A Balada de Adam Henry

Ian McEwan · Capítulo 5 de 5

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A Balada de Adam Henry

Capítulo 5

 

Ela partiu de Newcastle depois de um a sem ana, sentenças proferidas ou suspensas à espera de laudos técnicos, deixando para trás litigantes felizes ou am argurados, alguns dos quais com o parco consolo de poderem recorrer. No caso que descrevera para Charlie no j antar, ela havia concedido a guarda aos avós e perm itido visitas sem anais sob supervisão à m ãe e ao pai, separadam ente, tudo passível de revisão ao fim de seis m eses. Até lá, quem quer que a substituísse teria a vantagem de receber relatórios acerca do bem -estar das crianças, das prom essas dos pais de frequentar um program a de tratam ento de viciados em drogas e do estado m ental da m ãe. A m enininha continuaria em sua escola, um curso elem entar organizado pela Igrej a da Inglaterra, onde era bem conhecida. Fiona considerou exem plar, naquele caso, a conduta das instituições de atendim ento a m enores da cidade.

No final da tarde de sexta-feira, ela disse adeus aos funcionários do tribunal. Na m anhã de sábado, no Leadm an Hall, Pauling encheu o porta-m alas do carro com docum entos acondicionados em caixas de papelão e com as togas dela penduradas em cabides. As bagagens pessoais em pilhadas no banco traseiro e a j uíza instalada na frente, rum aram para Oeste, na direção de Carlisle, passando pelo Ty ne Gap e cruzando a Inglaterra de um lado a outro, as Cheviots à direita e as Pennines à esquerda. Mas os dram as da geologia e da história eram em botados pelo tráfego, por seu volum e, suas rotinas e pelas placas de sinalização rodoviária características das ilhas britânicas.

Enquanto atravessavam Hexham m uito lentam ente, Fiona m antinha o celular sem uso na m ão e, com o fizera durante vários interlúdios ao longo da sem ana, pensava no beij o. Que loucura im pulsiva não ter se afastado! Loucura profissional e social. Em suas recordações, o contato real, carne contra carne, tendia a se prolongar no tem po. Ela então tentava encurtar o m om ento para que voltasse a ser um beij inho inocente nos lábios. Mas o beij inho logo voltava a se inflar, até ela não saber o que ele era, o que havia acontecido ou por quanto tem po ela correra o risco de um a desgraça. Caradoc Ball poderia ter passado pelo corredor a qualquer m om ento. Pior ainda, um de seus convidados, sem as peias da lealdade tribal, poderia tê-la visto e contado a todo m undo. Pauling poderia ter voltado depois de conversar com o m otorista de táxi e a apanhado em flagrante. Nesse caso, a distância sensatam ente construída entre eles, que tornava possível seu trabalho, teria sido destruída.

Com o não era dada a im pulsos irrefletidos, Fiona não entendia seu próprio com portam ento. Deu-se conta de que havia m uito m ais a confrontar em sua m istura de sentim entos confusos, porém , no m om ento, era o horror do que podia ter ocorrido, a transgressão ridícula e vergonhosa da ética profissional, que ocupavam sua m ente. A ignom ínia que poderia ter se abatido sobre ela. Difícil crer que ninguém a vira, que estava abandonando incólum e a cena do crim e. Mais fácil acreditar que a verdade, dura e negra com o um a sem ente am arga, estava prestes a ser revelada: que ela tinha sido observada sem saber. Que agora m esm o, a centenas de quilôm etros de distância, o caso estivesse sendo discutido em Londres. Que em breve ouviria no telefone a voz pouco à vontade de um colega m ais antigo: Ah, Fiona, escute, sinto muito, mas creio que preciso alertá-la de que, hã, de que surgiu um probleminha. E então, esperando por ela no apartam ento da Gray ’s Inn, um a carta form al do investigador do departam ento de reclam ações j udiciais.

Apertou duas teclas para telefonar para o m arido. Fugindo de um beij o, correndo para se proteger sob o m anto de um a m ulher casada de boa reputação, em busca de algum a solidez. Fez a cham ada sem pensar, por puro hábito, quase sem ter consciência da situação atual entre ela e Jack. Quando ouviu seu alô duvidoso, a acústica lhe disse que ele se encontrava na cozinha. O rádio ligado, talvez Poulenc. Nas m anhãs de sábado, em bora acordassem cedo, sem pre faziam , ou costum avam fazer, o desj ej um sem pressa, com vários j ornais em cim a da m esa, a rádio Três tocando baixinho, café e o pain aux raisins com prado na Lam b’s da Conduit Street esquentado no forninho. Ele estaria com o robe de seda estam pado com form as curvas. Barba por fazer, cabelo desgrenhado.

Num tom cuidadosam ente neutro, Jack perguntou se estava tudo bem com ela. Quando Fiona respondeu que sim , ficou surpresa ao ver com o tinha soado norm al. Com eçou a im provisar sem dificuldade, bem no instante em que Pauling, com um suspiro de satisfação, se recordou de um atalho e escapou do tráfego. Perfeitam ente plausível, em se tratando de rotina dom éstica, lem brar Jack de que ela chegaria no fim do m ês, e tam bém natural, ou costum ava ser, sugerir que na noite em que ela voltasse eles deviam j antar fora. Um restaurante próxim o de que gostavam costum ava ter todos os lugares reservados com antecedência. Talvez ele pudesse fazer um a reserva agora. Ele achou um a boa ideia. Ela o ouviu suprim ir a surpresa na voz, m anobrando com cuidado entre a cordialidade e a frieza. Perguntou de novo se ela estava bem . Conhecia Fiona bem dem ais, e obviam ente ela não parecia norm al. Com um a ênfase m aior, ela disse que estava ótim a. Trocaram algum as palavras sobre assuntos de trabalho. A cham ada term inou com um adeus de Jack que soava quase com o um a pergunta.

Mas tinha funcionado. Ela havia se livrado dos devaneios paranoicos para cair na realidade de um com prom isso, de um a data, de um relacionam ento m elhorado. Sentiu-se m ais bem defendida e no todo m ais sensata. Caso tivesse havido algum a queixa, ela j á teria tom ado conhecim ento àquela altura. Tinha sido bom telefonar e dar continuidade àquele m om ento indefinível no café da m anhã. Útil se lem brar de que o m undo nunca era com o ela o im aginava em m om entos de ansiedade. Um a hora depois, quando o carro com eçou a se arrastar pela congestionada A69 para entrar em Carlisle, ela estava enfronhada em docum entos j udiciais.

E foi assim que duas sem anas depois, encerrada a tem porada itinerante e distribuída a Justiça em quatro cidades do Norte, ela se encontrava diante do m arido num canto tranquilo de um restaurante na rua Clerkenwell. Entre os dois um a garrafa de vinho, bebido cautelosam ente. Não devia haver nenhum a onda súbita de intim idade. Mantiveram -se distantes do assunto que poderia destruí-los. Ele se dirigiu a ela de form a delicada e canhestra, com o se Fiona fosse um tipo incom um de bom ba capaz de estourar no m eio de qualquer frase. Ela perguntou a respeito do trabalho dele, o livro sobre Virgílio. Um a apresentação e um a seleção, um m anual para escolas e universidades que, ele com ovedoram ente acreditava, o faria ganhar um dinheirão. Nervosa, ela fez um a pergunta após a outra, consciente de que estava se com portando com o um a entrevistadora. Esperava observá-lo com o se o fizesse pela prim eira vez, captar o que havia de estranho nele com o acontecera m uitos anos antes ao se apaixonar por ele. Não era fácil. Sua voz, seus traços eram tão fam iliares com o os dela próprios. Seu rosto tinha um a expressão áspera, aflita. Atraente, é claro, m as não para ela naquele instante. Fiona esperava que a m ão dele, posta sobre a m esa perto do copo, não estivesse prestes a pegar a sua.

Lá para o fim da refeição, quando haviam esgotado os tópicos m ais seguros, houve um silêncio am eaçador. Apetites saciados, as sobrem esas e m etade do vinho perm aneciam intocados. A recrim inação m útua e não m anifestada os perturbava. Na m ente dela, ainda a aventura despudorada de Jack; na dele, ela supunha, o senso exagerado de ofensa de Fiona. Num tom forçado, ele com eçou a relatar a palestra sobre geologia a que com parecera na noite passada. O palestrante havia descrito com o a sequência de cam adas rochosas sedim entares pode ser lida com o um livro que conta a história da Terra, perm itindo-se algum as especulações no final. Cem m ilhões de anos no futuro, quando a m aior parte dos oceanos tiver afundado na crosta terrestre e não houver suficiente dióxido de carbono na atm osfera para sustentar as plantas, a superfície do planeta tendo se transform ado num deserto rochoso e sem vida, que provas teria de nossa civilização um geólogo que viesse do espaço? Algum as dezenas de centím etros abaixo da superfície, haveria um a grossa linha negra que nos separaria de tudo o que aconteceu antes. Condensadas nessa cam ada de fuligem de quinze centím etros, estariam nossas cidades, veículos, estradas, pontes, arm as. Estariam tam bém todos os tipos de substâncias quím icas não encontradas no registro geológico anterior. O concreto e os tij olos se desintegrariam tão facilm ente quanto o calcário, nossos aços m ais resistentes se transm udariam em m anchas de ferro pulverizado. Um exam e m icroscópico m ais cuidadoso poderia revelar um a preponderância de pólen das m onótonas planícies cobertas de gram íneas que criam os para alim entar rebanhos gigantescos. Com sorte, o geólogo poderia encontrar ossos fossilizados, até m esm o os nossos. Mas os anim ais, incluindo aí todos os peixes, m al corresponderiam a um décim o do peso de todos os carneiros e vacas. O visitante espacial term inaria concluindo que estava observando o com eço de um a extinção em m assa na qual a variedade da vida tinha com eçado a se estreitar.

