A Balada de Adam Henry
Capítulo 4
Em bora os fatos não o confirm assem , ela teve a im pressão de que, no final do verão de 2012, os rom pim entos e as crises conj ugais ou crises entre parceiros na Grã-Bretanha cresceram com o um a m aré aberrante de prim avera, varrendo lares do m apa, espalhando bens e sonhos esperançosos, afogando quem não tinha um forte instinto de sobrevivência. Prom essas de am or foram negadas ou reform uladas, bons com panheiros se transform aram em ardilosos com batentes escudados atrás de advogados, sem se im portar com os custos. Obj etos da casa antes desdenhados eram m otivo de am argas disputas, a tranquila confiança de outrora substituída por “acertos” redigidos com todo o cuidado. Na m ente dos envolvidos, a história do casam ento era reescrita para que ele fosse visto com o fadado ao insucesso desde o com eço, o am or repaginado com o m era ilusão. E os filhos? Peças de um j ogo, elem entos de barganha a serem usados pelas m ães; pretexto para acusações de abusos feitas em geral pelas m ães, às vezes pelos pais, em bora fossem com frequência fantasiosas ou inventadas com todo o cinism o; crianças em estado de choque indo e vindo sem analm ente de um a casa para a outra com base em acordos de guarda com partilhada, o esquecim ento de casacos e caixas de lápis sendo com unicado por m eio de advogados; crianças condenadas a verem o pai um a ou duas vezes por m ês; ou nunca, pois os hom ens m ais audaciosos desapareciam na oficina de ferreiro de um novo e quente m atrim ônio para forj ar outros rebentos.
E o dinheiro? As novas m oedas eram as m eias verdades e os apelos especiais. Maridos gananciosos contra esposas gananciosas, m anobrando com o nações ao final de um a guerra, tentando salvar das ruínas todos os despoj os que podiam antes da retirada final. Hom ens ocultavam recursos em contas no exterior, m ulheres exigiam para sem pre um a vida de conforto. Mães im pediam crianças de ver os pais apesar de ordens j udiciais; pais se negavam a oferecer sustento aos filhos apesar de ordens j udiciais. Maridos agrediam esposas e filhos, esposas m entiam ou m aquinavam ardis, um ou outro, ou am bos, bêbados, viciados em drogas ou psicóticos; e crianças eram obrigadas a tom ar conta de pais incapazes, crianças de fato vítim as de abusos sexuais ou m entais, ou am bos, seus depoim entos transm itidos num a tela ao tribunal. E j á fora da área de com petência de Fiona, em casos j ulgados pelas cortes crim inais e não pelas varas de fam ília, crianças torturadas, m ortas de fom e ou por espancam ento, espíritos m aus arrancados de dentro delas em ritos anim istas, padrastos j ovens e cruéis quebrando ossos de bebês sob os olhares abobalhados e cúm plices das m ães, e drogas, álcool, suj eira dom éstica extrem a, vizinhos indiferentes e seletivam ente surdos para não ouvir os gritos, assistentes sociais descuidados ou atarefados dem ais para intervir.
O trabalho das varas de fam ília não cessava. Era por sim ples acaso que tantos conflitos conj ugais caíssem no colo de Fiona. Pura coincidência que ela própria estivesse vivendo um conflito sim ilar. Naquele setor do Judiciário, não era com um m andar gente para a cadeia, m as, apesar disso, em certos m om entos ela tinha vontade de ordenar que fossem encarcerados aqueles dem andantes que, à custa dos filhos, desej avam um a m ulher m ais j ovem , um m arido m ais rico ou m enos enfadonho, um bairro m ais elegante, novas aventuras sexuais, novos am ores, um a nova visão do m undo, um bom reinício antes que fosse tarde dem ais. A sim ples busca do prazer. Vulgaridade m oral. Sua falta de filhos e a situação com Jack davam form a a esses devaneios e, naturalm ente, eles não eram para valer. Entretanto, em bora m ergulhasse bem fundo em seu reino m ental, ela nunca deixava que suas decisões fossem afetadas pelo desprezo puritano que devotava aos hom ens e às m ulheres que destruíam sua fam ília e se persuadiam de que agiam altruisticam ente pelo bem de todos. Nesses experim entos intelectuais, ela não teria poupado as pessoas sem filhos ou, pelo m enos, não Jack. Um período de contrição atrás das grades por contam inar o casam ento deles em nom e de um a novidade? Por que não?
Porque, depois do retorno dele, a vida no apartam ento da Gray ’s Inn era lúgubre e silenciosa. Tinha havido brigas durante as quais ela pusera para fora alguns sentim entos am argos. Doze horas depois esses sentim entos se renovavam tão ardentem ente quanto os votos m atrim oniais, nada m udava, o ar não ficava m ais “lim po”. Ela perm anecia traída. Ele apim entava suas desculpas com velhas recordações de que ela o isolara, de que era fria. Disse até, certa noite bem tarde, que ela era “um a chata” e havia “perdido a arte de sentir prazer”. De todas as acusações, essas foram as que m ais a incom odaram , porque ela percebia serem verdadeiras, o que em nada dim inuiu sua raiva.
Pelo m enos ele deixara de dizer que a am ava. Na troca de palavras m ais recente, dez dias antes, fora reiterado tudo o que haviam se dito antes, todas as recrim inações, todas as defesas, todas as frases bem form uladas que eram fruto de um a longa elucubração prévia, até que depuseram as arm as, cansados um do outro e de si próprios. Desde então, nada. Moviam -se o dia todo, cada qual cuidando de seus afazeres em diferentes partes da cidade e, quando confinados no apartam ento, evitavam cuidadosam ente se tocar, com o dançarinos num a quadrilha. Eram sucintos e com petiam em m atéria de cortesia quando forçados a decidir sobre questões referentes à casa, buscavam não com er j untos, trabalhavam em côm odos separados, com a atenção prej udicada pela vívida consciência, através das paredes, da presença radioativa do outro. Sem necessidade de discuti-lo, declinavam todos os convites conj untos. O único gesto conciliatório dela consistiu em lhe dar um a nova chave.
De com entários evasivos e taciturnos dele, ela deduziu que, no quarto da especialista em estatística, Jack não transpusera os portões do paraíso. O que não era tão tranquilizador. Ele provavelm ente iria tentar a sorte em outro lugar, talvez j á estivesse tentando, desta vez livre das tristes am arras da honestidade. Suas “aulas de geologia” poderiam ser um bom subterfúgio. Ela se lem brava de haver prom etido abandoná-lo se ele fosse em frente com Melanie. Mas Fiona não tinha tem po para desfazer aquele com plexo nó. E ainda estava indecisa, não confiava em seu atual estado de espírito. Caso ele houvesse lhe dado m ais tem po depois de sair de casa, ela teria chegado a um a decisão clara e se em penhado em term inar o casam ento ou reconstruí-lo. Por isso, se entregou ao trabalho na form a usual e resolveu sobreviver dia após dia o dram a agora serenado de sua vida com Jack.
Quando um a de suas sobrinhas deixou lá as filhas durante um fim de sem ana, gêm eas idênticas de oito anos, as coisas ficaram m ais fáceis, o apartam ento ficou m aior, porque as atenções se voltaram para fora. Por duas noites Jack dorm iu no sofá da sala de visitas sem que as m eninas fizessem perguntas. Pertenciam a um tipo antiquado de crianças que m antinham as costas bem retas, com m odos solenes e afetuosos, em bora suj eitas a brigas repentinas e explosivas. Um a ou outra — era fácil distinguir as duas — procurava Fiona onde ela estivesse lendo e, postada diante dela, descansando um a m ão confiante em seu j oelho, despej ava um a torrente prateada de historinhas, reflexões e fantasias. Fiona replicava com suas próprias historinhas. Duas vezes, durante aquela visita, aconteceu que, enquanto ela falava, um a onda de am or pela m enina contraiu sua garganta e m arej ou seus olhos. Ela estava se sentindo velha e tola. Incom odava-a relem brar com o Jack era bom com as crianças. Correndo o risco de ter um a crise de coluna, com o aconteceu certa vez com os três filhos do irm ão de Fiona, ele fazia brincadeiras pesadas, de que as m eninas participavam com acessos de gritos inum anos. Em casa, a m ãe delas, ressentida por causa do divórcio, j am ais as j ogava para o alto de cabeça para baixo. Ele as levou aos j ardins para ensinar um a versão de críquete que tinha inventado, além de ler um a longa história para elas na cam a com vibrante energia côm ica e talento na im itação das vozes.
