A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Stephenie Meyer · Capítulo 2 de 2 · parte 1/6

Páginas do PDF

A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Bree Tanner

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

A MANCHETE DO JORNAL PARECIA GRITAR DO outro lado do vidro da pequena m áquina de venda: SEATTLE SITIADA - MORTES AUMENTAM NOVAMENTE. Eu ainda não havia visto essa. Algum j ornaleiro devia ter reabastecido a m áquina pouco antes. Sorte dele que não estava por perto agora.

Maravilha. Riley ia ter um ataque. Eu faria de tudo para não estar presente quando ele visse o j ornal. Ele que arrancasse o braço de outra pessoa.

Fiquei escondida na som bra de um velho prédio de três andares, tentando não ser notada,

enquanto esperava que alguém tom asse um a decisão. Não queria encarar ninguém , por isso olhei para a parede ao m eu lado. O piso térreo do edifício tinha abrigado um a loj a de discos que fechara havia m uito tem po; as j anelas, quebradas pelo m au tem po ou pela violência das ruas, estavam tam padas por tapum es de m adeira. Nos andares de cim a havia apartam entos — vazios, acho, j á que não se ouvia o som norm al de hum anos dorm indo. Eu não estava surpresa, pois o lugar parecia pronto para desm oronar com um vento um pouco m ais forte. Os prédios do outro lado da rua escura e estreita tam bém eram velhos e destruídos.

O cenário norm al de urna noite pelas ruas da cidade.

Eu não queria falar e cham ar atenção, m as seria bom se alguém decidisse algum a coisa. Estava com m uita sede, e não m e im portava m uito se iríam os para a direita, para a esquerda ou por cim a do telhado. Só queria encontrar uns azarados quaisquer, que então não teriam nem tem po de pensar lugar errado, hora errada.

Infelizm ente, naquela noite Riley m e m andara sair com dois dos vam piros m ais inúteis que existiam . Ele nunca parecia se im portar com quem m andava nos grupos de caça. Especialm ente porque m andar as pessoas erradas em um grupo significava que m enos gente voltaria para casa. Naquela noite ele havia m e colocado com Kevin e outro garoto louro cuj o nom e eu não sabia. Os dois eram da gangue de Raoul, por isso nem preciso dizer que eram

estúpidos. E perigosos. Mas, naquele m om ento, m ais estúpidos que qualquer outra coisa.

Em vez de decidir em que direção caçaríam os, eles estavam em m eio a um a discussão sobre qual de seus super-heróis preferidos seria m elhor caçador. O louro sem nom e dem onstrava sua preferência pelo Hom em -Aranha escalando a parede de tij olos do beco enquanto cantarolava a m úsica tem a do desenho anim ado. Eu suspirei frustrada. Quando íam os caçar?

Um m ovim ento sutil à esquerda cham ou m inha atenção. Era Diego, o outro m em bro do grupo de caça form ado por Riley. Eu não sabia m uito sobre ele, som ente que era m ais velho que a m aioria dos outros. E era o braço direito de Riley. Isso não m e fazia gostar dele m uito m ais que

dos outros idiotas.

Diego estava m e olhando. Devia ter ouvido o suspiro. Eu desviei o olhar.

Manter a cabeça baixa e a boca fechada — esse era o cam inho para continuar vivo na turm a de Riley .

— O Hom em -Aranha era um fracassado chorão — Kevin disse para o garoto louro. — Vou m ostrar com o um super-herói de verdade caça. — Ele sorriu. Seus dentes brilharam sob a luz de um poste.

Kevin saltou no m eio da rua quando os faróis de um carro ilum inaram o calçam ento esburacado com um brilho branco-azulado. Ele flexionou os braços para trás, depois os uniu

lentam ente com o um lutador profissional se exibindo. O carro se aproxim ava, provavelm ente esperando que ele saísse do cam inho com o faria um a pessoa norm al. Com o ele deveria fazer.

Hulk com raiva! — Kevin gritou. — Hulk... ESMAGA!

Ele saltou para a frente e foi de encontro ao carro antes que o m otorista pudesse frear, agarrou o para- -choque dianteiro, girou o veículo sobre a cabeça e j ogou-o no chão com as rodas para cim a, provocando um estrondo de m etal se retorcendo e vidro quebrando. Lá dentro, um a m ulher com eçou a gritar.

— Cara... — Diego disse balançando a cabeça. Ele era bonito, com cabelos escuros e encaracolados, olhos grandes e lábios carnudos, m as quem não era bonito ali? Até Kevin e os outros idiotas da gangue de Raoul eram bonitos. — Kevin, não devíam os cham ar atenção. Riley

disse...

— Riley disse! — Kevin o im itou, afinando a voz. — Não sej a m edroso, Diego. Riley não

está aqui.

Kevin saltou sobre o Honda capotado e deu um soco na j anela do lado do m otorista, que de algum a form a perm anecera intacta até aquele m om ento. Ele enfiou a m ão entre os vidros quebrados e tateou o air bag que j á m urchava, tentando encontrar o m otorista.

Eu m e virei de costas e prendi a respiração, fazendo um grande esforço para não perder a capacidade de pensar.

Não podia ver Kevin se alim entando. Estava com sede dem ais para isso e não queria brigar com ele. Eu não precisava entrar na lista de alvos da gangue de Raoul.

O garoto louro não teve a m esm a preocupação. Ele saltou da parede e aterrissou bem atrás de m im . Ouvi quando ele e Kevin rosnaram um para o outro, depois escutei um som com o o de tecido m olhado sendo rasgado, e os gritos da m ulher cessaram . Provavelm ente, eles a haviam partido ao m eio.

