugada. As duas j ovens enferm eiras atrás do balcão — com o Fiona soube depois, um a filipina e a outra caribenha — soltaram gritinhos de boas-vindas quando viram Marina, trocando com ela batidas de m ão acim a da cabeça. De repente, a assistente social era outra pessoa, transform ando-se num a anim ada m ulher negra sob a pele branca. Deu m eia-volta para apresentar a j uíza às enferm eiras com o alguém “m uitíssim o im portante”. Fiona estendeu a m ão. Não poderia ter executado aquela batida de m ãos sem se sentir desm oralizada, e isso pareceu ficar bem entendido. Sua m ão foi apertada afetuosam ente. Num a troca rápida de palavras diante do balcão, com binaram que Fiona ficaria do lado de fora enquanto a assistente social entrava e explicava tudo a Adam .
Quando Marina entrou por um a porta na extrem idade direita, Fiona se voltou para as enferm eiras e perguntou pelo j ovem paciente.
“Ele está aprendendo a tocar violino”, disse a m oça filipina. “E nos deixando m alucas!”
Sua am iga deu um tapa teatral na coxa. “Está fazendo um a bagunça dos diabos lá dentro!”
As enferm eiras se entreolharam e com eçaram a rir, em bora baixinho para não incom odar os pacientes. Essa era claram ente um a piada que faziam com frequência. Fiona esperou. Estava se sentindo à vontade, m as sabia que não ia durar.
Por fim , disse: “E esse problem a da transfusão?”.
Todo o bom hum or desapareceu. A enferm eira caribenha respondeu: “Rezo por ele todos os dias. Digo a Adam : ‘Deus não precisa que você faça isso, m eu querido. Ele te am a de qualquer m aneira. Deus quer que você viva’”.
A am iga dela disse com tristeza: “Ele tom ou um a decisão. A gente tem que respeitar ele por isso. Viver de acordo com seus princípios”.
“Morrer, não é m esm o? Ele não sabe de nada. É um m enininho confuso.”
Fiona perguntou: “O que ele diz quando você fala que Deus quer que ele viva?”.
“Nada. É com o se não tivesse nenhum a razão para m e ouvir.”
Nesse m om ento, Marina abriu a porta, ergueu a m ão e voltou para dentro.
Fiona disse: “Bem , obrigada”.
Indo atender a um a cam painha, a enferm eira filipina cam inhou às pressas para outra porta.
“A senhora pode ir lá”, disse a am iga dela, “e, por favor, faz ele m udar de ideia. É um rapaz m uito sim pático.”
Fiona tinha um a recordação confusa de sua entrada no quarto de Adam Henry devido a um a série de contrastes desorientadores. Havia m uita coisa para absorver. O aposento estava m ergulhado na sem iobscuridade, com exceção de um a luz intensa focalizada sobre a cam a. A um canto, Marina se instalava num a cadeira com um a revista que possivelm ente não seria capaz de ler no escuro. Os equipam entos de ventilação assistida e m onitoram ento em volta do leito, os altos suportes com seus tubos e os m onitores brilhantes irradiavam um a presença atenta, quase um silêncio. Mas não havia silêncio, porque o rapaz j á estava lhe dirigindo a palavra, tudo se desenrolando ou irrom pendo sem a participação dela, deixando-a para trás, perplexa. Ele estava sentado bem em pertigado, apoiado em travesseiros escorados por um a cabeceira de m etal e ilum inado por um a única lâm pada com o num palco teatral. Espalhados em torno dele e se perdendo nas som bras, havia livros, panfletos, um arco de violino, um laptop, fones de ouvido, cascas de laranj a, em balagens de bom bons, um a caixa de lenços de papel, um a m eia, um caderno de notas e diversas páginas escritas de cim a a baixo. Bagunça típica de adolescente, que ela conhecia das visitas de seus parentes.
Era um rosto com prido e m agro, fantasm agoricam ente pálido m as bonito, com crescentes roxos que se esm aeciam delicadam ente debaixo dos olhos, bem com o lábios cheios que tam bém pareciam roxos sob a luz forte. Os próprios olhos, que eram grandes, davam a im pressão de ser violeta. Um sinal acim a da m açã do rosto parecia ter sido pintado com fins estéticos. O corpo era frágil, os braços se proj etando com o finos bastões para fora da cam isola de hospital. Ele falava rapidam ente, em tom sério, e naqueles prim eiros segundos ela não entendeu nada. Depois, quando a porta se fechou com um suspiro pneum ático, Fiona com preendeu que ele estava dizendo com o aquilo era estranho, que sem pre soube que ela iria visitá-lo, que achava que ele tinha esse dom , essas prem onições, que na aula de estudos religiosos tinha sido lido um poem a que dizia que o futuro, o presente e o passado form avam um a unidade, coisa que a Bíblia tam bém dizia. Seu professor de quím ica tinha dito que a relatividade provava que o tem po era um a ilusão. E, se Deus, a poesia e a ciência diziam todos a m esm a coisa, só podia ser verdade, ela não achava?
Ele se recostou nos travesseiros para recuperar o fôlego. Fiona se m antivera ao pé da cam a, sem se sentar. Agora se aproxim ou do lado do leito onde havia um a cadeira de plástico, disse seu nom e e estendeu a m ão. A dele era fria e úm ida. Sentou-se e esperou que ele falasse m ais. Mas a cabeça de Adam estava inclinada para trás, ele contem plava o teto, ainda se recuperando, e, ela entendeu, aguardando um a resposta. Teve consciência do silvo de um a das m áquinas a suas costas, assim com o de um bipe rápido e baixinho, no lim ite ao m enos da sua capacidade auditiva. O m onitor cardíaco, com o volum e reduzido para não incom odar o paciente, revelava a excitação do rapaz.
Ela se inclinou para a frente e disse que achava que ele tinha razão. Em sua experiência no tribunal, se testem unhas que nunca haviam conversado entre si diziam todas a m esm a coisa sobre um fato, era m ais provável que fosse verdade.
E então acrescentou: “Mas nem sem pre. Pode haver fantasias coletivas. Pessoas que não se conhecem podem se sentir fascinadas pela m esm a ideia falsa. Isso certam ente acontece nos tribunais”.
“Quando, por exem plo?”
Com o ele ainda estava recuperando o fôlego, m esm o essas três palavras representaram um esforço. Continuou a olhar para o alto, evitando encará-la, enquanto ela buscava um exem plo.
