A Companhia Negra

Glen Cook · Capítulo 6 de 7 · parte 1/3

Páginas do PDF

A Companhia Negra

Capítulo Seis | Dama

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Capítulo Seis

 

DAMA

 

A s terras lentamente se tornaram de um verde prateado. A alvorada lançava traços escarlate na cidade murada. Lampejos dourados salpicavam as muralhas, onde o sol tocava o orvalho. A névoa começou a deslizar para as ravinas. Trombetas soaram a vigia matinal.

O Tenente protegeu os olhos, estreitando-os. Grunhiu desgostoso, lançando um olhar a Caolho. O homenzinho balançou a cabeça.

— Está na hora, Duende — anunciou o Tenente por sobre o ombro.

Homens começaram a se mover na mata. Duende ajoelhou-se a meu lado, espiando as terras agrárias. Ele e quatro outros homens estavam disfarçados de mulheres pobres da cidade, com as cabeças embrulhadas em xales. Carregavam jarras de barro balançando em varas de madeira, e tinham as armas ocultas nas roupas.

— Vão. O portão está aberto — comandou o Tenente.

Eles partiram, seguindo o limite da mata morro abaixo.

— Caramba, é bom fazer este tipo de coisa de novo — comentei.

O Tenente sorriu. Ele não tinha sorrido muito desde que deixamos Berílio.

Abaixo, as cinco falsas mulheres avançaram pelas sombras até a fonte ao lado da estrada da cidade. Já havia algumas locais chegando para pegar água.

Não esperávamos nenhuma dificuldade em passar pelos guardas do portão. A cidade estava lotada de estranhos, refugiados e seguidores de acampamentos rebeldes. Nossos inimigos não tinham motivo para crer que a Dama atacaria tão longe de Talismã. Esta cidade não tinha importância alguma para a guerra.

Exceto que dois dos Dezoito, conhecedores das estratégias rebeldes, estavam ali alojados.

Tínhamos espreitado naquela floresta por três dias, vigiando. Pluma e Jornada, recentemente promovidos ao Círculo, estavam em lua de mel ali antes de se juntar ao ataque contra Talismã ao sul.

Três dias. Três dias sem acender fogueiras nas noites gélidas, de comida fria em todas as refeições. Três dias miseráveis. E ainda assim nosso moral estava em seu ponto mais alto em vários anos.

— Acho que vamos conseguir — comentei.

O Tenente fez um gesto. Vários homens saíram na retaguarda dos disfarçados.

— Quem quer que tenha pensado nisto, sabia o que estava fazendo — opinou Caolho. Ele estava empolgado.

Todos estávamos. Era uma chance de fazer o que fazíamos melhor. Por cinquenta dias tínhamos executado trabalho manual brutal, preparando Talismã para a ofensiva rebelde, e por cinquenta noites agonizamos com a batalha vindoura.

Mais cinco homens se esgueiraram morro abaixo.

— Um grupo de mulheres saindo agora — disse Caolho. A tensão aumentou.

Mulheres passaram a caminho da nascente. O fluxo continuaria o dia inteiro, a menos que o interrompêssemos. Não havia fonte de água dentro das muralhas.

Meu estômago se contraiu. Nossos infiltradores tinham começado a subir o morro.

— Fiquem preparados — comandou o Tenente.

— Relaxem um pouco — sugeri. O exercício sempre ajuda a liberar a energia nervosa.

Não importa há quanto tempo você é um soldado, o medo sempre aumenta com a aproximação do combate. Sempre há o temor de que a sua vez tenha chegado. Caolho entra toda vez em ação certo de que o destino riscou o nome dele da lista.

Os infiltradores trocaram cumprimentos em falsete com as mulheres da vila. Chegaram ao portão sem serem descobertos. O local era guardado por um único miliciano, um sapateiro ocupado martelando pregos no salto de uma bota. A alabarda estava a 3 metros de distância.

Duende correu para fora. Bateu as mãos acima da cabeça. Um estalo reverberou pelo campo. O feiticeiro colocou os braços à altura dos ombros, de palmas para cima. Um arco-íris se abriu entre as mãos dele.

— Sempre inventando firulas — resmungou Caolho.

Duende fez uma dancinha.

A patrulha avançou. As mulheres na fonte gritaram e se espalharam. Lobos saltando num rebanho, pensei. Corremos muito. Minha mochila chocava-se contra meus rins. Depois de 200 metros tropecei em meu arco. Homens mais jovens começaram a me ultrapassar.

Alcancei o portão incapaz de chicotear uma velhinha. Para minha sorte, as velhinhas estavam de bobeira. Os soldados varreram a cidade. Não houve resistência.

Nós, que iríamos enfrentar Pluma e Jornada, continuamos correndo pela minúscula cidadela interior. As defesas ali eram igualmente péssimas. O Tenente e eu seguimos Caolho, Calado e Duende forte adentro.

Não encontramos resistência abaixo do último andar. Lá, inacreditavelmente, os pombinhos ainda dormiam, abraçados. Caolho se livrou dos guardas com uma ilusão aterrorizante. Duende e Calado arrombaram a porta do ninho de amor.

Entramos de assalto. Mesmo sonolentos, surpresos e assustados, eles nos deram trabalho. Machucaram vários dos nossos até conseguirmos amordaçá-los e atar suas mãos.

O Tenente fez um discurso para os dois.

— Temos que levar vocês de volta vivos. Isso não quer dizer que não podemos machucá-los. Fiquem quietos, obedeçam às ordens e vão ficar bem.

Eu, de certa forma, esperei que ele fizesse caretas, enrolasse o bigode e pontuasse as frases com uma risada maléfica. O Tenente estava brincando, assumindo o papel de vilão que os rebeldes insistem que desempenhamos.

Pluma e Jornada nos criariam o máximo de problemas possível. Eles sabiam que a Dama não nos mandara levá-los para o chá.

Na metade do caminho de volta, ainda em território inimigo. Deitados de bruços no alto de um morro, estudando um acampamento inimigo.

— Grande — observei. — Vinte e cinco, 30 mil homens — Era um dos seis acampamentos num arco ao norte e oeste de Talismã.

— Se ficarem parados assim por muito mais tempo, terão problemas — afirmou o Tenente.