Mas um dom ingo à noite, depois que as gêm eas foram levadas, os aposentos se encolheram , o ar ficou pesado e Jack saiu sem dar explicações — sem dúvida um ato hostil. Para um encontro am oroso, ela im aginou, enquanto se ocupava arrum ando o quarto de hóspedes para im pedir que seu m oral baixasse ainda m ais. Repondo os brinquedos m acios na cesta de vim e onde residiam , recuperando as contas de vidro e os desenhos rej eitados debaixo da cam a, ela sentiu a m elancolia m ansa e envolvente, um a form a de nostalgia instantânea, que a ausência repentina de crianças pode causar. Aquele sentim ento durou até a m anhã de segunda-feira e cresceu até se transform ar num a tristeza generalizada, que a perseguiu na cam inhada para o trabalho. Só com eçou a se dissipar quando ela se sentou à sua m esa a fim de se preparar para o prim eiro caso da sem ana.
Em algum m om ento Nigel Pauling deve ter trazido a correspondência, porque a pilha de cartas se encontrava subitam ente perto de seu cotovelo. Vendo o pequeno envelope azul-claro em cim a de todos, ela quase cham ou seu assistente para abri-lo. Não estava com vontade de ler m ais um a profusão de agressões verbais de algum analfabeto ou am eaças de violência. Voltou ao trabalho, m as não conseguiu se concentrar. O envelope absurdo, as letras arredondadas, a falta de um código postal, o selo ligeiram ente torto — era dem ais. Mas, olhando um a vez m ais, ela reparou no carim bo postal e foi tom ada por um a repentina suspeita. Sopesou a carta por um instante e a abriu. No m om ento seguinte, viu pela saudação que estava certa. Tinha aguardado vagam ente por aquilo durante sem anas. Havia falado com Marina Greene e soubera que ele estava progredindo bem , j á fora do hospital, recuperando em casa o tem po de estudos perdido e esperando voltar à sala de aulas em breve.
Três páginas azul-claras, escritas em cinco lados. O prim eiro tinha o núm ero sete dentro de um círculo posto no centro e no alto da página. Acim a da data.
Meritíssim a!
Esta é m inha sétim a carta e acho que vai ser a que porei no correio.
As prim eiras palavras do parágrafo seguinte tinham sido riscadas.
Vai ser a m ais sim ples e a m ais curta. Só quero lhe descrever um
acontecim ento. Entendo agora com o ele foi im portante. Mudou tudo. Estou
feliz por ter esperado porque não gostaria que a senhora visse as outras
cartas. Muito em baraçosas! Mas não tão terríveis com o os nom es que lhe
cham ei quando Donna m e anunciou sua decisão. Eu estava certo de que a
senhora tinha visto as coisas do m eu j eito. Na verdade, guardei
perfeitam ente o que m e disse, que era óbvio que eu sabia o que queria, e
lem bro que lhe agradeci. Eu ainda estava tendo um ataque de raiva e
xingando quando aquele horrível m édico assistente, o dr. “m e cham a de
Rodney ” Carter, entrou com m eia dúzia de pessoas e o equipam ento. Eles
pensaram que iam precisar m e segurar. Mas eu estava fraco dem ais e,
m esm o furioso, sabia o que a senhora queria que eu fizesse. Por isso, estendi
o braço e eles com eçaram . A ideia de que o sangue de alguém entrava no
m eu corpo foi tão noj enta que vom itei na cam a.
Mas não é isso que quero lhe contar. É o seguinte. Com o m am ãe não
conseguiu assistir, ela ficou sentada do lado de fora do quarto e eu ouvia seu
choro, o que m e deixou m uito triste. Não sei quando papai apareceu. Acho
que fiquei desm aiado algum tem po e, quando retom ei os sentidos, os dois
estavam ao lado da m inha cam a — am bos chorando, e m e senti ainda m ais
triste porque todos nós estávam os desobedecendo a Deus. Mas o im portante,
e levei algum tem po para entender isto, é que eles estavam chorando de
ALEGRIA! Estavam m uito felizes, m e abraçando e se abraçando,
agradecendo a Deus e soluçando. Eu m e senti m uito esquisito e não entendi
nada por um ou dois dias. Nem pensava naquilo. Então com ecei a pensar.
Meus pais seguiram os ensinam entos, obedeceram aos anciãos, fizeram tudo
certo e podem esperar ser aceitos no paraíso aqui na Terra — e ao m esm o
tem po podem m e ter vivo sem que nenhum de nós sej a expulso da Igrej a.
Transfusão feita, m as não por culpa nossa! Culpa da j uíza, culpa do sistem a
sem fé, culpa do que às vezes cham am os de “m undo”. Que alívio! Ainda
tem os nosso filho em bora tivéssem os dito que ele devia m orrer.
Não sei com o interpretar isto. Foi um a fraude? Para m im foi um a
m udança de direção. Estou resum indo a história. Quando eles m e trouxeram
para casa, tirei a Bíblia do m eu quarto, sim bolicam ente a botei virada para
baixo num a cadeira do corredor e disse que eu não ia m ais voltar ao Salão
do Reino, que podiam m e expulsar da igrej a se quisessem . Tivem os um as
brigas horríveis. O sr. Crosby tem vindo m e convencer. Nenhum a chance.
Estou escrevendo para a senhora porque preciso m esm o falar com a
senhora, preciso ouvir sua voz calm a e aproveitar sua m ente clara para
discutir com igo este assunto. Sinto que a senhora m e levou para perto de
algum a outra coisa, algum a coisa de fato bonita e profunda, m as não sei
bem o que é. A senhora nunca m e disse no que acreditava, m as adorei
quando sentou ao m eu lado e executam os “The Salley Gardens”. Ainda leio
o poem a todos os dias. Gosto de ser “j ovem e tolo”, e, se não fosse pela
senhora, eu não seria nem um a coisa nem outra, eu estaria m orto! Eu lhe
escrevi um a porção de cartas bobas, penso na senhora o tem po todo e quero
m esm o ver a senhora para nos falarm os outra vez. Sonho acordado sobre
nós, fantasias m aravilhosas e im possíveis, com o a de que vam os fazer um a
viagem de volta ao m undo j untos num navio, em cam arotes vizinhos, e que
passeam os o dia todo pelo convés conversando.
Meritíssim a, m e escreva por favor, apenas algum as palavras para dizer
que leu esta carta e que não m e odeia por tê-la escrito.
Sem pre seu,
Adam Henry
P.S.: Esqueci de dizer que estou ficando cada dia m ais forte.
Ela não respondeu, ou m elhor, não pôs no correio o bilhete que levou m ais de um a hora para escrever naquela noite. No quarto e últim o rascunho, pensou ter sido bastante afetuosa, feliz de sabê-lo em casa e se sentindo m elhor, contente por ele ter boas recordações da visita dela. Aconselhou-o a ser carinhoso com os pais. Era norm al, com o adolescente, questionar as crenças com que havíam os sido criados, m as isso devia ser feito de m odo respeitoso. Term inou dizendo, em bora não fosse verdade, que havia ficado atraída pela ideia de um a volta ao m undo num navio. Acrescentou que, quando j ovem , tinha sonhos de fuga com o o dele. Isso tam bém não era verdade, pois ela havia sido am biciosa dem ais, m esm o com dezesseis anos, ávida dem ais por boas notas nos exam es para pensar em escapar. As visitas com o adolescente a seus prim os de Newcastle foram suas únicas aventuras. Olhando a cartinha no dia seguinte, não foi a afetuosidade que a im pressionou, e sim a frieza, os conselhos esfarrapados, a linguagem im pessoal, as falsas lem branças. Releu a carta dele e foi m ais um a vez tocada por sua inocência e calor hum ano. Melhor não m andar nada do que decepcioná-lo. Se m udasse de opinião, poderia escrever m ais tarde.