Tentei não pensar nisso, m as podia sentir o calor e ouvir o gotej ar atrás de m im , e isso fazia m inha garganta arder insuportavelm ente, em bora eu não estivesse respirando.

— Vou dar o fora daqui — ouvi Diego resm ungar.

Ele entrou por um vão entre os prédios escuros, e eu fui logo atrás. Se não saísse dali bem depressa, ia acabar brigando com os encrenqueiros da gangue de Raoul por um corpo que provavelm ente não tinha m uito m ais sangue àquela altura. E então, talvez eu não voltasse para casa.

Ah, m as m inha garganta ardia! Rangi Os dentes para reprim ir um grito de dor.

Diego seguia rapidam ente por um beco cheio de latas de lixo e, quando chegou ao fundo, subiu pela parede. Enfiei os dedos nas brechas entre os tij olos e subi atrás dele.

No alto, Diego decolou, saltando com leveza de um telhado a outro na direção de luzes indistintas, fugindo daqueles ruídos. Eu ia atrás dele. Era m ais nova e portanto m ais forte — era um a boa coisa que nós, os m ais j ovens, fôssem os m ais fortes, ou não teríam os sobrevivido à prim eira sem ana na casa de Riley . Eu poderia ter ultrapassado Diego com facilidade, m as queria ver para onde ele ia, não queria que ele ficasse atrás de m im .

Diego percorreu quilôm etros sem parar; estávam os quase nas docas industriais. Eu podia ouvi-lo resm ungando sozinho.

— Idiotas! Com o se Riley não nos desse instruções por um bom m otivo. Autopreservação,

por exem plo. É preciso o m ínim o de bom senso! Seria pedir dem ais?

— Ei! — eu cham ei. — Vam os caçar logo? Minha garganta está pegando fogo.

Diego aterrissou sobre o am plo telhado de um a fábrica e se virou. Eu saltei alguns m etros para trás, em guarda, m as ele não fez nenhum m ovim ento agressivo na m inha direção.

— Vam os — ele respondeu. — Só queria m e afastar dos lunáticos.

Ele sorriu, todo sim pático, e eu o encarei.

Diego não era com o os outros. Era m eio.., calm o, acho que era essa a palavra. Norm al. Não agora, m as antes. Seus olhos eram verm elhos, m ais escuros que os m eus. Ele devia existir

daquele j eito havia um bom tem po, com o eu ouvira dizer.

Da rua lá em baixo vinham os sons da noite em urna área pobre de Seattle. Poucos carros, o som pesado do baixo nas m úsicas, algum as pessoas cam inhando com com passos nervosos, rápidos, um bêbado cantando desafinado ao longe.

— Você é a Bree, não é? — perguntou Diego. — Um a das recém -criadas.

Eu não gostava disso. Recém -criada. Que fosse.

— Sim , eu sou a Bree. Mas não cheguei com o últim o grupo. Tenho quase três m eses.

— É bem rápida para quem só tem três m eses — ele disse. — Poucos teriam conseguido sair da cena do acidente desse j eito. — Ele falou com o um elogio, com o se estivesse realm ente im pressionado.

— Eu não queria m e m isturar àqueles m alucos do Raoul.

Ele assentiu.

— Am ém , irm ã. Esse tipo só arrum a encrenca.

Esquisito. Diego era esquisito. O j eito com o ele falava, com o um a pessoa conversando norm alm ente. Sem hostilidade, sem desconfiança. Com o se não estivesse pensando em quanto seria fácil ou difícil m e m atar naquele exato m om ento. Estava apenas conversando com igo.

— Há quanto tem po está com Riley ? — perguntei, curiosa.

— Quase onze m eses.

— Uau! Você é m ais velho que Raoul!

Diego revirou os olhos e cuspiu veneno de cim a do prédio.

— Sim , eu lem bro quando Riley chegou com aquele traste. Depois disso, tudo só foi ficando m uito pior.

Fiquei quieta por um m om ento, im aginando se ele considerava qualquer um m ais j ovem que ele um traste. Não que eu m e im portasse. Não m e incom odava m ais com o que os outros pensavam . Não precisava m e incom odar. Com o Riley dizia, agora eu era um a deusa. Mais forte, m ais rápida, m elhor. Ninguém m ais im portava.

Diego assobiou baixo.

— Lá vam os nós. Só é preciso um pouco de inteligência e paciência.

Ele apontou para baixo, para o outro lado da rua.

Meio escondido pelas som bras de um a viela escura, um hom em xingava e esbofeteava um a m ulher, enquanto outra assistia à cena em silêncio. Pelas roupas, deduzi que eram um cafetão e duas de suas prostitutas.

Era isso que Riley nos m andava fazer. Caçar a escória. Escolher os hum anos de quem ninguém sentiria falta, aqueles que não estavam voltando para casa e para a fam ília, os que não gerariam ocorrências de desaparecim ento.

Era o m esm o critério pelo qual ele nos escolhera. Refeições e deuses, am bos buscados da escória.

Diferentem ente de m uitos outros, eu ainda fazia o que Riley m andava. Não porque gostasse dele. Esse sentim ento desaparecera havia m uito tem po. Era porque o que ele dizia parecia certo. Que sentido faria cham ar atenção para o fato de que um bando de novos vam piros dom inava Seattle e fazia dela seu território de caça? Com o isso poderia nos aj udar?