Eles deveriam ter atacado logo após a Escada das Lágrimas, mas a perda de Calejado, Evasão, Mariposa e Protelo tinha lançado os capitães menores numa luta pelo comando supremo. A ofensiva rebelde havia perdido impulso. A Dama recuperara o equilíbrio.

Suas patrulhas ofensivas agora perturbavam os mateiros rebeldes que procuravam comida para os soldados, exterminavam colaboradores, faziam reconhecimento, destruíam qualquer coisa que pudesse ser útil para o inimigo. Apesar dos números imensamente superiores, a postura dos rebeldes estava se tornando defensiva. Cada dia passado num acampamento minava o impulso psicológico deles.

Dois meses antes, nosso moral era mais baixo que bunda de cobra. Agora estava ascendente. Se conseguíssemos voltar, ele decolaria. Nosso golpe iria atordoar o movimento rebelde.

Se conseguíssemos voltar.

Ficamos deitados imóveis no granito íngreme e coberto de líquens e folhas mortas. O riacho abaixo ria de nosso problema. Sombras de árvores nuas nos cobriam. Feitiços de baixa potência de Caolho e seus colegas nos camuflavam ainda mais. O cheiro de medo e de cavalos suados enchia minhas narinas. Da estrada acima vinham as vozes de cavaleiros rebeldes. Eu não entendia a língua deles, mas sabia que estavam discutindo.

Acarpetada com folhas e gravetos não perturbados por viajantes, a estrada parecera desprovida de patrulhas. O cansaço superou nossa cautela. Decidíramos segui-la. Então fizemos uma curva e nos deparamos com a patrulha rebelde do outro lado do vale para onde o riacho abaixo fluía.

Eles amaldiçoavam nosso desaparecimento. Vários deles desmontaram e urinaram nas margens.

Pluma começou a se debater.

Merda, gritei por dentro. Merda! Merda! Eu sabia!

Os rebeldes matraquearam e se alinharam à beira da estrada.

Soquei a têmpora da mulher. Duende bateu nela do outro lado. Calado, pensando rápido, teceu um feitiço com dedos ágeis como tentáculos que dançavam diante de seu próprio peito.

Um arbusto esfarrapado tremeu. Um texugo gordo e velho correu bamboleando até a margem e atravessou o riacho, sumindo num denso monte de choupos. O animal evocado por Calado distraiu nossos perseguidores.

Praguejando, os rebeldes jogaram pedras. Elas fizeram um estardalhaço de louça se partindo ao atingirem os pedregulhos do riacho. Os soldados pisotearam pela área, dizendo um ao outro que tínhamos que estar por ali. Não poderíamos ter ido muito longe a pé. A lógica poderia destruir os melhores esforços de nossos magos.

Eu sentia um medo do tipo que fazia os joelhos baterem, as mãos tremerem, as tripas se contraírem. Tinha sido formado ao longo de muitas situações difíceis das quais escapei por pouco. A superstição me dizia que eu já estava desafiando a sorte.

E lá se ia aquela baforada de moral recuperado. O medo implacável mostrava a mentira que aquilo fora. Sob a pátina da empolgação, eu mantinha a atitude derrotista que trouxera da Escada das Lágrimas. Minha guerra estava acabada, perdida. Tudo que eu queria fazer era correr.

Jornada pareceu que ia criar problemas também. Lancei um olhar horrendo a ele. O sujeito desistiu.

Uma brisa agitou as folhas mortas. O suor em meu corpo gelou. Meu medo resfriou um pouco.

A patrulha montou novamente. Ainda reclamando, cavalgaram até a estrada. Observei quando eles entraram no campo de visão na curva que a estrada fazia para o leste com o cânion. Vestiam tabardos escarlates sobre cota de malha das boas. Os capacetes e as armas eram de excelente qualidade. Os rebeldes estavam ficando prósperos. Haviam começado como uma turba equipada com ferramentas.

— A gente podia ter matado eles — disse alguém.

— Idiota! — ralhou o Tenente. — Agora eles não sabem bem quem viram. Se tivéssemos lutado, eles saberiam.

Não queríamos que os rebeldes detectassem nossa presença tão perto de casa. Não teríamos espaço para manobras.

O homem que reclamou era um dos perdidos que tínhamos acumulado na longa retirada.

— Irmão, é melhor você aprender uma coisa se quiser ficar conosco. Nós só lutamos quando não temos escolha. Alguns de nós também teriam se machucado, sabia?

Ele grunhiu.

— Saíram de vista — anunciou o Tenente. — Vamos embora. — Ele assumiu a ponta, seguiu para os morros acidentados além da campina. Eu resmunguei. Mato novamente.

Todos os meus músculos doíam. A exaustão ameaçava me trair. O homem não foi feito para marchas sem fim, da aurora ao crepúsculo, com 30 quilos nas costas.

— Pensou rápido mesmo lá atrás, hein? — comentei com Calado.

Ele aceitou o elogio com um dar de ombros, sem dizer nada. Como sempre.

— Eles estão voltando — gritaram da retaguarda.

Nós estávamos esparramados no flanco de uma colina gramada. A Torre se erguia acima do horizonte ao sul. O cubo de basalto era intimidador, mesmo a 15 quilômetros, cercado por aquele cenário implausível. A emoção evocada pela fortaleza exigia uma terra devastada e flamejante, ou, na melhor das hipóteses, uma região presa em um inverno eterno. No entanto, aquele era um país de vastas pastagens verdes, colinas suaves salpicadas de fazendinhas nas encostas austrais. Árvores bordeavam os riachos fundos e lentos que serpenteavam entre elas.

Mais perto da Torre a paisagem era menos bucólica, mas jamais refletia o panorama tenebroso que os propagandistas rebeldes espalhavam ao redor do bastião da Dama. Nada de enxofre e planícies desertas. Nenhuma criatura bizarra e malévola pisoteando ossos humanos. Nada de nuvens negras em tormento e um estrondo constante no céu.

— Nenhuma patrulha à vista. Chagas, Caolho, façam seu trabalho — disse o Tenente.

Eu encordoei meu arco. Duende trouxe três flechas preparadas. Cada uma tinha uma bola azul maleável na ponta. Caolho salpicou uma com poeira cinzenta e me entregou. Mirei no sol e a deixei voar.

