A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Stephenie Meyer · Capítulo 2 de 2 · parte 2/6

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A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Bree Tanner

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

evitávam os?

Ainda não tinha entendido com o Riley entrava nessa história. Riley e o cheeseburger da dor. Eu queria saber, m as m e sentia m al por ter pressionado Diego a m e dar um a resposta.

Satisfazendo a m inha curiosidade, depois de um m inuto ele continuou:

— Eu perdi o controle. Roubei a arm a de um am igo e saí caçando. — Sua risada soou som bria. — Naquele tem po não era tão bom nisso. Mas peguei o cara que m atou m eu irm ão antes que m e pegassem . O restante da gangue m e encurralou em um beco. Então, de repente, Riley estava lá, entre m im e eles. Eu m e lem bro de ter pensado que ele era o suj eito m ais branco que eu j á tinha visto. Riley nem olhou para os outros quando atiraram nele. Era com o se as balas

fossem m osquitos. Sabe o que ele m e disse? “Quer um a vida nova, garoto?”

— Hah! — Eu ri. — Foi bem m elhor com você. Com igo foi: “Quer um ham búrguer, garota?”

Eu ainda m e lem brava da aparência de Riley naquela noite, em bora a im agem fosse nublada, porque m inha visão era terrível naquela época. Ele era o hom em m ais lindo que eu j á tinha visto, alto, louro, perfeito em cada traço. Eu sabia que os olhos deviam ser lindos por trás dos óculos escuros que ele não chegava a tirar. E a voz era gentil, doce. Im aginei que j á soubesse o que ele ia querer com o pagam ento pela refeição, e não teria negado. Não por ele ser lindo,

m as porque eu não com ia nada além de lixo havia duas sem anas. Mas ele quis algo diferente do que eu im aginava.

Diego riu da história do ham búrguer.

— Você devia estar com m uita fom e.

— Pode apostar.

— E por que tanta fom e?

— Porque fui estúpida e fugi antes de ter um a carteira de m otorista. Não conseguia arrum ar em prego e era péssim a em roubar.

— Do que você estava fugindo?

Hesitei. As lem branças ficavam um pouco m ais claras quando eu m e concentrava nelas, m as não tinha certeza de querer essa nitidez.

— Ah, vai — ele m e incentivou. — Eu contei a m inha história.

— É, contou. Tudo bem . Eu estava fugindo do m eu pai. Ele m e batia m uito. Devia fazer o m esm o com m inha m ãe, porque ela tam bém foi em bora. Eu era m uito pequena quando ela fugiu... Não entendia m uita coisa. A situação ficou pior. Com ecei a pensar que se esperasse dem ais acabaria m orta. Ele m e dizia que se algum dia eu fugisse ia m orrer de fom e. E estava certo. Foi a única vez em que esteve certo, pelo m enos com relação a m im . Não penso m uito nisso.

Diego fez que sim com a cabeça, indicando que m e entendia.

— É difícil lem brar essas coisas, não é? Fica tudo m uito escuro, confuso.

— É com o tentar enxergar com lam a nos olhos.

— Boa com paração — elogiou ele, apertando os olhos com o se tentasse m e enxergar e

esfregando as pálpebras com a m ão.

Rim os j untos novam ente. Estranho.

— Não acho que tenha dado risada com alguém desde que conheci Riley — ele com entou, ecoando m eus pensam entos. — Isso é bom . Você é legal. Não é com o os outros. Já tentou conversar com um deles?

— Não, nunca.

— Não está perdendo nada. E é esse o m eu ponto. O padrão de vida de Riley não seria um pouco m elhor se ele se cercasse de vam piros decentes? Se deveríam os garantir a proteção

dela, não seria m ais lógico procurar os m ais espertos?

— Sendo assim , Riley não precisa de qualidade — arrisquei. — Precisa de quantidade.

Diego pensou no que eu disse.

— É com o xadrez. Ele não tem reis nem bispos.

— Som os só peões — eu m e dei conta.

Nós nos olham os novam ente por um longo instante.

— Não quero pensar nisso — Diego declarou.

— Então, o que vam os fazer? — perguntei, usando o plural instintivam ente, com o se j á fôssem os um a equipe.

Diego pensou na m inha pergunta por um segundo, aparentem ente incom odado, e eu m e arrependi do plural. Mas, em seguida, ele disse:

— O que podem os fazer quando não sabem os o que está acontecendo?

Ele não estava incom odado com a coisa da equipe, o que m e fez sentir bem de verdade. Bem com o eu não m e lem brava de ter m e sentido antes. Nunca.

— Acho que devem os ficar de olhos abertos, prestar atenção, tentar entender.

Ele assentiu.

— Precisam os pensar em tudo o que Riley nos disse, em tudo o que ele fez. — Ele parou

pensativo. — Sabe, tentei conversar sobre isso com Riley um a vez, m as ele não m e deu a m enor atenção. Disse que devia m e preocupar com coisas m ais im portantes, com o a sede. E sede era tudo em que eu conseguia pensar naquele m om ento, é claro. Ele m e m andou sair para caçar, e eu não m e preocupei m ais...

Observei enquanto ele pensava em Riley, seus olhos sem foco, voltados para dentro, para as m em órias, e refleti. Diego era m eu prim eiro am igo nessa vida, m as eu não era sua prim eira am iga.

De repente o foco era eu.

— Então, o que tem os sobre Riley ?