Jack vinha falando havia cinco m inutos. Estava oprim indo-a com o peso daquele tem po sem sentido. O deserto inim aginável de anos e o fim inevitável o anim avam . Mas não a ela. Sentiu-se invadida por um sentim ento de desolação que pesava sobre seus om bros e descia até as pernas. Pegou o guardanapo do colo e o depositou sobre a m esa num gesto de rendição, levantando-se a seguir.

Ele estava dizendo, com o se aquilo o deixasse perplexo: “É assim que estam os assinando nosso nom e no registro geológico”.

Ela disse: “Acho que está na hora de pedirm os a conta”, e cam inhou rapidam ente através do restaurante até o toalete, onde se postou na frente do espelho, olhos fechados, pente na m ão no caso de alguém entrar, respirando fundo e devagar algum as vezes.

O degelo não ocorreu de m odo rápido nem linear. De início foi um alívio não ter de se evitarem conscientem ente no apartam ento, não com petirem com toda frieza para saber quem era m ais cortês naquela form a sufocante que tinham adotado. Passaram a fazer as refeições j untos, com eçaram a aceitar convites para j antar com am igos, conversaram — principalm ente sobre assuntos de trabalho. Mas ele ainda dorm ia no quarto de hóspedes e, quando um a sobrinha de dezenove anos foi passar uns dias lá, ele voltou a se instalar no sofá da sala de visitas.

Fim de outubro. Os relógios foram atrasados, m arcando a últim a etapa de um ano exausto, e chegou a escuridão. Durante algum as poucas sem anas, o clim a de estagnação voltou a im perar entre ela e Jack, quase tão sufocante com o antes. Mas ela estava ocupada e cansada dem ais à noite para iniciar o tipo de conversa exigente que poderia levá-los a um novo estágio. Além da carga norm al de casos no Strand, ela estava presidindo um com itê encarregado de estudar novos procedim entos nos tribunais e participava de outro que devia responder a um relatório do governo a respeito da reform a da legislação sobre a fam ília. Se lhe sobrava algum a energia depois do j antar, ela se exercitava sozinha ao piano, preparando-se para os ensaios com Mark Berner. Jack tam bém estava ocupado, substituindo um colega enferm o na universidade e, em casa, absorto na redação da longa introdução aos poem as selecionados de Virgílio.

O advogado incum bido de organizar as festas de Natal no Great Hall inform ara que eles haviam sido escolhidos para abrir o concerto. Tocariam no m áxim o por vinte m inutos, deixando um a m argem de outros cinco m inutos para o bis. Tem po suficiente para a seleção que haviam feito das canções do ciclo de Berlioz Les nuits d’été, além de um a de Mahler, “Estou Perdido para o Mundo”, que fazia parte do Rückert-Lieder. O coral da Gray ’s Inn cantaria algum as peças de Monteverdi e Bach, seguindo-se um quarteto de cordas que interpretaria Hay dn. Um a significativa m inoria dos m em bros do Judiciário que m oravam na Gray ’s Inn passava m uitas noites por ano ouvindo m úsica de câm ara com grande concentração, as testas franzidas, no Wigm ore Hall de Mary lebone. Dom inavam o repertório. Dizia-se que reconheciam um a nota errada antes m esm o que ela fosse tocada. No concerto natalino, em bora se servisse vinho antes e a atm osfera geral, ao m enos na aparência, fosse am istosa, os padrões eram punitivam ente elevados para um a exibição de am adores. Às vezes Fiona acordava antes de o sol raiar e se perguntava se dessa vez estava em condições de enfrentar o desafio, se havia algum m odo de pular fora. Achava que lhe faltava a concentração necessária, e o Mahler era difícil. Tão languidam ente lento e bem equilibrado. Ela ficaria exposta. E o desej o germ ânico de não ser notada a tornava desconfortável. Mark, porém , estava ansioso para se exibir. Dois anos antes seu casam ento havia fracassado. Agora, segundo Sherwood Runcie, havia um a m ulher em sua vida. Fiona desconfiava que ela estaria na plateia e Mark desej ava ardentem ente im pressioná-la. Tinha até pedido a Fiona que decorasse as canções, m as isso, ela lhe disse, estava além de sua capacidade. Apenas as três ou quatro pequenas peças para o bis estavam gravadas em sua m em ória.

No final de outubro, em m eio à correspondência entregue pela m anhã no tribunal, ela viu o envelope azul que lhe era tão fam iliar. Pauling se encontrava no gabinete naquela hora. Para ocultar seus sentim entos, um a m escla de excitação e vago tem or, ela levou a carta para perto da j anela e fingiu que observava algum a coisa lá em baixo no pátio. Depois que Pauling saiu, tirou do envelope um a única página, dobrada em quatro e rasgada em baixo, na qual constava um poem a inacabado. O título em letras m aiúsculas e sublinhado duas vezes: “A BALADA DE ADAM HENRY”. Apesar da caligrafia m iúda, o longo poem a ocupava a página inteira. Nenhum a carta o acom panhava. Ela deu um a olhada no prim eiro verso, não conseguiu se interessar, pôs a página de lado. Tinha um caso difícil dentro de m eia hora, um a série de solicitações e contrassolicitações conj ugais que sem dúvida absorveria duas sem anas de sua vida. Cada parte tencionava perm anecer extrem am ente rica à custa da outra. Não era um m om ento oportuno para ler poesia.

Dois dias se passaram antes que voltasse a abrir o envelope. Eram dez da noite. Jack estava assistindo a outra palestra sobre as cam adas sedim entares, ou assim ele disse, e ela preferiu acreditar. Instalou-se na chaise longue e abriu a página no colo. Pareciam versos m edíocres, desses vistos em cartões de aniversário. Fiona então se forçou para adotar um estado de espírito m ais acolhedor. Afinal de contas, tratava-se de um a balada e ele só tinha dezoito anos.

A BALADA DE ADAM HENRY

Ergui minha cruz de madeira e a arrastei junto ao rio.

Eu era jovem e tolo, e perturbado pela ideia

De que a penitência era uma asneira e os encargos coisa de idiotas.

Mas aos domingos me diziam para seguir todas as regras.

As farpas feriam meu ombro, aquela cruz pesava mais que chumbo,

Minha vida de devoto era estreita, e quase morri.

O rio corria alegre e sorridente, a luz do sol dançando a seu redor,

Mas eu devia seguir meu caminho, olhos postos no chão.

Então um peixe pulou da água com um arco-íris nas escamas.

Pérolas de água saltitavam formando colares prateados.

“Jogue a cruz na água se você quer se libertar!”

Por isso, à sombra da árvore de Judas, afoguei no rio minha carga.

Num êxtase maravilhoso me ajoelhei na margem do rio

Enquanto, apoiada em meu ombro, ela me dava o beijo mais doce.

Mas mergulhou rumo ao fundo gélido onde nunca será encontrada,

E meus olhos se encheram de lágrimas até que ouvi o som das trombetas.

E Jesus se pôs de pé sobre as águas e me disse:

“Aquele peixe era a voz de Satã, e você deve pagar o preço.

O beijo dela era o beijo de Judas e traiu meu nome.

Morte àquele

Morte àquele o quê? As últim as palavras do verso final estavam perdidas em m eio a um novelo de linhas entrecruzadas que davam voltas em torno de reconsiderações, palavras cortadas e recolocadas, variantes com pontos de interrogação. Em vez de tentar decifrar aquela m ixórdia, ela releu o poem a e depois se reclinou, os olhos fechados. Ficou sentida por Adam estar com raiva dela, pintando-a com o Satã, e com eçou a com por em devaneio um a carta para ele, sabendo que nunca a enviaria pelo correio ou m esm o a escreveria. Seu im pulso era aquietá-lo ao m esm o tem po que se j ustificava. Recorreu a frases prontas. Tive de mandá-lo embora, Era o que melhor servia a seus interesses, Você tem toda uma vida jovem pela frente. Depois, com m aior coerência: Mesmo se tivéssemos outro quarto, você não poderia ser nosso inquilino. Uma coisa dessas não é aceitável para uma juíza. Acrescentou: Adam, não sou Judas. Talvez uma velha truta… Essa últim a frase para dar um toque de leveza à sua firm e intenção de se autoj ustificar.