Um fogo azul brilhante demais para se olhar fulgurou e mergulhou no vale abaixo. Então um segundo clarão, e um terceiro. As bolas de fogo desceram numa coluna arrumada, parecendo mais flutuar para baixo do que cair.

— Agora esperamos — guinchou Duende, se atirando na grama alta.

— E torcemos para que os nossos amigos cheguem primeiro.

Quaisquer rebeldes próximos certamente viriam investigar o sinal. Porém, tínhamos que pedir ajuda. Não poderíamos penetrar o cordão rebelde despercebidos.

— Abaixem-se! — exclamou o Tenente. O capim era alto o bastante para ocultar uma pessoa deitada. — Terceiro esquadrão, assuma a vigia.

Homens reclamaram e afirmaram que era a vez de outro esquadrão. Mas eles ocuparam as posições de sentinela só com aquela reclamação mínima e obrigatória. Estavam de bom humor. Não tínhamos despistado os idiotas nas colinas? Quem poderia nos deter agora?

Usei minha mochila como travesseiro e observei as montanhas de nuvens flutuando em imponentes legiões. Era um dia claro, lindo como um de primavera.

Meu olhar baixou à Torre. Meu humor obscureceu. As coisas iriam se acelerar. A captura de Pluma e Jornada faria os rebeldes agirem. Aqueles dois certamente revelariam segredos. Não havia como esconder ou mentir quando a Dama fazia uma pergunta.

Ouvi um ruído no mato, virei a cabeça, dei de cara com uma cobra. Ela tinha cara de gente. Comecei a gritar, então reconheci o sorriso tolo.

Caolho. Sua cara feia em miniatura, mas com ambos os olhos e sem um chapéu molengo em cima. A cobra deu uma risadinha, piscou e deslizou por sobre meu peito.

— Lá vamos nós de novo — murmurei, e me sentei para assistir.

Houve uma luta súbita e violenta no mato. Mais adiante, Duende apareceu com aquele sorriso escroto dele. O mato se remexeu. Animais do tamanho de coelhos perto de mim, carregando pedaços de cobra nos ensanguentados dentes finos como agulhas. Mangustos artesanais, presumi.

Duende tinha antecipado a jogada de Caolho mais uma vez.

Caolho uivou e saltou, praguejando. O chapéu dele girava. Fumaça lhe saía das ventas. Quando gritou, fogo emergia de sua boca.

Duende saltitou como um canibal logo antes de eles servirem a vítima da vez. Fez círculos com os dedos indicadores. Anéis de um laranja pálido cintilaram no ar. O feiticeiro os lançou contra Caolho, e os anéis envolveram o homenzinho negro. Duende emitiu os sons de uma foca. Os círculos se apertaram.

Caolho fez barulhos estranhos e afastou os círculos. Fez gestos de jogar alguma coisa com as duas mãos. Bolas marrons voaram contra Duende. Elas explodiram, liberando nuvens de borboletas que voaram direto contra os olhos do feiticeiro. Este deu um salto mortal para trás, correu pelo mato como um camundongo fugindo de uma coruja e lançou um contrafeitiço.

Do ar brotaram flores. Cada botão tinha uma boca. Cada boca tinha presas de morsa. As flores cravaram os dentes nas borboletas, e mastigaram-lhe os corpos de forma complacente. Duende caiu de tanto rir.

Caolho praguejou uma fita cerúlea que lhe saiu da boca, com letras argênteas que proclamavam a opinião que ele tinha de Duende.

— Já chega! — trovejou o Tenente tardiamente. — Não quero que vocês chamem atenção.

— Tarde demais, Tenente — afirmou alguém. — Olhe lá embaixo.

Soldados vinham em nossa direção. Soldados vestindo vermelho, com a Rosa Branca estampada nos tabardos. Nós nos atiramos no mato como esquilos em seus buracos.

Um burburinho correu pela encosta. A maioria ameaçava Caolho com destinos horrendos. Uma minoria incluía Duende, por ter participado dos traidores fogos de artifício.

Trombetas soaram. Os rebeldes se dispersaram para um ataque contra nossa colina.

O ar gemeu em tormento. Uma sombra zuniu por sobre o alto do morro, ondulando sobre o mato ao vento.

— Um Tomado — murmurei, e me ergui pelo instante necessário para ver um tapete guinando para o vale. — Apanhador de Almas? — Eu não tinha certeza. Àquela distância, poderia ser qualquer um dos Tomados.

O tapete mergulhou numa massa de flechas inimigas. Uma névoa verde-limão o envolvia e deixava um rastro, e por um momento me lembrou o cometa que iluminava o mundo. A névoa verde se desfez em fios. Alguns filamentos foram pegos pela brisa e flutuaram em nossa direção.

Olhei para cima. O cometa se erguia no horizonte como o fantasma da cimitarra de um deus. Ele já estava há tanto tempo no céu que nem o notávamos mais. Eu me perguntei se os rebeldes tinham se tornado igualmente indiferentes. Para eles, aquele era um dos grandes sinais da vitória iminente.

Homens gritaram. O tapete tinha sobrevoado a linha rebelde e agora flutuava como penugem ao vento logo além do alcance dos arcos. Os fios cor de limão estavam tão espalhados que mal eram visíveis. Os gritos vinham dos homens que foram tocados por eles. Horrendos ferimentos verdes se abriam onde quer que eles encostassem.

O Tenente percebeu que alguns dos filamentos seguiam em nossa direção.

— Vamos sair daqui, homens. Só por precaução. — Ele apontou contra o vento. Os fios teriam de flutuar para o lado para nos pegar.

Nós nos esgueiramos talvez uns 300 metros. Retorcidos, os fios se arrastaram pelo ar, vindo no nosso rastro. Eles estavam nos perseguindo. O Tomado observou atento, ignorando os rebeldes.

— O maldito quer nos matar! — explodi.

O terror transformou nossas pernas em gelatina. Por que um dos Tomados iria querer nos transformar em vítimas de um acidente?

Se aquele fosse o Apanhador... Mas o Apanhador era nosso mentor. Nosso chefe. Vestíamos os distintivos dele. Ele não iria...

O tapete começou a se mover tão violentamente que o passageiro quase caiu. Lançou-se contra a floresta mais próxima, sumindo. O fio perdeu a vontade e desceu, desaparecendo no mato.

