A Balada de Adam Henry

Ian McEwan · Capítulo 2 de 5

Páginas do PDF

A Balada de Adam Henry

Capítulo 2

 

Ela tom ou o cam inho de sem pre entre a Gray ’s Inn Square e o tribunal, fazendo o possível para não pensar. Num a das m ãos levava a pasta; na outra, um guarda-chuva aberto. A luz era de um verde deprim ente e o ar frio da cidade fustigou seu rosto. Saiu pela porta principal evitando qualquer conversa fiada ao fazer um curto gesto de cabeça na direção de John, o porteiro am igável. Tinha a esperança de não deixar transparecer que era um a m ulher em crise. Manteve distantes os pensam entos sobre sua situação, tocando m entalm ente um a peça m usical que sabia de cor. Acim a da barulheira do rush, ouvia sua persona ideal, a pianista que nunca tinha conseguido ser, executando im pecavelm ente a segunda partita de Bach.

Tinha chovido quase todos os dias desde o com eço do verão, as árvores davam a im pressão de ter inchado, suas copas alargadas, enquanto as calçadas estavam lim pas e lisas, os carros reluzentes na revendedora da High Holborn. Na últim a vez em que tinha olhado, o Tâm isa na m aré alta tam bém parecia inchado e com um a coloração m arrom m ais escura: m al-hum orado e rebelde, erguia-se contra os pilares das pontes, pronto a invadir as ruas. Mas todos seguiam em frente, reclam ando, resolutos, encharcados. As correntes atm osféricas tinham entrado em pane, curvadas em direção ao sul devido a fatores im possíveis de controlar, bloqueando o refrigério que vinha dos Açores no verão e sugando o ar gélido do norte. Consequência das m udanças clim áticas provocadas pelo hom em que levavam ao derretim ento das calotas polares e perturbavam as cam adas superiores da atm osfera, ou de m anchas solares irregulares que não eram culpa de ninguém ou fruto da variabilidade natural, ritm os antigos, o destino do planeta. Ou todos os três, ou qualquer dos dois. Mas de que serviam tais explicações e teorias tão cedo? Fiona e o resto de Londres tinham um trabalho a fazer.

Ao cruzar a rua para descer a Chancery Lane, a chuva apertou, caindo na diagonal por conta de um vento frio e repentino. O dia escureceu, as gotas de chuva ricocheteavam em suas pernas com o agulhas de gelo, as pessoas aceleravam o passo, silenciosas, absortas em seus pensam entos. O tráfego na High Holborn corria barulhento e vigorosam ente destem ido, os faróis brilhavam no asfalto enquanto ela ouvia m ais um a vez a grande abertura, o adágio em estilo italiano, um a prom essa de j azz nos acordes lentos e densos. Mas não havia com o escapar, a peça m usical a levava diretam ente a Jack porque ela a havia aprendido com o um presente de aniversário para ele no últim o m ês de abril. Fim de tarde na praça, am bos recém -chegados do trabalho, abaj ures acesos, um a taça de cham panhe na m ão dele, a dela em cim a do piano enquanto executava o que tinha pacientem ente registrado na m em ória nas sem anas anteriores. Depois as exclam ações de reconhecim ento e prazer de Jack, além da perplexidade generosam ente exagerada por causa daquele feito m nem ônico, o longo beij o no final, o m urm úrio de parabéns de Fiona, os olhos úm idos dele, o tilintar das taças de cristal facetado.

Por isso o m otor da autocom iseração com eçou a girar e ela não pôde deixar de relem brar as m uitas alegrias que tinha lhe dado. A lista era doentiam ente longa — entradas para óperas com pradas de surpresa, viagens a Paris, Dubrovnik, Viena, Trieste, Keith Jarrett em Rom a (Jack, sem saber de nada, instruído a pôr seu passaporte e algum as poucas coisas num a valise de m ão para encontrá-la no aeroporto ao sair do trabalho), botas de caubói com desenhos gravados a fogo, porta-bebidas com suas iniciais e, em hom enagem à nova paixão dele pela geologia, um m artelinho de explorador do século XIX num estoj o de couro. Para abençoar sua segunda adolescência ao fazer cinquenta anos, um trom pete que pertencera a Guy Barker. Essas dádivas representavam apenas um a fração da felicidade que ela lhe oferecia, sendo o sexo unicam ente um a parcela dessa fração — e só nos últim os tem pos um fracasso, elevado por ele à condição de um a enorm e inj ustiça.

A tristeza e o acúm ulo de m ágoas porm enorizadas, enquanto a verdadeira raiva ainda estava por vir. Um a m ulher de cinquenta e nove anos abandonada na infância da velhice, quando com eçava a aprender a engatinhar. Ela se forçou a voltar à partita ao sair da Chancery Lane e entrar na estreita passagem que levava à Lincoln’s Inn e à sua m assa entrelaçada de esplendor arquitetônico. Sobrepondo-se ao tam borilar das gotas no guarda-chuva, ouviu o andante em sua cadência anim ada, no ritm o de quem cam inha, m arcação rara em Bach, um a bela e alegre m elodia sustentada por um baixo em m archa despreocupada, seus próprios passos ao entrar no Great Hall se encaixando na linha m elódica m iraculosam ente radiante. As notas se esforçavam para alcançar um claro significado hum ano, m as não queriam dizer nada. Eram só beleza, beleza purificada. Ou am or na sua form a m ais am pla e m ais vaga, am or por todo m undo, indiscrim inadam ente. Pelas crianças, talvez. Johann Sebastian teve vinte e dois filhos em dois casam entos. Não perm itiu que seu trabalho o im pedisse de am ar e ensinar, cuidando e com pondo para os que sobreviveram . Crianças. O pensam ento inevitável retornou ao chegar à fuga exigente que ela dom inara por am or ao m arido e tocara a toda velocidade sem com eter um só erro, sem deixar de destacar as vozes.

Sim , às vezes sua falta de filhos era um a verdadeira fuga m usical — esse o tem a costum eiro a que ela agora tentava resistir —, um a form a de escapar de seu legítim o destino. O fracasso em se tornar um a m ulher da form a com o sua m ãe entendia o term o. Com o chegara à situação atual era um lento contraponto tocado em dueto com Jack ao longo de duas décadas, as dissonâncias surgindo e depois desaparecendo, sem pre reintroduzidas por ela em m om entos de alarm e, até m esm o de horror, diante da passagem dos anos férteis até que eles se foram de vez, ela quase sem pre ocupada dem ais para perceber.

Um a história m ais bem contada rapidam ente. Depois dos exam es finais, ainda outros exam es até sua aceitação com o advogada, a aprendizagem prática, um convite afortunado para trabalhar com j uristas de prestígio, algum sucesso inicial na defesa de casos sem esperança — com o parecera sensato postergar um filho para o com eço dos seus trinta anos! E, quando essa idade chegou, vieram ao m esm o tem po casos com plexos e que valiam a pena, e m ais sucessos. Jack tam bém se m ostrava hesitante, argum entando que deviam esperar m ais um ou dois anos. Por volta dos trinta e cinco anos, ele dava aulas em Pittsburgh e ela trabalhava catorze horas por dia, penetrando m ais fundo no direito de fam ília à m edida que m inguava a ideia de form ar sua própria fam ília, apesar das visitas de sobrinhos e sobrinhas. Nos anos seguintes, os prim eiros rum ores de que poderia ser precocem ente eleita para um cargo na m agistratura e para presidir um tribunal. Mas isso não aconteceu, ainda não. E, com quarenta anos, foi tom ada pelas ansiedades acerca da gravidez tardia e do autism o. Pouco depois, m ais j ovens visitantes no apartam ento da Gray ’s Inn Square, sobrinhos-netos e sobrinhas-netas exigentes e barulhentos fazendo-a ver com o seria difícil encaixar um a criança no seu padrão de vida. Mais tarde, o arrependim ento fazendo-a pensar em adoção, algum as consultas exploratórias — e, no curso dos anos que se sucederam com velocidade crescente, agonias ocasionais de dúvida, decisões firm es no m eio da noite de se tornar um a m ãe adotiva abandonadas de m anhã na correria para o trabalho. Por fim , às nove e m eia de um a m anhã no Tribunal Real de Justiça, quando prestou j uram ento perante o presidente do Judiciário e fez seu voto de lealdade diante de duzentos colegas de cabeça coberta pela tradicional peruca branca, vestindo com orgulho um a túnica e sendo obj eto de um discurso espirituoso, ela soube que a partida havia term inado, que pertencia à Justiça com o outrora algum as m ulheres tinham sido noivas de Jesus Cristo.

Cruzou o New Square e se aproxim ou da livraria Wildy. A m úsica na cabeça cessara, m as agora havia entrado outro velho tem a: a autoacusação. Ela era egoísta, m al-hum orada, friam ente am biciosa. Perseguindo seus próprios fins, fingindo a si m esm a que sua carreira não constituía em essência um a autogratificação, negando a vida a dois ou três seres afetuosos e talentosos. Caso seus filhos existissem , seria chocante im aginar o contrário. Por isso ali estava sua punição: confrontar o desastre sozinha, sem a presença de filhos crescidos e sensatos telefonando preocupados, abandonando tudo para participar de reuniões urgentes em torno da m esa da cozinha, cham ando à razão o idiota do pai, trazendo-o de volta. Mas ela o receberia? Precisariam tam bém cham á-la à razão. Os filhos quase existentes, a filha de voz rouca, talvez curadora de algum m useu, e o filho talentoso m as não tão bem posicionado, bom em m uitas coisas, que não havia term inado a universidade porém era um pianista m uito m elhor que ela. Am bos sem pre afetuosos, brilhantes no Natal e nos castelos onde todos passavam as férias de verão a entreter os parentes m ais j ovens.