Eu nem m esm o acreditava em vam piros antes de m e tornar um a. Se o restante do m undo não acredita em vam piros, quer dizer que os outros da espécie deviam , estar caçando com bom senso, com o Riley nos dizia para fazer. E eles provavelm ente tinham urna boa razão para isso.

E, com o Diego dissera, caçar com bom senso só exige um pouco de inteligência e paciência.

É claro que todos nós com etíam os m uitos deslizes; Riley lia os j ornais, resm ungava e gritava conosco e quebrava coisas — com o o videogam e favorito de Raoul. Então, Raoul ficava furioso e descontava a raiva queim ando um de nós. Riley ficava ainda m ais furioso e fazia outra revista para confiscar todos os isqueiros e fósforos. Algum as rodadas m ais, e Riley trazia para casa outro punhado de garotos vam pirizados, gente da escória que ele colocava no lugar daqueles que perdera. Era um ciclo infinito.

Diego puxou o ar pelo nariz — um a inspiração profunda, longa — e eu vi a postura dele m udar. Ele se abaixou no telhado, um a das m ãos agarrada à beirada. Toda aquela estranha sim patia havia desaparecido — ele agora era um predador.

Isso era algo que eu reconhecia, algo com que m e sentia confortável. Porque isso eu entendia.

Desliguei m eu cérebro. Era hora de caçar. Respirei fundo, inalando o odor do sangue no corpo das pessoas lá em baixo. Não eram os únicos hum anos por perto, m as eram os m ais próxim os. Quem você caça é o tipo de decisão que se deve tom ar antes de farej ar a presa. Agora

j á era tarde dem ais para fazer qualquer escolha.

Diego saltou do telhado, fora do cam po de visão das vítim as. Sua aterrissagem foi silenciosa dem ais para cham ar a atenção da prostituta chorona, da prostituta distraída ou do cafetão zangado.

Um grunhido baixo escapou por entre m eus dentes. Meu. O sangue era meu. O fogo ardia

em m inha garganta e eu não conseguia pensar em m ais nada.

Saltei do telhado, atravessei a rua e aterrissei ao lado da loura que chorava. Podia sentir Diego atrás de m im , bem perto, por isso rosnei para ele, advertindo-o, enquanto agarrava a garota de surpresa pelo cabelo. Eu a puxei para a parede do beco e encostei m inhas costas nos tij olos. Um a posição defensiva, só por precaução.

Depois esqueci com pletam ente Diego, porque podia sentir o calor sob a pele da m ulher, ouvir sua pulsação latej ando bem perto da superfície.

Ela abriu a boca para gritar, m as m eus dentes dilaceraram sua traquéia antes que algum som pudesse ser em itido. Ouvi o borbulhar de ar e sangue invadindo seus pulm ões e os gem idos baixos que eu não conseguia controlar.

O sangue era m orno e doce. Aplacava o fogo na m inha garganta, acalm ava o vazio corrosivo e persistente no m eu estôm ago. Eu sugava e engolia, vagam ente consciente de qualquer outra coisa.

Ouvi os m esm os sons vindos de Diego — ele escolhera o hom em . A outra m ulher estava inconsciente no chão. Nenhum deles tinha feito qualquer barulho. Diego era bom .

O problem a com os hum anos era que nunca havia neles sangue o bastante. Tive a im pressão de que em poucos segundos a garota estava seca. Sacudi seu corpo flácido num gesto frustrado. Minha garganta j á com eçava a arder novam ente.

Joguei o corpo vazio no chão e m e abaixei encostada na parede, im aginando se conseguiria agarrar a m ulher inconsciente e m e alim entar dela antes que Diego m e alcançasse.

Ele j á havia term inado com o hom em , e m e olhou com urna expressão que eu só poderia descrever com o... solidária. Mas eu podia estar m ortalm ente errada. Não m e lem brava de ninguém m e tratando com solidariedade antes, por isso não tinha m uita certeza de com o ela se m anifestava.

— Vá em frente — ele disse, indicando a m ulher caída no chão.

— Está brincando?

— Não, estou bem , por enquanto. Tem os tem po para caçar m ais um pouco hoj e à noite.

Estudando-o atentam ente para tentar identificar algum sinal de trapaça, eu m e atirei sobre a m ulher. Diego não tentou m e im pedir. Ele virou um pouco de lado e olhou para o céu escuro.

Enterrei os dentes no pescoço dela, m antendo os olhos nele. Era ainda m elhor que a outra.

Seu sangue era inteiram ente lim po. O sangue da garota loura tinha um sabor am argo que sugeria o uso de drogas — eu estava tão acostum ada a isso que quase nem notava. Era raro conseguir sangue lim po, porque eu seguia as regras sobre caçar a escória. Diego parecia seguir as regras tam bém . Ele certam ente farej ara a boa presa de que abrira m ão.

Por que tinha feito isso?

Quando o segundo corpo ficou vazio, senti m inha garganta m elhor. Havia m uito sangue no m eu organism o. Provavelm ente, eu não sentiria o ardor por alguns dias.

Diego ainda esperava, assobiando baixo por entre os dentes. Quando larguei o corpo no chão com um baque, ele m e olhou e sorriu.

— Obrigada — eu disse.

Ele m oveu a cabeça em sentido afirm ativo.

— Você parecia precisar m ais que eu. Ainda lem bro com o é difícil no com eço.

— Fica m ais fácil depois?

Ele encolheu os om bros.

— Em alguns aspectos.

