A Companhia Negra

Glen Cook · Capítulo 5 de 7

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A Companhia Negra

Capítulo Cinco | Calejado

Capítulo Cinco

 

CALEJADO

 

O vento uivava e lançava rajadas de poeira e areia contras nossas costas. Nós batíamos em retirada em direção a ele, andando de ré, com a tempestade poeirenta entrando em cada fenda na armadura e nas roupas, combinando-se com o suor para criar uma lama fétida e salgada. O ar era quente e seco, sugando a umidade rapidamente, deixando a lama seca em torrões. Todos tinham lábios rachados e inchados e línguas que pareciam almofadas mofadas, se engasgavam com a areia que se acumulava nas bocas.

A Arauto da Tormenta havia se empolgado. Nós sofríamos quase tanto quanto os rebeldes. A visibilidade mal chegava a 12 metros. Eu praticamente não via os homens à minha direita e esquerda, e só dois sujeitos na linha da retaguarda, andando de costas diante de mim. Saber que nossos inimigos teriam de vir atrás de nós encarando o vento não me animou muito.

Os homens na outra linha subitamente se espalharam, usando os arcos. Coisas altas surgiram em meio à poeira rodopiante, mantos de sombras girando em volta delas, batendo como amplas asas. Puxei a corda e disparei uma flecha, certo de que erraria o alvo.

Não errei. Um cavaleiro jogou as mãos para o ar. O animal girou e correu a favor do vento, perseguindo companheiros sem cavalos.

Eles nos pressionavam sem trégua, mantendo proximidade, tentando nos pegar antes que escapássemos da Planície dos Ventos e alcançássemos a Escada das Lágrimas, um lugar mais fácil de defender. Queriam ver cada um de nós estirado sob o sol inclemente do deserto, morto e saqueado.

Passo atrás. Passo atrás. Lento demais. Mas não havia escolha. Se lhes déssemos as costas, eles nos enxameariam. Temos que fazê-los pagar por cada aproximação, intimidar completamente a exuberância deles.

O presente da Arauto da Tormenta era nossa melhor armadura. A Planície dos Ventos é selvagem e áspera nas melhores ocasiões; plana, deserta, seca, desabitada, um lugar onde tempestades de areia são comuns. Mas o lugar nunca vira uma como esta, que continuava hora após hora, dia após dia, se reduzindo apenas nas horas de escuridão. Tornava a Planície dos Ventos um lugar impossível para qualquer ser vivo. E era a única coisa que mantinha a Companhia viva.

Havia 3 mil homens na Companhia agora, recuando diante da maré inexorável que inundara Lordes. Nossa pequena irmandade, ao se recusar a ceder, se tornara o núcleo ao qual os fugitivos do desastre se anexaram, depois que o Capitão conseguiu romper as linhas de cerco. Tínhamos nos tornado o cérebro e os nervos desta sombra fugitiva de um exército. A Dama mandou pessoalmente ordens a todos os oficiais imperiais que deferissem ao Capitão. Somente a Companhia produzira qualquer sinal de sucesso durante a campanha setentrional.

Alguém saiu da poeira, gemeu atrás de mim e cutucou meu ombro. Girei. Não era hora ainda de sair da linha.

Corvo me encarou. O Capitão descobrira onde eu estava.

A cabeça de Corvo inteira estava embrulhada em trapos. Fechei os olhos, erguendo uma das mãos para bloquear a areia. Ele gritou algo como “Ocapaquecê”. Balancei a cabeça. Ele apontou para trás, me agarrou e gritou na minha orelha.

— O Capitão quer você.

Claro que queria. Acenei em concordância, entreguei arco e flechas, me inclinei contra o vento e a poeira. Armas eram raras. As flechas que eu dera a Corvo eram setas disparadas pelos rebeldes e catadas após caírem erráticas dentro do vendaval marrom.

Andar andar andar. Areia batendo no alto da minha cabeça enquanto eu avançava com o queixo no peito, encolhido, com olhos semicerrados. Não queria voltar. O Capitão não ia me dizer nada que eu quisesse ouvir.

Um arbusto enorme veio girando e pulando em minha direção. Quase me derrubou. Eu ri. Tínhamos Metamorfo conosco. Os rebeldes gastariam muitas flechas quando aquele arbusto alcançasse as linhas deles. A vantagem numérica deles era de dez a 15 para cada um de nós, mas os números não reduziam o medo que sentiam dos Tomados.

Pisei forte, avançando contra as presas do vento até que tive certeza de ter ido longe demais ou me perdido. Era sempre assim. Assim que eu decidi desistir, lá estava ela, a milagrosa ilha de paz. Eu entrei nela, cambaleando com a súbita falta de vento. Meus ouvidos rugiram, se recusando a acreditar na quietude.

Trinta carroções seguiam numa formação apertada dentro da calmaria, roda com roda. A maioria estava lotada com baixas. Mil homens cercavam os carroções, avançando teimosamente para o sul. Eles olhavam para o chão e temiam a vez deles de assumir a linha. Não havia conversas, nem troca de gracejos. Tinham visto retiradas demais. Seguiam o Capitão apenas porque ele prometia uma chance de sobrevivência.

— Chagas! Aqui! — O Tenente me chamou do flanco extremo direito da formação.

O Capitão parecia um urso naturalmente ranzinza que tinha sido acordado prematuramente de sua hibernação. O grisalho em suas têmporas se movia enquanto ele mastigava as palavras antes de cuspi-las. O rosto dele pendia, os olhos eram poços escuros. A voz soava infinitamente cansada.

— Pensei que tinha mandado você ficar por aqui.

— Era meu turno...

— Você não tem um turno, Chagas. Deixe-me ver se consigo colocar em palavras simples o bastante para você. Temos 3 mil homens. Estamos em contato contínuo com os Rebeldes. Temos um curandeiro de meia-tigela e um único médico de verdade para cuidar desses rapazes. Caolho precisa gastar metade da energia dele para ajudar a manter este domo de tranquilidade. O que nos deixa apenas você para carregar o fardo médico. O que significa que você não se arrisca lá fora na linha. Por qualquer razão que seja.

Fitei o espaço vazio acima do ombro esquerdo dele, fazendo uma cara feia para a areia que girava ao redor da área protegida.

— Você está me entendendo, Chagas? Estou sendo claro? Aprecio sua devoção aos Anais, sua determinação de conhecer a ação de perto, mas...

Confirmei com a cabeça, olhei os carroções e seus tristes fardos. Tantos feridos e tão pouco que eu poderia fazer por eles. O Capitão não via o sentimento de inutilidade que isso causava. Eu só podia costurá-los, rezar e deixar os moribundos confortáveis até que eles se fossem, e aí nós nos livrávamos deles e abríamos espaço para os recém-chegados.

Muitos dos que perdemos poderiam ter sido salvos se eu tivesse tido tempo, ajuda qualificada e um lugar decente para realizar cirurgias. Por que eu ia até a frente de batalha? Porque lá eu poderia fazer alguma coisa. Eu podia ferir nossos algozes.

— Chagas — rosnou o Capitão. — Tenho a impressão de que você não está ouvindo.

— Sim, senhor. Entendido, senhor. Vou ficar aqui e cuidar de minha costura.

— Não fique tão deprimido. — Ele tocou em meu ombro. — O Apanhador falou que vamos alcançar a Escada das Lágrimas amanhã. Então poderemos fazer o que quisermos. Dar uma lição em Calejado.

Calejado tinha se tornado o general sênior dos rebeldes.

— Ele disse também como vamos conseguir isso, quando eles têm um zilhão de homens para cada um dos nossos?

O Capitão amarrou a cara. Fez sua dancinha de urso enquanto pensava em uma resposta reconfortante.

Três mil homens exaustos e derrotados rechaçando a horda do Calejado, eufórica por vitória? Altamente improvável. Nem mesmo com três dos Dez que Foram Tomados ajudando.

— É, achei que não — zombei.

— Esse não é seu departamento, é? O Apanhador não fica duvidando de seus procedimentos cirúrgicos, fica? Então, por que questionar a estratégia geral?

Sorri.

— A lei oral de todos os exércitos, Capitão. Os escalões mais baixos têm o privilégio de questionar a sanidade e a competência dos comandantes. É a argamassa que mantém um exército unido.

O Capitão me olhou do alto de sua baixa estatura, larga circunferência e debaixo das sobrancelhas farfalhudas.

— Que mantém um exército unido, é? E você sabe o que mantém um exército em movimento?

— O quê?

— Caras como eu chutando os traseiros de caras como você quando começam a filosofar. Se é que você me entende.

— Creio que sim, senhor. — Saí dali, peguei meu kit no carroção onde o tinha guardado e fui trabalhar. Havia poucas baixas novas.

A ambição rebelde estava se corroendo perante o assalto sem fim da Arauto da Tormenta.

Eu estava de bobeira, esperando por um chamado, quando vi Elmo saindo da tempestade. Fazia dias que não o via. Ele foi até o Capitão. Eu me juntei a eles.

— ... contornou nossa direita — dizia ele. — Talvez tentando alcançar a Escada primeiro.

Elmo me deu uma olhada, ergueu uma das mãos em saudação. Ela tremia. O sargento estava pálido de cansaço. Como o Capitão, ele descansou muito pouco desde que entramos na Planície dos Ventos.

— Tire uma companhia da reserva. Ataque-os no flanco — respondeu o Capitão. — Acerte-os com força e velocidade. Não estarão esperando por isso. Vai abalá-los. Obrigá-los a imaginar o que estamos aprontando.

— Sim, senhor. — Elmo se virou e partiu.

— Elmo?

— Senhor?