Passou pela frente da Wildy sem se sentir tentada pelos livros de direito na vitrine, cruzou a Carey Street e entrou pela porta dos fundos do tribunal. Percorreu um corredor abobadado, depois outro, subiu um andar pela escada, passou por algum as salas de audiência, desceu de novo, atravessou um pátio e parou ao pé de um a escada para sacudir o guarda-chuva. Aquele lugar sem pre a fazia se lem brar da escola, o cheiro ou a sensação de pedra fria e úm ida j untam ente com um a pontada de m edo e excitação. Subiu a escada em vez de pegar o elevador, pisando firm e no carpete verm elho ao dobrar à direita em direção ao largo átrio repleto de portas dando acesso aos gabinetes de trabalho de vários m agistrados do Tribunal Superior — parecia, ela às vezes achava, aqueles calendários natalinos em que dia a dia se abre m ais um a portinhola. Em cada recinto grande e coalhado de livros, seus colegas m ergulhavam diariam ente em seus casos e j ulgam entos, um labirinto de detalhes e controvérsias do qual som ente certo estilo de gracej o e ironia oferecia algum a proteção. A m aioria dos j uízes que ela conhecia cultivava um elaborado senso de hum or, m as naquela m anhã não havia ninguém por lá desej oso de diverti-la — o que agradou a ela. Ela provavelm ente era a prim eira a chegar. Nada com o um a tem pestade dom éstica para arrancar alguém da cam a.

Parou na porta de seu gabinete. Nigel Pauling, correto e hesitante, estava curvado sobre a m esa dela, arrum ando vários docum entos. Com o sem pre às segundas-feiras, seguiu-se a troca ritual de perguntas sobre o fim de sem ana de cada um . O dela havia sido “tranquilo”, disse Fiona ao lhe passar o rascunho revisto da sentença do caso Bernstein.

Ao trabalho. No caso do m arroquino, agendado para as dez da m anhã, confirm ou-se que a m enininha havia sido levada para Rabat pelo pai, m algrado suas prom essas à corte, sem um a palavra sobre o paradeiro dela, nenhum a palavra vinda do pai, o advogado dele totalm ente perdido. A m ãe estava recebendo apoio psiquiátrico, m as com pareceria perante o tribunal. A ideia era se valer da Convenção da Haia para acionar o Marrocos, por sorte o único país m uçulm ano que a havia assinado. Tudo isso foi dito rapidam ente por Pauling em tom de quem se desculpa e passando nervosam ente a m ão pelo cabelo com o se fosse o irm ão do sequestrador. Pobre m ulher pálida e m agérrim a, professora universitária especializada nas sagas do Butão e dedicada à filha única. A seu m odo incorreto, o pai tam bém era dedicado, libertando a filha dos m ales do Ocidente infiel. Os docum entos aguardavam sobre a m esa dela.

As dem ais tarefas do dia j á estavam claras em sua m ente. Dirigindo-se à sua m esa, ela perguntou sobre o caso da testem unha de Jeová. Os pais fariam um pedido de em ergência para receber assistência j urídica, e a autorização seria expedida à tarde. O rapaz, segundo seu assistente, sofria de um a form a rara de leucem ia.

“Vam os dar um nom e a ele”, Fiona disse rispidam ente, num tom que a surpreendeu.

Quando pressionado por ela, Pauling m ostrava-se sem pre m ais cortês, e até m esm o satírico. Deu, então, m ais inform ações do que ela necessitava.

“Sem dúvida, m inha senhora. Adam , Adam Henry, filho único. Os pais se cham am Kevin e Naom i. O sr. Henry é dono de um a pequena em presa. Movim entação de terra, drenagem , esse tipo de coisa. Aparentem ente um m estre na condução de escavadeiras m ecânicas.”

Depois de vinte m inutos sentada à m esa, ela voltou a atravessar o átrio e cam inhou por um corredor até o recanto onde estava instalada a m áquina de café. Gravada no vidro da m áquina, havia um a im agem super-realista e ilum inada por dentro de grãos torrados caindo de um j arro em tons m arrom e cor de crem e, tão vívida na obscuridade do cubículo com o um m anuscrito com ilum inuras. Um cappuccino duplo, talvez triplo. Melhor com eçar a tom ar ali m esm o, onde, sem ser perturbada, podia visualizar com repugnância Jack se levantando agora de um a cam a diferente para trabalhar, a figura a seu lado sem iadorm ecida, bem servida durante a m adrugada, se m exendo em m eio aos lençóis grudentos, m urm urando o nom e dele, cham ando-o de volta. Num im pulso furioso, pegou o celular, encontrou o núm ero do chaveiro da Gray ’s Inn Road, forneceu-lhe o PIN de quatro dígitos e instruções para que a fechadura fosse trocada. Claro, m inha senhora, im ediatam ente. Eles tinham os dados da fechadura atual. As novas chaves deveriam ser entregues ainda hoj e no Strand a ela e a m ais ninguém . Depois, em rápida sequência, pois tem ia m udar de ideia, com o copo de plástico quente na m ão livre, telefonou para o zelador do seu edifício, um suj eito rude m as bonachão, para lhe dizer que esperasse a chegada de um chaveiro. Foi m á, e sentiu-se bem em ser m á. Ele devia pagar um preço por abandoná-la, e ali estava, ser exilado, pedir licença para ter acesso à sua vida anterior. Ela não lhe perm itiria o luxo de possuir dois endereços.

Voltando pelo corredor com seu copo, j á refletia sobre sua ridícula transgressão, im pedir ao m arido o acesso a que ele tinha direito, um a das atitudes-chavão das crises conj ugais que qualquer advogado aconselharia seu cliente — geralm ente a m ulher — a não adotar sem a devida autorização j udicial. Um a vida profissional transcorrida acim a das contendas, prim eiro com o advogada e depois com o j uíza, com entando com altivez em particular sobre a agressividade e a irracionalidade dos casais em processo de divórcio, e agora lá estava ela em m eio ao turbilhão, nadando com as outras naquela triste corrente.

Esses pensam entos foram subitam ente interrom pidos. Ao entrar no am plo átrio, viu o j uiz Sherwood Runcie na porta do gabinete dele, esperando por ela, esfregando as m ãos com o um vilão de teatro a indicar que tinha algo para lhe dizer. Ele era um especialista nos rum ores de últim a hora que circulavam pelos tribunais, norm alm ente corretos, e se com prazia em passá-los adiante. Um dos poucos, senão o único, colega que ela preferia evitar, e não porque fosse antipático. Tratava-se de fato de um hom em charm oso, que dedicava todas as suas horas de lazer a um a instituição de caridade que fundara havia m uito tem po na Etiópia. Mas para Fiona aquele contato era em baraçoso porque, quatro anos antes, ele j ulgara um caso de hom icídio que ainda era difícil contem plar e doloroso dem ais para não com entar, com o seria seu dever. Isso num bravo m undinho, num a aldeia, onde era com um se esquecer dos enganos com etidos pelos outros, onde todos tinham , de vez em quando, um a sentença vigorosam ente derrotada no Tribunal de Recursos, recebendo repreensões em m atéria legal. Mas aquele fora um dos m aiores erros j udiciais dos tem pos m odernos. E Sherwood! Tão inexplicavelm ente crédulo diante de um perito que nada entendia de m atem ática e em cuj o testem unho se baseou, a fim de, para surpresa e horror de todos, condenar à prisão, pelo assassinato de seus filhos, um a m ãe inocente e enlutada. Ela foi agredida na penitenciária, perseguida pelas outras detentas e dem onizada pela im prensa sensacionalista. Seu prim eiro recurso foi indeferido e, quando por fim conquistou a liberdade que lhe era certam ente devida, tom bou vítim a do álcool, que a m atou.

A estranha lógica que conduziu àquela tragédia ainda era capaz de m anter Fiona acordada à noite. Segundo se afirm ou no tribunal, a probabilidade de um a criança m orrer da síndrom e da m orte súbita infantil era de um em nove m il. Assim , de acordo com o perito da acusação, a probabilidade de que dois irm ãos m orressem desse m odo era aquele núm ero ao quadrado. Um em oitenta e um m ilhões. Quase im possível, por isso a m ãe devia ter algum a responsabilidade pelas m ortes. O m undo do lado de fora do tribunal ficou perplexo. Se a causa da síndrom e fosse genética, as crianças com partilhavam um a causa. Se fosse am biental, tam bém . Se fosse genética e am biental, tam bém a com partilhavam . Em com pensação, qual era a probabilidade de dois bebês de um a fam ília estável de classe m édia serem assassinados pela m ãe? Mas os enraivecidos teóricos da probabilidade, estatísticos e epidem iologistas não tiveram condições de intervir.

Em m om entos de desânim o com relação ao processo j urídico, bastava a ela relem brar o caso de Martha Longm an e o erro de Runcie para confirm ar um sentim ento passageiro de que o direito, por m ais que Fiona o am asse, era, no que ele tinha de pior, não um asno, m as um a cobra, um a serpente venenosa. Não bastasse isso, Jack se interessou pelo caso e se valia dele quando as coisas não iam bem entre os dois, criticando veem entem ente a profissão dela e seu envolvim ento com o Judiciário, com o se ela própria houvesse proferido a sentença.

Mas quem poderia defender o Judiciário depois que o prim eiro recurso de Longm an foi indeferido? O caso foi um a im postura desde o início. O patologista, assim se verificou, inexplicavelm ente reteve provas cruciais sobre um a agressiva infecção bacteriana na segunda criança. A polícia e a prom otoria da Coroa se m ostraram ilogicam ente ansiosas para obter um a condenação, a classe m édica foi enxovalhada pela com provação de que seu representante, assim com o todo o sistem a, aquela turba descuidada de profissionais, levou um a m ulher bondosa, um a arquiteta bem conceituada, à perseguição, ao desespero e à m orte. Confrontado com opiniões conflitantes de várias testem unhas com alta capacitação m édica sobre as causas da m orte das crianças, o sistem a Judiciário estupidam ente optou por um veredito de culpa em vez de adotar um a postura de ceticism o e incerteza. Runcie era, todos concordavam , um suj eito extrem am ente sim pático e, com o o passado m ostrava, um j uiz com petente e trabalhador. No entanto, quando Fiona ouviu dizer que o patologista e o m édico estavam de volta ao trabalho, ela não se conteve. O caso lhe dava ânsias de vôm ito.

Runcie estava erguendo a m ão para cum prim entá-la e ela não tinha outra alternativa senão parar diante dele e ser afável.

“Minha querida.”

“Bom dia, Sherwood.”

