A Companhia Negra

Glen Cook · Capítulo 7 de 7

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A Companhia Negra

Capítulo Sete | Rosa

Capítulo Sete

 

ROSA

 

A furiosa discussão com o Capitão durou duas horas. Ele estava inflexível. Não aceitou meus argumentos, fossem legais ou morais. Com o tempo, outros participantes, com assuntos a tratar com o Capitão, se juntaram à refrega. Na hora em que eu realmente perdi a paciência, a maioria dos integrantes principais da Companhia estava presente: o Tenente, Duende, Calado, Elmo, Manso e vários novos oficiais recrutados em Talismã. O pouco apoio que recebi veio de uma fonte surpreendente. Calado concordou comigo, além de dois dos novos oficiais.

Saí pisando forte. Calado e Duende me seguiram. Eu estava numa fúria incontrolável, mesmo que nada surpreso com a reação. Com os rebeldes derrotados, havia pouco que pudesse incentivar a partida da Companhia. Eles seriam porcos com gororoba até o focinho. Questões de certo e errado soavam ridículas. Basicamente, quem se importava?

Ainda era cedo, no dia seguinte à batalha. Eu não tinha dormido bem e estava cheio de uma energia nervosa. Andei de um lado para o outro vigorosamente, tentando gastá-la um pouco.

Duende calculou o tempo e entrou em meu caminho quando sosseguei um pouco. Calado observava de perto.

— Podemos conversar? — indagou Duende.

— Eu andei conversando. Ninguém me escuta.

— Você está discutindo demais. Venha até aqui e sente-se um pouco.

“Aqui” era uma pilha de equipamento perto de uma fogueira onde alguns homens cozinhavam e outros jogavam Tonk. O pessoal de sempre. Eles me olharam de soslaio e deram de ombros. Estavam todos preocupados, como se temessem pela minha sanidade.

Acho que se qualquer um deles tivesse feito o que eu estava fazendo, um ano atrás, eu teria me sentido da mesma forma. Era confusão e preocupação sinceras e baseadas na amizade por um camarada.

A teimosia deles me irritava, porém eu não conseguia sustentar a irritação porque, ao mandarem Duende falar comigo, demonstraram que queriam entender.

O jogo continuou, calado e soturno inicialmente, tornando-se animado conforme eles trocavam comentários sobre o desenrolar da batalha.

— O que aconteceu ontem, Chagas? — perguntou Duende.

— Eu já contei.

— Por que não repassamos os acontecimentos? — sugeriu ele, gentilmente. — Vamos nos concentrar nos detalhes.

Eu sabia o que ele estava fazendo. Um pouco de terapia mental, baseada na premissa de que a proximidade prolongada com a Dama tinha mexido com minha cabeça. Ele estava certo. Eu fora afetado. E também havia aberto meus olhos, e tentei deixar isso bem claro ao reiterar meu dia, invocando as habilidades que desenvolvi rabiscando estes Anais, na esperança de convencê-lo de que minha postura era racional e moral, e que a de todos os outros não era.

— Você viu o que ele fez com aqueles rapazes de Remo, que tentaram pegar o Capitão de surpresa? — perguntou um dos jogadores de cartas.

Eles estavam fofocando sobre Corvo. Eu tinha me esquecido dele até então. Apurei minhas orelhas e escutei várias histórias sobre o heroísmo selvagem dele. Ao ouvi-los, era de se pensar que Corvo resgatara todo mundo na Companhia pelo menos uma vez.

— Cadê ele? — perguntou alguém.

Quase todos balançaram a cabeça.

— Deve ter morrido — sugeriu alguém. — O Capitão mandou uma tropa buscar nossos mortos. Acho que a gente vai ver o enterro dele hoje à tarde.

— O que aconteceu com a menina?

— Quando você encontrar o Corvo, vai encontrar a garota. — Elmo fungou.

— Falando na garota, vocês viram o que aconteceu quando tentaram derrubar o segundo pelotão com algum tipo de feitiço de nocaute? Foi esquisito. A menina agiu como se nada tivesse acontecido. Todos os outros caíram que nem pedras. Ela só ficou com uma cara confusa e chacoalhou Corvo. Aí ele levantou e bum, massacrou os rebeldes. A garota acordou todo mundo. Como se a mágica não pudesse tocar ela, ou coisa assim.