— Tome cuidado. Poupe sua energia. Vamos seguir em frente esta noite.

Os olhos torturados de Elmo falaram tudo. Mas ele não questionou as ordens. Ele é um bom soldado. E, como eu, ele sabia que as ordens tinham vindo de acima do Capitão. Talvez da própria Torre.

Até então, a noite trouxera uma trégua tácita. Os rigores dos dias deixaram ambos os exércitos indispostos a dar um passo desnecessário à noite. Não houve nenhum contato noturno.

Mesmo aquelas horas de refresco, quando a tempestade dormia, não eram suficientes para impedir os exércitos de marchar, com as bundas caindo nos calcanhares. Agora nossos grão-lordes queriam um esforço adicional, na esperança de ganhar alguma vantagem tática. Alcançar a Escada à noite, se entrincheirar, levar os rebeldes nos atacarem em meio à tempestade perpétua. Fazia sentido. Mas era o tipo de manobra ordenada por um general de sua poltrona a 5 mil quilômetros do front.

— Ouviu isso? — indagou o Capitão.

— Sim. Parece idiota.

— Eu concordo com os Tomados, Chagas. A jornada vai ser mais fácil para nós e mais difícil para os Rebeldes. Você já tratou todos os feridos?

— Sim.

— Então fique fora do caminho. Vá pegar uma carona, cochilar um pouco.

Eu me afastei, amaldiçoando a má sorte que nos tomara a maioria dos cavalos. Deuses, andar estava ficando chato.

Não aceitei o conselho do Capitão, porém, embora fosse bom. Eu estava agitado demais para descansar. A perspectiva de uma noite de marcha tinha me abalado.

Vagueei, procurando velhos amigos. A Companhia tinha se espalhado pelo grupo, como representantes da vontade do Capitão. Havia alguns homens que eu não via desde Lordes. Não sabia se ainda estavam vivos.

Só consegui encontrar Duende, Caolho e Calado. E, naquele dia, Duende e Caolho estavam tão comunicativos quanto Calado. O que dizia muito sobre nosso moral.

Eles avançavam teimosamente, com olhos na terra seca, raramente fazendo algum gesto ou murmurando alguma coisa, com a intenção de preservar a integridade de nossa bolha de tranquilidade. Eu emparelhei com eles. Finalmente, tentei quebrar o gelo com um “Oi”.

Duende grunhiu. Caolho me lançou um olhar malvado por alguns segundos. Calado não reconheceu minha existência.

— O Capitão falou que vamos marchar a noite toda — contei. Eu tinha que deixar alguém tão infeliz quanto eu.

O olhar de Duende me perguntava por que eu contaria tal mentira. Caolho murmurou alguma coisa sobre transformar o desgraçado num sapo.

— O desgraçado que você terá de transformar é o Apanhador de Almas — afirmei, arrogante. Ele me lançou outro olhar cruel.

— Talvez eu treine em você, Chagas.

Caolho não gostou da marcha noturna, então Duende imediatamente aprovou o gênio do autor da ideia. Mas o entusiasmo dele foi tão ralo que Caolho nem se deu ao trabalho de morder a isca.

Resolvi tentar de novo.

— Vocês estão com uma cara tão ruim quanto meu humor.

Nenhuma reação. Nem mesmo uma olhada.

— Então tá. — Baixei a cabeça, continuei andando, tentei me livrar das preocupações.

Vieram me buscar para cuidar dos feridos de Elmo. Havia uma dúzia, e foi só isso. Os rebeldes não tinham mais aquela energia de “fazer ou morrer”.

As trevas chegaram mais cedo sob a tempestade. Continuamos cuidando de nossas vidas. Nos afastamos um pouco dos rebeldes, montamos um acampamento com fogueiras feitas com qualquer arbusto seco que pudéssemos encontrar. Só que, desta vez, foi apenas um descanso rápido, até as estrelas surgirem. Elas nos fitaram com zombaria ao cintilar, dizendo que nosso suor e sangue significavam nada diante dos olhos do tempo. Nada do que fazíamos seria lembrado em mil anos.

Tais pensamentos infectavam a todos. Nenhum de nós ainda tinha qualquer ideal ou sede de glória sobrando. Queríamos apenas chegar a algum lugar, deitar e esquecer a guerra.

Mas a guerra não nos esquecia. O Capitão esperou até achar que os rebeldes estariam convencidos de que iríamos permanecer acampados pelo resto da noite, e então reiniciou a marcha, agora numa coluna esfarrapada que serpenteava lentamente pela vastidão iluminada pelo luar.

Horas se passaram e parecia que não chegávamos a lugar algum. A paisagem nunca mudava. Eu olhava para trás ocasionalmente, conferindo a tempestade renovada que a Arauto lançava sobre o acampamento rebelde. Relâmpagos riscavam e tremeluziam dessa vez. Era mais furiosa que qualquer coisa que eles já tivessem enfrentado até então.

A sombria Escada das Lágrimas se materializou tão lentamente que eu levei uma hora para perceber que não era um bando de nuvens baixas no horizonte. As estrelas começaram a sumir e o leste a se iluminar antes que a terra começasse a subir.

A Escada das Lágrimas é uma cordilheira selvagem, acidentada, praticamente intransitável, a não ser pela única passagem íngreme que inspirou o nome da serra. O terreno se ergue gradualmente até alcançar platôs e penhascos súbitos e altíssimos de arenito vermelho que se estendem nas duas direções por centenas de quilômetros. Ao sol da manhã, pareciam as muralhas desgastadas da fortaleza de um gigante.

A coluna entrou num cânion abarrotado de rochas e parou enquanto se abria um caminho para os carroções. Eu me arrastei até o alto de um penhasco e observei a tempestade. Ela vinha em nossa direção.

Será que passaríamos antes que Calejado nos alcançasse?

O bloqueio era um desabamento recente que cobria apenas 400 metros de estrada. Do outro lado ficava a rota usada pelas caravanas antes que a guerra interrompesse o comércio.

Encarei a tempestade outra vez. Calejado avançava velozmente. Acho que a raiva o impelia. Não estava disposto a desistir. Nós matáramos o cunhado dele, e tínhamos possibilitado que a prima dele fosse Tomada...

Um movimento a oeste chamou minha atenção. Um grupo furioso de tempestades trovejantes ia em direção a Calejado, estrondando e brigando entre si. Uma nuvem-tornado ganhou vida e se lançou contra a tempestade de areia. Os Tomados jogam pesado.

Calejado era teimoso. Ele continuava avançando contra tudo.

— Ei, Chagas! — gritou alguém. — Vamos.

Olhei para baixo. Os carroções tinham passado pelo pior. Hora de continuar.

Lá na planície as tempestades trovejantes lançaram outro tornado. Quase senti pena dos homens de Calejado.

Logo após eu me reunir à coluna o chão tremeu. O penhasco onde eu subira estremeceu, grunhiu, desabou e se esparramou na estrada. Mais um presentinho para Calejado.

Chegamos a nosso ponto de parada logo antes do anoitecer. Uma região decente, afinal! Árvores de verdade. Um riacho gorgolejante. Aqueles que ainda tinham alguma força começaram a cavar trincheiras ou a cozinhar. O resto caiu onde parou. O Capitão não pressionou. O melhor remédio naquele momento era simplesmente a liberdade para descansar.

Eu dormi como uma pedra.

Caolho me acordou na hora do galo.

— Vamos trabalhar — disse ele. — O Capitão quer um hospital montado. — Ele fez uma careta. Parece uma ameixa seca nos melhores momentos. — Supostamente, vamos receber ajuda de Talismã.

Grunhi, gemi, praguejei e me levantei. Todos os meus músculos estavam duros. Todos os ossos doíam.

— Na próxima vez que estivermos num lugar suficientemente civilizado para ter uma taverna, me lembre de oferecer um brinde à paz eterna — resmunguei. — Caolho, estou pronto para me aposentar.

— E quem não está? Mas você é o Analista, Chagas. Está sempre esfregando as tradições em nossa cara. Você sabe que só tem dois jeitos de sair enquanto estivermos sob este contrato. Morto ou enterrado. Meta uma gororoba por essa goela chorosa e, então, mãos à obra. Tenho coisas mais importantes a fazer do que brincar de enfermeira.

— Nossa, quanta alegria esta manhã, hein?

— Estou feliz como uma garotinha.

Caolho continuou resmungando enquanto eu tentava me arrumar o suficiente para parecer um soldado e um médico.

O acampamento estava ganhando vida. Homens comiam e se lavavam, tirando o deserto acumulado nos próprios corpos. Eles praguejavam, resmungavam e reclamavam. Alguns até falavam com outros. A recuperação tinha começado.

Sargentos e oficiais estavam conferindo o terreno do declive, buscando as posições fortes mais fáceis de defender. Aqui, então, era o ponto onde os Tomados queriam estabelecer a defesa.

Era um bom lugar. Fazia parte da passagem que dava o nome à Escada, uma subida de 360 metros com vista para um labirinto de cânions. A velha estrada serpenteava de um lado para o outro na encosta em curvas incontáveis, de modo que ao longe ela parecia uma escada completamente torta.

Caolho e eu recrutamos 12 homens e começamos a mover os feridos até um bosque calmo consideravelmente acima do futuro campo de batalha. Passamos uma hora deixando-os confortáveis e nos preparando para o que viria.

— O que é isso? — inquiriu Caolho subitamente.

Eu prestei atenção. O barulho dos preparativos tinha cessado.

— Tem alguma coisa acontecendo — comentei.

— Que gênio — retrucou o feiticeiro. — Deve ser o pessoal de Talismã.

— Vamos dar uma olhada.