Nós nos entreolham os por um segundo.

— Por que não j ogam os esses corpos na enseada? — ele sugeriu.

Eu m e abaixei, peguei o corpo da loura e o j oguei sobre o om bro. Ia pegar a outra tam bém , m as Diego foi m ais rápido que eu, e j á carregava tam bém o corpo do cafetão.

— Peguei — ele disse.

Eu o segui parede acim a no beco, e depois saltam os entre as vigas que sustentavam a via expressa. A luz dos faróis dos carros não nos atingia. Pensei em com o as pessoas eram estúpidas, em com o não enxergavam , e m e senti feliz por não ser um dos ignorantes.

Escondidos na escuridão, seguim os nosso cam inho até um píer vazio, fechado àquela hora da noite. Diego não hesitou ao chegar à extrem idade da passarela de concreto, apenas saltou e desapareceu na água, levando sua carga. Eu o segui.

Ele nadava com a velocidade e a agilidade de um tubarão, m ergulhando m ais fundo e m ais longe na escuridão silenciosa. De repente, ele parou ao encontrar o que estava procurando — um a larga plataform a coberta de lodo no fundo do oceano, com estrelas-do-m ar e lixo presos nas laterais. Devíam os estar a m ais de trinta m etros de profundidade; para um hum ano, a escuridão ali seria com pleta. Diego soltou os corpos. Eles oscilavam suavem ente na correnteza enquanto ele enfiava as m ãos na areia lam acenta na base da plataform a de pedra. Depois de um segundo, encontrou um a alça e puxou a plataform a para cim a. O peso da pedra o fez subm ergir até a cintura na areia escura do fundo cio m ar.

Ele olhou para cim a e fez um gesto com a cabeça.

Eu nadei até ele, levando os corpos com um a das m ãos. Em purrei a loura para o buraco sob a pedra, depois em purrei a outra m ulher e, finalm ente, o cafetão. Pisei os corpos sem m uita violência, só para ter certeza de que estavam dentro do buraco, e então saí do cam inho. Diego deixou cair a plataform a. Ela balançou um pouco, se aj ustando à nova base irregular. Em seguida, ele sacudiu os pés até se livrar do lodo, nadou para cim a da pedra e a em purrou para o fundo, achatando tudo o que estava em baixo dela.

Diego se afastou alguns m etros para analisar o resultado.

Perfeito, eu m ovi os lábios. Aqueles três corpos j am ais voltariam à superfície. Riley

j am ais ouviria urna história sobre eles no noticiário.

Ele sorriu e estendeu a m ão.

Levei um m inuto para entender que ele queria que eu batesse em sua m ão aberta. Hesitante, nadei até chegar m ais perto dele e aceitei o cum prim ento, depois m e afastei, abrindo um a boa distância entre nós.

Diego ficou com um a expressão estranha no rosto e, depois de um segundo, subiu para a superfície com o urna bala.

Eu o segui com a m esm a rapidez, confusa. Quando em ergi, ele estava quase sufocando de tanto rir.

— O que foi?

Ele não conseguiu responder de im ediato. Finalm ente, entre um a gargalhada e outra, disse:

— Foi o pior cum prim ento que j á vi!

Eu funguei, irritada.

— Não dava para saber se você não ia arrancar m eu braço ou coisa parecida.

Diego bufou.

—Eu não faria isso.

— Qualquer outro faria retruquei.

— É verdade — concordou ele, repentinam ente sério. — Pronta para caçar m ais um pouco?

— Precisa perguntar?

Saím os da água sob um a ponte e tivem os a sorte de encontrar na m esm a hora dois sem -teto dorm indo em sacos de dorm ir im undos sobre um colchão de j ornais velhos. Nenhum dos dois acordou. Am bos tinham no sangue o sabor azedo do álcool, m as isso era m elhor que nada. Nós tam bém os enterram os na enseada, sob outra pedra.

— Bem , estarei saciado por algum as sem anas — Diego anunciou quando saím os da água novam ente e ficam os parados em um velho píer vazio, pingando.

Eu suspirei.

— Acho que essa parte é m ais fácil, não é? Eu vou sentir o ardor novam ente em dois dias. E Riley provavelm ente vai m e m andar sair de novo com m ais m utantes do Raoul.

— Posso sair com você, se quiser. Riley m e deixa fazer quase tudo o que quero.

Pensei na oferta, desconfiada por um segundo. Mas Diego realm ente não parecia ser com o os outros. Eu m e sentia diferente com ele. Com o se não precisasse m e preocupar tanto em proteger m inha retaguarda.

— Seria bom — adm iti.

Foi estranho dizer isso. Com o se a declaração de algum m odo m e tornasse m uito vulnerável ou coisa parecida. Mas Diego respondeu apenas “legal” e sorriu para m im .

— Por que Riley perm ite que você tenha tanta liberdade? — perguntei, especulando sobre

que tipo de relacionam ento havia entre eles.

Quanto m ais tem po passava com Diego, m enos conseguia im aginá-lo íntim o de Riley. Diego era tão... sim pático. Não era nada parecido com Riley. Mas podia ser algo do tipo “os opostos se atraem ”.

— Riley sabe que pode confiar em m im para lim par m inha suj eira. Falando nisso, você se im porta de irm os resolver um a coisinha rápida?

Eu estava com eçando a m e divertir com aquele garoto estranho. E estava curiosa sobre ele. Queria ver o que ia fazer.

— É claro que não — eu disse.

