A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Stephenie Meyer · Capítulo 2 de 2 · parte 4/6

Páginas do PDF

A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Bree Tanner

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Pensei nisso e franzi a testa.

Bem , eu descobriria assim que tivéssem os um m inuto a sós. E então, talvez, se nosso clube se c re to realm ente tivesse algum a im portância, não faria diferença o que nossa criadora planej ara. Poderíam os desaparecer, e Riley teria de se arranj ar com dezenove vam piros, ou criar outros rapidam ente. De um j eito ou de outro, não seria problem a nosso.

Eu m al podia esperar para contar m eu plano a Diego. Tinha a intuição de que ele ia concordar com igo. Esperava que concordasse.

De repente, im aginei se não havia sido isso o que realm ente acontecera a Shelly, Steve e os outros garotos que desapareceram . Eu sabia que eles não tinham queim ado ao sol. Será que Riley só afirm ou ter visto as cinzas dos desaparecidos com o um artifício para nos m anter com m edo, dependentes dele? Para nos obrigar a voltar para casa e para ele a cada am anhecer? Talvez Shelly e Steve tivessem sim plesm ente ido em bora sozinhos. Sem Raoul. Sem inim igos ou exércitos am eaçando seu futuro im ediato.

Talvez fosse esse o verdadeiro significado do que Riley dissera sobre tê-los perdido para o

sol. Fugitivos. E, nesse caso, ele ficara feliz por Diego não ter desertado tam bém , certo?

Ah, se Diego e eu tivéssem os fugido! Estaríam os livres, com o Shelly e Steve. Sem regras, sem m edo do raiar do sol.

Mais urna vez, im aginei todos nós soltos, sem hora para voltar para casa. Podia até ver Diego e eu nos m ovendo com o ninj as pelas som bras. Mas tam bém podia ver Raoul, Kevin e os outros, m onstros brilhantes com o globos de luz no m eio de um a rua m ovim entada no centro da cidade, os corpos se acum ulando, a gritaria, os helicópteros sobrevoando a área, os policiais im potentes com suas balas patéticas que não causariam nem arranhões, as câm eras, o pânico

que se alastraria tão depressa quanto as fotos, com partilhadas rapidam ente m undo afora.

Vam piros não seriam um segredo por m uito tem po. Nem m esm o Raoul conseguiria m atar as pessoas rápido o bastante para im pedir que a história se espalhasse.

Havia ali um a linha de raciocínio que eu tentava apreender antes de m e distrair novam ente.

Um : hum anos não sabiam sobre a existência de vam piros. Dois: Riley nos incentivava a

ser discretos, a não atrair a atenção dos hum anos ou, do contrário, eles nos reconheceriam . Três: Diego e eu havíam os deduzido que todos os vam piros deviam seguir as m esm as diretrizes, ou o m undo inteiro saberia sobre nós. Quatro: devia haver urna razão para tudo ser m antido com o era, e certam ente não eram as arm as inofensivas da polícia hum ana o que os m otivava. Sim , a razão tinha de ser m uito séria para obrigar todos os vam piros a se esconder o dia inteiro em porões abafados. Razão suficiente, talvez, para fazer Riley e nossa criadora m entirem para nós e nos aterrorizarem com o sol incinerador. Quem sabe Riley explicaria a razão a Diego, que, dada a im portância daquilo e sendo ele tão responsável, prom eteria guardar o segredo — e os dois se dariam por satisfeitos. Sem dúvida.

Mas e se o que havia acontecido a Shelly e Steve fosse o oposto? Eles tinham descoberto a história da pele brilhante, m as não fugiram ? E se foram falar com Riley ?

E, droga, isso destruía o elo seguinte na m inha cadeia lógica. A linha de raciocínio se interrom peu e com ecei a entrar em pânico outra vez, por causa de Diego.

O nervosism o aum entava, e percebi que tinha passado um bom tem po pensando. Podia sentir a m anhã se aproxim ando. Não faltava m ais que um a hora. Então, onde estava Diego?

Onde estava Riley ?

Eu ainda pensava nisso quando a porta se abriu e Raoul pulou os degraus da escada, rindo com os com panheiros. Eu m e encolhi e cheguei m ais perto de Fred. Raoul não nos notou. Ele olhou para o vam piro torrado no m eio do porão e riu ainda m ais. Seus olhos estavam verm elhos e brilhantes.

Nas noites em que saía para caçar, Raoul raram ente retornava antes que fosse absolutam ente necessário. Ele continuava se alim entando enquanto desse. Então, o raiar do dia devia estar ainda m ais próxim o do que eu havia pensado.

Riley devia ter exigido que Diego provasse o que dizia. Essa era a única explicação. E eles esperaram pelo am anhecer. Mas... isso significava que Riley não sabia a verdade, que nossa

criadora estava m entindo para ele tam bém . Ou não? Meus pensam entos se confundiram outra vez.

Kristie apareceu m inutos m ais tarde com três de seus parceiros. Ela reagiu com indiferença à pilha de cinzas. Fiz um a contagem rápida quando m ais dois caçadores passaram correndo pela porta. Vinte vam piros. Todos estavam em casa, exceto Diego e Riley. O sol surgiria a qualquer m om ento.

A porta no topo da escada do porão rangeu quando alguém a em purrou. Eu m e levantei de um salto.

Riley entrou. E fechou a porta. E desceu a escada.

Não havia ninguém com ele.