Saí do bosque e desci até o posto de comando do Capitão. Os recém-chegados se tornaram uma presença óbvia assim que deixei as árvores.

Eu diria que havia mil deles, metade soldados da guarda pessoal da Dama em uniformes brilhantes, o resto aparentemente estivadores. A fila de carroções era mais empolgante que os reforços.

— Vai ter festa esta noite — gritei para Caolho, que me seguia. Ele deu uma olhada nos carroções e sorriu. Sorrisos de puro prazer, vindos dele, eram mais comuns apenas que chifres em cavalos. Certamente merecem ser registrados nestes Anais.

Com o batalhão da guarda viera o Tomado conhecido como Enforcado. Era absurdamente alto e magro. A cabeça era torcida para um dos lados. O pescoço estava inchado e roxo da pressão de um laço de forca. O rosto se mantinha paralisado na expressão inchada de alguém estrangulado. Imagino que ele tenha grandes dificuldades para falar.

Era o quinto dos Tomados que eu via, depois do Apanhador de Almas, o Manco, Metamorfo e Sussurro. Não cheguei a encontrar o Rastejante em Lordes, e ainda não tinha visto a Arauto da Tormenta, apesar da proximidade. O Enforcado era diferente. Os outros geralmente usavam alguma coisa para esconder a cabeça e o rosto. Exceto Sussurro, tinham passado eras enterrados. O túmulo não foi generoso com eles.

O Apanhador de Almas e Metamorfo estavam lá para receber o Enforcado. O Capitão estava por perto, de costas para eles, ouvindo o comandante da guarda da Dama. Eu me aproximei, na esperança de conseguir bisbilhotar.

O comandante estava mal-humorado porque teria de se colocar à disposição do Capitão. Nenhum dos oficiais do exército regular gostava de receber ordens de um mercenário recém-chegado d’além-mar.

Cheguei mais perto dos Tomados e descobri que não entendia uma palavra da conversa deles, pois estavam falando TelleKurre, uma língua que tinha morrido com a queda da Dominação.

Uma mão tocou a minha, de leve. Assustado, olhei para baixo e me deparei com os olhos castanhos de Lindinha, que eu não via há dias. Ela fez gestos rápidos com os dedos. Eu tinha começado a aprender os sinais. Ela queria me mostrar alguma coisa.

A menina me levou até a barraca de Corvo, que não ficava longe da do Capitão. Ela entrou e voltou com uma boneca de madeira. Um trabalho carinhoso tinha sido investido em sua criação. Não conseguia imaginar quantas horas Corvo tinha gasto no brinquedo. Não conseguia imaginar como ele havia conseguido esse tempo.

Lindinha passou a fazer sinais mais lentamente para que eu tivesse mais facilidade em acompanhar. Eu ainda não era muito habilidoso. Ela me contou que Corvo fizera a boneca, como eu adivinhara, e que agora estava costurando um guarda-roupa. Lindinha achava que possuía um grande tesouro. Ao lembrar da vila onde nós a encontramos, eu tinha certeza de que aquele era o melhor brinquedo que ela já possuíra.

Era também um objeto revelador, quando se pensa em Corvo, que passa uma imagem tão amargurada, fria e silenciosa, e que parece ser capaz de usar uma faca apenas para fins sinistros.

Lindinha e eu conversamos por vários minutos. Os pensamentos dela são maravilhosamente diretos, um contraste refrescante num mundo tão cheio de gente maliciosa, prevaricadora, imprevisível e manipuladora.

Outra mão apertou meu ombro, transmitindo algo entre raiva e companheirismo.

— O Capitão está procurando você, Chagas.

Os olhos escuros de Corvo cintilaram como obsidianas sob uma lua crescente. Ele fingiu que a boneca era invisível. Corvo gosta de passar uma imagem de durão, percebi.

— Certo — respondi, me despedindo com as mãos.

Gostava de aprender com Lindinha. Ela gostava de me ensinar. Acho que assim ela se sentia útil, importante. O Capitão considerava mandar todos aprenderem a linguagem de sinais dela. Seria um suplemento valioso a nossos sinais de batalha tradicionais, porém inadequados.

O Capitão me olhou muito feio quando cheguei, mas me poupou de um sermão.

— Seus novos ajudantes e suprimentos estão ali adiante. Mostre a eles aonde ir.

— Sim, senhor.

A responsabilidade o estava afetando. O Capitão nunca tinha comandado tantos homens, nem enfrentado condições tão adversas, com ordens tão absurdas diante de um futuro tão incerto. Do ponto de vista dele, parecia que seríamos sacrificados para ganhar tempo.

Nós da Companhia não somos lutadores entusiasmados. Mas a Escada das Lágrimas não poderia ser defendida com truques.

Parecia que o fim tinha chegado.

Ninguém iria cantar canções em nossa memória. Somos a última das Companhias Livres de Khatovar. Nossas tradições e memórias vivem apenas nestes Anais. Somos nossos próprios pranteadores.

É a Companhia contra o mundo. Sempre foi assim, sempre será assim.

O socorro que me foi enviado pela Dama consistia em dois cirurgiões de campo de batalha qualificados e uma dúzia de alunos com variados graus de habilidade, além de vários carroções carregados de suprimentos médicos. Eu estava grato. Agora tinha uma chance de salvar alguns homens.

Levei os recém-chegados até meu bosque, expliquei como trabalhava e os deixei cuidar dos pacientes, saindo dali.

Eu estava inquieto. Não gostava do que estava acontecendo com a Companhia. Tinha adquirido muitos novos seguidores e novas responsabilidades. A velha intimidade já era. Antigamente, eu via todos os homens, todos os dias. Agora tinha alguns que eu não via desde o fracasso em Lordes. Não sabia se estavam mortos, vivos ou cativos. Eu estava quase neuroticamente preocupado com a possibilidade de alguns irmãos terem sido perdidos e que eles seriam esquecidos.

A Companhia é nossa família. A irmandade é o que a mantém viva. Hoje, com todos esses novos rostos nortistas, a principal força mantendo a Companhia unida é um esforço desesperado dos irmãos em recuperar a velha intimidade. O esforço desprendido nessa tentativa marca todos os rostos.

Fui até um dos postos avançados de vigilância, com vista para a queda do riacho aos cânions. Lá, bem lá embaixo, jazia um pequeno poço reluzente. Um fio de água saía dele, correndo para a Planície dos Ventos. Ele não completaria sua jornada. Esquadrinhei as fileiras caóticas de torres e penhascos de arenito. Nuvens tempestuosas com espadas relampejantes estrondavam e massacravam as terras ermas, me lembrando de que os problemas não estavam distantes.

Calejado estava chegando, apesar da fúria da Arauto da Tormenta. Ele faria contato no dia seguinte, calculei. Eu me perguntei o quanto os temporais o tinham ferido. Não o bastante, certamente.

Espiei uma monstruosidade marrom descendo a estrada que ziguezagueava. Metamorfo, indo praticar seus terrores especiais. Ele poderia entrar no acampamento rebelde como um deles, praticar magias venenosas nas panelas e caldeirões e encher a água potável deles com doenças. O Tomado poderia se tornar a sombra nas trevas que todos os homens temem, matando um de cada vez, deixando apenas restos mutilados para encher os sobreviventes de terror. Eu o invejei ao mesmo tempo em que o odiava.

As estrelas cintilavam acima da fogueira, que tinha ficado fraca enquanto eu e alguns outros veteranos jogávamos Tonk. Eu estava vencendo por pouco.

— Vou pular fora enquanto estou ganhando. Alguém quer meu lugar? — perguntei. Estiquei as pernas doloridas e me afastei, me recostando num tronco e olhando o céu. As estrelas pareciam felizes e amistosas.

O ar estava frio, fresco e parado. O campo estava silencioso. Grilos e pássaros noturnos cantavam suas canções tranquilizadoras. O mundo estava em paz. Era difícil acreditar que aquele lugar logo se tornaria um campo de batalha. Eu me remexi até ficar confortável, procurando estrelas cadentes. Estava determinado a aproveitar o momento. Poderia ser meu último instante de paz na terra.

A fogueira estalava e crepitava. Alguém conseguiu reunir ambição suficiente para colocar um pouco mais de madeira. O fogo se animou, lançando fumaça de pinheiro em minha direção, e criou sombras que dançavam nos rostos atentos dos jogadores. Caolho estava com lábios tensos, pois perdia. A bocarra de sapo do Duende se abria num sorriso inconsciente. Calado estava ilegível, como sempre. Elmo pensava muito, fazendo uma careta ao calcular probabilidades. Fanfarrão estava mais azedo que de costume. Era bom ver Fanfarrão de novo. Temia que o tivéssemos perdido em Lordes.

Um mísero meteoro foi a única coisa a riscar o céu. Desisti, fechei os olhos, escutei meu coração batendo. Calejado está chegando. Calejado está chegando, ele dizia. Martelava um rufar de tambor, mimetizando a marcha de legiões que avançavam.

Corvo se sentou a meu lado.

— Noite tranquila — observou ele.

— A calma antes da tempestade — respondi. — O que está rolando com os todo-poderosos?

— Muitas discussões. O Capitão, o Apanhador e o cara novo estão deixando eles tagarelarem. Deixando que desabafem. Quem está ganhando?

— Duende.

— Caolho não está tirando cartas do fundo do baralho?

— Nunca o flagramos.

— Ouvi isso — resmungou Caolho. — Um dia desses, Corvo...

— Eu sei. Zap. Sou um sapo-príncipe. Chagas, você já subiu o morro depois que escureceu?

— Não. Por quê?

— Alguma coisa estranha no leste. Parece um cometa.

Meu coração deu um pequeno salto. Fiz as contas rapidamente.

