A Companhia Negra
Dedicatória
Este livro é dedicado às pessoas da Sociedade de Ficção Científica de St. Louis.
Amo todos vocês.
Capítulo Um
LEGADO
H ouve prodígios e maravilhas suficientes, é o que o Caolho diz. Temos de culpar a nós mesmos por interpretá-los mal. A deficiência do Caolho não prejudica nem um pouco sua admirável capacidade de olhar para trás.
Relâmpagos num céu limpo atingiram a Colina Necropolitana. Um dos raios acertou a placa de bronze que selava a tumba dos forvalakas, obliterando metade do feitiço de confinamento. Choveu pedras. Estátuas sangraram. Sacerdotes de vários templos relataram vítimas de sacrifício sem corações ou fígados. Uma dessas vítimas escapou depois de ter as tripas abertas, e não foi recapturada. Na Caserna da Forquilha, onde as Coortes Urbanas estavam aquarteladas, a imagem de Teux se virou completamente para trás. Por nove noites seguidas, dez abutres negros circularam o Bastião. Então um deles expulsou a águia que vivia no topo da Torre de Papel.
Os astrólogos se recusavam a fazer mapas astrais, temendo pelas próprias vidas. Um vidente louco vagava pelas ruas proclamando o iminente fim do mundo. No Bastião não apenas a águia partiu, mas a hera nas muralhas exteriores secou e foi substituída por trepadeiras que pareciam completamente negras sob toda luz que não viesse diretamente do sol.
Porém, isso acontecia todos os anos. Os tolos conseguem encontrar profecias em qualquer evento do passado.
Mas nós deveríamos ter nos preparado melhor. Nós tínhamos quatro feiticeiros razoavelmente talentosos para vigiar os amanhãs predatórios, mesmo que nunca por meios tão sofisticados quanto a adivinhação utilizando entranhas de ovelha.
Ainda assim, os melhores áugures são aqueles que veem o futuro com base nos portentos do passado. Eles compilam registros fenomenais.
Berílio cambaleia perpetuamente, sempre pronta para se atirar de um precipício ao caos. A Rainha das Cidades Preciosas era velha, decadente e louca, cheia do fedor da degeneração e do mofo moral. Apenas um idiota se surpreenderia com qualquer coisa que vagasse pelas ruas noturnas.
Eu tinha aberto completamente todas as persianas, rezando por uma brisa do porto, mesmo que ela trouxesse o cheiro dos peixes podres. Não havia corrente de ar suficiente para fazer tremular uma teia de aranha. Enxuguei o suor do rosto e fiz uma careta para meu primeiro paciente.
— Pegou chatos no saco de novo, Crespo?
O soldado sorriu fracamente, o rosto pálido.
— É meu estômago, Chagas. — A careca de Crespo parecia um ovo de avestruz bem polido. Daí o nome. Eu conferi a escala da guarda e os horários de serviço. Não havia nada que ele pudesse querer evitar. — Tá ruim, Chagas. De verdade.
— Hum. — Assumi minha postura profissional, já sabendo qual era o problema. A pele do Crespo estava fria e úmida, apesar do calor. — Você andou comendo fora do Comissariado ultimamente, Crespo? — Uma mosca pousou na careca dele e desfilou como uma imperatriz. Ele não percebeu.
— É, umas três ou quatro vezes.
— Hum. — Misturei um preparado leitoso repugnante. — Beba isto. Tudo.
O rosto do Crespo se contorceu ao provar a mistura.
— Olha, Chagas, eu...
O simples cheiro da coisa me embrulhava o estômago.
— Beba, companheiro. Dois homens morreram antes de eu arranjar isso. Então o Tucão tomou o remédio e sobreviveu. — Esses eventos estavam sendo comentados na Companhia.
Crespo bebeu.
— Então é veneno? Os malditos azulões armaram pra cima de mim?
— Fica frio. Você vai ficar bem. Pois é. Parece que foi isso mesmo. — Eu tive que abrir Olho-Seco e Bruce Doido para descobrir a verdade. Era um veneno sutil. — Deite-se aqui no catre para pegar uma brisa. Bem, se aparecer alguma merda de vento. E fica quieto. Deixa a mistura funcionar.
Eu o ajudei a se ajeitar.
— Diga-me o que você comeu fora.
Peguei uma caneta e um mapa preso ao mural. Havia feito o mesmo com Tucão, e com Bruce Doido antes de ele morrer, e mandado o sargento do pelotão de Olho-Seco refazer os passos dele. Eu tinha certeza de que o veneno vinha de um dos barzinhos próximos, frequentados pela guarnição do Bastião.
Crespo indicou uma taverna em comum com todas as outras vítimas.
— Bingo! Pegamos os canalhas agora.
— Quem? — Crespo estava pronto para ir acertar as contas pessoalmente.
— Você fica aqui descansando. Eu vou falar com o Capitão. — Dei tapinhas reconfortantes no ombro dele e verifiquei a sala de espera. Crespo seria o único paciente daquela manhã.
Fiz o caminho mais comprido, ao longo da Muralha de Trejano, que tem vista para o porto de Berílio. Na metade da travessia eu parei e olhei para o norte, além do quebra-mar e do farol da Ilha da Fortaleza, para o Mar das Tormentas. Velas multicoloridas salpicavam as pobres águas marrons enquanto embarcações costeiras navegavam pela teia de rotas que conectavam as Cidades Preciosas. O ar mais elevado estava estagnado, abafado e nevoento. Não era possível ver o horizonte. Mas ao nível do mar o ar parecia em movimento. Havia sempre vento ao redor da ilha, ainda
que ele evitasse a costa como se temesse a lepra. Mais perto, as gaivotas que giravam no céu estavam tão mal-humoradas e apáticas quanto a maioria dos homens ao fim do dia.
Mais um verão suado e fuliginoso a serviço do Síndico de Berílio, protegendo-o sem descanso de rivais políticos e das indisciplinadas tropas nativas. Mais um verão dando duro para receber a mesma recompensa que Crespo. O pagamento era bom, mas não na medida da alma. Nossos antecessores teriam vergonha de nos ver tão diminuídos.
Berílio é azedada pela miséria, mas também antiga e intrigante. Sua história é um poço sem fundo, cheio de águas turvas. Eu me divirto mergulhando nas profundezas sombrias, tentando isolar fatos da ficção, das lendas e dos mitos. Não é uma tarefa fácil, pois os historiadores antigos da cidade escreviam com o intuito de agradar aos poderosos de seu tempo.
O período mais interessante para mim é o reino antigo, que também é aquele que oferece os piores registros. Foi então, no reinado de Niam, que os forvalakas chegaram, foram derrotados após uma década de terror, e confinados à tumba negra no topo da Colina Necropolitana. Ecos daquele sofrimento ainda existem no folclore e nas admoestações das mães para os filhos travessos. Hoje ninguém mais se lembra do que foram os forvalakas.
Voltei a andar, me desesperando com o calor inclemente. As sentinelas, em seus quiosques sombreados, usavam toalhas enroladas nos pescoços.
Uma brisa me causou espanto. Virei-me para o porto. Um navio contornava a ilha, uma enorme e lerda besta que fazia dhows e faluchos parecerem botes. Um saliente crânio prateado estava estampado no centro da vela negra completamente enfunada. Os olhos do crânio brilhavam. Chamas ardiam detrás dos dentes quebrados. Um anel de prata cintilante circundava a caveira.
— O que diabos é aquilo?
— Não sei, Branquelo.
O tamanho da nau me impressionou mais do que a vela escandalosa. Os quatro modestos feiticeiros que tínhamos na Companhia seriam capazes de igualar o espetáculo, mas eu jamais vira uma galera com cinco fileiras de remos.
Eu me lembrei da minha missão.
Bati à porta do Capitão. Ele não respondeu. Entrei sem ser convidado, e me deparei com ele roncando na grande poltrona de madeira.
— Ei! — gritei. — Fogo! Revolta no Grunhido! Dançarino no Portão da Alvorada! — Dançarino foi um general dos velhos tempos que quase destruiu Berílio. As pessoas ainda estremecem à menção do nome dele.
O Capitão não se abalou. Não abriu os olhos nem deu um sorriso.
— Você é muito presunçoso, Chagas. Quando vai aprender a utilizar os devidos canais? — Utilizar os canais significava chatear primeiro o Tenente. Não interrompa a soneca do Capitão a menos que os Azulões estejam assaltando o Bastião.
Falei sobre Crespo e minha tabela.
O Capitão tirou os pés do tampo da mesa.
— Isso parece serviço para o Clemente — afirmou o Capitão com dureza na voz. A Companhia Negra não admitia ataques maliciosos contra seus soldados.
Clemente era nosso mais cruel líder de pelotão. Ele achou que uma dúzia de homens bastaria, mas deixou que eu e Calado fôssemos junto. Eu poderia cuidar dos feridos. Calado seria útil se os Azulões resolvessem pegar pesado. Tivemos que esperar pelo mago por metade do dia, enquanto ele fazia uma visita rápida ao bosque.
— O que diabos você andou fazendo? — indaguei quando ele voltou, carregando um saco bem esfarrapado.
Ele apenas sorriu. Calado ele é, e calado ele fica.
O bar se chamava Taverna da Toupeira. Lugarzinho confortável. Eu tinha passado várias noites lá. Clemente designou três homens para a porta de trás e dois para cada uma das duas janelas. Mandou outros dois para o telhado. Todos os prédios de Berílio têm um alçapão no teto. As pessoas dormem no telhado durante o verão.
Clemente liderou o resto do grupo taverna adentro.
Ele era um sujeitinho pequeno e arrogante, dado a gestos dramáticos. A entrada dele deveria ter sido precedida por trombetas.
A multidão ficou paralisada, encarando nossos escudos e nossas lâminas nuas, os fiapos dos rostos severos pouco visíveis por entre as fendas dos elmos.
— Verus! — gritou Clemente. — Traga seu traseiro gordo até aqui!
O avô da família responsável pelo estabelecimento apareceu. Ele se aproximou de nós como um vira-lata que espera levar um chute. A clientela começou a cochichar.