Antes que eu pudesse processar a inform ação, Riley gritou, um anim alesco urro de raiva. Ele olhava para as cinzas no chão, os olhos tom ados pela fúria. Todos ficaram em silêncio, im óveis. Já tínham os visto Riley perder a calm a, m as aquilo foi diferente.

Ele se virou e agarrou um a caixa de som que estava presa à parede, arrem essando-a do outro lado da sala. Jen e Kristie se desviaram do obj eto, que se despedaçou contra a parede, espalhando um a nuvem de cim ento e gesso. Depois esm agou o aparelho de som com o pé, e o

baixo retum bante foi calado. Ele então saltou para onde estava Raoul e o agarrou pelo pescoço.

— Eu nem estava aqui — Raoul gritou, apavorado.

Isso era algo que eu nunca havia visto antes.

Riley grunhiu hediondam ente e arrem essou Raoul com o havia feito com a caixa de som . Jen e Kristie novam ente saíram da rota do m íssil. O corpo de Raoul atravessou a parede, abrindo ali um enorm e buraco.

Riley agarrou Kevin pelo om bro e — com um ruído fam iliar — arrancou sua m ão direita.

Kevin gritou de dor e tentou escapar das garras de Riley, que o chutou na altura das costelas. Outro grito lancinante e Riley arrancou o que restava do braço de Kevin. Ele partiu o braço em dois, na altura do cotovelo, e atirou os pedaços no rosto angustiado de Kevin — o barulho foi com o o de um m artelo batendo em um a pedra.

— Qual é o problem a com vocês? — Riley gritou para todos nós. — Por que são tão estúpidos? — Ele tentou agarrar o garoto louro fã do Hom em -Aranha, m as ele saltou e conseguiu

escapar. O salto o deixou bem perto de Fred, e ele pulou de volta para perto de Riley, sufocado pela ânsia de vôm ito.

— Algum de vocês tem cérebro?

Riley lançou um garoto cham ado Dean na direção dos consoles dos gam es, destruindo tudo, depois pegou outra m enina — Sara — e arrancou sua orelha esquerda e um punhado de cabelos. Ela rosnou agoniada.

De repente ficou óbvio que o que Riley estava fazendo era m uito perigoso. Éram os m uitos ali. Raoul j á estava de volta. Kristie e Jen, norm alm ente suas inim igas, colocavam -se a seu lado em atitude defensiva. Alguns outros se uniam em grupos no espaço do porão.

Eu não entendi se Riley tinha percebido a am eaça ou se o acesso de fúria chegara naturalm ente ao fim . Ele respirou fiando. Jogou a orelha e os cabelos de volta para Sara, que se encolheu com m edo. Ela lam beu o pedaço de orelha — o próprio veneno faria com que ele se reintegrasse ao restante do corpo. Mas não havia solução para o cabelo arrancado; Sara teria um a pequena calvície perm anente.

— Escutem bem ! — Riley disse em voz baixa, m as firm e. — A vida de todos nós depende de vocês ouvirem o que vou dizer agora e pensarem! Todos vão m orrer. Cada um de

nós, vocês e eu tam bém , se não forem capazes de agir com o se tivessem cérebro. Só por alguns dias!

O discurso não tinha nenhum a sem elhança com suas habituais pregações e tentativas de nos controlar. Definitivam ente, ele conseguira atrair a atenção de todos.

— É hora de crescer e assum ir responsabilidades. Acham que vão viver desse j eito de graça? Acham que todo o sangue de Seattle não tem um preço?

Os pequenos grupos de vam piros j á não pareciam am eaçadores. Todos estavam

assustados, alguns trocavam olhares perplexos. Pelo canto do olho, vi que Fred virou o rosto para m im , m as não o encarei. Minha atenção estava focada em duas coisas: Riley, para o caso de ele com eçar a atacar novam ente, e a porta. A porta, que continuava fechada.

— Estão m e ouvindo agora? Estão ouvindo de verdade? — Riley fez um a pausa, m as ninguém respondeu. A sala estava absolutam ente quieta. — Vou explicar o sistem a precário em que todos vocês estão inseridos. Vou tentar falar de m odo bem sim ples, para os m ais estúpidos acom panharem . Raoul, Kristie, venham aqui.

Riley cham ou os líderes das duas m aiores gangues, naquele breve m om ento aliados contra ele. Nenhum dos dois atendeu ao cham ado. Em vez disso, se prepararam para um

confronto, Kristie m ostrando os cientes.

Esperei que Riley retrocedesse, que se desculpasse. Para acalm á-los e depois convencê-los a fazer o que ele queria. Mas aquele era um Riley diferente.

— Muito bem — ele disse. — Vam os precisar de líderes para garantir nossa sobrevivência, m as vej o que nenhum dos dois está preparado para a tarefa. Pensei que tivessem aptidão para liderar. Estava enganado. Kevin, Jen, por favor, j untem -se a m im com o chefes dessa equipe.

Kevin levantou a cabeça perplexo. Ele havia acabado de pôr o braço de volta no lugar.

Em bora cautelosa, sua expressão tam bém revelava evidente satisfação. Ele se levantou devagar. Jen olhou para Kristie com o se esperasse sua perm issão. Raoul rangeu os dentes.

A porta no alto da escada continuava fechada.

— Tam bém não é capaz? — Riley perguntou irritado.

Kevin deu um passo na direção de Riley, m as Raoul adiantou-se a ele, atravessando o porão com dois saltos fabulosos, em bora baixos. Ele j ogou Kevin contra a parede sem dizer urna única palavra e assum iu a posição atrás de Riley , à direita.