“Li um a anedota m aravilhosa no novo livro de Stephen Sedley. Bem ao seu estilo. É de um j ulgam ento em Massachusetts. Um advogado insistente dem ais pergunta a um patologista se ele está m esm o convencido de que certo paciente estava m orto antes de ser iniciada a autópsia. O patologista diz que estava m esm o certo. Ah, m as com o o senhor pode estar tão certo? Porque, responde o patologista, o cérebro dele se encontrava num recipiente em cim a da m inha m esa. Mas, retom a o advogado, o paciente ainda poderia estar vivo apesar disso? Bom , foi a resposta, é possível que ele estivesse vivo e atuando com o advogado em algum lugar.”

Mesm o enquanto explodia de rir de sua própria história, os olhos de Runcie estavam fixados nos dela para ver se sua hilaridade era correspondida. Ela fez o possível. Piadas sobre a profissão eram as de que seus praticantes m ais gostavam .

Instalada por fim em seu gabinete de trabalho com o café agora m orno, ela passou a se dedicar à questão da criança levada para fora do país. Fingiu não reparar que Pauling, do outro lado da sala, lim pava a garganta para dizer algum a coisa; depois ele pensou m elhor e desapareceu. Em certo m om ento, suas preocupações tam bém desapareceram enquanto se obrigava a prestar atenção nos depoim entos, e com eçou a ler rapidam ente.

Todos no tribunal se levantaram quando ela entrou, às dez em ponto. Ouviu o advogado da m ãe atorm entada, que solicitava o retorno de sua filha com base na Convenção da Haia. Quando o advogado do m arido m arroquino se pôs de pé a fim de tentar convencer Fiona sobre certa am biguidade nas prom essas de seu cliente, ela o interrom peu.

“Eu esperava vê-lo envergonhado com o com portam ento de seu cliente, sr. Soam es.”

A questão era técnica, absorvente. O corpo delgado da m ãe continuava parcialm ente oculto atrás do advogado, parecendo se encolher ainda m ais à m edida que os argum entos se tornavam m ais abstratos. Era provável que, encerrada a sessão, Fiona j am ais voltasse a vê-la. O triste caso seria levado a um j uiz m arroquino.

Ouviu depois o pedido urgente em favor de um a esposa que necessitava de recursos para se sustentar enquanto o processo corria na Justiça. Ela ouviu, fez perguntas, deferiu o pedido. Queria ficar sozinha na hora do alm oço. Pauling lhe trouxe sanduíches e um a barra de chocolate para ela com er à m esa de trabalho. O telefone estava debaixo de alguns papéis e por fim ela cedeu, procurando na telinha algum a m ensagem ou cham ada não atendida. Nada. Disse a si m esm a que não se sentia desapontada nem aliviada. Bebeu chá e se perm itiu dez m inutos para ler os j ornais. Muitas m atérias sobre a Síria, artigos e fotos pavorosas: o governo bom bardeando civis, refugiados nas estradas, condenações im potentes de m inistros das Relações Exteriores do m undo todo, um m enino de oito anos num a cam a com o pé esquerdo am putado, um estiolado Assad de queixo pequeno apertando a m ão de um alto funcionário russo, rum ores sobre o uso de gás asfixiante.

Havia horrores ainda m aiores em outras partes, m as após o alm oço ela teve de confrontar algum as variedades locais. Rej eitou a petição feita sem consulta à outra parte pela qual se buscava expulsar um m arido do lar conj ugal. A apresentação foi dem asiado longa e as piscadelas nervosas do advogado com ar de coruj a a irritaram ainda m ais.

“Por que o senhor está fazendo isso sem um a notificação prévia? Não vej o nada na docum entação que tornasse isso necessário. Que contato o senhor tentou estabelecer com a outra parte? Nenhum , tanto quanto posso ver. Se o m arido concordar em se com prom eter com sua cliente, o senhor realm ente não devia estar m e incom odando com isso. Se ele não concordar, então faça um a nova petição e eu ouvirei os dois lados.”

A sessão foi encerrada, ela saiu a passos largos. Voltou para ouvir os argum entos a favor e contra um a ordem de restrição de m ovim entos solicitada por um hom em que tem ia ser agredido pelo com panheiro de sua ex-m ulher. Muitos debates legais sobre os antecedentes crim inais do indivíduo, m as, com o se referiam a fraude e não a agressão física, ela afinal indeferiu o pedido. Um term o de com prom isso seria suficiente. Um a xícara de chá no gabinete, de volta m ais um a vez para ouvir a solicitação urgente de um a m ãe em processo de divórcio a fim de que os passaportes dos três filhos fossem retidos pela Justiça. Fiona se inclinava a deferir o pedido, m as se recusou a fazê-lo depois de tom ar conhecim ento das com plicações que isso poderia causar.

Retornou a seu gabinete às cinco e quarenta e cinco da tarde. Sentou-se à sua m esa, olhando fixam ente para a estante de livros. Teve um sobressalto quando Pauling entrou, im aginando que tinha cochilado. Ele inform ou que o caso da testem unha de Jeová havia atraído um grande interesse da im prensa. A m aioria dos m atutinos do dia seguinte publicaria a história. Nos sites dos j ornais, havia retratos do rapaz e de sua fam ília. Os próprios pais podiam ter fornecido as fotos, ou um parente grato por poder fazer um dinheirinho. O assistente entregou a Fiona os docum entos sobre o caso e um envelope pardo que tilintou m isteriosam ente quando ela o abriu. Um a carta-bom ba de um dem andante frustrado? Já acontecera antes, quando um artefato precário, m ontado por um m arido enraivecido, falhou e não explodiu nas m ãos de seu antigo assistente. Mas, claro, eram as novas chaves, abrindo cam inho para sua outra vida, para sua existência transform ada.

Meia hora depois, ela rum ou para essa nova vida, m as utilizando um traj eto m ais longo porque relutava em chegar ao apartam ento vazio. Saiu pela porta principal e cam inhou para oeste no Strand rum o ao teatro Aldwy ch, indo depois para o norte ao longo da Kingsway. Céu plúm beo, a chuva quase parando, os transeuntes da hora do rush das segundas-feiras m enos num erosos que de hábito. Expectativa de m ais um a daquelas tardes de verão som brias e longas dem ais, com nuvens baixas. A escuridão total a serviria m elhor. Ao passar por um chaveiro, seu coração bateu m ais forte quando im aginou um a discussão em voz alta com Jack por causa do bloqueio, cara a cara na praça sob as árvores gotej antes e ao alcance do ouvido dos vizinhos, que tam bém eram colegas seus. Ela não teria razão.

Dobrou para o leste, passou pela London School of Econom ics, contornou o Lincoln’s Inn Fields, atravessou a High Holborn e então, para postergar a chegada à casa, tom ou outra vez a direção oeste, passando por ruas estreitas onde em m eados da era vitoriana havia oficinas artesanais e agora cabeleireiros, loj as com portas de ferro, bares onde se vendiam sanduíches. Atravessou o Red Lion Square, passando pelas m esas e cadeiras de alum ínio do café do parque, agora m olhadas e vazias, e pelo Conway Hall, onde um a pequena m ultidão estava reunida na entrada, pessoas decentes e com ar cansado, de cabelo branco, talvez quacres, prontos para um a noitada de protestos contra o ponto a que as coisas haviam chegado. Mas pertencer ao sistem a j udiciário, com todo o seu acervo histórico, punha alguém m ais próxim o às coisas com o elas eram . Mesm o se resistisse ou negasse. Mais de m eia dúzia de convites com letras em relevo se encontravam sobre a m esa de castanheira polida no vestíbulo do apartam ento. Tribunais Superiores, universidades, instituições de caridade, várias sociedades reais e conhecidos de proem inência convidavam Jack e Fiona May e, os dois transform ados ao longo dos anos num a instituição em m iniatura, para se apresentarem com suas m elhores roupas e abrilhantarem algum evento com sua presença, onde com eriam , beberiam e conversariam até voltarem para casa antes da m eia-noite.

Seguiu vagarosam ente pela Theobald’s Road, ainda adiando o m om ento da volta, perguntando-se de novo se não era um a form a m oderna de respeitabilidade que ela havia perdido em vez do am or, se não eram o desprezo e o ostracism o aquilo que tem ia, com o nos rom ances de Flaubert e de Tolstói, e sim a piedade. Ser obj eto de um a piedade generalizada tam bém era um a form a de m orte social. O século XIX estava m ais próxim o do que a m aioria das m ulheres im aginava. Ser flagrada desem penhando um papel naquele lugar-com um significava m au gosto, m ais que um deslize m oral. Marido im paciente envolvido num últim o rom ance, m ulher coraj osa m antendo sua dignidade, m ulher m ais j ovem distante e sem culpa. E ela havia pensado que seus dias com o atriz haviam term inado num gram ado em pleno verão, pouco antes de se apaixonar.

No final das contas, chegar em casa não foi assim tão difícil. De vez em quando ela voltava do trabalho antes de Jack, e se surpreendeu por se sentir aliviada ao penetrar na sem iobscuridade de santuário do vestíbulo com seu cheiro de cera de lavanda, fazendo um pouco de conta que nada m udara ou que estava prestes a voltar ao norm al. Antes de acender as luzes, se desfez da bolsa e prestou atenção. O aquecim ento central tinha sido acionado pela friagem do verão. Agora, ao resfriarem , os radiadores estalavam em ritm os irregulares. Ouviu o som tênue de m úsica orquestral vindo de algum apartam ento num andar inferior, Mahler, langsam und ruhig. Menos tênue, um tordo canoro repetia pedantem ente cada frase ornam ental, o som chegando nítido pela cham iné. Em seguida, percorreu os quartos, acendendo as luzes, em bora não fossem ainda nem sete e m eia. De volta ao vestíbulo para pegar a bolsa, notou que o chaveiro não havia deixado o m enor sinal de sua visita. Nem m esm o um a raspa de m adeira. E por que haveria de deixar algo assim se apenas m udara o tam bor da fechadura? E por que ela devia se im portar? Mas a falta de algum sinal de sua passagem por ali era um a lem brança da ausência de Jack, um em purrãozinho para baixo no m oral dela. A fim de neutralizar isso, levou os docum entos para a cozinha e passou os olhos por um dos casos do dia seguinte enquanto esperava que a água do chá fervesse.

