A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Stephenie Meyer · Capítulo 2 de 2 · parte 5/6

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A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Bree Tanner

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Quando tudo acabou e não havia um único coração batendo na em barcação inteira, eu não sabia ao certo quantas pessoas eu m atara. Mais que o triplo de qualquer m arca j á atingida em qualquer outra expedição de caça anterior, isso era evidente. Eu m e sentia quente e agitada. Havia bebido m uito m ais do que precisava para saciar com pletam ente a sede e estava satisfeita com o j am ais estivera. Quase todo o sangue no navio era lim po e saudável — os passageiros não eram da escória. Eu não havia m e contido, m as estava entre os que m enos m ataram . Raoul estava cercado por tantos corpos que eles form avam um a pequena m ontanha. Sentado sobre a pilha de m ortos, ele ria alto.

E não era o único. O barco escuro era dom inado por ruídos de alegria e satisfação.

Kristie disse:

— Isso é fabuloso! Três vivas para Riley !

Alguém de seu grupo puxou um coro de urras que soava com o o canto de um bando de bêbados felizes.

Jen e Kevin pularam para o convés de volta da água.

— Pegam os todos, chefe — Jen gritou para Riley .

Algum as pessoas haviam saltado do barco num a tentativa desesperada e inútil de fuga. Eu nem notara.

Olhei em volta, à procura de Fred. Levei algum tem po para encontrá-lo. Finalm ente percebi que não conseguia olhar diretam ente para o canto escuro onde ficavam as m áquinas de com ida e fui até lá. No início tive a sensação de que o balanço da balsa m e causava o enj oo, m as quando m e aproxim ei o suficiente para superar a sensação, vi que era Fred em pé ao lado de um a j anela. Ele sorriu para m im , depois olhou por cim a da m inha cabeça. Segui a direção de seu olhar e com preendi que ele observava Riley. Tive a im pres são de que a observação silenciosa j á se estendia por algum tem po.

— Muito bem , crianças — Riley m anifestou-se. — Já tiveram um a am ostra da boa vida,

m as agora tem os trabalho a fazer!

Todos rosnaram com entusiasm o.

— Restaram três coisas a lhes dize, e um a delas envolve um a pequena sobrem esa. Então, vam os afundar o barco e voltar para casa!

Rindo e rosnando, o exército com eçou a trabalhar para desm antelar o barco. Fred e eu saltam os pela j anela e ficam os assistindo à dem olição a distância. Não levou m uito tem po ora a balsa se partir ao m eio com um estrondo alto de e tal se rom pendo. A parte do m eio afundou prim eiro, a proa e a popa se erguendo até apontarem para o céu. Afundaram um a de cada vez, a

popa poucos, segundos antes da proa. O cardum e de tubarões vinha em nossa direção. Fred e eu

com eçam os a nadar para a praia.

Voltam os para casa cor rendo com os outros, m as m antendo a nossa distância. Duas vezes Fred olhou para m im com o se quisesse dizer algo, m as nas duas vezes pareceu m udar de ideia.

Em casa, Riley esperou o clim a de com em oração esfriar. Mesm o depois de algum as

horas, ainda estava difícil devolver a seriedade ao grupo. Pela prim eira vez não era um a briga que ele tentava conter, m as sim anim ação. Se as prom essas de Riley fossem falsas, com o eu pensava, ele teria um problem a sério quando a em boscada term inasse. Agora que todos os vam piros tinham se banqueteado de verdade, não voltariam com facilidade à vida frugal e contida de antes. Mas naquela noite, pelo m enos, Riley era um herói.

Finalm ente, algum tem po depois de eu ter tido a sensação de que o sol j á surgia lá fora, todos estavam quietos e prestando atenção. Pelas expressões, era de im aginar que estivessem

prontos para ouvir qualquer coisa que ele quisesse dizer.

Riley estava parado na m etade da escada, sério.

— Três coisas — ele com eçou. — Prim eiro, precisam os ter certeza ele que pegam os o bando certo. Se encontrarm os acidentalm ente outro clã e partirm os para o ataque, darem os o alerta. Querem os o inim igo autoconfiante e despreparado. Há duas coisas que m arcam esse bando, e é m uito difícil deixar de notá-las. Um a é que são diferentes na aparência: têm olhos am arelos.

Houve um m urm úrio de confusão.

— Am arelos? — Raoul repetiu em tom de repulsa.

— Há m uitas coisas do m undo dos vam piros que vocês ainda não viram . Eu disse que esses vam piros eram velhos. Seus olhos são m ais fracos que os nossos, am arelados pela idade. Mais um a vantagem a nosso favor. — Ele assentiu, com o se quisesse dizer um a zero. — Mas,

com o existem outros vam piros antigos por aí, há m ais um aspecto que nos aj udará a reconhecê-los... E é aí que entra a sobrem esa que m encionei antes. — Riley sorriu e fez um a pausa breve para criar expectativa. — Essa vai ser difícil de processar — ele avisou. — Nem eu m esm o entendi bem , m as vi com m eus próprios olhos. Esses vam piros velhos ficaram tão mansos que há

entre eles, com o m em bro do bando, um a hum ana de estim ação.

A revelação provocou um profundo silêncio. Total incredulidade.

— Eu sei. É difícil de engolir. Mas é verdade. Saberem os im ediatam ente que são eles

porque haverá um a garota hum ana com o bando.

— Com o assim ...? — Kristie perguntou. — Está dizendo que eles carregam as refeições por aí ou coisa parecida?