Ele correu pelo píer para a estrada paralela ao litoral. Eu fui atrás dele. Percebi o cheiro de alguns hum anos, m as sabia que estava m uito escuro e que estávam os longe dem ais para que eles nos vissem .

Diego preferiu se deslocar por cim a dos telhados novam ente. Depois de alguns saltos, reconheci m eu cheiro e o dele. Ele refazia o cam inho que havíam os percorrido antes.

Voltam os à prim eira rua escura onde Kevin e o outro garoto haviam com etido a estupidez com o carro.

— É inacreditável — Diego grunhiu.

Kevin e com panhia haviam partido pouco antes, aparentem ente. Dois outros carros estavam em pilhados sobre o prim eiro e um punhado de espectadores e transeuntes fora adicionado à contagem dos corpos. Os policiais ainda não haviam chegado, porque qualquer pessoa que pudesse denunciar a carnificina j á estava m orta.

— Aj ude-m e a dar um j eito nisso aqui — Diego pediu.

— Tudo bem .

Descem os do telhado, e Diego arrum ou rapidam ente a pilha de carros de outro j eito, criando a im pressão de que haviam colidido, em vez de ter sido em pilhados por um bebê gigante fazendo birra. Peguei os dois corpos secos e sem vida abandonados no m eio da rua e os enfiei no ponto onde, aparentem ente, ocorrera a colisão.

— Acidente terrível — com entei.

Diego sorriu com sarcasm o. Usando um isqueiro que tirou de um saco plástico em seu bolso, ele com eçou a atear fogo às roupas das vítim as. Eu peguei m eu isqueiro — Riley os

devolvia quando saíam os para caçar; e Kevin deveria ter usado o dele — e m e dediquei a

incendiar o estofam ento. Os corpos, secos e contam inados pelo veneno inflam ável, queim aram rapidam ente.

— Afaste-se — Diego m e preveniu, e eu vi que ele havia rem ovido a tam pa do tanque de com bustível do prim eiro autom óvel.

Pulei para a parede m ais próxim a e m e em poleirei para observar. Ele recuou alguns passos e riscou um fósforo. Com pontaria perfeita, arrem essou-o no pequeno buraco. No m esm o instante, saltou e aterrissou ao m eu lado.

O estrondo da explosão sacudiu a rua inteira. Luzes com eçaram a se acender a partir da esquina.

— Bom trabalho — com entei.

— Obrigado pela aj uda. Vam os voltar para a casa do Riley ?

Eu franzi a testa. A casa de Riley era o últim o lugar onde eu gostaria de passar o resto da noite. Não queria ver o rosto estúpido de Raoul nem ouvir os gritos e as brigas constantes. Não queria ter de ranger os dentes e m e esconder atrás do Freaky Fred para as pessoas m e deixarem em paz. E eu não tinha m ais nenhum livro.

— Tem os algum tem po — Diego com entou, lendo m inha expressão. — Não precisam os voltar agora.

— Queria ter algum a coisa para ler.

— E eu queria ter novas m úsicas. — Ele sorriu. — Vam os fazer com pras.

Nós nos m ovem os rapidam ente pela cidade — outra vez por cim a de telhados e depois correndo pelas ruas escuras, quando os prédios ficaram m uito distantes uns dos outros — até um a região m enos inóspita. Não dem oram os m uito a encontrar um a área com ercial com um a loj a de um a grande cadeia de livrarias. Arrebentei a tranca cio acesso pelo telhado e nós entram os. A loj a estava vazia, e só havia alarm es nas j anelas e nas portas. Fui diretam ente para o corredor H,

enquanto Diego ia para a seção m usical no fundo da loj a. Eu havia term inado de ler Hale. Peguei os doze livros seguintes na prateleira; isso m e ocuparia por uns dois dias.

Olhei em volta procurando por Diego, e o vi sentado em um a das m esas cio café, estudando as capas de seus novos CDs. Depois de um instante, fui m e j untar a ele.

Aquilo m e causava um a sensação estranha, porque era fam iliar de um j eito desconfortável, assustador. Eu havia m e sentado daquele j eito antes, diante de alguém , com um a m esa entre nós. Havia conversado com alguém de m odo espontâneo, pensando em coisas que não eram vida e m orte ou sede e sangue. Mas isso tinha sido em outro tem po, em um a vida diferente, turva.

Na últim a vez que m e sentara à m esa com alguém , essa pessoa foi Riley. Era difícil lem brar aquela noite, por várias razões.

— Então, com o nunca notei você pela casa? — Diego perguntou de repente. — Onde se esconde?

Eu ri e fiz um a careta irônica ao m esm o tem po.

— Norm alm ente fico atrás do Freaky Fred, onde ele estiver.

Ele torceu o nariz.

— Sério? Com o você aguenta?

— A gente se acostum a. Estar atrás dele não é tão ruim quanto na frente. De qualquer form a, foi o m elhor esconderij o que encontrei. Ninguém chega perto de Fred.

Diego balançou a cabeça, concordando com igo, ainda com cara de noj o.

— É verdade. É um j eito de continuar vivo. Eu encolhi os om bros.

— Sabia que Fred é um dos preferidos de Riley ? — Diego perguntou.

— É m esm o? Com o?

Ninguém suportava o Freaky Fred. Eu era a única que havia tentado, e só por um a questão de autopreservação.

Diego se debruçou sobre a m esa, aproxim ando-se de m im com ar de conspirador. Eu j á estava tão acostum ada com seu j eito estranho que nem m e abalei.

— Eu o ouvi falando ao telefone com ela.