Poderia ter telefonado para um a das três am igas, porém não se sentia capaz de se ouvir explicando a situação e a tornando irreversivelm ente real. Cedo dem ais para com iseração ou conselhos, cedo dem ais para ouvir Jack execrado por am igas leais. Em vez disso, passou a noite se sentindo vazia, entorpecida. Com eu pão, queij o e azeitonas com um copo de vinho branco, e ficou um bom tem po no piano. Prim eiro, num gesto de desafio, tocou a partita de Bach. Às vezes ela acom panhava um advogado, Mark Berner, tendo visto naquela tarde que ele, no dia seguinte, ia representar o hospital no caso da testem unha de Jeová. O próxim o concerto deles seria dali a m uitos m eses, pouco antes do Natal, no Great Hall da Gray ’s Inn, e precisavam ainda acertar o program a. Mas, com o tinham algum as peças decoradas para atender aos pedidos de bis, ela repassou todas im aginando a parte do tenor, dem orando-se na triste canção de Schubert “Der Leierm ann”, o tocador de realej o que é pobre, infeliz e desprezado. Quando finalm ente se levantou da banqueta, seus j oelhos e quadris estavam duros. No banheiro, m ordeu m etade de um sonífero, olhou fixam ente para o resto irregular em sua m ão e o engoliu tam bém .

Vinte m inutos depois estava deitada no seu lado da cam a ouvindo com olhos cerrados o noticiário do rádio, o aviso aos navegantes, o hino nacional e depois as notícias internacionais. Enquanto esperava pelo esquecim ento que viria com o sono, ouviu o noticiário pela segunda e possivelm ente pela terceira vez, as vozes calm as discutindo a selvageria do dia — hom ens-bom ba em logradouros apinhados no Paquistão e no Iraque, o bom bardeio de blocos de apartam entos na Síria, a guerra do Islão consigo próprio conduzida em m eio a carros retorcidos e prédios destroçados, pedaços de corpos sendo atirados de um lado ao outro de m ercados de rua, gente sim ples chorando de tristeza, em estado de choque. Mais tarde, as vozes passaram a discutir os aviões não tripulados norte-am ericanos no Vaziristão, o sangrento ataque que atingira um a festa de casam ento. Enquanto vozes racionais continuaram a soar noite adentro, ela se enroscou para dorm ir um sono agitado.

 

A m anhã transcorreu com o centenas de outras. Petições, requerim entos rapidam ente assim ilados, arrazoados ouvidos, sentenças proferidas, ordens expedidas, Fiona se m ovendo entre seu gabinete e o tribunal, encontrando colegas pelo cam inho, algo até m esm o festivo em suas rápidas trocas de palavras, o assistente anunciando com voz cansada que todos se levantassem , seu aceno de cabeça quase im perceptível para o prim eiro advogado, suas piadinhas ocasionais recebidas pelos advogados de am bas as partes com m anifestações baj ulatórias que não chegavam a ocultar sua insinceridade, e os litigantes, se fossem um casal se divorciando, com o eram todos naquela m anhã de terça-feira, sentados bem longe um do outro, por trás de seus defensores e em nada inclinados a sorrir.

E o estado de espírito dela? Fiona se achava razoavelm ente capaz de m onitorá-lo, defini-lo, e percebeu um a m udança significativa. No dia anterior, concluiu, estivera em estado de choque, com um a postura irreal de aceitação, preparada para se dizer que, na pior das hipóteses, teria de suportar a com iseração da fam ília e dos am igos, além de um grave inconveniente social — aqueles convites com letras em relevo a serem recusados enquanto esperava esconder seu em baraço. Naquela m anhã, ao acordar com um a parte fria da cam a à sua esquerda — um a form a de am putação —, ela sentiu a prim eira dor convencional do abandono. Pensou no que Jack tinha de m elhor e sentiu saudade, os tornozelos ossudos e cabeludos dele pelos quais, sem iadorm ecida, ela deixava que a sola m acia de seu pé deslizasse ao prim eiro assalto do despertador, quando rolava por cim a do braço estendido dele e m odorrava debaixo do calor do edredom , o rosto contra o peito de Jack, até a segunda cham ada do despertador. Aquela entrega total, em que se sentia com o um a criança antes de pular da cam a para vestir a arm adura de m ulher adulta, pareceu ao despertar um a necessidade básica da qual estava sendo privada. Quando chegou ao banheiro e despiu o pij am a, achou seu corpo grotesco ao se ver no espelho. Milagrosam ente encolhido em algum as partes, inchado em outras. Traseiros pesados. Um pacote ridículo. Frágil. Este lado para cim a. Por que alguém não a abandonaria?

O ato de se lavar, vestir e tom ar café, além de deixar um bilhete e um a chave nova para a sua diarista, a fizeram pôr sob controle esses sentim entos pungentes. E assim ela iniciou sua m anhã, procurou pelo m arido em e-m ails, m ensagens de texto e cartas, não encontrou nada, j untou seus docum entos, o guarda-chuva e o celular, e foi cam inhando para o trabalho. O silêncio dele lhe pareceu cruel e a chocou. Ela sabia apenas que Melanie, a especialista em estatística, m orava pelos lados de Muswell Hill. Não era im possível localizá-la ou procurar por Jack na universidade. Mas que hum ilhação seria dar de cara com ele num corredor, cam inhando em sua direção de braços dados com a am ante. Ou encontrá-lo a sós. O que ela poderia fazer senão um a proposta inútil e ignom iniosa para que ele voltasse? Poderia exigir um a confirm ação de que abandonara o casam ento, e ele lhe diria o que ela j á sabia e não desej ava ouvir. Por isso iria esperar até que determ inado livro, cam isa ou raquete de tênis o atraísse de volta ao apartam ento trancado. Então caberia a ele procurá-la e, quando conversassem , ela estaria em seu território, a dignidade intacta — ao m enos externam ente.

Não perceptível, porém seu m oral estava baixo quando iniciou a lista de terça-feira. O últim o caso da m anhã foi prolongado por um com plexo debate sobre a lei de com ércio. Um m arido que se divorciava alegava que não podia dispor dos três m ilhões de libras que fora obrigado a pagar à esposa. Pertenciam à em presa. Tornou-se claro, em bora lentam ente dem ais, que ele era o único executivo e o único em pregado de um a firm a que nunca fizera nada — um a folha de figueira para ocultar um arranj o fiscal que o beneficiava. Fiona decidiu em favor da esposa. A tarde agora estava livre para a petição de em ergência do hospital no caso da testem unha de Jeová. De novo em seu gabinete, ela com eu um sanduíche e um a m açã sentada à sua m esa enquanto lia os arrazoados. Naquela hora seus colegas alm oçavam esplendidam ente no restaurante da Lincoln’s Inn. Quarenta m inutos depois, um pensam ento ilum inador a acom panhou ao cam inhar para a sala de audiência núm ero 8. Ali a questão era de vida e m orte.

Ela entrou, todos se puseram de pé; sentou-se e observou enquanto as partes se acom odavam abaixo de onde ela se encontrava. Perto de seu cotovelo havia um pequeno m onte de papéis cor de crem e, ao lado do qual depositou sua caneta. Foi só então, ao ver aquelas folhas em branco, que os últim os vestígios, as m arcas de sua própria situação desapareceram por com pleto. Ela não tinha m ais um a vida privada, estava pronta para ser absorvida.

À sua frente estavam as três partes. Representando o hospital, seu am igo Mark Berner e dois outros advogados. Representando Adam Henry e seu guardião, o funcionário do serviço de assistência da Vara de Fam ília, um advogado idoso, John Tovey, que Fiona não conhecia, e outro causídico. Representando os pais, Leslie Grieve, outro advogado especializado em defender causas perante os tribunais, e dois colegas. Sentados ao lado deles, estavam o sr. e a sra. Henry. Ele era um hom em m agro e m usculoso, de tez m orena, vestindo um terno bem cortado e gravata que o fariam passar por um exitoso m em bro do Judiciário. A sra. Henry tinha ossos largos e usava enorm es óculos de aros verm elhos que reduziam seus olhos a dois pontinhos. Estava sentada com as costas retas, os braços cruzados bem j unto ao corpo. Nenhum dos dois parecia em nada intim idado. Nos corredores, Fiona supôs, os j ornalistas se reuniam para aguardar, até que ela lhes perm itisse ouvir sua decisão.

Ela com eçou: “Todos os senhores sabem que estam os diante de um a m atéria de extrem a urgência. O tem po é essencial. Peço-lhes que tenham isso em m ente e sej am breves, apresentando seus argum entos sem digressões. Sr. Berner”.

Inclinou a cabeça na direção dele, que se ergueu. Berner era totalm ente calvo, corpulento e de pés delicados — tam anho 38, se dizia — que eram alvo de gozação pelas suas costas. Possuía um a boa voz de tenor, e o m elhor m om ento dos dois j untos tinha sido no ano anterior, quando executaram a canção de Schubert “Der Erlkönig” num j antar no apartam ento da Gray ’s Inn em hom enagem a um em inente m agistrado que se aposentava e devotava grande paixão a Goethe.

“Eu realm ente serei breve, Meritíssim a, pois, com o a senhora apontou, a situação é urgente. O dem andante no caso é o Hospital Geral Edith Cavell, de Wandsworth, que pede a autorização desta corte para tratar de um rapaz, identificado nos autos com o A, que com pletará dezoito anos em m enos de três m eses. No dia 14 de m aio, ele sentiu fortes dores no estôm ago, quando colocava seus protetores de perna para j ogar com o prim eiro rebatedor do tim e de críquete de sua escola. Nos dois dias seguintes, as dores se tornaram violentas, até m esm o insuportáveis.”

“Eu li os docum entos, sr. Berner.”

O advogado continuou. “Desse m odo, Meritíssim a, acredito que todas as partes concordam que Adam está sofrendo de leucem ia. O hospital desej a tratá-lo da form a usual, com quatro m edicam entos, um procedim ento terapêutico reconhecido universalm ente e adotado por hem atologistas, com o posso com provar…”

“Não é necessário, sr. Berner.”

“Obrigado, Meritíssim a.”