— Você provavelmente está certo. Já está na hora. — Eu me levantei. Corvo também. Subimos o morro.

Todos os eventos importantes da saga da Dama e do marido dela foram pressagiados por um cometa. Incontáveis profetas rebeldes previram que ela iria cair quando um cometa estivesse no céu. Mas a profecia mais perigosa deles dizia respeito à criança que seria a reencarnação da Rosa Branca. O Círculo está gastando muita energia na busca dessa criança.

Corvo me levou a uma altitude de onde se podia ver as estrelas baixas no oriente. De fato, havia algo como uma ponta de lança prateada cavalgando o céu por lá. Olhei por um longo tempo antes de comentar.

— Parece apontar para Talismã.

— Foi o que pensei. — Ficou calado por algum tempo. — Não sou muito ligado a profecias, Chagas. Elas soam muito como superstição. Mas isso aí me deixa nervoso.

— Você ouviu essas profecias a vida inteira. Eu ficaria surpreso se elas não tivessem mexido com você.

Corvo grunhiu, insatisfeito.

— O Enforcado trouxe notícias do leste. Sussurro tomou Ferrugem.

— Ótimas notícias. Mas que ótimas notícias — comentei, com sarcasmo considerável.

— Ela tomou Ferrugem e cercou o exército de Adorno. É possível que o leste inteiro seja nosso no próximo verão.

Observamos o cânion. Algumas das unidades avançadas de Calejado tinham alcançado o sopé do zigue-zague. Arauto da Tormenta cessou seu longo assalto para poder se preparar e aguardar a tentativa de Calejado de romper nossas linhas.

— Então tudo se resume a nós — murmurei. — Temos de detê-los aqui, ou então a coisa toda ruirá por causa de um ataque sorrateiro pela porta dos fundos.

— Talvez. Mas não descarte a Dama mesmo se nós falharmos. Os rebeldes ainda não A enfrentaram. E todos eles sabem disso, sem exceção. Cada légua que avançam na direção da Torre provocará neles um pavor maior ainda. O próprio medo os derrotará, a menos que encontrem a criança da profecia.

— Talvez.

Ficamos olhando o cometa. Estava ainda muito, muito distante, quase indetectável. Ficaria ali por um longo tempo. Grandes batalhas seriam travadas antes que ele partisse.

Fiz uma careta.

— Talvez você não devesse ter me mostrado o cometa. Agora sonharei com essa coisa maldita.

Corvo me exibiu um raro sorriso.

— Sonhe com uma vitória para nós — sugeriu ele.

Eu sonhei um pouco em voz alta, ali mesmo.

— Temos o terreno elevado a nosso favor. Calejado terá que trazer seus homens por quase 400 metros de estrada em zigue-zague e aclive. Serão presas fáceis quando chegarem aqui.

— Puro otimismo, Chagas. Vou me recolher. Boa sorte amanhã.

— Pra você também — respondi.

Corvo ficaria no ponto mais feroz da batalha. O Capitão o tinha escolhido para comandar um batalhão de soldados veteranos do exército regular. Eles conteriam um flanco, varrendo a estrada com saraivadas de flechas.

Sonhei, mas meus sonhos não foram o que eu esperava. Uma coisa dourada bruxuleante veio, flutuou acima de mim, reluzindo como distantes bancos de estrelas. Eu não sabia bem se estava acordado ou dormindo, e nenhuma das duas opções teria sido satisfatória. Vou chamar de sonho porque isso me soa mais confortavelmente. Não gosto de pensar que a Dama teria tido tanto interesse por mim assim.

Foi culpa minha. Todos aqueles romances que eu escrevera sobre ela tinham germinado no solo fértil de minha imaginação. Tanta presunção, meus sonhos. A própria Dama mandando Seu espírito para confortar um soldado tolo, cansado e silenciosamente assustado? Em nome dos céus, por quê?

Aquele reluzir veio e pairou sobre mim, transmitindo pensamentos reconfortantes temperados por um fio de divertimento.

Não tema, meu fiel. A Escada das Lágrimas não é a Tranca do Império. Pode ser quebrada sem dano. O que quer que aconteça, meus fiéis permanecerão em segurança. A Escada é só mais uma parada na estrada que levará os rebeldes à destruição.

Houve mais, tudo de uma natureza curiosamente pessoal. Minhas fantasias mais selvagens estavam sendo refletidas de volta para mim. No fim, apenas por um instante, um rosto espiou além do brilho dourado. Era o rosto feminino mais lindo que já vi, mesmo que agora eu não consiga recordá-lo.

Na manhã seguinte contei o sonho a Caolho enquanto eu fazia a ronda, acordando meu hospital. Ele me olhou e deu de ombros.

— Imaginação demais, Chagas. — Caolho estava distraído, ansioso para terminar as tarefas médicas e cair fora. Ele odiava aquele serviço.

Após botar o trabalho em dia, vagueei em direção ao acampamento principal. Minha cabeça doía e meu humor estava péssimo. O ar fresco e seco da montanha não era tão revigorante quanto deveria.

Descobri que o humor dos homens estava tão ruim quanto o meu. Abaixo, as forças de Calejado avançavam.

Para se vencer é preciso uma certeza profunda de que, não importando quão ruim as coisas pareçam, uma estrada para a vitória se abrirá. A Companhia carregou tal convicção através do fracasso em Lordes. Sempre encontramos uma forma de reagir contra os rebeldes, mesmo quando os exércitos da Dama estavam batendo em retirada. Agora, porém, a convicção começou a ceder.

Forsberg, Rosas, Lordes e uma dúzia de outras vitórias menores. Parte de perder é o oposto de vencer. Estávamos assombrados por um medo secreto de que, apesar das óbvias vantagens do terreno e do reforço dos Tomados, alguma coisa daria errado.

Talvez eles tivessem preparado tudo sozinhos. Talvez o Capitão estivesse por trás de tudo, ou mesmo o Apanhador de Almas. Possivelmente, tudo aconteceu naturalmente, como essas coisas costumavam acontecer...

Caolho tinha descido o morro comigo, amargurado, mal-humorado, resmungando consigo mesmo e procurando briga. O caminho dele cruzou com o de Duende.

Duende, sempre preguiçoso, havia acabado de se arrastar para fora do saco de dormir. Tinha uma bacia de água, e estava se lavando. É um sujeitinho meticuloso. Caolho o viu e percebeu uma chance de punir alguém com seu mau humor. Murmurou uma sequência de palavras estranhas e se enfiou numa coreografia esquisita que parecia meio balé e meio uma dança de guerra primitiva.

A água de Duende mudou.

Senti o cheiro a 6 metros. Tinha se tornado um marrom maligno. Bolotas verdes enojantes boiavam na superfície. Até a textura era nojenta.

Duende se levantou com uma dignidade magnífica e se virou. Olhou no olho do adversário, que sorria maldosamente, por vários segundos. Então se curvou numa mesura. Ao levantar a cabeça, exibia aquele enorme sorriso de sapo. Abriu a boca e soltou o uivo mais pavoroso e estremecedor que eu jamais escutara.

Eles estavam determinados, e ai de quem se metesse no meio. Sombras se espalhavam ao redor de Caolho, se remexendo no chão como mil serpentes velozes. Fantasmas dançavam, rastejando de debaixo de pedras, saltando de árvores, pulando de arbustos. Eles guinchavam, uivavam, riam e perseguiam as cobras de sombra do Caolho.

Os fantasmas tinham 60 centímetros e lembravam muito miniaturas do Caolho, com caras duplamente feias, e traseiros como os de fêmeas de babuíno no cio. O que eles faziam com as cobras sombrias que capturavam, o bom-

senso me impede de contar.

Caolho, cujo plano fora frustrado, saltou no ar. Praguejou, gritou, espumou pela boca. Para nós, veteranos, que já testemunháramos essas batalhas de chapeleiros loucos antes, era óbvio que Duende havia se mantido preparado, esperando que Caolho começasse alguma coisa.

Desta vez, contudo, Caolho tinha mais de uma seta para disparar.

Ele baniu as cobras. As pedras, os arbustos e as árvores que haviam arrotado as criaturas de Duende agora vomitavam gigantescos besouros rola-bosta de cor verde brilhante. Os besourões saltaram nos monstrinhos do Duende, os enrolaram e empurraram, rolando até a beira do penhasco.

Desnecessário dizer que todos os uivos e gritos atraíram uma audiência. Nós, veteranos, ríamos, há muito familiarizados com o duelo sem fim. A risada se espalhou pelos outros, assim que perceberam que aquilo não era feitiçaria desgovernada.

Os fantasmas de bunda vermelha de Duende brotaram raízes e se recusaram a ser empurrados. Cresceram e se tornaram enormes plantas carnívoras babonas, dignas de habitarem as mais terríveis selvas de pesadelo. Clique, claque, crunch — por todo o declive as carapaças foram esmagadas naquelas mandíbulas vegetais. Aquela sensação de dar calafrios e ranger os dentes que você tem ao pisar numa barata gigantesca deslizou pelos declives, ampliado mil vezes, gerando uma onda de tremores. Por um momento até Caolho ficou parado.

Dei uma olhada em volta. O Capitão tinha vindo assistir. Ele deixou escapar um sorriso satisfeito. Era uma gema preciosa, aquele sorriso, mais raro que ovos de pássaro-roca. Os companheiros dele, oficiais do exército e capitães da Guarda, pareciam confusos.

Alguém parou a meu lado numa distância íntima, de camarada. Dei uma olhada de esguelha e me vi ombro a ombro com o Apanhador de Almas. Ou ombro a cotovelo. O Tomado não é muito alto.