Eu m e concentrei, repassando m entalm ente os últim os três m eses.

— Ele não fala m uito, você sabe. Só revela o básico sobre ser vam piro.

— Vam os ter que prestar m ais atenção.

Ficam os sentados em silêncio, ponderando. Eu pensava principalm ente em quanto não sabia. E por que não m e preocupara com tudo o que não sabia antes? Era com o se conversar com Diego tivesse esclarecido m eus pensam entos. Pela prim eira vez em três m eses, sangue não era o centro das m inhas atenções.

O silêncio se estendeu por um tem po. A abertura por onde eu sentira o ar fresco passando para o interior da caverna não estava m ais escuro. Agora era de um cinza carregado e ia se tornando m inim am ente m ais claro a cada segundo. Diego notou que eu olhava nervosa para lá.

— Não se preocupe — ele disse. — Um a luz fraca penetra aqui nos dias ensolarados. Não vai nos ferir. — Ele deu de om bros.

Eu m e aproxim ei m ais da abertura no chão, por onde a água desaparecia à m edida que a

m aré baixava.

— É serio, Bree. Já estive aqui antes durante o dia. Falei com Riley sobre esta caverna e sobre com o ela fica cheia de águia quase todo o tem po. Ele disse que era um lugar legal para quando eu quisesse sair da casa de doidos. Enfim , pareço ter sofrido queim aduras?

Eu hesitei, pensando em com o o relacionam ento dele com Riley era diferente do m eu com Riley . As sobrancelhas dele se ergueram enquanto esperava por um a resposta.

— Não — eu disse afinal. — Mas...

— Vej a — ele m e interrom peu im paciente. Rastej ou rapidam ente pelo túnel e enfiou o

braço na abertura até a altura do om bro. — Nada.

Fiz que sim com a cabeça um a única vez.

— Relaxe! Quer que eu vej a até onde posso ir? — Enquanto falava, ele enfiou a cabeça na abertura e com eçou a subir.

— Não, Diego. — Ele j á estava fora do m eu cam po de visão. — Estou tranquila, j uro.

Ele ria, e o som m e deu a im pressão de que j á estava vários m etros acim a no túnel. Queria ir atrás dele, segurar seu pé e puxá-lo de volta, m as estava paralisada pela tensão. Seria estupidez arriscar a vida para salvar um estranho. Mas eu não tinha nada que se aproxim asse de um am igo desde... sem pre. Já era difícil pensar em voltar a não ter ninguém com quem

conversar depois de urna única noite.

— No estoy quem ando — ele disse lá de cim a em tom de deboche. — Espere... isso é...? Oh!

— Diego?

Atravessei a caverna em um salto e enfiei a cabeça no túnel. Seu rosto estava bem ali, a centím etros do m eu.

— Bu!

Eu recuei — só um reflexo, um antigo hábito.

— Engraçadinho — disse secam ente, afastando-m e enquanto ele voltava ao interior da caverna.

— Precisa relaxar, garota. Eu j á olhei tudo aqui, certo? A luz do sol não fere quando é indireta.

— Então está dizendo que posso sim plesm ente ficar em baixo de um a boa árvore e m e sentir bem ?

Ele hesitou por um m inuto, com o se tentasse decidir se m e dizia ou não algum a coisa, e depois revelou em voz baixa:

— Já fiz isso um a vez.

Eu o encarei e esperei pela risada. Porque era um a piada.

Mas ele não riu. —

Riley disse... — com ecei, m as parei antes de term inar a frase.

— Sim , eu sei o que Riley disse. Talvez ele não saiba tanto quanto afirm a saber.

— Mas Shelly e Steve. Doug e Adam . Aquele garoto com o cabelo ruivo e brilhante. Todos eles. Todos desapareceram porque não voltaram a tem po. Riley viu as cinzas.

Diego franziu as sobrancelhas com um a expressão de infelicidade.

— Todos sabem que os vam piros antigos tinham de ficar em caixões durante o dia — continuei. — Para ficar longe do sol. Isso é de conhecim ento geral, Diego.

— Você está certa. Todas as historias dizem isso.

— Além do m ais, o que Riley teria a ganhar nos m antendo o dia inteiro trancados em um porão à prova de luz, um grande caixão coletivo? Nós sem pre destruím os o lugar, e ele tem que contornar todas as brigas, a confusão constante. Nada vai m e convencer de que ele gosta disso.

Algo no que eu disse surpreendeu Diego. Ele ficou sentado com a boca aberta por um segundo, depois a fechou.

— O que é?

— Conhecim ento geral — Diego repetiu. — O que os vam piros fazem o dia todo nos caixões?

— Ah... ah, bem , eles dorm em , certo? Mas acho que eles ficam lá deitados e entediados, porque nós não... Tudo bem , essa parte está errada.

— Isso m esm o. Só que nas histórias eles não estão apenas dorm indo, estão totalm ente

inconscientes. Não conseguem acordar. Um hum ano pode sim plesm ente se aproxim ar e cravar um a estaca nos vam piros sem nenhum problem a. E essa é outra coisa. Estacas. Você realm ente acha que alguém pode enfiar um a estava em seu corpo?

Eu encolhi os om bros.

— Não tinha pensado nisso. Quer dizer, não, obviam ente não um pedaço de m adeira com um . Talvez m adeira afiada tenha algum tipo de... Não sei. Propriedades m ágicas ou coisa parecida.