Estava se aproxim ando o m om ento em que realizaria o circuito itinerante, visitando cidades inglesas e antigos vilarej os na com panhia de outro j uiz especializado em direito crim inal e cível. Ela j ulgaria casos que, de outra form a, precisariam ser transferidos para os tribunais de Londres. Ela ficaria hospedada em locais especialm ente bem preservados, m ansões im pressionantes de interesse histórico e arquitetônico onde, em certos casos, as adegas eram lendárias e as cozinheiras provavelm ente decentes. As autoridades do lugar costum avam convidá-la para j antar. Ela e seu colega retribuiriam a gentileza nas casas onde estivessem instalados, convidando figuras em inentes ou interessantes (havia um a clara distinção entre as duas categorias) da localidade. Os quartos de dorm ir eram bem m ais sofisticados que o seu, as cam as m ais largas, os lençóis de tecido m ais fino. Em tem pos m ais felizes, havia, para um a m ulher bem casada, um elem ento de culpa e prazer sensual naquelas acom odações a sós. Agora, ela ansiava escapar do silencioso e solene pas de deux em casa. E a prim eira parada era sua cidade inglesa predileta.
Certa m anhã no com eço de setem bro, um a sem ana antes de iniciar a viagem , ela recebeu um a segunda carta. Mesm o antes de lê-la sua preocupação desta vez foi m aior, porque o envelope azul se encontrava sobre o capacho do vestíbulo de seu apartam ento, em m eio a circulares e a um a conta de luz. Nenhum endereço, só o nom e dela. Bem sim ples para Adam Henry esperar no Strand ou na Carey Street e segui-la à distância.
Jack j á tinha saído para o trabalho. Ela levou a carta para a cozinha e se sentou diante dos restos do café da m anhã.
Meritíssim a,
Nem sei o que escrevi porque não guardei um a cópia, m as tudo bem
que a senhora não tenha respondido. Ainda preciso conversar com a
senhora. Aqui estão m inhas notícias — grandes brigas com m eus pais,
fantástico estar de volta à escola, m e sentindo m elhor, m e sentindo feliz e
depois infeliz e feliz outra vez. Às vezes a ideia do sangue de um estranho
dentro de m im m e causa enj oo, com o se eu tivesse bebido a saliva de
alguém . Ou pior. Não posso m e livrar da ideia de que a transfusão é um a
coisa errada, m as não m e im porto m ais. Tenho tantas perguntas para a
senhora, m as nem tenho certeza de que se lem bra de m im . A senhora deve
ter tido dezenas de casos desde o m eu e feito um bocado de escolhas sobre
outras pessoas. Sinto ciúm e! Quis conversar com a senhora na rua, chegar
perto e tocar no seu om bro. Não fiz isso porque sou um covarde. Achei que
a senhora podia não m e reconhecer. A senhora tam bém não precisa
responder a esta carta — o que significa que espero que responda. Por
favor, não se preocupe, não quero atorm entá-la ou nada parecido. Só sinto
que a tam pa da m inha cabeça explodiu. Está saindo tudo!
Sinceram ente seu,
Adam Henry
Fiona m andou im ediatam ente um e-m ail para Marina Greene perguntando se ela podia encontrar um tem pinho para visitar o rapaz num acom panham ento de rotina e depois lhe enviar um relatório. Recebeu o retorno antes do fim do dia. Marina se encontrara com Adam durante a tarde na escola, onde ele estava com eçando um período de estudos especiais a fim de se preparar para os exam es antes do Natal. Ficou m eia hora com ele, que havia engordado e estava corado. Mostrou-se anim ado, até m esm o “engraçado e travesso”. Havia alguns problem as em casa, a m aior parte sobre diferenças religiosas com os pais, m as ela não achou nada de estranho nisso. Em particular, o diretor lhe disse que Adam , depois de voltar do hospital, havia trabalhado bastante para recuperar o tem po perdido. Seus professores consideravam que ele estava progredindo otim am ente. Contribuía bastante para as atividades em sala de aula, nenhum problem a de com portam ento. Em sum a, tudo corria bem . Tranquilizada, Fiona decidiu não escrever para ele.
Um a sem ana depois, na m anhã da segunda-feira em que deveria viaj ar para o nordeste da Inglaterra, ocorreu um desvio m inúsculo na falha geológica conj ugal, um m ovim ento quase tão im perceptível quanto o deslocam ento das placas tectônicas. Foi tácito, algo não reconhecido abertam ente. Mais tarde, quando se encontrava no trem e repassou tudo, o instante pareceu se situar na fronteira entre o real e o im aginado. Será que ela podia confiar em sua m em ória? Eram sete e m eia quando entrara na cozinha. Jack estava de pé j unto ao balcão, de costas para ela, despej ando grãos de café no m oedor. A pasta dela j á estava no corredor e Fiona cuidava de recolher uns poucos docum entos que faltavam . Com o de hábito, ficou relutante em dividir um espaço pequeno com ele. Pegou a echarpe das costas da cadeira e saiu para continuar a busca na sala de visitas.
Voltou alguns m inutos depois. Jack tirava um a j arra de leite do m icro-ondas. Eles eram exigentes em m atéria de café da m anhã e, no curso dos anos, seus gostos tinham convergido. Gostavam de café forte feito com grãos colom bianos de alta qualidade, servido em canecas brancas e altas de borda fina, com leite m orno, e não quente. Ainda de costas para ela, Jack derram ou leite em seu café e depois se voltou com a caneca erguida e ligeiram ente estendida na direção dela. Nada na expressão de Jack sugeria que ele estava lhe oferecendo a caneca, e ela nem assentiu nem recusou com a cabeça. Os olhos dos dois se encontraram por um instante, e então ele depositou a caneca na m esa de pinho e em purrou-a uns cinco centím etros na direção dela. Isso não significava necessariam ente m uito, pois, em suas tensas m anobras para se evitar, am bos perm aneciam escrupulosam ente corteses, com o se cada qual estivesse procurando superar o outro em se m ostrar razoável, os dois irrepreensíveis graças à ausência de rancor. Não faria sentido preparar um bule de café só para um a pessoa. Mas há m aneiras e m aneiras de pôr um a caneca na m esa, desde a batidinha perem ptória da porcelana contra a m adeira até o pouso silencioso e cuidadoso, assim com o há m aneiras e m aneiras de aceitar um a caneca, coisa que ela fez m ansam ente, em câm era lenta, sem se afastar tão logo tom ou um gole, ou não tão de im ediato quanto o teria feito em qualquer outra m anhã. Passaram -se alguns segundos de silêncio, em seguida pareceu que isso era o m ais longe que am bos estavam preparados para ir, que o m om ento continha coisas dem ais para eles e que tentar algo além os faria recuar. Jack se afastou a fim de preparar um a caneca para ele, enquanto Fiona se afastou para ir buscar algum a coisa no quarto. Moveram -se um pouco m ais devagar do que era com um , talvez quase com relutância.
No com eço da tarde, ela chegou a Newcastle. Um m otorista esperava do lado de lá das catracas para levá-la aos tribunais de Quay side. Nigel Pauling a aguardava na entrada dos m agistrados e a conduziu ao gabinete que ela ocuparia. Ele chegara de Londres de m anhã com os docum entos e as togas — os param entos com pletos, com o disse —, porque Fiona participaria da Corte da Rainha além da Vara da Fam ília. O assistente do tribunal apareceu para dar as boas-vindas form ais, seguido do funcionário que cuidava da agenda, com o qual ela repassou os casos a serem ouvidos nos dias seguintes.