O “beij o m ais doce” dela tinha sido irresponsável, e Fiona não escapara ilesa dele, não no que dizia respeito a Adam . Mas era um gesto de pura bondade não lhe responder. Ele voltaria a escrever, apareceria à sua porta, ela precisaria enxotá-lo de novo. Dobrou a página outra vez e a recolocou no envelope, levando-o para o quarto e guardando na gaveta da m esinha de cabeceira. Em breve ele superaria tudo. Tam bém devia ter sido tragado de volta para a religião, ou então Judas, Jesus Cristo e tudo o m ais eram apenas recursos poéticos usados para dram atizar o pavoroso com portam ento dela ao beij á-lo e depois m andá-lo em bora num táxi. Sej a lá o que fosse, Adam Henry provavelm ente teria grande sucesso nos exam es de recuperação e iria para um a boa universidade. Ela esm aeceria nos pensam entos dele, se tornaria um a figura m enor em sua educação sentim ental.

 

Eles estavam num pequeno côm odo sem m obília no porão do prédio onde Mark Berner m orava. Ninguém se lem brava com o um piano de arm ário Grotrian-Steinweg tinha sido posto lá, ninguém fora buscá-lo em vinte e cinco anos, ninguém tencionava m udá-lo de lugar. Havia arranhões e m arcas de cigarros no tam po, m as o m ecanism o funcionava bem e o som era aveludado. Do lado de fora, a tem peratura estava abaixo de zero, com os prim eiros centím etros de neve da estação dando um toque pitoresco à Gray ’s Inn Square. Ali, que cham avam de sala de ensaios, não havia aquecedores, m as certos canos, dos m uitos que corriam ao longo de um a parede e datavam dos prim órdios da era vitoriana, em itiam um calor débil porém constante que m antinha o instrum ento afinado. O assoalho era coberto por um tecido com estrias que lem brava veludo, instalado na década de 1960; ele tinha sido colado ao cim ento e agora, além de exibir m uitas m anchas de café, se erguia aqui e ali rebeldem ente, provocando tropeções. A ilum inação provinha de um a resplandecente lâm pada de 150 watts atarraxada no teto baixo. Há m uito Mark falava que ia instalar um a lum inária. Além de um a estante para partituras e do banco do piano, a única m obília adicional era um a frágil cadeira de cozinha na qual eram em pilhados casacos e cachecóis.

Fiona estava sentada diante do teclado, as m ãos entrelaçadas e postas sobre o colo para se aquecerem , estudando a partitura, Les nuits d’été num arranj o para piano e tenor. Em algum canto de sua sala de visitas estaria o velho disco de vinil de Kiri Te Kanawa. Não o via fazia anos. E não os aj udaria agora. Precisavam urgentem ente trabalhar na peça porque até então só haviam feito dois ensaios. Mas Mark estivera no tribunal no dia anterior e continuava irritado, precisando dizer a ela a razão. E o que ele pensava fazer no futuro, pois estava deixando a profissão. Já bastava. Era triste dem ais, idiotice dem ais, pondo a perder m uitas vidas cheias de esperança. Um a velha e vã am eaça, m as, sentada no banco e tiritando, ela se obrigou a ouvi-lo. Mesm o assim , não podia deixar de olhar para a abertura, a “Villanelle”, os acordes se repetindo suavem ente, as colcheias pulsando em staccato, im aginando a doce m elodia ou criando suas próprias versões do prim eiro verso de Gautier: Quando chega a nova estação, quando o frio se foi…

O caso de Berner tinha a ver com quatro hom ens ainda j ovens brigando do lado de fora de um pub perto da Ponte da Torre com outros quatro com quem haviam se encontrado por acaso. Os oito tinham bebido. Só os quatro prim eiros foram presos e indiciados. O j úri havia decidido que eles eram culpados de provocar ferim entos graves intencionalm ente, aceitando o argum ento do prom otor de que tinham agido em conj unto, devendo assim receber igual punição independentem ente do que cada um fizera. Estavam todos no m esm o barco. Depois do veredito, anunciado um a sem ana antes da sentença, o j uiz em Southwark, Christopher Cranham , tinha advertido os quatro de que deveriam esperar longas condenações à prisão. A essa altura, Mark Berner foi cham ado pelos parentes aflitos de um dos quatro, Way ne Gallagher. Graças a um a cotização entre os m em bros da fam ília e am igos, com plem entada por um a inteligente cam panha nas redes sociais, conseguiram j untar as vinte m il libras necessárias. Tinham a esperança de que um advogado de renom e poderia obter um a m itigação da pena antes de Gallagher ser sentenciado. Um aconselham ento j urídico perfeitam ente correto oferecido pelo Estado foi recusado, em bora o advogado original tivesse sido m antido.

O cliente de Berner tinha vinte e três anos e era de Dalston, um hom em j ovem e algo sonhador cuj o principal defeito era a passividade. E a incapacidade de com parecer aos encontros m arcados. Sua m ãe era alcoólatra e viciada em drogas; o pai, com problem as sem elhantes, praticam ente esteve ausente na infância de Way ne, m arcada pelo caos e pelo abandono. Ele am ava a m ãe e, segundo insistia, ela o am ava. Ela nunca havia batido nele. Passou a m aior parte da adolescência tom ando conta da m ãe, faltando m uito à escola. Saiu de casa com dezesseis anos, trabalhou em em pregos de baixo nível — num a fábrica de depenar frangos, com o trabalhador braçal, num arm azém , enfiando anúncios em caixas de correio. Cinco anos antes, com dezoito, fora inj ustam ente acusado de estupro por um a m oça, ficou detido num a prisão para j ovens durante algum as sem anas e depois ganhou um a tornozeleira eletrônica que o obrigou a não sair de casa à noite por seis m eses. A troca de textos nos celulares oferecia boas provas de que o sexo havia sido consensual, m as a polícia se recusou a investigar. Tinham m etas a alcançar em casos de estupro. Gallagher era o tipo perfeito para eles. No prim eiro dia do j ulgam ento, o testem unho arrasador da m elhor am iga da acusadora fez com que o caso fosse encerrado. A suposta vítim a pretendia receber um a com pensação financeira do program a de assistência do governo. Queria com prar um novo Xbox. Passara um a m ensagem a um a am iga anunciando sua intenção. O prom otor foi visto atirando a peruca no chão e resm ungando: “Garota im becil”.

“Outra m ancha em seu registro crim inal”, disse Berner, “foi que, quando Gallagher tinha dezesseis anos, arrancou o capacete de um policial. Um a brincadeira idiota. Mas lá ficou anotado com o ‘agressão a policial’.”

A primavera chegou, minha adorada. É o mês abençoado dos que se amam.

O advogado estava próxim o do cotovelo esquerdo de Fiona, em frente à estante de partituras. De j eans preto e j usto, além de um suéter tam bém preto de gola olím pica, ele a fazia lem brar um beatnik antiquado. Im pressão só m odificada pelos óculos de leitura presos por um cordão em volta do pescoço.

“Sabe, quando Cranham disse àqueles rapazes o que eles deviam esperar, dois deles falaram que queriam com eçar a cum prir im ediatam ente sua pena de prisão. Mansos com o ovelhas, perus fazendo fila para entrar no forno. Portanto Way ne Gallagher teve de ir com eles em bora quisesse passar m ais um a sem ana com sua com panheira. Ela havia acabado de ter um bebê. Por isso eu precisei viaj ar para um lugar horroroso para lá da área leste de Londres a fim de vê-lo. Tham esm ead.”

Fiona virou a página da partitura. “Já estive lá”, ela disse. “Há coisas piores.”

Venha pois para essa margem coberta de musgo, aqui falaremos do nosso maravilhoso amor…

“Pense bem ”, Berner continuou. “Quatro garotões de Londres — Gallagher, Quinn, O’Rourke, Kelly. Terceira ou quarta geração de irlandeses. Sotaques londrinos. Todos estudaram na m esm a escola. Escola pública m as bem razoável. O policial viu o nom e deles e decidiu que eram arruaceiros. Nem se deu ao trabalho de ir atrás dos outros quatro. Por isso os prom otores adotaram a tese da ação conj unta, que eles usam para quadrilhas. Coisa sim ples. Um belo trabalhinho daqueles preguiçosos.”

“Mark”, ela m urm urou, “precisam os trabalhar.”

“Estou quase acabando.”

Com o se viu depois, a briga ocorreu diante de duas câm eras de segurança.

“Os ângulos eram perfeitos. Deu para ver todo m undo. E em cores decentes. Extraordinariam ente nítido. Martin Scorsese não faria m elhor.”