Diego bufou im paciente.

— Ah, por favor...

— Bem , eu não sei. De qualquer m aneira, não ficaria quieta se um hum ano tentasse m e espetar com um cabo de vassoura pontudo.

Ainda com um a expressão contrariada, com o se m agia fosse algo realm ente distante quando se é um vam piro, Diego ficou de j oelhos e com eçou a cavar com as unhas o calcário sobre sua cabeça. Pequeninos fragm entos de pedra cobriam seus cabelos, m as ele os ignorava.

— O que está fazendo?

— Um a experiência.

Ele enterrou as duas m ãos na rocha até conseguir ficar em pé e depois continuou subindo.

— Diego, se você chegar à superfície, vai explodir. Pare com isso.

— Não estou tentando... Ah, aqui está.

Houve um estalo alto e depois outro, m as nenhum a luz. Ele recuou até um ponto onde eu podia ver seu rosto e m e m ostrou o pedaço de raiz de árvore que tinha em um a das m ãos, um a raiz branca, m orta e seca sob a terra. A ponta quebrada era afiada, irregular. Ele a j ogou na m inha direção.

— Enfie isso em m im .

Eu a j oguei de volta. — Nem pensar.

— É sério. Você sabe que isso não pode m e m achucar.

Ele j ogou de volta o pedaço de m adeira; em vez de pegá-la, eu a rebati.

Ele agarrou a raiz no ar e resm ungou:

— Você é tão... supersticiosa!

— Sou um a vam pira. Se isso não é prova de que as pessoas supersticiosas estão certas, não sei o que é.

— Muito bem , eu m esm o faço.

Ele segurou o pedaço de m adeira diante do corpo num a atitude dram ática, o braço estendido com o se em punhasse um a espada com a qual pretendia se transpassar.

— Ah, pare — eu disse, incom odada. — Isso é ridículo.

— É isso que estou dizendo. Não vai dar cru nada.

Ele golpeou o peito com a estaca, bem no lugar onde seu coração deveria bater, com força suficiente para perfurar um bloco de granito. Eu fiquei totalm ente paralisada pelo pânico até ele com eçar a rir.

— Devia ver sua cara, Bree.

Os pedaços da m adeira quebrada caíram por entre seus dedos; a raiz estilhaçou-se no chão. Diego lim pou a cam isa com as m ãos, em bora ela estivesse castigada dem ais pela água e pelas escaladas e não fosse ficar m uito m elhor. Nós dois teríam os que roubar m ais roupas na próxim a vez que surgisse um a chance.

— Talvez sej a diferente quando é um hum ano quem faz isso.

— E você se sentia assim tão m ágica quando era hum ana? — Não sei, Diego — respondi exasperada.

— Não fui eu que inventei todas essas histórias.

Ele assentiu com a cabeça, repentinam ente m ais sério.

— E se as histórias forem exatam ente isso? Inventadas?

Eu suspirei.

— Que diferença faz?

— Não sei. Mas se vam os pensar no m otivo de estarm os aqui, em por que Riley nos trouxe para ela, em por que ela está criando m ais com o nós, tem os que entender tudo o que for possível. — A testa dele estava franzida, e qualquer sinal de riso havia desaparecido de seu rosto.

Eu apenas o encarava. Não tinha respostas.

O rosto de Diego ganhou certa suavidade.

— Isso aj uda m uito, sabe? Falar sobre o assunto. Aj uda a m e dar foco.

— Tam bém acho — concordei. — Não sei por que nunca pensei em tudo isso antes. Parece tão óbvio! Mas raciocinar... Não sei. É m ais fácil m anter a linha de pensam ento.

— Exatam ente. — Diego sorriu para m im . — Estou m uito feliz por você ter vindo esta noite.

— Não m e venha com essa conversa m ole agora.

— O quê? Não quer ser... — ele estreitou os olhos e fez um a voz um pouco m ais aguda —

m inha m elhor am iga para sem pre? — Ele m esm o riu da besteira que dizia.

Revirei os olhos, sem saber ao certo se ele debocha da expressão ou de m im .

— Ah, Bree. Sej a m inha m elhor am iga para sem pre. Por favor?

Diego ainda brincava, m as seu sorriso era m ais largo e... esperançoso. Ele estendeu a m ão.

Dessa vez eu bati na m ão dele com vontade, cum prim entando-o de verdade, sem perceber que ele tinha outra intenção até que senti os dedos segurando Os m eus.

Era perturbador e esquisito tocar outra pessoa depois de um a vida inteira — porque os últim os três m eses haviam sido toda a m inha vida — evitando qualquer tipo de contato. Era com o

tocar um fio elétrico soltando faíscas e descobrir que não tinha problem a nenhum nisso.

Tive a im pressão de que m eu sorriso saiu um pouco torto.

— Pode contar com igo.

— Excelente! Nosso clube particular.

— E m uito exclusivo — acrescentei.

Ele ainda segurava m inha m ão. Não com o num aperto, m as tam bém não com o se estivéssem os de m ãos dadas.

— Precisam os de um cum prim ento secreto.

— Você pode cuidar disso.

— Então, o clube supersecreto dos m elhores am igos convoca um a reunião e, estando todos presentes, põe em pauta o cum prim ento secreto, a ser decidido em outra data. — Ele continuou: — Prim eira ordem do dia: Riley . Sem noção? Desinform ado? Ou m entiroso?