Riley se perm itiu um sorriso contido. A m anipulação não fora sutil, m as acabou sendo

eficiente.

— Kristie ou Jen, quem vai liderar? — Riley perguntou, parecendo gostar daquilo.

Jen ainda esperava por um sinal de Kristie quanto ao que deveria fazer. Kristie a encarou por um instante, depois afastou do rosto os cabelos claros e lançou-se com o um raio para ocupar o posto à esquerda de Riley .

— Essa decisão foi m uito dem orada — Riley disse num tom sério. — Não tem os o luxo do tem po. Não podem os m ais ficar por aí brincando. Deixei vocês fazerem praticam ente tudo o que quiseram , m as isso acaba hoj e. Esta noite.

Ele olhou em volta, encarando cada um de nós, certificando-se de que o escutávam os. Na m inha vez, sustentei seu olhar apenas por um segundo e depois m eus olhos escorregaram para a

porta. Corrigi o deslize im ediatam ente, m as Riley j á não m e olhava. Eu m e perguntei se ele havia notado o lapso. Ou m esm o se havia m e visto, j á que eu estava ao lado de Fred.

— Tem os um inim igo — Riley anunciou.

Ele deixou que a notícia pairasse no ar por um instante.

Eu podia notar que a inform ação foi um choque para vários vam piros ali no porão. O inim igo era Raoul, ou, para os partidários de Raoul, o inim igo era Kristie. O inim igo estava ali, porque o m undo todo estava ali. A ideia de que lá fora havia outras forças suficientem ente

poderosas para nos afetar era nova para a m aioria. E até o dia anterior, tam bém teria sido nova para m im .

— Alguns de vocês talvez tenham sido suficientem ente espertos para terem notado que, se existim os, outros vam piros tam bém existem . Vam piros m ais velhos, m ais inteligentes.., m ais talentosos. Outros vam piros que querem nosso sangue!

Raoul sibilou, e vários de seus seguidores o im itaram num a dem onstração de apoio.

— Exatam ente — Riley confirm ou, aparentem ente com a intenção de inflam á-los. — Seattle j á pertenceu a eles, m as esses vam piros se m udaram há m uito tem po. Agora sabem sobre nós, e estão com invej a do sangue fácil que costum avam ter por aqui. Sabem que o território agora é nosso, m as querem tom á-lo de volta. E estão vindo buscar o que querem . Um a um , eles vão nos caçar! Vam os queim ar enquanto eles se banqueteiam !

— Nunca! — Kristie rosnou.

Alguns de seus seguidores fizeram o m esm o, e outros da gangue de Raoul tam bém .

— Não tem os m uitas opções — Riley nos disse. — Se esperarm os aqui, eles terão a vantagem . Afinal, estam os em um território conhecido pelo inim igo. E eles não querem um confronto direto, porque estam os em m aior núm ero e som os m ais fortes. Querem nos pegar separadam ente; querem tirar proveito da nossa m aior fraqueza. Algum de vocês tem inteligência suficiente para saber qual é?

Ele apontou para as cinzas no chão, agora espalhadas pelo tapete e im possíveis de reconhecer com o um ex-vam piro, e esperou.

Ninguém se m exeu.

Riley soltou um ruído de contrariedade.

— União! — ele gritou. — Não tem os nenhum a! Que tipo de am eaça podem os oferecer se não param os de nos m atar? — Ele chutou as cinzas, levantando um a pequena nuvem negra. — Podem im aginar com o vão rir de nós? Já estão certos de que vai ser fácil tom ar a cidade que agora é nossa. Acreditam que som os fracos porque som os estúpidos! Que vam os sim plesm ente entregar nosso sangue.

Metade dos vam piros rosnava, protestando.

— São capazes de trabalhar j untos? Ou vam os todos m orrer?

— Podem os acabar com eles, chefe. — Raoul grunhiu.

Riley o encarou furioso.

— Não se não conseguirem se controlar! Não se não puderem cooperar com cada pessoa nesta sala. Qualquer um que elim inarem — ele chutou as cinzas m ais um a vez — pode ser aquele que o teria m antido vivo. Cada vez que m atam alguém do próprio bando, estão dando um valioso presente ao inim igo. Estão dizendo: Aqui, venha me matar!

Kristie e Raoul se olharam com o se estivessem se vendo pela prim eira vez. Outros faziam

o m esm o. A palavra bando não era desconhecida, claro, m as nenhum de nós a aplicara antes ao

nosso grupo.

— Vou falar um pouco sobre os nossos inim igos — disse Riley , e todos os olhos se fixaram nele. — Eles são um bando m uito m ais antigo que o nosso. Estão por aí há centenas de anos e sobrevivem há tanto tem po por um a razão. São astutos e talentosos e virão retom ar Seattle confiantes, porque ouviram dizer que os únicos adversários que terão nessa retom ada são um bando de crianças desorganizadas que farão m etade do trabalho por eles!

Mais grunhidos, m as alguns eram m enos furiosos que cautelosos. Alguns dos vam piros m ais quietos, os que Riley teria cham ado de mais domesticados, pareciam nervosos.

E Riley tam bém percebeu esse nervosism o.

— É assim que eles nos veem , m as isso porque não conseguem nos ver juntos. Juntos,

podem os destruí-los. Se eles pudessem ver todos nós, lado a lado, lutando j untos, ficariam

aterrorizados. E é assim que nos verão. Porque não vam os esperar que eles apareçam aqui e se lancem ao ataque. Vam os pegá-los num a em boscada. Em quatro dias.