— Não. É sem pre a m esm a garota, só ela, e eles não pretendem m atá-la. Não sei com o conseguem , nem por quê. Talvez gostem de ser diferentes, só isso. Talvez queiram exibir seu autocontrole. Talvez pensem que isso os faz parecer m ais fortes. Não faz sentido para m im . Mas

eu a vi. Mais que isso, senti o cheiro dessa hum ana.

Devagar e de um j eito dram ático, Riley levou a m ão ao bolso da j aqueta e tirou dele um saquinho plástico com um tecido verm elho dentro.

— Fiz um trabalho de reconhecim ento nas últim as sem anas, estudei os dos olhos am arelos assim que eles se aproxim aram da área. — Ele fez um a pausa para lançar um olhar paternal para o grupo. — Eu cuido das m inhas crianças. Finalm ente, quando tive certeza de que eles vinham em nossa direção, peguei isto — ele brandiu o pacote —, para nos aj udar a rastreá-los. Quero que todos vocês sintam esse cheiro.

Ele entregou o pacote a Raoul, que abriu o saco e inspirou profundam ente. Ele olhou assustado para Riley .

— Eu sei — Riley respondeu. — Incrível, não é? Raoul passou o pacote para Kevin, a testa franzida num a expressão pensativa.

— Um a um , todos os vam piros sentiram o cheiro do pacote e todos reagiram arregalando os olhos, m as foi só isso. Eu estava tão curiosa que m e afastei de Fred, e quando senti um a certa

náusea vi que estava fora do perím etro dele. Continuei até parar ao lado do garoto Hom em -Aranha, que parecia ser o últim o da fila. Ele cheirou o pacote quando chegou sua vez e se preparou para devolvê-lo ao m enino que o havia passado, m as estendi a m ão e sibilei baixo. Ele m e olhou espantado, com o se nunca m e tivesse visto, e entregou a em balagem transparente.

O tecido verm elho parecia ser um a blusa. Enfiei o nariz na abertura, com os olhos fixados nos vam piros perto de m im , só por precaução, e inalei.

Ah. Agora entendia a expressão dos outros e sabia que m eu rosto não estava m uito diferente. A hum ana que usara aquela cam isa tinha um sangue m uito doce. Quando Riley falara

em sobremesa, não poderia ter escolhido palavra m elhor. Por outro lado, eu nunca estivera m ais

satisfeita. Então, apesar de reconhecer o forte poder de atração daquele arom a, não sentia na garganta a dor excruciante. Seria fabuloso poder sentir o sabor daquele sangue, m as, naquele cauto m om ento, não sofria por não poder bebê-lo.

Tentei im aginar quanto tem po levaria até que volt asse a sentir sede. Norm alm ente,

algum as horas depois de se alim entar j á podia sentir a dor voltando, e ela só piorava e piorava até — depois de uns dois dias — ser im possível ignorá-la m esm o que apenas por um segundo. A quantidade excessiva de sangue que havia acabado de beber adiaria esse processo? Eu logo saberia.

Olhei em volta para ter certeza de que ninguém esperava pelo pacote, porque achava que Fred devia estar curioso tam bém . Riley percebeu m eu olhar, sorriu quase im perceptivelm ente e inclinou a cabeça unia fração de centím etro na direção do canto onde Fred continuava calado. O que m e deixou com vontade de fazer exatam ente o contrário, m as tudo bem . No queria que

Riley desconfiasse de m im .

Voltei para perto de Fred, ignorando a náusea até que ela desaparecesse, e parei ao seu lado. Entreguei o pacote, e ele parecia contente por eu ter pensado em incluí-lo; sorrindo, cheirou a blusa. Depois de um segundo, balançou a cabeça afirm ativam ente, pensativo. E m e devolveu o pacote com um olhar significativo. Na próxim a vez que estivéssem os sozinhos, pensei, ele com entaria o que pareceu querer m e dizer.

Joguei o saco de volta para o garoto Hom em -Aranha, que reagiu com o se ele tivesse vindo de lugar nenhum , m as conseguiu pegá-lo antes que caísse no chão.

Todos com entavam o cheiro. Riley bateu palm as duas vezes.

— Muito bem , essa é a sobrem esa de que falei antes. A garota estará com os dos olhos am arelos. E quem pegar prim eiro leva a sobrem esa. Sim ples assim .

Grunhidos de apreciação, grunhidos com petitivos.

Sim ples, sim , m as... errado. A intenção não era destruir o bando dos de olhos am arelos? A palavra-chave deveria ser “união”, então por que ele agora acenava com um prêm io tão cobiçado, um troféu que só um vam piro poderia ter? O único desfecho garantido daquele plano seria um a hum ana m orta. Eu conseguiria pensar em m eia dúzia de m aneiras m ais produtivas para m otivar aquele exército. Quem m atasse m ais dos olhos am arelos ficaria com a garota. Quem m ostrasse m ais cooperação com a equipe levaria a garota. Quem cum prisse o plano m ais

à risca. Quem m elhor seguisse as ordens. O foco deveria ser o perigo, e ele não estava na hum ana, definitivam ente.

Olhei em volta e concluí que ali ninguém m ais seguia a m esm a linha de pensam ento que eu. Raoul e Kristie se olhavam com verdadeiro furor. Ouvi Sara e Jen discutindo em voz baixa a possibilidade de dividir o prêm io.

Bem , talvez Fred pensasse com o eu. A testa dele tam bém estava franzida.