“Alguns anos atrás neste país algum as crianças foram afastadas de seus pais pelas autoridades e os pais processados pelo que se cham ou de depravação satânica, por fazerem coisas terríveis com seus filhos em rituais secretos de veneração ao dem ônio. Todos atacaram os pais. Policiais, assistentes sociais, prom otores, j ornais, até m esm o j uízes. Mas acabou se descobrindo que não havia nada. Nenhum ritual secreto, nenhum diabo, nenhum a depravação. Nada tinha acontecido. Era um a fantasia. Todos aqueles peritos e pessoas im portantes estavam com partilhando um a ilusão, um sonho. Passado algum tem po, todos recobraram a razão e ficaram m uito envergonhados, ou deveriam ter ficado. E aos poucos as crianças voltaram a seus lares.”
Fiona falou com o se ela própria estivesse sonhando. Sentiu-se agradavelm ente tranquila, em bora suspeitasse que Marina, acom panhando com atenção a conversa, ficara perplexa com suas observações. Que estaria fazendo a j uíza ao falar com o rapaz sobre m aus-tratos infantis m inutos depois de conhecê-lo? Será que desej ava sugerir que a religião, a religião dele, era um a fantasia coletiva? Marina havia im aginado que, depois de um a conversinha am ável, os im portantíssim os com entários iniciais da j uíza consistiriam em perguntar se ele sabia por que ela estava lá. Em vez disso, Fiona estava fazendo um a digressão, com o se conversasse com um colega acerca de um escândalo institucional da década de 1980 j á esquecido. Mas o que Marina poderia pensar não a preocupava. Ela faria aquilo do seu j eito.
Adam ficou quieto, absorvendo o que ela havia dito. Por fim , virou a cabeça no travesseiro e seus olhos se encontraram . Ela j á esbanj ara bastante de sua autoridade e estava decidida a não afastar o rosto. A respiração dele estava m ais ou m enos sob controle, sua aparência era som bria e solene, im possível de ler. Isso pouco im portava, porque ela agora se sentia m ais calm a do que estivera no dia todo. Nada que m erecesse com em oração. Se não calm a, sem precipitação. A pressão de um tribunal que esperava por seu retorno, a necessidade de um a decisão rápida, o prognóstico urgente do consultor m édico — tudo isso estava em suspenso no quarto herm eticam ente fechado e penum broso enquanto ela contem plava o rapaz e esperava que ele falasse. Fizera bem em ter vindo.
Teria sido inadequado olhar no fundo dos olhos dele por cerca de trinta segundos ou m ais, m as ela teve tem po de im aginar, graças à capacidade do pensam ento de condensar im pressões variadas, que ele via sentada na cadeira à beira de sua cam a outra pessoa adulta cheia de opiniões, um a pessoa adulta ainda m enos significativa pela irrelevância especial que cerca um a senhora idosa.
Ele afastou o olhar pouco antes de dizer: “O problem a com Satã é que ele é extraordinariam ente sofisticado. Põe na cabeça das pessoas um a ideia idiota, com o sei lá o quê satânico, depravação satânica, deixa que a refutem para todo m undo pensar que afinal ele não existe, e então fica livre para fazer tudo de ruim ”.
Outra característica de sua abertura pouco convencional — Fiona entrara no território dele. Satã era um a figura ativa na construção do m undo, de acordo com as testem unhas de Jeová. Viera à Terra em outubro de 1914, assim ela lera ao folhear o m aterial inform ativo, a fim de se preparar para os dias finais, e estava trabalhando m aliciosam ente através dos governos, da Igrej a católica e em especial das Nações Unidas, encoraj ando-as a espalhar a concórdia entre todos os países no m om ento em que eles deveriam estar se preparando para o Arm agedão.
“Ele está livre para tentar m atá-lo de leucem ia?”
Ela se perguntou se tinha falado de m odo dem asiado direto, m as Adam possuía a resiliência que os adolescentes gostam de exibir. De bancar o durão. “É, esse tipo de coisa.”
“E vai deixar que ele faça isso?”
Adam em purrou o corpo contra os travesseiros para se sentar com as costas retas, passando depois a m ão pelo queixo com ar pensativo, num a paródia de um pom poso professor ou com entarista de televisão. Estava zom bando dela.
“Bem , j á que a senhora pergunta, pretendo esm agá-lo obedecendo aos m andam entos de Deus.”
“Isso significa um sim ?”
Ele ignorou essa observação, esperou um m om ento e disse: “A senhora veio para m udar m inha cabeça, m e endireitar?”.
“De m aneira nenhum a.”
“Ah, veio! Eu acho que sim !” De repente ele se transform ara num a criança travessa e provocadora, abraçando os j oelhos por cim a das cobertas, em bora fracam ente, e voltou a se excitar, adotando um tom sardônico: “Por favor, m inha senhora, m e aponte o cam inho da retidão”.
“Vou lhe dizer por que estou aqui, Adam . Quero ter certeza de que você sabe o que está fazendo. Algum as pessoas acham que você é j ovem dem ais para tom ar um a decisão com o essa e que foi influenciado por seus pais e pelos líderes da congregação. E outros acham que, com o você é extrem am ente inteligente e capaz, deveríam os apenas deixar que siga em frente.”
Sob a luz cruel, ele cresceu vividam ente diante dela, o cabelo negro e despenteado escapando por cim a da gola, os olhos grandes e escuros varrendo o rosto de Fiona com m ovim entos rápidos, alertas para captar qualquer logro ou notas falsas. Das cobertas subiu um arom a de talco ou sabão, e de seu hálito algo tênue e m etálico. Sua dieta de rem édios.
“Bom ”, ele disse com entusiasm o. “Qual é a sua im pressão até agora? Com o estou m e saindo?”
Estava m esm o brincando com ela, atraindo-a para outro terreno, para um a região m ais rústica, onde poderia dançar em volta dela, instigá-la a dizer outra vez algo inapropriado e interessante. Ocorreu a Fiona que aquele j ovem precoce pudesse estar apenas entediado, insuficientem ente estim ulado e que, ao am eaçar a própria vida, passara a encenar um dram a fascinante no qual era o principal ator de cada cena, conseguindo trazer para a beira de seu leito um cortej o de adultos im portantes e im portunos. Fosse esse o caso, ela gostaria ainda m ais dele. Um a grave doença não era capaz de sufocar sua vitalidade.
Assim , com o ele estaria se saindo? “Muito bem até agora”, ela disse, consciente de que assum ia um risco. “Você dá a im pressão de ser alguém que sabe o que quer.”
“Obrigado”, ele disse com um a voz ironicam ente doce.
“Mas pode ser apenas im pressão.”
“Eu gosto de dar um a boa im pressão.”
Seu estilo e seu hum or tinham um coeficiente de tolice que de fato às vezes acom panha um a grande inteligência. E que lhe servia de proteção. Ele sem dúvida estava m uito assustado. Era chegada a hora de fazê-lo pôr os pés no chão.
“E, se você sabe o que quer, não vai se recusar a discutir questões práticas.”
“Pode com eçar.”
