A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Stephenie Meyer · Capítulo 2 de 2 · parte 3/6

Páginas do PDF

A Breve Segunda Vida de Bree Tanner

Bree Tanner

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Olhei-o novam ente e não senti nada. Não conseguia ver seu rosto — ele ainda estava de costas para m im . Fred tinha cabelos grossos, louros e ondulados. Eu nunca havia notado isso, apesar de todos os dias que passara sentada à sua som bra. Riley não estava brincando quando dizia que Fred era especial. Rei ,u1sivo, m as realm ente especial. Será que Riley tinha algum a ideia de que ele era tão... tão poderoso? Ele conseguira dom inar um a sala cheia de vam piros em um segundo.

Em bora não pudesse ver sua expressão, tive a sensação de que Fred esperava por urna resposta.

— Não se desculpe — respondi num sussurro m uito fraco. — Obrigada.

Fred encolheu os om bros.

E depois disso descobri que não podia m ais olhar para ele.

As horas passaram m ais devagar que de costum e enquanto eu esperava pela volta de Raoul. De vez em quando, tentava olhar para Fred outra vez -- enxergar além da proteção que ele criara para si m esm o —, m as sem pre m e sentia repelida. Se insistisse m uito, acabaria vom itando.

Pensar em Fred era um a boa distração, um j eito de não pensar em Diego. Tentei fingir que não m e im portava saber onde ele estaria. Não olhei para ele, m as m e concentrei no som de sua respiração — seu ritm o singular — para m e m anter orientada. Ele estava sentado do outro lado da sala, ouvindo seus CDs em um laptop. Ou fingindo ouvir, talvez, da m esm a form a que eu fingia ler os livros da m ochila úm ida pendurada em m eus om bros. Eu virava as páginas na velocidade habitual, m as não registrava nada. Estava esperando por Raoul.

Felizm ente, Riley apareceu prim eiro. Raoul e sua gangue entraram logo atrás, m as não tão ruidosos e provocativos com o de hábito. Talvez Fred tivesse en sinado a eles um pouco de

respeito.

Mas era pouco provável. O m ais provável era que Fred só os tivesse enfurecido ainda m ais. De m inha parte, eu torcia para que Fred nunca abaixasse a guarda.

Riley se aproxim ou de Diego im ediatam ente; eu ouvi a conversa de costas para eles, com os olhos no livro. Na periferia do m eu cam po de visão, percebi que alguns idiotas da gangue de Raoul vagavam , procurando seu j ogo favorito ou retom ando o que faziam quando Fred os obrigara a sair correndo. Kevin era um deles, m as parecia estar procurando algo m ais especifico que entretenim ento. Várias vezes seus olhos tentaram se fixar no lugar onde eu estava sentada, m as a aura de Fred o m antinha distante. Ele desistiu depois de alguns m inutos e parecia um pouco enj oado.

— Soube que você tinha conseguido voltar — disse Riley. Sua voz soava genuinam ente satisfeita. — Eu sem pre posso contar com você, Diego.

— Sem problem as — Diego respondeu num tom relaxado. — A m enos que prender a respiração o dia todo conte com o problem a.

Riley riu.

— Não fique tão no lim ite da próxim a vez. Precisa servir de exem plo para os bebês.

Diego riu com ele. Pelo canto do olho, notei que Kevin relaxava um pouco. Será que ele

estava realm ente preocupado com a possibilidade de Diego m etê-lo em algum a encrenca? Talvez Riley ouvisse m esm o Diego. Mais do que eu havia percebido. Tal vez por isso Raoul tivesse ficado tão furioso antes.

O bom relacionam ento de Riley e Diego seria algo favorável, afinal? Talvez Riley fosse legal. E a relação entre eles não com prom etia o que existia entre nós, certo?

O tem po não passou m ais depressa depois do raiar do dia. O porão estava lotado e o clim a era instável, com o sem pre. Se vam piros ficassem roucos, Riley j á teria perdido a voz de tanto gritar. Alguns garotos perderam m em bros tem porariam ente, m as ninguém foi queim ado. A m úsica variava com a trilha sonora cios j ogos, e eu m e dava por satisfeita por não ser

“propensa” a dores de cabeça. Tentei ler m eus livros, m as acabei apenas folheando um depois do outro, sem m e interessar o suficiente para tentar focar nas letras. Eu os deixei em um a pilha perfeita ao lado do sofá, para Fred. Sem pre deixava m eus livros para ele, em bora não soubesse dizer se ele os lia ou não. Não conseguia olhá-lo com atenção suficiente para ver o que, precisam ente, fazia de seu tem po livre.

Pelo m enos Raoul não olhou na m inha direção. Nem um a vez. Nem Kevin, nem os outros. Meu esconderij o era m ais seguro que nunca. Eu não conseguia ver se Diego era esperto o

bastante para m e ignorar, porque eu o estava ignorando com pletam ente. Ninguém desconfiava de que form ávam os um a equipe, exceto, talvez, Fred — será que ele estivera prestando atenção enquanto eu m e preparava para lutar ao lado de Diego? Mesm o que ele tivesse percebido algum a coisa, eu não m e preocupava m uito. Se Fred tivesse algum a antipatia por m im , poderia ter m e deixado m orrer m ais cedo. Teria sido fácil.