— Que diabos...?

— Cacete!

Eu girei. Uma vasta sombra veio até nós, crescente, enquanto um tapete gigantesco descia. Rostos espiavam por sobre as bordas. Ficamos paralisados, com armas preparadas.

— O Uivador — disse eu, e meu palpite foi confirmado por um grito como o de um lobo desafiando a lua.

O tapete pousou.

— Embarquem, seus idiotas. Vamos lá, mexam-se.

Eu ri, com a tensão se esvaindo. Era o Capitão. Ele dançava como um urso nervoso na beira do tapete. Outros de nossos irmãos o acompanhavam. Joguei minha mochila a bordo e aceitei a mão que me ofereceram.

— Corvo. Vocês apareceram na hora certa.

— Você vai desejar que tivéssemos deixado vocês aí.

— Hein?

— O Capitão vai explicar.

O último homem subir a bordo. O Capitão olhou feio para Pluma e Jornada, então marchou pelo tapete, distribuindo os homens igualmente. No fundo, imóvel, rejeitado por todos, sentava-se um vulto do tamanho de uma criança, oculto em camadas de gaze índigo. Uivava em intervalos aleatórios. Eu estremeci.

— Do que você está falando?

— O Capitão vai explicar — repetiu ele.

— Certo. Como vai Lindinha?

— Vai bem.

Muito falador, meu amigo Corvo.

O Capitão sentou-se a meu lado.

— Más notícias, Chagas — anunciou.

— É? — Preparei meu bom e velho sarcasmo. — Pode me falar logo. Eu aguento.

— Cara durão — observou Corvo.

— Sou mesmo. Como pregos no café da manhã. Surro tigres apenas com as mãos.

O Capitão balançou a cabeça.

— Mantenha o senso de humor. A Dama quer ver você. Pessoalmente.

Meu estômago despencou várias dezenas de metros.

— Merda — sussurrei. — Ah, diabos.

— É.

— O que eu fiz?

— Você sabe melhor que eu.

Minha mente se lançou numa correria como uma rataria fugindo de um gato. Em segundos eu estava encharcado de suor.

— Não deve ser tão ruim assim — comentou Corvo. — Ela foi quase polida.

— Foi um pedido — concordou o Capitão.

— Claro que foi.

— Se ela tivesse algum problema, você simplesmente desapareceria — afirmou Corvo.

Eu não me senti mais tranquilo.

— Todos aqueles romances que você escreveu — comentou o Capitão. — Agora ela está apaixonada por você também.

Eles nunca esqueciam, nunca me deixavam em paz. Eu não escrevia nenhum daqueles romances há meses.

— E qual é o assunto?

— Ela não disse.

O silêncio reinou o resto da viagem. Eles se sentaram a meu lado e tentaram me confortar com a tradicional solidariedade da Companhia. Assim que chegamos a nosso acampamento o Capitão abordou outro assunto.

— A Dama ordenou que a Companhia se reforçasse, chegando a mil homens novamente. Podemos alistar voluntários do grupo que trouxemos do norte.

— Ótima notícia, ótimas notícias.

Isso era causa real para comemoração. Pela primeira vez em dois séculos nós iríamos crescer. Muitos dos perdidos ficariam felizes em trocar seus votos aos Tomados pelos votos à Companhia. Estávamos em alta junto à Dama. Tínhamos moral. E, sendo mercenários, tínhamos muito mais autonomia que qualquer outra tropa a serviço Dela.

Não consegui me empolgar, porém. Não com a Dama me esperando.

O tapete pousou. Nossos irmãos nos cercaram, ansiosos para saber como tínhamos ido. Mentiras e ameaças falsas foram atiradas dos dois lados.

— Você fica a bordo, Chagas — instruiu o Capitão. — Duende, Caolho, Calado, vocês também. — Ele indicou os prisioneiros. — Entreguem a mercadoria.

Enquanto os outros homens desciam, Lindinha veio saltitando da multidão. Corvo gritou para ela, mas é claro que ela não poderia ouvir. A menina subiu a bordo, trazendo a boneca que Corvo tinha feito. O brinquedo estava vestido com lindas roupas com incríveis detalhes miniaturizados. Ela me entregou a boneca e começou a tagarelar em linguagem de sinais.

Corvo gritou de novo. Tentei interromper Lindinha, mas ela estava determinada a me contar sobre o guarda-roupa da boneca. Algumas pessoas poderiam acreditar que ela era retardada, ficando tão empolgada com tais coisas naquela idade. Lindinha não é retardada. Ela tem uma mente afiadíssima. Sabia muito bem o que fazia ao subir no tapete. Estava aproveitando uma chance de voar.

— Querida — falei, tanto em voz alta quanto com os dedos. — Você precisa saltar. Nós vamos...

Corvo urrou de raiva quando o Uivador decolou. Caolho, Duende e Calado olharam feio para o Tomado. Ele uivou. O tapete continuou subindo.

— Sente-se — disse eu a Lindinha.

Ela o fez, não muito longe de Pluma. Tinha esquecido a boneca, e queria saber de nossa aventura. Eu contei tudo, pois isso me manteve ocupado. A menina passou mais tempo olhando por sobre a beirada do que prestando atenção em mim, porém não perdeu nenhuma parte. Quando terminamos, ela olhou para Pluma e Jornada com o sentimento de pena de um adulto. Não estava preocupada com minha visita à Dama, mas mesmo assim me deu um abraço de despedida reconfortante.

O tapete do Uivador se afastou do topo da Torre. Acenei debilmente. Lindinha me soprou um beijo. Duende deu tapinhas no próprio peito. Toquei o amuleto que ele me dera em Lordes. Era um pequeno conforto.

Guardas imperiais ataram Pluma e Jornada a liteiras.

— E eu? — indaguei, trêmulo.

— Você esperará aqui — respondeu um capitão. Ele ficou parado, enquanto os outros partiram. Tentou bater papo comigo, mas eu não estava no clima.

Fui até a beira da Torre, vislumbrando o vasto projeto de engenharia sendo desenvolvido pelos exércitos da Dama.