“O consultor m édico diz que, se puder fazer a transfusão e elevar sua contagem sanguínea, vai acrescentar a seu tratam ento dois rem édios m uito eficazes que lhe darão um a boa chance de se recuperar por com pleto e relativam ente em pouco tem po.”
“Sei.”
“E que sem a transfusão você pode m orrer. Entende isso, não entende?”
“Estou sabendo.”
“E há outra possibilidade. Preciso estar certa de que você a considerou. Não a m orte, Adam , m as um a recuperação parcial. Você poderia ficar cego, poderia sofrer um dano cerebral ou seus rins poderiam falhar. Será que agradaria a Deus ter você cego ou m entalm ente incapaz, ou fazendo diálise pelo resto da sua vida?”
Sua pergunta ia além do lim ite, do lim ite legal. Ela deu um a olhada para o canto som brio onde Marina estava sentada. Ela usava a revista para apoiar um caderno de notas e escrevia se valendo só do tato. Não levantou a vista.
Adam olhava fixam ente para um ponto acim a da cabeça de Fiona. Com um estalido m olhado, um edeceu os lábios com a língua coberta por um a película branca. Agora havia um quê am uado em sua voz.
“Se a senhora não crê em Deus, não devia estar falando sobre o que agrada a ele ou não.”
“Eu não disse que não acredito. Gostaria de saber se você considerou isso com todo o cuidado, o fato de que pode ficar pelo resto da vida doente e incapaz, m entalm ente, fisicam ente ou as duas coisas.”
“Eu odiaria isso, odiaria.” Ele virou o rosto depressa, num a tentativa de esconder as lágrim as que subitam ente m arej aram seus olhos. “Mas, se é isso que acontece, tenho que aceitar.”
Ficou nervoso, evitando olhá-la nos olhos, envergonhado por deixá-la ver com o tinha sido fácil esvaziar sua convicção. O cotovelo dobrado era ossudo e frágil. Sabe-se lá por quê, ela pensou em receitas, frango assado com m anteiga, estragão e lim ão, berinj elas cozidas com tom ates e alho, batatas ligeiram ente fritas em azeite. Levar aquele m enino para casa e alim entá-lo.
Tinham feito um bom progresso, atingido um novo patam ar, e ela estava prestes a dar seguim ento com um a nova pergunta quando a enferm eira caribenha entrou e escancarou a porta. Do lado de fora, com o se convocado por sua fantasia de preparar com ida, estava um j ovem com um paletó de algodão m arrom , pouco m ais velho que Adam , ao lado de um carrinho cheio de recipientes de aço escovado.
“Posso trazer seu j antar depois”, disse a enferm eira. “Mas só daqui a m eia hora.”
“Se der para você aguentar”, disse Fiona a Adam .
“Dá, sim .”
Fiona se levantou da cadeira para perm itir que a enferm eira fizesse um a verificação de rotina no paciente e em seus m onitores. Deve ter notado seu estado em ocional e a um idade em torno dos olhos, porque secou o rosto dele com a m ão antes de sair, sussurrando de form a audível: “Trata de prestar atenção no que essa senhora tem pra te dizer”.
A interrupção alterou o clim a no quarto. Quando Fiona voltou a se sentar, não fez a pergunta que tencionava. Em vez disso, apontou com a cabeça na direção dos papéis em m eio à m ixórdia sobre a cam a. “Ouvi dizer que você tem escrito poesia.”
Ela im aginou que Adam rej eitaria a deixa por achá-la introm etida ou condescendente, m as ele deu a im pressão de se sentir aliviado com a m udança de assunto, um a reação sincera, sem intenções defensivas. Fiona notou tam bém com o seu estado de espírito se alterava velozm ente.
“Acabei um a coisa não faz m uito tem po. Posso ler para a senhora, se quiser. É bem pequeno. Mas espera um m inuto.” Aj eitou o corpo de lado para encará-la. Antes de falar, um edeceu os lábios ressequidos. Outra vez a língua recoberta com um a película branca. Em outro contexto poderia ser algo bonito, um a novidade cosm ética.
Ele perguntou em tom de confidência: “Com o é que cham am a senhora no tribunal? É ‘Sua Excelência’?”.
“Geralm ente é ‘Meritíssim a’.”
“Meritíssim a? Isso é fantástico! Posso cham á-la assim ?”
“Fiona seria m elhor.”
“Mas quero cham á-la de Meritíssim a. Por favor.”
“Tudo bem . E o poem a?”
Ele se recostou de novo nos travesseiros para recuperar o fôlego, e ela esperou. Por fim , o esforço para alcançar um a folha de papel perto de seu j oelho provocou um a tosse debilitada. Term inado o acesso, sua voz estava fraca e roufenha. Fiona não percebeu nenhum a ironia na form a em que agora se dirigia a ela.
“A coisa estranha, Meritíssim a, é que só com ecei a escrever m inhas m elhores poesias depois que fiquei doente. Por que a senhora acha que isso aconteceu?”
“Você é que tem de m e dizer.”
Ele deu de om bros. “Gosto de escrever no m eio da noite. Todo o prédio para de funcionar, só se ouve um zum bido estranho e profundo, im possível de ouvir durante o dia. Escuta.”
Os dois escutaram . Lá fora ainda haveria m ais quatro horas de luz, àquela altura o trânsito estava no auge. Ali parecia ser de m adrugada, m as ela não conseguiu ouvir o zum bido. Estava com eçando a se dar conta de que a qualidade que o definia era a inocência, um a inocência pura e excitável, um a franqueza infantil que podia ter algo a ver com a natureza fechada da seita. A congregação, de acordo com o que lera, era encoraj ada a m anter seus filhos tão distantes quanto possível de pessoas de fora. Muito sem elhante aos j udeus ultraortodoxos. Os adolescentes da fam ília de Fiona, tanto as garotas quanto os rapazes, bem cedo se tinham protegido com um a dura e reluzente cam ada de esperteza m undana. A postura exagerada que assum iam era de certa form a encantadora, um a ponte necessária para a vida adulta. A falta de traquej o de Adam inspirava carinho, m as o deixava vulnerável. Ela se em ocionou com sua delicadeza, com o m odo com o olhava ferozm ente para o papel, talvez tentando ouvir antecipadam ente o poem a através dos ouvidos dela. Fiona concluiu que ele devia ser m uito am ado em casa.
Adam olhou de relance para ela, respirou fundo e com eçou.
Eu era feliz até cair no mais negro abismo
Quando o martelo de Satã feriu minh’alma
Com golpes longos e lentos como os de um ferreiro,
E me esmagou.
Mas Satã fez com isso um tecido de ouro batido
Que refletiu sobre todo o rebanho o amor de Deus.
Na áurea luz o caminho se iluminou
E me salvei.
Ela esperou no caso de haver m ais, porém ele deixou o papel na cam a, recostou-se e olhou para o teto enquanto falava:
“Escrevi esse poem a depois que um dos anciãos, o sr. Crosby, m e disse que, se acontecesse o pior, isso teria um efeito fantástico sobre todo m undo.”