— Divertido, não é? — comentou ele em uma de suas mil vozes.

Concordei nervoso com a cabeça.

Caolho tremeu todo, pulou bem alto novamente, uivou e gemeu, e então caiu chutando e se debatendo como um homem doente.

Os besouros sobreviventes se reuniram, zip-zap, clique-claque, em duas pilhas que se mexiam, estalando as mandíbulas furiosamente, ralando um contra o outro quitinosamente. Névoa marrom se ergueu das pilhas em grossos rolos, retorcendo-se e se juntando, transformando-se numa cortina que escondia os insetos frenéticos. A fumaça se contraiu em glóbulos que quicaram, cada vez mais alto após cada contato com a terra. Não desceram mais e passaram a flutuar na brisa, fazendo brotar dedos nodosos.

Tínhamos ali réplicas das mãos duras e calosas de Caolho cem vezes ampliadas. As mãos se puseram a catar ervas daninhas pelo jardim monstruoso de Duende, arrancando as plantas pelas raízes, amarrando os caules em elegantes e complicados nós de marinheiro, formando uma trança cada vez mais longa.

— Eles têm mais talento do que era de se suspeitar — observou o Apanhador. — Mas tão desperdiçado em frivolidades!

— Não sei não — fiz um gesto. O espetáculo tinha um efeito revigorante no moral. Sentindo o lampejo de ousadia que me acometia às vezes, sugeri: — Essa é uma feitiçaria que eles podem apreciar, ao contrário das magias opressivas e amargas dos Tomados.

O morrião negro do Apanhador me fitou por alguns segundos e imaginei chamas ardendo por detrás das fendas estreitas. Então uma risadinha de garotinha escapou.

— Você tem razão. Estamos tão cheios de trevas e ruína, desespero e terror, que infectamos exércitos inteiros. É fácil esquecer o quadro geral de emoções da vida.

Que estranho, pensei. Eis aqui um Tomado com uma brecha na armadura, um Apanhador de Almas afastando um dos véus que ocultam seu eu secreto. O analista em mim sentiu o cheiro de uma história e começou a latir.

O Apanhador mudou de assunto como se tivesse lido meus pensamentos.

— Você recebeu uma visita na noite passada?

O cão-analista dentro de mim cessou os latidos.

— Tive um sonho estranho com a Dama.

O Apanhador riu, um ribombo grave. Aquela troca constante de vozes pode abalar até o mais impassível dos homens. E me colocava na defensiva. Mesmo a camaradagem vinda do Tomado me perturbava.

— Acho que ela favorece você, Chagas. Alguma coisinha em sua pessoa capturou a imaginação dela assim como ela capturou a sua. O que ela lhe disse?

Alguma coisa profunda me disse para tomar cuidado. A pergunta do Apanhador tinha sido calorosa e casual, porém havia uma intensidade oculta que traía sua verdadeira importância.

— Só algumas coisas reconfortantes — respondi. — Algo sobre a Escada das Lágrimas não ser tão importante assim nos planos dela. Mas foi só um sonho.

— É claro. — Ele parecia satisfeito. — Só um sonho. — Mas era a voz feminina que ele usava nos momentos mais sérios.

Os homens diziam “Oh” e “Ah”. Eu me virei para conferir o progresso da batalha.

As plantas carnívoras de Duende tinham sido transformadas em uma imensa água-viva. As mãos mulatas estavam capturadas nos tentáculos, tentando se libertar. E sobre o penhasco, observando, flutuava uma imensa cara rosada, barbada, cercada por cabelos ruivos emaranhados. Um dos olhos estava meio fechado, sonolento, por uma cicatriz lívida. Franzi o cenho, confuso.

— O que é aquilo? — Eu sabia que não era coisa de Duende ou Caolho, e me perguntei se Calado teria se juntado à brincadeira, só para dar uma lição neles.

O Apanhador de Almas fez um barulho que lembrava fielmente o grasnado agonizante de um pássaro.

— Calejado — exclamou, e se voltou para o Capitão, berrando. — Às armas. Aí vêm eles.

Em segundos os homens estavam voando para suas posições. Os últimos restos da batalha entre Caolho e Duende se tornaram farrapos nevoentos que flutuaram ao vento, subindo até a cara medonha de Calejado, dando a ela um caso sério de acne onde a tocavam. Um peteleco fofo, pensei, mas não tentem enfrentá-lo de frente, rapazes. Ele não está para brincadeiras.

A resposta à nossa correria foi o soar de muitos berrantes e cornetas, e um resmungar de tambores que ecoou nos cânions como trovões distantes.

Os rebeldes nos provocaram o dia todo, mas era óbvio que não estavam investindo a sério, que apenas cutucavam o vespeiro para ver o que aconteceria. Eles sabiam muito bem o quão difícil era atacar a Escada.

Tudo isso indicava que Calejado tinha algum truque brutal na manga.

No geral, porém, as escaramuças melhoraram o moral. Os homens começaram a acreditar que havia uma chance de aguentarmos.

Apesar de o cometa flutuar entre as estrelas, e da galáxia de fogueiras que salpicava a Escada abaixo, aquela noite denunciou minha sensação de que a Escada era o coração da guerra. Eu me sentei num promontório com vista para o inimigo, com os joelhos no queixo, ruminando as últimas notícias do leste. Sussurro agora montava um cerco a Geada, depois de ter massacrado o exército de Adorno e derrotado Mariposa e Evasão no meio dos menires falantes do Vale do Medo. O leste parecia ser um desastre muito maior para os rebeldes do que o norte para nós.

As coisas poderiam ficar piores aqui. Mariposa, Evasão e Protelo tinham se juntado a Calejado. Havia outros dos Dezoito lá embaixo, ainda não identificados. Nossos inimigos sentiam cheiro de sangue.

Eu nunca vira as auroras setentrionais, apesar de terem me dito que, se tivéssemos ficado em Remo e Avença tempo suficiente para passar o inverno, teríamos visto alguns relances. As histórias que eu ouvira sobre essas luzes suaves e vistosas me fazem pensar que elas são a única comparação possível com o que aconteceu sobre os cânions, enquanto as fogueiras rebeldes se reduziram. Longas, longas e estreitas tiras de luz tênue serpenteavam até as estrelas, tremeluzindo e ondulando como algas numa correnteza fraca. Cor-de-rosa delicados, verdes, amarelos e azuis, todos tons muito belos. Uma frase me veio à mente, um nome ancestral. As Guerras Pastel.

A Companhia lutou nas Guerras Pastel há muito, muito tempo. Tentei lembrar o que os Anais diziam sobre os conflitos. Nem tudo veio à tona, mas recordei o suficiente para ficar assustado. Corri até o complexo dos oficiais, procurando o Apanhador de Almas.

Eu o encontrei e contei o que eu tinha lembrado, e ele agradeceu por minha preocupação, mas afirmou que não só conhecia as Guerras Pastel, mas que também estava ciente das luzes que a cabala rebelde lançava. Não havia motivo para se preocupar. O ataque fora antecipado, e o Enforcado estava aqui para abortá-lo.

— Acomode-se, Chagas. Duende e Caolho montaram a cena deles, agora é a vez dos Dez. — Ele transpirava uma confiança tão forte quanto maligna, de modo que concluí que os rebeldes tinham caído em alguma armadilha dos Tomados.

Fiz o que ele sugeriu, voltando até meu solitário posto de vigia. Pelo caminho passei por um acampamento acordado pelo espetáculo crescente. Um murmúrio de temor corria por todos os lados, subindo e caindo como os ruídos de uma praia distante.

As faixas coloridas agora estavam mais fortes e havia um frenesi nos movimentos delas que sugeriam vontades conflitantes. Talvez o Apanhador tivesse razão. Talvez isso não passasse de uma exibição para as tropas, no fim.

Alcancei minha elevação. O fundo do cânion não cintilava mais. Era um mar de tinta lá embaixo, em nada diminuído pelo brilho dos estandartes luminosos. Mas mesmo que nada pudesse ser visto, muito podia ser ouvido. A acústica daquela terra era notável.

Calejado avançava. Apenas o marchar do exército dele inteiro poderia gerar tanto alvoroço metálico.

Ele e seus capangas estavam confiantes.

Uma bandeira de luz verde suave flutuou pela noite, esvoaçou preguiçosamente, como uma fita de papel fino numa corrente ascendente. Foi se apagando ao se erguer, e se desintegrou em fagulhas moribundas bem no alto.

Tentei imaginar o que a teria cortado. Calejado ou o Enforcado? Isso seria um bom ou um mau sinal?

Era um embate sutil, quase impossível de acompanhar. Era como observar esgrimistas habilidosos num confronto. Você não conseguia ver todos os movimentos, a não ser que fosse um expert também. Duende e Caolho tinham lutado como dois bárbaros com espadas gigantescas, em termos comparativos.

Pouco a pouco a aurora colorida morreu. Tinha que ser coisa do Enforcado. Os estandartes de luz libertos não nos fizeram mal.

O alvoroço abaixo se aproximou.

Onde estava a Arauto da Tormenta? Não ouvíamos notícias dela já havia um tempo. Aquele parecia o momento ideal para presentear os rebeldes com um clima inclemente.

O Apanhador, também, parecia estar mantendo a cabeça baixa. Durante todo o tempo em que permanecemos a serviço da Dama, não testemunhamos ele fazendo nada de muito dramático. Seria ele menos poderoso do que dizia sua reputação, ou, talvez, estaria se poupando para algum extremo que só ele antevia?