Os olhos estavam fixos nos m eus enquanto ele falava, olhos sinceros e atentos. E não

houve nenhum a m udança quando ele disse o nom e de Riley. Naquele instante, tive certeza de que não havia fundam ento nas histórias sobre Riley e ele. Diego só estava por perto havia m ais tem po que os outros, apenas isso. Eu podia confiar nele.

— Adicione m ais um tópico à lista — com pletei. — Obj etivo. Tipo, qual é a dele?

— Na m osca. Isso é exatam ente o que precisam os descobrir. Mas, antes, outra experiência.

— Essa palavra m e deixa nervosa.

— Confiança é parte essencial de toda essa história do clube secreto.

Ele se levantou no espaço adicional que abrira pouco antes e voltou a cavar. Um segundo depois, os pés balançavam no ar e ele se segurava com um a das m ãos, cavando com a outra.

— Espero que estej a procurando alho — eu disse e recuei para o túnel que levava ao m ar.

— Essas histórias não são reais, Bree — respondeu ele lá de cim a.

Ele ergueu o corpo um pouco m ais na abertura que escavava, provocando um a chuva de terra. Naquele ritm o, logo acabaria enchendo o esconderij o onde estávam os, ou o preencheria com luz, o que o tornaria ainda m ais inútil.

Eu continuei recuando pelo canal de saída, apenas os olhos e os dedos do lado de fora. A água chegava apenas à altura do m eu quadril. Eu não precisaria de m ais do que um segundo para

desaparecer na escuridão lá em baixo. E poderia passar um dia inteiro sem respirar.

Nunca havia sido m uito fã de fogo. Talvez fosse por algum a lem brança da infância, algum a m em ória enterrada no inconsciente, ou talvez por algo m ais recente. A transform ação em vam piro im plicara fogo m ais que suficiente para m im .

Diego devia estar perto da superfície. Mais urna vez, m e incom odou a ideia de perder m eu novo e único am igo.

— Por favor, pare, Diego — m urm urei, sabendo que ele provavelm ente riria, sabendo que não m e atenderia.

— Confiança, Bree.

Eu esperei, im óvel.

— Quase... — ele resm ungou. — Tudo bem .

Fiquei tensa, esperando pela luz, pela faísca, ou pela explosão, m as Diego desceu de volta, e ainda estava escuro. Agora ele tinha na m ão um a raiz ainda m ais com prida, pontuda e dura, que era quase m aior que eu. Ele m e olhou com aquele ar de “eu disse”.

— Não sou um a pessoa com pletam ente inconsequente — ele falou. E apontou para a raiz com a m ão livre. — Está vendo? Precaução.

Ao term inar sua declaração, ele cutucou a nova abertura com a raiz. Houve um últim o

desm oronam ento de pedregulhos e areia e Diego se j ogou de j oelhos, saindo do cam inho. Então, um raio de luz brilhante — um raio da largura do braço de Diego — atravessou a escuridão da caverna. A luz desenhava urna coluna do teto ao chão, fazendo cintilar as partículas suspensas de poeira. Eu estava im óvel, agarrada à beirada do poço, pronta para m e soltar e desaparecer.

Diego não se encolheu nem gritou de dor. Não havia cheiro de fum aça. A caverna estava cem vezes m ais clara que antes, m as isso não parecia afetá-lo. Então, talvez aquela história sobre som bras e árvores fosse verdadeira. Eu observei com cautela enquanto ele se aj oelhava ao lado da coluna de luz, im óvel, apenas olhando fixam ente. Diego parecia estar bem , m as havia um a m udança sutil em sua pele. Um a espécie de m ovim ento, talvez da poeira assentando, refletindo a lum inosidade. Tive a im pressão de que ele brilhava um pouco.

Talvez não fosse a poeira. Talvez fosse a com bustão. Talvez não doesse, e ele só perceberia quando fosse tarde dem ais...

Segundos se passaram enquanto olhávam os im óveis para a luz do dia.

Então, em um m ovim ento que parecia ao m esm o tem po absolutam ente esperado e com pletam ente im pensável, ele estendeu a m ão com a palm a voltada ira cim a e esticou o braço até o feixe de luz. Eu m e m ovi m ais depressa do que podia pensar, o que era bem rápido.

Em purrei Diego contra a parede do fundo da pequena caverna cheia de terra, antes que ele pudesse aproxim ar a m ão da coluna da luz, a um centím etro dele, e expor sua pele.

O am biente foi invadido por um clarão repentino, e no m esm o instante eu senti o calor em m inha perna. Percebi que não havia espaço suficiente para m anter Diego encostado na parede sem que algum a 'arte do m eu corpo entrasse em contato com a luz.

— Bree! — ele exclam ou.

Eu m e virei instintivam ente, e m e esprem i contra a parede. Tudo isso levou m enos de um segundo, e nesse m eio-tem po fiquei esperando pela dor. Esperei as cham as surgirem e se espalharem com o na noite em que a conheci, porem m ais depressa. O brilho ofuscante da luz havia desaparecido. Restava apenas aquela coluna de sol.

Olhei para o rosto de Diego e vi que seus olhos estavam arregalados, a boca aberta e o queixo caído. Ele estava com pletam ente im óvel, um sinal certo de alar-m e. Eu queria olhar m inha perna, m as tinha m edo de ver o que restara dela. Não era com o quando Jen arrancara m eu braço, em bora aquilo tivesse doído m ais. Desta vez eu não teria com o consertar o estrago.