Berner teve quatro dias para se inteirar do caso, passar e repassar o DVD e m em orizar os m ovim entos rápidos de um a briga de oito m inutos film ada de duas posições distintas, guardando de cor cada passo de seu cliente e dos outros sete. Observou o prim eiro contato dos hom ens na calçada larga entre um a loj a fechada com tábuas e um telefone público, um a troca verbal raivosa, alguns em purrões, peitos estufados, fanfarronice m asculina, o grupo am orfo indo para lá e para cá, em certo m om ento saindo da calçada e indo para o m eio da rua. Um a m ão pegou um antebraço, a palm a de outra em purrou um om bro. Então Way ne Gallagher, que estava atrás de seus com panheiros, levantou um braço e, infelizm ente para ele, desferiu o prim eiro e logo depois o segundo golpe. Mas seu punho estava alto dem ais, ele se encontrava m uito atrás, seus m ovim entos foram dificultados pela lata de cervej a na outra m ão. Seus golpes foram ineficazes, e o suj eito que ele atacou m al se deu conta do que tinha acontecido. Os grupos então se dividiram desordenadam ente em dois, e Gallagher, ainda longe do centro da briga, atirou sua lata de cervej a. Um arrem esso feito sem levantar o braço acim a da cabeça, e o suposto alvo só precisou lim par um as gotas de cervej a da cam isa. Mas, indo à forra, um dos outros quatro contornou o grupo e acertou um soco poderoso na cara de Gallagher, cortando-lhe o lábio e pondo fim ao envolvim ento dele. Gallagher ficou parado, tonto, e se afastou da briga e do cam po de visão das câm eras.

A briga continuou sem ele. Um de seus colegas de escola, O’Rourke, deu um passo à frente e derrubou no chão o suj eito que socara Gallagher. Tão logo ele caiu, outro am igo, Kelly, fraturou sua m andíbula com um pontapé. Meio m inuto depois, outro hom em foi ao chão, dessa vez chutado por Quinn, que abriu um dos lados do rosto do adversário. Quando a polícia chegou, o suj eito que havia dado um soco em Gallagher se levantou e saiu correndo, foi se esconder no apartam ento de sua nam orada. Ele tinha m edo de ser preso e perder o em prego.

Fiona olhou para o relógio. “Mark…”

“Estou quase acabando, Meritíssim a. O im portante é que m eu cliente ficou lá esperando pela polícia. O rosto coberto de sangue. Tão culpado de agressão quanto vítim a de agressão etc. e tal. Ossos quebrados, portanto se trata de um caso de ferim ento grave causado intencionalm ente. A polícia indiciou os quatro com base em vários artigos do código, m as no tribunal a prom otoria enfatizou a iniciativa conj unta e o consequente agravam ento da pena, que vai de cinco a nove anos. A história de sem pre. Meu cliente não participou da violência. Ia ser sentenciado por crim es que outros com eteram e pelos quais nem havia sido indiciado. Ele se declarou não culpado. Devia ter adm itido a participação em perturbação da ordem , m as eu não estava lá para aconselhá-lo. Um advogado público deveria ter m ostrado ao j úri a fotografia que a polícia tirou de seu rosto ensanguentado. De qualquer m odo, o suj eito com a m andíbula fraturada se recusou a depor com o vítim a. Depôs apenas com o testem unha de acusação. Disse ao j uiz que não entendia todo aquele estardalhaço. Não havia precisado de tratam ento, tinha viaj ado de férias para a Espanha dois dias depois da briga. Nos dois prim eiros dias foi obrigado a tom ar vodca de canudinho. Fim da história — essas foram suas palavras, é o que consta na transcrição.”

Continuando a ouvir, ela abriu os dedos form ando um acorde m as não o tocou. Voltemos para casa, carregados de morangos silvestres.

“Obviam ente, eu não podia fazer nada sobre o veredito do j úri. Falei durante setenta e cinco m inutos, tentando separar Way ne do resto, tentando baixar o nível do indiciam ento para um patam ar de três a cinco anos de prisão. Defendi tam bém com m uito vigor a tese de que o Judiciário lhe devia seis m eses de liberdade devido à falsa acusação de estupro. Com isso ele receberia um a punição m as obteria a suspensão da pena de detenção, que era tudo o que m erecia por causa da sua im becilidade. Os outros três advogados falaram por dez m inutos em defesa de seus clientes. Cranham fez um resum o. Filho da m ãe preguiçoso. Graças a Deus aceitou baixar o nível da condenação para aquele que eu havia pedido, m as não abandonou a tese da iniciativa com um e esqueceu de se m anifestar a respeito da questão que eu havia suscitado, sobre o tem po que o Judiciário devia ao m eu cliente. Dois anos e m eio para todos. Preguiçoso e cruel. Mas, na galeria, os parentes dos outros três choravam de alívio. Estavam esperando um m ínim o de cinco anos. Acho que fiz um favor a eles.”

Fiona disse: “O j uiz se valeu da sua faculdade de reduzir o nível de indiciam ento. Considere-se um hom em de sorte”.

“Não é disso que se trata, Fiona.”

“Vam os com eçar. Tem os m enos de um a hora.”

“Escute até o fim . Esse é o m eu discurso de pedido de dem issão. Todos aqueles suj eitos tinham um em prego. Poxa vida, pagavam im postos! Meu cliente não feriu ninguém . À luz de sua história pregressa, ele vinha contrariando todas as probabilidades e se revelando um pai que cuidava do filho. Kelly era técnico de um tim e de futebol j uvenil nas horas vagas. O’Rourke trabalhava nos fins de sem ana num a instituição de am paro a vítim as da fibrose cística. Não se tratou de um ataque a transeuntes inocentes. Foi um a briga do lado de fora de um pub.”

Ela levantou os olhos da partitura. “Um a fratura de m andíbula?”

“Tudo bem . Um a briga. Entre adultos que sabiam o que faziam . De que serve encher as prisões com esse tipo de gente? Gallagher deu dois socos inofensivos e atirou um a lata de cervej a vazia. Dois anos e m eio. A grave condenação por crim es pelos quais nem foi indiciado. Está indo para um a prisão especial de j ovens, você sabe, dentro do presídio de Belm arsh. Já estive lá algum as vezes. O site diz que eles têm um a ‘academ ia de ensino’. Mentira das boas! Tive clientes que ficavam dentro da cela vinte e três horas por dia. Os cursos são cancelados o tem po todo. Dizem que falta pessoal. Cranham , com seu cansaço fingido, querendo dar a im pressão de que é irritadiço dem ais para ouvir qualquer um . Não liga a m ínim a para o que pode acontecer com esses rapazes! Jogados naqueles infernos, se tornando am argos, aprendendo a ser crim inosos. Sabe qual foi o m eu m aior erro?”

“Qual?”

“Tentei caracterizar o caso com o de bebedeira e ânim os exaltados. A violência foi consensual. ‘Se esses quatro senhores fossem m em bros do Bullingdon Club da universidade de Oxford, não estariam aqui à sua frente, Meritíssim o.’ Com um pressentim ento horrível, quando voltei para casa, pesquisei quem era Cranham no Who’s Who. Arrisque um palpite.”

“Ah, m eu Deus, Mark. Você está precisando de férias.”

“Abra os olhos, Fiona. É a m erda da luta de classes.”

“E na Vara de Fam ília é só cham panhe e fraises des bois.”

Sem esperar m ais, ela com eçou a tocar os dez com passos da introdução, os acordes suavem ente insistentes. Do canto do olho, viu que ele punha os óculos de leitura. E então a bonita voz de tenor, obedecendo à instrução dolce do com positor, se fez ouvir com doçura.

Quand viendra la saison nouvelle,

Quand auront disparu les froids…

Por cinquenta e cinco m inutos não pensaram um só m inuto no direito.

 

Em dezem bro, no dia do concerto, ela chegou em casa, de volta do tribunal, às seis da tarde, apressada para tom ar um banho e m udar de roupa. Ouviu Jack na cozinha e lhe deu um oi a cam inho do quarto. Curvado diante da geladeira, ele respondeu com um grunhido. Quarenta m inutos depois ela apareceu no corredor num vestido de seda preta e sapatos de salto alto de verniz preto, os quais lhe garantiriam um a boa alavanca para trabalhar os pedais. Usava no pescoço um a corrente sim ples de prata. O perfum e era Rive Gauche. Do hi-fi raram ente usado da sala de visitas, veio o som de m úsica para piano, um velho disco de Keith Jarrett, Facing You. A prim eira m úsica. Ela parou do lado de fora do quarto para ouvir. Fazia m uito tem po que não ouvia a m elodia hesitante e só revelada em parte. Tinha se esquecido de com o aos poucos a m elodia ganhava confiança e se tornava subitam ente viva à m edida que a m ão esquerda m ergulhava num boogie estranham ente m odificado, cada vez m ais potente, im possível de ser freado com o um a locom otiva a vapor em aceleração. Só um m úsico com form ação clássica, com o Jarrett, seria capaz de fazer com que cada m ão fosse tão independente da outra.