Na época da construção da Torre, enormes rochedos de basalto tinham sido importados. Moldados ali mesmo, eles haviam sido empilhados e fundidos no gigantesco bloco de pedra. Os restos, fragmentos, blocos partidos durante a moldagem, rochedos considerados inutilizáveis, tinham sido abandonados, espalhados ao redor da Torre numa vasta confusão, mais eficiente que qualquer fosso. Estendia-se 1 quilômetro e meio por todos os lados da fortaleza.

Ao norte, porém, uma seção triangular côncava permanecia limpa de destroços. Era o único caminho terrestre até a Torre. Naquele arco, as forças da Dama se preparavam para a ofensiva rebelde.

Ninguém lá embaixo acreditava que seu trabalho seria determinante no resultado da batalha. O cometa estava no céu. Mas todos os homens trabalhavam porque a labuta oferecia um alívio ao medo.

Os dois lados internos do triângulo agora se erguiam, encontrando o amontoado de rochas. Uma paliçada de troncos fechava o lado externo. Nossos acampamentos ficavam atrás dela. Mais além dos acampamentos havia uma trincheira com 9 metros de profundidade e 9 metros de largura. Cem metros depois havia outra trincheira, e 100 metros depois desta, uma terceira, ainda sendo escavada.

A terra removida tinha sido levada para perto da Torre e despejada atrás de uma muralha de contenção de 4 metros, feita de troncos, que se estendia por toda a largura do triângulo. Dessa elevação, homens poderiam disparar flechas e outros projéteis nos inimigos que atacassem nossa infantaria no solo.

Cem metros mais atrás ficava outra muralha de contenção, oferecendo outra elevação de 4 metros. A Dama pretendia organizar as forças em três exércitos distintos, um em cada nível, e forçar os rebeldes a lutar três batalhas em sequência.

Uma pirâmide de terra estava sendo montada 60 metros atrás da muralha de contenção final. Já tinha 20 metros de altura, com os lados num declive de uns 35 graus.

Um toque obsessivo de arrumação caracterizava tudo aquilo. A planície, escavada em vários lugares, ficara nivelada como uma mesa. A área toda recebeu grama. Nossos animais mantinham tudo bem-cortado, como um gramado decorativo. Caminhos de pedra corriam por todos os lados, e ai do soldado que saísse deles sem ordens.

Abaixo, no nível do meio, arqueiros atiravam no chão entre as trincheiras mais próximas. Enquanto disparavam, os oficiais ajustavam a posição dos suportes de onde os homens pegavam as flechas.

No terraço superior a Guarda se ocupava das balistas, calculando trajetórias de tiro e chances de sobrevivência, mirando em alvos mais distantes. Carroças lotadas de munição aguardavam ao lado de cada arma.

Como o gramado e os caminhos de pedra, os preparativos indicavam uma obsessão com a ordem.

No nível mais baixo, os trabalhadores começaram a demolir pequenas seções da muralha de contenção. Curioso.

Percebi um tapete se aproximando e me virei para observar. Pousou no telhado. Quatro soldados enrijecidos, trêmulos e queimados pelo vento saltaram. Um cabo os levou a algum lugar.

Os exércitos do leste voltavam à Torre, na esperança de chegar antes do ataque rebelde, mas com parcas possibilidades de sucesso. Os Tomados voavam dia e noite trazendo quantos soldados podiam.

Homens gritaram abaixo. Eu me virei para olhar e... Ergui um braço. Bum! O impacto me atirou 3 metros para trás, girando. Meu guia deu um berro. O telhado da Torre me atingiu. Homens gritaram e correram até mim.

Rolei, tentando me levantar, escorreguei numa poça de sangue. Sangue! Meu sangue! Espirrou do lado interno de meu braço esquerdo. Fitei o ferimento com olhos baços e espantados. Que diabos...?

— Deite-se — ordenou o capitão da Guarda. — Vamos. — Ele me deu um belo tapa. — Rápido, me diga o que fazer.

— Torniquete — grasnei. — Amarre alguma coisa em volta. Pare o sangramento.

O capitão arrancou o cinto. Ótimo, boa ideia. Um dos melhores torniquetes que há. Tentei me sentar, para aconselhá-lo enquanto ele trabalhava.

— Segurem-no deitado — ordenou a vários passantes. — Foster, o que aconteceu?

— Uma das armas caiu do nível superior. Ela disparou quando bateu no chão. Estão correndo como galinhas lá embaixo.

— Não foi acidente — exclamei. — Alguém tentou me matar. — Ficando cada vez mais confuso, eu só conseguia pensar nos fios verdes voando contra o vento. — Por quê?

— Se você me contar, nós dois saberemos, amigo. Vocês aí, tragam uma liteira. — Ele apertou mais o cinto. — Vai ficar tudo bem, amigo. Vamos entregar você a um curandeiro num minuto.

— Artéria perfurada — eu disse. — É complicado.

Meus ouvidos zuniam. O mundo começou a girar lentamente, ficando frio. Choque. Quanto sangue eu perdera? O capitão tinha agido rápido o bastante. Tempo de sobra. Se o curandeiro não fosse um açougueiro...

O capitão pegou um cabo pelo braço.

— Vá descobrir o que aconteceu lá embaixo. Não aceite nenhuma resposta mentirosa.

A liteira chegou. Eles me puseram dentro dela, então a ergueram e eu desmaiei. Acordei numa pequena sala de cirurgia, sendo atendido por um homem que era tanto feiticeiro quanto médico.

— Um trabalho melhor do que eu poderia ter feito — cumprimentei-o, depois que ele terminou.

— Está doendo?

— Não.

— Vai doer como o inferno daqui a pouco.

— Eu sei. — Quantas vezes eu não tinha dito a mesma coisa?

O capitão da Guarda chegou.

— Está tudo bem?

— Acabei — respondeu o cirurgião. Virou-se para mim e acrescentou: — Nada de trabalho. Nada de atividade. Nada de sexo. Você sabe como é.

— Sei. Tipoia?

Ele confirmou com a cabeça.

— Vamos amarrar seu braço ao torso por alguns dias, também.

O capitão estava ansioso.

— Descobriu o que aconteceu? — indaguei.

— Não muito. A equipe da balista não sabia explicar. Ela simplesmente escapou deles. Talvez você tenha tido sorte. — Ele lembrava do que eu disse sobre alguém ter tentado me matar.