— E a últim a coisa — disse Riley. Pela prim eira vez havia algum a relutância na voz dele. — Provavelm ente, isso vai ser ainda m ais difícil de com preender, por isso vou m ostrar a vocês. Não vou pedir que façam nada que eu não vá fazer tam bém . Lem brem -se disso, garotos: estarei

com vocês em todos os passos do cam inho.

Os vam piros ficaram quietos outra vez. Notei que Raoul estava com o saco da blusa e o segurava de um j eito possessivo.

— Ainda há m uito que vocês precisam aprender sobre ser um vam piro — disse Riley. — Algum as coisas fazem m ais sentido que outras. O que vou dizer agora não vai soar verdadeiro a princípio, m as eu j á experim entei e vou lhes m ostrar. — Ele refletiu por um segundo. — Quatro vezes por ano, o sol brilha num determ inado ângulo indireto. Durante esse dia único, quatro vezes ao ano, é seguro... é seguro sair durante o dia.

Nenhum m ovim ento. Nenhum som . Ninguém respirava. Riley falava para um bando de estátuas.

— Um desses dias especiais está com eçando agora. O sol que hoj e com eça a surgir lá fora não vai nos fazer m al algum . E vam os usar essa rara exceção para surpreender nossos inim igos.

Meus pensam entos se em baralharam e tudo ficou de cabeça para baixo. Então, Riley

sabia que podíam os sair ao sol. Ou não sabia, e nossa criadora contara a ele essa história dos “quatro dias no ano”. Ou... isso era a verdade e Diego e eu havíam os tido a sorte de sair num desses dias. Mas Diego j á tinha estado fora durante o dia antes. E Riley estava transform ando tudo aquilo em algo sazonal, um a espécie de solstício vam piresco, enquanto Diego e eu havíam os nos exposto ao sol quatro dias antes sem sofrer nenhum a consequência.

Eu era capaz de entender que Riley e nossa criadora quisessem nos controlar com o m edo

do sol. Fazia sentido. Mas por que dizer a verdade — num a versão tão lim itada — agora?

Podia apostar que isso tinha a ver com aqueles m edonhos m antos escuros. Ela provavelm ente queria se adiantar ao prazo final. Os dos m antos escuros não tinham prom etido deixá-la viva quando m atássem os todos os de olhos am arelos. Im aginei que ela iria desaparecer feito um raio no segundo em que cum pris se seu obj etivo. Matar os de olhos am arelos, depois tirar férias prolongadas na Austrália ou em algum outro lugar do outro lado do m undo. E podia apostar que ela não nos m andaria convites. Eu precisava encontrar Diego depressa, para que tam bém pudéssem os fugir. Na direção oposta à de Riley e de nossa criadora. E devia avisar Fred. Decidi que faria isso assim que tivéssem os um m om ento a sós.

Havia m anipulação dem ais naquele breve discurso, e eu não tinha certeza de estar

entendendo tudo. Queria que Diego estivesse ali para analisarm os a situação j untos.

Se Riley estava inventando aquela história dos quatro dias, eu entendia por quê. Ele não podia sim plesm ente dizer: Ei, menti para vocês o tempo todo, mas agora decidi dizer a verdade.

Queria que o seguíssem os para o cam po de batalha; não podia m inar a confiança que conseguira conquistar.

— É norm al que se apavorem com o que acabaram de ouvir — Riley disse às estátuas. — O m otivo pelo qual ainda estão vivos é terem prestado atenção quando eu disse que fossem

cuidadosos. Voltaram para casa na hora, não com eteram erros. Deixaram o m edo alim entar sua esperteza e cautela. Não espero que deixem de lado esse m edo inteligente com facilidade. Não espero que saiam correndo por aquela porta só porque estou dizendo que podem ir. Mas... — Ele olhou em volta. — Espero que m e sigam lá para fora.

Os olhos dele se desviaram da plateia por um breve instante, detendo-se m uito rapidam ente em algo acim a da m inha cabeça.

— Observem -m e — ele nos disse. — Escutem -m e. Confiem em m im . E quando virem que o que digo é verdade, acreditem em seus olhos. O sol desse dia tem alguns efeitos

interessantes sobre nossa pele. Vocês vão ver. E não vão se ferir. Eu não faria nada que expusesse m inhas crianças a um perigo desnecessário. Sabem disso.

Ele com eçou a subir a escada.

— Riley , não podem os esperar... — Kristie com eçou.

— Prestem atenção — Riley a interrom peu, ainda subindo com passos com edidos. — Isso nos dá um a grande vantagem . Os de olhos am arelos sabem tudo sobre esse dia, m as não sabem que nós sabem os.

Enquanto falava, ele abriu a porta e passou do porão para a cozinha. Não havia luz lá em cim a, m as todos recuaram , tentando evitar a porta aberta. To dos, m enos eu. A voz dele continuava se m ovendo na direção da porta da frente.

— A m aioria dos vam piros j ovens leva um tem po para aceitar essa exceção, e com bons m otivos. Aqueles que não são cuidadosos com a luz do dia não duram m uito.

Senti os olhos de Fred em m im . Olhei para ele. Ele m e encarava com certa urgência, com o se quisesse fugir, m as não tivesse para onde ir.

— Tudo bem — sussurrei quase sem fazer barulho. — O sol não vai nos fazer m al algum .

Você confia nele?, perguntou Fred m ovendo os lábios silenciosam ente.

De jeito nenhum.

Fred levantou um a sobrancelha e relaxou um pouco. Muito pouco.