Fiona m urm urou: “Ele disse isso?”.
“Ia encher nossa igrej a de am or.”
Ela resum iu para ele. “Quer dizer que Satã golpeia você com seu m artelo e, sem querer, esm aga sua alm a até transform á-la num a folha de ouro batido que reflete o am or de Deus sobre todo m undo. Por isso você é salvo, não im portando m uito que estej a m orto.”
“Meritíssim a, a senhora entendeu perfeitam ente”, o rapaz exclam ou, m uito excitado. Precisou parar de novo para recobrar o fôlego. “Acho que as enferm eiras não entenderam , exceto a Donna, a que veio aqui agorinha m esm o. O sr. Crosby vai tentar publicar o poem a na revista A Sentinela.”
“Seria m aravilhoso. Você pode ter um belo futuro com o poeta.”
Ele sorriu, sem se deixar iludir pelo sentido da frase.
“O que seus pais acham dos seus poem as?”
“Minha m ãe gosta m uito, papai acha que estão bem m as que gastam a energia de que preciso para ficar bom .” Virou-se outra vez de lado para encará-la. “Mas o que é que a Meritíssim a acha? O título deste é ‘O m artelo’.”
Havia tanta fom e em seu olhar, um tam anho desej o de contar com a aprovação dela, que ela hesitou. Por fim , disse: “Acho que ele tem um a ponta, m as um a pontinha bem pequena, vej a bem , de um verdadeiro talento poético”.
Ele continuou a olhá-la fixam ente, o sem blante inalterado, querendo m ais. Ela achou que soubesse o que estava fazendo, porém naquele instante sua m ente se esvaziou. Não queria desapontá-lo e não tinha o hábito de falar sobre poesia.
“Por que a senhora diz isso?”
Ela não sabia de pronto. Teria ficado contente se Donna voltasse para se ocupar do equipam ento e do paciente, enquanto ela iria até a j anela im possível de abrir e contem plaria o gram ado central de Wandsworth decidindo o que dizer. Mas a enferm eira não voltaria nos próxim os quinze m inutos. Fiona teve a esperança de que, se com eçasse a falar, descobriria o que pensava. Era com o quando estava na escola. Naquela época, em geral se saía bem .
“O form ato, aquelas duas frases curtas que equilibram as coisas, você está am assado e está salvo, a segunda superando a prim eira — gostei disso. E gostei dos golpes do ferreiro…”
“Longos e lentos.”
“Isso m esm o, longos e lentos é bom . E é bastante conciso, com o costum am ser alguns dos m elhores poem as curtos.” Ela sentiu que sua confiança retornava. “Suponho que estej a nos dizendo que da adversidade, de um m om ento terrível, algum a coisa de bom pode resultar. Não é isso?”
“É.”
“E não acho que alguém precise acreditar em Deus para com preender ou apreciar esse poem a.”
Ele refletiu por alguns segundos e disse: “Acho que precisa”.
“Você acha que deve sofrer para ser um bom poeta?”
“Acho que todos os grandes poetas têm que sofrer.”
“Entendo.”
Fingindo aj ustar a m anga, ela esticou o braço para baixo e deu um a olhada rápida no relógio. Necessitava voltar em breve para o tribunal a fim de proferir a sentença.
Mas ele tinha notado o gesto. “Não vai em bora ainda”, ele disse baixinho. “Espera o m eu j antar chegar.”
“Está bem . Adam , m e diga, o que seus pais acham ?”
“Mam ãe está lidando m elhor com tudo isso. Aceita as coisas, sabe? Obediência a Deus. E é m uito prática, tom ou todas as providências, falou com os m édicos, arranj ou esse quarto m aior do que os outros, encontrou um violino para m im . Mas papai está se arrebentando. Está acostum ado a tom ar conta de m áquinas pesadas, de fazer as coisas funcionarem .”
“E recusando um a transfusão?”
“O que é que tem isso?”
“O que seus pais dizem a você?”
“Não há m uito o que dizer. Nós sabem os o que é certo.”
Ao dizer isso olhando nos olhos de Fiona e sem nenhum desafio na voz, ela acreditou totalm ente que Adam e seus pais, a congregação e os anciãos sabiam o que era certo para eles. Sentiu-se desagradavelm ente inconsequente, esvaziada, sem rum o. Ocorreu-lhe a noção sacrílega de que não im portava m uito um a coisa ou outra, que o m enino vivesse ou m orresse. Tudo continuaria essencialm ente com o antes. Tristeza profunda, talvez um am argo rem orso, doces recordações, e então a vida se lançaria de novo para a frente, e esses três sentim entos iriam se esvaindo à m edida que os que o am avam envelhecessem e m orressem , até tudo perder o sentido. Religiões e sistem as m orais, inclusive os dela, eram com o picos num a m aj estosa cordilheira vista m uito ao longe, nenhum deles claram ente m ais alto, m ais im portante, m ais verdadeiro que os outros. Julgar o quê?
Ela balançou a cabeça para dissipar tal pensam ento. Esperando na fila estava a pergunta que se aprestava a fazer quando Donna chegou. Tão logo a fez, se sentiu m elhor.
“Seu pai explicou alguns argum entos religiosos, m as quero ouvi-los com suas próprias palavras. Por que exatam ente você não quer receber um a transfusão de sangue?”
“Porque é errado.”
“Continue.”
“E Deus nos disse que é errado.”
“Por que é errado?”
“Por que um a coisa é errada? Porque sabem os que é. Tortura, assassinato, m entira, roubo. Mesm o que a gente obtenha boas inform ações de um a pessoa m á porque as torturam os, sabem os que isso está errado. Sabem os porque Deus nos ensinou. Mesm o que…”
“A transfusão é o m esm o que um a tortura?”
Marina se m exeu em seu canto. Adam , falando aos solavancos, arquej ante, avançou na explicação. A transfusão e a tortura só eram sem elhantes por serem am bas erradas. Sabíam os disso em nosso coração. Citou o Levítico e os Atos, dissertou sobre o sangue com o essência, sobre a palavra literal de Deus, sobre contam inação, falando com o um aluno inteligente do ensino m édio, o m ais brilhante debatedor do colégio. Os olhos escuros, cor de violeta, brilhavam sob o efeito de suas palavras. Fiona reconheceu certas frases ditas pelo pai. Mas Adam as pronunciou com o se fosse o descobridor de fatos elem entares, o form ulador da doutrina, e não seu destinatário. Ela estava ouvindo um serm ão reproduzido fiel e apaixonadam ente. Ele se apresentou com o porta-voz de sua seita quando disse que ele e a congregação só desej avam ser deixados em paz para viver segundo o que sabiam ser verdades evidentes.