Berner prosseguiu rapidam ente, descrevendo o curso norm al do tratam ento sem que Fiona interviesse. Dois dos quatro m edicam entos atacavam diretam ente as células da leucem ia, enquanto os outros dois atingiam em particular a m edula óssea, afetando assim o sistem a autoim une e sua capacidade de produzir hem ácias, leucócitos e plaquetas. Em consequência, é com um fazer transfusões de sangue durante o tratam ento. Neste caso, contudo, o hospital foi im pedido de fazê-lo. Adam e seus pais são testem unhas de Jeová e, segundo sua crença, não podem aceitar produtos derivados de sangue em seus corpos. Exceto por isso, o rapaz e seus pais concordavam com todo o tratam ento que o hospital pudesse oferecer.

“E o que foi oferecido?”

“Meritíssim a, em respeito aos desej os da fam ília, apenas foram adm inistrados os m edicam entos específicos para leucem ia. Eles não são considerados suficientes. Neste ponto, gostaria de passar a palavra ao hem atologista que nos tem prestado orientação.”

“Muito bem .”

O sr. Rodney Carter sentou-se no banco das testem unhas e prestou j uram ento. Alto, encurvado, ar severo, grossas sobrancelhas brancas sob as quais seus olhos faiscavam com feroz desdém . Um lenço de seda azul despontava do bolso superior do paletó de seu terno cinza-pálido, com um colete do m esm o tecido. Dava a im pressão de considerar o procedim ento j udicial um absurdo e que o rapaz deveria ser levado im ediatam ente pelo cangote para receber a transfusão.

Seguiram -se as perguntas de praxe para estabelecer a capacitação de Carter, sua experiência e tem po de serviço. Quando Fiona lim pou a garganta baixinho, Berner entendeu o sinal e prosseguiu, pedindo ao m édico que resum isse o estado do paciente para conhecim ento da j uíza.

“Nem um pouquinho bom .”

Foi-lhe solicitado que explicasse m elhor.

Carter respirou fundo, olhou em volta, viu os pais e virou o rosto. Seu paciente estava fraco, ele disse, e, com o era de esperar, m ostrando os prim eiros sinais de falta de ar. Se ele, Carter, tivesse liberdade de conduzir o tratam ento, via de uns oitenta a noventa por cento de probabilidade de um a cura total. Mantidas as atuais circunstâncias, as chances eram m uito rem otas.

Berner solicitou dados precisos sobre o sangue de Adam .

Quando o rapaz foi internado, disse Carter, a contagem de hem oglobina era de 8,3 gram as por decilitro, sendo o padrão algo em torno de 12,5. Ela declinara seguidam ente. Três dias antes chegara a 6,4. Na m anhã de hoj e, era de 4,5. Se caísse ainda m ais, para 3, a situação se tornaria extrem am ente grave.

Mark Berner estava prestes a fazer outra pergunta, m as Carter foi adiante.

“A contagem de glóbulos brancos se situa em geral entre 5 e 9. Agora está em 1,7. Quanto às plaquetas…”

Fiona o interrom peu. “O senhor poderia, por favor, nos lem brar qual a função delas?”

“Necessárias para a coagulação, Meritíssim a.”

O padrão, o consultor explicou ao tribunal, era 250. A contagem do rapaz, 34. Abaixo de 20 era provável que ocorresse um sangram ento espontâneo. Nesse ponto, o sr. Carter afastou um pouco os olhos, parecendo encarar os pais. “O últim o exam e”, disse em tom grave, “nos m ostra que não está sendo produzido nenhum sangue novo. O que se espera é que um adolescente saudável produza quinhentos bilhões de células sanguíneas por dia.”

“E se a transfusão pudesse ser feita, sr. Carter?”

“O rapaz teria um a chance decente. Em bora não tão boa quanto se houvesse recebido a transfusão desde o com eço.”

Berner fez um a breve pausa e, quando voltou a falar, baixou a voz, com o se dram atizasse a possibilidade de Adam Henry ouvi-lo. “O senhor conversou com o seu paciente sobre o que lhe acontecerá se ele não receber a transfusão?”

“Som ente de form a m uito geral. Ele sabe que pode m orrer.”

“Ele não tem ideia de com o m orreria. O senhor se im porta de dizer à corte com o isso se daria?”

“Se o senhor quiser.”

Berner e Carter pareciam estar conspirando a fim de trazer os fatos horríveis ao conhecim ento dos pais. Era um a abordagem razoável e Fiona não interferiu.

Carter disse lentam ente: “Vai ser angustiante, não apenas para ele m as tam bém para a equipe m édica que o vem tratando. Alguns profissionais estão bem furiosos. Eles fazem transfusões de form a rotineira, o dia todo. Sim plesm ente não conseguem entender por que devem aceitar o risco de perder esse paciente. Um a característica de seu declínio será a luta para respirar, um a luta que vai lhe causar pânico e que ele está fadado a perder. Terá a sensação de estar se afogando m uito devagar. Antes disso, pode sofrer hem orragias internas. O colapso dos rins é um a possibilidade. Alguns pacientes perdem a visão. Ou ele pode ter um derram e cerebral, com um a série de consequências neurológicas. Nenhum caso é igual ao outro. A única coisa certa é que seria um a m orte horrível”.

“Obrigado, sr. Carter.”

Leslie Grieve levantou-se para interrogá-lo, representando os pais. Fiona conhecia Grieve um pouco por sua boa reputação, m as naquele m om ento não se recordava se ele j á havia se apresentado diante dela. Tinha visto sua atuação em outros tribunais — j eito de dândi, cabelo prateado repartido no m eio, m açãs do rosto salientes, nariz fino e com prido com narinas que lhe davam um ar arrogante. Seus braços e pernas tinham um a liberdade de m ovim ento que contrastava agradavelm ente com os gestos contidos de seus colegas m ais solenes. Todo esse efeito im pressionante e alegre era atrapalhado por um problem a de visão, um a espécie de estrabism o que o fazia parecer nunca estar olhando para onde seu rosto apontava. Essa deficiência contribuía para o fascínio que ele exercia. Ela às vezes desorientava testem unhas que estavam sendo interrogadas, e agora podia ser a causa da irritabilidade do m édico.

Grieve disse: “O senhor concorda, não é m esm o, sr. Carter, que a liberdade de escolha do tratam ento m édico constitui um direito fundam ental de todo adulto?”.

“Concordo.”

“E que o tratam ento sem consentim ento representaria um a violação da pessoa, na verdade um a agressão a essa pessoa.”

“De acordo.”

“E Adam está prestes a se transform ar num adulto, tal com o a lei o define.”

Carter disse: “Se ele fizesse dezoito anos am anhã de m anhã, ainda não teria atingido a m aioridade hoj e”.

Isso foi dito com veem ência. Grieve não perdeu a serenidade. “Adam é quase um adulto. Não é fato que m anifestou sua opinião sobre o tratam ento de m odo inteligente e bem articulado?”

Neste ponto, os om bros caídos do m édico se endireitaram e ele cresceu alguns centím etros. “As opiniões dele são as de seus pais. Não são dele. Sua recusa em receber a transfusão é baseada nas doutrinas de um a seita religiosa para a qual ele pode m uito bem se tornar um m ártir à toa.”

“Seita é um a palavra forte, sr. Carter”, disse Grieve sem se alterar. “O senhor tem algum a crença religiosa?”

“Sou anglicano.”

“A Igrej a anglicana é um a seita?”

Fiona ergueu os olhos do papel onde tom ava notas. Grieve entendeu o gesto dela franzindo os lábios e fazendo um a pausa para respirar fundo. O m édico dava a im pressão de estar prestes a se levantar do banco, m as o advogado não acabara sua arguição.

“O senhor tem conhecim ento de que a Organização Mundial de Saúde estim a que entre quinze e vinte por cento dos novos casos de aids são causados por transfusões de sangue?”

“Nenhum desses casos ocorreu no m eu hospital.”

“As com unidades hem ofílicas de vários países viveram um a tragédia com a infecção de aids em larga escala, não é verdade?”

“Isso aconteceu há bastante tem po e não acontece m ais.”

“E outras infecções são possíveis por causa da transfusão, não é verdade? Hepatite, doença de Ly m e, m alária, sífilis, doença de Chagas, rej eição de tecidos, doenças pulm onares. E, obviam ente, a nova variante da doença de Creutzfeldt-Jakob.”

“Todas raríssim as.”

“Mas que sabidam ente ocorrem . E há tam bém as reações hem olíticas em virtude de grupos sanguíneos incom patíveis.”

“Tam bém raras.”

“Verdade? Deixe-m e citar, sr. Carter, um trecho do altam ente respeitado Manual de conservação do sangue: ‘Há pelo m enos vinte e sete estágios entre a coleta de um a am ostra de sangue e sua transfusão no paciente, existindo certo potencial de erro em cada estágio do processo’.”

“Nosso pessoal é m uito bem treinado e cuidadoso. Não m e recordo de um a única reação hem olítica em anos.”

“Levando em conta todos esses riscos, o senhor não diria que eles são o suficiente para que um a pessoa racional tenha suas hesitações, sr. Carter, sem que essa pessoa precise ser m em bro do que o senhor cham a de seita?”

“Hoj e em dia, os produtos derivados de sangue são testados de m odo extrem am ente rigoroso.”

“Apesar disso, não seria de todo irracional hesitar antes de aceitar um a transfusão.”

Carter refletiu por um m om ento. “Hesitar talvez sej a possível. Mas recusar, num caso com o o de Adam , seria irracional.”

“O senhor adm ite que a hesitação é razoável. Sendo assim , certam ente não seria absurdo, à luz de todas as possibilidades de infecção e erro, que o paciente insistisse em que se procurasse obter seu consentim ento.”

O m édico deixou entrever o esforço que fazia para se controlar. “O senhor está j ogando com as palavras. Se não m e for perm itido fazer a transfusão nesse paciente, ele pode não se recuperar. No m ínim o, poderá ficar cego.”

Grieve disse: “Dados os riscos, não haverá um m odism o im prudente na sua profissão em favor das transfusões? Não há provas factuais que as sustentem , não é fato, sr. Carter? É com o as sangrias de antigam ente, em bora, é claro, agora ao contrário. Os pacientes que perdem cento e sessenta m ililitros de sangue durante um a cirurgia recebem rotineiram ente um a transfusão, não é verdade? No entanto, um doador cede três vezes esse volum e e vai trabalhar sem que isso lhe cause o m enor m alefício”.