O barulho foi se tornando m ais ensurdecedor com o pôr do sol. Não conseguíam os ver a claridade dim inuindo, dali do porão, debaixo da terra, com todas as j anelas lá em cim a cobertas, só por precaução. Mas a espera em tantos dias longos e angustiantes nos tinha dado um a boa noção do m om ento em que o torm ento estava quase acabando. Os garotos com eçavam a ficar

anim ados, perguntando a Riley se podiam sair.

— Kristie, você saiu ontem — Riley respondeu, era possível ouvir a im paciência crescendo na voz dele. Heather, Jim , Logan, podem ir. 'Warren, seus olhos estão escuros, vá com eles. Ei, Sara, não sou cego. Volte aqui.

Os garotos que ele proibia de sair ficavam de cara fechada, pelos cantos, alguns esperando que o próprio Riley saísse para poderem escapar, apesar das regras.

— Fred, acho que é sua vez — Riley anunciou sem olhar na nossa direção.

Ouvi Fred suspirar ao se levantar. Todos se enco lheram quando ele passou pelo centro do aposento, até m esm o Riley. Mas, diferentem ente dos outros, Riley tinha um leve sorriso. Ele gostava de vam piros com talentos.

Eu m e sentia nua sem Fred por perto. Agora qualquer um poderia olhar para m im . Fiquei quieta, im óvel, abaixada, fazendo tudo o que estava ao m eu alcance para não cham ar atenção.

Para m inha sorte, naquela noite Riley estava com pressa. Ele m al parou para olhar feio para aqueles que se arrastavam disfarçadam ente para a porta, não os am eaçou nem m esm o

quando j á estava saindo. Norm alm ente, ele fazia algum a versão do discurso habitual sobre serm os discretos, m as não naquele dia. Ele pareceu preocupado, ansioso. Eu poderia apostar que ele ia vê-la. E isso m e fazia não querer reencontrá-lo quando am anhecesse.

Esperei Kristie e três de seus habituais com panheiros saírem e escapei atrás deles, tentando parecer parte do grupo sem irritá-los. Não olhei para Raoul nem para Diego. Eu m e concentrava em parecer insignificante — ninguém que m erecesse ser notada. Só m ais um a vam pira qualquer.

Do lado de fora da casa, im ediatam ente m e afastei de Kristie e corri para o bosque. Esperava que Diego se preocupasse em farej ar m eu rastro. Na m etade da subida da m ontanha m ais próxim a, eu m e em poleirei na copa de um a grande árvore que ficava isolada das vizinhas por m uitos m etros. Dali eu teria um a boa visão de qualquer um que tentasse m e seguir.

Mas estava exagerando na cautela. Talvez tivesse exagerado durante todo o dia. Diego foi o único que se aproxim ou, procurando por m im . Eu o vi de longe e desci da árvore para encontrá-lo.

— Dia longo — ele disse ao m e abraçar. — Seu plano é difícil.

Eu o abracei tam bém , estranhando quanto o abraço era confortável.

— Talvez sej a só paranoia m inha.

— Sinto m uito sobre Raoul. Foi por pouco. Eu concordei com um m ovim ento de cabeça.

— É sorte que Fred incom ode tanto.

— Fico m e perguntando se Riley sabe quanto aquele garoto é poderoso.

— Duvido. Nunca vi Fred fazer aquilo antes e passo m uito tem po perto dele.

— Bem , isso é problem a do Freaky Fred. Nós j á tem os o nosso próprio segredo para contar a Riley . Estrem eci.

— Ainda não tenho certeza de que sej a boa ideia.

— Não saberem os até ver com o ele reage.

— Norm alm ente, não gosto de não saber.

Diego estreitou Os olhos, com ar especulativo. — O que acha de um a aventura?

— Depende.

— Estava pensando nas prioridades cio clube. Sabe com o é, descobrir o m áxim o possível.

 

— Acho que devem os seguir Riley . Descobrir o que ele está fazendo.

Olhei para ele perplexa.

— Mas ele vai perceber que o seguim os. Vai farej ar nossa presença.

— Eu sei. Pensei em agir assim : eu sigo o rastro de Riley. Você fica distante alguns m etros e segue m eu som . Então, Riley só vai saber que eu o segui, e posso argum entar que tinha algo im portante a dizer, por isso fui atrás dele. Nesse m om ento, faço a grande revelação com o efeito globo de luz. E vej o com o ele reage. — Seus olhos estavam fixos em m im . — Mas você... você será a carta na m anga por enquanto, certo? E eu conto com o ele reagiu.

— E se ele voltar m ais cedo? Não quer que o encontro aconteça perto do am anhecer, para você poder brilhar?

— Sim ... esse é um possível problem a. E pode afetar o desenvolvim ento da m inha conversa com ele. Mas acho que devem os correr o risco. Ele parecia estar com pressa esta noite, não achou? Com o se fosse precisar da noite inteira para o que tinha a fazer?

— Talvez. Ou só estava com m uita pressa de en contrá-la. Talvez não sej a boa ideia

surpreendê-lo se ela estiver por perto.

Nós dois nos encolhem os.

— Tem razão. Ainda assim ... — Ele franziu a tes ta. — Não tem a sensação de que o que

está por vir, sej a o que for, está cada vez m ais perto? Com o se não tivéssem os a eternidade para entender tudo isso?

Fiz que sim com a cabeça, m as com ar infeliz.

— Sim , é o que eu sinto.

— Então, vam os correr os riscos. Riley confia em m im , e tenho bons m otivos para querer falar com ele.