Senti um arrepio.

— Eu sei — ele continuou, voltando ao tom solidário. É claro, não era estranho que

pudéssem os ser solidários uns com os outros quando se tratava dela. — Foi há alguns m eses. Riley falava sobre Fred e estava todo anim ado. Pelo que consegui entender do que ele dizia, acho que alguns vam piros são capazes de fazer coisas. Coisas além do que os vam piros norm ais podem fazer. E isso é bom , é algo que ela está procurando. Vam piros com habilidadezzz.

Ele enfatizou o som de “z”, para que eu entendesse com o ele soletrava a palavra.

— Que tipo de habilidades?

— Todo tipo de coisa, pelo que entendi. Ler pensam entos, rastrear pessoas e até ver o futuro.

— Mentira!

— Estou falando sério. Acho que Fred repele as pessoas de m aneira proposital. Tudo está só na nossa cabeça. Ele nos faz sentir repulsa pela ideia de chegar perto dele.

Eu franzi a testa.

— E com o isso pode ser bom ?

— Serve para m antê-lo vivo, não serve? E parece que m antém você viva tam bém .

Eu concordei com a cabeça.

— É, acho que sim . Ele falou sobre m ais alguém ?

Tentei pensar em qualquer coisa estranha que ti vesse visto ou ouvido, m as Fred era único.

Os palhaços na rua aquela noite, fingindo ser super-heróis, não fizeram nada que qualquer um de nós não pudesse fazer.

— Ele falou sobre Raoul — contou Diego, os cantos da boca curvados para baixo.

— E que habilidade ele tem ? Superestupidez? Diego bufou.

— Sim , definitivam ente. Mas Riley acredita que ele tem algum tipo de m agnetism o; as pessoas são atraídas por ele e o seguem .

— Só as m entalm ente perturbadas.

— É, Riley falou nisso. Não parecia funcionar com os — ele fez um a im itação m uito boa da voz de Riley — garotos m ais dom esticados.

— Dom esticados?

— Deduzi que ele se referia a pessoas com o nós, que conseguem pensar de vez em quando.

Não gostei de ser cham ada de dom esticada. Não parecia algo positivo quando era colocado dessa m aneira. O m odo com o Diego colocava aquilo fazia soar m elhor.

— Era com o se houvesse urna razão para Riley precisar de Raoul na liderança. Algo que vem por aí, eu acho.

Um arrepio estranho percorreu m inhas costas quando ele disse isso, e eu m e sentei m ais ereta.

— Com o o quê?

— Nunca pensou sobre por que Riley está sem pre atrás de nós com essa história de serm os discretos?

Eu hesitei por m eio segundo antes de responder. Essa não era a linha de questionam ento

que eu teria esperado do braço direito de Riley. Era quase com o se ele estivesse questionando o que Riley nos dissera. A m enos que Diego estivesse fazendo essas perguntas por Riley, com o um

espião. Tentando descobrir o que os “garotos” pensavam sobre ele. Mas não parecia isso. Os olhos verm elhos e escuros de Diego eram francos, confidentes. E por que Riley iria se im portar? Talvez o que os outros diziam sobre Diego não se baseasse em nada verdadeiro. Era só fofoca.

Respondi com sinceridade.

— Na verdade, eu estava pensando exatam ente nisso.

— Não som os os únicos vam piros no m unido - Diego declarou em tom solene.

— Eu sei. Às vezes Riley diz isso. Mas não pode haver tantos assim . Quer dizer, não

teríam os notado antes?

Diego fez que sim com a cabeça.

— É o que eu penso tam bém . E por isso é tão esquisito que ela continue criando m ais de

nós, não acha? Eu franzi a testa.

— Hum . Porque não é com o se Riley realm ente gostasse de nós ou algo desse tipo... —

Fiz outra pausa, esperando para ver se ele ia m e contradizer. Diego não discordou. Ele só esperou, balançando levem ente a cabeça para dem onstrar que concordava, e eu continuei: — E ela nem se apresentou. Você tem razão. Eu não tinha pensado por esse lado. Quer dizer, eu nem

tinha pensado nisso. Mas, afinal, eles nos querem para quê?

Diego levantou um a sobrancelha.

— Quer ouvir o que eu acho?

Eu m ovi a cabeça positivam ente, com ar cansado, tenso. Mas m inha ansiedade não tinha nada a ver com ele.

— Com o eu disse, algo está por vir. Acho que ela quer proteção e incum biu Riley de criar

a linha de frente.

Pensei nisso e senti outro arrepio nas costas.

— Por que eles não nos contariam ? Não devíam os estar, sei lá, de prontidão ou algo parecido?

— Isso faria sentido — Diego concordou.

Nós nos olham os em silencio por segundos que pareceram m uito longos. Eu não tinha m ais nada a acrescentar, e ele, aparentem ente, tam bém não.

Finalm ente, eu sorri e disse:

— Não sei se acredito nisso, nessa parte sobre Raoul ser bom em alguma coisa.

Diego riu.

— É difícil rebater esse argum ento. — Em seguida ele olhou pelas j anelas para a m adrugada escura lá fora. — Nosso tem po está acabando. É m elhor voltarm os ou vam os virar torrada.

— Ashes, ashes, we all fall down — eu cantei baixinho enquanto m e levantava e pegava

m inha pilha de livros.

Diego

Fizem os m ais urna rápida parada no cam inho — invadim os a loj a vizinha, tam bém vazia, e apanham os sacos plásticos e duas m ochilas. Em brulhei os livros em dois sacos. Páginas m anchadas e enrugadas pela um idade m e aborrecem .