Quatro dias? Não achava que nossa criadora fosse querer agir tão perto do prazo final. Olhei novam ente para a porta fechada. Onde estaria Diego?

Outros reagiram com surpresa ao prazo anunciado, alguns com m edo.

— Essa é a últim a coisa pela qual eles vão esperar — Riley nos garantiu — Todos nós, juntos, prontos para enfrentá-los. E deixei a m elhor parte para o final. Eles são apenas sete.

Houve um instante de silêncio incrédulo. Raoul foi o prim eiro a reagir:

— O quê?

Kristie olhava para Riley com a m esm a incredulidade, e ouvi sussurros pelo porão.

— Sete?

— Está brincando?

— Ei! — Riley disparou, firm e. — Eu não estava brincando quando disse que esse bando é perigoso. Eles são inteligentes e... diabólicos. Dissim ulados. Terem os a força do nosso lado; eles

terão a sagacidade. Se j ogarm os do j eito deles, eles serão os vencedores. Mas se os enfrentarm os nos nossos term os... — Riley não term inou a frase, apenas sorriu.

— Vam os agora — Raoul propôs. — Vam os tirá-los logo de cena.

Kevin rosnou entusiasm ado, apoiando a sugestão.

— Devagar, idiota. Apressar as coisas e agir sem planej am ento não vai nos aj udar a vencer — Riley retrucou.

— Conte tudo o que precisam os saber sobre eles — Kristie pediu, lançando para Raoul um

olhar de superioridade.

Riley hesitou, com o se estivesse escolhendo as palavras.

— Muito bem , por onde com eço? Acho que a prim eira coisa que precisam saber é que...

vocês ainda não sabem tudo que há para saber sobre vam piros. Não quis assustá-los no com eço com tanta inform ação. — Outra pausa. Todos pareciam confusos. — Vocês têm um pouco de

experiência com o que cham am os de “talentos”. Tem os Fred.

Todos olharam para Fred — ou tentaram olhar. Pela expressão de Riley, eu podia dizer que Fred não gostava nada de ser apontado com o exem plo. A im pressão era de que ele elevara realm ente à potência m áxim a seu “talento”, com o Riley cham ava. Riley se encolheu e desviou os olhos rapidam ente. Eu ainda não sentia nada.

— Sim , existem alguns vam piros que têm dons além da força incom um e dos sentidos aguçados. Vocês viram um exem plo disso em ... no nosso bando. — Ele tom ou o cuidado de não repetir o nom e de Fred. — Os dotados de talentos especiais são raros, um em cinquenta, talvez,

m as cada um é diferente. Há um a vasta gam a de talentos por aí, e alguns são m ais poderosos que outros.

Eu ouvia agora vários m urm úrios, pessoas im aginando se podiam ser talentosas. Raoul inflava o peito com o se j á houvesse decidido que tinha algum talento. Até eu podia perceber que o único por ali que se enquadrava naquela categoria especial estava bem ao m eu lado.

— Prestem atenção! — Riley exigiu. — Não estou aqui falando isso tudo para vocês se distraírem .

— Esse bando inim igo — interveio Kristie eles têm talentos, certo?

Riley respondeu com um m ovim ento afirm ativo de cabeça.

— Exatam ente. Fico feliz por alguém aqui conseguir ligar os pontos.

Raoul retraiu o lábio superior, m ostrando os dentes.

— Esse bando é perigosam ente talentoso — Riley continuou, baixando um pouco a voz. — Há entre eles alguém que lê m entes. — Ele exam inou o rosto de cada um de nós, tentando identificar se com preendíam os a im portância dessa revelação. E não parecia satisfeito com o que via. — Pensem, garotos! Essa criatura vai saber tudo o que vocês têm em m ente. Se

atacarem , ele vai saber que m ovim ento farão antes que vocês se m ovam . Se forem para a

esquerda, ele estará esperando.

Houve um silêncio nervoso enquanto todos im aginavam a situação.

— É por isso que tem os sido tão cuidadosos, eu e aquela que os criou.

Kristie deu um passo para longe de Riley quando ele a m encionou. Raoul parecia m ais furioso. Todos estavam nervosos.

— Vocês não sabem o nom e dela e não sabem com o ela é. Isso nos protege. Se eles

encontrassem um de vocês sozinho, não perceberiam a ligação com ela e poderiam deixá-lo seguir seu cam inho em paz. Porém , se soubessem que vocês fazem parte do bando, a execução

seria rápida.

Isso não fazia sentido para m im . O segredo não a protegia m ais do que protegia qualquer um de nós? Riley continuou depressa antes que tivéssem os tem po de analisar essa afirm ação.

— É claro, agora não im porta, agora que eles decidiram vir para Seattle. Vam os surpreendê-los quando se aproxim arem daqui, e vam os acabar com eles. — Ele silvou, um a única nota baixa por entre os dentes. — Pronto. E então não só essa cidade será nossa, com o outros bandos saberão que não é bom se m eter conosco. Não terem os m ais que tom ar tanto

cuidado para encobrir nossos rastros. Todo m undo vai ter todo o sangue que quiser. Vam os caçar todas as noites. Vam os nos m udar para a cidade e vamos governá-la.

Os grunhidos e rosnados eram com o aplausos. To dos o apoiavam . Exceto eu. Eu não m e m ovi, não em iti nenhum som . Fred tam bém não, m as por que seria?