— Silêncio! — trovejou Clemente. Ele conseguia produzir grandes rugidos a partir daquele pequeno corpo.
— Como podemos lhes ajudar, estimados senhores? — perguntou o velho.
— Você pode trazer seus filhos e netos aqui, Azulão.
Cadeiras rangeram. Um soltado bateu com a espada no tampo de uma mesa.
— Fiquem sentados — ordenou Clemente. — Quem estiver apenas almoçando pode ficar tranquilo. Vai ser liberado em uma hora.
O velho começou a tremer.
— Não entendo, senhor. O que nós fizemos?
Clemente sorriu com maldade.
— Ele faz o papel de inocente muito bem. Estou falando de assassinato, Verus. Duas acusações de assassinato por envenenamento. Duas acusações de tentativa de assassinato por envenenamento. Os magistrados decretaram a punição dos escravos. — Ele estava se divertindo.
Clemente não era uma das minhas pessoas favoritas. Ele jamais tinha deixado de ser o garoto que arrancava as asas das moscas.
A punição dos escravos significava ser deixado para as aves carniceiras após uma crucificação pública. Em Berílio apenas os criminosos eram enterrados sem cremação, ou simplesmente deixados sem sepultamento.
Uma confusão se iniciou na cozinha. Alguém tentava sair pela porta dos fundos. Nossos homens estavam discordando disso.
O salão explodiu. Uma onda de pessoas brandindo adagas se abateu sobre nós.
A massa nos empurrou de volta à porta. Os que eram inocentes, obviamente, temiam ser condenados com os culpados. A justiça de Berílio é rápida, rudimentar e raramente dá ao réu uma oportunidade de se defender.
Uma adaga escapou por entre os escudos. Um de nossos homens caiu. Não sou um grande guerreiro, mas assumi o lugar dele. Clemente disse algo sarcástico que eu não ouvi direito.
— Você desperdiçou sua chance de ir para o Paraíso — retruquei. — Está fora dos Registros para sempre.
— Bobagem. Você não deixa nada de fora.
Uma dúzia de cidadãos tombou. O sangue se acumulou em pontos baixos do assoalho. Espectadores se reuniram do lado de fora. Logo algum aventureiro nos atacaria por trás.
Uma adaga fez um corte superficial em Clemente. Ele perdeu a paciência.
— Calado!
Calado já estava trabalhando, mas ele era Calado. Isso significava nada de barulho e muito pouco brilho ou fúria.
Clientes da Toupeira começaram a dar tapas no rosto e socar o ar, esquecendo a gente. Eles pulavam e dançavam, agarrando as costas e os traseiros, guinchando e uivando de maneira digna de pena. Vários desmaiaram.
— O que diabos você fez? — perguntei.
Calado sorriu, exibindo dentes afiados. Ele passou a mão escura sobre meus olhos. Vi o Toupeira por um ponto de vista um pouco diferente.
A bolsa que ele tinha arrastado de fora da cidade se revelou um daqueles ninhos de vespas que podem ser encontrados, se você for azarado, nas florestas ao sul de Berílio. Os ocupantes eram os monstros parecidos com zangões que os camponeses chamavam de vespas glabras. Elas têm um temperamento horrendo, sem igual na natureza. Atacaram rapidamente os clientes da Toupeira, sem incomodar nossos rapazes.
— Bom trabalho, Calado — comentou Clemente, após descontar sua raiva em vários dos civis. Em seguida, arrebanhou os sobreviventes até a rua.
Examinei nosso irmão golpeado enquanto o soldado ileso dava cabo dos feridos. Economizar o preço de um julgamento e do carrasco ao Síndico, era assim que Clemente chamava aquilo. Calado observou, ainda sorrindo. Ele também não é muito bonzinho, mesmo que poucas vezes participe diretamente.
Levamos mais prisioneiros do que esperávamos.
— Tinha um monte deles. — Os olhos de Clemente cintilavam. — Obrigado, Calado. — A fila se estendia por um quarteirão.
A sorte é uma vadia fugaz. Ela nos levara à Taverna da Toupeira num momento crítico. Ao fuçar pelo lugar, nosso feiticeiro tinha descoberto um prêmio, um grupo oculto num esconderijo sob a adega. Dentre eles se encontravam alguns dos Azulões mais conhecidos.
Clemente matraqueou, se perguntando em voz alta qual seria o tamanho da recompensa que nosso informante merecia. Não existia informante algum. A tagarelice era apenas para evitar que nossos magos de estimação virassem os alvos principais. Nossos inimigos rastejariam pelos esgotos, procurando espiões fantasmas.
— Leve-os para fora — comandou Clemente. Ainda sorrindo, ele encarou a multidão emburrada. — Acha que eles vão tentar alguma gracinha? — Eles não tentaram. A confiança suprema de Clemente desanimou qualquer um que tivesse alguma ideia.
Avançamos por entre ruas labirínticas, quase tão velhas quanto o mundo, com nossos prisioneiros arrastando os pés, desanimados. Eu olhava tudo, deslumbrado. Meus camaradas são indiferentes ao passado, mas eu não posso deixar de ficar maravilhado — e às vezes também intimidado — com a profundidade da história de Berílio.
Clemente ordenou uma parada inesperada. Tínhamos chegado à Avenida dos Síndicos, que vai da Casa da Alfândega até o portão principal do Bastião. Uma procissão seguia pela avenida. Embora tivéssemos alcançado a intercessão primeiro, Clemente havia cedido a passagem.
A procissão consistia em cem homens armados. Eles pareciam mais durões que qualquer um em Berílio, exceto nós. O líder era uma figura sombria montada no maior garanhão negro que eu já vira. Esse cavaleiro era pequeno, afeminadamente esguio, vestindo couro negro e gasto. Usava um morrião preto que lhe cobria completamente a cabeça, e luvas pretas que lhe ocultavam as mãos.
— Pelos infernos — sussurrou Clemente.
Fiquei perturbado. O cavaleiro me provocou calafrios. Alguma coisa primitiva dentro de mim queria correr, mas a curiosidade falou mais alto. Quem seria ele? Teria vindo daquele navio estranho no porto? Por que estava aqui?
O olhar sem olhos do cavaleiro nos esquadrinhou indiferente, como se contemplasse um rebanho de ovelhas. Então voltou num tranco, fixando-se em Calado.
Calado encarou de volta, sem medo ou hesitação. E mesmo assim pareceu, de alguma forma, diminuído.
A coluna seguiu em frente, endurecida, disciplinada. Estremecido, Clemente botou nosso grupo para andar novamente. Entramos no Bastião apenas alguns metros atrás dos forasteiros.
Tínhamos capturado a maior parte dos líderes mais conservadores dos Azulões. Quando os rumores da batida se espalharam, os tipos voláteis resolveram botar os músculos para trabalhar, e iniciaram algo monstruoso.
O clima perpetuamente abrasivo faz coisas terríveis com a razão dos homens. A turba de Berílio é selvagem. Os tumultos e revoltas acontecem quase sem provocação. Quando as coisas vão mal, os mortos chegam aos milhares. Esta foi uma das piores vezes.
O exército é metade do problema. Uma sucessão de Síndicos fracos e que permaneceram pouco tempo no cargo fez com que a disciplina relaxasse. As tropas estão fora de controle agora. Geralmente, porém, os soldados agem contra os desordeiros. Eles consideram a supressão de tumultos uma licença para saquear.
O pior aconteceu. Várias coortes da Caserna da Forquilha exigiram uma doação especial antes de obedecer à diretriz de restabelecer a ordem. O Síndico se recusou a pagar.
As coortes se amotinaram.
O pelotão de Clemente rapidamente estabeleceu um ponto de resistência perto do Portão do Lixo e conteve todas as três coortes. A maioria de nossos homens morreu, mas nenhum fugiu. Clemente perdeu um olho, um dedo, foi ferido no ombro e no quadril, e tinha mais de cem furos no escudo quando os reforços chegaram. Ele foi trazido até mim mais morto do que vivo.
No fim, os amotinados preferiram se espalhar para não ter de enfrentar o resto da Companhia Negra.
O levante foi o pior que alguém podia se lembrar. Perdemos quase cem irmãos tentando suprimi-lo. Mal poderíamos nos dar ao luxo de perder um. No Grunhido as ruas estavam cobertas de cadáveres. Os ratos engordaram. Nuvens de abutres e corvos migraram para a cidade, vindos do campo.
O Capitão mandou a Companhia se retirar para o Bastião.
— Deixem que o levante acabe sozinho — afirmou ele. — Já fizemos demais. — O humor dele estava além do amargor, enojado. — Nosso contrato não exige que nós cometamos suicídio.
Alguém fez uma piada sobre nós cairmos sobre nossas espadas.
— Parece que é isso que o Síndico espera.
Berílio tinha destruído nossa moral, mas não havia deixado ninguém tão desiludido quanto o Capitão. Ele se culpava por nossas perdas. De fato, ele tentou renunciar ao comando.
A turba tinha caído num esforço emburrado, relutante e volúvel de manter o caos, interferindo em qualquer tentativa de enfrentar incêndios ou evitar saques, mas, fora isso, eles apenas vagavam. As coortes amotinadas, incrementadas com desertores de outras unidades, estavam sistematizando o assassinato e a pilhagem.
Na terceira noite eu montei guarda na Muralha de Trejano, sob as estrelas desapontadas, como uma sentinela voluntária e idiota. A cidade parecia estranhamente calma. Eu poderia ter ficado mais ansioso se não estivesse tão cansado. Aquela era a única maneira de permanecer acordado.
Tom-Tom apareceu.
— O que você está fazendo aqui, Chagas?
— Ocupando o posto.
— Você parece um defunto. Vá descansar.
— Você também não está tão bem assim, nanico.
Ele deu de ombros.
— Como vai o Clemente?
— Ainda não está a salvo. — Eu tinha poucas esperanças, na verdade. Apontei. — Você sabe alguma coisa sobre aquilo lá? — Um grito isolado ecoou ao longe. Tinha uma qualidade que o separava de outros gritos recentes. Aqueles foram cheios de dor, raiva, medo. Este fedia a algo mais sombrio.