Fiona se m ostrou atenta, sustentando o olhar do rapaz, vez por outra assentindo com a cabeça; quando por fim houve um a pausa natural, ela se pôs de pé e disse: “Só para ficar claro, Adam . Você entende que só depende de m im decidir o que m elhor serve a seus interesses? Se eu decidir que o hospital pode legalm ente fazer a transfusão contra sua vontade, o que é que você vai achar?”.
Ele estava se em pertigando na cam a e respirando fundo, e deu a im pressão de se encolher um pouco ao ouvir a pergunta, m as sorriu: “Eu ia achar que a Meritíssim a era m uito introm etida”.
Foi um a m udança tão inesperada de tim bre, um com entário tão absurdam ente brando, e a surpresa de Fiona tão óbvia para ele, que am bos com eçaram a rir. Marina, que no m om ento recolhia a bolsa e seu caderno de notas, parecia perplexa.
Fiona olhou para o relógio, desta vez abertam ente, e disse: “Acho que você deixou bem claro que sabe o que quer, tanto quanto qualquer um de nós seria capaz de fazê-lo”.
Ele retrucou com a necessária solenidade: “Muito obrigado. Vou dizer a m eus pais hoj e à noite. Mas não vá em bora. Meu j antar ainda não chegou. Que tal outro poem a?”.
“Adam , preciso voltar ao tribunal.” No entanto, ela tam bém estava desej osa de desviar a conversa sobre o estado de saúde dele. Viu o arco sobre a cam a, parcialm ente na som bra.
“Depressa, antes que eu vá, m e m ostre seu violino.”
O estoj o estava no chão perto de um arm ário e debaixo da cam a. Ela o pegou e pôs no colo dele.
“É só um violino para iniciantes.” Mas o retirou com extrem o cuidado, m ostrou a ela e j untos adm iraram a m adeira torneada, m arrom -escura com bordas pretas e volutas delicadas.
Ela pôs a m ão na superfície envernizada e Adam pousou a dele ao lado. Fiona disse: “São belos instrum entos. Sem pre penso que há algo de hum ano no form ato deles”.
Adam estava pegando o livro de lições na m esa de cabeceira. Ela não tencionava ouvi-lo tocar, m as não podia im pedir. Sua doença e sua avidez inocente o tornavam invencível.
“Estou estudando há um m ês e sei tocar dez m úsicas.” A bazófia tam bém tornava im possível desviá-lo de seu propósito. Ele virava as páginas im pacientem ente. Fiona olhou na direção de Marina e deu de om bros.
“Mas essa é a m ais difícil até agora. Dois sustenidos. Ré m aior.”
Fiona estava vendo a partitura de cabeça para baixo. Ela disse: “Talvez na verdade sej a si m enor”.
Ele não a ouviu. Já se sentava, com o violino aloj ado sob o queixo e, sem parar para afinar as cordas, com eçou a tocar. Ela conhecia bem aquela bela e triste m elodia, um a canção tradicional da Irlanda. Junto com Mark Berner, tinha executado o acom panham ento m usical com posto por Benj am in Britten para o poem a de Yeats “Down by the Salley Gardens”. Era um a das peças que tocavam com o bis. Adam naturalm ente a executou com rangidos e sem vibratos, m as as notas estavam corretas com um a ou duas exceções. A m elodia m elancólica e o m odo com o foi interpretada, tão esperançoso e tão puro, expressavam tudo o que ela com eçava a entender sobre o rapaz. Fiona sabia de cor as palavras de desgosto do poeta. Mas eu era jovem e tolo… Ouvir Adam a em ocionou, além de surpreendê-la. Querer tocar violino ou qualquer instrum ento era um a dem onstração de esperança, im plicava um futuro.
Quando term inou, ela e Marina aplaudiram e, da cam a, Adam fez um a reverência desaj eitada.
“Estupendo!”
“Fantástico!”
“E só em um m ês!”
Fiona, para conter sua em oção, acrescentou um com entário técnico. “Lem bre sem pre que, nesse tom , o dó é sustenido.”
“Ah, sim . São tantas coisas para pensar ao m esm o tem po.”
Ela então fez um a proposta m uito distante de qualquer coisa que esperava de si própria, correndo o risco de solapar sua autoridade. A situação e o próprio quarto, isolado do m undo em seu perpétuo lusco-fusco, podem ter estim ulado um a tendência à im oderação, m as antes de tudo foi o desem penho de Adam , sua expressão de afinco ardoroso, os sons rangentes nascidos da falta de m aestria, tão expressivos de seu entusiasm o sem m alícia, que m exeram profundam ente com ela e provocaram a sugestão im pulsiva.
“Então toque de novo que eu vou acom panhar cantando.”
Marina se levantou, franzindo a testa, talvez se perguntando se deveria intervir.
Adam disse: “Não sabia que tinha um a letra”.
“Ah, sim , dois versos lindos.”
Com com ovente solenidade, ele levou o violino ao queixo e olhou para Fiona. Quando com eçou a tocar, ela ficou satisfeita de atingir as notas altas com facilidade. Sem pre tivera um orgulho secreto de sua voz, sem m uitas oportunidades de usá-la fora do coral da Gray ’s Inn, quando ainda participava dele. Desta vez o violonista se lem brou do dó sustenido. No prim eiro verso estavam testando os lim ites, quase se desculpando, m as no segundo seus olhares se encontraram e, esquecendo de todo Marina, que agora estava perto da porta e parecia pasm a, Fiona cantou m ais alto, enquanto o uso canhestro do arco por Adam se revelou m ais ousado, am bos crescendo no espírito plangente daquela visão do passado.
Num campo junto ao rio, meu amor pousou de leve
A mão branca como a neve
No meu ombro inclinado, me dizendo
Que levasse a vida com leveza,
Como o capim cresce na margem da represa;
Mas eu era jovem e tolo, e hoje só me resta chorar.
Ao term inarem , o rapaz de paletó m arrom estava entrando no quarto com seu carrinho, as tam pas de aço escovado tilintando alegrem ente. Marina se encam inhara para o posto das enferm eiras.
Adam disse: “‘No m eu om bro inclinado’ é bom , hein? Vam os tocar outra vez.”
Fiona balançou a cabeça enquanto tom ava o violino das m ãos dele e o guardava no estoj o. “‘Me dizendo que levasse a vida com leveza’,” citou para ele.
“Fica m ais um pouquinho. Por favor.”
“Adam , eu realm ente preciso ir.”
“Então m e dê seu e-m ail.”
“Exm a. Sra. Juíza May e, Tribunais Reais de Justiça, Strand. Lá você m e encontra.”
Ela segurou por um instante o pulso fino e frio dele e depois, não querendo ouvir um novo protesto ou um pedido de Adam , cam inhou em direção à porta sem olhar para trás, deixando de responder à pergunta que ele fez com voz débil às suas costas.