Com o havia outras pequenas m atérias a tratar, só por volta das quatro da tarde Fiona ficou livre para sair. A previsão era de que um a tem pestade de verão chegaria do sudoeste no com eço da noite. Ela m andou que o m otorista esperasse e deu um a cam inhada pelo calçadão j unto ao rio, passando por baixo da ponte Ty ne e ao longo de Sandhill, pelos novos cafés ao ar livre e por j ardins floridos j unto a sólidos prédios com erciais com fachadas clássicas. Subiu as escadas até Castle Garth e parou no alto para olhar o rio que ficara para trás. Ela tinha um a queda por aquela m istura exuberante de peças poderosas de ferro fundido, aço e vidro pós-industrial, de velhos arm azéns salvos da decrepitude por um a fantasia j uvenil de cafés e bares. Com partilhava um passado com Newcastle e se sentia bem lá. Na adolescência, durante as recorrentes doenças de sua m ãe, ia passar algum tem po ali com suas prim as prediletas. Tio Fred, dentista, era o hom em m ais rico que ela conhecia. Tia Sim one ensinava francês num a escola prim ária. A casa era agradavelm ente caótica, um a libertação dos dom ínios de sua m ãe em Finchley, encerados ao exagero e insuficientem ente arej ados. As prim as, de sua idade, eram alegres e aventurosas, obrigando-a a sair à noite em m issões aterradoras que incluíam a ingestão de bebidas e quatro m úsicos dedicados com cabelos até a cintura e bigodes de pontas caídas, que pareciam transviados m as provaram ser gente boa. Seus pais ficariam horrorizados de saber que a filha estudiosa de dezesseis anos era presença assídua em certos bares, que bebia licor de cerej a e cuba-libre, e tivera seu prim eiro am ante. E, j untam ente com as prim as, ela era a tiete fiel, e tolerada com o assistente novata, de um a banda de blues m al equipada e m al rem unerada, aj udando a carregar am plificadores e peças da bateria num a cam inhonete enferruj ada que vivia enguiçando. Com frequência afinava as guitarras. Sua em ancipação tinha m uito a ver com o fato de que aquelas visitas, além de ocasionais, nunca duravam m ais que três sem anas. Se perm anecesse por m ais tem po — nunca um a possibilidade real —, talvez fosse até autorizada a cantar os blues. Poderia ter se casado com Keith, o principal cantor do grupo e tocador de gaita, que tinha um braço atrofiado e a quem ela adorava tim idam ente.
Tio Fred m udou seu consultório para o sul do país quando ela tinha dezoito anos, o caso com Keith acabou em lágrim as e em alguns poem as de am or que ela não enviou. Fiona j am ais voltou a viver esse tipo de relacionam ento arriscado e trem endam ente divertido, o qual se tornou parte inseparável da ideia que fazia de Newcastle. Não seria possível reproduzi-lo em Londres, a sede de suas am bições profissionais. Por vários anos ela voltara ao Nordeste sob diversos pretextos, além de quatro vezes para cum prir o circuito j udiciário. Sem pre fazia bem ao seu espírito se aproxim ar da cidade pela alta ponte Stephenson sobre o rio Ty ne, chegando com o espírito excitado de um a adolescente, descendo do trem na gare central sob os três grandes arcos criados por John Dobson e saindo pela extravagante porte cochère neoclássica desenhada por Thom as Prosser. Foi seu tio dentista, recebendo-a com seu Jaguar verde e suas prim as im pacientes, quem a ensinou a apreciar a gare e os tesouros arquitetônicos da cidade. Ela nunca se desfizera da im pressão de estar no exterior, de se encontrar num a cidade-Estado báltica caracterizada por um curioso otim ism o e orgulho. O ar era m ais revigorante, a luz de um cinzento am plo e lum inescente, os habitantes am istosos, porém m ais incisivos, autoconscientes ou ironizando a si próprios com o atores num a com édia. Perto do sotaque deles, o dela parecia tenso e artificial. Se, com o Jack insistia, a geologia m oldava a variedade de tipos e de destinos dos ingleses, então os m oradores da cidade eram feitos de granito e ela de calcário friável. Mas, com sua paixonite j uvenil pela cidade, com suas prim as, a banda e o prim eiro nam orado, acreditava que poderia m udar, se tornar m ais autêntica, m ais verdadeira, um a genuína cidadã daquela região. Anos depois, recordar-se de tal am bição ainda a fazia sorrir. No entanto, o sentim ento lá estava em cada regresso, um a vaga noção de renovação, de um potencial não explorado em outra vida — e isso m esm o às vésperas de fazer sessenta anos.
O carro em cuj o assento ela se reclinou era um Bentley da década de 1960, e seu destino o Leadm an Hall, situado dentro de seu próprio parque a um quilôm etro e m eio dos portões que ela agora transpunha. Logo passou por um cam po de críquete, depois por um a alam eda de faias com as copas j á agitadas pelo vento que crescia, m ais tarde por um lago tom ado por plantas aquáticas. O palacete, no estilo do arquiteto Andrea Palladio e havia pouco tem po pintado de um branco brilhante dem ais, tinha doze quartos e nove em pregados para servir a dois m agistrados do Tribunal Superior em seu circuito itinerante. Pevsner, conhecido historiador da arte arquitetônica, aprovara sem grande entusiasm o a estufa, e nada m ais. Som ente um a anom alia burocrática havia preservado Leadm an de ser destruído por m edida de econom ia do governo, m as o j ogo estava chegando ao fim porque aquele era o últim o ano em que a construção iria contar com o Judiciário. O palacete, alugado algum as sem anas por ano de um a fam ília da região com interesses históricos na m ineração de carvão, servia principalm ente com o centro de conferências e local para festas de casam ento. Seu cam po de golfe, quadras de tênis e piscina externa aquecida eram , com o agora se reconhecia, luxos desnecessários para j uízes de passagem e m uito atarefados. Do ano seguinte em diante, um a em presa de táxi da cidade forneceria um espaçoso Vauxhall para substituir o Bentley. As acom odações seriam num hotel do centro de Newcastle. Os m agistrados da Vara Crim inal, que às vezes m andavam para a prisão por longos períodos hom ens da região com parentes assustadores, tinham clara preferência pelo isolam ento de um palacete. Mas ninguém era capaz de argum entar em favor de Leadm an sem dar a im pressão de que o fazia por puro interesse.
Pauling esperava com a governanta no pátio de cascalho j unto à entrada principal. Ele desej ava dar um sentido especial àquela derradeira visita. Aproxim ou-se da porta de trás do carro com um floreio irônico e bateu os calcanhares. Com o sem pre, a governanta era nova, um a polonesa de uns vinte e poucos anos, calculou Fiona, m as seu olhar era direto e frio, e ela pegou com firm eza a m ala m ais pesada da j uíza até que Pauling a tom ou de sua m ão. Lado a lado, o assistente e a governanta conduziram Fiona ao quarto do prim eiro andar que ela considerava com o seu. Ficava na frente da casa, com três j anelas altas que davam para a alam eda de faias e para o trecho do lago invadido por ervas. Além do quarto de quase dez m etros de com prim ento, havia a sala de estar com um a m esa de trabalho. O banheiro, no entanto, ficava no fim de um corredor e três degraus atapetados abaixo do nível do quarto. Na últim a vez em que Leadm an tinha sido m odernizado, a proliferação generalizada de lavatórios e chuveiros ainda não com eçara.
A tem pestade chegou quando Fiona saiu do banho. Vestida com um penhoar, plantou-se diante da j anela central observando as pancadas de chuva, cortinas fantasm agóricas que corriam velozes e, por segundos, ocultavam os cam pos. Viu o galho m ais alto de um a das faias próxim as se partir e com eçar a cair, ficando de cabeça para baixo e balançando ao ser contido pelos galhos m ais baixos, até m ergulhar de novo, voltar a se em aranhar e ser enfim liberado pelo vento para se chocar com um baque contra o solo. Quase tão alto quanto o silvar da chuva no cascalho era o coro de gem idos nas calhas do telhado. Ela acendeu as luzes e com eçou a se vestir. Já estava atrasada dez m inutos para o xerez na sala de visitas.
Quatro hom ens de terno preto e gravata, cada qual com seu gim e sua tônica, pararam de conversar e se ergueram das poltronas quando ela entrou. Um garçom de paletó branco engom ado foi preparar o drinque dela, enquanto Caradoc Ball da Corte da Rainha, colega de Fiona encarregado dos casos crim inais, apresentou-a aos dem ais — um professor de j urisprudência, um hom em que tinha negócios no setor de fibras ópticas e alguém que trabalhava para o governo na conservação da costa m arítim a. Todos de algum a form a eram ligados a Ball. Ela não convidara ninguém para a prim eira noite. Seguiu-se a conversa obrigatória sobre o clim a tem pestuoso. Depois, um a digressão sobre com o as pessoas de m ais de cinquenta anos e todos os norte-am ericanos ainda viviam no m undo das tem peraturas m edidas em Fahrenheit. Depois, com o os j ornais britânicos, para obter o m áxim o de im pacto, noticiavam as baixas tem peraturas em graus Celsius e as quentes em Fahrenheit. Durante todo o tem po ela se perguntava por que o rapaz curvado sobre o carrinho de bebidas estava dem orando tanto. Ele trouxe o drinque dela j ustam ente quando estava sendo lem brada a j á distante transição para as m oedas decim ais.