Tom-Tom pigarreou e resmungou daquele jeito que ele e o irmão, Caolho, faziam. Quando você não sabe alguma coisa, eles consideram que isso é um segredo que vale a pena ser mantido. Feiticeiros!
— Dizem por aí que os amotinados quebraram o selo da tumba dos forvalakas enquanto pilhavam a Colina Necropolitana.
— Hein? Então aquelas coisas estão soltas?
— O Síndico acha que sim. O Capitão não leva isso muito a sério.
Eu também não levava, mas Tom-Tom parecia preocupado.
— Eles pareciam durões. O pessoal que esteve aqui naquele dia.
— Deveríamos ter recrutado os caras — comentou ele, com um tom de tristeza. Ele e Caolho já estavam com a Companhia havia muitos anos. Tinham visto boa parte de seu declínio.
— Por que eles estiveram aqui?
Tom-Tom deu de ombros.
— Vá descansar, Chagas. Não se mate. Não vai fazer a menor diferença no fim. — Ele saiu andando devagar, perdido na selva dos próprios pensamentos.
Eu levantei uma das sobrancelhas. Ele estava muito deprimido. Dei as costas aos incêndios e luzes e à perturbadora ausência de barulho. Meus olhos insistiam em se fechar, minha visão se enevoava. Tom-Tom estava certo. Eu precisava dormir.
Das trevas veio mais um daqueles gritos estranhos e sem esperança. Desta vez mais perto.
— Levanta, Chagas. — O Tenente não foi gentil. — O Capitão quer ver você no refeitório dos oficiais.
Eu grunhi. Xinguei. Ameacei violência de primeiro grau. Ele sorriu, apertou o nervo do meu cotovelo, me fez rolar para o chão.
— Já levantei — resmunguei, tateando em busca das minhas botas. — O que foi?
Ele já tinha ido.
— Clemente vai sobreviver, Chagas? — indagou o Capitão.
— Acho que não, mas já vi milagres maiores.
Os oficiais e sargentos estavam todos lá.
— Você quer saber o que está acontecendo — comentou o Capitão. — O visitante daquele dia era um enviado de além-mar. Ofereceu uma aliança. O poderio militar do norte em troca do apoio das frotas de Berílio. Me soou bastante razoável. Mas o Síndico está sendo teimoso. Ele ainda está aborrecido com a conquista de Opala. Sugeri a ele que fosse mais flexível. Se esses nortistas forem vilões, então a opção de aliança poderia ser o menor dentre muitos males. Melhor ser um aliado que um súdito. Nosso problema é: que posição tomar, se o legado pressionar?
— Nós nos negaríamos a lutar contra esses nortistas, se ele der a ordem? — indagou Manso.
— Talvez. Lutar contra um mago poderia ser nosso fim.
Bam! A porta do refeitório foi aberta de supetão. Um homenzinho pardo e magricelo, precedido por um enorme bico aquilino que lhe servia de nariz, irrompeu refeitório adentro. O Capitão se levantou num salto e bateu os calcanhares.
— Síndico.
O nosso visitante bateu com os dois punhos na mesa.
— Você mandou seus homens recuarem para o Bastião. Não estou pagando vocês para se esconderem como cães açoitados!
— Também não está nos pagando para sermos mártires — respondeu o Capitão na voz de “argumentar com idiotas” dele. — Somos uma guarda pessoal, e não a polícia. Manter a ordem é tarefa das Coortes Urbanas.
O Síndico estava cansado, perturbado, assustado, em seu último fôlego emocional. Como todo mundo.
— Seja razoável — sugeriu o Capitão. — Berílio já está em um caminho sem volta. O caos governa as ruas. Qualquer tentativa de restaurar a ordem fracassará. A cura agora é a doença.
Gostei disso. Tinha começado a odiar Berílio.
O Síndico pareceu encolher.
— Ainda tem os forvalakas. E aquele abutre do norte, esperando além da Ilha.
Tom-Tom acordou de uma meia-soneca.
— Além da Ilha, você disse?
— Esperando que eu vá implorar.
— Interessante. — O pequeno feiticeiro voltou à soneca.
O Capitão e o Síndico começaram a discutir os termos de nosso contrato. Eu peguei nossa cópia do acordo. O Síndico tentou esticar as cláusulas com comentários do tipo “Sim, mas...”. Claramente, ele gostaria de lutar se o legado nortista começasse a mostrar as garras.
Elmo começou a roncar. O Capitão nos dispensou, voltando a argumentar com nosso empregador.
Acho que sete horas valem como uma noite de sono. Não estrangulei Tom-Tom quando ele me acordou. Mas resmunguei e reclamei até que ele ameaçou me transformar num asno zurrando no Portão da Alvorada. Só então, depois de eu ter me vestido e me juntado a vários outros, percebi que não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.
— Vamos examinar uma tumba — explicou Tom-Tom.
— Hein? — Não sou muito esperto de manhã.
— Vamos à Colina Necropolitana para dar uma olhada na tumba dos forvalakas.
— Espera aí...
— Covarde? Sempre achei que você fosse, Chagas.
— Do que você está falando?
— Não se preocupe. Você terá três feiticeiros de primeira com você, sem nada mais para fazer a não ser pajear seu traseiro. Caolho queria vir também, mas o Capitão quer que ele fique por perto.
— Eu só quero saber por que nós vamos lá.
— Para descobrir se vampiros existem. Eles poderiam ser uma armação de seu navio assustador.
— Truque bacana. Talvez nós devêssemos ter pensado nisso. — A ameaça dos forvalakas tinha feito o que nenhum exército seria capaz: acalmar os tumultos.
Tom-Tom concordou com a cabeça e arranhou o pequeno tambor que lhe deu o nome. Eu arquivei o pensamento. Ele é pior que o irmão na hora de admitir os pontos fracos.
A cidade estava quieta como um velho campo de batalha. Como um campo de batalha, estava cheia de fedor, moscas, saqueadores de cadáveres e mortos. Os únicos sons eram o pisar de nossas botas e, em uma ocasião, o choro lamentoso de um cão triste que montava guarda junto ao dono morto.
— O preço da ordem — murmurei. Tentei fazer o bicho fugir, mas ele não se moveu.
— O custo do caos — retrucou Tom-Tom. Tom, ele fez no tambor. — Não são exatamente a mesma coisa, Chagas.
A Colina Necropolitana é mais alta que a base do Bastião. Do Claustro Superior, onde ficam os mausoléus dos ricos, eu podia ver o navio nortista.
— Lá está ele, parado, esperando — comentou Tom-Tom. — Como afirmou o Síndico.
— Por que eles simplesmente não invadem? Quem poderia impedi-los?
Tom-Tom deu de ombros. Ninguém mais opinou.
Alcançamos a famosa tumba. Tinha a aparência certa para o papel que desempenhava nos rumores e lendas. Era muito, muito velha, definitivamente atingida por relâmpagos, e profanada por marcas de ferramentas. Uma grossa porta de carvalho havia sido arrombada. Lascas e estilhaços jaziam espalhados por vários metros em volta.
Duende, Tom-Tom e Calado juntaram as cabeças. Alguém fez uma piada, dizendo que talvez assim eles somassem um cérebro inteiro. Duende e Calado então assumiram posições aos lados da porta, alguns passos mais atrás. Tom-Tom estava virado de frente para a entrada. Ele pisoteou como um touro pronto para disparar, encontrou o lugar certo e se agachou com os braços erguidos de maneira estranha, como uma paródia de um mestre de artes marciais.
— E que tal vocês imbecis abrirem a porta? — rosnou o feiticeiro. — Idiotas. Eu tinha que ter trazido idiotas. — Tum-tum no tambor. — Parados aí com o dedo no nariz.
Alguns de nós agarramos a porta arruinada e puxamos com força. Estava arrebentada demais para oferecer resistência. Tom-Tom batucou o tambor, soltou um grito malévolo e pulou para dentro. Duende saltitou até a porta atrás dele. Calado avançou num deslizar veloz.
Dentro, Tom-Tom soltou um guincho de rato e começou a espirrar. Ele cambaleou para fora, com olhos lacrimejantes, esfregando o nariz com as palmas das mãos. Ele soava como se estivesse muito resfriado quando finalmente falou.
— Não era um truque. — Sua pele negra como o ébano tinha se tornado cinzenta.
— O que você quer dizer? — inquiri.
Tom-Tom indicou a tumba com um gesto brusco do polegar. Duende e Calado estavam lá dentro agora. Eles começaram a espirrar.
Eu fui até a porta e espiei. Não conseguia ver nada. Apenas poeira grossa sob o facho de luz do sol que passava perto de mim. Então eu entrei. Meus olhos se acostumaram à escuridão.
Havia ossos por todos os lados. Ossos amontoados, ossos empilhados, ossos organizados minuciosamente por alguma coisa insana. Eram ossos estranhos, parecidos com os de homens, mas de proporções estranhas para meus olhos de médico. Acredito que eram cinquenta corpos, originalmente. Forvalakas com certeza, porque Berílio enterra seus vilões sem cremá-los.
Havia cadáveres recentes também. Contei sete soldados mortos antes de começar a espirrar. Eles vestiam as cores de uma das coortes amotinadas.
Arrastei um dos corpos para fora, soltei-o, cambaleei alguns passos, vomitei ruidosamente. Quando recuperei o controle, eu me virei para examinar meu saque.
Os outros se posicionaram em volta, pálidos.
— Isso não foi coisa de fantasma — afirmou Duende. Tom-Tom balançou a cabeça. Ele estava mais perturbado que qualquer um dos outros. Mais perturbado do que poderia se esperar, eu pensei.
Calado se pôs a trabalhar, conjurando de alguma forma uma agitada e pequena brisa arrumadeira que entrou ventando pela porta do mausoléu e depois saiu, com as saias carregadas de poeira e do fedor da morte.
— Está tudo bem? — perguntei a Tom-Tom.
Ele olhou meu kit médico e me tranquilizou com um aceno.
— Vou ficar legal. Foi só uma lembrança.