Olhei para trás de nós. O que Riley estava olhando? Nada havia m udado — só algum as fotos de fam ília, fotos de gente m orta, um pequeno espelho, e um relógio cuco. Hum . Ele estava

verificando a hora? Talvez nossa criadora tivesse dado um prazo a ele tam bém .

— Vam os lá, garotos, estou saindo — Riley anun ciou. — Garanto que hoj e não precisam ter m edo.

A luz invadiu o porão quando ele abriu a porta, intensificada — com o só eu sabia — pelo efeito na pele de Riley . Eu podia ver os reflexos brilhantes dançando na parede.

Rosnando e sibilando, o bando se encolheu e recuou para o canto oposto ao de Fred. Kristie estava no fundo e parecia que usava o próprio grupo com o escudo.

— Acalm em -se, todos! — Riley gritou para nós. — Estou bem . Sem dor, sem queim adura. Venham ver. Venham !

Ninguém se aproxim ou da porta. Fred estava agachado encostado na parede atrás de m im , olhando para a luz com verdadeiro pânico. Acenei discretam ente para cham ar sua

atenção. Ele m e olhou e estranhou m inha calm a. Depois, devagar, se levantou e parou ao m eu lado. Eu sorri para encoraj á-lo.

Todos os outros esperavam o fogo com eçar. Im aginei se teria parecido tão boba aos olhos de Diego.

— Sabem — Riley disse lá de cim a —, estou curioso para ver quem de vocês é o m ais coraj oso. Tenho urna boa ideia de qual será a prim eira pessoa a passar por essa porta, m as j á m e enganei antes.

Eu revirei os olhos; Riley , o sutil.

Mas é claro que funcionou. Raoul com eçou a se m exer im ediatam ente, aproxim ando-se da porta m uito devagar. Pela prim eira vez, Kristie não tinha pressa de com petir com ele pela aprovação de Riley. Raoul estalou os dedos para Kevin, e ele e o garoto Hom em -Aranha se m overam , relutantes, para acom panhá-lo.

— Vocês estão m e ouvindo. Sabem que não fritei. Não sej am bobos! Vocês são vam piros. Aj am com o tais.

 

Ainda assim , Raoul e seus com panheiros não passaram do pé da escada. Nenhum 'dos outros se m exeu. Depois de alguns m inutos, Riley voltou. Sob a luz indireta da porta da frente, ele ainda estava um pouco cintilante,

— Olhem para m im — ele disse do alto da escada. — Estou bem . É sério! Estou com

vergonha de vocês. Venha, Raoul!

No final, Riley teve de agarrar Kevin e arrastá-lo para cim a à força — Raoul saiu do cam inho assim que percebeu o que Riley pretendia. Eu vi o m om ento em que eles saíram , quando a luz se tornou m ais intensa com o reflexo dos dois corpos.

— Diga a eles, Kevin — Riley ordenou.

— Estou bem , Raoul! — ele gritou. — Uau! Estou todo... brilhante. Isso é m uito louco! — Ele ria.

— Muito bem , Kevin — Riley o elogiou em voz alta.

Foi o suficiente para Raoul tom ar a decisão. Rangendo os dentes, ele subiu a escada. Não foi depressa, m as logo tam bém estava lá em cim a, brilhando e rindo com Kevin.

Mesm o depois disso, o processo ainda dem orou m ais do que eu teria previsto. Ainda subim os um a um . Riley ficou im paciente. Agora ele usava m ais am eaças que incentivo.

Fred m e lançou um olhar que perguntava: Você sabia disso?

Sim, respondi apenas m ovendo os lábios.

Ele fez um gesto afirm ativo com a cabeça e com eçou a subir a escada. Ainda havia cerca de dez pessoas, na m aioria o pessoal do grupo de Kristie, esprem idas j unto à parede. Eu acom panhei Fred. Era m elhor sair no m eio do fluxo. E Riley que entendesse isso com o quisesse.

Podíam os ver os vam piros brilhando com o globos de luz no j ardim da casa, olhando para as próprias m ãos e uns para os outros em êxtase. Fred se dirigiu à luz sem dim inuir o passo, o que eu achei um gesto de m uita coragem , levando em conta tudo aquilo. Kristie era o m elhor exem plo de com o Riley nos doutrinara bem . Apegava-se ao que sabia, independentem ente das

evidências diante dela.

Fred e eu continuam os um pouco afastados dos outros. Ele se exam inou cuidadosam ente, depois olhou para m im , depois para os outros. Percebi que Fred, apesar de quieto, era m uito observador e quase científico na m aneira com o exam inava os fatos. Ele estivera avaliando as palavras e os atos de Riley o tem po todo. O que m ais deduzira?

Riley precisou arrastar Kristie escada acim a, e seu grupo com ela. Finalm ente, todos estávam os expostos ao sol, a m aioria apreciando sua beleza. Riley reuniu todo m undo para m ais um a aula prática, principalm ente, pensei, para fazer o grupo recuperar o foco. Foi preciso um m inuto, m as todos com eçaram a perceber que era isso o que ele queria, e foram ficando m ais

quietos e ferozes. Era possível ver que a ideia de um a luta de verdade — não só ter perm issão, m as ser encorajado a esquartej ar e incendiar — era quase tão fascinante quanto caçar.

Agradava a pessoas com o Raoul, Jen e Sara.

Riley se concentrou na estratégia que tentara passar aos garotos nos últim os dias — um a vez identificados os de olhos am arelos, nós nos dividiríam os em dois grupos e os flanquearíam os. Raoul os atacaria pela frente, enquanto Kristie investiria pela lateral. O plano se adequava ao estilo dos dois, em bora eu não tivesse certeza de que eles seriam capazes de seguir a estratégia no

calor da caçada.