Jack estava lhe enviando um a m ensagem , pois se tratava de um dos três ou quatro álbuns que serviram de fundo m usical no início do relacionam ento deles. Naqueles dias, depois dos exam es finais, depois da encenação de Antônio e Cleópatra só por m ulheres, quando ele a persuadiu a passar um a noite, e m ais tarde dezenas delas, no quarto sob o beiral do telhado com a j anelinha que dava para o leste. Quando ela entendeu que o êxtase sexual era m ais que um a expressão exagerada. Quando, pela prim eira vez desde os seus sete anos, gritou de prazer. Ela havia caído de costas num espaço rem oto e desabitado, e m ais tarde, lado a lado na cam a, os lençóis os cobrindo só até a cintura com o nas poses dos artistas de cinem a depois de fazerem sexo, riam da barulheira que ela havia feito. Por sorte, não havia ninguém no apartam ento de baixo. Jack, com seu j eito controlado e cabeleira com prida, disse que era o m aior elogio que ele j á havia recebido. Ela lhe disse que não conseguia im aginar com o iria recobrar suas forças, na espinha, nos ossos, para fazer aquilo de novo. Se é que queria voltar viva. Mas o fez, e com frequência. Era j ovem .

Nessa época, quando não estavam j untos na cam a, ele procurava seduzi-la ainda m ais através do j azz. Gostava de vê-la tocar, porém queria afastá-la à força da tirania das notações rígidas e dos gênios havia m uito falecidos. Punha para ela ouvir “Round Midnight”, de Thelonious Monk, e lhe deu a partitura. Não era difícil de interpretar. Mas a versão dela, suave e sem acentos, soava com o um a peça m edíocre de Debussy. Tudo bem , Jack dizia. Os grandes m estres do j azz adoravam Debussy e aprendiam com ele. Fiona ouvia outra vez, persistia, tocava o que se encontrava à sua frente, m as aquilo não era j azz. Não havia pulsação, nenhum sincopado, nenhum a liberdade, os dedos sem vida própria seguindo obedientem ente a m arcação dos com passos e as notas tal com o escritas. Por isso ela estava estudando direito, disse a seu am ante. Respeito pelas regras.

Fiona desistiu, m as de fato aprendeu a ouvir, e Jarrett foi o pianista que m ais adm irou. Levou Jack para ouvi-lo no Coliseu de Rom a. A facilidade técnica, o j orro espontâneo de invenção lírica tão copioso quanto o de Mozart, e lá estava ele depois de tantos anos ainda a fazendo parar e lem brar com o outrora ela e Jack haviam se divertido j untos. A m úsica fora artisticam ente escolhida.

Seguiu pelo corredor e parou de novo na entrada da sala de visitas. Ele estivera ocupado. Dois abaj ures com lâm padas havia m uito queim adas estavam por fim acesos. Várias velas espalhadas pela sala. As cortinas cerradas ocultando a chuva fina da noite de inverno e, pela prim eira vez em m ais de um ano, um fogo decentem ente preparado na lareira, com lenha além do carvão. Jack estava a postos com um a garrafa de cham panhe na m ão. À sua frente, num a m esa baixa, um prato de presunto, azeitonas e queij o.

Ele vestia um terno preto e cam isa branca sem gravata. Ainda esbelto. Aproxim ou-se, entregou-lhe um a taça de cham panhe flute e a encheu, servindo-se depois. Manteve um a expressão séria enquanto erguiam as taças e as faziam tilintar.

“Não tem os m uito tem po.”

Ela entendeu que ele se referia ao fato de que, em breve, deveriam sair e ir cam inhando até o Great Hall. Loucura beber antes de um concerto, m as ela não ligou. Tom ou um segundo gole substancial e o seguiu até perto do fogo. Ele lhe ofereceu o prato, Fiona pegou um pedaço de parm esão e cada qual ficou num lado da lareira, apoiando-se na cornij a. Com o dois enfeites enorm es, ela pensou.

Ele disse: “Quem sabe quanto tem po tem os. Não m uitos anos. Ou voltam os a viver outra vez, a realm ente viver, ou entregam os os pontos e aceitam os que vai ser um a droga daqui até o fim ”.

O velho tem a dele. Carpe diem. Ela ergueu a taça e disse em tom solene: “Ao nosso reviver”.

Viu a ligeira m udança no sem blante de Jack. Alívio e, por trás disso, algo m ais intenso.

Jack reencheu a taça dela. “Por falar nisso, seu vestido é fabuloso. Você está m uito bonita.”

“Obrigada.”

Olharam -se no fundo dos olhos até não haver m ais nada a fazer senão avançarem um na direção do outro e se beij arem . Beij aram -se de novo. A m ão dele pousou de leve na parte de baixo das costas de Fiona sem descer até a coxa, com o ele costum ava fazer. Estava avançando por etapas, e sua delicadeza a tocou. Se não estivessem suj eitos a um grande dever m usical e social, ela não tinha dúvida sobre o que se seguiria àquele m om ento de distensão. Mas a partitura estava atrás dela na chaise longue e eles estavam obrigados a se m anter vestidos da cabeça aos pés. Por isso trocaram um abraço apertado e se beij aram m ais um a vez; voltando a se separar, pegaram as taças, as tocaram em silêncio e beberam .

Ele tam pou a garrafa de cham panhe com um aparelhinho engenhoso, dotado de m ola, que ela lhe dera fazia tem po no Natal. “Para depois”, Jack disse, e am bos riram .

Pegaram os casacos e saíram . Para se equilibrar nos saltos altos, Fiona cam inhou apoiada no braço do m arido e sob o guarda-chuva dele, m antido galantem ente sobre a cabeça dela.

“Você é que é a artista”, ele disse. “Você é quem está de vestido de seda.”

A azáfam a de conversas e risadas anunciou a presença de uns cento e cinquenta espectadores, cada qual com um copo de vinho na m ão. As cadeiras haviam sido dispostas, porém ninguém se sentara ainda, o Fazioli e um a estante m usical aguardando no palco. Eram todos m oradores da região, m em bros do Judiciário, a m aior parte da vida profissional e social dela reunida num único lugar. Por m ais de trinta anos ela havia cooperado ou se confrontado com dezenas de pessoas que via ali no salão. Vários m agistrados em inentes, m uitos de fora, da Lincoln’s Inn, do Inner Tem ple ou do Middle Tem ple — o próprio lorde que presidia o Judiciário, alguns m em bros do Tribunal de Recursos, dois j uízes da Corte Suprem a, o prom otor geral, uns vinte advogados fam osos. Os executivos da lei, que decidiam a sorte das pessoas e privavam cidadãos de sua liberdade, tinham desenvolvido um senso de hum or peculiar e paixão pelas conversas sobre assuntos profissionais. O barulho era ensurdecedor. Em poucos m inutos ela e Jack se perderam de vista. Alguém se aproxim ara e pedira a aj uda dele com algum a frase em latim . Ela foi atraída para um grupo que fofocava sobre um am igo excêntrico do presidente da Vara Cível, a segunda m aior autoridade j udiciária do país. Ela nem precisava se m over de onde estava. Os am igos vinham abraçá-la e lhe desej ar boa sorte, outros apertavam sua m ão. Tinha sido um golpe de gênio do com itê de advogados da Gray ’s Inn perm itir que os concertos fossem precedidos de um a vasta reunião social. Vinho, Fiona esperava, poderia m itigar as faculdades críticas dos frequentadores assíduos do Wigm ore Hall.

Quando um garçom se aproxim ou com um a bandej a de prata, ela estava se sentindo bem dem ais para recusar. Ao pegar um a taça, Mark Berner surgiu em sua linha de visão, a uns quinze m etros de distância e com um as cem pessoas entre eles, sacudindo um dedo em sinal de proibição. Claro que ele tinha razão. Ela ergueu a taça na direção dele e tom ou um pequeno gole. Um am igo, valoroso m agistrado, levou-a para lhe apresentar um advogado “brilhante” que por acaso era seu sobrinho. Observada pelo tio orgulhoso, ela fez perguntas solícitas a um j ovem m agricela com um a gagueira dolorosa. Com eçava a desej ar com panhias m ais anim adas, quando um a velha colega da Middle Tem ple apareceu de repente e a roubou, levando-a para um grupo de expansivas e j ovens advogadas, que lhe disseram , de form a brincalhona, que não estavam recebendo as causas de m aior qualidade, todas entregues aos hom ens.

Funcionários do salão com eçaram a circular anunciando que o concerto estava prestes a com eçar. As pessoas se instalaram com relutância nas cadeiras. Era difícil trocar subitam ente um bom vinho e fofocas por m úsica solene. Mas, com os copos sendo recolhidos, o alarido foi se am ainando. Ela ia cam inhando para os degraus do lado direito do palco, quando sentiu um toque no om bro e se voltou. Era Sherwood Runcie. O j uiz do caso de Martha Longm an. Por algum a razão ele vestia um sm oking, o que conferia um ar patético, de bicho apanhado num a arm adilha, a hom ens de certa idade com panças volum osas. Pousou a m ão no braço de Fiona desej ando transm itir-lhe um a inform ação de interesse dela que fora m antida fora dos j ornais. Ela se inclinou para ouvir suas palavras. Com a m ente j á focada no concerto, a pulsação se acelerando, foi difícil concentrar-se no que era dito, em bora tivesse a im pressão de havê-lo entendido. Quando ia pedir ao j uiz que repetisse, deu-se conta de que Mark, à sua frente, se voltava para ela fazendo sinais im pacientes. Endireitou o corpo, agradeceu a Runcie e seguiu o tenor na direção do palco.