Eu não apoiava Riley porque suas prom essas soavam com o m entiras. Ou toda a m inha linha de raciocínio estava errada. Riley dizia que só o que nos im pedia de caçar sem cautela ou contenção eram aqueles inim igos. Mas isso não batia com o fato de que todos os outros vam piros deviam ser m uito discretos, ou os hum anos j á saberiam de sua existência há m uito tem po.

Eu não conseguia m e concentrar na solução desse enigm a, porque a porta no alto da escada continuava fechada. Diego...

— Mas precisam os agir j untos. Hoj e vou ensinar a vocês algum as técnicas. Técnicas de luta. É m ais com plicado que rolar no chão com o crianças pequenas. Quando escurecer, vam os sair para treinar. Quero que treinem duro, m as m antenham o foco. Não posso perder m ais nenhum m em bro desse bando! Precisam os uns dos outros, cada um de nós. Não vou tolerar m ais nenhum a estupidez. Se acham que não precisam m e ouvir, estão errados. — Ele parou por um segundo, os m úsculos com pondo urna expressão diferente. — E vão descobrir quanto estão

enganados quando eu os levar até ela. — Eu estrem eci e senti o arrepio percorrer todos no porão. — Vou segurá-los enquanto ela arran ca suas pernas e depois, lentam ente, m uito lentamente,

queim a seus dedos, orelhas, lábios, língua e todos os outros apêndices supérfluos, um a um.

Todos j á havíam os perdido um m em bro, no m íni m o, e todos havíam os queim ado quando transform ados em vam piros, por isso podíam os im aginar com facilidade qual seria a sensação, m as o m ais aterrorizante não era a am eaça. O que realm ente causava m edo era a expressão de Riley enquanto descrevia a cena. O rosto não estava contorcido pela raiva, com o costum ava acontecer quando ele se irritava; sua expressão era calm a, fria, suave, linda, a boca distendida

em um sorriso sutil. De repente, tive a im pressão de que aquele era um novo Riley. Algo m udara nele, se tornara m ais severo, m as eu não conseguia im aginar o que poderia ter acontecido em um a noite para criar aquele sorriso cruel, perfeito.

Desviei o olhar, sacudida por um leve arrepio, e vi com o o sorriso de Raoul se m odificava para im itar o de Riley. Podia quase ver as engrenagens se m ovendo na cabeça de Raoul. No futuro, ele não m ataria suas vítim as com tanta rapidez.

— Agora, vam os m ontar equipes para trabalhar em grupos — Riley decidiu, o rosto voltando ao norm al. — Kristie, Raoul, reúnam seus garotos e dividam os outros igualm ente entre vocês. Sem briga! Mostrem que podem fazer tudo isso de m aneira racional. Provem seu valor.

Ele se afastou dos dois líderes, ignorando o fato de eles terem com eçado a discutir im ediatam ente, e descreveu um arco pela periferia do porão. Ele tocava alguns vam piros no om bro ao passar por eles, incentivando-os a se aproxim ar de um dos dois novos líderes. Riley deu urna volta enorm e, e dem orei a perceber que vinha em m inha direção.

— Bree — ele disse, olhando com dificuldade para o lugar onde eu estava, com o se olhar

para m im fosse custoso.

Eu m e senti um bloco de gelo. Ele devia ter farej ado m inha trilha. Estava m orta.

— Bree? — ele repetiu, agora num tom m ais suave. A voz m e fez lem brar a prim eira vez que ele falou com igo. Quando ele foi bom para m im . E depois, ainda m ais baixo: — Prom eti a Diego que daria o recado. Ele m e pediu que lhe dissesse que foi um a coisa ninj a. Isso faz algum sentido para você?

Riley ainda não conseguia olhar diretam ente para m im , m as estava se aproxim ando.

— Diego? — m urm urei, não consegui m e conter.

Riley sorriu.

— Podem os conversar? — Ele inclinou a cabeça para a porta. —Já verifiquei todas as j anelas. O prim eiro andar está totalm ente escuro e seguro.

Eu sabia que não estaria m ais tão segura quando m e afastasse de Fred, m as precisava ouvir o que Diego queria que eu soubesse. O que havia acontecido? Eu devia ter ficado com ele para ir ao encontro de Riley .

Segui Riley pelo porão, sem pre de cabeça baixa. Ele deu algum as instruções a Raoul, cum prim entou Kristie com um aceno de cabeça e subiu a escada. Pelo canto dos olhos, notei que alguns acom panhavam curiosos sua m ovim entação.

Riley passou pela porta prim eiro e, com o ele havia afirm ado, a cozinha da casa estava totalm ente escura. Fez um sinal para que eu continuasse seguindo seus passos e m e levou por um corredor escuro com alguns quartos de portas abertas, depois atravessam os um a porta cuj a tranca ele rem oveu. Fom os parar na garagem .

— Você é coraj osa — ele com entou em voz baixa. — Ou é m uito ingênua. Esperava ter

m ais trabalho para convencê-la a deixar o porão com o sol alto.

Opa! Eu deveria ter dem onstrado m edo, hesitação. Mas agora era tarde dem ais. Encolhi os om bros.

— Então, você e Diego são bem próxim os, não é? — ele perguntou. Falava tão baixo que

as palavras m ais pareciam suspiros. Ainda assim , se todos ficassem em silêncio no porão,

provavelm ente poderiam ouvi-lo, m as o barulho lá em baixo, porém , era agora assustador.

Encolhi os om bros m ais um a vez.

— Ele salvou m inha vida — m urm urei.