Voltam os à enseada, percorrendo quase todo o ca m inho sobre os telhados. O céu com eçava a se tingir de um cinza m ais claro no leste. Entram os na água bem debaixo do nariz de

dois vigias distraídos, perto da balsa — para sorte deles eu estava satisfeita, senão a proxim idade teria sido dem ais para o m eu autocontrole —, e depois apostam os corrida pela água lam acenta de volta à casa de Riley .

No início eu não sabia que era um a corrida. Só nadava depressa porque o céu ia ficando m ais e m ais claro. Eu não costum ava desafiar o tem po dessa m aneira. Para ser bem honesta com igo m esm a, eu m e transform ara num a perfeita vam pira nerd. Seguia as regras, não causava problem as, convivia com os garotos m enos populares do grupo e sem pre voltava cedo para casa.

Mas então Diego realm ente acelerou. Ele se adiantou alguns m etros, olhou para trás sorrindo e disse:

— O que foi, não consegue m e acom panhar?

E voltou a nadar.

Isso era algo que eu não ia aturar. Não conseguia lem brar se era com petitiva antes — tudo parecia m uito distante e sem im portância —, m as talvez fosse, porque reagi im ediatam ente ao desafio. Diego era um bom nadador, m as eu era m ais forte, especialm ente depois de m e alim entar.

Até m ais, m ovi a boca ao passar por ele, m as não sabia ao certo se ele vira.

Eu o perdi de vista na água escura e não desperdicei tem po olhando para trás para checar

quanto tinha de vantagem . Apenas nadei até alcançar a extrem idade da ilha onde ficava a nossa casa m ais recente. A anterior fora um a grande cabana no m eio do nada em Snowville, na encosta de um a m ontanha qualquer das Cascades. Com o a últim a, a casa atual era isolada, tinha um grande porão, e os proprietários haviam m orrido recentem ente.

Nadei até bem perto da praia de cascalho e enterrei os dedos na areia grossa para m e levantar. Ouvi Diego saindo da água quando eu agarrava o tronco inclinado de um pinheiro c m e balançava, tom ando im pulso para chegar ao alto do penhasco.

Duas coisas cham aram m inha atenção quando m eus pés aterrissaram suavem ente. Um a: estava claro. Duas: a casa havia sum ido.

Bem , não inteiram ente. Parte dela ainda estava visível, m as o espaço antes ocupado pela casa estava vazio. O telhado havia desabado num em aranhado de m adeira preta destroçada e agora parecia m ais baixo do que o que antes fora a porta.

O sol se erguia depressa. Os pinheiros negros com eçavam a se tingir de verde. Logo as pontas m ais claras se destacariam na penum bra, e nesse m om ento eu estaria m orta.

Realmente m orta, ou o que quer que fosse. Essa segunda vida de super-heroína sedenta term inaria num a súbita explosão de cham as. E eu só podia pensar que a explosão seria m uito, m uito dolorosa.

Essa não era a prim eira vez que eu via nossa casa destruída — com todas as brigas e o fogo no porão, algum as delas haviam durado apenas poucas sem anas —, m as era a prim eira vez que eu chegava à cena da destruição com os prim eiros raios pálidos de sol surgindo am eaçadores.

Engoli um a exclam ação de surpresa quando Diego aterrissou ao m eu lado.

— Talvez se correrm os para baixo dos escom bros do telhado — sussurrei. — Seria suficientem ente seguro ou...?

— Não entre em pânico, Bree — Diego disse com a voz m uito calm a. — Eu conheço um lugar. Vam os.

Ele saltou de costas e com m uita elegância da beirada do penhasco.

Eu não acreditava que a água fosse suficiente para bloquear o sol. Será que subm ersos não queim aríam os? O plano m e parecia bem ruim .

Porém , em vez de ir m e esconder sob os escom bros da casa, m ergulhei do penhasco atrás dele. Eu não sabia se m eu raciocínio estava certo, e essa era um a sensação estranha. Norm alm ente, eu fazia sem pre a m esm a coisa — seguia a rotina, agia com o era sensato.

Alcancei Diego na água. Ele apostava corrida novam ente, m as dessa vez não era um a bobagem . Ele corria contra o sol.

Diego contornou um ponto da pequena ilha e depois m ergulhou fundo. Fiquei surpresa por ele não bater no chão rochoso da enseada, e ainda m ais surpresa quando senti um a corrente de água m ais quente fluindo do que eu pensara ser só um afloram ento de pedra.

Diego fora esperto ao escolher um lugar com o aquele. É claro que não seria nada divertido ficar sentada em um a caverna em baixo d'água o dia inteiro — não respirar se tornava irritante depois de algum as horas —, m as era m elhor que explodir em cinzas. Eu deveria pensar com o Diego. Pensar em algum a outra coisa que não fosse sangue, quero dizer. Deveria estar

preparada para o inesperado.

Diego continuou nadando por um a fenda estreita entre as rochas. Era escuro, preto com o tinta. Seguro. Eu não podia m ais nadar — era m uito apertado —, por isso m e arrastei com o Diego, escalando o espaço retorcido. Esperava que ele parasse, m as ele seguia adiante. De repente percebi que estávam os subindo. E então ouvi Diego irrom per na superfície.

Em ergi m eio segundo depois.