Alguma novidade aconteceu lá embaixo. As paredes do cânion começaram a incandescer em tiras e pontos, num vermelho muito profundo que mal era perceptível inicialmente. O vermelho foi ficando mais brilhante. Só depois que pedaços começaram a pingar e escorrer eu percebi a corrente de ar quente subindo o penhasco.

— Pelos deuses — murmurei, espantado. Era um feito digno de minhas expectativas dos Tomados.

As rochas começaram a grunhir e rugir à medida que a pedra derretida escorria, deixando as encostas sem suporte. Houve gritos ao fundo, os gritos de homens sem esperança que veem o fim chegando e nada podem fazer para detê-lo ou escapar dele. Os homens de Calejado estavam sendo cozidos e esmagados.

Eles estavam no caldeirão da bruxa, certamente, mas algo me deixou inquieto mesmo assim. Parecia haver poucos gritos para uma força do tamanho do exército de Calejado.

Em alguns pontos a rocha ficou tão quente que se incendiou. O cânion expelia uma corrente ascendente furiosa. O vento uivava por sobre o martelar das pedras que caíam. A luz se tornou forte o suficiente para revelar as forças rebeldes que subiam a estrada.

Eram muito poucos, eu pensei... Então uma figura solitária em outro promontório chamou minha atenção. Um dos Tomados, que não pude identificar sob a luz incerta e inquieta. Ele balançava a cabeça em aprovação enquanto observava os percalços do inimigo.

A ruborização, o derretimento, o desabamento e o fogo se espalharam até que a paisagem inteira estava riscada de vermelho e marcada com poças borbulhantes.

Uma gota de água caiu em meu rosto. Olhei para cima, assustado, e um segundo pingo gordo atingiu meu nariz.

As estrelas tinham desaparecido. As barrigas esponjosas de obesas nuvens cinzentas corriam acima, quase baixas o suficiente para serem tocadas, espalhafatosamente coloridas pelo inferno abaixo.

As barrigas das nuvens se abriram sobre o cânion. Pego no centro da tempestade, quase caí de joelhos. Lá embaixo a situação era ainda mais selvagem.

A chuva atingiu pedra derretida. O rugido do vapor era ensurdecedor. Multicolorido, ele subia aos céus. A beiradinha que eu toquei, ao correr em fuga, era quente o bastante para avermelhar partes da pele.

Os pobres idiotas rebeldes, pensei. Cozidos como lagostas...

Eu estivera insatisfeito por uma falta de espetáculo da parte dos Tomados? Não mais. Tive dificuldade em manter meu jantar no estômago enquanto refletia o cálculo cruel e frio que tinha sido feito no planejamento de tudo aquilo.

Sofri uma daquelas crises de consciência familiar a qualquer mercenário e que poucas pessoas fora da profissão entendem. Meu trabalho é derrotar os inimigos de meu empregador. Geralmente, de qualquer maneira que for possível. E os deuses sabem que a Companhia já serviu alguns vilões de coração demoníaco. Mas havia alguma coisa errada com o que estava acontecendo lá embaixo. Em retrospecto, penso que todos sentimos o mesmo. Talvez venha de um senso de solidariedade tolo pelos camaradas soldados que morriam sem uma oportunidade de se defender.

Nós temos um senso de honra na Companhia.

O rugido do temporal e do vapor diminuiu. Voltei a meu posto de vigia. Exceto por algumas pequenas áreas, o cânion estava escuro. Procurei o Tomado que eu vira mais cedo. Não estava mais lá.

Acima, o cometa surgiu de detrás das últimas nuvens, maculando o céu noturno como um pequeno sorriso zombeteiro. Tinha uma dobra distinta na cauda. Sobre o horizonte serrilhado a lua deu uma espiada cautelosa nesta terra torturada.

Cornetas ecoaram naquela direção, vozes minúsculas tingidas claramente de pânico. Deram lugar ao som distante e abafado de uma batalha, um alarido que cresceu rapidamente. A luta soava pesada e confusa. Parti para meu hospital improvisado, certo de que haveria trabalho para mim em breve. Por algum motivo eu não estava particularmente espantado ou chateado.

Mensageiros zuniram por mim, correndo para todos os lados com propósitos claros. O Capitão fizera isso com esses soldados perdidos. Tinha restaurado o senso de ordem e disciplina deles.

Algo passou por sobre minha cabeça. Um homem sentado em um retângulo escuro cruzou o luar, fazendo uma curva na direção do alarido. O Apanhador de Almas em seu tapete voador.

Uma casca violeta brilhante o envolveu, num clarão. O tapete balançou violentamente, deslizando de lado por uns 10 metros. A luz enfraqueceu, se encolheu sobre ele e sumiu, me deixando com a vista turva. Dei de ombros e segui subindo o morro.

As primeiras baixas chegaram ao hospital antes de mim. De certa forma, fiquei satisfeito. Isso indicava eficiência e cabeças frias em combate. O Capitão tinha feito milagres.

O estardalhaço de companhias se movendo pelas trevas confirmou minha suspeita de que aquilo era mais do que um ataque inconveniente por homens que raramente se arriscavam na escuridão. (A noite pertence à Dama.) De alguma maneira, tínhamos sido flanqueados.

— Já estava na hora de você mostrar sua cara feia — grunhiu Caolho. — Aqui, cirurgia. Já os botei para montar as luzes.

Eu me lavei e comecei a trabalhar. O pessoal da Dama se juntou a mim, e me ajudaram heroicamente. Pela primeira vez desde que aceitáramos o contrato, senti que estava fazendo algum bem real aos feridos.

Mas estes não paravam de chegar. O alarido não parava de crescer. Logo ficou evidente que o ataque dos rebeldes pelo cânion não havia sido nada além de uma finta. Todo aquele drama pomposo não tivera qualquer propósito.

A aurora coloria o céu quando ergui o olhar e me deparei com um Apanhador de Almas esfarrapado me encarando. Ele parecia ter sido assado em fogo baixo, regado a alguma coisa azulada, esverdeada e muito ruim. Rescendia a fumaça.

— Comece a carregar seus carroções, Chagas — ordenou ele na voz de mulher de negócios. — O Capitão vai lhe mandar alguns ajudantes.

Todos os transportes, inclusive aqueles que vieram do sul, estavam estacionados acima de meu hospital a céu aberto. Olhei na direção deles. Um sujeito alto, magro e de pescoço torto estava insistindo com os carregadores para que atrelassem os cavalos.

— A batalha está indo mal? — perguntei. — Pegaram vocês de surpresa, não foi?

O Apanhador ignorou meu último comentário.

— Alcançamos quase todos os nossos objetivos. Resta apenas uma tarefa a ser cumprida. — A voz escolhida era grave, sonora e lenta, a voz de um orador. — A batalha pode pender para qualquer lado, é cedo demais para saber. Seu Capitão deu consistência a essa gentalha. Mas, para evitar que uma derrota o alcance, bote seus homens para se mexer.

Alguns carroções já desciam em nossa direção. Dei de ombros, transmiti as ordens, encontrei o próximo ferido que precisava de minha atenção. Enquanto eu trabalhava, perguntei ao Apanhador:

— Se a luta está equilibrada, então você não deveria estar por lá, surrando os rebeldes?

— Estou cumprindo as ordens da Dama, Chagas. Nossos objetivos estão quase cumpridos. Protelo e Mariposa estão mortos. Evasão está gravemente ferido. O Metamorfo teve sucesso em seu engodo. Não há nada mais a fazer além de privar os rebeldes de seu general.

Fiquei confuso. Pensamentos divergentes encontraram o caminho até minha língua e se traíram.

— Mas não deveríamos tentar quebrá-los aqui? — E: — Esta campanha setentrional custou caro ao Círculo. Primeiro Rasgo, depois Sussurro. Agora Protelo e Mariposa.

— Com Evasão e Calejado prestes a cair. Sim. Eles nos derrotaram repetidamente, e cada vitória lhes custou uma parte do coração da própria força. — Ele olhou para baixo, para um pequeno pelotão que vinha até nós. Corvo os liderava. O Apanhador se virou para as carroças estacionadas. O Enforcado parou de gesticular e assumiu uma pose de quem escuta.

— Sussurro penetrou as muralhas de Geada — continuou o Apanhador de repente. — O Rastejante superou os traiçoeiros menires do Vale do Medo e se aproxima dos subúrbios de Baque. O Sem-Rosto está no Vale agora, avançando contra Celeiros. Dizem que Quinhão cometeu suicídio ontem à noite em Ade, para evitar ser capturado pelo Roedor de Ossos. As coisas não são o desastre que parecem, Chagas.

O cacete que não são, eu pensei. Isso é no leste. Nós estamos aqui. Eu não iria me empolgar com vitórias a um quarto do mundo de distância. Aqui estamos sendo surrados, e se os rebeldes romperem as defesas e chegarem a Talismã, nada do que foi feito no leste vai ter importância.

Corvo parou o grupo e veio até mim sozinho.

— O que você quer que eles façam?

Presumi que o Capitão o tivesse enviado, então tinha certeza de que o Capitão ordenara a retirada. Ele não entraria no jogo do Apanhador.

— Ponha os que foram tratados nos carroções. — Os carregadores estavam se arrumando numa bela linha. — Mande uns 12 feridos que podem andar em cada carroção. Eu, Caolho e os outros vamos continuar cortando e costurando. O que foi?

Corvo estava com um olhar estranho. Eu não gostava disso. Ele se virou para o Apanhador. Fiz o mesmo.

— Eu ainda não contei a ele — disse o Apanhador.

— Contou o quê? — Eu sabia que não iria gostar quando ouvisse. Eles estavam com um cheiro de nervosismo. Um fedor de más notícias.

Corvo sorriu. Não um sorriso feliz, mas um certo tipo de ritual macabro.