Enquanto esperavam ao pé da escadinha que a audiência se acom odasse e fossem cham ados, Mark disse: “Você está se sentindo bem ?”.

“Estou bem . Por quê?”

“Parece pálida.”

“Hum .”

Autom aticam ente, ela tocou seu cabelo com a ponta dos dedos de um a das m ãos. Na outra estava a partitura, que segurou com ainda m ais força. Será que estava com um a cara ruim ? Calculou o que havia bebido. Não m ais do que três goles de vinho branco. Mark a advertira para não beber. Um as duas taças ao todo. Ia ficar bem . Ele lhe deu a m ão ao subirem os degraus e até chegarem j unto ao piano, quando am bos curvaram a cabeça num gesto de saudação e receberam o tipo de aplauso reservado ao tim e da casa. Afinal de contas, aquele era o quinto concerto de Natal deles no Great Hall. Depois de se sentar, pôr a partitura no lugar e aj ustar o banco, ela respirou fundo e expirou devagar para se livrar dos últim os retalhos das conversas recentes, do advogado gago, das j ovens carentes de trabalho. E de Runcie. Não. Não havia tem po para pensar. Mark acenou com a cabeça para ela a fim de m ostrar que estava pronto, e de im ediato seus dedos passaram a extrair do colossal instrum ento os acordes suavem ente ondulantes, parecendo carregar consigo sua m ente. A entrada do tenor foi perfeita e, depois de alguns poucos com passos, eles estavam congregados num a unidade de propósitos raram ente atingida nos ensaios, não m ais se concentrando apenas em fazer as coisas certas, m as capazes de se dissolver na m úsica sem o m enor esforço. Passou por sua cabeça que ela havia bebido a quantidade certa de vinho. O poder m acio e profundo do Fazioli a despertou. Era com o se ela e Mark estivessem sendo levados com facilidade rio abaixo num a corrente de notas. A voz dele soava m ais cálida em seus ouvidos, perfeitam ente afinada, livre do vibrato não pedido pela m elodia e que ele às vezes exibia, livres para explorarem todas as delícias da com posição de Berlioz para a “Villanelle” e depois para o “Lam ento”, toda a tristeza da linha abruptam ente cadente: Ah! Sans amour s’en aller sur la mer! Sua interpretação j orrava de form a espontânea. À m edida que seus dedos tocavam as teclas, ela se ouvia com o se estivesse sentada no fundo da sala, com o se dela só se exigisse estar presente. Juntos, Fiona e Mark penetraram no hiperespaço sem horizonte do fazer m usical, m ais além do tem po e do espaço. Ela tinha a vaga noção de que algo a esperava na volta, um pontinho estranho lá em baixo num a paisagem bem conhecida. Talvez nem estivesse lá, talvez não fosse verdade.

Eles vieram à tona com o se saídos de um sonho, lado a lado, para se defrontar de novo com a audiência. O aplauso foi retum bante, m as sem pre era. No espírito de generosidade que im perava no Great Hall durante a festa natalina, era com frequência ainda m ais alto para as perform ances m odestas. Foi só ao trocar olhares com Mark e ver o brilho em seus olhos que ela se certificou de que haviam rom pido os lim ites usuais dos m úsicos am adores. Tinham de fato contribuído com algum a coisa para a peça. Se havia um a m ulher na plateia que Mark quisesse im pressionar, então ela teria sido cortej ada no estilo antigo e sem dúvida ficaria caída por ele.

De repente se fez silêncio quando tom aram posição para o Mahler. Agora ela estava sozinha. A longa introdução pareceu estar sendo inventada pela pianista enquanto se desenrolava. Com infinita paciência, duas notas soaram de form a hesitante, foram repetidas, outra se som ou a elas, as três foram repetidas, e só ao surgir a quarta nota a linha se estendeu luxuriosam ente para cim a num a das m ais adoráveis m elodias que Mahler com pôs em toda a sua vida. Ela não se sentiu exposta de um m odo desagradável. Conseguiu m esm o alcançar o que é um a segunda natureza para os m estres do piano, extraindo um som de sino de certas notas acim a do dó m édio. Em outros trechos, achou que, pela form a com o tocava, era capaz de persuadir seus ouvintes de que percebiam a harpa presente na versão para orquestra. Desde sua entrada, Mark absorveu o espírito de serena resignação. Por algum a razão ele havia insistido em cantar em inglês, e não em alem ão, um a liberdade só concedida aos am adores. A vantagem era a com preensão instantânea que todos tinham de um hom em que se afastava do tum ulto. Eu realmente me sinto como se estivesse morto para o mundo. Os dois tiveram a certeza de que dom inavam a audiência, e o desem penho deles ganhou ainda m ais força. Fiona tam bém sabia que estava avançando com passos m aj estosos rum o a algo terrível. Era verdade, não era verdade. Só saberia quando a m úsica cessasse e ela confrontasse aquilo.

De novo o aplauso, as reverências apenas esboçadas e, agora, pedidos de bis. Ouviram -se até pés batendo no chão, cada vez m ais ruidosos. Os dois executantes se entreolharam . Lágrim as nos olhos de Mark. Um gosto m etálico na boca de Fiona ao voltar a se sentar no banco do piano enquanto a plateia silenciava. Manteve durante alguns segundos as m ãos no colo e a cabeça baixa, recusando-se a olhar para seu parceiro. Da seleção de peças que sabiam de cor, j á haviam se decidido por “An die Musik”, de Schubert. Um a velha favorita. Nunca falhava. Pôs as m ãos sobre as teclas, se preparando, sem ainda erguer a vista. O silêncio na sala era absoluto, e então ela com eçou. O fantasm a de Schubert talvez tenha abençoado a introdução que tocou, m as as três notas que subiam , um acorde incom pleto carinhosam ente ecoado m ais abaixo, e depois ainda m ais abaixo até por fim se tornar harm ônico, pertenciam a algum a outra m ão. Nas notas tranquilas e repetidas que pulsavam no fundo, talvez houvesse um a hom enagem a Berlioz. Quem saberia? Até a canção de Mahler, com sua aceitação m elancólica, talvez tenha sublim inarm ente aj udado Britten em seu arranj o. Fiona não sinalizou nenhum pedido de desculpa para Mark. Seu rosto perm anecia tão rígido com o fora antes seu sorriso. E ela só olhava para as m ãos. Ele teve apenas alguns segundos para reorganizar seus pensam entos, m as estava sorrindo ao sorver o ar e seu tom foi doce, e ainda m ais doce no segundo verso.

Num campo junto ao rio, meu amor pousou de leve

A mão branca como a neve

No meu ombro inclinado, me dizendo

Que levasse a vida com leveza,

Como o capim cresce na margem da represa;

Mas eu era jovem e tolo, e hoje só me resta chorar.

Tratava-se de um a plateia sem pre generosa m as que raram ente se punha de pé para fazer um a ovação. Isso era coisa para concertos de m úsica pop, assim com o gritos e assobios. Mas todos se levantaram de um a só vez, notando-se som ente algum a hesitação de algum as figuras m ais em inentes do Judiciário. Alguns entusiastas m ais j ovens gritaram e assobiaram . Mas Mark Berner recebeu o tributo sozinho, com um a m ão pousada no piano, balançando a cabeça e sorrindo em agradecim ento, enquanto tam bém observava com preocupação a pianista, que atravessava às pressas o palco, olhos postos no chão, e descia os degraus, abrindo cam inho entre os com ponentes do quarteto de cordas, que aguardavam sua vez, e se dirigindo em passos largos para a saída. Com o todos deduziram que a experiência devia ter sido incom um ente intensa para ela, m agistrados e am igos foram com preensivos e bateram palm as ainda m ais fortes quando passou diante deles.

 

Fiona pegou o casaco e, sem se im portar com a nova chuvarada, cam inhou até o seu apartam ento tão depressa quanto ousava com salto alto. Na sala de visitas, um as poucas velas perm aneciam acesas, com o eles descuidadam ente as haviam deixado. Ainda de casaco, o cabelo grudado no crânio, água escorrendo pelo pescoço e pelas costas, ela ficou im óvel, tentando recordar o nom e de um a m ulher. Tanta coisa acontecera desde que havia pensado nela pela últim a vez. Lem brava-se de um rosto, ouvia um a voz, e aí o nom e voltou. Marina Greene. Fiona pegou o celular na bolsa e fez a cham ada. Desculpou-se por telefonar àquela hora. A conversa foi breve porque crianças gritavam ao fundo e a voz da j ovem denotava cansaço e irritação. Sim , ela confirm ava. Quatro sem anas atrás. Deu os poucos detalhes que sabia e se disse surpresa pela j uíza não haver sido inform ada.