Dei a ele um minuto, e então incitei.
— Uma lembrança?
— Nós éramos garotos, Caolho e eu. Tinham acabado de nos vender para N’Gamo, para que virássemos aprendizes dele. Um mensageiro veio de uma vila nas montanhas. — Tom-Tom se ajoelhou ao lado do soldado morto. — Os ferimentos são idênticos.
Fiquei abalado. Nada humano matava daquele jeito, porém o estrago parecia deliberado, calculado, o trabalho de uma inteligência maligna. Isso tornava tudo aquilo mais horrível.
Engoli em seco, me ajoelhei e comecei o meu exame. Calado e Duende entraram na tumba. Duende tinha uma pequena bola de luz âmbar rolando nas mãos em concha.
— Sem sangramento — observei.
— Ele toma o sangue — afirmou Tom-Tom. Calado arrastou outro cadáver para fora. — E os órgãos também, quando há tempo. — O segundo cadáver tinha sido aberto da virilha à garganta. O coração e o fígado estavam ausentes.
Calado voltou para dentro. Duende saiu. Ele se sentou numa lápide quebrada e balançou a cabeça.
— Bem? — inquiriu Tom-Tom.
— Definitivamente, é a coisa de verdade. Não foi nenhum truque do nosso amigo — apontou. Os nortistas continuavam a patrulhar em meio a pescadores e naus de cabotagem. — Havia 54 deles selados aqui. Eles se comeram uns aos outros. Este era o último restante.
Tom-Tom se levantou num salto, como se tivesse levado um tapa.
— O que houve? — perguntei.
— Isso significa que a coisa era a mais maléfica, astuta, cruel e insana dentre todas.
— Vampiros — murmurei. — Nos dias de hoje.
— Não é exatamente um vampiro. Esse é o homem-leopardo, o híbrido que caminha sobre duas pernas de dia e quatro à noite.
Eu já tinha ouvido falar em lobisomens e homens-ursos. Os camponeses que vivem ao redor da minha cidade natal contam lendas assim. Mas nunca havia escutado nada sobre homens-leopardos. Disse isso a Tom-Tom.
— Os homens-leopardos vêm do sul distante. Da selva. — Ele fitou o mar. — Eles têm que ser enterrados vivos.
Calado depositou mais um cadáver.
Homens-leopardos bebedores de sangue e comedores de fígado. Antiquíssimos sábios das trevas, preenchidos por milênios de ódio e fome. Verdadeiros pesadelos vivos, de fato.
— Você consegue dar conta dele?
— N’Gamo não conseguiu. Eu jamais serei tão bom quanto N’Gamo, e ele perdeu um braço e um pé tentando destruir um jovem macho. O que temos aqui é uma fêmea velha. Amarga, cruel e inteligente. Nós quatro talvez seríamos capazes de contê-la. Vencê-la, sem chance.
— Mas se você e Caolho conhecem essa coisa...
— Não — Ele estava tremendo. Segurava o tambor com tanta força que o instrumento rangeu. — Não somos capazes.
O caos morreu. As ruas de Berílio permaneceram tão brutalmente silenciosas quanto as de uma cidade conquistada. Mesmo os amotinados se esconderam até que a fome os obrigou a buscar os celeiros da cidade.
O Síndico tentou pressionar o Capitão, o Capitão o ignorou. Calado, Duende e Caolho rastreavam o monstro. A coisa funcionava de uma maneira puramente animal, saciando uma fome que já durava uma era. As facções assediaram o Síndico com exigências de proteção.
O Tenente novamente nos convocou ao refeitório dos oficiais. O Capitão não perdeu tempo.
— Rapazes, nossa situação é gravíssima. — Ele andava de um lado para outro. — Berílio exige um novo Síndico. Todas as facções pediram à Companhia Negra que se omitisse.
O dilema moral piorava com o agravamento da situação.
— Não somos heróis — continuou o Capitão. — Somos durões. Somos teimosos. Tentamos honrar nossos compromissos. Mas não morremos por causas perdidas.
Eu protestei, a voz da tradição questionando sua insinuação.
— A questão em discussão é a sobrevivência da Companhia, Chagas.
— Aceitamos o ouro, Capitão. A questão em discussão é a honra. Por quatro séculos a Companhia Negra cumpriu seus contratos. Considere o Livro de Set, registrado pelo Analista Coral, enquanto a Companhia servia ao Arconte dos Ossos, durante a Revolta dos Quiliarcas.
— Considere isso você, Chagas.
Fiquei irritado.
— Exijo meu direito de soldado livre.
— Ele tem o direito de falar — concordou o Tenente. Ele é ainda mais tradicionalista que eu.
— Certo, deixem-no falar. Nós não somos obrigados a ouvir.
Eu reiterei sobre o momento mais sombrio da história da Companhia... até que percebi que estava discutindo comigo mesmo. Metade de mim queria dar o fora dali.
— Chagas, você terminou?
Engoli em seco.
— Encontrem uma brecha legal e eu concordarei.
Tom-Tom me concedeu um rufar zombeteiro do tambor. Caolho riu.
— Esse é um trabalho para o Duende, Chagas. Ele era advogado antes de subir na vida e virar cafetão.
Duende mordeu a isca.
— Eu era um advogado? Sua mãe é que gostava de um advogado...
— Chega! — O Capitão bateu na mesa. — Temos a anuência de Chagas. Vamos atrás dela. Encontrem uma saída.
Todos pareceram aliviados. Até o Tenente. Minha opinião, como Analista, tinha um peso muito maior do que eu gostaria.
— A saída óbvia é o fim do homem a quem estamos vinculados — observei. O comentário pairou no ar como um velho e horrível fedor, como o miasma na tumba dos forvalakas. — Neste nosso estado fragilizado, quem poderia nos culpar se deixássemos um assassino escapar?
— Você tem uma mente doentia, Chagas — afirmou Tom-Tom. Ele me deu outro rufar do tambor.
— Sujo falando do mal lavado? Nós preservaríamos a aparência da honra. Nós já falhamos antes. Quase tantas vezes quanto tivemos sucesso.
— Gostei disso — afirmou o Capitão. — Vamos nos dispersar antes que o Síndico venha perguntar o que está acontecendo. Você fica, Tom-Tom. Tenho um serviço para você.
Foi uma noite para os gritadores. Uma noite ardente e grudenta do tipo que desgasta a última e tênue barreira entre o homem civilizado e o monstro que se esgueira por sua alma. Os gritos vieram de lares onde o medo, o calor e a superlotação tinham forçado demais as correntes do monstro.
Um vento frio veio rugindo do golfo, perseguido por imensas nuvens de tempestade com relâmpagos que dançavam nos cabelos. O vento varreu o fedor de Berílio. O temporal lavou as ruas. Sob a luz da manhã, Berílio parecia outra cidade, tranquila, fresca e limpa.
As ruas estavam salpicadas de poças no caminho para as docas. Água da chuva ainda transbordava das sarjetas. Quando chegasse o meio-dia, o ar estaria pesado novamente, e mais úmido que nunca.
Tom-Tom nos esperava no barco que ele tinha alugado.
— Quanto você embolsou nesta transação? Esta banheira parece que vai afundar antes de passar pela Ilha.
— Nem um cobre, Chagas. — Ele soou desapontado. Tom-Tom e o irmão são grandes larápios e negociantes no mercado negro. — Nem um cobre. Este barco aqui é bem melhor do que parece. O mestre dele é um contrabandista.
— Vou confiar em sua palavra. Você provavelmente sabe o que faz. — Mesmo assim, embarquei de maneira bem cuidadosa. O feiticeiro fez uma careta. Esperava-se que nós fingíssemos que a avareza de Tom-Tom e Caolho não existia.
Estávamos zarpando para fazer um acordo. Tom-Tom tinha recebido carta branca do Capitão. O Tenente e eu estávamos o acompanhando para lhe dar um rápido chute no traseiro caso ele se empolgasse demais. Calado e meia dúzia de soldados nos acompanharam para criar um efeito.
Uma lancha da alfândega nos saudou próximo à Ilha. Caímos fora antes que eles conseguissem zarpar. Eu me abaixei, espiando por sob a vela. A nau negra parecia cada vez maior.
— Essa porcaria de navio é uma ilha flutuante.
— Grande demais — grunhiu o Tenente. — Um navio desse tamanho não ia se aguentar num mar pesado.
— Por que não? Como você sabe? — Mesmo espantado, eu continuava curioso em relação a meus irmãos.
— Velejei como grumete quando era garoto. Aprendi coisas sobre navios.
O tom dele desencorajou outras perguntas. A maioria dos homens quer que seus antecedentes continuem em segredo. O que é de se esperar numa companhia de vilões que se mantém unida por causa de seu presente e de seu passado de “eu contra o mundo”.
— Não é grande demais para navegar se você tiver a habilidade taumatúrgica para mantê-lo inteiro — retrucou Tom-Tom. Ele estava trêmulo, batucando o tambor em ritmos aleatórios e nervosos. Ele e Caolho odiavam o mar.
Então. Um mago nortista misterioso. Um navio tão negro quanto o chão do inferno. Meus nervos começaram a ficar em frangalhos.
A tripulação baixou uma escada de portaló. O Tenente subiu. Ele parecia impressionado.
Não sou nenhum marinheiro, mas o navio parecia organizado e disciplinado.
Um oficial subalterno escolheu Tom-Tom, Calado e a mim e pediu que o acompanhássemos. Ele nos conduziu em silêncio escadarias abaixo e por entre passadiços em direção à popa.
O emissário nortista estava sentado de pernas cruzadas em meio a ricas almofadas, com a luz das escotilhas de popa às costas, numa cabine digna de um potentado oriental. Fiquei de queixo caído. Tom-Tom ardeu em cobiça. O emissário riu.
A risada foi um choque. Uma risadinha quase aguda, mais apropriada a uma dama de 15 anos das noites nas tavernas do que a um homem mais poderoso que qualquer rei.
— Perdão — falou ele, pondo uma das mãos com delicadeza sobre onde a boca ficaria, se ele não estivesse vestindo o morrião negro. Em seguida ele disse: — Sentem-se.