Ainda não sentia nenhum a dor.

— Bree, você viu isso?

Fiz que não com a cabeça um a só vez, apressada.

— Está feio?

— Feio?

— Minha perna — eu disse por entre os dentes. — O que sobrou dela?

— Sua perna está bem .

Olhei para baixo rapidam ente, e de fato lá estavam m eu pé e m inha canela, exatam ente

com o antes. Mexi os dedos. Tudo bem .

— Está doendo? — ele indagou.

Eu m e abaixei, aj oelhando-m e no chão.

— Ainda não.

— Viu o que aconteceu? A luz?

Eu neguei com a cabeça.

— Vej a isso — ele disse, aj oelhando-se diante cio raio de sol. — E dessa vez não m e em purre. Você j á provou que eu estava certo.

Ele estendeu a m ão. Dessa vez foi quase tão difícil de olhar quanto antes, m esm o sentindo

m inha perna e sabendo que ela estava inteira, norm al.

No segundo em que os dedos de Diego encontraram o raio de luz, a caverna foi invadida por um m ilhão de reflexos brilhantes e coloridos, um verdadeiro arco-íris. A claridade era com o a luz do m eio-dia em um a sala de vidro — havia luz para todos os lados. Eu m e encolhi e um trem or percorreu m eu corpo. Estava com pletam ente coberta pela luz do sol.

— Não poder ser — Diego sussurrou.

Ele pôs o restante da m ão no feixe de luz, e a caverna tornou-se ainda m ais radiante. Diego virou a m ão para olhar o outro lado, e desvirou novam ente. O m ovim ento fazia os reflexos dançarem com o se ele girasse um prism a.

Não havia cheiro de queim ado e era evidente que ele não sentia dor. Olhei atentam ente para a m ão de Diego e tive a im pressão de que havia um zilhão de m inúsculos espelhos em sua pele, superfícies pequenas dem ais para serem distinguidas separadam ente, todas refletindo a luz com o dobro da intensidade de um espelho regular.

— Venha, Bree. Você precisa experim entar...

Eu não conseguia pensar em um m otivo para recusar o convite, e estava curiosa, m as tam bém estava relutante ao m e aproxim ar dele.

— Não arde?

— Nada. A luz não queim a, apenas... é refletida por nós. Bem , acho que refletir é um a palavra am ena dem ais para descrever o que estam os vendo.

Lenta com o um a hum ana, estendi m eus dedos com evidente indecisão em direção à luz. Im ediatam ente, os reflexos se espalharam em todas as direções partindo da m inha pele, tornando

a caverna tão brilhante que o dia lá fora chegava a parecer escuro. Mas não eram exatam ente reflexos, porque a luz era fragm entada e colorida com o um cristal. Coloquei a m ão inteira na coluna de luz, e a caverna ficou ainda m ais cintilante.

— Acha que Riley sabe? — m urm urei.

— Talvez. Talvez não.

— Por que ele não contaria para nós, se soubesse? Qual seria o propósito de guardar segredo? Sim , som os com o um globo de luz am bulante. — Encolhi os om bros.

Diego riu.

— Agora entendo de onde vieram as histórias. Im agine se você visse um a coisa dessas

quando era hum ana. Não ia pensar que o suj eito havia sim plesm ente explodido em cham as?

— Se ele não continuasse por perto. Talvez.

— É incrível! — Diego com entou.

Com um dedo, ele traçou um a linha na palm a da m inha m ão cintilante. Depois levantou-se e entrou inteiro no raio de luz, e todo o espaço à nossa volta virou um a explosão de brilho e lum inosidade.

— Venha, vam os sair daqui. —Ele ergueu os braços e içou o corpo pela abertura que abrira na superfície.

Era de se esperar que eu j á tivesse superado o choque inicial, m as ainda estava nervosa dem ais para segui-lo. Sem querer dar a im pressão de que era um a grande covarde, fui j unto, m as por dentro estava apavorada. Riley tinha m esm o nos convencido sobre queim arm os ao sol e, na m inha cabeça, isso se rem etia diretam ente ao terrível período de ardor e queim ação de quando m e tornei unia vam pira. E não conseguia evitar o pânico que instintivam ente m e dom inava cada vez que pensava naquilo.

Diego saiu da abertura, e eu surgi cerca de m eio m elo depois. Ficam os parados em um a trilha gram a e m ato, poucos passos distante das árvores que cobriam a ilha. Atrás de nós havia apenas alguns m etros até a beirada do penhasco, e depois a água. Tudo à t tussa volta cintilava

com a cor e a luz que refletíam os.

— Uau... — m urm urei.

Diego sorriu para m im , seu rosto bonito sob a luz do sol, e, de repente, com um forte calafrio na barriga, per-, que toda aquela coisa de m elhor am igo para sem -i)re j á era. Para m im , pelo m enos. Foi rápido assim .

O sorriso dele ficou então m ais suave. Seus olhos refletiam os m eus, alertas. Tudo em nós era encanto e luz. Ele tocou m eu rosto, com o havia tocado m inha m ão, com o se estivesse tentando entender o brilho.

— Tão linda — disse, e deixou a m ão descansar em m inha face.

Não sei por quanto tem po ficam os ali, sorrindo com o com pletos idiotas, brilhando com o tochas. Não Havia barcos na baía, o que era bom , provavelm ente. Nem m esm o a visão turva dos hum anos deixaria de nos perceber. Não que pudessem fazer algum a coisa contra nós, m as eu não estava com sede, e toda a possível gritaria teria arruinado o clim a.