Fiona continuou parada no m esm o lugar, o olhar fixo, por nenhum a razão em particular, no prato de com ida preparado por Jack, a cabeça m isericordiosam ente vazia. A m úsica que acabara de tocar não ressoava em seus ouvidos com o costum ava acontecer. Já havia se esquecido do concerto. Até onde era neurologicam ente possível não pensar, ela não tinha nenhum pensam ento. Passaram -se vários m inutos. Im possível saber quantos. Voltou-se ao ouvir um ruído. O fogo estava nas últim as, se desm anchando na grelha. Foi até lá, se aj oelhou e cuidou de reanim á-lo levantando fragm entos de lenha e carvão com as m ãos e não com as tenazes, e os colocando em cim a ou perto das brasas. Depois de três sopros do fole, um a lasca de pinho pegou fogo, que se espalhou para dois pedaços m aiores enquanto ela observava. Aproxim ou-se e deixou que o espetáculo das pequenas cham as, com seus m ovim entos espásticos contra o negror do carvão, enchesse seus olhos.

Por fim , os pensam entos chegaram sob a form a de duas perguntas insistentes. Por que você não m e disse? Por que não pediu m inha aj uda? A resposta veio em sua própria voz im aginada. Fiz isso. Ela se levantou, consciente da dor nos quadris ao cam inhar até o quarto para pegar o poem a na m esinha de cabeceira, onde ficara por seis sem anas. Não tinha podido reler o poem a por causa de seu tom m elodram ático e pela sugestão puritana de que a busca da liberdade, ao atirar a pesada cruz no rio e receber um beij o casto, deviam ser inspiradas por Satã. Havia algo pegaj oso ou sufocante naquela parafernália cristã — a cruz, a árvore de Judas, as trom betas. E ela era a m ulher pintada, o peixe com arco-íris nas escam as, a criatura traiçoeira que levou o poeta para o m au cam inho e o beij ou. Sim , aquele beij o. Foi a culpa dela que a tinha m antido distante.

Ela se agachou outra vez perto do fogo e pôs o poem a à sua frente sobre o tapete Bokhara. Com o havia m exido no carvão, suas im pressões digitais ficaram m arcadas no topo da página. Foi direto ao últim o verso — Jesus Cristo m ilagrosam ente de pé sobre as águas do rio, anunciando que o peixe era Satã disfarçado e que o poeta devia “pagar o preço”.

O beijo dela era o beijo de Judas e traiu meu nome.

Morte àquele

Fiona alcançou os óculos na m esa atrás dela e se inclinou para ler as palavras riscadas e circundadas. “Faca” havia sido riscada, assim com o “preço”, “Deixe que ele” e “culpa”. As palavras “ele próprio” tinham sido riscadas, depois recolocadas e m ais um a vez elim inadas. “Não deve” foi substituído por “deve”, “afundei” por “afoguei”. “Morte àquele” se destacava, sem um círculo em volta, flutuando acim a da confusão com um a seta para indicar que deveria substituir “E”. Fiona estava pegando o j eito do m étodo e da caligrafia dele. E de repente tudo ficou claro. Havia m esm o um a linha sinuosa conectando as palavras escolhidas. O Filho de Deus tinha proferido um a m aldição.

Morte àquele que afogou minha cruz com as próprias mãos.

Ela não se voltou ao ouvir a porta da frente sendo aberta, e foi assim que Jack a viu de relance ao passar pela sala de visitas em direção à cozinha. Achou que ela estivesse cuidando da lareira.

“Capricha no fogo”, ele disse. E j á m ais afastado: “Você foi brilhante! Todo m undo adorou. E tão em ocionante!”.

Quando voltou com o cham panhe e duas taças lim pas, ela havia se posto de pé para tirar o casaco, j ogando-o sobre as costas de um a cadeira, e se livrar do sapato. Estava de pé no m eio da sala, esperando. Ele não percebeu sua palidez ao lhe dar um a das taças, que ela ergueu para ser servida.

“Seu cabelo. Quer que eu pegue um a toalha?”

“Daqui a pouco ele seca.”

Ele rem oveu a tam pa de m etal e encheu a taça de Fiona, depois a dele, que deixou sobre um m óvel enquanto se dirigia à lareira, onde despej ou a cesta de carvão e pôs três pedaços grandes de lenha ensarilhados. Ligou o hi-fi, para tocar de novo o disco de Jarrett.

Ela m urm urou: “Jack, agora não”.

“Claro. Depois de hoj e à noite! Burrice m inha.”

Vendo que Jack queria retornar rapidam ente à situação em que se encontravam antes do concerto, sentiu pena dele. Ele estava fazendo o possível. Logo, logo ia querer beij á-la. Aproxim ou-se de Fiona e, no silêncio que passara a silvar nos ouvidos dela desde o instante em que o hi-fi foi desligado, tocaram suas taças e beberam . Ele então com entou o desem penho dela e de Mark, das lágrim as de orgulho do tenor quando todos se puseram de pé ao final e o que as pessoas disseram depois.

“Saiu tudo bem ”, ela disse. “Estou m uito feliz que tudo correu bem .”

Ele não era m úsico e gostava unicam ente de j azz e blues, m as fez observações bastante plausíveis sobre o concerto e se lem brava de cada peça executada. Les nuits d’été havia sido um a revelação. Em ocionou-o em particular o “Lam ento”, chegou m esm o a entender o francês. Precisaria ouvir de novo o Mahler, porque percebeu um im enso reservatório de sentim ento na peça, m as não foi capaz de apreender tudo naquela prim eira vez. Ficou contente de Mark ter cantado em inglês. Todos tinham vontade de fugir do m undo, poucos ousavam fazê-lo. Ela escutou com seriedade, ou pareceu que o fazia, dando respostas breves ou assentindo com a cabeça. Sentia-se com o um paciente hospitalizado que desej a ardentem ente que o visitante bondoso vá em bora para que ele possa voltar a se sentir m al. O fogo pegou e Jack, notando que ela tiritava, levou-a para perto da lareira e lá serviu o resto do cham panhe.

Residiam na praça havia bastante tem po e ele conhecia os m em bros do Judiciário que eram seus vizinhos quase tão bem quanto ela. Com eçou a lhe falar das pessoas que encontrara naquela noite. Os m oradores do lugar eram m uito unidos e os fascinavam . Aquele post mortem no final das noitadas era um a característica do relacionam ento dos dois. Era fácil para ela continuar resm ungando um a resposta aqui e ali. Jack perm anecia excitado com a perform ance dela e com o que im aginava que iria acontecer. Ele contou sobre um crim inalista que estava m ontando com outros um a escola gratuita. Precisavam de um a tradução em latim para o m oto “Toda criança é um gênio”. Coisa curta, que pudesse ser costurada no blusão escolar debaixo de um a fênix heráldica se erguendo das cinzas. Um problem a fascinante. A ideia de gênio surgira no século XVIII, e as palavras correspondentes a “criança” em latim traziam em geral a definição do gênero. Jack se saíra com “Cuiusque parvuli ingenium” — não tão forte quanto gênio, m as o conceito de inteligência ou aptidão natural era um substituto razoável. Com um pouco de boa vontade, “parvuli” poderia englobar as m eninas. Depois o advogado havia perguntado se ele estaria interessado em criar um curso descontraído de latim para j ovens de nível variado entre onze e dezesseis anos. Desafiador. Irresistível.

Fiona ouviu sem exprim ir nenhum a em oção. Nenhum filho seu j am ais usaria aquele m aravilhoso em blem a. Deu-se conta de que estava excessivam ente vulnerável.

Ela disse: “Seria um a coisa boa de fazer”.

Jack sentiu a falta de entusiasm o em sua voz e a olhou de form a diferente.

“Tem algum a coisa te incom odando.”

“Eu estou bem .”

Franzindo a testa ao relem brar a pergunta que deixara de fazer, ele disse: “Por que você saiu daquele j eito no fim ?”.

Ela hesitou: “Foi dem ais para m im ”.

“Quando todos se levantaram ? Eu quase chorei.”

“Foi a últim a m úsica.”

“O Mahler.”

“Não, ‘The Salley Gardens’.”

Ele achou a resposta engraçada e lhe lançou um olhar de descrença. Já a tinha visto executar aquela m úsica com Mark dezenas de vezes. “Com o assim ?”

Havia tam bém um toque de im paciência na atitude dele. Jack queria realizar a prom essa de um a noite form idável, repor o casam ento nos trilhos, beij á-la, abrir outra garrafa, levá-la para a cam a, fazer com que tudo se tornasse m ais um a vez fácil entre os dois. Ela o conhecia bem , entendeu tudo e, de novo, teve pena de Jack. Mas sentiu tudo isso de um a grande distância.

Ela disse: “Um a recordação. Do verão”.

“É m esm o?” Seu tom denotava apenas um a leve curiosidade.

“Um j ovem tocou essa m elodia para m im no violino. Ainda estava aprendendo a m úsica. Foi num hospital. Acom panhei cantando. Acho que fizem os um a barulheira. Depois ele quis tocar outra vez, m as eu precisava ir em bora.”

Jack não estava interessado em quebra-cabeças. Esforçou-se para que sua voz não dem onstrasse irritação. “Com ece de novo. Quem era o rapaz?”

“Um j ovem m uito estranho e bonito.” Ela falou num tom vago, as palavras saindo lentam ente.

“E?”

“Suspendi a sessão enquanto fui vê-lo em seu quarto no hospital. Você se lem bra. Um a testem unha de Jeová, m uito doente, recusando o tratam ento. Saiu em todos os j ornais.”