Riley levantou o queixo, quase um aceno, m as incom pleto, e m e estudou. Ele acreditava

em m im ? Pensava que eu ainda tinha m edo da luz do dia?

— Ele é o m elhor — Riley respondeu. — O m ais esperto que encontrei.

Concordei, m ovendo a cabeça um a vez.

— Tivem os um a breve reunião sobre a situação. Concluím os que precisam os de m ais vigilância. Prosseguir às cegas é m uito perigoso. Ele é o único em quem confio para m andar na frente. — Riley suspirou quase furioso. — Queria ter dois dele! Raoul tem pavio m uito curto, e

Kristie é m uito autocentrada para conseguir enxergar o panoram a geral, m as eles são os m elhores que tenho, e vou ter que m e contentar com isso. Diego disse que você tam bém é esperta.

Esperei, sem saber quanto da história Riley sabia.

— Preciso da sua aj uda com Fred. Puxa, aquele garoto é forte! Hoj e nem consegui olhar

para ele.

Assenti outra vez, cautelosa.

— Im agine se nossos inim igos não puderem nem olhar para nós. Vai ser m uito fácil!

Eu não acreditava que Fred fosse gostar da ideia, m as podia estar enganada. Ele não

parecia se im portar com nosso bando. Será que ia querer nos salvar? Não respondi a Riley .

— Você passa m uito tem po com ele.

Mais urna vez, dei de om bros.

— Perto dele ninguém m e incom oda. Não é fácil. Riley apertou os lábios e assentiu com a cabeça. — Esperta, com o Diego disse.

— Onde ele está?

Eu não devia ter perguntado. As palavras sim plesm ente saíram da m inha boca por vontade própria. Esperei, ansiosa, tentando parecer indiferente e, provavelm ente, falhando.

— Não tem os tem po a perder. Eu o enviei para o sul assim que descobri o que se aproxim a de nós. Se nossos inim igos decidirem antecipar o ataque, precisam os saber. Diego estará conosco quando form os ao encontro deles.

Tentei im aginar onde Diego estaria. Queria estar lá com ele. Talvez conseguisse convencê-lo a não seguir as ordens de Riley, não se colocar na linha de fogo por ele. Talvez não conseguisse. Tudo indicava que Diego era realm ente próxim o de Riley , com o eu tem ia.

— Diego m e pediu para lhe dizer um a coisa.

Eu o encarei. Depressa dem ais, ansiosa dem ais. E m e entreguei novam ente.

— Para m im , soou com o um a bobagem . Ele falou: “Diga a Bree que j á pensei no cum prim ento. Eu m ostro a ela em quatro dias, quando nos encontrarm os.” Faz algum sentido para você?

Tentei fazer cara de desentendida.

— Um pouco. Ele disse algo sobre precisar de uni cum prim ento secreto. Para a caverna subaquática. Um a espécie de senha. Mas acho que estava apenas brincando. Não sei o que pode querer m e dizer agora com esse recado.

Riley riu.

— Pobre Diego.

— Por quê?

— Acho que aquele garoto gosta m uito m ais de você que você dele.

— Ah... — Desviei o olhar, confusa.

Diego m e m andara aquele recado com o um m eio de m e fazer entender que podia confiar em Riley ? Mas ele não contara a Riley que eu sabia sobre o sol. Ainda assim , devia confiar em Riley para revelar tanto, dem onstrar que gostava de m im . Mas eu achava m ais sensato m anter a boca fechada. Muitas coisas tinham m udado.

— Não o descarte, Bree. Ainda não. Ele é o m elhor, com o eu disse. Dê um a chance ao garoto.

Riley estava m e dando um conselho rom ântico? Aquilo não podia ficar m ais esquisito do que j á estava. Assenti um a vez e m urm urei:

— É claro.

— Vej a se consegue conversar com Fred. Ter certeza de que ele está conosco.

— Farei o que puder — disse, encolhendo os om bros m ais um a vez.

Riley sorriu.

— Ótim o. Vou encontrar você em particular antes de partirm os, e então m e contará com o foi. Farei com que tudo pareça casual, não com o hoj e. Não quero que ele sinta que o estou espionando.

— Tudo bem .

Riley fez um gesto m e convidando a segui-lo e nós voltam os ao porão.

O treinam ento durou o dia inteiro, m as eu não participei. Quando Riley voltou para perto de sua dupla de líderes, retornei para o m eu lugar ao lado de Fred. Os outros tinham sido divididos em quatro grupos de quatro, com Raoul e Kristie os orientando. Nenhum dos dois escolhera Fred

para sua equipe; ou ele os ignorara, ou ninguém sequer havia percebido que ele estava ali. Mas eu conseguia vê-lo. Ele se destacava — o único que não estava participando, um grande elefante louro no m eio da sala.

Sem nenhum interesse em integrar um a das equipes, eu apenas observava. Ninguém parecia notar que eu estava sentada com Fred. Em bora fôssem os de certa form a invisíveis, graças ao talentoso Fred, eu m e sentia terrivelm ente óbvia. Queria ser invisível para mim mesma

— queria poder ver a ilusão e acreditar nela.

Mas ninguém nos notava, e depois de um tem po consegui quase relaxar.

Assisti ao treino atentam ente. Queria saber tudo, por precaução. Não planej ava lutar; m inha intenção era encontrar Diego e fugir de tudo aquilo. Mas e se Diego quisesse a luta? Ou se tivéssem os de lutar para escapar dos outros? Era m elhor prestar atenção.