Toquei o amuleto que Duende me dera.

— Talvez.

— Odeio fazer isto — disse ele. — Mas tenho de levar você a sua entrevista.

Medo.

— Qual é o assunto?

— Você deve saber melhor que eu.

— Mas eu não sei. — Eu tinha uma suspeita remota, mas a afastei de meus pensamentos.

Parecia haver duas Torres, uma encapsulando a outra. A externa era a sede do Império, ocupada pelos funcionários da Dama. A interna era tão intimidadora a eles quanto a nós de fora, ocupava um terço do volume total, e tinha apenas uma entrada. Poucos a usavam.

A entrada estava aberta quando chegamos. Não havia guardas. Suponho que eram desnecessários. Eu deveria ter estado mais assustado, mas me encontrava tonto demais.

— Eu vou esperar aqui — anunciou o capitão.

Ele tinha me colocado numa cadeira de rodas, que empurrou pela entrada. Lá fui eu, com os olhos cerrados e o coração trovejando.

A porta se fechou. A cadeira seguiu por um longo caminho, fazendo várias curvas. Não sei o que a impelia. Recusei-me a olhar. Então ela parou. Eu esperei. Nada aconteceu. A curiosidade me venceu. Pisquei.

Ela está parada na Torre, olhando para o norte. As mãos delicadas estão unidas diante Dela. Uma brisa suave penetra Sua janela. Toca a seda crepuscular de Seus cabelos. Lágrimas de diamante cintilam na curva gentil de Seu rosto.

Minhas próprias palavras, escritas há mais de um ano, voltaram. Era aquela cena, daquele romance, nos mínimos detalhes. Em detalhes que eu havia imaginado, mas jamais escrevera. Como se a fantasia completa tivesse sido arrancada de minha mente e recebido o sopro da vida.

Não acreditei naquilo por um segundo que fosse, claro. Eu estava nas profundezas da Torre. Não havia janelas naquela construção tenebrosa.

Ela se virou. Então eu vi o que todos os homens veem nos sonhos. Perfeição. Ela não tinha de falar para que eu conhecesse sua voz, o ritmo da fala, a respiração entre as frases. Ela não precisou se mover para que eu soubesse os maneirismos dela, a forma como andava, o jeito curioso como levava a mão esquerda à garganta quando ria. Eu a conhecera desde a adolescência.

Em segundos entendi o que as velhas histórias queriam dizer quando falavam da presença avassaladora da Dama. O próprio Dominador deve ter balançado no vento quente da esposa.

Ela me abalou, mas não me arrebatou. Mesmo que metade de mim desejasse, o resto recordou os anos que eu passara perto de Caolho e Duende. Onde há magia, nada é o que parece. Beleza, sim, mas é só uma camada de açúcar.

Ela me estudou com a mesma intensidade com a qual eu a estudava.

— Então nós nos reencontramos — afirmou, finalmente. A voz era tudo que eu esperava, e mais. Tinha humor, também.

— De fato — respondi roucamente.

— Você está assustado.

— Claro que estou. — Talvez um tolo tivesse negado. Talvez.

— Você foi ferido. — A Dama se aproximou. Eu confirmei, meu coração acelerando. — Eu não submeteria você a isto se não fosse importante.

Concordei, abalado demais para falar, completamente confuso. Esta era a Dama, a vilã das eras, a Sombra viva. Era a viúva-negra no coração da teia de trevas, uma semideusa do mal. O que poderia ser tão importante a ponto de ela notar alguém como eu?

Novamente, tive suspeitas que eu não admitiria a mim mesmo. Meus momentos de reunião decisiva com pessoas importantes não eram numerosos.

— Alguém tentou matar você. Quem?

— Eu não sei. — Tomado ao vento. Filamentos verdes.

— Por quê?

— Eu não sei.

— Você sabe. Ainda que ache que não. — Aquela voz perfeita estava recheada de lâminas afiadas.

Eu tinha ido esperando o pior, mas, enlevado pelo sonho, deixara minhas defesas caírem.

O ar zumbia. Um brilho amarelado se formou acima dela. A Dama se aproximou, ficando enevoada, exceto por aquele rosto, aquele amarelo. O rosto se expandiu, vasto, intenso, chegando mais perto. O amarelo preencheu o universo. Eu não via nada exceto o olho.

O Olho! Lembrei do Olho na Floresta da Nuvem. Tentei cobrir o rosto com o braço. Não conseguia me mover. Acho que gritei. Merda, eu tenho certeza de que gritei.

Houve perguntas que eu não escutei. Respostas passaram como pergaminhos em minha mente, em arco-íris de pensamento, como gotículas de óleo se espalhando em água plácida e cristalina. Eu não tinha mais segredos.

Nenhum segredo. Nenhum pensamento que já tive permaneceu oculto.

O terror se debatia em mim como serpentes assustadas. Eu havia escrito aqueles romances ridículos, verdade, mas também tinha minhas dúvidas e repulsas. Uma vilã tão malévola quanto a Dama iria me destruir por ter pensamentos sediciosos...

Incorreto. Ela estava segura quanto à força da própria maldade. Não precisava esmagar os questionamentos e dúvidas dos lacaios. Era capaz de rir de nossas consciências e moralidades.

Isto não era uma repetição do encontro na floresta. Eu não perdi minhas memórias. Simplesmente não ouvi as perguntas da Dama. Elas poderiam ser deduzidas a partir de minhas respostas sobre meus contatos com os Tomados.

A Dama estava caçando alguma coisa que eu comecei a suspeitar na Escada das Lágrimas. Eu tinha me deparado com a armadilha mais letal que jamais se fechara; os Tomados sendo uma mandíbula, a Dama, a outra.

Trevas. E despertar.

Ela está parada na Torre, olhando para o norte... Lágrimas de diamante cintilam em Seu rosto.

Uma fagulha de Chagas permanecia livre da intimidação.

— Foi aqui que surgi.

A Dama me encarou, sorriu. Deu um passo e me tocou com os dedos mais doces que uma mulher já possuiu.

Todo o medo se esvaiu.

Toda treva se fechou de novo.

Corredores passavam por mim enquanto eu acordava. O capitão da Guarda me empurrava na cadeira.

— Como você está? — perguntou.

Eu me avaliei.