— Você e eu, nós fomos recrutados de novo, Chagas.

— O quê? Fala sério! De novo não! — Eu ainda sofria tremores ao lembrar de quando ajudei a capturar Manco e Sussurro.

— Você tem experiência prática — afirmou o Apanhador.

Continuei balançando a cabeça.

— Eu tenho que ir, então você também tem, Chagas — grunhiu Corvo. — Além do mais, você vai querer registrar nos Anais como derrotou mais dos Dezoito do que qualquer um dos Tomados.

— Droga, o que vocês pensam que eu sou? Um caçador de recompensas? Não. Sou um médico. Os Anais e o combate são incidentais.

— Este é o homem que o Capitão teve que mandar arrastarem da frente de batalha quando atravessamos a Planície dos Ventos — Corvo comentou com o Apanhador. Os olhos dele estavam apertados, as bochechas, tensas. Ele também não queria ir. Estava demonstrando o ressentimento ao me criticar.

— Não há opção, Chagas — disse o Apanhador de Almas numa voz de criança. — A Dama escolheu você. — Ele tentou suavizar minha decepção, acrescentando: — Ela recompensa bem aqueles que a agradam. E você caiu nas graças dela.

Eu me condenei por meu recente romantismo. Aquele Chagas que viera ao norte, tão completamente fascinado pela misteriosa Dama, era outro homem. Um garotinho, cheio da ignorância tola da juventude. É. Às vezes você mente para si mesmo para conseguir seguir em frente.

— Não vamos sozinhos desta vez, Chagas — explicou o Apanhador. — Teremos ajuda do Pescoço Torto, do Metamorfo e da Arauto da Tormenta.

— Precisamos da gangue inteira só para pescar um bandido, é? — comentei, azedo.

O Apanhador não mordeu a isca. Ele nunca morde.

— O tapete está ali. Pegue suas armas e venha se juntar a mim. — Ele foi embora.

Descontei minha ira em meus ajudantes, de forma completamente injusta. Finalmente, quando Caolho estava prestes a explodir, Corvo fez um comentário:

— Não seja um babaca, Chagas. Temos trabalho a fazer, então vamos fazê-lo.

Eu pedi desculpas a todos e segui até onde o Apanhador me esperava.

— Subam — comandou o Apanhador, mostrando nossos lugares. Corvo e eu assumimos as mesmas posições da vez anterior. O Apanhador nos entregou pedaços de corda. — Amarrem-se bem. A viagem poderá ser difícil. Não quero que vocês caiam. E fiquem com uma faca à mão, para cortar a corda quando chegarmos lá.

Meu coração bateu mais forte. Para falar a verdade, eu estava empolgado para voar de novo. Momentos do voo anterior me assombravam com sua alegria e beleza. Há um sentimento glorioso de liberdade lá no alto, com o vento frio e as águias.

O Apanhador amarrou até a si mesmo. Mau sinal.

— Prontos? — Sem esperar por uma resposta, ele começou a murmurar. O tapete balançou de leve e flutuou, como penas numa brisa.

Superamos as copas das árvores. A madeira da armação acertou meu traseiro. Meu estômago se revirou. O ar chicoteava a meu redor. Meu chapéu voou, tentei pegá-lo, mas não consegui. O tapete se inclinou precariamente. Subitamente eu estava olhando para o solo, que se afastava rapidamente. Corvo me segurou. Nós dois teríamos caído se não estivéssemos amarrados.

Sobrevoamos os cânions, que pareciam um labirinto louco visto do alto. As massas de rebeldes eram como formigas guerreiras marchando.

Dei uma olhada no céu à nossa volta, que também era maravilhoso daquela perspectiva. Não havia águias pairando, apenas abutres. O Apanhador passou em disparada bem pelo meio de uma revoada, espalhando-os.

Outro tapete passou perto e se afastou até virar um pontinho no horizonte. Levava o Enforcado e dois soldados imperiais fortemente armados.

— Onde está a Arauto da Tormenta? — indaguei.

O Apanhador esticou um braço. Apertando os olhos, discerni um ponto no azul sobre o deserto.

Flutuamos até que comecei a me perguntar o que iria acontecer. Estudar o progresso dos rebeldes logo me cansou. Eles estavam avançando rápido demais.

— Preparem-se — gritou o Apanhador por sobre o ombro.

Agarrei minhas cordas, antecipando algo muito assustador.

— Agora.

O fundo caiu. E continuou caindo. Mergulhamos cada vez mais e mais e mais. O ar berrava. A terra girava, se retorcia e se lançava para cima. Os pontos distantes da Arauto e do Enforcado também mergulharam. Tornaram-se mais distintos enquanto nos inclinávamos na mesma direção.

Zunimos pelo lugar onde nossos irmãos lutavam para conter a inundação rebelde. Continuamos descendo, num planar menos íngreme, rolando, girando e derrapando para não bater em torres brutalmente erodidas de arenito. Eu poderia ter tocado algumas delas ao passar.

Um pequeno prado surgiu adiante. Nossa velocidade foi reduzida drasticamente, até que pairamos.

— Ele está ali — sussurrou o Apanhador.

Deslizamos mais alguns metros à frente, espiando detrás de um pilar de pedra.

O prado, outrora verde, tinha sido revirado pela passagem de cavalos e homens. Uma dúzia de carroções e carregadores permanecia ali. O Apanhador praguejou em voz baixa.

Uma sombra voou de dentre as agulhas rochosas à nossa esquerda. Flash! O trovão estremeceu o cânion. Terra foi lançada ao ar, homens gritaram, cambalearam e buscaram suas armas.

Outra sombra surgiu, vinda de outra direção. Não sei o que o Enforcado fez, mas os rebeldes começaram a segurar as gargantas, sufocando.

Um homem gigantesco se livrou da magia e cambaleou até um enorme cavalo preto amarrado a uma cerca no lado oposto do prado. O Apanhador avançou com nosso tapete velozmente. A armação bateu no solo.

— Fora! — comandou ele enquanto quicávamos, e pegou uma espada.

Corvo e eu nos levantamos e seguimos o Apanhador com pernas trêmulas. O Tomado se atirou contra os carregadores que sufocavam e despejou toda sua fúria neles, com a espada espirrando sangue. Corvo e eu contribuímos com o massacre, espero que com menos entusiasmo.

— O que diabos vocês estão fazendo aqui? — berrava o Apanhador para as vítimas. — Era para ele estar sozinho.

Os outros tapetes voltaram e baixaram perto do homem fugitivo. Os Tomados e seus capangas o perseguiram com pernas vacilantes. Ele saltou para as costas do cavalo e cortou a corda com um golpe brutal. Eu o encarei. Não esperava que o Calejado fosse tão intimidador. Era tão feio quanto a aparição que surgira durante a luta de Duende com Caolho.

O Apanhador matou o último dos carregadores rebeldes.

— Vamos! — ordenou.

Seguimos nos calcanhares do Apanhador enquanto ele corria atrás de Calejado. Eu me perguntei por que não tive o bom-senso de ficar para trás.

O general rebelde parou de fugir. Ele matou um dos soldados imperiais, que tinha se adiantado do resto, soltou uma grande gargalhada e uivou algo ininteligível. O ar crepitou com a iminência de magia.

Um clarão violeta envolveu os três Tomados, mais intensamente do que ontem à noite com o Apanhador. Eles pararam de súbito. Era uma feitiçaria incrivelmente potente. Paralisou completamente os três. Calejado voltou a atenção ao resto de nós.

O segundo imperial o alcançou. Calejado golpeou com a imensa espada, vencendo a guarda do soldado. O cavalo andou devagar para a frente ao comando de Calejado, cuidadosamente evitando pisar no homem caído. Calejado olhou para os Tomados e xingou o animal, golpeando o ar para os lados.

O cavalo continuou andando lentamente. Calejado socou-lhe o pescoço selvagemente e uivou. A mão dele não conseguia se libertar da crina. O grito de raiva se tornou um urro de desespero. Tentou usar a lâmina contra o cavalo, não conseguiu feri-lo, então imediatamente a jogou contra os Tomados. A luz violeta que os cercava começou a enfraquecer.

Corvo estava a dois passos de Calejado, e eu, três passos mais atrás. Os homens da Arauto estavam perto, aproximando-se pelo outro lado.

Corvo atacou, com um golpe forte e cortante para cima. A ponta da espada atingiu a barriga de Calejado e rebateu. Cota de malha? O enorme punho de Calejado socou e acertou a têmpora de Corvo, que cambaleou um passo atrás e caiu.

Sem pensar eu mudei a mira e cutilei contra a mão de Calejado. Nós dois berramos quando o aço mordeu osso e o escarlate fluiu.

Saltei sobre Corvo, parei, girei. Os soldados da Arauto massacravam Calejado como açougueiros. A boca dele estava aberta. O rosto marcado pela cicatriz se contorcia enquanto ele se concentrava em ignorar a dor e usava os poderes para se salvar. Os Tomados estavam fora da luta. Ele enfrentava três homens comuns. Mas tudo isso só foi registrado mais tarde.

Eu não consegui ver nada além do cavalo de Calejado. O animal derretia... Não. Não derretia. Mudava.

Eu comecei a rir. O grande general rebelde estava montado nas costas de Metamorfo.

Minha risada virou uma gargalhada insana.

Meu chilique me custou a oportunidade de participar da morte de um campeão. Os dois soldados da Arauto cortaram Calejado em pedaços enquanto Metamorfo o segurava e controlava. Estava completamente morto antes que eu recuperasse meu autocontrole.

O Enforcado, também, perdeu o fim da história. Ele estava ocupado morrendo. A grande espada que Calejado atirou estava cravada em sua testa. O Apanhador de Almas e a Arauto da Tormenta foram em sua direção.