Quando Riley convocou todos depois de urna hora de treino, Fred com eçou im ediatam ente a andar de costas em direção ao norte; Riley pusera os outros de frente para o sul. Fiquei perto de Fred, em bora não fizesse ideia do que ele estava fazendo. Fred parou quando estávam os a uns noventa m etros de distância, à som bra das árvores na beira da floresta. Ninguém viu que nos afastávam os. Fred olhava para Riley com o se esperasse para ver se ele perceberia ou não nossa retirada.

Riley com eçou a falar.

— Vam os partir agora. Vocês são fortes e estão preparados. E estão sedentos por isso, não estão? Podem sentir a ardência. Estão prontos para a sobrem esa.

Ele estava certo. Todo aquele sangue não havia adia do a sede. Na verdade, eu não tinha certeza, m as achava que a sensação estivesse voltando m ais depressa e m ais intensa que de costum e. Superalim entação devia ser contraproducente em alguns sentidos.

— Os de olhos am arelos se aproxim am lentam ente pelo sul e vêm se alim entando pelo cam inho, tentando se fortalecer — Riley dizia. — Ela os está m onitorando, por isso sei onde

achá-los. Ela vai nos encontrar lá, com Diego — ele lançou um olhar significativo para onde eu estivera até pouco antes, e um a ruga surgiu em sua testa por um a fração de segundo, sum indo em seguida —, e nós os atingirem os com o um tsunam i. Vam os vencê-los facilm ente. E depois vam os com em orar. — Ele sorriu. — Alguém , claro, vai com em orar m ais que os outros. Raoul, m e dê isso.

Riley estendeu a m ão de m odo im perativo. Raoul j ogou relutantem ente o saco com a blusa. Era com o se ele estivesse tentando se apoderar da hum ana absorvendo seu cheiro.

— Cheirem m ais um a vez, todos vocês. Vam os m anter o foco!

Manter o foco na garota? Ou no com bate?

Dessa vez, o próprio Riley percorreu o grupo levando a blusa, quase com o se quisesse garantir que todos ficassem sedentos. E eu podia ver pela reação dos outros que, com o eu, eles

tam bém sentiam a sede voltar. O cheiro da blusa os fazia rosnar e m udar de expressão. Não era necessário nos fazer experim entá-lo de novo, não havíam os esquecido nada. Então, aquilo devia ser só um teste. Pensar no cheiro da garota era suficiente para acum ular veneno em m inha boca.

— Estam os j untos? — Riley berrou

Todos gritaram de volta.

— Vam os acabar com eles, crianças!

Era com o o cardum e de tubarões outra vez, m as agora em terra firm e.

Fred não se m oveu, e eu fiquei com ele, em bora soubesse que estava desperdiçando um

tem po necessário. Se queria encontrar Diego e tirá-lo de cena antes do início da luta, precisava ficar perto da linha de frente. Olhei para eles ansiosa. Eu ainda era m ais j ovem que a m aioria... m ais rápida.

— Riley não vai conseguir pensar em m im por cerca de vinte m inutos, m ais ou m enos — Fred m e disse, sua voz com um e fam iliar, com o se j á tivéssem os conversado m ilhões de vezes. — Tenho m edido o tem po. Mesm o com um a boa distância entre nós, ele vai ficar enj oado se tentar se lem brar de m im .

— É m esm o? Isso é legal.

Fred sorriu.

— Tenho treinado, observado os efeitos. Agora sou capaz de m e tornar totalm ente invisível. Ninguém consegue olhar para m im se eu não quiser.

— Já percebi — respondi, antes de parar e deduzir: — Você não vai?

Fred balançou a cabeça.

— É claro que não. É óbvio que não nos disseram o que precisam os saber. Não vou ser peão do Riley . Então, Fred j á percebera tudo sozinho.

— Eu planej ava escapar antes, m as resolvi falar com você prim eiro, e não tive chance até agora.

— Eu tam bém queria falar com você — respondi. — Achei que devia saber que Riley estava m entindo sobre o sol. Essa coisa dos quatro dias é um a bobagem . Acho que Shelly , Steve e os outros tam bém perceberam . E há m uito m ais interesses por trás desse com bate do que ele nos contou. Há m ais de um grupo de inim igos.

Eu falava depressa, sentindo com terrível aflição o m ovim ento do sol, o tem po passando. Eu precisava encontrar Diego.

— Não estou surpreso — disse Fred calm am ente. — E eu estou fora. Vou explorar sozinho, ver o m undo. Ou ia sozinho, porque então pensei que talvez você quisesse vir tam bém . Vai estar segura com igo. Ninguém poderá nos seguir.

Eu hesitei por um segundo. A ideia de segurança era quase irresistível naquele exato m om ento.

— Preciso encontrar Diego — eu disse, balançando a cabeça.

Ele concordou pensativo.

— Entendo. Bem , se esta disposta a se responsabilizar por ele, pode trazê-lo. Parece que às vezes a vantagem num érica pode ser bem Ora.

— Sim — concordei com veem ência, lem brando com o m e sentira vulnerável na arvore quando, tendo apenas Diego com igo, vi Os quatro m antos escuros se aproxim ando.

Ele ergueu um a sobrancelha, intrigado com m eu tom .