— Talvez seja porque ela é surda — afirmou outro soldado. — Talvez, tipo, a mágica seja som.

— Ah, quem sabe? Pena que ela não sobreviveu. Eu tinha me acostumado com ela por aí.

— Com Corvo também. A gente precisava dele para evitar que o velho Caolho trapaceasse. — Todos riram.

Olhei para Calado, que estava bisbilhotando minha conversa com Duende. Balancei a cabeça. Ele ergueu uma sobrancelha. Usei os sinais de Lindinha para lhe dizer: Eles não estão mortos. Calado gostava de Lindinha também.

O feiticeiro se levantou, parou atrás de Duende e indicou uma direção com um aceno brusco da cabeça. Ele queria falar comigo a sós. Escapei da conversa e o segui.

Expliquei que tinha visto Lindinha enquanto voltava de minha aventura com a Dama, que suspeitava que Corvo estava desertando pela única rota que acreditava que não seria vigiada. Calado franziu o cenho e perguntou por que ele faria isso.

— Sei lá. Você sabe bem como ele tem andado ultimamente. — Não mencionei minhas visões ou sonhos, pois tudo isso parecia fantástico de-mais agora. — Talvez tenha ficado de saco cheio da gente.

Calado deu um sorriso que dizia que ele não acreditava em nenhuma palavra daquilo. Ele suspirou.Quero saber por quê. O que você sabe? Ele presumia que eu sabia mais sobre Corvo e Lindinha do que qualquer outra pessoa porque sempre estava sondando detalhes para os Anais.

— Eu não sei de nada que você não saiba. Corvo passava mais tempo com o Capitão e Picles do que com qualquer outra pessoa.

Calado pensou por dez segundos e então respondeu com sinais. Vá selar dois cavalos. Não, quatro cavalos, e traga comida também. Pode ser que a gente leve alguns dias. Vou fazer perguntas. A atitude dele não aceitava discussão.

Por mim, estava ótimo. Eu tinha pensado em sair a cavalo enquanto conversava com Duende. Havia desistido do plano porque não conseguia pensar em nenhuma forma de seguir a trilha de Corvo.

Fui até a linha de defesa, onde Elmo levara os cavalos na noite anterior. Quatro deles. Por um instante considerei a chance da existência de uma força superior que nos movia. Convenci alguns homens a selar as bestas para mim enquanto arrancava alguns suprimentos de Picles. Não era fácil enrolá-lo. O sujeito queria uma autorização pessoal do Capitão. Fechamos um acordo no qual ele receberia uma menção especial nos Anais.

Calado se juntou a mim no fim das negociações. Depois de carregarmos os suprimentos no lombo das montarias, perguntei:

— Descobriu alguma coisa?

Só que o Capitão sabe de alguma coisa especial que não quer compartilhar, ele me disse com sinais. Acho que tem mais a ver com Lindinha do que com Corvo.

Grunhi. Aquilo novamente. Teria o Capitão chegado a uma conclusão semelhante à minha? E teria sido naquela manhã, enquanto discutíamos? Hum... Ele tinha uma mente astuciosa...

Acho que Corvo partiu sem a permissão do Capitão, mas com a bênção dele. Você interrogou Picles?

— Achei que você ia fazer isso.

Calado balançou a cabeça. Não tivera tempo para isso.

— Faça isso agora. Ainda tenho algumas coisas a preparar.

Corri até a tenda-hospital, me equipei com armas e achei o presente que estivera guardando para o aniversário de Lindinha. Então cacei Elmo e lhe disse que gostaria de pegar uma parte da minha cota do dinheiro que tínhamos faturado em Rosas.

— Quanto?

— O máximo que eu puder receber.

Elmo me encarou longa e duramente, e decidiu não fazer perguntas. Os homens não sabiam daquela grana. O segredo permanecera entre aqueles que tinham ido a Rosas, atrás de Rasgo. Porém, havia quem se perguntasse como Caolho conseguia pagar todas as dívidas de jogo mesmo que jamais ganhasse uma partida, e que não tivesse mais tempo para suas atividades no mercado negro.

Elmo me seguiu quando deixei a barraca dele. Encontramos Calado já montado, com os cavalos prontos para partir.

— Vão dar uma volta, é? — indagou o sargento.

— É.

Prendi o arco que ganhara da Dama na sela e montei.