Se precisava ser lem brado era porque naquela época ele estava instalado no quarto de Melanie. De outro m odo, teria discutido o caso.

Ele disse com firm eza: “Acho que m e lem bro”.

“Perm iti que o hospital o tratasse e ele se recuperou. A sentença teve… um grande efeito sobre ele.”

Com o antes, estavam de um lado e do outro da lareira, que agora irradiava um forte calor. Ela fixou os olhos nas cham as. “Acho… acho que ele se apegou m uito a m im .”

Jack descansou a taça vazia. “Continue.”

“Quando eu estava no circuito, ele m e seguiu até Newcastle. E eu…” Fiona não ia lhe contar o que havia acontecido lá, m as m udou de ideia. Não havia razão para ocultar nada agora. “Ele andou na chuva para m e encontrar e… eu fiz um a idiotice. No hotel. Não sei o que eu estava… Eu o beij ei. Beijei o rapaz.”

Ele deu um passo atrás para se distanciar do calor do fogo, ou dela. Fiona não se im portava m ais.

Sussurrou: “Ele era um a pessoa m uito doce. Queria vir m orar conosco”.

“Conosco?”

Jack May e tinha atingido a m aioridade nos idos da década de 1970 em m eio a suas m últiplas correntes de pensam ento. Ensinara num a universidade durante toda a sua vida adulta. Conhecia tudo sobre a falta de lógica dos padrões m orais diferentes para hom ens e m ulheres, m as esse saber não era capaz de protegê-lo. Fiona viu a raiva no rosto dele, a tensão dos m úsculos em torno das m andíbulas, o olhar se endurecendo.

“Ele im aginou que eu poderia m odificar sua vida. Acredito que queria m e transform ar num a espécie de guru. Achou que eu podia… Estava tão ávido, com tanta fom e de viver, de tudo. E eu não…”

“Então você o beij ou e ele quis viver com você. O que é que está tentando m e dizer?”

“Mandei-o em bora.” Ela balançou a cabeça e não conseguiu continuar.

Em seguida olhou para Jack. Ele se m anteve bem longe dela, os pés afastados, braços cruzados, o rosto ainda bonito e afável agora enrij ecido pela raiva. Alguns pelos prateados do seu peito escapavam pela gola aberta da cam isa. Ela j á o vira levantá-los vez por outra com um pente. A noção de que o m undo era repleto de tais detalhes, de tantos pontos m inúsculos da fraqueza hum ana am eaçou esm agá-la e ela se viu forçada a desviar os olhos.

Só agora, que a chuva tinha parado, eles perceberam que ela estivera m artelando as j anelas.

Naquele silêncio m ais profundo, ele disse: “E o que aconteceu? Onde ele está agora?”.

Fiona respondeu baixinho, num tom m onocórdio. “Eu soube hoj e pelo Runcie. Algum as sem anas atrás sua leucem ia voltou e ele foi levado para o hospital. Recusou a transfusão que queriam lhe dar. Foi sua decisão. Já tinha dezoito anos e ninguém pôde fazer nada. Com a recusa, seus pulm ões se encheram de sangue e ele m orreu.”

“Então ele m orreu por suas crenças.” A voz de seu m arido soou fria.

Ela o olhou sem entender. Deu-se conta de que não havia se explicado nem um pouco, que havia m uita coisa que deixara de lhe contar.

“Acho que foi suicídio.”

Durante alguns segundos nenhum dos dois falou. Ouviram vozes, risadas e passos na praça. O espetáculo m usical tinha acabado.

Jack lim pou a garganta delicadam ente. “Você estava apaixonada por ele, Fiona?”

A pergunta a derrubou. Deixou escapar um som terrível, um urro sufocado. “Ah, Jack, ele não passava de um a criança! Um m enino. Um m enino adorável!” E por fim ela desandou a chorar, de pé j unto à lareira, os braços caindo inerm es ao longo do corpo, enquanto Jack observava, chocado por ver sua m ulher, sem pre tão contida, num paroxism o de dor.

Fiona não conseguia falar, o choro não iria parar e ela não podia m ais perm itir que fosse vista naquele estado. Abaixou-se para pegar os sapatos e, só de m eia, atravessou correndo a sala e o corredor. Quanto m ais se afastava dele, m ais alto chorava. Entrou no quarto, bateu a porta e, sem acender a luz, se atirou na cam a, enfiando o rosto num travesseiro.

 

Meia hora depois, ao acordar das profundezas de um sonho em que subia por um a interm inável escada vertical, ela não se recordava de haver caído no sono. Ainda confusa, m anteve-se deitada de lado, voltada para a porta. Por baixo dela, um fiapo de luz vindo do corredor trazia algum conforto. Mas não as cenas que visitavam sua im aginação. Adam doente de novo, retornando à sua casa enfraquecido para ser recebido com am or pelos pais, encontrando os bondosos anciãos, readquirindo as crenças antigas. Ou as usando com o um pretexto perfeito para se destruir. Morte àquele que afogou minha cruz com as próprias mãos. Ela o reviu na penum bra em que o encontrara ao visitar a unidade de tratam ento intensivo. O rosto fino e pálido, as som bras roxas abaixo dos grandes olhos cor de violeta. A língua coberta por um a película branca, braços com o gravetos, tão doente, tão decidido a m orrer, tão cheio de encanto e vida, páginas com seus poem as espalhadas pela cam a, im plorando a ela que perm anecesse e os dois tocassem de novo a m úsica, quando Fiona precisava regressar ao tribunal.

Lá, com a autoridade e dignidade de sua posição, ela lhe havia oferecido, em vez da m orte, toda a vida e o am or que se abriam diante dele. E proteção contra sua religião. Sem fé, com o o m undo deve ter lhe parecido ilim itado, belo e aterrador! Com tal pensam ento, ela foi caindo de novo num sono ainda m ais profundo e acordou m inutos depois ao ouvir o cantar e os suspiros das calhas do telhado. Será que a chuva iria parar algum dia? Viu a figura solitária cam inhando pela alam eda do Leadm an Hall, encurvada para se defender da tem pestade de verão, avançando em m eio às trevas, ouvindo os galhos que caíam . Ele devia ter visto à frente luzes na casa e sabido que ela se encontrava lá. Tiritou de frio num a dependência dos fundos, sem saber o que fazer, aguardando um a oportunidade de falar com ela, arriscando tudo na busca de — o quê, exatam ente? E acreditando que poderia obtê-lo de um a m ulher de sessenta anos que j am ais arriscara nada na vida a não ser nuns poucos episódios estouvados em Newcastle fazia m uito tem po. Ela devia ter se sentido lisonj eada. E pronta. Em vez disso, num im pulso poderoso e indesculpável, o beij ara e depois o m andara em bora. Mais tarde, ela fugira tam bém . Negara-se a responder às cartas dele. Negara-se a decifrar o alerta no poem a dele. Que vergonha sentia agora dos tem ores m esquinhos que tivera sobre sua reputação! Aquela transgressão escapava ao alcance de qualquer com itê disciplinar. Adam a tinha procurado e ela não ofereceu nada no lugar da religião, nenhum a proteção, em bora a lei fosse clara ao determ inar que sua principal preocupação devia ser o bem -estar dele. Quantas páginas em quantos j ulgam entos ela j á não devotara a esse propósito? Bem -estar, felicidade, um conceito social. Nenhum a criança é um a ilha. Ela pensava que suas responsabilidades term inavam na porta do tribunal. Mas com o seria possível? Adam tratou de encontrá-la, querendo o que todo m undo quer, e que só pessoas de m ente aberta, e não o sobrenatural, podiam dar: um sentido para a vida.

Quando ela m udou de posição, sentiu contra o rosto o travesseiro úm ido e frio. Agora inteiram ente desperta, o em purrou para pegar outro, e se surpreendeu ao tocar num corpo quente a seu lado, às suas costas. Voltou-se. Jack estava deitado com a cabeça apoiada na m ão. Com a outra afastou o cabelo que cobria os olhos de Fiona. Um gesto de ternura. A luz vinda do corredor lhe perm itia apenas vislum brar o rosto dele.

Jack disse sim plesm ente: “Fiquei vendo você dorm ir”.

Depois de algum tem po, bastante tem po, ela m urm urou: “Obrigada”.

Fiona então perguntou se ele ainda a am aria depois de ela ter lhe contado toda a história. Era um a pergunta im possível de ser respondida, porque ele ainda não sabia quase nada. Suspeitou que Jack tentaria persuadi-la de que não lhe cabia nenhum a culpa.

Ele pôs a m ão no om bro dela e a puxou para si: “Claro que sim ”.

Ficaram um diante do outro na sem iescuridão e, enquanto a grande cidade lavada pela chuva entrava em seus ritm os noturnos m ais suaves, e o casam ento deles recom eçava com m ovim entos titubeantes, Fiona lhe falou, num a voz calm a e com passada, de sua vergonha, da paixão daquele doce rapaz pela vida e da parte que lhe cabia na m orte dele.

Você terminou A Balada de Adam Henry

Ian McEwan

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