“Não posso com entar sobre a opinião clínica das outras pessoas. A opinião geral, eu suponho, é que um paciente enfraquecido pela cirurgia deveria ter todo o sangue que Deus lhe concedeu.”

“Não é fato que os pacientes que são testem unhas de Jeová recebem agora um tratam ento cham ado cirurgia sem sangue que tornou desnecessárias as transfusões? Perm ita-m e citar um a frase do American Journal of Otolaryngology: ‘A cirurgia sem sangue passou a representar um boa prática, sendo perfeitam ente possível que no futuro venha a ser aceita com o o tratam ento-padrão’.”

O m édico se m ostrou indiferente. “Não estam os falando aqui de cirurgia. Este paciente precisa de sangue porque seu tratam ento o im pede de produzi-lo norm alm ente. Sim ples assim .”

“Obrigado, sr. Carter.”

Grieve se sentou e John Tovey, que era o advogado de Adam Henry e parecia necessitar do apoio de um a bengala com cabo de prata, se pôs de pé, ofegante, para arguir o m édico.

“O senhor sem dúvida passou algum tem po conversando a sós com Adam .”

“Sim .”

“Que im pressão teve de sua inteligência?”

“É um rapaz extrem am ente inteligente.”

“Ele sabe se expressar bem ?”

“Sim .”

“Seu raciocínio e sua cognição estão afetados pelo seu estado de saúde?”

“Ainda não.”

“O senhor sugeriu que ele necessita de um a transfusão?”

“Sim .”

“E qual foi a resposta dele?”

“Ele se recusa term inantem ente por causa de sua religião.”

“O senhor sabe qual é a idade exata dele em anos e m eses?”

“Dezessete anos e nove m eses.”

“Obrigado, sr. Carter.”

Berner levantou-se para fazer a arguição.

“Sr. Carter, poderia nos dizer m ais um a vez há quanto tem po é especialista em hem atologia?”

“Há vinte e sete anos.”

“Quais são os riscos de um a reação adversa num a transfusão de sangue?”

“Muito baixos. Nada com parado com o m al inevitável que será feito neste caso por não ocorrer a transfusão.”

Berner indicou que não tinha m ais nada a perguntar.

Fiona disse: “Na sua opinião, sr. Carter, quanto tem po tem os para resolver essa questão?”.

“Se não se puder dar sangue a esse rapaz até am anhã de m anhã, entrarem os em um território m uito perigoso.”

Berner se sentou. Fiona agradeceu ao m édico, que se afastou com um breve aceno de cabeça, talvez desgostoso, para a j uíza. Grieve se pôs de pé e disse que cham aria im ediatam ente o pai. No banco de testem unhas, o sr. Henry perguntou se poderia fazer o j uram ento usando a tradução m oderna da Bíblia. O funcionário da corte lhe disse que só tinham a versão do rei Jaim e. O sr. Henry concordou com a cabeça e fez o j uram ento, passando então a olhar pacientem ente na direção de Grieve.

Kevin Henry m edia um m etro e sessenta e oito, parecendo tão flexível e forte quanto um trapezista. Podia de fato ser habilidoso no m anej o de um a escavadeira m ecânica, m as dava a im pressão de estar igualm ente à vontade em seu elegante terno cinza com gravata de seda verde-clara. O propósito das perguntas de Leslie Grieve foi perm itir que ele relatasse seu com eço difícil e o desabrochar posterior de um a fam ília am orosa, estável e feliz. Quem poderia duvidar disso? Os dois haviam se casado cedo, dezessete anos antes, quando tinham dezenove anos. No duro início de vida em com um , Kevin trabalhava com o operário braçal. Era “um pouco doidivanas”, bebia dem ais, tratava m al sua m ulher, Naom i, em bora nunca tivesse batido nela. Foi m andado em bora do em prego porque com frequência chegava tarde dem ais. O aluguel vivia atrasado, o bebê chorava a noite inteira, os dois brigavam , os vizinhos reclam avam . Foram am eaçados de despej o do apartam ento de um quarto em Streatham .

A salvação veio na form a de dois corteses j ovens am ericanos que bateram à porta de Naom i certa tarde. Voltaram no dia seguinte e falaram com Kevin, inicialm ente hostil. Por fim , um a visita ao Salão do Reino m ais próxim o, um a boa acolhida e então aos poucos a ordem e a paz chegaram à vida deles graças aos encontros com pessoas sim páticas que logo se tornaram am igas, bem com o úteis conversas com os anciãos da congregação e o estudo da Bíblia, que no com eço j ulgaram difícil.

Kevin e Naom i com eçaram a viver a verdade. Aprenderam o futuro que Deus guardava para a hum anidade e desem penharam seu dever ao trabalhar para divulgar a palavra. Descobriram que haveria um paraíso na Terra e que poderiam participar dele caso pertencessem ao grupo privilegiado conhecido pelas testem unhas com o “outras ovelhas”.

Passaram a com preender a preciosidade da vida. Ao se tornarem pais m elhores, o filho ficou m ais calm o. Kevin fez um curso patrocinado pelo governo em que aprendeu a operar m aquinaria pesada. Não m uito depois de term inar o curso, foi oferecido a ele um em prego. A cam inho do Salão do Reino para agradecer na com panhia de Adam , ele e a esposa confessaram que estavam m ais um a vez apaixonados. Deram -se as m ãos na rua, coisa que j am ais haviam feito. Desde então, passados vários anos, tinham vivido a verdade e criado Adam à luz da verdade com o apoio de um círculo íntim o de am igos que tam bém eram testem unhas. Cinco anos antes, Kevin fundara sua própria em presa. Possuía algum as escavadeiras, cam inhões basculantes e um a grua, e em pregava nove hom ens. Agora Deus havia infligido a leucem ia ao filho deles, confrontando Kevin e Naom i com um suprem o teste de fé.

A cada pergunta sugestiva do advogado, o sr. Henry dava um a resposta bem ponderada. Mostrou respeito à corte sem revelar nenhum tem or, com o ocorria com outras pessoas. Falou claram ente sobre seus fracassos iniciais, não dem onstrou em baraço ao recordar o m om ento em que am bos se deram as m ãos, não hesitou em usar a palavra am or naquele am biente. Muitas vezes, após ouvir a pergunta de Grieve, dirigia-se à Fiona e a olhava nos olhos. Ela tentou autom aticam ente localizar sua pronúncia. Um toque de cockney, um vestígio ainda m ais tênue do sudoeste da Inglaterra — a voz confiante de um hom em tranquilo acerca de sua própria com petência e bastante acostum ado a dar ordens. Falavam daquele m odo alguns m úsicos de j azz ingleses, um treinador de tênis que ela conhecia, sargentos das Forças Arm adas, policiais de alta patente, param édicos, o capataz de um a plataform a de petróleo que certa vez com parecera diante dela. Não era um dos hom ens que governavam o m undo, m as um dos que o faziam andar.

Grieve fez um a pausa para assinalar o fim da história de cinco m inutos, perguntando a seguir em tom suave: “Sr. Henry, diga, por favor, à corte por que Adam está recusando a transfusão de sangue”.

O sr. Henry hesitou, com o se refletisse sobre a questão pela prim eira vez. Virou-se e respondeu diretam ente a Fiona: “A senhora precisa entender”, disse, “que o sangue constitui a essência daquilo que é hum ano. É a alm a, é a própria vida. E, assim com o a vida é sagrada, o sangue tam bém é”. Parecia haver term inado, m as acrescentou rapidam ente: “O sangue representa a dádiva de vida pela qual todas as alm as vivas deveriam ser gratas”. Ele pronunciou essas frases não com o crenças a que se aferrasse, e sim com o dem onstrações de um fato, com o um engenheiro descrevendo a construção de um a ponte.

Grieve aguardou, indicando com seu silêncio que a pergunta não havia sido respondida. Mas Kevin Henry tinha acabado e olhava diretam ente para a frente.

Grieve sugeriu: “Sendo assim , se o sangue é um a dádiva, por que seu filho a recusaria quando oferecida pelos m édicos?”.

“Misturar seu próprio sangue com o sangue de um anim al ou de outro ser hum ano significa poluição, contam inação. É a rej eição de um m aravilhoso presente do Criador. É por isso que Deus especificam ente proíbe isso no Gênesis, no Levítico e nos Atos.”

Grieve assentia com a cabeça. O sr. Henry acrescentou sim plesm ente: “A Bíblia é a palavra de Deus. Adam sabe que ela deve ser obedecida”.

“O senhor e sua esposa am am seu filho, sr. Henry ?”

“Sim , nós o am am os.” Disse isso de m odo tranquilo, olhando para Fiona com ar desafiador.

“E se a recusa da transfusão causar a m orte dele?”

Mais um a vez Kevin Henry olhou fixam ente para a parede coberta de lam bris de m adeira. Respondeu com um nó na garganta: “Ele ocupará seu lugar no paraíso que voltará a ser restaurado na Terra”.

“E com o o senhor e a sua esposa vão se sentir?”

Naom i Henry continuava em pertigada em seu assento, sua expressão por trás dos óculos im possível de ser interpretada. O rosto estava voltado para o advogado e não para o m arido no banco de testem unhas. De onde Fiona se encontrava, não era claro se os olhos da sra. Henry, reduzidos pelas lentes, estavam abertos.

Kevin Henry disse: “Ele terá feito a coisa certa e verdadeira, o que nosso Senhor m andou”.

Grieve esperou de novo, dizendo então num tom pesaroso: “O senhor sofrerá m uito, não é verdade, sr. Henry ?”.

Nesse ponto, a bondade artificial do tom de voz do advogado em udeceu o pai, que se lim itou a acenar com a cabeça. Fiona viu que os m úsculos de sua garganta se retesaram enquanto recuperava o controle.

O advogado disse: “Essa recusa é um a decisão de Adam ou realm ente sua?”.

“Não poderíam os im pedir que ele recusasse, nem se quiséssem os.”