Eu pensei na estratégia. Em bora, na verdade, só conhecesse Diego havia um dia, sabia que aquele grau de paranoia não era do feitio dele.

— Esse seu plano elaborado... — eu disse.

— O que tem ele? — Diego perguntou.

— Bem , parece um plano solo. Não tem j eito de aventura do clube. Não na parte perigosa, pelo m enos.

Ele fez um a careta, com o se quisesse dizer que eu o pegara.

— A ideia é m inha. Sou eu quem ... — ele hesitou, com o se fosse difícil pronunciar as palavras seguintes — confia em Riley. Só eu vou correr o risco de ficar encrencado se estiver errado.

Mesm o sendo um a covarde, não m e deixei convencer.

— Não é assim que um clube funciona.

Ele assentiu, a expressão neutra.

— Tudo bem , vam os pensar nisso no cam inho.

Eu não acreditava que ele tivesse m esm o a intenção de pensar em algum a coisa.

— Fique nas árvores e m e acom panhe do alto, certo? — ele disse.

—Tudo bem .

Ele voltou à cabana, deslocando-se depressa. Eu o segui pelas árvores, a m aioria dos galhos tão próxim os uns dos outros que só raram ente eu precisava de fato saltar de um a copa a outra. Fazia m ovim entos curtos, leves, torcendo para o balançar dos galhos sob o peso do m eu corpo parecer apenas obra do vento. Havia urna brisa constante, o que era um a aj uda. Estava frio para o verão, m as a tem peratura não m e incom odava.

Diego farej ou Riley do lado de fora da casa sem nenhum a dificuldade e depois seguiu o rastro rapidam ente, enquanto eu o acom panhava por cim a dos galhos, vários m etros atrás e uns quarenta e cinco m etros ao norte, m ais no alto da encosta. Quando as árvores se tornaram realm ente densas, ele passou a sacudir um tronco aqui e ali para que eu não o perdesse.

Seguim os em frente, ele correndo, eu feito um esquilo voador, por apenas quinze m inutos, m ais ou m enos, até que Diego reduziu a velocidade. Devíam os estar chegando perto do nosso obj etivo. Subi ainda m ais pelos galhos, procurando um a árvore de onde tivesse um a boa visão. Escalei urna que era bem m ais alta que as vizinhas e observei a cena.

Menos de um m etro adiante havia um vão entre as árvores, um cam po aberto de vários hectares. Perto do centro, m ais próxim o das árvores do lado leste, havia o que parecia ser um a gigantesca casa de doces. Pintada de rosa, verde e branco, era elaborada a ponto de parecer ridícula, com acabam ento m eticuloso e adornos exuberantes em todos os espaços disponíveis. Era o tipo de coisa da qual eu teria rido em urna situação m enos tensa.

Riley não estava à vista, m as Diego havia parado lá em baixo, por isso deduzi que ali acabava nossa busca. Talvez aquela fosse a casa que Riley preparava para substituir a grande cabana quando ela desm oronasse. Mas era m enor que todas as outras em que j á havíam os ficado

e não parecia ter um porão. E era ainda m ais afastada de Seattle.

Diego m e olhou e fiz um sinal convidando-o a subir. Ele concordou com a cabeça e voltou refazendo os próprios passos. Então, deu um salto fabuloso — eu não sabia se conseguiria pular tão alto, m esm o sendo j ovem e forte — e agarrou um galho da árvore m ais próxim a. Ninguém , a m enos que fosse extraordinariam ente atento, j am ais teria notado que Diego se desviara de sua trilha. Mesm o assim , ele ainda se deslocou pela copa das árvores a fim de que seu rastro não levasse diretam ente a m im .

Quando finalm ente decidiu que era seguro, ele se aproxim ou e im ediatam ente segurou m inha m ão. Em silêncio, lancei o olhar para a casa de confeitos. Um canto da boca dele trem eu.

Juntos, com eçam os a nos m over para o leste, ainda no topo das árvores. Chegam os tão perto da casa quanto a ousadia perm itiu — deixando algum as árvores com o cobertura entre a casa e nós — e então nos sentam os em silêncio, ouvindo.

A brisa soprava suave, e conseguim os escutar algum a coisa. 13m estranho e breve farfalhar, um tique-tique. De início, não reconheci o que ouvia, m as Diego sorriu, fez um bico engraçado e beij ou o ar na m inha direção.

Os sons de um beij o entre vam piros não eram os m esm os que os de um beij o entre hum anos. Não havia células cheias de líquido e tecido m acio para serem esprem idos. Só lábios de pedra, nenhum a troca. Eu escutara um beij o entre vam piros antes — o toque dos lábios de Diego nos m eus na noite anterior —, m as j am ais teria ligado um a coisa a outra. Não chegava nem perto do que eu esperava encontrar ali.

Essa constatação m udou tudo de lugar na m inha cabeça. Deduzira que Riley tinha ido vê-la talvez para receber instruções ou levar novos recrutas, eu não sabia. Mas nunca havia im aginado deparar com algo do tipo de... ninho de am or. Com o Riley podia beij á-la? Eu não contive um arrepio e olhei para Diego. Ele tam bém parecia levem ente horrorizado, m as encolheu os om bros.