Meus olhos se arregalaram contra minha vontade. Cada comentário foi feito com uma voz completamente diferente. Será que havia um comitê inteiro dentro daquele capacete?
Tom-Tom arfou. Calado, sendo Calado, simplesmente se sentou. Eu segui o exemplo dele, e tentei não ser ofensivo demais com meu olhar fixo, assustado e curioso.
Tom-Tom não estava em sua melhor forma diplomática naquele dia. Ele deixou escapar:
— O Síndico não vai durar muito tempo. Queremos fazer um acordo...
Calado acertou um chute na coxa do colega.
— Esse é nosso ousado príncipe dos ladrões? — murmurei. — Nosso homem dos nervos de aço?
O legado riu.
— Você é o médico? Chagas? Perdoe seu amigo. Ele me conhece.
Um medo muito, muito frio me envolveu em suas asas negras. Suor molhou minhas têmporas. Não tinha nada a ver com o calor. Uma brisa fresca do mar fluía pelas grandes escotilhas de popa, uma brisa pela qual os homens de Berílio matariam.
— Não há motivo para me temer. Fui enviado para oferecer uma aliança com o objetivo de beneficiar Berílio tanto quanto meu povo. Continuo convencido de que um acordo pode ser forjado; porém não com o autocrata atual. Vocês enfrentam um problema que exige a mesma solução que o meu, mas seu contrato lhes coloca numa situação delicada.
— Ele sabe tudo. Não há porque falar — grasnou Tom-Tom. Ele bateu no tambor, mas o fetiche não lhe fez qualquer bem. O feiticeiro estava engasgando.
— O Síndico não é invulnerável — comentou o legado. — Mesmo sob sua guarda. — Um gato enorme tinha engolido a língua de Tom-Tom. Eu dei de ombros. — Suponhamos que o Síndico expire enquanto sua companhia defende o Bastião contra a turba.
— Seria o ideal — respondi. — Mas isso ignora a questão de nossa segurança subsequente.
— Vocês repelem a turba e, então, descobrem a morte. Não estão mais empregados, de forma que deixam Berílio.
— E vamos para onde? Como vamos escapar de nossos inimigos? As Coortes Urbanas nos perseguiriam.
— Diga ao seu Capitão o seguinte: ao ser descoberta a morte do Síndico, se eu receber um pedido por escrito para mediar a sucessão, minhas forças substituirão as suas no Bastião. Vocês deixariam Berílio e acampariam no Pilar da Agonia.
O Pilar da Agonia era a ponta de lança de uma península de giz esburacada por incontáveis caverninhas. Ele se estende sobre o mar a um dia de marcha para leste de Berílio. Há um farol/torre de vigia lá. O nome vem do gemido que o vento faz ao passar pelas cavernas.
— Aquilo é uma maldita armadilha. Esses idiotas iriam nos sitiar e rir até que comêssemos uns aos outros.
— Um problema facilmente resolvido com barcos para tirar vocês de lá.
Ding-ding. Um alarme soou 10 centímetros detrás de meus olhos. Esse filho da mãe estava jogando conosco.
— E por que diabos você faria isso?
— Sua companhia estaria desempregada. Precisamos de bons soldados no norte.
Ding-ding. O velho sino continuou tocando. Ele queria nos contratar? Para quê?
Alguma coisa me disse que não era hora de perguntar. Mudei de assunto.
— E quanto ao forvalaka? — Faça um zigue quando eles esperam um zague.
— Aquela coisa que fugiu da cripta? — A voz do enviado era agora a da mulher dos seus sonhos, ronronando “Venha cá”. — Eu posso ter trabalho para ela também.
— Você é capaz de controlá-la?
— Uma vez que ela tenha cumprido seu propósito.
Pensei no relâmpago que tinha obliterado um feitiço de confinamento numa placa que resistira por um milênio a tentativas de invasão. Guardei minhas suspeitas longe de minha expressão, tenho certeza de que o fiz. Mas o emissário riu.
— Talvez, médico. Talvez não. Um quebra-cabeça interessante, não é? Voltem ao seu Capitão. Decidam-se. Rapidamente. Seus inimigos estão prontos para atacar. — Ele nos dispensou com um gesto.
— É só entregar a caixa! — rosnou o Capitão a Manso. — Então volte correndo.
Manso pegou a caixa de mensageiro e então partiu.
— Alguém mais quer discutir? Vocês cretinos tiveram sua chance de se livrar de mim. E estragaram tudo.
Os ânimos estavam exaltados. O Capitão tinha feito uma contraproposta ao legado, e recebeu uma oferta de patronato caso o Síndico morresse. Manso estava levando a resposta do Capitão ao enviado.
— Vocês não sabem o que estão fazendo — murmurou Tom-Tom. — Vocês não sabem com quem estão se metendo.
— Então me diga! Não? Chagas, como estão as coisas lá fora? — Eu tinha sido mandado para fazer o reconhecimento da cidade.
— É uma peste mesmo. Não se parece com nenhuma que eu já tenha visto antes, porém. O forvalaka deve ser o vetor.
O Capitão apertou os olhos em minha direção.
— Conversa de médico. O vetor é o portador da doença. A peste se espalha em bolsões ao redor das vítimas dele. — Ele grunhiu. — Tom-Tom? Você conhece esse monstro.
— Nunca ouvi falar de um deles espalhando doença. E todos nós que fomos até a tumba continuamos saudáveis.
— O portador não importa — interferi. — A peste, sim. E vai piorar se as pessoas não começarem a queimar as vítimas.
— A doença ainda não penetrou no Bastião — observou o Capitão. — E teve um efeito positivo. A guarnição regular parou de desertar.
— Encontrei muita oposição no Grunhido. Eles estão à beira de outra explosão.
— Quanto tempo ainda?
— Dois dias? No máximo três.
O Capitão mordeu o lábio. A situação complicada estava se complicando.
— Temos que...
Um tribuno da guarnição irrompeu pela porta.
— Há uma turba no portão. Eles trouxeram um aríete.
— Vamos lá — decidiu o Capitão.
Levamos apenas alguns minutos para dispersá-los. Alguns projéteis e panelas de água fervente. Eles fugiram, nos lançando maldições e insultos.
A noite chegou. Fiquei na muralha, observando as tochas distantes vagando pela cidade. A turba estava evoluindo, desenvolvendo um sistema nervoso. Se a multidão chegasse a um cérebro, nós nos veríamos metidos numa revolução.
O movimento das tochas acabou diminuindo. A explosão não viria hoje. Talvez amanhã, se o calor e a umidade se tornassem opressivos demais.
Mais tarde ouvi um barulho de arranhar à minha direita. Então estalos. Raspagens. Suaves, bem suaves, mas reais. Aproximando-se. O terror me dominou. Fiquei imóvel como as gárgulas empoleiradas sobre o portão. A brisa se tornou um vento ártico.
Alguma coisa passou por sobre as ameias. Olhos vermelhos. Quatro patas. Negro como a noite. Leopardo preto. Movia-se de forma tão fluida quanto um riacho descendo o morro. A fera esgueirou-se escada abaixo até o pátio, desaparecendo.
O meu lado primata queria escalar uma árvore, guinchar, jogar excremento e frutas podres. Fugi em direção à porta mais próxima, seguindo uma rota protegida até o alojamento do Capitão, e entrei sem bater.
— O forvalaka está no Bastião. Eu o vi passar pela muralha. — Minha voz estava aguda como a de Duende.
O Capitão grunhiu.
— Você me ouviu?
— Eu ouvi, Chagas. Vá embora. Me deixe em paz.
— Sim, senhor.
Então. Ele estava muito incomodado com aquilo. Recuei de costas até a porta...
O grito foi alto, longo e desesperado, e terminou de repente. Veio dos alojamentos do Síndico. Saquei minha espada, atravessei a porta correndo, dando de cara com Manso, que caiu. Fiquei parado sobre ele, me perguntando entorpecido por que ele tinha voltado tão cedo.
— Entre aqui, Chagas — ordenou o Capitão. — Quer morrer? — Houve mais gritos dos alojamentos do Síndico. A morte não escolhia vítimas.
Puxei Manso para dentro. Trancamos e barramos a porta. Fiquei encostado com as costas nela, olhos fechados, ofegando. Acho que foi minha imaginação, mas pensei ter ouvido alguma coisa rosnar ao passar do outro lado.
— E agora? — indagou Manso. O rosto dele estava branco. As mãos tremiam.
O Capitão terminou de escrever uma carta e a entregou a Manso.
— Agora você volta.
Alguém bateu à porta com força.
— O quê? — ralhou o Capitão.
Uma voz abafada pela porta grossa respondeu.
— É o Caolho — disse eu.
— Abra.
Eu abri. Caolho, Tom-Tom, Duende, Calado e mais outros 12 entraram. O quarto ficou quente e apertado.
— O homem-leopardo está no Bastião, Capitão — anunciou Tom-Tom. Ele se esqueceu de pontuar com o tambor. O instrumento estava caído junto ao quadril dele.
Outro grito vindo dos alojamentos do Síndico. Minha imaginação tinha me enganado.
— O que vamos fazer? — perguntou Caolho. Ele era um homenzinho negro encarquilhado menor que o irmão, geralmente dominado por um estranho senso de humor. Era um ano mais velho que Tom-Tom, porém, na idade deles, ninguém mais contava. Ambos tinham mais de 100 anos, se pudéssemos acreditar nos Anais. Ele estava aterrorizado. Tom-Tom parecia à beira da histeria. Duende e Calado também estavam abalados. — Ele pode nos matar um a um.
— Pode ser morto?
— Esses bichos são quase invencíveis, Capitão.
— Ele pode ser morto? — A voz do Capitão soou brutal. Ele também estava assustado.
— Sim — confessou Caolho. Ele estava um fio de barba menos assustado que Tom-Tom. — Nada é invulnerável. Nem mesmo aquela coisa no navio negro. Mas este monstro é forte, rápido e esperto. Armas são de pouca serventia. A feitiçaria funciona melhor, mas nem ela é muito útil. — Nunca antes eu o tinha visto reconhecer limitações.