Depois de um tem po um a nuvem cobriu o sol. De repente éram os só nós outra vez, em bora ainda estivéssem os ligeiram ente lum inosos. Não o suficiente para que alguém com um olhar m enos aguçado que o de um vam piro pudesse notar.

Assim que o brilho desapareceu, m eus pensam entos recuperaram a nitidez e eu consegui refletir sobre o que aconteceria em seguida. Em bora Diego tivesse voltado à aparência norm al — ele não faiscava m ais com o uni globo de luz —, eu sabia que não seria com o antes para m im . Aquela sensação de calafrio na barriga continuava. Eu tinha a im pressão de que ela ficaria ali para sem pre.

— Vam os contar a Riley ? Acha que ele não sabe? — perguntei.

Diego suspirou e abaixou a m ão. —

— Não sei. Vam os pensar nisso enquanto procuram os pelos outros.

— Tem os que ser cuidadosos ao rastreá-los durante o dia. Sabe com o é, som os fáceis de notar à luz do sol...

Ele riu.

— Vam os agir com o ninj as.

Eu concordei com a cabeça.

— “Clube supersecreto finj a” soa m uito m elhor que aquela coisa de “m elhor am igo para

sem pre”.

— Definitivam ente.

Não levam os m ais que alguns segundos para localizai-o ponto de onde toda a turm a havia partido ao sair da ilha. Essa foi a parte fácil. Descobrir para onde no continente eles haviam ido era outra história. Discutim os rapidam ente a ideia de nos separar, m as a decisão de continuar j untos foi unânim e. Nossa lógica fazia todo o sentido — se um de nós encontrasse algo, com o contaria ao outro? —, m as, na, verdade, eu sim plesm ente não queria sair de perto dele, e podia ver que ele sentia o m esm o. Nenhum de nós j am ais teve um colega, um a com panhia agradável,

e a experiência era boa dem ais para perderm os um m inuto sequer.

Eles poderiam ter ido para qualquer lugar. As opções eram m uitas. Para o continente, ou para outra ilha, ou para a periferia de Seattle, ou para o norte do Canadá. Quando dem olíam os ou queim ávam os um a de nossas casas, Riley estava preparado — ele sem pre parecia saber exatam ente para onde ir. Devia planej ar as m udanças com antecedência, m as nunca nos inform ava sobre seus planos.

Eles poderiam estar em qualquer lugar.

Ter de m ergulhar e voltar à superfície para evitar que barcos e pessoas nos vissem significava um a trem enda perda de tem po. Não tivem os sorte durante todo o dia, m as tam bém

não estávam os incom odados com isso. Nós nos divertíam os com o j am ais havíam os nos divertido antes.

Foi um dia estranho. Em vez de estar sentada infeliz na escuridão, tentando não ouvir a confusão dos outros e m e esforçando para engolir a repugnância pelo lugar onde nos escondíam os, estava brincando de ninj a com m eu m elhor am igo, ou talvez algo m ais. Rim os m uito enquanto percorríam os os cam inhos à som bra, j ogando pedras um no outro com o se fossem estrelas ninj a.

Então o sol se pôs, e de repente fiquei nervosa. Riley procuraria por nós? Pensaria que havíam os fritado ao sol? Ou ele sabia que não?

Com eçam os a nos deslocar m ais depressa. Muito m ais depressa. Já havíam os percorrido todas as ilhas próxim as e agora nos concentrávam os no continente. Cerca de um a hora depois do pôr do sol, farej ei um cheiro conhecido, e em segundos encontram os o rastro. Depois que tínham os a pista do cheiro, tudo ficou fácil com o seguir um a m anada de elefantes na neve fofa.

Enquanto corríam os, falam os sobre o que fazer, adotando um tom m ais sério.

— Não acho que sej a um a boa ideia contar a Riley — opinei. — Vam os dizer que passam os o dia inteiro na caverna e saím os ao anoitecer para procurar por eles. — Minha paranoia crescia. — Melhor ainda: vam os dizer a eles que sua caverna estava cheia de água. Não podíam os nem conversar.

— Acha que Riley é do m al, não é? — ele perguntou em voz baixa depois de um m inuto.

Enquanto falava, Diego segurava m inha m ão.

— Não sei. Mas prefiro agir com o se fosse, só por precaução. — Hesitei por um instante

antes de acrescentar:

— Você não quer pensar que ele pode ser m au. — Não — Diego adm itiu. — Ele é m eu am igo. Quer dizer, é com o se fosse um am igo. Não é com o você. — Os dedos afagaram os m eus. — Mas é m ais que todos os outros. Não quero pensar... — ele não concluiu a sentença.

Eu devolvi o afago.

— Talvez ele sej a realm ente bom . O fato de serm os cuidadosos não vai m udar quem ele é.

— É verdade. Tudo bem , vam os contar a história da caverna, então. Pelo m enos no início... Posso conversar com ele sobre o sol depois, m ais tarde. Vai ser m elhor ter essa conversa

durante o dia, m esm o, quando eu puder provar im ediatam ente m inha afirm ação. E caso ele j á saiba, m as tenha um bom m otivo para não nos ter contado antes, será m elhor m esm o conversarm os sozinhos. Posso pegá-lo ao am anhecer, quando ele estiver voltando de onde quer que sej a...