Pensei em m inha últim a noite com o hum ana, e m e encolhi ao recordar tão vividam ente o ardor. Tentei lem brar os m om entos anteriores, atravessar a névoa da confusão. Prim eiro, senti um m edo crescente surgir assim que Riley parou diante da casa velha, a segurança que eu tinha experim entado na lanchonete ilum inada onde com era o ham búrguer se dissolvera

com pletam ente. Eu recuei, tentei fugir, m as ele agarrava m eu braço com força e m e tirou do carro com o se eu fosse um a boneca, com o se não pesasse nada. Depois vieram o terror e a incredulidade quando ele saltou cinco m etros até a porta. Terror, e em seguida um a dor que não deixava espaço para dúvidas quando ele quebrou m eu braço, arrastando-m e pela porta para dentro da casa escura. E então, a voz.

Quando m e concentrei na lem brança, consegui ouvi-la outra vez. Aguda e m elodiosa, com o a de um a m enininha, m as m al-hum orada. Parecia de um a criança fazendo birra.

Lem brei o que ela disse: “Por que trouxe essa? É m uito pequena.” Ou algo do tipo, pensei. As palavras podiam não ser exatam ente as m esm as, m as era esse o significado.

Eu tinha certeza de que Riley estava ansioso por agradar quando respondeu, tem endo desapontá-la: “Mas ela é outro corpo. Outra distração, pelo m enos.”

Acho que nesse m om ento choram inguei, e ele m e sacudiu dolorosam ente, m as não voltou a falar com igo. Era com o se eu fosse um cachorro, não um a pessoa.

“Essa noite inteira foi um desperdício”, reclam ou a voz infantil. “Matei todos eles. Argh!”

Lem brei que nesse m om ento a casa trem eu, com o se um carro tivesse ido de encontro a ela. Agora percebia que ela provavelm ente havia chutado algum a coisa num m om ento de

frustração.

“Muito bem . Acho que até um a pequena é m elhor que nada, se isso é o m elhor que pode fazer. Agora j á estou tão saciada que talvez consiga parar.”

Os dedos rígidos de Riley haviam desaparecido, e eu fiquei sozinha com a voz. Nesse ponto, estava tom ada por um pânico tão absoluto que não em itia m ais nenhum som . Apenas fechei os olhos, em bora j á estivesse com pletam ente cega naquela escuridão. Não gritei até que algo cortou m eu pescoço, ardendo com o urna lâm ina coberta de ácido.

Eu m e encolhi, tentando interrom per as lem branças, tentando banir da m ente o que viria a

seguir. Concentrei-m e naquela conversa breve. Ela não parecia falar com um am ante, nem m esm o com um am igo. Era m ais com o se tratasse com um em pregado. Alguém de quem não gostava m uito e que poderia dem itir em breve.

Mas os estranhos sons de beij os persistiam . Um dos vam piros suspirou de satisfação.

Eu franzi a testa para Diego. O que escutávam os não nos revelava m uita coisa. Por quanto tem po ainda teríam os que ficar ali?

Ele inclinou a cabeça para o lado, ouvindo com cuidado e atenção.

E depois de m ais alguns m inutos de paciência, os sons baixos, rom ânticos, foram repentinam ente interrom pidos.

— Quantos?

A voz estava abafada pela distância, m as ainda era audível e clara. E podia reconhecê-la. Aguda, quase um trinado. Com o a de um a m enina m im ada.

— Vinte e dois — Riley respondeu em tom orgulhoso.

Diego e eu trocam os um olhar penetrante. Éram os vinte e dois na últim a contagem .

Deviam estar falando sobre nós.

— Pensei ter perdido m ais dois para o sol, m as um dos m eus garotos m ais velhos é... obediente — Riley prosseguiu.

Havia quase um toque de afeto em sua voz quando ele se referiu a Diego com o um de seus garotos.

— Ele tem um lugar, um esconderij o subterrâneo, e se escondeu com a m ais nova.

— Tem certeza?

Houve um a longa pausa, dessa vez sem sons de rom ance. Mesm o de longe, eu acreditava poder sentir algum a tensão.

— Sim , ele é um bom garoto. Tenho certeza.

Outra pausa tensa. Eu não conseguia entender sua pergunta. O que ela queria dizer com tem certeza? Será que ela achava que ele ouvira a história de alguém , que não vira Diego

pessoalm ente?

— Vinte e dois é um bom núm ero — ela m urm urou, e a tensão pareceu se dissolver. —

Com o o com portam ento deles está evoluindo? Alguns têm quase um ano de idade. Ainda

seguem os padrões norm ais?

— Sim — respondeu Riley. — Tudo o que m e disse para fazer funcionou im pecavelm ente. Eles não pensam , sim plesm ente agem com o j á estão acostum ados. Sem pre consigo distraí-los com a sede. Isso os m antém sob controle.

Eu franzi a testa para Diego. Riley não queria que pensássem os. Por quê?

— Você trabalhou m uito bem — nossa criadora elo giou, e depois ouvim os outro beij o. Vinte e dois!

— Chegou a hora? — Riley perguntou ansioso.

A resposta foi rápida e contundente com o um a bofetada.

— Não! Ainda não decidi quando.

— Não entendo.

— Não precisa entender. É suficiente que saiba que nossos inim igos têm grandes poderes. Todo o cuidado é pouco. — A voz dela ficou suave, tornou-se outra vez m elosa. — Mas os vinte e dois ainda estão vivos. Mesm o tudo o que eles são capazes de fazer... que efeito terá contra vinte

e dois? — Ela deixou escapar um a risadinha que parecia sinos tilintando.