Fiona j á sabia pelo próprio Ball que ele estava em Newcastle para realizar o novo j ulgam ento de um caso de assassinato no qual um hom em era acusado de haver m atado sua m ãe em casa com golpes de porrete devido aos m aus-tratos que ela infligia à filha m ais j ovem , m eia-irm ã do réu. A arm a do crim e não tinha sido encontrada e a prova de DNA era inconclusiva. A defesa argum entava que a m ulher havia sido m orta por um intruso. O j ulgam ento fora anulado quando se descobriu que um j urado tinha revelado aos outros m em bros do j úri inform ações que colhera na internet pelo celular. Ele encontrara a reportagem de um j ornal sensacionalista, publicada cinco anos antes, sobre a prévia condenação do hom em por agressão violenta. Na nova era de acesso digital, algum a coisa precisava ser feita para “esclarecer” certas questões aos j urados. O professor de j urisprudência havia pouco tem po apresentara um estudo à Com issão Jurídica, possivelm ente obj eto da conversa que Fiona interrom pera ao entrar na sala. Agora ela foi retom ada. O especialista em fibras ópticas perguntou com o seria possível im pedir que os j urados buscassem inform ações na privacidade de suas casas ou conseguissem que um m em bro da fam ília o fizesse por eles. Relativam ente sim ples, segundo o professor. Os próprios j urados se policiariam . Seriam obrigados, sob pena de prisão, a apontar qualquer um deles que discutisse m atérias não apresentadas perante o tribunal. Dois anos no m áxim o pela divulgação de tais m atérias, seis m eses no m áxim o por não inform ar a violação. A Com issão daria seu parecer conclusivo no ano seguinte.
Nesse m om ento, o m ordom o os convidou a seguirem para a m esa de j antar. Em bora não pudesse ter m ais de trinta anos, seu rosto era doentiam ente pálido, com o se coberto de talco. Tão branco quanto um a aspirina — Fiona certo dia ouvira um a proprietária rural francesa dizer. Mas o m ordom o não parecia doente pois m antinha um a atitude im pessoal e segura. Enquanto aguardava à pequena distância, com a cabeça inclinada para a frente em sinal de atenção, eles term inaram seus drinques e, seguindo Fiona, atravessaram um a porta de folha dupla rum o à sala de j antar. A m esa, que poderia com portar trinta pessoas, estava posta para cinco num a extrem idade solitária. A sala era recoberta de lam bris, pintados de um laranj a quase fluorescente, com desenhos de flam ingos calculadam ente espaçados. Os convivas encontravam -se agora no lado norte da casa, atingido em cheio pelo vento e onde as três j anelas de guilhotina sacudiam , produzindo um ruído surdo. O ar estava frio e úm ido. Havia um buquê de flores secas na lareira. O m ordom o explicou que ela havia sido bloqueada m uitos anos antes, m as que ele traria um aquecedor elétrico. Eles avaliaram a distribuição dos assentos e, após alguns m om entos de polida incerteza, concordaram que, em respeito à sim etria, Fiona se sentaria à cabeceira.
Até então ela m al falara. O m ordom o pálido serviu um vinho branco. Dois garçons trouxeram patê de arenque e torradas finas. À esquerda dela estava o perito em conservação, Charlie, um cinquentão gordo, careca e bem -hum orado. Enquanto os outros continuavam a falar sobre j urados, ele perguntou cortesm ente sobre o trabalho dela. Resignada a um a rodada de conversinha fiada, Fiona explicou em term os gerais o trabalho da Vara de Fam ília. Mas Charlie queria detalhes. Que tipo de decisão iria tom ar no dia seguinte? Ela se sentia m ais feliz falando sobre um caso específico. Um a instituição local desej ava ficar com a guarda de duas crianças, um m enino de dois anos e um a m enina de quatro. A m ãe era alcoólatra e tam bém viciada em anfetam inas. Sofria crises psicóticas durante as quais im aginava estar sendo espionada por lâm padas elétricas. Tornara-se incapaz de cuidar de si própria ou das crianças. O pai, separado dela, tinha perm anecido distante, m as agora alegava que ele e sua nam orada podiam cuidar das crianças. Ele tam bém enfrentava problem as com drogas e era fichado na polícia, em bora tivesse direito sobre os filhos. Um assistente social se pronunciaria no dia seguinte perante o tribunal acerca da adequação dele com o pai. Os avós m aternos adoravam as crianças, eram com petentes e queriam cuidar delas, porém não tinham am paro legal para isso. A instituição local, cuj o serviço de atendim ento a m enores havia sido criticado num relatório oficial, se opunha aos avós por razões que ainda não estavam claras. As três partes — m ãe, pai e avós — estavam am argam ente divididas. Outra com plicação era existirem opiniões contraditórias acerca da m enina de quatro anos. Um pediatra disse que ela tinha necessidades especiais, outro, contratado pelos avós, acreditava que, conquanto a m enina estivesse perturbada pelo com portam ento da m ãe e abaixo do peso norm al por causa das refeições em horários irregulares, seu desenvolvim ento era norm al.
Havia, Fiona disse, m uitos outros casos sim ilares agendados para aquela sem ana. Charlie levou a m ão à testa e fechou os olhos. Que encrenca! Se ele tivesse de tom ar um a decisão na m anhã seguinte em um só caso com o aquele, ficaria acordado a noite toda, roendo as unhas e abusando das bebidas oferecidas no quarto do hotel. Fiona perguntou por que ele estava lá. Charlie tinha vindo de Whitehall a fim de persuadir um grupo de fazendeiros da costa a se unir a algum as organizações de proteção am biental, para perm itirem que suas pastagens voltassem a ser cobertas pela água do m ar, retornando à condição de pântanos salgados. Essa era de longe a m elhor e m ais barata form a de defesa contra a inundação da costa, m aravilhosa para a vida selvagem , sobretudo pássaros, e boa tam bém para o turism o de pequena escala. Mas havia um a forte oposição de certos segm entos do setor agrícola, em bora os fazendeiros fossem ser bem recom pensados. Durante todo o dia o tinham calado aos berros nas reuniões. Corria o rum or de que o plano era com pulsório. Ninguém acreditava nele quando dizia que não era assim . Viam -no com o um representante do governo central, com o qual os fazendeiros estavam irritados por um a série de outras questões que não eram de sua alçada. No final, tinha levado uns trancos num corredor. Um indivíduo “com m etade da m inha idade e o dobro da m inha força” havia agarrado sua gola e m urm urado algum a coisa com o sotaque local que ele não tinha entendido. Melhor assim . Am anhã ele voltaria e tentaria de novo. Estava certo de que no final iria conseguir o que queria.
Bom , isso soava a ela com o um dos círculos especiais do inferno, bem pior do que qualquer m ãe psicótica. Os dois estavam dando um as risadinhas por conta dessa observação, quando perceberam que os outros três tinham abandonado a conversa deles e os ouviam .
Caradoc Ball, que era um velho colega de escola de Charlie, disse: “Espero que você saiba que está falando com um a j uíza m uito em inente. Certam ente se lem bra do caso dos irm ãos siam eses”.
Todos se lem bravam e, à m edida que os pratos foram retirados e o boeuf en croûte servido com um Château Latour, conversaram e fizeram perguntas a ela sobre o fam oso caso. Fiona lhes disse tudo o que queriam saber. Todos tinham um a opinião, m as, com o era a m esm a, logo passaram a discutir a paixão que a história suscitara nos j ornais e com o eles a haviam disputado. Dali foi um passo para um a troca de fofocas sobre os lances m ais recentes da Investigação
Leveson.* Term inaram a carne. À frente, com o dizia o cartão com o m enu, havia um pudim de pão. Logo, logo, pensou Fiona, estariam discutindo a sabedoria ou a loucura de o Ocidente não m andar tropas para a Síria. Era im possível calar Caradoc sobre aquele tem a. E, de fato, ele o introduzia quando se deram conta de vozes ecoando no corredor. Pauling e o m ordom o de rosto branco pararam no um bral da porta e depois se aproxim aram dela.