Só um a vez alguém perguntou por Diego. Foi Kevin, m as eu tinha a im pressão de que Raoul o incitara a perguntar.

— E então, Diego acabou frito, m esm o? — Kevin perguntou com um tom de deboche forçado.

— Diego está com ela — Riley respondeu, e ninguém precisou perguntar a quem ele se

referia. — Vigilância.

Alguns poucos deram de om bros. Ninguém disse m ais nada sobre Diego.

Ele estaria m esm o com ela? A ideia m e incom odava. Talvez Riley só quisesse evitar

novas perguntas. Provavelm ente, não queria que Raoul ficasse encium ado e se sentisse preterido,

especialm ente agora, quando Riley precisava dele m ais arrogante que nunca. Eu não podia ter certeza e não ia perguntar. Fiquei quieta, com o de costum e, e continuei assistindo ao treino.

No final, assistir ficou sem graça, e a sede com eçou a se m anifestar. Riley não deu descanso a seu exército por três dias e duas noites. Durante o dia era m ais difícil m e m anter fora da situação, porque ficávam os todos esprem idos no porão. De certa form a, isso tornava tudo m ais fácil para Riley, pois ele podia interrom per um a briga rapidam ente, antes que ela se com plicasse. À noite, do lado de fora, eles tinham m ais espaço para treinar de verdade, m as Riley ficava ocupado na urgência para resgatar m em bros arrancados e devolvê-los rapidam ente aos donos. Ele controlava bem seu tem peram ento, e dessa vez fora suficientem ente astuto para recolher todos os isqueiros. Eu teria apostado que aquilo tudo ia escapar ao controle, que perderíam os pelo m enos alguns do bando com Raoul e Kristie se enfrentando dia e noite. Mas

Riley os controlava bem , m elhor do que eu havia pensado ser possível.

De qualquer m aneira, tudo era basicam ente repetição. Ouvi Riley dizendo a m esm a coisa m uitas e m uitas vezes. Trabalhem juntos, cuidado com a retaguarda, não ataquem de frente;

trabalhem juntos, cuidado com a retaguarda, não ataquem de frente; trabalhem juntos, cuidado

com a retaguarda, não ataquem de frente. Era m eio ridículo, francam ente, e fazia o grupo

parecer excepcionalm ente estúpido. Mas eu tinha certeza de que teria sido igualm ente estúpida se estivesse com eles no m eio da briga, em vez de m e m anter apenas com o um a espectadora tranquila ao lado de Fred.

Aquilo m e lem brava de algum m odo com o Riley havia incutido em nós o m edo do sol. Repetição constante.

Mesm o assim , era tão chato que, depois de um as dez horas naquele prim eiro dia, Fred

arrum ou um baralho e com eçou a j ogar paciência. Era m ais interessante que assistir aos m esm os erros m uitas e m uitas vezes, por isso passei a m aior parte do tem po observando-o.

Depois de m ais um as doze horas — estávam os no porão novam ente —, toquei Fred para apontar um cinco verm elho que ele poderia m udar de lugar. Ele balançou a cabeça, concordando com igo, e m oveu o cinco. Depois dessa m ão, ele distribuiu as cartas para nós dois, e j ogam os j untos. Não nos falávam os, m as Fred sorriu algum as vezes. Ninguém j am ais olhava na nossa direção ou nos convidava a participar do treinam ento.

Não havia intervalos para caçar c, conform e o tem po passava, essa necessidade foi

ficando cada vez m ais difícil de ignorar. As brigas eram m ais constantes e surgiam pelas m enores provocações. O com ando de Riley se tornou m ais severo, e ele m esm o arrancou dois braços. Eu tentava esquecer a sede ardente tanto quanto possível — Riley tam bém devia estar com sede, então aquela situação não iria durar para sem pre —, m as, na m aior parte do tem po, a sede ocupava o centro dos m eus pensam entos. Fred parecia bem tenso.

No início da terceira noite — guando ainda faltava um dia e, ao pensar no tem po passando, eu j á tinha a im pressão de que m eu estôm ago vazio era um enorm e nó —, Riley interrom peu todas as lutas.

— Reúnam -se, crianças — ele disse, e todos se j untaram em um sem icírculo diante dele.

As gangues originais se m antinham j untas, sinal de que o treino não havia alterado nenhum a das alianças. Fred pôs o baralho no bolso traseiro da calça e se levantou. Eu fiquei de pé ao lado dele, contando com sua aura repulsiva para m e esconder.

— Todos fizeram um bom trabalho — Riley co m eçou. — Esta noite, terão um a recom pensa. Alim entem -se, porque am anhã vão querer ter força.

Grunhidos aliviados soaram em todos os grupos.

— Eu disse querer, e não precisar, por um m otivo — Riley continuou. — Acho que vocês

j á entenderam . Agiram com inteligência e trabalharam duro. Nossos inim igos nem vão saber o que os atingiu!

Kristie e Raoul rosnaram , e todos os seus aliados fizeram o m esm o. Eu estava surpresa com o que via: naquele m om ento, eles pareciam m esm o um exército.

Não que estivessem m archando em form ação ou algo cio tipo, m as havia um a espécie de unidade na resposta. Com o se todos fizessem parte de um grande organism o. Com o sem pre, Fred e eu éram os as gritantes exceções, m as eu achava que apenas Riley tinha urna vaga noção da nossa presença. De vez em quando, ele olhava pelo canto do olho para onde estávam os, quase com o se quisesse ter certeza de que ainda podia sentir o talento de Fred. E Riley não parecia se im portar por não nos j untarm os ao treinam ento. Por enquanto, pelo m enos.