Metamorfo completou sua transformação numa enorme e gorda criatura fétida, oleosa e pelada que, apesar de ser bípede, não parecia mais humana do que o cavalo que ele interpretara. Chutou os restos de Calejado e tremelicou de alegria, como se o truque mortal tivesse sido a melhor piada do século.

Então ele viu o Enforcado. A banha estremeceu. Ele correu até o outro Tomado, com incoerências borbulhando nos lábios.

Pescoço Torto arrancava a espada do crânio. Ele queria dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O Apanhador e a Arauto não fizeram nada para ajudar.

Fitei a Arauto. Que coisinha mínima ela era. Eu me ajoelhei para conferir a pulsação de Corvo. Ela não era maior que uma criança. Como poderia um ser tão diminuto reunir tamanha ira?

Metamorfo foi até os colegas, com a raiva inflando os músculos sob a gordura dos ombros peludos. Ele parou, encarou Apanhador e Arauto com uma postura tensa. Nada foi dito, mas parecia que o destino do Enforcado estava sendo decidido. Metamorfo queria ajudar. Os outros, não.

Curioso. Metamorfo é aliado do Apanhador. Por que esse conflito súbito?

Por que ousar enfrentar a fúria da Dama? Ela não ficaria feliz se o Enforcado morresse.

A pulsação de Corvo era fraca, mas se estabilizou. Eu respirei um pouco melhor.

Os soldados da Arauto se aproximaram dos Tomados, espiando as costas nojentas do Metamorfo.

O Apanhador trocou olhares com a Arauto. A mulher fez um gesto de consentimento. O Apanhador girou. As fendas na máscara fulguraram em vermelho-lava.

Subitamente, não havia mais o Apanhador. Havia uma nuvem de trevas com 3 metros de altura e 4 metros de largura, negra como o interior de um saco de carvão, mais grossa que o nevoeiro mais espesso. A nuvem saltava mais rápido que o bote de uma serpente. Houve um único guincho de surpresa, como de um camundongo, e então um silêncio sinistro e duradouro. Depois de todos os rugidos e lutas, a calmaria era mortalmente nefasta.

Chacoalhei Corvo violentamente. Ele não reagiu.

Metamorfo e Arauto estavam de pé sobre o Enforcado, me encarando. Eu queria gritar, correr, me enfiar no chão e me esconder. Eu era um mágico, capaz de ler os pensamentos deles. Eu sabia demais.

O terror me paralisou.

A fumaça de carvão sumiu tão rapidamente quanto tinha aparecido. O Apanhador de Almas surgiu entre os soldados. Ambos desabaram lentamente, com a majestade de velhos pinheiros.

Bati em Corvo. Ele grunhiu. As pálpebras tremularam e eu vi um relance de pupila. Estava dilatada. Concussão. Merda!

O Apanhador olhou para os cúmplices. Então, lentamente, virou-se para mim.

Os três Tomados se aproximaram. Ao fundo, o Enforcado continuava morrendo. Isso acontecia de forma bem barulhenta. Eu não o ouvia, porém. Levantei-me, de joelhos trêmulos, e encarei meu destino.

Não era para acabar assim, pensei. Isto não está certo.

Os três ficaram parados ali, encarando.

Eu encarei de volta. Nada mais que pudesse fazer.

Bravo, Chagas. Corajoso o bastante para, ao menos, encarar a Morte nos olhos.

— Você não viu nada, viu? — perguntou baixinho o Apanhador. Lagartos gélidos corriam por minha espinha. Aquela era a voz de um dos soldados, agora mortos, que tinham massacrado Calejado.

Balancei minha cabeça.

— Você estava ocupado demais enfrentando Calejado, e depois ficou cuidando de Corvo.

Concordei fracamente. Meus joelhos eram gelatina. Não fosse por isso, eu teria saído correndo dali. Por mais estúpido que isso tivesse sido.

— Leve Corvo ao tapete da Arauto. — O Apanhador apontou.

Empurrando, sussurrando, implorando, eu ajudei Corvo a andar. Ele não tinha a menor ideia de onde estava ou o que fazia. Mas me deixou guiá-lo.

Eu estava preocupado. Não conseguia encontrar nenhum estrago óbvio, mas ele não estava agindo normalmente.

— Leve-o direto a meu hospital — instruí. Não consegui olhar nos olhos da Arauto nem alcancei a inflexão que eu queria. Minhas palavras soaram como uma súplica.

O Apanhador me chamou até o tapete dele. Fui com todo o entusiasmo de um porco chegando ao abatedouro. Ele poderia estar jogando algum jogo. Uma queda do tapete seria uma cura permanente para quaisquer dúvidas que tivesse de minha habilidade em guardar segredo.

O Apanhador me seguiu, jogou a espada ensanguentada a bordo, se posicionou. O tapete flutuou e avançou lentamente para a grande batalha da Escada.

Olhei para trás, para os vultos imóveis no prado, incomodado por sentimentos indefinidos de vergonha. Aquilo não fora certo... Mas, por outro lado, o que eu poderia ter feito?

Alguma coisa dourada, alguma coisa como aquela névoa pálida no círculo mais distante do céu da meia-noite, moveu-se à sombra de uma das torres de arenito.

Meu coração quase parou.

O Capitão atraiu o exército rebelde, decapitado e cada vez mais fraco, para uma armadilha. Um grande massacre se seguiu. Só nossos números inferiores e o puro cansaço impediram que a Companhia jogasse os rebeldes da montanha. A complacência dos Tomados também não ajudou. Um batalhão recém-chegado, um ataque de feitiçaria, poderiam ter nos conquistado o dia.

Tratei Corvo no caminho, depois de colocá-lo no último carroção que partia para o sul. Ele continuaria estranho e distante por dias. Cuidar de Lindinha virou automaticamente uma tarefa minha. A criança foi uma ótima distração da depressão de mais uma retirada.

Talvez aquela fosse a forma como ela recompensava Corvo pela generosidade dele.

— Este é nosso último recuo — prometeu o Capitão.

Ele jamais chamaria de retirada, mas não tinha a cara de pau de dizer que aquilo era um avanço à retaguarda, ação retrógrada ou nenhuma dessas bobagens. Ele não mencionou o fato de que qualquer outra retirada viria após o fim. A queda de Talismã marcaria a data de morte do Império da Dama. E, muito provavelmente, encerraria estes Anais, exterminando a história da Companhia.

Descanse em paz, última das irmandades guerreiras. Vocês foi um lar e uma família para mim...

Recebemos notícias que não conseguiram nos alcançar na Escada das Lágrimas. Falavam de outros exércitos rebeldes avançando do norte usando rotas mais ocidentais que nossa linha de retirada. A lista de cidades perdidas era longa e desanimadora, mesmo considerando o exagero dos narradores. Soldados vencidos sempre superestimam a força dos inimigos. Isso massageia egos desconfiados da própria inferioridade.

Caminhando com Elmo pelo longo declive que ia para o sul, em direção às férteis planícies ao norte de Talismã, fiz uma sugestão:

— Em um momento que os Tomados não estiverem por perto, que tal você insinuar ao Capitão que pode ser uma ideia sábia ele começar a desassociar a Companhia do Apanhador de Almas?

Elmo me encarou, confuso. Meus velhos companheiros andavam fazendo isso, ultimamente. Desde a queda de Calejado, eu andava mal-humorado, taciturno e pouco comunicativo. Não que eu fosse uma cachoeira de alegria nos melhores momentos, é claro. A pressão estava esmagando meu ânimo. Neguei a mim mesmo minha tradicional válvula de escape, os Anais, por medo de que o Apanhador de Almas de alguma forma detectasse o que eu tinha escrito.

— Talvez seja melhor para nós se não formos associados demais a ele — acrescentei.

— O que aconteceu lá fora?

Todo mundo já sabia a versão básica. Calejado fora morto. Enforcado havia tombado. Corvo e eu, os únicos soldados a sair vivos dali. A Companhia inteira tinha uma sede insaciável por detalhes.

— Não posso lhe contar, mas diga isso a ele. Quando nenhum dos Tomados estiver próximo.

Elmo fez as contas e chegou a uma conclusão não muito distante do alvo.

— Muito bem, Chagas. Farei isso. Cuide-se.

E cuidado eu teria. Se o Destino permitisse.

Foi nesse dia que recebemos notícias das vitórias no leste. As fortalezas rebeldes caíam tão rápido quanto as tropas da Dama conseguiam marchar.

Foi também nesse dia que ouvimos que todos os quatro exércitos rebeldes ocidentais e setentrionais tinham parado para descansar, recrutar e se reequipar para um ataque contra Talismã. Não restava nada entre eles e a Torre. Isto é, nada além da Companhia Negra e seus homens derrotados.

O grande cometa está no céu, aquele porta-voz maligno de todas as grandes mudanças de sina.

O fim está chegando.

Estamos nos retirando, ainda, em direção a nosso último encontro com o Destino.

Preciso registrar um incidente final na narrativa de nossa batalha contra Calejado. Ocorreu a três dias a norte da Torre, e consistiu em outro sonho como aquele que vivenciei no alto da Escada. O mesmo sonho dourado, que pode não ter sido sonho coisa nenhuma, me prometeu que “Meus fiéis não precisam temer”. Novamente me permitiu um olhar de relance naquele rosto de parar o coração. E então se foi, e o medo retornou, nem um pouco reduzido.

Os dias se passaram. Os quilômetros se seguiram. O grande e feio bloco da Torre pairava sobre o horizonte. E o cometa ficou mais brilhante no céu noturno.