“A senhora vai voltar?”
O retorno ao centro de Londres foi m ais rápido e, no traj eto, as duas m ulheres não se falaram . Enquanto Marina fazia um a longa cham ada telefônica para seu m arido e filhos, Fiona escreveu notas a serem usadas no j ulgam ento. Entrou no tribunal pela porta principal e seguiu im ediatam ente para seu gabinete, onde Nigel Pauling a esperava. Ele confirm ou que tinham sido tom adas todas as providências para que o Tribunal de Recursos se reunisse no dia seguinte, se necessário convocado com um a hora de antecedência. Além disso, a sessão desta noite havia sido transferida para um a sala suficientem ente grande a fim de acom odar todos os profissionais de im prensa.
Eram nove e quinze quando ela entrou e todos se puseram de pé. Enquanto se acom odavam nos assentos, ela sentiu a im paciência dos j ornalistas. Para os j ornais, aquela não era um a hora conveniente. Na m elhor das hipóteses, se a j uíza fosse sucinta, a história estaria pronta para aparecer nas últim as edições. Diretam ente à frente dela, com o antes, os diversos representantes das partes e Marina Greene ocupavam um am plo espaço, m as o sr. Henry se encontrava sozinho atrás de seu advogado, sem a esposa.
Tão logo se sentou, Fiona iniciou as observações introdutórias.
“As autoridades de um hospital solicitam a perm issão desta corte para tratar contra sua vontade um adolescente, A, em pregando procedim entos corriqueiros que os m édicos consideram tecnicam ente adequados, incluindo, neste caso, transfusões de sangue. Elas buscam tal autorização m ediante um a ordem específica. O pedido foi feito há quarenta e oito horas sem consulta à outra parte. Com o m agistrada de plantão, deferi o pedido suj eito a determ inadas condições. Acabo de voltar de um a visita a A no hospital, onde estive acom panhada pela sra. Marina Greene, que representa o serviço de assistência à Vara da Fam ília. Fiquei com ele por um a hora. É evidente que se encontra extrem am ente enferm o. No entanto, seu intelecto não está nem um pouco afetado, e ele foi capaz de expressar seu desej o com absoluta clareza. O m édico assistente afirm ou a esta corte que a partir de am anhã a situação de A se tornará um a questão de vida ou m orte, m otivo pelo qual realizo o j ulgam ento tão tarde num a noite de terça-feira.”
Fiona declinou o nom e dos diversos advogados e agradeceu a eles, a Marina Greene e ao hospital por terem -na aj udado num caso difícil que precisava ser resolvido com rapidez.
“Os pais se opõem à solicitação com base em sua fé religiosa, que é m anifestada serenam ente e fruto de profunda convicção. O filho deles tam bém obj eta e dem onstra boa com preensão dos princípios religiosos, possuindo considerável m aturidade e capacidade de articulação verbal para a sua idade.”
Descreveu a seguir a evolução da enferm idade, a leucem ia, o tratam ento usual que em geral produzia bons resultados. Mas dois dos rem édios com um ente adm inistrados causavam anem ia, que necessitava ser com batida m ediante transfusões de sangue. Resum iu os argum entos do m édico assistente, enfatizando a contagem declinante de hem oglobina e os prognósticos som brios caso isso não fosse revertido. Ela podia confirm ar pessoalm ente que a falta de ar de A era agora patente.
A contestação ao pedido se fundam entava em três argum entos principais. O prim eiro era o de que, com o lhe faltavam três m eses para com pletar dezoito anos e ele era m uito inteligente, conhecendo as consequências de sua decisão, Adam devia ser tratado com o possuidor da “com petência de Gillick”. Em outras palavras, seria tão capaz de ter suas decisões reconhecidas quanto qualquer adulto. Em segundo lugar, que a recusa de tratam ento m édico constituía um direito hum ano básico, razão por que a corte deveria m ostrar relutância em intervir. E que, por fim , a fé religiosa de A era genuína e devia ser respeitada.
Fiona abordou os seguintes pontos. Agradeceu ao advogado dos pais de A por ter cham ado sua atenção para a seção 8 da em enda de 1969 à Lei da Fam ília: o consentim ento de um a pessoa de dezesseis anos “será tão eficaz com o o seria se ele j á houvesse alcançado a m aioridade”. Listou as condições relativas à “com petência de Gillick”, citando Scarm an no processo. Reconheceu a distinção entre a circunstância de um a criança com petente com m enos de dezesseis anos consentir num tratam ento, possivelm ente contra a vontade dos pais, e de um a criança de m enos de dezoito recusar um tratam ento passível de salvar sua vida. Do que percebera naquela noite, estaria ela convencida de que A tinha um a com preensão absoluta das im plicações de serem aceitas sua vontade e a de seus pais?
“Ele é sem dúvida um a criança excepcional. Posso m esm o dizer, com o o fez um a das enferm eiras hoj e à noite, que se trata de um m enino adorável, com o que certam ente concordam seus pais. Ele tem um a capacidade de com preensão excepcional para um j ovem de dezessete anos. Mas creio que possui um entendim ento lim itado da provação que deve confrontar, do pavor que o invadiria à m edida que seu sofrim ento e sua im potência aum entassem . Na verdade, ele tem um a noção rom ântica do que sej a sofrer. Entretanto…”
Deixou a palavra pendurada no ar, e o silêncio na sala se adensou enquanto ela passava os olhos pelas anotações.
“Entretanto, em últim a análise não m e deixo influenciar pelo fato de que ele tenha ou não a com preensão absoluta de seu estado. Em vez disso, sou guiada pela decisão do j uiz Ward, com o era cham ado na época, com referência ao m enor E, em j ulgam ento que tam bém envolveu um adolescente que pertencia às testem unhas de Jeová. Naquela oportunidade, ele afirm ou: ‘Assim , é o bem -estar da criança que preside a m inha decisão, e cum pre a m im decidir o que dita o bem -estar de E’. Essa observação foi cristalizada na clara prescrição da Lei da Criança de 1989, que garante nas duas prim eiras linhas a prim azia do bem -estar do m enor. Entendo ‘bem -estar’ com o englobando ‘felicidade’ e ‘interesses’. Tam bém sou obrigada a levar em conta a vontade de A. Com o j á observei, ele a expressou claram ente a m im , com o o fez seu pai perante esta corte. De acordo com as doutrinas de sua religião, derivadas de um a interpretação peculiar de três passagens da Bíblia, A se recusa a aceitar a transfusão de sangue que provavelm ente salvará sua vida.