— Quer dizer am anhã à noite, certo, chefe? — Raoul esclareceu.

— Certo — Riley confirm ou com um sorrisinho estranho.

Ninguém parecia ter notado nada de diferente na resposta, exceto Fred. Ele m e olhou com um a sobrancelha erguida. Eu encolhi os om bros.

— Estão prontos para a recom pensa? — Riley perguntou.

Seu pequeno exército rosnou em resposta.

— Esta noite vocês terão um a am ostra de com o será nosso m undo quando a concorrência for elim inada. Venham com igo!

Riley ia na frente; Raoul e seu grupo o seguiam de perto. O grupo de Kristie com eçou a em purrar e arranhar os da frente para ultrapassá-los.

— Não m e façam m udar de ideia! — Riley gritou das árvores adiante. — Posso deixar todos com sede. Não vou m e im portar!

Kristie berrou um a ordem e seu grupo seguiu indignado atrás do de Raoul. Fred e eu esperam os até o últim o deles desaparecer. Então, Fred fez com o braço um daqueles gestos de primeiro as damas. Não senti que ele tivesse m edo de m e dar as costas. Estava apenas sendo

gentil. Com ecei a correr atrás do exército.

Os outros j á estavam bem longe, m as era fácil farej á-los. Fred e eu corríam os num silêncio cúm plice. Tentei im aginar o que ele estaria pensando. Talvez estivesse apenas com sede.

Eu queim ava; então, provavelm ente, ele tam bém .

Alcançam os os outros em cerca de cinco m inutos, m as nos m antivem os distantes. O exército se m ovia num silêncio espantoso. Estavam focados, e m ais... disciplinados. Lam entei que Riley não tivesse com eçado o treinam ento há m ais tem po. Agora era m ais fácil ficar perto do grupo.

Atravessam os um a estrada de duas pistas com pletam ente vazia, m ais um trecho de floresta, e chegam os a um a praia. A água era calm a, e com o havíam os cam inhado quase o

tem po todo no sentido norte, aquele devia ser o estreito. Não passam os perto de nenhum a casa, e eu tinha certeza de que fora de propósito. Com sede e tensos, bastaria pouco para aquela m odesta organização term inar em um barulhento vale-tudo.

Nunca havíam os caçado todos j untos, e eu tinha certeza absoluta de que m esm o agora essa não era um a boa ideia. Lem brei-m e de Kevin e do garoto Hom em -Aranha brigando pela m ulher no carro naquela prim eira noite em que falei com Diego. Se Riley não tivesse um bom suprim ento de corpos a oferecer, o grupo com eçaria a se digladiar para ver quem conseguiria m ais sangue.

Riley parou na beirada da água.

— Não se acanhem — ele nos orientou. — Quero todos bem alim entados e fortes, no auge. Agora... vam os nos divertir!

Ele m ergulhou no m ar. Os outros estavam anim ados quando subm ergiram atrás dele. Fred e eu os seguim os m ais próxim os que antes, porque não conseguíam os farej á-los na água. Mas eu sentia que Fred hesitava, pronto para fugir, caso aquilo se transform asse em algo m ais que um banquete tipo “com a quanto puder”. Aparentem ente, ele confiava em Riley tanto quanto eu.

Não nadam os por m uito tem po e em ergim os quando vim os os outros retornando à superfície. Fred e eu fom os os últim os a sair, e Riley com eçou a falar assim que nos viu pôr a cabeça para fora da água, com o se esperasse por nós. Ele devia ter m ais consciência da presença de Fred que os outros.

— Lá está! — ele disse, apontando para urna grande balsa que navegava para o sul, provavelm ente fazendo a últim a travessia da noite, vindo do Canadá. — Esperem um m inuto.

Quando a energia cair, ela é toda de vocês.

Houve um m urm úrio entusiástico. Alguém riu.

Riley partiu com o um raio, e, segundos depois, nós o vim os subir pela lateral da grande em barcação. Ele seguiu diretam ente para a torre de com ando no topo do navio. Im aginei que planej asse silenciar o rádio. Riley podia dizer tudo que quisesse sobre os tais inim igos serem o m otivo da nossa cautela, m as eu tinha certeza de que havia m ais por trás de tudo aquilo. Os

hum anos não deviam saber da existência dos vam piros. Pelo m enos, não por m uito tem po — só os instantes que levam os para m atá-los.

Riley estraçalhou um a grande j anela de vidro com o pé para abrir cam inho e entrou na torre. Cinco segundos depois, as luzes se apagaram .

Percebi que Raoul j á havia partido. Provavelm ente subm ergira para que ninguém o escutasse nadando atrás de Riley. Todos os outros tam bém m ergulha ram , e a água se agitou com o se um enorm e cardum e de tubarões atacasse.

Fred e eu nadávam os atrás deles, sem m uita pressa. De um j eito estranho, era com o se fôssem os duas pessoas casadas há m uito tem po. Nunca conversávam os, m as ainda assim fazíam os tudo j untos.

Chegam os ao barco cerca de três segundos depois, e j á havia m uitos gritos e o cheiro característico de sangue. O cheiro m e fez perceber exatam ente quanto eu estava sedenta, e essa é a últim a coisa de que tenho consciência. Meu cérebro se desligou com pletam ente. Não havia nada senão a dor excruciante em m inha garganta e o sangue delicioso — sangue por toda parte — prom etendo aplacar aquela ardência.

Continuar: parte 5 de 6