Elmo examinou nossos rostos com olhos estreitos, e então se despediu:

— Boa sorte.

Ele deu meia-volta e foi embora. Olhei para Calado.

Picles afirma não saber de nada, também, sinalizou. Eu consegui fazer com que admitisse que deu rações extras a Corvo antes do começo da batalha, ontem. Ele também sabe de alguma coisa.

Bem, que inferno. Todo mundo parecia estar participando das trocas de palpites e deduções. Enquanto Calado trotava à minha frente, voltei meus pensamentos ao confronto daquela manhã, buscando pistas de alguma coisa estranha. E encontrei algumas. Duende e Elmo também tinham suas suspeitas.

Não havia como evitar passar pelo acampamento rebelde. Pena. Eu teria preferido evitá-lo. As moscas e o fedor eram inescapáveis. Quando eu e a Dama passamos por ali, parecera vazio. Engano meu. Nós é que não tínhamos visto ninguém. Os inimigos feridos e seguidores de exército estavam lá. O Uivador jogara globos neles também.

Eu havia escolhido bem nossas montarias. Além de ter trazido a égua de Pluma, tinha adquirido outras bestas da mesma variante incansável. Calado estabeleceu um ritmo acelerado, dispensando a comunicação até que, enquanto cavalgávamos pelo limite externo da região rochosa, ele refreou o cavalo e indicou com sinais que eu deveria esquadrinhar a área ao redor. Queria saber qual tinha sido a linha de voo da Dama ao se aproximar da Torre.

Disse-lhe que achava que o trajeto passara mais ou menos a um quilômetro e meio ao sul de onde estávamos. Calado me entregou as rédeas dos outros cavalos e se aproximou das rochas, avançando lentamente e estudando o solo com cuidado. Não prestei muita atenção. Ele era capaz de encontrar pistas melhor que eu.

Eu poderia ter encontrado essa trilha, porém. Calado ergueu a mão, apontando para o chão em seguida. Os dois haviam deixado a terra de-vastada mais ou menos onde a Dama e eu tínhamos cruzado a fronteira na direção contrária.

— Ele queria ganhar tempo, então não tentou encobrir os rastros — sugeri.

Calado concordou com a cabeça, olhando para oeste. Ele fez perguntas sobre as estradas.

A via principal do norte a sul passa 5 quilômetros a oeste da Torre. Era a estrada que tínhamos seguido para Forsberg. Deduzimos que Corvo iria naquela direção inicialmente. Mesmo em tempos como este, haveria tráfego suficiente para ocultar a passagem de um homem e uma criança, pelo menos de olhares ordinários. Calado acreditava ser capaz de segui-los.

— Lembre-se, este é o país dele — comentei. — Corvo o conhece melhor que nós.

Calado concordou distraído, despreocupado. Espiei o sol. Restavam talvez mais duas horas de luz. Eu me perguntei o quão grande seria a vantagem dos dois.

Alcançamos a estrada. Calado a estudou por um momento, foi alguns metros para o sul, balançou a cabeça para si mesmo. Ele me chamou, esporeando o cavalo.

Então cavalgamos aquelas montarias incansáveis, num ritmo forte, hora após hora, após o pôr do sol, a noite inteira, no dia seguinte, indo para o mar, até que acabamos muito à frente de nossas presas. As pausas foram poucas e espaçadas. Tudo em mim doía. Minha aventura com a Dama tinha sido recente demais para que eu passasse por isso.

Paramos onde a estrada contornava o sopé de uma colina encoberta pela floresta. Calado indicou um ponto nu de vegetação que daria um ótimo local de vigília. Concordei. Deixamos a estrada e subimos.

Cuidei dos cavalos e desabei.

— Tô ficando velho demais para isto — resmunguei, e adormeci imediatamente.

Calado me acordou com o crepúsculo.

— Estão chegando? — indaguei.

Ele balançou a cabeça e disse com sinais que não deveríamos esperá-los antes de amanhã, mas que eu deveria ficar de olho mesmo assim, no caso de Corvo estar viajando à noite.

Então me sentei sob a pálida luz do cometa, embrulhado num cobertor, tremendo com o vento invernal, hora após hora, sozinho com pensamentos que não queria ter, e não vi nada além de uma manada de cervos atravessando da mata para as terras cultivadas, na esperança de encontrar um pasto melhor.