A caverna não era m ais que um pequeno buraco, urna cova m ais ou m enos do tam anho de um fusca, em bora não tão alta. Um segundo vão levava à parte de trás, e eu podia sentir o ar

fresco vindo daquela direção. Vi a form a dos dedos de Diego replicada m uitas vezes na textura das paredes de calcário.

— Belo lugar — eu disse.

Diego sorriu.

— Melhor que ficar atrás do Freaky Fred.

Não tenho com o contestar isso. Ah... Obrigada.

— De nada.

Nós nos olham os no escuro por um m inuto. O rosto dele estava calm o, relaxado. Com qualquer pessoa, Kevin, Kristie ou um dos outros, aquilo teria sido aterrorizante — o espaço

apertado, a proxim idade forçada. Poder sentir o cheiro dele ao m eu redor. Isso poderia ter significado um a m orte rápida e dolorosa, a qualquer m om ento. Mas Diego era controlado. Diferente de todos os outros.

— Quantos anos você tem ? — ele perguntou de repente.

— Três m eses. Já disse.

— Não foi isso que eu quis dizer. Quantos anos você tinha? Acho que é a m aneira m ais

correta de perguntar.

Eu m e afastei um pouco, desconfortável, quando percebi que ele falava sobre coisas humanas. Ninguém falava sobre isso. Mas eu tam bém não queria encerrar a conversa. Conversar

era algo novo e diferente. Hesitei, e ele esperou com um a expressão curiosa.

Eu tinha 15, acho. Quase 16. Não consigo lem brar o dia... j á tinha feito aniversário? —

Tentei pensar nisso, m as aquelas últim as sem anas de fom e eram um a grande confusão, e tentar entendê-las m e dava dor de cabeça. Desisti. — E você?

— Eu tinha acabado de com pletar 18 — Diego revelou. — Estava tão perto!

— Perto do quê?

— De sair — ele respondeu, m as não continuou. Houve um silêncio breve e estranho, e depois ele m udou de assunto.

— Você tem se saído m uito bem desde que chegou — ele com entou, o olhar avaliando os m eus braços cruzados, as pernas encolhidas. — Sobreviveu... Evitou atrair atenção indesej ável, e

se m anteve intacta.

Eu encolhi os om bros e levantei a m anga esquerda da cam iseta, m ostrando a linha fina e irregular que contornava m eu braço.

— Foi arrancado um a vez — contei. — Consegui pegá-lo de volta antes que Jen o torrasse. Riley m e m ostrou com o colocá-lo no lugar rapidam ente.

Diego sorriu de lado e tocou o j oelho direito com um dedo. O j eans escuro encobria a cicatriz que devia existir ali.

— Acontece com todo m undo.

— Ai — eu disse.

Ele assentiu.

— É serio. Mas, com o eu dizia antes, você é um a vam pira bem decente.

— Devo agradecer?

— Estou só pensando alto, tentando entender algum as coisas.

— Que coisas?

Ele franziu um pouco a testa.

— O que está acontecendo realm ente. O que Riley está tram ando. Por que continua levando para ela os garotos m ais diferentes. Por que não tem im portância para ele que sej a

alguém com o você ou alguém com o o idiota do Kevin.

Aparentem ente, ele não conhecia Riley m elhor que eu.

— Com o assim alguém com o eu? — perguntei. — Você é o tipo que Riley deveria estar procuran do: o tipo esperto, e não aqueles estúpidos m eninos de gangue que Raoul insiste em trazer. Aposto que não era um a drogada quando era hum ana.

Eu m e m exi com certo desconforto ao ouvir a últim a palavra. Diego continuava esperando por m inha resposta, com o se não tivesse dito nada fora do norm al. Respirei fundo e

pensei no passado.

— Estive bem perto disso — confessei depois que ele m e observou pacientem ente por alguns segundos. — Não era um a viciada ainda, m as seria em um a questão de sem anas... — Encolhi os om bros. — Sabe, não m e lem bro de m uita coisa, m as lem bro que pensava não haver nada m ais poderoso neste planeta do que a boa e velha fom e. Descobri que a sede é pior.

Ele riu.

— Som os dois.

— E você? Não era um adolescente fugitivo e perturbado com o todos nós?

— Ah, eu era perturbado, sim . — Ele parou de falar.

Mas eu tam bém podia ficar ali sentada esperando por respostas a perguntas inadequadas. E fiquei olhando para ele.

Diego suspirou. Seu hálito era agradável. Todo m undo tinha um cheiro adocicado, m as Diego tinha algo m ais — um tem pero, algo parecido com canela ou cravo-da-índia.

— Tentava m e m anter afastado de toda essa porca ria. Estudava m uito. Ia sair do gueto, sabe? Ia para a faculdade. Ser alguém . Mas tinha um cara, não m ui to diferente de Raoul. Seguir sua lei ou m orrer, esse era seu lem a. Eu não queria um a coisa nem outra, por isso ficava longe

do grupo que ele liderava. Era cuidadoso. E m e m antive vivo. — Ele parou, fechando os olhos.

Eu ainda não estava satisfeita.

— E?

— Meu irm ão m ais novo não teve o m esm o cuidado. Eu ia perguntar se o irm ão havia seguido a lei do tal cara ou m orrido, m as a expressão no rosto dele tornou a pergunta desnecessária. Desviei o olhar, sem saber o que dizer. Eu não era capaz de entender realm ente aquela perda, a dor tão evidente que ainda causava nele. Não deixara para trás nada que ainda m e fizesse falta. Seria essa a diferença? Por isso ele insistia nas lem branças que todos nós

Continuar: parte 2 de 6