— Já conversamos demais — rosnou o Capitão. — Agora vamos agir. — Ele era um homem difícil de decifrar, nosso comandante, mas agora estava bem transparente. A raiva e a frustração contra uma situação impossível tinham sido focadas no forvalaka.
Tom-Tom e Caolho protestaram com veemência.
— Vocês têm pensando nisso desde que descobriram que a coisa estava solta — afirmou o Capitão. — Já decidiram o que iriam fazer, se tivessem que enfrentá-lo. Vamos lá.
Outro grito.
— A Torre de Papel deve ter virado um abatedouro — murmurei. — A coisa está caçando todo mundo lá em cima.
Por um momento eu achei que até Calado iria protestar.
O Capitão afivelou o cinturão de armas.
— Pederneira, reúna os homens. Sele todas as entradas para a Torre de Papel. Elmo, escolha alguns alabardeiros e besteiros dos bons. Envenene as setas.
Vinte minutos se passaram. Perdi a conta dos gritos. Perdi a noção de tudo, menos um tremor crescente e a pergunta: Por que o forvalaka tinha invadido o Bastião? Por que ele persistia na caçada? Havia algo além da fome impulsionando o monstro.
O legado insinuou que encontraria uma utilidade para a criatura. Qual? Isto aqui? Seria uma boa ideia se meter com alguém capaz disso?
Todos os quatro feiticeiros colaboraram com o feitiço que nos precedia, crepitando. O próprio ar lançava fagulhas azuis. Os alabardeiros vinham em seguida, e então os besteiros, dando cobertura. O grupo era fechado por mais uma dúzia de nossos companheiros. Entramos nos alojamentos do Síndico.
Anticlímax. A antecâmara da Torre de Papel parecia perfeitamente normal.
— Está lá em cima — nos disse Caolho.
O Capitão se virou para o corredor detrás de nós.
— Pederneira, traga seus homens para dentro.
Ele planejava avançar sala por sala, selando todas as saídas menos uma rota de fuga. Caolho e Tom-Tom discordavam. Eles diziam que a coisa ficaria mais perigosa ao ser encurralada. Um silêncio sinistro nos cercou. Já não se ouvia mais gritos há vários minutos.
Encontramos a primeira vítima no pé da escada que levava até a Torre propriamente dita.
— Um dos nossos — grunhi. O Síndico sempre se cercava de um esquadrão da Companhia. — Os quartos de dormir ficam no andar de cima? — Eu nunca tinha entrado na Torre de Papel.
O Capitão confirmou com um gesto de cabeça.
— Andar da cozinha, andar da despensa, alojamentos da criadagem em dois andares, então a família, e por fim o próprio Síndico. Biblioteca e escritórios no topo. Ele quer tornar mais difícil o alcançarem.
Examinei o cadáver.
— Não parece muito com aqueles da tumba. Tom-Tom, ele não tirou sangue ou órgãos. Por quê?
O feiticeiro não sabia responder. Caolho também não.
O Capitão espiou as sombras acima.
— Agora vai ficar mais complicado. Alabardeiros, um degrau de cada vez. Mantenham as alabardas com as pontas abaixadas. Bestas, sigam quatro ou cinco degraus mais atrás. Atirem em qualquer coisa que se mover. Espadas desembainhadas, todo mundo. Caolho, mande seu feitiço na frente.
Crepitar. Um degrau, dois degraus, silenciosamente. Fedor de medo. Quang! Um dos homens disparou a besta acidentalmente. O Capitão cuspiu e xingou como um vulcão mal-humorado.
Não havia nada para se ver.
Alojamentos dos serviçais. Sangue espirrado nas paredes. Cadáveres e pedaços de corpos jaziam por todas as partes, em meio à mobília invariavelmente estilhaçada e arrebentada. Temos homens durões na Companhia, porém mesmo os mais frios ficaram abalados. Até eu, que, como médico, vejo o pior que o campo de batalha tem a oferecer.
— Capitão, vou buscar o resto da Companhia — afirmou o Tenente. — Esse monstro não vai escapar. — O tom de voz dele não admitia discordância. O Capitão apenas concordou com a cabeça.
O massacre tinha aquele efeito. O medo desapareceu de certa forma. A maioria de nós decidiu que aquela criatura precisava ser destruída.
Um grito soou acima. Era como uma provocação atirada em nossa direção, nos desafiando a seguir em frente. Homens de olhos endurecidos subiram a escada. O ar crepitava com o feitiço que os precedia. Tom-Tom e Caolho avançaram apesar do próprio medo. A caçada mortal começou de verdade.
Um abutre havia expulsado a águia que se aninhava no topo da Torre de Papel, um presságio verdadeiramente horrendo. Eu não tinha esperanças quanto a nosso empregador.
Subimos cinco andares. Era sangrentamente óbvio que o forvalaka tinha visitado cada um deles...
Tom-Tom ergueu a mão de súbito, e apontou. O forvalaka estava por perto. Os alabardeiros se ajoelharam detrás das armas e os besteiros miraram as sombras. Tom-Tom esperou por meio minuto. Ele, Caolho, Calado e Duende perscrutaram atentamente, ouvindo alguma coisa que o resto do mundo poderia apenas imaginar.
— Ela está esperando — finalmente foi dito. — Tomem cuidado. Não ofereçam uma abertura à criatura.
Fiz uma pergunta estúpida, certamente atrasada demais para ter alguma utilidade.
— Não deveríamos usar armas de prata? Pontas de setas e lâminas?
Tom-Tom me olhou confuso.
— De onde venho, os camponeses dizem que você tem de matar lobisomens com prata.
— Bobagem. Você os mata do mesmo jeito que mata qualquer outra coisa. Só que precisa ser mais rápido e bater mais forte, porque só tem uma chance.
Quanto mais Tom-Tom revelava, menos terrível a criatura parecia ser. Era como caçar um leão agressivo. Por que tanta agitação?
Eu me lembrei dos alojamentos dos serviçais.
— Todo mundo parado — mandou Tom-Tom. — E calado. Vamos tentar uma emissão. — O feiticeiro e seus colegas juntaram as cabeças. Depois de algum tempo ele indicou que deveríamos continuar avançando.
Chegamos a uma plataforma entre dois lances de escada, todos bem juntos, um ouriço humano com espinhos de aço. Os feiticeiros aceleraram o encantamento. Um rugido raivoso veio das sombras à frente, seguido do arranhar de garras. Algo se moveu. Bestas vibraram. Outro rugido, quase zombeteiro. Os magos juntaram as cabeças novamente. No andar de baixo o Tenente estava ordenando aos soldados que assumissem posições defensivas pelas quais o forvalaka precisaria passar para escapar.
Avançamos devagar pelas trevas, cada vez mais tensos. Corpos e sangue deixavam o piso traiçoeiro. Soldados se apressavam em selar portas. Lentamente, penetramos um conjunto de escritórios. Duas vezes um movimento provocou disparos das bestas.
O forvalaka uivou a menos de 6 metros. Tom-Tom soltou um suspiro que parecia mais um grunhido.
— Pegamos ele — falou, querendo dizer que eles o tinham alcançado com o feitiço.
Seis metros de distância. Ele estava logo ali conosco. Eu não conseguia ver nada... Algo se moveu. Setas voaram. Um homem gritou.
— Raios! — xingou o Capitão. — Ainda tinha alguém vivo aqui em cima.
Uma coisa negra como o coração da noite e rápida como a morte súbita saltou sobre as alabardas. Eu tive tempo apenas para pensar Veloz! antes que ela estivesse entre nós. Homens se viraram, gritaram, entraram no caminho um do outro. O monstro rugiu e rosnou, atacou com garras e presas rápidas demais para nossos olhos. Cheguei a pensar que tinha golpeado um flanco de trevas, antes que uma porrada me lançasse a vários metros.
Eu me levantei apressado, me posicionando de costas para um pilar. Tinha certeza de que ia morrer, de que a coisa ia matar todos nós. Pura arrogância da nossa parte, pensar que poderíamos lidar com o monstro. Após apenas alguns segundos, meia dúzia de homens morrera. Outros mais estavam feridos. O forvalaka não havia diminuído de velocidade, muito menos se ferido. Nenhuma das armas ou feitiços o tinha atrapalhado.
Nossos feiticeiros se reuniram num grupinho, tentando produzir outro encantamento. O Capitão liderava outra parte da tropa. O resto dos homens estava disperso. O monstro dardejava de um lado para o outro, atacando-os isoladamente.
Fogo cinzento irrompeu pela sala, por um instante expondo tudo ao redor, imprimindo o massacre no fundo dos meus olhos. O forvalaka berrou, desta vez com dor genuína. Ponto para os feiticeiros.
Ele veio na minha direção. Eu golpeei em pânico enquanto o monstro passava por mim. Não acertei. A criatura girou, ganhando impulso, e saltou contra os feiticeiros. Eles o receberam com outro feitiço luminoso. O forvalaka uivou. Um homem berrou. A fera se debateu no chão como uma cobra moribunda. Soldados estocaram com lanças e espadas. Ele se levantou e escapou pela saída que tínhamos deixado aberta para nós mesmos.
— Ele está indo para aí! — gritou o Capitão ao Tenente.
Eu deixei meu corpo fraquejar, não sentindo nada além de alívio. Ele tinha se ido... Antes que meu traseiro tocasse o chão, Caolho estava me arrastando.
— Venha logo, Chagas, ele atingiu Tom-Tom. Você tem de ajudar.
Eu cambaleei até lá, subitamente ciente de um corte superficial em uma das pernas.
— Melhor limpar bem — murmurei. — Aquelas garras devem estar imundas.
Tom-Tom era uma pilha de restos humanos retorcidos. A garganta tinha sido arrancada, a barriga, aberta. Os braços e o peito foram rasgados até o osso. Incrivelmente, ele ainda estava vivo, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Nada que nenhum médico pudesse ter feito. Nem mesmo um feiticeiro mestre, especializado em cura, salvaria o pequeno homem negro. Mas Caolho insistiu para que eu tentasse. E foi o que eu fiz, até o Capitão me arrastar para que eu atendesse homens cuja morte era menos certa. Caolho estava gritando com ele quando os deixei.