— Riley esta m entindo sobre pelo m enos m ais um a coisa im portante — expliquei. — Tenho cui dado. Não podem os deixar que os hum anos saibam da nossa existência. Existe um grupo de vam piros esquisitos que detém os bandos que se expõem dem ais. Eu os vi, e você não ia

querer ser encontrado por eles. Fique escondido durante o dia, e cace com inteligência, só isso. — Olhei ansiosa para o sul. — Preciso correr!

Fred processava m inhas revelações com expressão solene.

— Tudo bem . Venha m e procurar, se quiser. Eu gostaria m uito de ouvir m ais. Vou esperar por você em Vancouver por m ais um dia. Conheço a cidade. Vou deixar um rastro no... — ele pensou por um segundo antes de se decidir, sorrindo — Riley Park! Você vai m e encontrar. Mas, depois de 24 horas, seguirei em frente.

— Vou encontrar Diego, e depois irem os atrás de você.

— Boa sorte, Bree.

— Obrigada, Fred! Boa sorte para você tam bém . A gente se vê!

Eu j á estava correndo.

— Espero que sim — ouvi a voz dele lá atrás.

Segui o rastro dos outros num a velocidade alucinante, voando bem pert° do chão, correndo com o nunca. Para m inha sorte, deviam ter parado por algum m otivo — para Riley berrar com eles, eu im aginava porque os alcancei antes do que deveria. Ou, talvez, Riley tivesse

se lem brado de Fred e parara para nos procurar. Eles corriam num ritm o constante quando os alcancei, quase disciplinados, com o na noite anterior. Tentei m e m isturar ao gru po sem cham ar atenção, m as notei Riley virar a cabeça para exam inar os que vinham atrás. Seus olhos pararam em m im , e então ele com eçou a correr m ais depressa. Deve ter presum ido que Fred estava com igo. Riley nunca m ais veria Fred.

Menos de cinco m inutos depois, tudo m udou.

Raoul sentiu o cheiro. Com um grunhido feroz, ele praticam ente decolou. Riley nos inflam ara de tal m aneira que um a pequena faísca bastaria para provocar um a explosão. Os

outros perto de Raoul tam bém sentiram o cheiro, e então todos perderam o controle. A ladainha de Riley sobre a hum ana havia se sobreposto a todas as outras instruções. Éram os caçadores, não um exército. A equipe deixou de existir. Tudo se resum ia a um a corrida por sangue.

Mesm o sabendo que havia m uitas m entiras na história, eu não conseguia resistir inteiram ente ao cheiro. Correndo atrás do grupo, tive de cruzar o rastro. Era fresco. Forte. A hum ana estivera ali recentem ente, e seu cheiro era absurdam ente doce. Eu m e sentia forte com todo o sangue que havia bebido na noite anterior, m as isso não tinha im portância. Estava com sede. E a sede queim ava.

Corri atrás dos outros, tentando m anter os pensam entos claros. Era só o que eu podia fazer

para tentar m anter um pouco do controle, continuar seguindo o bando. A pessoa m ais próxim a de m im era Riley . Ele estava... se contendo, tam bém ?

Ele gritava ordens, basicam ente as m esm as coisas repetidas m uitas vezes.

— Kristie, sua posição! Mexa-se! Dividam -se! Kristie, Jen! Dividam-se!

Todo o plano de um a em boscada em duas frentes desm oronava diante dos nossos olhos.

Riley correu até o grupo principal e agarrou Sara pelos om bros. Ela se sobressaltou quando ele a em purrou para a esquerda.

— Sua posição! — ele gritava.

Agarrou o garoto louro cuj o nom e eu nunca soube e o em purrou para Sara, que não ficou nada feliz com isso. Kristie voltou a si por tem po suficiente para perceber que devia estar se m ovendo de m odo estratégico. Ela olhou para Raoul e depois com eçou a gritar ordens a seu grupo.

— Por ali! Mais depressa! Vam os passar na frente deles correndo por um atalho!

Vam os!

— Vou fazer a linha de frente com Raoul! — Riley gritou para ela, olhando para trás.

Eu hesitei, ainda correndo. Não queria fazer parte de nenhum a “linha de frente”, m as o grupo de Kristie j á com eçava a se desintegrar. Sara dava um a gravata no garoto louro. O som da cabeça dele sendo arrancada do corpo m e fez decidir. Corri atrás de Riley, im aginando se Sara iria parar para incendiar o m enino que gostava de im itar o Hom em -Aranha.

Adiantei-m e até conseguir ver Riley à m inha frente e o segui, m antendo certa distância, até que se j untasse ao grupo de Raoul. O cheiro tornava difícil m anter m eus pensam entos focados no que realm ente im portava.

— Raoul! — Riley gritou.

Raoul rosnou, m as não se virou. Estava totalm ente dom inado pelo cheiro do sangue.

— Preciso aj udar Kristie! Encontro você lá! Não perca o foco!

Parei de repente, tom ada pela insegurança.

Raoul seguiu em frente sem dar nenhum a resposta ao que Riley dissera. Riley , por sua vez, reduziu o ritm o da corrida para um trote, depois para um a cam inhada. Eu devia ter saído dali, m as ele provavelm ente teria m e ouvido procurando um esconderij o. Ele se virou sorrindo e m e viu.

— Bree. Pensei que estivesse com Kristie. Eu não respondi.

— Alguém se m achucou. Kristie precisa m ais de m im que Raoul — ele explicou apressado.

— Está... nos deixando?

O rosto de Riley se m odificou. Era com o se eu pudesse ver em sua expressão que os planos haviam m udado. Seus olhos ficaram m ais estreitos; de repente, pareciam ansiosos.