Notei que de repente ele dizia eu no lugar do nós, e isso m e incom odou. Mas, ao m esm o tem po, eu não queria m esm o participar de nenhum a conversinha educativa envolvendo Riley. Não tinha nele a m esm a fé que Diego.

— Ataque ninj a ao am anhecer! — exclam ei, tentando fazê-lo rir. E funcionou. Voltam os

a brincar e seguim os rastreando nosso bando de vam piros, m as eu podia perceber que por trás da aparente diversão ele pensava em coisas sérias, com o eu.

E eu ficava m ais ansiosa à m edida que seguíam os correndo. Éram os m uito velozes, e não havia nenhum a possibilidade de estarm os na trilha errada, m as estávam os dem orando dem ais para encontrá-los. Nós nos afastam os m uito da costa, subindo as m ontanhas, entrando em um novo território. Esse não era o padrão habitual.

Todas as casas que havíam os ocupado, fossem elas na encosta de um a m ontanha, em urna ilha ou escondidas no m eio de um a grande fazenda, tinham algum as características em com um . Os proprietários m ortos, o local isolado e m ais um a coisa: todas visavam Seattle.

Margeavam a cidade com o luas orbitais. Seattle era sem pre o foco, o alvo.

Agora estávam os fora de órbita, e isso era estranho. Talvez isso não quisesse dizer nada, talvez fosse só um a das m uitas coisas que m udaram naquele dia. Todas as verdades que eu aceitava estavam de cabeça para baixo, e eu não estava com disposição para outras revoluções. Por que Riley não havia sim plesm ente escolhido um lugar norm al?

— Engraçado eles terem se afastado tanto — Diego m urm urou, e eu ouvi a tensão em sua voz.

— Engraçado ou assustador — eu disse.

Ele apertou m inha m ão.

— Está tudo bem . O clube ninj a pode encarar qualquer coisa.

— Já criou nosso cum prim ento secreto?

— Estou pensando nisso — ele garantiu.

Algo com eçou a m e incom odar. Era estranho, com o se eu pudesse sentir um ponto cego...

Sabia que havia algum a coisa que eu não enxergava, m as não conseguia identificar o quê. Algo óbvio...

E então, uns trinta e cinco quilôm etros a oeste do nosso perím etro habitual, encontram os a casa. Era im possível não reconhecer o barulho. O tum tum tum do baixo, a trilha sonora do videogam e, os grunhi-los. Era típico.

Soltei a m ão de Diego e ele m e olhou.

— Ei, eu nem conheço você — falei num tom debochado. — Nós nem conversam os no m eio de toda aquela água. Até onde sei, você pode m uito bem ser um ninj a ou um vam piro.

Ele riu.

— Vale para você tam bém , estranha. — Depois, em voz m ais baixa e falando depressa: — Faça as m esm as coisas que fez ontem . Am anhã à noite sairem os j untos. Vam os fazer um reconhecim ento, tentar entender um pouco m ais do que está acontecendo.

— Gostei do plano. Dê o sinal.

Ele se inclinou e m e beij ou — só um selinho, m as m e beij ou na boca. O choque provocado pelo contato percorreu todo o m eu corpo.

— Vam os lá — ele disse, e desceu a encosta da m ontanha na direção do barulho im pressionante sem olhar para trás, j á representando seu papel.

Eu o segui um pouco atordoada, m antendo alguns m etros de distância, lem brando-m e de m e com portar com ele com o teria m e com portado com qualquer outro. A casa era grande, um a espécie de galpão de lenhador, e ficava em um a clareira cercada de pinheiros, sem nenhum sinal de vizinhança num raio de m uitos quilôm etros. Todas as j anelas estavam escuras, com o se o lugar estivesse vazio, m as a estrutura trem ia com a reverberação do baixo no porão.

Diego entrou prim eiro, e eu tentei segui-lo com o se andasse atrás de Kevin ou Raoul. Hesitante, protegendo m eu espaço. Ele encontrou a escada e desceu com passos confiantes.

— Tentando m e despistar, bando de fracassados? — ele perguntou.

— Ah, ei, Diego está vivo — Kevin respondeu com um a m areada falta de entusiasm o.

— Não com sua aj uda — Diego acusou ao entrar no porão escuro.

A única luz provinha das várias telas de tevê, m as era m uito m ais do que qualquer um de nós precisava. Corri para perto de Fred, que tinha um sofá inteiro só para ele, satisfeita por poder m e m ostrar ansiosa com o estava, porque não havia nenhum a possibilidade de esconder ou disfarçar o sentim ento. Engoli em seco a onda de repulsa e m e encolhi no m eu lugar de costum e, no chão, atrás do sofá. Assim que m e abaixei, o poder repelente de Fred perdeu um pouco da força. Ou talvez eu j á estivesse m e acostum ando com ele.

O porão estava m eio vazio, j á que era noite. Todos os garotos ali tinham olhos com o os m eus — verm elhos e brilhantes, recentem ente alim entados.

— Levei um tem po para lim par a suj eira que você fez — Diego disse a Kevin. — Estava quase am anhecendo quando cheguei ao que restava da casa. Tive passar o dia inteiro sentado em um a caverna cheia de água.

– Vá fofocar tudo para Riley . Não ligo.

— Notei que a garotinha tam bém conseguiu voltar — disse outra voz, e eu estrem eci, porque era Raoul.