Diego e eu não param os de nos olhar durante todo esse tem po, e agora eu podia ver em seus olhos que pensávam os a m esm a coisa. Sim , fornos criados com um propósito, com o

im aginávam os. Tínham os um inim igo. Ou nossa criadora tinha um inim igo. A distinção era im portante?

— Decisões, decisões — ela m urm urou. — Ainda não. Talvez alguns m ais, só para ter certeza.

— Alguns m ais podem , no final, reduzir nosso núm ero — Riley preveniu hesitante, com o se tornasse cuidado para não aborrecê-la. — Há sem pre um a instabilidade quando um novo grupo é introduzido.

— É verdade — ela concordou, e eu im aginei Riley suspirando aliviado por não tê-la irritado.

De repente, Diego desviou os olhos dos m eus, olhando para a cam pina. Eu não havia escutado nenhum m ovim ento na casa, m as ela podia ter saído. Girei a cabeça e no m esm o instante o restante de m im ficou paralisado com o urna estátua. E vi o que havia assustado Diego.

Quatro figuras atravessavam o cam po aberto, cam inhando na direção da casa. Haviam

entrado na clareira vindos do oeste, o ponto m ais afastado de onde nos escondíam os. Todos usavam longos m antos escuros com capuz, por isso m inha prim eira im pressão foi de que eram hum anos. Pessoas estranhas, m as ainda assim , apenas hum anos, porque nenhum dos vam piros que eu conhecia usava aquelas roupas góticas e com binadas. E nenhum se m ovia de um j eito tão suave e controlado, tão... elegante. Foi quando percebi que nenhum dos hum anos que eu j á vira seria capaz de se deslocar daquela m aneira, e m ais: nenhum poderia se deslocar tão silenciosam ente. Os m antos escuros deslizavam sobre a relva em absoluto silêncio. Então, ou

aquelas criaturas eram vam piros ou eram algum a outra coisa sobrenatural. Fantasm as, talvez. Mas, se eram vam piros, eram vam piros que eu não conhecia, e isso significava que poderiam ser os inim igos de quem ela estava falando. Nesse caso, precisávam os sair dali im ediatam ente,

porque não tínham os outros vinte vam piros do nosso lado no m om ento.

Quase fugi naquele instante, m as tive m uito m edo de cham ar a atenção das criaturas m isteriosas.

Então os observei se m ovendo suavem ente, e notei outros detalhes. Eles se m antinham

num a form ação perfeita, a form a de um diam ante, que nunca desalinhava, por m ais que o terreno m udasse sob seus pés. O que representava a ponta do diam ante era m enor que os outros, e seu m anto era m ais escuro. Eles não pareciam seguir nenhum rastro, nenhum cheiro, nenhum a pista. Sim plesm ente conheciam o cam inho. Talvez fossem convidados.

O grupo se m ovia diretam ente para a casa, e eu senti que era seguro respirar novam ente quando com eçaram a subir a escada que levava à porta. Pelo m enos não cam inhavam na nossa direção, m inha e de Diego. Quando sum issem de vista, poderíam os desaparecer por entre as árvores, protegidos pelo som da próxim a brisa, e j am ais saberiam que havíam os estado ali.

Olhei para Diego e virei a cabeça sutilm ente na direção de onde viéram os. Ele estreitou os olhos e levantou um dedo. Ah, ótim o, ele queria ficar. Revirei os olhos. Apesar de todo o m edo, m e surpreendi por ainda conseguir ser sarcástica.

Olham os novam ente para a casa. Os seres encobertos por m antos haviam entrado

silenciosam ente, m as percebi que ela e Riley não falaram m ais nada desde que notam os a

chegada dos visitantes. Deviam ter escutado algum a coisa ou de algum m odo percebido que estavam em perigo.

— Não se incom odem — um a voz m uito clara e m onótona ordenou preguiçosam ente. Não era um a voz tão aguda quanto a da nossa criadora, m as ainda soava infantil aos m eus ouvidos. — Creio que sabem quem som os, por isso deve saber tam bém que é inútil tentar nos surpreender. Ou se esconder. Ou lutar. Ou fugir.

Um a risada m asculina e profunda que não pertencia a Riley ecoou am eaçadora pela casa.

— Relaxem — instruiu a prim eira voz sem entonação, a m enina sob o m anto. A voz tinha aquela característica distintiva que m e fez ter certeza de que ela era um a vam pira, não um fantasm a ou outro tipo de pesadelo. — Não viem os para destruir vocês. Ainda.

Houve um m om ento de silêncio, e depois alguns m ovim entos que quase não se podia ouvir. Um a m udança de posições.

— Se não está aqui para nos m atar, então... o que quer? — perguntou nossa criadora, tensa e estridente.

— Querem os saber quais são suas intenções. Especificam ente, se envolvem ... um certo clã local — a garota com o m anto explicou. — Estam os im aginando se eles têm algo a ver com a confusão que vocês criaram aqui. Criaram ilegalmente.

Diego e eu franzim os a testa ao m esm o tem po. Nada daquilo fazia sentido, m as a últim a parte era a m ais estranha. O que podia ser ilegal para vam piros? Que policial, que j uiz, que prisão

teria algum poder sobre nós?

— Sim — sibilou nossa criadora. — Meus planos visam exclusivamente a eles. Mas ainda

não podem os agir. É com plicado. — Um a nota petulante vibrou em sua voz no final da frase.

— Acredite, conhecem os as dificuldades m elhor que você. É im pressionante que tenha conseguido se m anter fora do radar, digam os, por todo esse tem po. Diga — um certo interesse coloriu a m onotonia da voz —, com o tem feito isso?