O m ordom o se pôs de lado, com um olhar contrariado, enquanto Pauling, depois de pedir desculpas a todos com um aceno de cabeça, inclinou-se por cim a da cadeira de Fiona e disse baixinho perto de seu ouvido: “Minha senhora, perdão por interrom per, m as infelizm ente há um assunto que exige sua atenção im ediata”.
Ela lim pou os lábios com o guardanapo e se pôs de pé. “Me desculpem , senhores.”
Sem m udar de expressão, todos se levantaram e ela atravessou a sala na frente dos dois hom ens. Já do lado de fora, ela disse ao m ordom o: “Ainda estam os esperando por aquele aquecedor”.
“Vou pegar agora.”
Havia algo im pertinente em seu j eito ao dar m eia-volta, e ela olhou para seu assistente com as sobrancelhas erguidas.
Mas ele sim plesm ente disse: “Por aqui”.
Ela o seguiu através do corredor e do que fora antes um a biblioteca. As estantes estavam repletas de livros com prados em loj as de obj etos usados, do tipo que os hotéis adquirem por m etro para criar um a atm osfera respeitável em certos am bientes.
Pauling disse: “É o rapaz das testem unhas de Jeová, Adam Henry. A senhora se lem bra do caso da transfusão? Parece que ele a seguiu até aqui. Andou na chuva, está com pletam ente encharcado. Queriam expulsá-lo, m as achei que a senhora precisava ser inform ada antes”.
“Onde ele está?”
“Na cozinha. É m ais quentinho lá.”
“Melhor trazê-lo aqui.”
Tão logo Pauling saiu, ela se levantou e cam inhou lentam ente pela sala, consciente de que seu ritm o cardíaco tinha aum entado. Caso houvesse respondido às cartas, não estaria agora defrontando aquilo. Defrontando o quê? O envolvim ento desnecessário com um caso fechado. E m ais que isso. Mas não havia tem po para refletir. Ouviu passos se aproxim ando.
A porta se abriu e Pauling fez o rapaz passar. Ela nunca o vira fora da cam a e se surpreendeu com sua altura, bem m ais de um m etro e oitenta. Vestia seu uniform e escolar, calça de flanela cinza, suéter cinza, cam isa branca, um blusão bem leve, encharcado da cabeça aos pés, o cabelo em desordem depois de ter sido enxugado. Um a pequena m ochila pendia frouxam ente de sua m ão. O toque patético era dado pela toalha de chá do Leadm an, com ilustrações dos pontos turísticos locais, envolvendo suas costas para aquecê-lo.
O assistente se m anteve j unto à porta enquanto o rapaz deu alguns passos para dentro da sala, parando perto de onde ela se encontrava e dizendo: “Sinto m uito m esm o”.
Naqueles prim eiros m om entos, era m ais fácil esconder a confusão de sentim entos sob um tom m aternal. “Você parece estar congelado. É m elhor trazerm os o aquecedor para cá.”
“Eu m esm o vou pegar”, disse Pauling, saindo.
“Bem ”, ela disse após um silêncio. “Com o você m e achou aqui?”
Outra evasão, perguntar com o em vez de por quê, m as àquela altura, conquanto sua presença ainda fosse um choque, Fiona não era capaz de entender o que Adam queria dela.
O relato dele foi sóbrio. “Eu a segui num táxi desde King’s Cross, peguei seu trem e, com o não tinha ideia de onde a senhora ia saltar, com prei passagem para Edinburgh. Em Newcastle, a segui ao sair da estação, corri atrás da sua lim usine e então a perdi de vista. Tive um palpite e perguntei onde eram os tribunais. Quando cheguei lá, vi im ediatam ente o seu carro.”
Ela o observou falar, enquanto analisava a transform ação. A m agreza se fora, porém ele continuava esbelto. Novos m úsculos nos om bros e braços. O m esm o rosto delicadam ente estruturado, a pinta m arrom na m açã do rosto quase invisível na pele bronzeada pela saúde j uvenil. Tênues indícios das olheiras roxas. Lábios cheios e úm idos, olhos que naquela luz eram dem asiado escuros para revelar sua cor. Mesm o enquanto tentava se desculpar, ele se m ostrava vívido dem ais, ávido dem ais para dar um a explicação detalhada. Quando ele afastou o olhar para ordenar a sequência de fatos, Fiona se perguntou se aquele era um rosto que sua m ãe cham aria de antiquado. Um a ideia sem nexo. A noção generalizada do rosto de um poeta rom ântico, um prim o de Keats ou Shelley.
“Esperei um tem pão até a senhora sair e a segui ao atravessar a cidade e voltar na direção do rio, vendo quando saiu do carro. Levei m ais de um a hora até descobrir no m eu celular onde os j uízes se hospedavam , peguei um a carona, desci na estrada principal, pulei o m uro para não passar pela casa do guarda e andei até aqui na chuva. Esperei m uito tem po nos fundos, perto das antigas estrebarias, m e perguntando o que eu devia fazer, até que alguém m e viu. Realm ente sinto m uito, eu…”
Pauling, irritado e com o rosto verm elho por causa do esforço, chegou com o aquecedor. Talvez tivesse sido necessário arrancá-lo das m ãos do m ordom o. Os dois ficaram olhando enquanto o assistente se pôs de quatro com um grunhido e desapareceu parcialm ente debaixo de um a m esinha de canto para encontrar a tom ada. Depois que se reergueu, pousou as m ãos nos om bros do rapaz e o levou para a frente do ar aquecido. Antes de sair, disse a Fiona: “Estou esperando do lado de fora”.
Quando ficaram sozinhos, ela disse: “Eu não deveria pensar que tem algum a coisa de esquisito em você m e seguir até m inha casa e depois até aqui?”.
“Ah, não! Por favor, não pense isso. Não é nada disso.” Olhou em volta im paciente, com o se nas paredes estivesse escrita algum a explicação. “Olha, a senhora salvou m inha vida. E não é só isso. Papai tentou esconder de m im , m as li sua sentença. A senhora disse que queria m e proteger da m inha religião. Pois bem , protegeu. Fui salvo!”
Ele riu da própria piada e ela disse: “Não o salvei para que você m e seguisse por todo canto”.
Nesse j usto instante, um a peça fixa do aquecedor deve ter entrado na órbita de algum a peça m óvel, pois um estalido regular tom ou conta da sala. O volum e aum entou, baixou, se estabilizou. Ela sentiu um a onda de irritação com a casa toda. Um em buste. Um depósito de velharias. Com o não tinha visto isso antes?
O m om ento passou e ela perguntou: “Seus pais sabem onde você está?”.
“Tenho dezoito anos. Posso estar onde quiser.”
“Não m e interessa sua idade. Eles vão ficar preocupados.”
Adam soltou um arquej o de exasperação j uvenil e depositou a m ochila no chão. “Olha, Meritíssim a…”
“Chega disso. Me cham e de Fiona.” Enquanto pudesse m antê-lo em seu lugar, ela se sentiria m elhor.
“Eu não quis ser sarcástico nem nada.”
“Ótim o. E quanto a seus pais?”
“Ontem tive um a briga feia com papai. Tivem os algum as desde que saí do hospital, m as essa foi realm ente das grandes, os dois gritando, e eu lhe disse tudo o que achava sobre sua religião idiota, m esm o que ele não estivesse escutando. No final, m e afastei. Subi para o quarto, fiz a m ala, peguei o dinheiro que tinha guardado e m e despedi de m am ãe. Depois fui em bora.”
“Você precisa telefonar para ela agora.”
“Não há necessidade. Mandei um a m ensagem para o celular dela ontem à noite do lugar onde m e hospedei.”
“Mande outra.”
Ele a olhou, ao m esm o tem po surpreso e desapontado.
“Vam os, diga que está são e salvo em Newcastle e que vai escrever outra vez am anhã. Depois disso conversam os.”
Ela se afastou alguns passos e observou enquanto seus dedos longos dançavam sobre o teclado virtual. Em segundos o celular voltara ao bolso dele.
“Pronto”, disse, olhando para ela com ar expectante, com o se ela é que lhe devesse algum a explicação.
Fiona cruzou os braços. “Adam , por que você está aqui?” Seu olhar se desviou, ele hesitou. Não ia dizer a ela a razão, pelo m enos não de form a direta.
“Olhe, eu não sou a m esm a pessoa. Quando a senhora foi m e ver eu estava realm ente pronto para m orrer. É im pressionante que alguém com o a senhora tivesse perdido tem po com igo. Eu era um trem endo idiota!”