“É um direito fundam ental dos adultos recusarem qualquer tratam ento m édico. Tratar um adulto contra sua vontade significa com eter o crim e de agressão. A está próxim o da idade em que pode tom ar um a decisão por sua conta e risco. O fato de estar preparado para m orrer por suas crenças religiosas dem onstra quão profundas elas são. O fato de que seus pais estão preparados para sacrificar um filho m uito querido por causa de sua fé revela o poder da crença a que as testem unhas de Jeová obedecem .”
Mais um a vez ela parou e o público aguardou.
“É precisam ente esse poder que m e faz refletir, porque A, com seus dezessete anos, conheceu m uito pouco fora do turbulento terreno das ideias religiosas e filosóficas. Não faz parte dos m étodos dessa seita cristã encoraj ar o debate aberto e a discordância na congregação, cuj os m em bros são por eles cham ados — de form a correta, alguém poderia dizer — de ‘as outras ovelhas’. Não creio que a m ente de A e suas opiniões lhe pertençam inteiram ente. Durante toda a infância ele esteve exposto sem interrupção a um a visão do m undo m onocrom ática e poderosa, a cuj o condicionam ento não poderia escapar. Não prom overá seu bem -estar sofrer um a m orte desnecessária e agonizante, para assim se transform ar num m ártir de sua fé. As testem unhas de Jeová, com o outras religiões, têm um a noção nítida do que nos aguarda após a m orte, e as predições deles sobre o fim dos dias, sua escatologia, são tam bém rígidas e m uito detalhadas. Este tribunal não tem opinião algum a sobre a vida no Além , que, de qualquer form a, certo dia A descobrirá, ou deixará de descobrir, por conta própria. Até lá, presum indo um a boa recuperação, o bem -estar dele será m ais bem servido por seu am or pela poesia, por sua recém -descoberta paixão pelo violino, pelo aproveitam ento de sua viva inteligência e pelas m anifestações de um a natureza brincalhona e afetuosa, por toda a vida e o am or que se abrem à sua frente. Em sum a, entendo que A, seus pais e os anciãos da igrej a tom aram um a decisão que é hostil ao bem -estar de A, o qual constitui a principal consideração desta corte. Ele precisa ser protegido de tal decisão. Precisa ser protegido de sua religião e de si m esm o.
“Esta não foi um a questão sim ples de resolver. Ponderei cuidadosam ente a idade de A, o respeito devido à sua fé e a dignidade do indivíduo contida no direito de recusar tratam ento. A m eu j uízo, sua vida é m ais preciosa do que essa dignidade.
“Em consequência, nego a vontade de A e de seus pais. Minha ordem é que não sej a necessário obter a concordância para a transfusão de sangue do prim eiro e segundo contestantes, que são os pais, e a concordância para a transfusão de sangue do terceiro contestante, que é o próprio A. Desse m odo, o hospital dem andante está legalm ente autorizado a aplicar em A os tratam entos m édicos que j ulgue necessários, no entendim ento de que podem adm inistrar sangue e produtos dele derivados m ediante transfusão.”
* * *
Eram quase onze da noite quando Fiona iniciou a cam inhada para casa ao sair do tribunal. Àquela hora, os portões estavam trancados e não era possível cortar cam inho por dentro da Lincoln’s Inn. Antes de dobrar na Chancery Lane, ela desceu um pequeno trecho da Fleet Street para com prar um a refeição pronta num a loj a de conveniência que ficava aberta a noite inteira. Na noite anterior, isso teria sido um a m issão deprim ente, m as ela estava sentindo a cabeça leve, talvez porque não se alim entava decentem ente fazia dois dias. Na loj a apertada e excessivam ente ilum inada, os alim entos com em balagens berrantes — verm elhos e roxos explosivos, am arelos de m anchas solares — pulsavam nas prateleiras em sintonia com seus batim entos cardíacos. Ela com prou um a torta de peixe congelada e exam inou várias frutas antes de se decidir. No caixa, atrapalhou-se com o dinheiro, deixando cair m oedas no chão. O ágil rapaz asiático que trabalhava na m áquina registradora im pediu com o pé que as m oedas rolassem e, lhe dando um sorriso protetor, as pôs de volta na m ão dela. Fiona se im aginou através dos olhos dele ao observar a expressão de grande cansaço dela, ignorando ou sendo incapaz de apreciar o corte elegante do casaco e vendo apenas um a dessas velhotas inofensivas que viviam e com iam sozinhas, j á um tanto incapazes, andando pelas ruas tarde da noite.
Ela estava cantando “The Salley Gardens” com os lábios fechados enquanto seguia pela High Holborn. A sacola contendo as frutas e o sólido invólucro do j antar se chocava agradavelm ente contra sua perna. A torta seria aquecida no m icro-ondas enquanto ela se preparava para ir se deitar, e a com eria j á de cam isola em frente ao canal de notícias; depois disso, nada se interporia entre ela e o sono. Nenhum estím ulo quím ico. No dia seguinte havia um divórcio de gente graúda — um guitarrista fam oso e um a esposa quase fam osa, cantora de m úsica rom ântica, com um excelente advogado e desej ando abocanhar boa parte dos vinte e sete m ilhões de libras do m arido. Algodão-doce com parado com hoj e, m as o interesse da im prensa seria igualm ente intenso, a lei igualm ente solene.
Dobrou na Gray ’s Inn, seu santuário. Era sem pre gostoso ver com o o barulho do tráfego ia cessando à m edida que cam inhava. Um a com unidade fechada de certo valor histórico, um a fortaleza de advogados e m agistrados que tam bém eram m úsicos, am antes do bom vinho, pseudoescritores, pescadores que usavam com o iscas m oscas artificiais, contadores de histórias. Um ninho de fofocas e perícia profissional, além de um j ardim delicioso ainda visitado pelo fantasm a de Francis Bacon. Ela am ava o lugar e não queria sair dali nunca.
Entrou no prédio, verificou que a m inuteria estava ligada, subiu até o segundo andar, ouviu o rangido costum eiro do quarto e sétim o degraus e, ao atingir o últim o lance da escada, viu tudo e entendeu im ediatam ente. Seu m arido estava lá, se levantando naquele m om ento com um livro na m ão; atrás dele, a m ala encostada à parede havia servido com o um a espécie de assento, tendo ao lado, no chão, o paletó j unto à valise aberta de onde escapavam diversos papéis. Trancado do lado de fora, trabalhando enquanto esperava. E por que não? Roupas am arrotadas, sem blante irritado. Trancado do lado de fora e esperando fazia m uito tem po. Sem dúvida não estava ali para buscar cam isas lim pas e livros, não se trazia a m ala. Seu prim eiro pensam ento, m elancólico e egoísta, foi que agora teria de dividir o j antar calculado para um a só pessoa. Então pensou que não seria necessário. Preferia não com er.
Subiu os últim os degraus até alcançar o patam ar, sem dizer um a única palavra enquanto procurava na bolsa as chaves, as chaves novas, e o contornava a cam inho da porta. Ele que falasse prim eiro.