— Bem o bastante. Aonde você está me levando?

— À porta da frente. Ela mandou liberar você.

Fácil assim? Hum. Toquei meu ferimento. Curado. Balancei a cabeça. Coisas assim não aconteciam comigo.

Parei no lugar do acidente com a balista. Não havia nada para se ver e ninguém para interrogar. Desci ao nível intermediário e visitei uma das equipes que escavavam. Tinham ordens de instalar um cubículo com 4 metros de largura e 6 de comprimento. Não faziam ideia do motivo.

Esquadrinhei a muralha de contenção. Doze desses cubículos estavam sendo construídos.

Os homens me fitaram atentos quando entrei mancando no acampamento. Engasgaram-se com perguntas que não poderiam fazer, com a preocupação que não poderiam demonstrar. Apenas Lindinha se negou a participar desse tradicional jogo. Ela apertou minha mão e me deu um enorme sorriso. Os dedinhos dançavam.

Lindinha me perguntou aquilo que o machismo proibia aos homens.

— Mais devagar — pedi a ela.

Eu ainda não era tão habilidoso para acompanhar tudo que ela dizia com sinais. Mesmo assim, a alegria da menina era evidente. Eu tinha um enorme sorriso quando percebi que havia alguém em meu caminho. Ergui o olhar. Corvo.

— Capitão quer te ver — disse ele. Parecia calmo.

— Faz sentido.

Eu me despedi com sinais e fui andando lentamente até o quartel-general. Não sentia urgência. Nenhum mero mortal poderia me intimidar agora.

Olhei para trás. Corvo tinha passado o braço pelos ombros de Lindinha, possessivo, parecendo confuso.

O Capitão ignorou o teatrinho de sempre e não grunhiu. Caolho era a única outra pessoa presente e ele, também, estava interessado apenas em negócios.

— Temos problemas? — perguntou o Capitão.

— Como assim?

— O que aconteceu nas colinas. Não foi acidente, né? A Dama convoca você e meia hora depois um dos Tomados fica doido. E então houve seu acidente na Torre. Você ficou gravemente ferido e ninguém sabe explicar como.

— A lógica insiste numa conexão — observou Caolho.

— Ontem ouvimos que você estava morrendo — acrescentou o Capitão. — Hoje você está bem. Magia?

— Ontem? — O tempo tinha escapado de mim novamente. Empurrei a lona da barraca para o lado e fitei a Torre. — Mais uma noite na colina das fadas.

— Foi um acidente? — inquiriu Caolho.

— Não foi acidental.

A Dama pensava que não.

— Capitão, faz sentido.

— Alguém tentou esfaquear Corvo ontem à noite — contou o Capitão. — Lindinha o botou para correr.

— Corvo? Lindinha?

— Alguma coisa a acordou. Ela bateu na cabeça do sujeito com a boneca. Quem quer que fosse, fugiu.

— Bizarro.

— Certamente — concordou Caolho. — Por que Corvo continuaria dormindo e uma garota surda acordaria? Corvo consegue ouvir o movimento de um mosquito. Cheira a feitiçaria. Feitiçaria da tosca. A criança não deveria ter acordado.

— Corvo. Você. Tomados — interveio o Capitão. — A Dama. Tentativas de assassinato. Uma entrevista na Torre. Você tem a resposta. Desembuche.

Minha relutância era evidente.

— Você disse a Elmo que nós deveríamos nos dissociar do Apanhador. Como assim? O Apanhador nos trata bem. O que aconteceu quando vocês mataram Calejado? Espalhe as notícias, então não adiantará nada matar você.

Bom argumento. Só que eu gosto de ter certeza antes de sair falando.

— Acho que há uma trama contra a Dama. O Apanhador de Almas e a Arauto da Tormenta podem estar envolvidos. — Relatei os detalhes da queda de Calejado e de quando Sussurro foi Tomada. — Metamorfo ficou muito chateado porque eles deixaram o Enforcado morrer, e não acho que o Manco fizesse parte de coisa alguma. Ele foi vítima de uma armação, e foi manipulado habilidosamente. A Dama também. Talvez o Manco e o Enforcado estivessem do lado dela.

Caolho parecia pensativo.

— Você tem certeza de que o Apanhador está metido nisso?

— Não tenho certeza de nada. Não ficaria surpreso com coisa alguma, também. Desde Berílio eu acho que ele estava nos usando.

O Capitão concordou com a cabeça.

— Definitivamente. Eu mandei Caolho preparar um amuleto que vai avisar você se algum dos Tomados chegar muito perto. Não que isso vá ajudar muito. Não acho que você será incomodado de novo, contudo. Os rebeldes estão se mexendo. Isso será a primeira preocupação de todos.

Uma cadeia lógica relampejou em uma conclusão. Os dados estiveram ali o tempo todo. Precisavam apenas de um empurrãozinho para se encaixarem.

— Acho que eu sei o motivo disso tudo. É porque a Dama é uma usurpadora.

— Um dos rapazes mascarados quer ferrar com ela como ela ferrou com o velho? — indagou Caolho.

— Não. Eles querem trazer o Dominador de volta.

— Hein?

— Ele ainda está lá no norte, debaixo da terra. A Dama simplesmente o impediu de voltar quando o mago Bomanz lhe abriu o caminho. Ele poderia estar em contato com os Tomados que lhe são fiéis. Bomanz provou que é possível se comunicar com aqueles que estão enterrados lá. O Dominador poderia até estar orientando alguns dos membros do Círculo. Calejado era um vilão tão horrendo quanto qualquer um dos Tomados.

Caolho ponderou, e então profetizou:

— A batalha será perdida. A Dama será derrubada. Os Tomados leais a ela serão derrotados e as tropas leais, exterminadas. Mas eles levarão os rebeldes mais idealistas consigo, o que significará, essencialmente, uma derrota para a Rosa Branca.

Concordei.

— O cometa está no céu, mas os rebeldes ainda não encontraram sua criança mística.

— É. Você provavelmente acertou na mosca quando disse que o Dominador pode estar influenciando o Círculo. É.

— E no caos que se seguirá, enquanto eles estiverem brigando pelos despojos, lá vem o demônio — concluí.

— Então, onde nos encaixamos? — indagou o Capitão.

— A pergunta — respondi — é como vamos sair desta.