Nossa criadora hesitou e depois falou tudo de um a vez, rapidam ente, quase com o se sob algum a intim idação silenciosa.

— Eu ainda não decidi — ela revelou. Depois acrescentou m ais lentam ente, relutante. — Atacar. Não decidi fazer algo com eles.

— Grosseira, m as direta — a m enina do m anto disse. — Infelizm ente, seu período de deliberação chegou ao fim . Você precisa decidir, agora, o que vai fazer com seu pequeno

exército. — Diego e eu arregalam os os olhos ao ouvir essa declaração. — Caso contrário, será nosso dever puni-la com o exige a lei. Esse adiam ento, m esm o breve, é um problem a para m im .

Não é assim que atuam os. Sugiro que nos dê todas as garantias que puder... e depressa.

— Vam os agir im ediatam ente! — Riley m anifes tou-se ansioso, e houve um chiado im ediato e agudo, com o o sibilar de urna serpente.

— Vam os agir assim que for possível — nossa criadora o corrigiu, furiosa. — Há m uito por fazer. Im agino que queira nosso sucesso. Então, preciso de algum tem po para treiná-los... alim entá-los!

Houve um a pausa breve.

— Cinco dias. Voltarem os em cinco dias. E não há pedra sob a qual poderá se esconder ou velocidade na qual poderá fugir para se salvar. Se não tiver atacado quando voltarm os, você vai queim ar.

A declaração não continha am eaça além da m ais absoluta certeza.

— E se eu j á tiver atacado? — nossa criadora perguntou abalada.

— Verem os — respondeu a garota com o m anto, adotando um tom m ais anim ado do que

o que usara até então. — Suponho que tudo dependa de seu grau de sucesso. Trabalhe e se esforce para nos agradar.

A últim a ordem foi dada num tom neutro, duro, e essa nota de frieza m e deu arrepios.

— Sim — nossa criadora grunhiu.

— Sim — Riley repetiu num sussurro.

Um segundo depois os vam piros cobertos por m antos deixavam a casa silenciosam ente. Diego e eu nem respiram os nos cinco m inutos seguintes ao desaparecim ento do grupo. Dentro da

casa, nossa criadora e Riley estavam igualm ente quietos. Outros dez m inutos transcorreram em total im obilidade.

Toquei o braço de Diego. Era nossa chance de sair dali. Naquele m om ento, eu não estava m ais com tanto m edo de Riley. Queria era m e afastar o m áxim o possível daqueles m antos escuros. Queria a segurança da vantagem num érica, que esperava por nós na cabana, e im aginava que nossa criadora sentia exatam ente o m esm o. Por que, em prim eiro lugar, ela havia criado tantos de nós? Havia nisso algo m ais assustador do que eu havia pensado.

Diego hesitou, ainda ouvindo, e um segundo depois sua paciência foi recom pensada.

— Bem — ela sussurrou dentro da casa —, agora eles sabem .

Ela se referia aos de m anto escuro ou ao clã m isterioso? Qual deles era o inim igo que ela havia m encionado antes cio dram a?

— Isso não im porta. Estam os em m aior núm ero...

— Qualquer aviso importa! — ela grunhiu, interrom pendo o discurso de Riley. — Há

m uito por fazer. Só cinco dias! — Ela gem eu. — Chega de confusão. Você com eça esta noite.

— Não vou desapontá-la! — Riley prom eteu.

Droga. Diego e eu nos m ovem os ao m esm o tem po, saltando do nosso galho para a árvore vizinha, voando de volta pelo m esm o cam inho que havíam os percorrido até ali. Agora Riley tinha pressa, e se encontrasse o rastro de Diego depois de tudo que acabara de acontecer com os dos m antos, e nenhum Diego no fim da trilha...

— Preciso voltar e ficar esperando — Diego cochichou enquanto corríam os. — Sorte que o ponto não dá vista para a casa. Não quero que ele saiba que eu ouvi.

— Precisam os conversar com ele j untos.

— É tarde dem ais para isso. Ele perceberia que não há rastro de seu cheiro. Vai parecer suspeito.

— Diego... — Ele não m e deixou term inar.

Estávam os novam ente no ponto onde ele se j untara a m im . Ele agora sussurrava.

— Siga o plano, Bree. Direi a ele o que planej ei. Ainda não estam os perto do am anhecer, m as vai ter que ser assim . Se ele não acreditar em m im ... — Diego encolheu os om bros. — Ele agora tem outras coisas com que se preocupar, coisas m ais im portantes que a m inha im aginação fértil. Talvez estej a m ais propenso a ouvir agora. Parece que precisarem os de toda aj uda que conseguirm os, e poder andar por aí à luz do dia não será nada m al.

— Diego... — repeti, sem saber o que m ais poderia dizer.

Ele olhou nos m eus olhos, e eu esperei que seus lábios se abrissem naquele sorriso fácil,

que ele fizesse algum a piada sobre ninj as ou m elhores am igos para sem pre.

Ele não fez. Nem sorriu. Em vez disso, inclinou-se lentam ente, sem desviar os olhos dos m eus, e m e beij ou. Os lábios lisos encontraram os m eus por um longo segundo enquanto nos olhávam os.

Depois ele recuou e suspirou.

— Vá para a casa, esconda-se atrás de Fred e aj a com o se não soubesse de nada. Eu vou

logo depois de você.

— Tom e cuidado.