— Preciso de luzes aqui! — pedi. Ao mesmo tempo o Capitão começou a reunir os homens ilesos junto à porta aberta, mandando que eles a guardassem.
Conforme a luz se fortaleceu, a magnitude do fiasco se tornou mais evidente. Tínhamos sido dizimados. Além disso, uma dúzia de irmãos que não subiram conosco jaziam espalhados pela câmara. Eles estavam em serviço. Dentre eles havia secretários e conselheiros em mesmo número.
— Alguém aí viu o Síndico? — inquiriu o Capitão. — Ele deveria estar aqui.
Ele, Pederneira e Elmo começaram a procurar. Não tive muita chance de acompanhar a busca. Estava fazendo curativos e costurando como um louco, reunindo toda ajuda possível. O forvalaka deixava ferimentos profundos de garras que exigiam suturas cuidadosas e habilidosas.
De alguma forma, Duende e Calado conseguiram acalmar Caolho o suficiente para que ele pudesse ajudar. Talvez tenham usado alguma magia nele. O feiticeiro trabalhava num estado de estupefação que beirava a inconsciência.
Dei mais uma olhada em Tom-Tom quando tive chance. Ele ainda estava vivo, agarrado ao tamborzinho. Raios! Tanta teimosia merecia ser recompensada. Mas como? Minha experiência simplesmente não era adequada.
— Ei! — gritou Pederneira. — Capitão! — Olhei em sua direção. Estava tocando um baú com a ponta da espada.
O baú era de pedra. Uma caixa-forte de um dos homens mais ricos de Berílio. Diria que aquela ali pesava uns 250 quilos. O exterior tinha sido finamente ornamentado. A maior parte da decoração havia sido destruída... por garras afiadas?
Elmo arrebentou o cadeado e forçou a abertura da tampa. Eu entrevi um homem trêmulo deitado sobre uma pilha de ouro e joias, com os braços protegendo a cabeça. Elmo e o Capitão trocaram olhares sérios.
Fui distraído pela chegada do Tenente. Ele aguardara lá embaixo até começar a se preocupar porque nada havia acontecido. O forvalaka não tinha descido.
— Vasculhem a torre — ordenou o Capitão ao Tenente. — Talvez ele tenha subido. — Havia mais dois níveis acima.
Quando eu olhei o baú novamente, estava fechado outra vez. Nosso empregador não se encontrava em qualquer lugar visível. Pederneira estava sentado no baú, limpando as unhas com a adaga. Espiei o Capitão e Elmo. Havia algo levemente estranho neles.
Eles não teriam completado a tarefa que o forvalaka desejava cumprir, teriam? Não. O Capitão não trairia os ideais da Companhia assim. Trairia?
Não perguntei.
A busca pela torre não revelou nada além de uma trilha de sangue que conduzia ao topo, onde o forvalaka tinha se deitado para recuperar as forças. Ele havia ficado gravemente ferido, mas acabou escapando, descendo pelo lado de fora da torre.
Alguém sugeriu que nós o rastreássemos.
— Vamos deixar Berílio — foi a resposta do Capitão. — Não estamos mais empregados. Temos de sair antes que a cidade se vire contra nós.
Ele mandou Elmo e Pederneira ficarem de olho nas guarnições nativas. O resto retirou os feridos da Torre de Papel.
Por vários minutos eu fiquei sem supervisão. Olhei para o grande baú de pedra e a tentação aumentou, mas eu resisti. Não queria saber.
Manso voltou depois de toda a agitação. Ele informou que o legado estava no píer, desembarcando tropas.
Os homens estavam fazendo as malas e carregando coisas, alguns murmurando sobre os eventos na Torre de Papel, outros reclamando de ter que partir. Quando você deixa de ser nômade, imediatamente estabelece raízes. Acumula coisas. Encontra uma mulher. Então o inevitável acontece e você é forçado a abandonar tudo. Havia muita dor pairando na atmosfera dos alojamentos.
Eu estava no portão quando os nortistas chegaram. Ajudei a virar o cabrestante que ergueu a porta levadiça. Não sentia muito orgulho. Sem minha aprovação, talvez o Síndico jamais tivesse sido traído.
O legado ocupou o Bastião. A Companhia iniciou a desocupação. Era mais ou menos 3 horas da madrugada e as ruas estavam vazias.
Depois de marcharmos dois terços do trajeto até o Portão da Alvorada, o Capitão ordenou uma parada. Os sargentos reuniram todos os soldados ainda capazes de lutar. Os outros continuaram com as carroças.
O Capitão nos levou ao norte até a Avenida do Antigo Império, onde os imperadores de Berílio tinham imortalizado a si mesmos e a seus triunfos. Muitos dos monumentos eram bizarros, e celebravam minúcias como um cavalo favorito, gladiadores ou amantes dos dois sexos.
Eu tive um pressentimento ruim antes mesmo de chegarmos ao Portão do Lixo. A sensação ruim se tornou desconfiança, e a desconfiança floresceu em uma certeza tenebrosa quando entramos nos campos marciais. Não há nada perto do Portão do Lixo além da Caserna da Forquilha.
O Capitão não fez qualquer declaração específica. Quando alcançamos o complexo da Forquilha, todos sabíamos o que iria acontecer.
As Coortes Urbanas continuavam tão desleixadas como sempre. O portão do complexo estava aberto e o vigia solitário, adormecido. Marchamos para dentro sem resistência. O Capitão começou a designar tarefas.
Restavam ainda 5 a 6 mil homens ali. Os oficiais tinham restabelecido alguma disciplina, tendo convencido os soldados a devolver as armas aos arsenais. Tradicionalmente, os capitães de Berílio só confiavam armas aos comandados às vésperas de uma batalha.
Três pelotões foram direto aos alojamentos, matando homens em suas camas. O pelotão restante estabeleceu um bloqueio nos fundos do complexo.
O sol já tinha nascido quando o Capitão se deu por satisfeito. Nós batemos em retirada e nos apressamos em alcançar a caravana de bagagem. Não havia um único homem em nosso meio que não estivesse saciado.
Obviamente, não fomos perseguidos. Ninguém veio estabelecer um cerco a nosso acampamento no Pilar da Agonia. Isso foi o motivo do massacre que promovemos. Isso, e o alívio de vários anos de raiva acumulada.
Elmo e eu estávamos na ponta do promontório, observando o sol da tarde brincar de se esconder atrás de uma tempestade bem ao longe no mar. A chuva tinha chegado dançando e transformado nosso acampamento num pântano com seu dilúvio de frescor e, então, seguido de volta ao mar. Era algo belo de se ver, mesmo que não particularmente colorido.
Elmo não havia falado muito nos últimos tempos.
— Alguma coisa te incomodando, Elmo?
A tempestade entrou na frente da luz, dando ao mar o aspecto de ferrugem. Eu me perguntei se o ar fresco teria alcançado Berílio.
— Eu diria que você é capaz de adivinhar, Chagas.
— Eu diria que sou. — A Torre de Papel. A Caserna da Forquilha. Nosso tratamento ignóbil a nosso contrato. — Como você acha que vai ser, ao norte do mar?
— Acha que o bruxo negro virá, hem?
— Ele virá, Elmo. Só está tendo algumas dificuldades em botar as marionetes para dançar conforme a música dele. — E quem não teria, tentando domar aquela cidade insana?
— Hum. — E em seguida: — Olha ali.
Uma manada de baleias mergulhou além das pedras que cercavam o promontório. Eu tentei fingir que não ficara impressionado e fracassei. Os monstros eram magníficos, bailando no mar de ferro.
Estávamos sentados de costas para o farol. Parecia que olhávamos para um mundo jamais profanado pelos homens. Às vezes suspeito que o mundo estaria melhor sem nós.
— Navio ao longe — anunciou Elmo.
Não vi a embarcação até que a vela capturou as chamas do sol vespertino, se tornando um triângulo laranja bordado de ouro, balançando e oscilando com o subir e descer do oceano.
— Navio costeiro. Talvez de 20 toneladas.
— Grande assim?
— Para um navio costeiro. Naus de águas profundas às vezes chegam a 80 toneladas.
O tempo continuou se pavoneando, volúvel e extravagante. Ficamos olhando o navio e as baleias. Comecei a sonhar acordado. Pela centésima vez tentei imaginar a nova terra, me baseando em histórias de mercadores que ouvi de segunda mão. Provavelmente iríamos fazer a travessia até Opala. O lugar era o reflexo de Berílio, diziam, embora fosse uma cidade mais jovem...
— Aquele idiota vai se meter nas pedras.
Acordei. O navio costeiro estava perigosamente perto do perigo mencionado. Ele corrigiu o rumo em um ponto e evitou o desastre por uns 100 metros, e então voltou ao curso.
— Isso animou um pouco nosso dia — comentei.
— Um dia desses você vai dizer alguma coisa sem sarcasmo e vou definhar e morrer, Chagas.
— Mantém minha sanidade, companheiro.
— Isso é discutível, Chagas. Discutível.
Voltei a encarar o amanhã. Melhor que olhar para o passado. Mas o amanhã se negou a tirar sua máscara.
— Ele está virando para cá — avisou Elmo.
— O quê? Ah.
O navio costeiro chafurdava na ondulação, praticamente sem avançar, enquanto a proa guinava para a costa abaixo do acampamento.
— Quer avisar o Capitão?
— Imagino que ele já sabe. Os homens no farol.
— É.
— Fique de olho caso mais alguma coisa apareça.
A tempestade seguia para o oeste agora, obscurecendo o horizonte daqueles lados e recobrindo o mar com sua sombra. O mar frio e cinzento. Subitamente, a ideia da travessia me aterrorizou.
O navio costeiro trouxe notícias de amigos contrabandistas de Tom-Tom e Caolho. Este ficou ainda mais teimoso e ranzinza após ouvir as novidades, e ele já estava num mau humor extraordinário antes. O feiticeiro chegou até parar de brigar com Duende, algo que já se tornara sua segunda ocupação. A morte de Tom-Tom afetara fortemente Caolho, que não relaxava. Não quis nos contar o que os amigos lhe disseram.