Durante vários m inutos Grieve seguiu essa linha de arguição, buscando deixar claro que o rapaz não estava sendo indevidam ente influenciado. Dois altos m em bros da congregação haviam visitado o rapaz. O sr. Henry não foi convidado a estar presente. Mas, depois, num corredor do hospital, eles lhe disseram que haviam ficado im pressionados e em ocionados com a com preensão da situação pelo rapaz e seu conhecim ento das escrituras. Estavam convencidos de que ele sabia o que queria e, além de estar vivendo a verdade, se m ostrava pronto a m orrer por ela.

Fiona sentiu que Berner ia fazer um a obj eção. Mas o advogado sabia que ela não ia perder tem po para desm erecer testem unhos transm itidos por terceiros.

Um conj unto final de perguntas de Leslie Grieve teve com o propósito perm itir ao sr. Henry expor a m aturidade em ocional do filho. Isso foi feito com orgulho, nada em seu tom de voz sugeria que ele im aginava poder perdê-lo em breve.

Já eram três e m eia da tarde quando Mark Berner se pôs de pé para fazer a contra-arguição. Com eçou expressando ao casal sua com iseração pela enferm idade do filho e a esperança de sua com pleta recuperação — um claro sinal, ao m enos para Fiona, de que o advogado estava prestes a bater forte. Kevin Henry inclinou a cabeça.

“Vam os com eçar esclarecendo um a coisa sim ples, sr. Henry. Os livros da Bíblia que o senhor cita — Gênesis, Levítico e Atos — o proíbem de com er sangue ou, em um dos casos, recom endam que se abstenha de fazê-lo. A tradução m oderna do Gênesis, por exem plo, diz: ‘Porém não com ereis a carne com sua alm a, isto é, seu sangue’.”

“É verdade.”

“Sendo assim , não há nada sobre transfusão.”

O sr. Henry disse com paciência: “Acho que o senhor verá que, em grego e hebreu, o original tem o sentido de ‘aceitar no seu corpo’”.

“Muito bem . Mas, na época desses textos da Idade do Ferro, a transfusão não existia. Com o podia ser proibida?”

Kevin Henry balançou a cabeça. Havia pena ou um a generosa tolerância em sua voz. “Com certeza existia na m ente de Deus. O senhor precisa entender que esses livros constituem sua palavra. Ele inspirou os profetas de sua escolha para escreverem o seu testam ento. Não im porta em que idade isso foi feito, pedra, bronze ou qualquer outra.”

“É possível que sej a assim , sr. Henry. Mas m uitas testem unhas de Jeová questionam essa ideia sobre a transfusão exatam ente nos term os em que a coloquei. Estão preparadas para aceitar produtos derivados de sangue, ou alguns desses produtos, sem abandonar sua fé. Não é verdade que outras opções estão abertas para o j ovem Adam e que o senhor poderia desem penhar seu papel persuadindo-o a aceitá-las a fim de salvar a vida dele?”

Henry se voltou para Fiona. “Há alguns poucos que se afastam dos ensinam entos do Corpo Governante. Não conheço ninguém que faça isso em nossa congregação, e nossos líderes são m uito claros sobre isso.”

As luzes do teto brilhavam na calva bem polida de Berner. Num a paródia virtual de um arguidor intim idante, ele segurou a lapela do casaco com a m ão direita. “Esses líderes estritos têm visitado seu filho todos os dias, não é verdade? Estão ansiosos para se certificar de que ele não m udará de ideia.”

Kevin Henry dem onstrou o prim eiro indício de irritação. Encarou Berner, agarrando-se à beirada do banco de testem unhas e se inclinando um pouco para a frente com o se apenas um a am arra invisível o contivesse. Seu tom de voz, no entanto, perm aneceu controlado. “São hom ens bondosos e decentes. Há sacerdotes de outras igrej as visitando as enferm arias. Meu filho recebe aconselham ento e consolo dos anciãos. Se não fosse assim , m e diria.”

“Não é verdade que, se ele concordasse com a transfusão, seria expulso da com unidade?”

“Desassociado. Mas isso não vai acontecer. Ele não vai m udar de ideia.”

“Ele é ainda tecnicam ente um a criança, sr. Henry, e está sob seus cuidados. Por isso, são as suas ideias que eu desej o m odificar. Ele está tem eroso de cair no ostracism o por não fazer o que os anciãos querem . O único m undo que ele conhece lhe daria as costas por preferir a vida a um a m orte terrível. Será essa um a escolha livre para um j ovem ?”

Kevin Henry parou para pensar. Pela prim eira vez olhou para a esposa. “Se o senhor ficar cinco m inutos com ele verá com o ele é alguém capaz de saber o que se passa a seu redor e de tom ar um a decisão baseada em sua fé.”

“Eu acredito que encontraríam os um rapaz aterrorizado e gravem ente enferm o que está desesperado para obter a aprovação de seus pais. Sr. Henry, o senhor disse a Adam que ele está livre para receber a transfusão caso queira? E que continuaria a am á-lo?”

“Eu disse a ele que o am o.”

“Só isso?”

“É o bastante.”

“O senhor sabe quando as testem unhas de Jeová receberam a ordem de recusar transfusões de sangue?”

“Está no Gênesis. Data da Criação.”

“Data de 1945, sr. Henry, antes era perfeitam ente aceitável. O senhor está satisfeito que, nos tem pos atuais, tenha sido um com itê do Brookly n que decidiu o destino de seu filho?”

Kevin Henry baixou a voz, talvez em sinal de respeito ao assunto ou devido às dificuldades que ele im punha. Mais um a vez incluiu Fiona em sua resposta, havendo calor em seu tom de voz. “O Espírito Santo guia os representantes escolhidos — nós os cham am os de escravos, Meritíssim a —, aj udando-os a descobrir verdades profundas que antes não eram com preendidas.” Voltou-se de novo para Berner e disse com naturalidade: “O Corpo Governante é o canal de com unicação entre Jeová e nós. É sua voz. Se há m udanças nos ensinam entos, é porque Deus só revela seus propósitos aos poucos”.

“Essa voz não tolera m uita dissensão. Neste exem plar de A Sentinela, se diz que o pensam ento independente foi criado por Satã ao com eçar sua rebelião em outubro de 1914, e que tal pensam ento devia ser evitado pelos seguidores. É isso que o senhor está dizendo a Adam , sr. Henry ? Que ele precisa se prevenir contra a influência de Satã?”

“Gostam os de evitar as dissensões e as disputas nos m antendo unidos.” A confiança do sr. Henry estava crescendo. Parecia se dirigir exclusivam ente ao advogado. “O senhor talvez não faça ideia do que significa se subm eter a um a autoridade superior. Precisa entender que fazem os isso por nossa livre e espontânea vontade.”

Havia a sugestão de um sorriso m eio torto no rosto de Mark Berner. Quem sabe pela adm iração por seu adversário. “O senhor disse há pouco ao m eu em inente colega que quando tinha vinte anos sua vida era m uito desregrada. Que o senhor era um doidivanas. É pouco provável, não é m esm o, sr. Henry, que alguns anos antes, com a idade de Adam , o senhor estivesse seguro de seus pensam entos.”

“Ele conheceu a verdade a vida inteira. Eu não tive esse privilégio.”

“E depois, pelo que m e recordo, o senhor disse ter descoberto que a vida era preciosa. Isso se referia à vida de outras pessoas ou apenas à sua?”

“Toda vida é um a dádiva de Deus. Que pode tom á-la de volta.”

“Fácil de dizer, sr. Henry, quando não se trata da sua vida.”

“Mais difícil de dizer quando é a vida do seu próprio filho.”

“Adam escreve poesia. O senhor aprova isso?”

“Não creio que sej a particularm ente relevante para a vida dele.”

“O senhor brigou com ele por causa disso, não foi?”

“Tivem os algum as conversas sérias.”

“A m asturbação é um pecado, sr. Henry ?”

“Sim .”

“E o aborto? A hom ossexualidade?”

“Sim .”

“É nisso que Adam foi ensinado a crer?”

“É o que ele sabe ser verdadeiro.”

“Obrigado, sr. Henry.”

John Tovey se ergueu e, algo ofegante, disse a Fiona que, dado o adiantado da hora, não tinha nenhum a pergunta a fazer ao sr. Henry, m as que cham aria para depor a assistente social, funcionária do serviço de apoio à Vara de Fam ília. Marina Greene era um a m ulher pequena com cabelo cor de areia, que se expressou com frases curtas e precisas. Coisa útil àquela altura da tarde. Adam , ela disse, era m uito inteligente. Conhecia a Bíblia. Conhecia os argum entos. Tinha declarado estar pronto para m orrer por sua fé.

Ele havia dito o seguinte — autorizada pela j uíza, Marina Greene leu em seu caderno de notas: “Tenho ideias próprias. Sou um a pessoa independente de m eus pais. Quaisquer que sej am as ideias deles, estou tom ando decisões por m im m esm o”.

Fiona perguntou à sra. Greene que orientação a corte deveria seguir. Ela respondeu que sua opinião era sim ples e se desculpou por não conhecer os m eandros da lei. O rapaz era inteligente e se exprim ia m uito bem , m as ainda era m uito j ovem . “Um a criança não deveria se m atar por razões religiosas.”

Tanto Berner quanto Grieve abriram m ão de interrogá-la.

Antes de ouvir os argum entos finais, Fiona perm itiu um breve recesso. Todos se levantaram e ela foi rapidam ente para o seu gabinete, bebeu um copo de água sentada à sua m esa, verificou e-m ails e m ensagens de texto. Muito dos dois, m as nada de Jack. Procurou de novo. Não sentia agora tristeza nem raiva, e sim um negrum e interior, um abism o a suas costas que am eaçava aniquilar seu passado. Outra fase. Não parecia possível que a pessoa que ela conhecia m ais intim am ente pudesse ser tão cruel.

Foi um alívio voltar ao tribunal alguns m inutos depois. Quando Berner se pôs de pé, era inevitável que explorasse o argum ento da “com petência de Gillick” — um ponto de referência sobre m enores no Direito da Fam ília e na pediatria. Lorde Scarm an fizera a form ulação e o advogado o citava agora. Um a criança, isto é, um a pessoa com m enos de dezesseis anos, pode dar consentim ento sobre seu tratam ento m édico “se e quando a criança dem onstra suficiente com preensão e inteligência para entender inteiram ente o que lhe é proposto”. Se, defendendo a solicitação do hospital para tratar Adam Henry contra o seu desej o, Berner invocava Gillick naquele m om ento, seu propósito consistia em esvaziar a possibilidade de que Grieve o fizesse em favor dos pais. Chegue prim eiro e estabeleça as regras do j ogo. Ele se valeu de frases curtas e rápidas, sua voz suave de tenor tão clara e precisa com o quando cantava o trágico poem a de Goethe.