Tapetes voadores enxameavam a Torre como moscas num cadáver. Os exércitos de Sussurro, do Uivador, do Sem-Nome, do Roedor de Ossos e do Devora-Lua estavam de oito a 12 dias de distância, convergindo. As tropas orientais chegavam pelo ar.

O portão na paliçada estava sempre movimentado com as idas e vindas dos grupos que assediavam os rebeldes. Nossos inimigos tinham levado os acampamentos a 8 quilômetros da Torre. Alguns soldados da Companhia realizavam esporadicamente um raide noturno, auxiliados por Duende, Caolho e Calado, mas o esforço parecia inútil. A diferença numérica era brutal demais para que táticas de guerrilha tivessem efeitos substanciais. Eu me perguntava por que a Dama queria manter os rebeldes alvoroçados.

As obras estavam completas. Os obstáculos, preparados. Armadilhas, posicionadas. Restava pouco a fazer além de esperar.

Seis dias tinham se passado desde nosso retorno com Pluma e Jornada. Eu imaginara que a captura deles provocaria o ataque dos rebeldes, mas eles ainda enrolavam. Caolho pensava que eles ainda tinham esperanças de encontrar a Rosa Branca no último minuto.

Restava apenas o sorteio. Três dos Tomados, com seus respectivos exércitos, defenderiam cada nível. Rumores indicavam que a própria Dama comandaria as forças posicionadas na pirâmide.

Ninguém queria ficar na linha de frente. Independentemente dos rumos que a batalha tomasse, essas tropas sofreriam muito. Por isso a questão seria decidida na loteria.

Não houve mais atentados contra Corvo e eu. Nosso antagonista estava cobrindo os rastros de algum outro jeito. Tarde demais para nos apagar, eu já vira a Dama.

O clima geral mudou. Os escaramuçadores que retornavam começaram a parecer mais abatidos, mais desesperados. Os inimigos estavam mudando os acampamentos novamente.

Um mensageiro veio ver o Capitão, que, por sua vez, reuniu os oficiais.

— Começou. A Dama convocou os Tomados para o sorteio. — A expressão dele era estranha, e o ingrediente principal era o espanto. — Temos ordens especiais. Vindas da própria Dama.

Murmúrio-sussurro-fofoca-resmungo, todos estávamos abalados. Ela andava nos passando todos os serviços difíceis. Imaginei que teríamos de ancorar a primeira linha de defesa contra as tropas de elite dos rebeldes.

— Temos de levantar acampamento e nos reunir na pirâmide. — Centenas de perguntas zumbiam como vespas. O Capitão continuou: — Ela nos quer como guarda-costas.

— A Guarda não vai gostar disso — comentei.

Eles não gostavam da gente de qualquer forma, pois tiveram de se submeter às ordens do Capitão na Escada das Lágrimas.

— Acha que eles vão criar problemas para ela, Chagas? Senhores, a patroa mandou a gente ir. Então nós vamos. Quem quiser conversar sobre o assunto, que o faça enquanto ajuda a desmontar o acampamento. Sem que os homens escutem.

Para as tropas essas eram ótimas notícias. Não só estaríamos atrás da pior parte do combate, como teríamos a chance de recuar para a Torre.

Eu tinha assim tanta certeza de nossa ruína? Meu negativismo espelhava uma atitude geral? Seria este um exército derrotado antes do primeiro golpe?

O cometa estava no céu.

Considerando o fenômeno enquanto nos mudávamos, ao mesmo tempo que os animais eram levados para dentro da Torre, eu entendi por que os rebeldes tinham parado. Eles tinham esperanças de encontrar a Rosa Branca no último minuto, é claro. E também esperavam pelo momento em que o cometa alcançaria um aspecto mais auspicioso, quando estivesse no ponto mais próximo de sua trajetória.

Grunhi para mim mesmo.

Corvo, andando a meu lado, carregando o fardo do próprio equipamento e uma mala pertencente a Lindinha, grunhiu de volta:

— Hum?

— Eles não encontraram a criança mágica. As coisas não vão todas acontecer do jeito que eles querem.

Corvo me encarou de forma estranha, quase desconfiada.

— Ainda — disse ele enfim. — Ainda.

Houve um grande clamor quando a cavalaria rebelde atirou lanças contra as sentinelas nas paliçadas. Corvo nem olhou para trás. Era só uma sondagem das defesas.

Tínhamos uma vista incrível da pirâmide, mesmo que estivesse um pouco lotado lá em cima.

— Espero que a gente não fique preso aqui muito tempo — declarei. E então: — Vai ser um inferno tratar das baixas.

Os rebeldes tinham avançado os acampamentos para um raio de 800 metros da primeira barreira. Os campos todos se misturavam num só. Havia escaramuças constantes na paliçada. A maior parte de nossas tropas havia assumido posições nos terraços.

As forças do primeiro nível consistiam daqueles que serviram no norte, encorpadas com tropas de guarnições de cidades abandonadas aos rebeldes. Havia 9 mil deles, alocados em três divisões. O centro fora designado à Arauto da Tormenta. Se eu estivesse no comando, eu a teria posto na pirâmide, disparando ciclones.

As alas eram comandadas por Devora-Lua e Roedor de Ossos, dois Tomados que eu jamais encontrara.

Seis mil homens ocupavam o segundo nível, também organizado em três divisões. A maioria era de arqueiros dos exércitos orientais. Eram durões, e muito menos inseguros que os homens abaixo. Os comandantes, da esquerda para a direita, eram: o Sem-Rosto, ou Sem-Nome; o Uivador e o Rastejante. Incontáveis cavaletes de flechas tinham sido fornecidos a eles. Eu me perguntei o que seria deles se o inimigo rompesse a primeira linha.

O terceiro nível era protegido pela Guarda com as balistas, Sussurro à esquerda, com 1.500 veteranos do próprio exército oriental, e Metamorfo à direita, com mil soldados do sul e norte. No meio, abaixo da pirâmide, o Apanhador de Almas comandava a Guarda e os aliados das Cidades Preciosas. Tinha 2.500 homens.

Por fim, na pirâmide, estava a Companhia Negra, com mil homens, bandeiras brilhantes, estandartes bravos e armas à mão.

Continuar: parte 2 de 3