— Estou preocupado, Bree. Eu disse que ela iria nos encontrar, nos aj udar, m as não

farej ei seu rastro. Algo está errado. Preciso encontrá-la.

— Mas não há nenhum a possibilidade de você conseguir encontrá-la antes que Raoul ataque os de olhos am arelos — argum entei.

— Preciso descobrir o que está acontecendo. — Ele parecia sinceram ente desesperado. — Preciso dela! O plano não era fazer isso sozinho!

— Mas os outros...

— Bree, eu tenho que encontrá-la! Agora! Vocês estão em núm ero suficiente para derrotar os de olhos am arelos. Volto assim que puder.

Ele parecia verdadeiram ente sincero. Hesitei, olhando para trás, para a trilha que havíam os percorrido. Fred j á devia estar no m eio do cam inho para Vancouver àquela altura. Riley nem perguntara por ele. Talvez o talento de Fred ainda estivesse fazendo efeito...

— Diego está à nossa frente, Bree — Riley disse num tom urgente. — Ele vai participar do prim eiro ataque. Não sentiu o cheiro dele lá atrás? Não esteve perto o suficiente?

Eu balancei a cabeça, totalm ente confusa. Diego esteve ali?

— Ele deve estar com Raoul agora. Se correr, poderá aj udá-lo a sair dessa vivo.

Nós nos encaram os por um longo segundo, e depois olhei para o sul, para o cam inho que Raoul seguira.

— Boa m enina — Riley disse. — Eu vou atrás dela e voltarem os para aj udar a lim par a

suj eira. Vocês vão ter que dar conta disso! Talvez j á tenha acabado quando você chegar lá.

Ele partiu num a direção perpendicular ao nosso cam inho original. Eu rangi os dentes ao ver quanto ele parecia certo do cam inho a tom ar. Mentindo até o fim !

Mas eu não tinha escolha. Voltei a correr com o louca para o sul. Precisava encontrar Diego. Arrastá-lo para longe de tudo aquilo, se fosse necessário. Alcançaríam os Fred. Ou partiríam os sozinhos. Precisávam os fugir. Eu contaria a Diego com o Riley havia m entido. Ele

com preenderia que Riley não tinha nenhum a intenção de nos aj udar na batalha que ele havia deflagrado. Não havia m ais m otivo para aj uda-lo.

Eu identifiquei o cheiro da hum ana e, depois, o de Raoul. Não farej ava Diego. Estava m e deslocando depressa dem ais? Ou era o cheiro da hum ana que m e dom inava? Metade da m inha m ente estava voltada para aquela caçada estranha e contraproducente — sim , encontraríam os a garota, m as estaríam os prontos para lutar j untos quando isso acontecesse? Não, estaríam os, sim , nos digladiando por ela!

E foi então que ouvi a explosão de rosnados, gritos e guinchos em algum lugar adiante e soube que o com bate com eçara. Era tarde dem ais para im pedir que Diego se envolvesse. Mesm o assim , corri m ais que antes. Talvez ainda pudesse salvá-lo.

Farej ei a fum aça trazida pelo vento — o cheiro doce e denso de vam piros queim ando. O som da confusão ficou m ais alto. Talvez estivesse quase no fim . Eu encontraria Diego esperando, e o nosso bando vitorioso?

Corri por um a densa cortina de fum aça e em ergi do outro lado da floresta, fora dela, em um cam po verde e aberto. Saltei por cim a do que pareceu um a pedra e percebi que era, na verdade, um tronco sem cabeça.

Meus olhos varreram o cam po. Havia pedaços de vam piros por todos os lados, e um a fogueira gigantesca cuj a fum aça roxa se erguia no céu ensolarado. Através da fum aça, eu conseguia ver corpos brilhantes se m ovendo rapidam ente, enquanto o ruído de vam piros sendo desm em brados, dilacerados, persistia.

Eu procurava os cabelos negros e encaracolados de Diego. Ninguém que eu conseguia distinguir tinha cabelos tão negros. Havia um vam piro enorm e com cabelos castanhos, quase pretos, m as era grande dem ais, e quando consegui focar a visão vi que ele tinha arrancado a cabeça de Kevin e a estava atirando na fogueira enquanto saltava nas costas de outro adversário.

Seria 'Jen? Havia outro de cabelo liso e preto, m as era pequeno dem ais para ser Diego. E se deslocava tão depressa que eu nem conseguia saber se era hom em ou m ulher.

Olhei em volta m ais urna vez, rápido, m e sentindo horrivelm ente exposta. Olhava os rostos. Não havia tantos vam piros ali, m esm o contando os que j á estavam caídos. Não vi ninguém do grupo de Kristie. Muitos j á deviam ter sido queim ados. Muitos dos que ainda estavam em pé eram desconhecidos. Um vam piro louro olhou na m inha direção, nossos olhares se encontraram e seus olhos brilharam , eram dourados ao sol.

Estávam os perdendo. Feio.

Com ecei a recuar na direção das árvores, não tão depressa, porque ainda procurava por

Diego. Ele não estava ali. Não havia nenhum sinal de que houvesse estado em algum m om ento. Nenhum traço de seu rastro, em bora eu pudesse distinguir o cheiro de m uitos m em bros da turm a de Raoul e de m uitos desconhecidos. Tam bém m e obriguei a olhar os res tos de corpos. Nenhum deles pertencia a Diego. Eu teria reconhecido até m esm o um dedo dele.