Era evidente, disse Berner, que não realizar um a transfusão constituía um a form a de tratam ento. Nenhum dos profissionais que cuidava de Adam duvidava da inteligência dele, de sua extraordinária capacidade verbal, de sua curiosidade e paixão pela leitura. Ele ganhara um concurso de poesia organizado por um j ornal sério e de circulação nacional. Era capaz de recitar longos trechos de um a ode de Horácio. Era sem dúvida um a criança excepcional. O tribunal tinha ouvido a assistente social declarar que se tratava de um rapaz inteligente e bem -falante. Decisivam ente, contudo, o m édico havia acabado de confirm ar que Adam tinha apenas um a vaga noção do que lhe aconteceria se recusasse o sangue. Um a ideia geral, e algo rom ântica, da m orte que o aguardava. Dessa form a, não se podia dizer que ele preenchia as condições estabelecidas por lorde Scarm an. Adam sem a m enor dúvida não entendia de todo o que lhe estava sendo proposto. Com preensivelm ente, a equipe m édica do hospital não desej ava explicar tudo a ele. O profissional de saúde m ais graduado estava em m elhor posição para j ulgar, e sua conclusão era cristalina. Adam não tinha a “com petência de Gillick”. Em segundo lugar, m esm o se a tivesse, e portanto gozasse do direito de concordar com o tratam ento, isso era m uito diferente do direito de recusar um tratam ento capaz de salvar sua vida. Nesse ponto a lei era clara. Ele não tinha autonom ia em tal questão até fazer dezoito anos. Em terceiro lugar, continuou Berner, era óbvio que os riscos de infecção resultantes da transfusão eram m ínim os, enquanto as consequências de não receber a transfusão eram inevitáveis e pavorosas, provavelm ente fatais. Em quarto lugar, não era coincidência que Adam tinha a m esm a fé específica dos pais. Tratava-se de um filho am oroso e devotado que crescera num a atm osfera caracterizada pela crença sincera e fortem ente arraigada de seus pais. As opiniões não convencionais que m antinha sobre os produtos derivados de sangue, com o o m édico sugerira com grande ênfase, não eram suas. Todos nós, sem dúvida, acreditam os em coisas aos dezessete anos que hoj e nos deixariam envergonhados.

Berner fez um resum o rápido. Adam não tinha dezoito anos, não entendia a provação que o aguardava se não recebesse a transfusão, fora indevidam ente influenciado pela seita dentro da qual havia sido criado e estava consciente das consequências negativas caso se afastasse dela. As opiniões das testem unhas de Jeová estavam m uito distantes daquelas que se esperava de pais m odernos e razoáveis.

Quando Mark Berner deu m eia-volta para se sentar, Leslie Grieve j á estava de pé. Em seus prim eiros com entários, feitos perto de Fiona e do lado esquerdo da j uíza, ele tam bém m anifestou o desej o de cham ar a atenção dela para a form ulação de lorde Scarm an. “A existência do direito do paciente de tom ar sua própria decisão pode ser encarada com o um direito hum ano básico, protegido pela legislação pertinente.” Em consequência, a corte deveria se m ostrar extrem am ente relutante em interferir num a decisão sobre tratam ento m édico feita por um a pessoa dotada de evidente inteligência e capacidade de j ulgam ento. Sem dúvida não era cabível querer validar um argum ento com base nos dois ou três m eses que separavam Adam de seus dezoito anos. Num a questão que afetava tão gravem ente o direito hum ano básico de um indivíduo, era inaceitável apelar para a m ágica dos núm eros. Aquele paciente, que repetida e consistentem ente havia deixado claros seus desej os, estava m uito m ais próxim o dos dezoito anos que dos dezessete.

Num esforço de m em ória, Grieve fechou os olhos e citou um trecho da seção 8 da em enda de 1969 à Lei da Fam ília: “O consentim ento de um m enor que atingiu a idade de dezesseis anos a qualquer tratam ento cirúrgico, m édico ou dentário que, na falta de tal consentim ento, constituiria um invasão de sua pessoa, será tão eficaz com o o seria se ele j á houvesse atingido a m aioridade”.

Todos que conheceram Adam , disse Grieve, ficaram im pressionados com a precocidade e a m aturidade dele. “A senhora decerto gostará de saber que ele leu em voz alta alguns de seus poem as para o pessoal da enferm agem . Com grande sucesso.” Ele tinha um a capacidade de raciocínio bem superior à da m aioria dos rapazes de dezessete anos. Era necessário a corte levar em conta a situação com o se ele tivesse nascido alguns m eses antes, quando então seu direito fundam ental estaria assegurado. Com o apoio integral dos pais am orosos, ele deixara clara sua obj eção ao tratam ento e expusera em detalhe os princípios religiosos em que se baseava a recusa.

Grieve fez um a pausa, com o se necessitasse refletir, e depois gesticulou na direção da porta pela qual o m édico deixara a sala do tribunal. Era perfeitam ente com preensível que o sr. Carter detestasse a ideia de não aplicar o tratam ento. Isso apenas com provava a devoção profissional que se esperaria de um a figura tão em inente. Mas tal profissionalism o prej udicava sua avaliação de que Adam não possuía a “com petência de Gillick”. Em últim a análise, não se tratava de um a questão m édica, e sim legal e m oral. Tinha a ver com o direito inalienável de um j ovem . Ele entendia perfeitam ente aonde sua decisão poderia levá-lo: a um a m orte prem atura. Deixara isso claro m uitas vezes. Que ele não soubesse o m odo preciso com o m orreria não im portava. Ninguém que fosse considerado possuidor da “com petência de Gillick” teria pleno conhecim ento desse tipo de inform ação. Na verdade, ninguém tinha. Todos sabíam os que m orreríam os um dia. Nenhum de nós sabia com o. E o sr. Carter j á havia adm itido que a equipe encarregada de tratar de Adam não gostaria de lhe transm itir tal conhecim ento. A “com petência de Gillick” do j ovem derivava de outra coisa, de sua inquestionável com preensão de que a recusa ao tratam ento poderia provocar sua m orte. E Gillick, naturalm ente, tornava sem efeito a questão de sua idade.

Até então a j uíza havia enchido três páginas de anotações. Um a delas, em separado, dizia apenas: “Poesia?”. Sobressaindo em m eio à corrente de depoim entos, havia um a bela im agem — recostado nos travesseiros, um adolescente lia seus versos para um a enferm eira fatigada, que sabia ser necessária em outro lugar, m as era bondosa dem ais para dizer isso a ele.

Fiona havia escrito poesia na idade de Adam Henry, em bora nunca tivesse tido a presunção de ler seus versos em voz alta nem para si própria. Lem brava-se de quartetos ousadam ente sem rim a. Um deles era até sobre um a m orte por afogam ento, o corpo afundando deliciosam ente de costas em m eio aos j uncos de um rio, um a fantasia im provável baseada na pintura de Ofélia feita por Millais diante da qual ela se postara encantada ao fazer um a visita à Tate Gallery. O audacioso poem a constava de um caderno de notas em petição de m iséria, em cuj a capa havia rabiscos em tinta verm elha de penteados desej áveis. Tanto quanto sabia, o caderno estava em casa, no fundo de um a caixa de papelão enfiada em algum canto de um quartinho sem j anelas. Se é que ela ainda podia dizer que tinha um a casa.

Grieve fechou sua intervenção afirm ando que Adam estava m uito perto de fazer dezoito anos que a idade dele não tinha o m enor significado. Ele preenchia as condições estabelecidas por Scarm an e possuía a “com petência de Gillick”. O advogado citou lorde Balcom be: “À m edida que se aproxim am da m aioridade, as crianças vão sendo cada vez m ais capazes de tom ar decisões acerca de seus tratam entos clínicos. Norm alm ente, os m elhores interesses de um m enor de idade suficiente e com capacidade de com preensão serão atendidos se ele tom ar um a decisão inform ada que a corte deve respeitar”. O tribunal não deve j ulgar religiões específicas, lim itando-se a respeitar as m anifestações de fé. Nem deve o tribunal se sentir tentado a entrar no perigoso terreno em que sej a m inado o direito básico de um indivíduo de recusar tratam ento.

Por fim , chegou a vez de Tovey, que foi breve. Ergueu-se com a aj uda da bengala. Com o representava tanto o rapaz quanto Marina Greene, sua guardiã perante a corte, ele se m anteve cuidadosam ente neutro. Os argum entos dos dois lados tinham sido bem apresentados por seus colegas, todas as questões legais relevantes devidam ente suscitadas. A inteligência de Adam não estava em discussão. Seu dom ínio da Bíblia, tal com o entendida e difundida por sua seita, era total. Cum pria considerar que ele tinha quase dezoito anos, m as de fato continuava sendo um m enor. Por conseguinte, dependia inteiram ente da Meritíssim a Juíza decidir o peso que daria aos desej os do rapaz.

Quando o advogado se sentou, fez-se silêncio enquanto Fiona exam inava suas anotações, organizando os pensam entos. Tovey fizera o favor de apontá-los no cam inho de um a decisão. Dirigindo-se a ele, Fiona disse: “Dadas as circunstâncias especiais deste caso, decidi que gostaria de ouvir Adam Henry. Não é o seu conhecim ento das escrituras que m e interessa, e sim sua com preensão da situação em que se encontra e o que deverá confrontar caso eu tom e um a decisão contrária ao hospital. Ele tam bém precisa saber que não está nas m ãos de um a burocracia im pessoal. Vou lhe explicar que caberá a m im a decisão levando em conta seus m elhores interesses”.

Disse ainda que se deslocaria agora na com panhia da sra. Greene até o hospital em Wandsworth e, na presença dela, se sentaria à beira do leito de Adam . Assim , a sessão foi suspensa até a volta de Fiona, quando ela iria proferir sua sentença diante de todos.