Segurei a m ão dele e a apertei com força, depois soltei. Riley havia falado sobre Diego com carinho. Eu só podia esperar que esse afeto fosse verdadeiro. Não havia escolha.

Diego desapareceu entre as árvores, silencioso com o um a brisa am ena. Eu não perdi tem po tentando acom panhá-lo com os olhos. Parti im ediatam ente, correndo pelos galhos em linha reta de volta para a casa. Esperava que m eus olhos ainda estivessem suficientem ente brilhantes da refeição da noite anterior para explicar m inha ausência. Só um a caçada rápida. Tive sorte... encontrei um andarilho solitário. Nada dem ais.

O som da m úsica retum bante que ouvi ao m e aproxim ar era acom panhado pelo cheiro inconfundível, doce, e pela fum aça de um vam piro incinerado. Meu pânico se m ultiplicou. Dentro ou fora da casa, eu poderia m orrer com a m esm a facilidade. Mas não havia outro j eito. Não desacelerei, sim plesm ente desci a escada correndo e fui diretam ente para o canto onde sentia a presença de Freaky Fred, em bora não pudesse olhar diretam ente para lá. Ele estava em pé. Estava procurando algum a coisa para fazer? Cansara de ficar sentado? Eu não tinha ideia do que ele tram ava, nem queria saber. Ficaria bem perto dele até Riley e Diego voltarem .

No m eio do porão havia urna pilha fum egante grande dem ais para ser só um braço ou urna perna. Os vinte e dois de Riley eram coisa do passado.

Ninguém parecia m uito preocupado com a fogueira. A im agem era m uito com um .

Corri para perto de Fred, e pela prim eira vez a sensação de repulsa não aum entou. Pelo contrário, ela desapareceu. Ele não parecia notar m inha presença; sim plesm ente continuou lendo o livro que segurava. Um dos que eu deixara para ele alguns dias antes. Não foi difícil ver o que ele fazia agora que estava perto do encosto do sofá no qual ele se apoiava. Hesitei, tentando

entender por que. Ele podia ligar e desligar o efeito náusea quando queria? Isso significava que nós dois estávam os desprotegidos agora? Pelo m enos Raoul ainda não chegara em casa, felizm ente, em bora Kevin estivesse ali.

Pela prim eira vez, vi com o Fred realm ente era. Alto, m ais de 1,80 m etro, o cabelo encaracolado e louro que eu havia notado antes. Tinha om bros largos e era m usculoso. Parecia m ais velho que a m aioria dos outros — com o um universitário, não uru colegial. E — por algum a razão essa foi a parte que m ais m e surpreendeu — ele era bonito. Tão bonito quanto qualquer

outro, talvez até m ais que m uitos ali. Eu não sabia por que isso m e parecia estranho. Talvez por sem pre ter associado Fred a repulsa.

Eu m e senti esquisita por ficar observando-o. Olhei rapidam ente em volta para ver se alguém no porão notara que Fred estava norm al — e bonito — tem porariam ente. Ninguém olhava na nossa direção. Dei um a espiada rápida em Kevin, pronta para desviar o olhar rapidam ente caso ele percebesse, m as ele estava concentrado em algum ponto à nossa esquerda. A testa estava m arcada por um a ruga. Antes que eu pudesse desviar, seus olhos passaram direto por m im e se detiveram à m inha direita. A ruga tornou-se m ais profunda. Com o... se ele estivesse tentando m e ver e não conseguisse.

Senti os cantos da m inha boca trem erem , e não era exatam ente um sorriso. Havia m uito com que m e preocupar para poder m e divertir de verdade com a cegueira de Kevin. Olhei novam ente para Fred, im aginando se o fator repulsa retornaria, m as ele sorria para m im . Ele era sim plesm ente espetacular sorrindo.

Então o m om ento passou, e Fred voltou ao livro. Eu não m e m ovi por um tem po, esperando que algo acontecesse. Diego passar pela porta. Ou Riley e Diego. Ou Raoul. Ou a náusea voltar, ou Kevin olhar diretam ente para m im , ou a próxim a briga explodir. Qualquer coisa.

Quando nada aconteceu, finalm ente m e recom pus e fiz o que devia estar fazendo: fingi que não havia nada de anorm al. Peguei um livro da pilha perto do pé de Fred e m e sentei ali

m esm o, fingindo que lia. Devia ser um dos livros que eu fingira ler no dia anterior, m as não parecia fam iliar. Virei algum as páginas, novam ente sem apreender nada do conteúdo.

Minha m ente girava em círculos m uito pequenos. Onde estava Diego? Com o Riley reagira a sua história? O que tudo aquilo significava — a conversa antes de os vam piros vestidos com m antos chegarem , a conversa depois da saída deles?

Exam inei todas as lem branças, voltando no tem po, tentando unir os fragm entos em um todo reconhecível. O m undo dos vam piros tinha algum tipo de polícia, e ela era bem assustadora. Nosso grupo selvagem de vam piros com m eses de idade seria um exército, e esse exército era, de algum a form a, ilegal. Nossa criadora tinha um inim igo. Ou m elhor, dois inim igos. E nós

atacaríam os um deles em cinco dias, ou os outros, com os m antos assustadores, a atacariam — ou nos atacariam , ou os dois. Seríam os treinados para esse ataque... assim que Riley voltasse. Dei um a olhada para a porta, depois m e obriguei a m anter os olhos fixados na página diante de m im . E na história dos visitantes. Ela estava preocupada com algum a decisão. Estava satisfeita por ter tantos vam piros — tantos soldados. Riley estava feliz por Diego e eu term os sobrevivido... Ele

dissera que pensara ter perdido m ais dois para o sol, então, isso devia significar que ele não sabia com o os vam piros realmente reagiam ao sol. Mas o que ela dissera era estranho. Ela perguntara

se Riley tinha certeza. Certeza de que Diego sobrevivera? Ou... certeza de que a história de Diego

era verdadeira?