Virei-m e e corri para as árvores — de repente tive certeza de que a presença de Diego ali era só m ais um a das m entiras de Riley .

E se Diego não estava ali, então j á deveria estar m orto. Cheguei a essa conclusão com tanta facilidade porque provavelm ente devia pressentir a verdade havia algum tem po. Desde o m om ento em que Diego não seguira Riley pela porta do porão. Ele j á tinha nos deixado.

Eu havia percorrido alguns m etros por entre as árvores quando um golpe forte com o o de um a bola de dem olição m e atingiu nas costas e m e j ogou no chão. Um braço passou por baixo do m eu queixo.

— Por favor! — solucei.

E queria dizer: Por favor, me mate depressa.

O braço hesitou. Eu não reagi, em bora m eus instintos m e induzissem a m order, arranhar e dilacerar o inim igo. A parte m ais equilibrada em m im sabia que isso não funcionaria. Riley havia m entido tam bém sobre os vam piros m ais velhos e fracos — nunca tivem os a m enor chance. E m esm o que eu tivesse algum m eio de vencer aquele vam piro, não teria conseguido m e m exer. Diego estava m orto, e esse fato evidente m inara m inha vontade de lutar.

De repente eu estava no alto. Fui arrem essada contra um a árvore e caí no chão. Devia

tentar correr, m as Diego estava m orto. Eu não conseguia superar essa realidade.

O vam piro louro da clareira olhava intensam ente para m im , seu corpo pronto para atacar. Ele parecia m uito com petente, m uito m ais experiente que Riley. Mas não investia contra m im . Não estava enlouquecido com o Raoul ou Kristie. Ele estava totalm ente sob controle.

— Por favor — repeti, querendo que ele acabasse com aquilo de um a vez. — Não quero lutar.

Ele ainda se m antinha em posição de alerta, preparado, m as a expressão m udara. Agora ele m e olhava de um j eito que eu não entendia. Era um rosto que parecia conhecer m uito, e havia algo m ais. Solidariedade? Piedade, pelo m enos.

— Nem eu, criança — ele respondeu com a voz calm a, bondosa. — Estam os só nos defendendo.

Havia tanta honestidade naqueles antigos olhos am arelos que eu m e perguntei com o pudera acreditar nas histórias de Riley. Eu m e sentia... culpada. Talvez aquele bando nunca tivesse planej ado nos atacar em Seattle. Com o eu pudera confiar em qualquer coisa do que m e disseram ?

— Nós não sabíam os — expliquei, envergonhada. — Riley m entiu. Sinto m uito.

Ele ouviu por um m om ento, e eu percebi que o cam po de batalha m ergulhara no silêncio. Havia acabado.

Se eu ainda tivesse algum a dúvida de quem fora o vencedor, ela teria desaparecido quando, um segundo depois, um a vam pira com cabelos castanhos e ondulados e de olhos am arelos correu para perto dele.

— Carlisle? — ela perguntou num tom confuso, olhando para m im .

— Ela não quer lutar — o vam piro respondeu.

A m ulher tocou seu braço. Ele ainda estava tenso, em posição de ataque.

— Ela está tão assustada, Carlisle. Não podem os...?

O louro, Carlisle, olhou para a vam pira e depois aj eitou um pouco o corpo, em bora eu pudesse perceber que ele ainda perm anecia alerta, cauteloso.

— Não querem os m achucá-la — a m ulher m e disse. A voz dela era suave, tranquilizadora. — Não queríam os lutar com nenhum de vocês.

— Sinto m uito — repeti, sussurrando.

Eu não conseguia esclarecer toda a confusão na m inha cabeça. Diego estava m orto, e isso

era o principal, o m ais devastador. Além disso, a luta chegara ao fim , m eu bando perdera e m eus inim igos venceram . Mas o bando m orto fora form ado por m uitas pessoas que teriam adorado m e ver queim ar, e m eus inim igos falavam com igo num tom bondoso, quando não tinham nenhum m otivo para ser generosos. Mais ainda: eu m e sentia m ais segura com aqueles dois estranhos do que j am ais m e sentira com Raoul e Kristie. Estava aliviada por Raoul e Kristie estarem m ortos.

Tudo era tão confuso!

— Criança — disse Carlisle —, vai se render a nós? Se não tentar nos ferir, prom etem os não lhe fazer nenhum m al.

E eu acreditava nele.

— Sim — sussurrei. — Sim , eu m e rendo. Não quero fazer m al a ninguém .

Ele estendeu a m ão num gesto encoraj ador.

— Venha, criança. Deixe nossa fam ília se reagru par por um m om ento, depois vam os conversar. Tem os algum as perguntas para você. Se responder honestam ente, não terá nada a tem er.

Levantei-m e devagar, sem fazer m ovim entos que pudessem ser entendidos com o am eaça.

— Carlisle? — cham ou um a voz m asculina.

Outro vam piro de olhos am arelos se j untou a nós. Toda a segurança que eu sentira com aqueles estranhos desapareceu assim que o vi.

Ele era louro, com o o prim eiro, porém m ais alto e m ais esguio. Sua pele era com pletam ente coberta por cicatrizes, m ais abundantes nas costas e no queixo. Algum as m arcas m enores no braço eram m ais recentes, m as as outras não haviam sido causadas por aquele com bate. Ele havia estado em m ais batalhas do que eu poderia im aginar, e nunca perdera. Seus olhos am arelados brilhavam e a postura sugeria a violência contida de um leão furioso.

Continuar: parte 6 de 6