Senti certo alívio por ele não saber m eu nom e, m as isso não dim inuía o horror por ele ter m e notado.

— É, ela m e seguiu.

Eu não podia ver Diego, m as sabia que ele estava dando de om bros.

Eis o grande herói do m om ento! — Raoul disparou sarcástico.

— Não ganham os m ais pontos por ser idiotas.

Eu teria preferido que Diego não discutisse com Raoul. E esperava que Riley chegasse logo. Só ele era capaz de controlar Raoul, m esm o que não com pletam ente.

Mas Riley devia estar fora caçando garotos da escória para levar para ela. Ou fazendo o

que fazia quando estava ausente, fosse o que fosse.

— Você é interessante, Diego. Acha que Riley gosta tanto de você que vai se im portar se eu puser um fim em sua existência. Eu acho que está errado. E, de qualquer m aneira, neste

m om ento ele j á acre-dita que você está m orto.

Eu podia ouvir os outros se m ovendo. Alguns provavelm ente para apoiar Raoul, outros sim plesm ente para sair do cam inho. Hesitei no m eu esconderij o, sabendo que não deixaria Diego lutar sozinho contra eles, m as tem endo estragar o disfarce sem necessidade, caso não acontecesse um confronto. Im aginei que Diego não teria sobrevivido por tanto tem po sem ter fabulosas habilidades de com bate. De m inha parte, não tinha m uito a oferecer nesse departam ento. Havia três m em bros da gangue de Raoul ali, e alguns outros que poderiam ficar do lado dele só para ganhar sua sim patia. Será que Riley voltaria para casa antes que eles tivessem tem po de nos queim ar?

A voz de Diego era calm a quando ele respondeu:

— Tem m esm o todo esse m edo de m e enfrentar sozinho? Típico.

Raoul rosnou.

— Isso algum a vez j á funcionou? Quer dizer, sem ser nos film es. Por que eu deveria brigar sozinho? Não quero bater em você. Só quero destruí-lo.

Eu m e abaixei atrás do sofá, pronta para saltar e entrar em ação.

Raoul continuava falando. Ele gostava m uito do som da própria voz.

— Mas não vai ser preciso reunir todos nós para cuidar de você. Esses dois vão cuidar da outra prova da sua infeliz sobrevivência. A pequena sei-lá-o-nom e-dela.

Meu corpo estava gelado, paralisado. Tentei m e livrar dessa sensação para poder lutar. Não que isso fosse fazer algum a diferença.

Então senti algo m ais, um a coisa totalm ente inesperada — um a onda de repulsa tão forte que não consegui m e m anter agachada. Caí no chão encolhida, ofegando com horror.

Eu não era a única reagindo. Ouvi grunhidos enoj ados e sons de ânsia de todos os cantos do porão. Algum as pessoas se retiravam para os cantos m ais afastados, onde eu podia vê-las. Elas se esprem iam contra as paredes, esticando o pescoço com o se assim pudessem escapar da

horrível sensação. Pelo m enos um a pertencia à gangue de Raoul.

Ouvi o rosnado distinto de Raoul e depois notei que o som se distanciava, um a indicação de que ele subia a escada. E Raoul não foi o único a fugir dali. Pelo m enos m etade dos vam piros saiu do porão.

Eu não tive essa chance. Mal podia m e m over. Devia ser porque estava perto dem ais de Freaky Fred. Ele era o responsável pelo que estava acontecendo. E por m ais que eu m e sentisse horrível, conseguia perceber que ele, provavelm ente, acabara de salvar m inha vida.

Por quê?

A sensação de enj oo foi desaparecendo devagar. Assim que pude, m e arrastei até a beirada do sofá e dei um a olhada no porão. Toda a gangue de Raoul sum ira, m as Diego ainda estava lá, do outro lado do côm odo, perto das televisões. Os vam piros que restaram relaxavam pouco a pouco, em bora todos pare-cessem um pouco abalados. Muitos lançavam olhares curiosos na direção de Fred. Espiei-o pelas costas, apesar de não conseguir ver nada de onde estava. E desviei o olhar bem depressa. Olhar para Fred trazia de volta parte da náusea.

— Continue abaixada.

A voz grave era de Fred. Eu nunca o ouvira falar. Todos olharam para ele e desviaram os olhos im ediatam ente, sentindo voltar a repugnância.

Fred afinal só queria paz e sossego. Por m im , tudo bem . Eu estava viva por causa disso. Muito provavelm ente, Raoul se distrairia com algum a outra confusão antes do am anhecer e descarregaria a raiva em alguém ao alcance de suas m ãos. E Riley sem pre voltava no final da noite. Ficaria sabendo que Diego havia passado a noite na caverna, que não fora destruído pelo sol, e Raoul não teria desculpa para atacá-lo ou m e atacar.

Pelo m enos, esse era o m elhor cenário que eu conseguia im aginar. Enquanto isso, talvez Diego e eu pudéssem os pensar em um plano para nos m anter bem longe de Raoul.

Mais urna vez, tive a breve sensação de que estava deixando de ver um a solução óbvia. Antes que pudesse descobrir qual era, m eus pensam entos foram interrom pidos.

— Sinto m uito.

O resm ungo grave, quase silencioso, só podia ter partido de Fred. E tudo indicava que eu era a única suficientem ente próxim a para ouvi-lo. Ele estava falando com igo?

Continuar: parte 3 de 6