Ela apontou para duas cadeiras de m adeira j unto a um a m esa oval de nogueira, onde se sentaram frente a frente. A luz branca e sepulcral vinha de quatro lâm padas LED presas a um a roda rústica de m adeira pintada. Por não estar situada diretam ente acim a da m esa, a ilum inação acentuava os contornos das m açãs do rosto e dos lábios de Adam , assim com o as finas saliências gêm eas que separavam a parte acim a de seu lábio superior. Tratava-se de um a bela face.
“Não achei você um idiota.”
“Mas eu era. Sem pre que os m édicos e as enferm eiras tentavam m e dissuadir, eu m e sentia nobre e heroico, dizendo para m e deixarem em paz. Eu era bom e puro. Adorava que eles não conseguissem entender com o eu era profundo. Eu realm ente m e achava o tal. Gostava de ver o orgulho dos m eus pais e dos anciãos. À noite, quando não tinha ninguém por perto, ensaiei fazer um vídeo, com o esses hom ens-bom ba. Ia fazer no m eu celular. Queria que fosse reproduzido nos noticiários de televisão e no m eu funeral. Acabei chorando no escuro, im aginando m eu caixão sendo levado diante dos m eus pais, dos m eus colegas e professores, de toda a congregação, as flores, as coroas, a m úsica triste, todos chorando, todos orgulhosos de m im e m e am ando. Sinceram ente, eu era um idiota.”
“E onde entrava Deus nessa história?”
“Por trás de tudo. Eu estava obedecendo às instruções dele. Mas era m ais sobre a m aravilhosa aventura que eu estava vivendo, com o ia m orrer gloriosam ente e ser adorado. Um a garota que eu conheci na escola sofria de anorexia três anos atrás, quando tinha quinze anos. O sonho dela era se transform ar em nada — com o um a folha seca soprada pelo vento, foi o que ela disse, m ergulhando devagarzinho na m orte, todo m undo com pena dela e depois se culpando por não com preendê-la. O m esm o tipo de coisa.”
Agora que o via sentado, Fiona se lem brou dele no hospital, recostando-se nos travesseiros em m eio àquela bagunça j uvenil. Não era a enferm idade dele que lhe vinha à m ente, m as sua avidez, a inocência vulnerável. Até m esm o a palavra anorexia soava com o um a diversão. Ele havia tirado do bolso um a tira estreita de tecido verde, talvez parte de um forro, que enrolava e desenrolava entre o indicador e o polegar com o as contas do colar de um m uçulm ano.
“Então, não era m uito um a questão de religião; tinha m ais a ver com seus outros sentim entos.”
Ele ergueu as m ãos. “Meus sentim entos tinham origem na m inha religião. Eu estava cum prindo a vontade de Deus, a senhora e todos os outros estavam claram ente errados. Com o eu teria m e m etido num a confusão daquelas se não fosse testem unha de Jeová?”
“Parece que sua colega anoréxica conseguiu.”
“Bem , na verdade a anorexia é um pouco com o um a religião.”
Diante do olhar cético de Fiona, ele im provisou. “Ah, a senhora sabe, querer sofrer, am ar a dor e o sacrifício, pensar que todo m undo está te observando, preocupado com você, que o universo gira em torno de você. E do seu peso!”
Ela não se conteve e riu da ironia contida na últim a frase. Ele sorriu por seu inesperado êxito em diverti-la.
Ouviram vozes e passos no corredor quando os convidados passaram da sala de j antar para a de visitas a fim de tom arem café, e depois um a sucessão de gargalhadas que m ais pareciam latidos perto da porta da biblioteca. O rapaz ficou tenso com a possibilidade de um a interrupção, e am bos m antiveram um silêncio conspiratório enquanto aguardavam que os sons m orressem . Adam olhava para baixo, para suas m ãos entrelaçadas sobre a m adeira envernizada da m esa. Ela im aginava todas as horas de sua infância e j uventude dedicadas a orações, hinos, serm ões e as diversas restrições que j am ais conheceria, a com unidade fechada m as am orosa que o sustentara até quase m atá-lo.
“Adam , vou perguntar outra vez. Por que você está aqui?”
“Para lhe agradecer.”
“Há m aneiras m ais fáceis.”
Ele suspirou com im paciência enquanto repunha no bolso a tira de tecido. Por um m om ento Fiona acreditou que ele se preparava para partir.
“Sua visita foi um a das m elhores coisas que m e aconteceram .” E então, rapidam ente: “A religião de m eus pais era um veneno e a senhora foi o antídoto”.
“Não m e lem bro de haver criticado a religião de seus pais.”
“Não criticou. A senhora foi calm a, ouviu, fez perguntas e alguns com entários. Aí é que está. É essa coisa que a senhora tem . Fez diferença. A senhora não precisou dizer. Um j eito de pensar e de falar. Se não sabe o que estou dizendo, trate de ouvir os anciãos. E quando tocam os a m úsica…”
Ela disse com rapidez: “Você ainda está tocando violino?”.
Ele fez que sim com a cabeça.
“E a poesia?”
“Sim , m uito. Mas odeio as coisas que eu escrevia.”
“Bom , você tem talento. Sei que vai escrever algum a coisa m aravilhosa.”
Fiona percebeu o desalento nos olhos dele. Ela estava se distanciando, fazendo o papel da tia solícita. Repassou algum as etapas da conversa, se perguntando por que estava tão ansiosa para não desapontá-lo.
“Mas seus professores devem ser bem diferentes dos anciãos.”
Ele deu de om bros. “Não sei.” Acrescentou à guisa de explicação: “A escola era enorm e”.
“E o que é isso que você supõe que eu tenha?”, ela perguntou em tom sério, sem nenhum traço de ironia.
A pergunta não o em baraçou. “Quando vi m eus pais chorando daquele j eito, chorando e quase urrando de alegria, tudo desm oronou. Mas aí que está. Desm oronou para cair na verdade. Claro que eles não queriam que eu m orresse! Eles m e am am . Por que não disseram isso, em vez de falar e falar sobre as alegrias do céu? Foi então que eu vi tudo aquilo com o um a coisa hum ana com um . Com um e boa. Não tinha nada a ver com Deus. Isso era só um a bobagem . Com o se um adulto entrasse num a sala cheia de crianças que estão se infernizando e dissesse: ‘Chega, parem com isso, é hora do chá!’. A senhora foi esse adulto. Sabia desde o com eço, m as não disse. Só fez perguntas e escutou. Toda a vida e o am or que se abrem diante dele — foi o que a senhora escreveu. Essa foi a sua ‘coisa’. E a m inha revelação. Com eçando com ‘The Salley Gardens’.”
Ainda em tom sério, ela disse: “E a tam pa da sua cabeça explodiu”.
Ele riu gostosam ente por tam bém ser citado. “Fiona, quase consigo tocar um a com posição de Bach sem com eter nenhum erro. Toco o tem a de Coronation Street. Estou lendo o livro de Berry m an Dream Songs. Vou participar de um a peça teatral e tenho que term inar todos os exam es antes do Natal. E, graças à senhora, estou entupido de Keats!”
“Muito bem ”, ela disse em voz baixa.
Ele se inclinou para a frente, apoiado nos cotovelos, os olhos escuros brilhando na luz pavorosa, todo o rosto parecendo frem ir de expectativa, com um apetite incontrolável.
Depois de refletir por um instante, Fiona disse num sussurro: “Espere aqui”. Levantou-se e hesitou, parecendo prestes a m udar de ideia e que voltaria a se sentar. Mas deu as costas para ele, atravessou a sala e foi para o corredor. Pauling se encontrava de pé, a alguns passos de distância, fingindo interesse pelas páginas do livro de visitantes aberto sobre um a m esa com tam po de m árm ore. Ela lhe deu rápidas instruções em voz baixa, voltou à biblioteca e fechou a porta atrás de si.
Adam havia retirado a toalha de chá do om bro e exam inava a série de atrações locais. Quando ela se sentou de novo, ele com entou: “Eu nunca tinha ouvido falar em nenhum desses lugares”.
“Há m uita coisa a ser descoberta.”
Passados os efeitos da interrupção, ela disse: “Quer dizer que você perdeu sua fé”.