O tom foi de queixum e: “Telefonei a noite toda”.
Ela abriu a porta e entrou sem olhar para trás; deixou as com pras na cozinha e parou. Seu coração batia forte dem ais. Ouviu a respiração m al-hum orada dele ao trazer a bagagem para dentro. Se era para haver um a confrontação, que ela não desej ava, não agora, a cozinha era um espaço confinado dem ais. Pegou sua pasta e foi rapidam ente para a sala de visitas, ocupando seu lugar de sem pre na chaise longue. Espalhar algum as páginas em volta de onde estava sentada era um a form a de proteção. Sem isso, não saberia o que fazer de si.
O ruído da m ala sendo arrastada pelo corredor e para dentro do quarto soou para ela com o um a j ogada de abertura. E um insulto. Pela força do hábito, tirou o sapato e apanhou um docum ento ao acaso. O guitarrista tinha um a casa de alto padrão em Marbella. A crooner de canções rom ânticas queria a casa. Mas, antes m esm o do casam ento, ele a adquirira da ex-m ulher, dando em troca a casa da fam ília no centro de Londres. E essa prim eira esposa a havia ganho num acerto de divórcio com um ex-m arido. Irrelevante, Fiona não se furtou a declarar.
Um estalido no assoalho a fez olhar para cim a. Jack parou na porta antes de preparar um drinque. Vestia um a calça j eans e um a cam isa branca desabotoada no peito. Será que se im aginava desej ável? Reparou que ele não fizera a barba. Até m esm o do outro lado da sala os pelos pareciam grisalhos. Patético, am bos eram patéticos. Ele se serviu de um uísque e levantou a garrafa na direção dela. Fiona disse não com a cabeça. Ele deu de om bros e atravessou a sala para se sentar em sua poltrona. Ela era um a desm ancha-prazeres, não sabia aproveitar o bom m om ento. Ele se acom odou com um suspiro de quem se sente em casa. A poltrona dele, a chaise longue dela, outra vez a vida de casados. Ela olhou para a página em sua m ão, a narrativa feita pela esposa do m undo desej ável do guitarrista, im possível de absorver. Fez-se silêncio enquanto ele bebia e ela olhava através da sala para nada em especial.
Então ele disse: “Olha, Fiona, eu te am o”.
Depois de alguns segundos, ela disse: “Prefiro que você durm a no quarto de hóspedes”.
Ele baixou a cabeça em sinal de concordância. “Vou pegar m inha m ala.”
Jack não se levantou. Am bos conheciam a vitalidade do não dito, cuj os espíritos invisíveis dançavam agora em volta deles. Ela não lhe dissera para se m anter fora do apartam ento, aceitando tacitam ente que ele podia dorm ir lá. Ele não lhe dissera ainda se a especialista em estatística o havia m andado em bora, ou se ele tinha m udado de opinião, ou se j á havia experim entado um êxtase suficiente para durar até o túm ulo. A m udança das fechaduras não fora com entada. Ele provavelm ente achou estranho Fiona ter chegado tão tarde. Ela m al suportava olhar para ele. O que se fazia necessário agora era um a briga, com vários capítulos se estendendo ao longo do tem po. Talvez houvesse algum as digressões rancorosas, o arrependim ento de Jack poderia vir em brulhado em reclam ações, talvez dem orasse m eses até ela recebê-lo na cam a, o fantasm a da outra m ulher era capaz de pairar entre eles para sem pre. Mas eles provavelm ente encontrariam um a form a de recuperar, m ais ou m enos, o que haviam tido antes.
A ideia do im enso esforço envolvido e da previsibilidade do processo a cansou ainda m ais. No entanto, ela estava obrigada a segui-lo. Com o se, por contrato, devesse escrever um m anual de direito enfadonho m as necessário. Achou que, afinal, gostaria de tom ar um drinque, em bora isso se parecesse dem ais com um a celebração. Estava m uito longe de um a reconciliação. Acim a de tudo, não aguentaria ouvir outra vez que ele a am ava. Queria estar sozinha na cam a, de costas no escuro, m ordiscando um a fruta, deixando o resto cair no chão, até apagar de todo. O que a im pedia de fazer isso? Ela se pôs de pé e com eçou a recolher seus docum entos. Foi quando ele com eçou a falar.
Foi um a torrente, em parte desculpas, em parte autoj ustificações, algum as das quais ela j á ouvira. A m ortalidade dele, os anos de total fidelidade, sua avassaladora curiosidade de saber com o seria, m as depois que saiu naquela noite, depois que chegou ao apartam ento de Melanie, não dem orou m uito para se dar conta do erro. Ela era um a estranha, ele não a entendia. E quando foram para o quarto dela…
Fiona levantou a m ão em sinal de alerta. Não queria ouvir nada sobre o quarto. Ele fez um a pausa, refletiu, e continuou. Ele era um im becil, ele percebeu, por se deixar levar por um a necessidade sexual, quando deveria ter dado m eia-volta naquela noite no m om ento em que ela abriu a porta, porém se sentiu envergonhado e obrigado a ir adiante.
Apertando sua pasta contra o estôm ago, Fiona ficou no centro da sala observando-o, se perguntando com o fazê-lo parar. Surpreendia-se que m esm o agora, com o dram alhão conj ugal em sua cena de abertura, a canção irlandesa continuasse girando em seu cérebro, o ritm o m ais rápido para acom panhar o com passo da fala de Jack, soando ao m esm o tem po m ecânica e festiva com o se tocada por um realej o de rua. Seus sentim entos eram confusos, obscurecidos pela fadiga e de difícil definição enquanto sobre ela j orravam as palavras chorosas do m arido. Sentiu nem tanto fúria ou um ressentim ento am argo, conquanto algo m ais que m era resignação.
Sim , disse Jack, ao chegar ao apartam ento de Melanie ele se sentiu estupidam ente obrigado a seguir em frente com o que com eçara. “E, quanto m ais preso na arm adilha eu m e sentia, m ais m e dava conta de com o eu era um idiota por am eaçar tudo o que tem os, tudo o que construím os j untos, este am or que…”
“Tive um dia longo”, ela disse ao atravessar a sala. “Vou pôr sua m ala no corredor.”
Parou na cozinha para pegar um a m açã e um a banana em m eio às com pras postas sobre a m esa. Carregá-las no cam inho para o quarto trouxe de volta a felicidade relativa que sentira no traj eto entre o trabalho e a casa. Os prim órdios de certa tranquilidade. Difícil de resgatar agora. Abriu a porta e viu a m ala dele de pé sobre as rodinhas, placidam ente posta j unto à cam a. Então lhe ocorreu com clareza o que sentia com a volta de Jack. Tão sim ples. Era desapontam ento por ele não ter continuado longe. Só por m ais algum tem po. Apenas isso. Desapontam ento.