O Capitão não estava lá muito melhor. O temperamento dele era uma abominação. Acho que ele tanto desejava quanto sentia repulsa pela terra nova. O contrato significava um potencial renascimento para a Companhia, deixando nossos pecados para trás, porém ele fazia uma ideia da natureza do serviço que estávamos assumindo. O Capitão desconfiava que o Síndico estivesse certo quanto ao império do norte.
O dia seguinte à visita dos contrabandistas trouxe frescas brisas setentrionais. A névoa roçou as beiradas do promontório de tarde. Logo após o crepúsculo, um barco chegou à praia, saindo do nevoeiro. O legado tinha chegado.
Juntamos nossas coisas e começamos a nos despedir dos seguidores de acampamento que tinham pingado da cidade. Nossos animais e equipamento seriam a recompensa pela fé e amizade dessa gente. Passei uma hora triste e gentil com uma mulher para quem eu significava mais do que havia suspeitado. Não vertemos lágrimas nem mentimos um ao outro. Deixei-a com lembranças e boa parte de minha patética fortuna. Ela me deixou com um nó na garganta e uma sensação de perda não inteiramente compreensível.
— Qual é, Chagas? — murmurei, enquanto descia até a praia. — Você já passou por isso antes. Vai esquecê-la antes de chegar a Opala.
Meia dúzia de barcos tinha aportado na praia. Quando um dos botes se enchia, os marinheiros nortistas o empurravam para a arrebentação. Remadores os impulsionavam pelas ondas, e em segundos eles sumiam no nevoeiro. Botes vazios chegavam flutuando. Os barcos se intercalavam, levando também equipamentos e posses.
Um marinheiro que falava a língua de Berílio me contou que tinha espaço de sobra no navio negro. O legado deixara as tropas em Berílio como guardas para o novo Síndico, que era outro Vermelhão e parente distante do homem a quem servíamos.
— Espero que eles tenham menos problemas do que nós — comentei, e me afastei para ficar mal-humorado em paz.
O legado estava trocando seus soldados por nós. Eu suspeitava que iríamos ser usados, que estávamos embarcando em algo mais sinistro do que poderíamos imaginar.
Várias vezes, durante a espera, ouvi um uivo distante. Primeiro achei que fosse a canção do Pilar. Mas não havia vento algum. Quando soou de novo eu perdi todas as dúvidas. Fiquei todo arrepiado.
O intendente, o Capitão, o Tenente, Calado, Duende, Caolho e eu esperamos até o último barco.
— Eu não vou — anunciou Caolho quando o contramestre nos chamou a bordo.
— Embarque — ordenou o Capitão, com voz gentil. É nessas horas que ele é perigoso.
— Estou me demitindo. Vou pro sul. Já se passou muito tempo, eles já devem ter me esquecido.
O Capitão apontou para o Tenente, Calado, Duende e para mim e depois indicou o barco com o polegar. Caolho berrou.
— Vou transformar todo mundo em avestruz...
Calado tapou sua boca com a mão. Corremos com ele até o bote, e Caolho se debatia como uma cobra numa fogueira.
— Você fica com a família — sussurrou o Capitão.
— No três — guinchou Duende, feliz, e então contou.
O pequeno homem negro voou numa parábola até o bote, girando no ar. Ele apareceu sobre a lateral da embarcação, xingando e nos cobrindo de cuspe. Rimos ao vê-lo mostrar tanta emoção. Duende liderou a investida que prendeu Caolho ao banco de remador.
Os marinheiros empurraram nosso barco. No momento em que os remos bateram na água, Caolho sossegou. Ele parecia um homem a caminho da forca.
O navio tomou forma, uma silhueta indeterminada que assomava um pouco mais que as trevas em volta. Ouvi as vozes dos marujos, que soavam vazias através da névoa, a madeira rangendo, polias sendo usadas, muito antes que eu pudesse ter certeza do que via. Nosso barco parou ao pé de uma escada de portaló. O uivo soou de novo.
Caolho tentou se atirar no mar. Nós o detivemos. O Capitão aplicou o calcanhar de sua bota ao traseiro do mago.
— Você teve sua chance de nos convencer a desistir. Você não fez isso. Vai ter que aguentar.
Caolho seguiu o Tenente escada acima, derrotado, um homem sem esperança. Um homem que deixara um irmão morto e agora estava sendo forçado a se aproximar do assassino, contra quem não poderia se vingar.
Encontramos a Companhia no convés principal, os homens estavam aconchegados em meio às montanhas de bagagem. Os sargentos desbravaram por entre a bagunça para vir em nossa direção.
O legado apareceu. Eu o encarei. Era a primeira vez que eu o via a pé, de pé. Era baixo. Por um momento me perguntei se seria um homem mesmo. As vozes às vezes eram femininas.
Ele nos escrutinou com uma intensidade que sugeria que estava lendo nossas almas. Um dos oficiais pediu ao Capitão que pusesse os homens em formação o melhor que fosse possível no convés lotado. A tripulação do navio ocupava as plataformas planas sobre o poço aberto que ia da proa até quase a popa, e descia do nível do convés até a bancada inferior de remos. Abaixo havia murmúrios, estrépitos metálicos e chacoalhar de correntes conforme os remadores acordavam.
O legado nos passou em revista. Parou diante de cada soldado, prendendo uma reprodução do brasão da vela do navio sobre cada coração. Foi um processo lento. Zarpamos muito antes de ele terminar.
Quanto mais o enviado se aproximava, mais Caolho tremia. Ele quase desmaiou quando o legado lhe concedeu o broche. Eu estava confuso. Por que tanta comoção?
Eu estava nervoso quando minha vez chegou, mas sem medo. Olhei para o distintivo enquanto as delicadas mãos enluvadas o prendiam em meu colete. Caveira e círculo em prata sobre azeviche, trabalhado com muita elegância. Uma peça cara de joalheria, mesmo que sinistra. Se não estivesse tão abalado, creio que Caolho estaria considerando qual seria a melhor forma de botar o broche no prego.
O brasão agora me parecia vagamente familiar. Pelo menos fora do contexto da vela do navio, onde eu o tinha ignorado por considerar que se tratava de puro exibicionismo. Não teria lido ou ouvido falar algo sobre um brasão semelhante em algum lugar?
— Bem-vindo ao serviço da Dama, médico — anunciou o legado. A voz dele era desconcertante. Nunca se encaixava nas expectativas, jamais. Desta vez era musical, melodiosa, como a voz de uma moça colocando algo sobre cabeças mais sábias.
A Dama? Onde eu tinha encontrado essa palavra usada de tal forma antes, enfatizada como se fosse o título de uma deusa? Uma lenda sombria de tempos antigos...
Um uivo de ultraje, dor e desespero preencheu o navio. Surpreso, eu abandonei a formação e corri até a beirada do poço.
O forvalaka estava numa grande jaula de ferro ao pé do mastro. Nas sombras ele parecia mudar sutilmente ao perambular, enquanto testava cada uma das barras. Num momento era uma mulher atlética de uns 30 anos, mas segundos depois assumia a forma de um leopardo negro de pé sobre as patas traseiras, arranhando o ferro que o prendia. Lembrei de quando o legado disse que teria algum trabalho para o monstro.
Eu o encarei. E a memória veio. Um martelo do diabo cravou estacas de gelo na barriga da minha alma. Eu sabia por que Caolho não queria cruzar o mar. O mal ancestral do norte...
— Achei que vocês tinham morrido há 300 anos.
O legado riu.
— Você não é muito bom em história. Não fomos destruídos. Apenas acorrentados e enterrados vivos. — A risada dele tinha um toque histérico. — Acorrentados, enterrados e, por fim, libertados por um idiota chamado Bomanz, Chagas.
Eu me acocorei ao lado de Caolho, que enterrou o rosto nas mãos.
O legado, o terror nomeado Apanhador de Almas nas velhas histórias, um demônio pior que 12 forvalakas, riu loucamente. Os tripulantes dele se encolheram. Uma grande piada, alistar a Companhia Negra a serviço do mal. Uma grande cidade tomada e pequenos vilões subornados. Uma brincadeira verdadeiramente cósmica.
O Capitão se agachou ao meu lado.
— Explique, Chagas.
Então eu lhe contei sobre a Dominação, sobre o Dominador e a Dama dele. O império daqueles dois fora um reino de maldade que o inferno não poderia rivalizar. Eu lhe contei sobre os Dez que Foram Tomados (dos quais o Apanhador de Almas era um), dez grandes magos, quase semideuses de tão poderosos, que tinham sido sobrepujados pelo Dominador e compelidos a servi-lo. Contei sobre a Rosa Branca, a dama general que o havia derrubado, mas cujo poder fora insuficiente para destruir o Dominador, a Dama e os Dez. Ela enterrara todos eles num túmulo selado por encantamentos em algum ponto do mar ao norte.
— E agora eles voltaram à vida, aparentemente — concluí. — Eles governam o império nortista. Tom-Tom e Caolho devem ter desconfiado. E nós nos alistamos a serviço deles.
— Tomados — murmurou o Capitão. — Bem como o forvalaka.
A fera gritou e se atirou contra as barras da jaula. A risada do Apanhador de Almas flutuava sobre o convés nevoento.
— Tomados pelo Tomado — concordei. — O paralelo é desconfortável. — Comecei a tremer enquanto mais e mais histórias antigas emergiam em minha mente.
O Capitão suspirou e fitou a névoa, na direção da terra nova.
Caolho olhou para a coisa na jaula, com ódio. Eu tentei fazê-lo se acalmar. Ele me afastou.
— Ainda não, Chagas. Eu preciso entender isto.
— Entender o quê?
— Não foi esse que matou Tom-Tom. Não tem as cicatrizes que pusemos nele.
Eu me virei lentamente, estudando o legado. Ele riu novamente, olhando para nós.
Caolho nunca chegou a entender. E eu nunca lhe contei. Já temos problemas suficientes.