Adam pareceu se contorcer. “Sim , talvez. Não sei. Acho que tenho m edo de dizer isso em voz alta. Realm ente não sei onde estou. Quer dizer, o troço é que, quando a gente se afasta um pouquinho das testem unhas de Jeová, talvez sej a m elhor sair de vez. Por que substituir um conto de fadas por outro?”
“Talvez todo m undo precise de contos de fadas.”
Ele lhe deu um sorriso benevolente. “Não acho que a senhora estej a dizendo isso pra valer.”
Fiona sucum biu a seu hábito de resum ir a opinião dos outros. “Você viu seus pais chorando e está confuso, pois suspeita que o am or deles por você é m aior do que a crença que têm em Deus ou na vida após a m orte. Você precisa se afastar. Perfeitam ente natural para alguém da sua idade. Talvez curse um a universidade. Isso vai aj udar. Mas ainda não entendo o que está fazendo aqui. E, o que é m ais im portante, o que vai fazer agora. Para onde é que você vai?”
A segunda pergunta o perturbou m ais. “Tenho um a tia em Birm ingham . Irm ã da m inha m ãe. Ela vai m e receber por um a ou duas sem anas.”
“Ela está te esperando?”
“Mais ou m enos.”
Fiona estava prestes a obrigá-lo a enviar um a nova m ensagem , quando ele estendeu a m ão por cim a da m esa, enquanto ela, com igual rapidez, recolheu a sua para o colo.
Adam não foi capaz de encará-la ou de ser olhado de frente quando voltou a falar. Pôs as m ãos na testa com o se protegesse os olhos da luz. “Tenho um a pergunta a lhe fazer. Quando a senhora a ouvir vai achar que é um a idiotice. Mas, por favor, não a rej eite sim plesm ente. Diga por favor o que pensa sobre ela.”
“O que é?”
Ele se dirigiu ao tam po da m esa. “Quero ir m orar com a senhora.”
Ela esperou por m ais algum a coisa. Nunca poderia ter previsto tal pedido. Mas agora parecia óbvio.
Adam ainda era incapaz de olhá-la nos olhos. Falou depressa, com o se envergonhado com sua própria voz. Ele havia pensado em tudo. “Eu podia aj udar a senhora a cuidar da casa, prestar serviços na rua. E a senhora podia m e dar livros para ler, sabe com o é, tudo o que achar que eu preciso aprender…”
Ele a havia seguido por um bom pedaço do país, pelas ruas, atravessado um a tem pestade para lhe pedir aquilo. Era um a extensão lógica de sua fantasia sobre um a longa viagem m arítim a com ela, de falarem o dia todo cam inhando no convés ao balanço das ondas. Lógica e insana. E inocente. O silêncio os envolveu e uniu. Até m esm o o tilintar do aquecedor parecia ter se reduzido, nenhum som vinha do lado de fora. Ele continuou a proteger o rosto do olhar de Fiona. Ela contem plou o encaracolado de seu cabelo escuro, j ovem e saudável, agora totalm ente seco e reluzente.
Fiona disse com suavidade: “Você sabe que isso não é possível”.
“Eu não ia atrapalhar, quer dizer, interferir com a senhora e seu m arido.” Por fim , ele recolheu as m ãos e olhou para ela. “A senhora sabe, com o alguém que alugasse um quarto. Quando eu term inar m eus exam es, posso arranj ar um em prego e pagar algum aluguel.”
Ela viu o quarto de hóspedes e as duas cam as de solteiro, os ursinhos e outros bichos de pelúcia na cesta de vim e, o arm ário de brinquedos tão cheio que um a das portas não fechava. Tossiu de repente e se pôs de pé, atravessando toda a sala até a j anela para dar a im pressão de que olhava com atenção para fora. Por fim , sem se voltar, ela disse: “Só tem os um quarto livre e um a porção de sobrinhos e sobrinhas”.
“Quer dizer que essa é sua única obj eção?”
Ouviu-se um a batida na porta e Pauling entrou. “Estará aqui dentro de dois m inutos, m inha senhora”, ele disse e saiu.
Ela se afastou da j anela e voltou a se aproxim ar de Adam , abaixando-se para pegar a m ochila dele do chão.
“Meu assistente vai levá-lo de táxi até a estação e lhe com prar um a passagem com destino a Birm ingham para am anhã de m anhã; depois vai levá-lo para um hotel perto de lá.”
Após um a pausa, ele se levantou devagar e pegou a m ochila das m ãos dela. Apesar de sua altura, parecia um a criança pequena em estado de choque.
“Então é isso?”
“Gostaria que m e prom etesse que vai entrar em contato outra vez com sua m ãe antes de pegar o trem . Diga a ela para onde está indo.”
Adam não respondeu. Ela o conduziu à porta e os dois saíram para o corredor. Ninguém à vista. Caradoc Ball e seus convidados estavam instalados na sala de visitas com as portas fechadas. Ela o deixou esperando na biblioteca e subiu ao quarto para pegar algum dinheiro na bolsa. Ao voltar, viu toda a cena de sua posição elevada no topo da im ponente escadaria. A porta da frente estava aberta e o m ordom o falava com o m otorista. Atrás dele, abaixo dos degraus do pórtico, estava o táxi, a porta aberta para liberar os alegres e sinuosos acordes da m úsica orquestral árabe. Seu assistente atravessava o vestíbulo às pressas, supostam ente a fim de im pedir que o m ordom o criasse algum problem a. Quanto a Adam Henry, ele ainda continuava na biblioteca, abraçado à sua m ochila. Quando Fiona se aproxim ou dele, o m ordom o, o m otorista e o assistente estavam do lado de fora, no pátio de cascalho, conversando j unto ao carro, segundo ela esperava, sobre um hotel apropriado.
O rapaz com eçou a dizer: “Mas nós nem …”, e ela levantou a m ão para fazê-lo se calar.
“Você precisa ir.”
Ela segurou delicadam ente a gola do blusão leve dele e o puxou para si. Pretendia lhe dar um beij o no rosto, m as, com o ergueu o corpo e Adam se curvou um pouco, seus rostos se aproxim aram , ele girou a cabeça e os lábios deles se tocaram . Ela poderia ter recuado, ter dado um passo atrás, se afastando dele. Em vez disso, se dem orou, inerm e diante daquele m om ento. A sensação de pele contra pele anulou qualquer possibilidade de escolha. Caso fosse possível dar um beij o casto na boca, foi isso que ela fez. Um contato fugaz, porém m ais do que a m era sugestão de um beij o, m ais do que um a m ãe daria no filho adulto. Durou dois segundos, quem sabe três. Tem po suficiente para sentir, na m aciez e elasticidade dos lábios dele, todos os anos, toda a vida que a separava de Adam . Ao se afastarem , um a leve adesão de pele poderia tê-los atraído de volta. Mas soavam passos no cascalho e nos degraus de pedra, cada vez m ais próxim os. Ela largou a gola dele e repetiu: “Você precisa ir”.
Adam apanhou a m ochila, que havia deixado cair no chão, e seguiu-a através do vestíbulo até o lado de fora, onde foram recebidos pelo ar fresco da noite. Ao pé da escada, o m otorista fez um a saudação am istosa e abriu a porta traseira do carro. O rádio havia sido desligado. Ela tinha pensado em dar o dinheiro a Adam , m as, num a súbita e gratuita m udança de ideia, o entregou a Pauling. Ele balançou a cabeça e forçou um leve sorriso ao pegar o rolinho de notas. Com um m ovim ento brusco dos om bros, Adam deu a im pressão de se desvencilhar de todos e m ergulhou no banco de trás, sentando-se com a m ochila no colo e olhando para a frente. Já se arrependendo do que havia posto em m ovim ento, Fiona deu a volta no carro para trocar um últim o olhar com ele. Adam sem dúvida reparou em seu m ovim ento, m as afastou o rosto. Pauling se sentou na frente, ao lado do m otorista. O m ordom o fechou a porta de Adam , em purrando-a num gesto insolente com as costas da m ão. Om bros encurvados, Fiona subiu às pressas os degraus de pedra rachados enquanto o táxi se distanciava.
* Investigação pública conduzida por lorde Leveson em 2011 e 2012 acerca das práticas e da ética da im prensa britânica após o escândalo das escutas telefônicas feitas pela News International. (N. T.)