Esse últim o pensam ento m e am edrontou. Ela j á sabia que o sol não nos fazia m al? Se sabia, por que m entira para Riley e, por interm édio dele, para nós?

Por que ela haveria de nos querer no escuro — literalm ente? Era m uito im portante para ela que continuássem os ignorantes? Im portante o bastante para que isso colocasse Diego em perigo? Eu m e aproxim ava do pânico e j á estava paralisada pelo m edo. Se ainda pudesse suar,

estaria suando. Tive de m e concentrar para virar a página, para m anter os olhos baixos.

Riley estava sendo enganado ou tam bém estava envolvido naquilo? Quando dissera que havia pensado ter perdido m ais dois para o sol, ele se referira ao sol literalm ente.., ou à m entira sobre o sol?

Se a segunda alternativa fosse a correta, então, saber a verdade seria equivalente a estar perdido. O pânico atrapalhava m eus pensam entos.

Tentei ser racional e encontrar algum sentido na quilo. Era m ais difícil sem Diego. Ter alguém com quem conversar, com quem interagir, havia aguçado m inha capacidade de concentração. Sem isso, o m edo rondava m eus pensam entos, m isturando-se à sede sem pre presente. A sedução do sangue estava constantem ente prestes a aflorar. Mesm o bem alim entada, eu podia sentir o ardor e a necessidade.

Pense nela, pense em Riley, disse a m im m esm a. Precisava entender por que eles

m entiriam — se estavam m entindo — para tentar deduzir o que o fato de Diego conhecer seu segredo significaria para eles.

Se não tivessem m entido, se tivessem sim plesm ente dito que o dia era para nós tão seguro

quanto a noite, o que teria m udado? Im aginei com o tudo seria se não precisássem os ficar confinados em um porão escuro o dia inteiro, se os vinte e um — talvez m enos agora, dependendo de com o os grupos de caça estavam se saindo lá fora — fossem livres para fazer o que quisessem quando quisessem .

Desej aríam os caçar. Isso era certo.

Se não tivéssem os de voltar, se não precisássem os nos esconder... bem , m uitos de nós não voltariam com regularidade. Era difícil pensar em voltar quando a sede ainda estava no com ando. Mas Riley incutira profundam ente em todos nós a am eaça da conflagração, de

reviverm os aquela dor horrível que havíam os sentido um a vez. Essa era a razão pela qual conseguíam os nos conter. Autopreservação, o único instinto m ais forte que a sede.

Então, a am eaça nos m antinha j untos. Havia outros esconderij os, com o a caverna de Diego, m as quem m ais pensaria nesse tipo de coisa? Tínham os um lugar para onde ir, um a base, era para lá que íam os. Pensar com clareza não é a especialidade de um vam piro. Ou, pelo m enos, não dos vam piros jovens. Riley pensava com clareza. Diego tinha pensam entos m ais

nítidos que os m eus. Aqueles vam piros cobertos por m antos eram terrivelm ente focados. Senti tini arrepio. Então, a rotina não nos controlaria para sem pre. O que eles fariam quando fôssem os

m ais velhos, m ais racionais? Eu m e dei conta de que ninguém era m ais antigo que Riley. Todo m undo ali era novo. Ela precisava de m uitos de nós para enfrentar o inim igo m isterioso. Mas e

depois?

Tive a forte sensação de que não iria querer estar por perto nesse m om ento. E de repente percebi algo absurdam ente óbvio. A resposta que antes estivera rondando, às m argens da m inha com preensão, enquanto rastreava o bando de vam piros até aquela nova casa com Diego.

Eu não precisava ficar por perto para esse m om ento. Não precisava ficar por perto nem

por m ais urna noite.

Fiquei novam ente paralisada ao pensar nessa ideia colossal.

Se Diego e eu não soubéssem os os destinos prováveis da gangue, nós os teríam os encontrado? Possivelm ente, não. E aquele era um grupo grande deixando um rastro considerável. E se você fosse um vam piro solitário, um vam piro que não precisasse se m over por terra, que se deslocasse por cim a das árvores, saltasse, progredisse sem deixar um a trilha na m argem da água... Só um , ou talvez dois vam piros capazes de nadar até onde quisessem m ar adentro, para longe... E que pudessem voltar à terra onde decidissem ... Canadá, Califórnia, Chile, China...

Seria im possível encontrar esses dois vam piros. Eles desapareceriam . Sum iriam com o se tivessem virado fum aça.

Não precisávam os ter voltado na outra noite. Não devíamos ter voltado! Por que eu não

pensara nisso antes?

Mas... Diego teria concordado? De repente, eu não m e sentia m ais tão confiante. Será que Diego seria m ais leal a Riley ? Ele acharia que era seu dever aj udar Riley ? Diego conhecia Riley

havia m uito m ais tem po... e só nos conhecem os de verdade havia um dia. Ele era m ais próxim o de Riley que de m im ?

Continuar: parte 4 de 6