Calado me substituiu algumas horas antes da alvorada. Ah, alegria, alegria. Agora eu poderia me deitar, tremer e pensar em coisas que não queria pensar. Mas consegui adormecer em algum momento, pois já estava claro quando Calado apertou meu ombro.

— Estão chegando?

Ele confirmou.

Eu me levantei, esfreguei os olhos com as costas das mãos, fitei a estrada. Realmente, duas silhuetas vinham para o sul, uma mais alta que a outra. Mas, naquela distância, poderiam ser qualquer adulto e qualquer criança. Empacotamos tudo e preparamos os cavalos apressadamente, então descemos o morro. Calado queria esperar um pouco mais adiante, depois da curva. Ele me mandou aguardar na estrada atrás deles, por segurança. Era preciso esperar o inesperado, no caso de Corvo.

Calado partiu. Eu esperei, ainda tremendo, me sentindo muito sozinho. Os viajantes galgaram um aclive. Sim. Corvo e Lindinha. Andavam apressados, mas Corvo parecia destemido, certo de que ninguém os seguia. Passaram por mim. Esperei um minuto, deixei a mata e os segui ao redor do pé do morro.

Calado tinha parado o cavalo no meio da estrada, e estava um pouco inclinado para a frente, parecendo esguio, malévolo e sombrio. Corvo parara a uns 15 metros do feiticeiro, sacando aço. Segurava Lindinha atrás de si.

Ela me viu chegando, sorriu e acenou. Eu sorri de volta, apesar da tensão do momento.

Corvo girou. Um rosnado escapou de seus lábios. Raiva, talvez até medo, ardia nos olhos dele. Parei além do alcance das facas. O homem não parecia disposto a conversar.

Permanecemos parados por vários minutos. Ninguém queria falar primeiro. Olhei para Calado. O mago deu de ombros. O plano dele só ia até aquele momento.

A curiosidade tinha me trazido até aqui, e eu havia saciado parte dela. Os dois estavam vivos e em fuga. Só o motivo permanecia obscuro.

Para minha surpresa, Corvo cedeu primeiro.

— O que vocês estão fazendo aqui, Chagas?

Eu pensava que ele seria capaz de vencer uma pedra num embate de teimosia.

— Procurando você.

— Por quê?

— Curiosidade. Calado e eu estamos interessados em Lindinha. Estávamos preocupados.

Corvo franziu o cenho. Não estava ouvindo o que esperara ouvir.

— Vocês podem ver que ela está bem.

— É. Parece que sim. E quanto a você?

— Eu pareço não estar bem?

Lancei um olhar a Calado. Ele não tinha nada a contribuir.

— É de se estranhar, Corvo. É de se estranhar.

Ele estava na defensiva.

— O que diabos quer dizer com isso?

— O cara dá um gelo nos próprios camaradas. Trata eles que nem merda. Então deserta. As pessoas ficam curiosas a ponto de ir descobrir o que está acontecendo.

— O Capitão sabe onde vocês estão?

Dei outra olhada em Calado. Ele confirmou.

— Sabe. Quer nos dar uma explicação, velho amigo? Eu, Calado, o Capitão, Picles, Elmo, Duende... todos nós talvez tenhamos uma ideia...

— Não tente me deter, Chagas.

— Por que está sempre procurando briga? Quem falou em deter você? Se eles quisessem que você fosse detido, não estaria aqui agora. Nem teria se afastado da Torre.

Corvo estava espantado.

— Eles perceberam o que iria acontecer, Picles e o velho. Deixaram vocês partir. O resto do pessoal, bem, a gente quer saber por quê. Quero dizer, bem, achamos que já sabemos e, se for pelo motivo que pensamos, então pelo menos você tem minha bênção. E a de Calado. E, acho, de todo mundo mais que não atrapalhou você.

Corvo franziu o cenho. Ele sabia o que eu estava insinuando, mas não conseguia entender. Como ele não era um dos veteranos da Companhia, havia uma falha na comunicação.

— É mais ou menos assim — expliquei. — Eu e Calado concluímos que vocês vão ser listados como mortos em ação. Vocês dois. Ninguém precisa saber que não foi assim. Mas, sabe, é como se você estivesse fugindo de casa. Mesmo considerando que todos desejamos seu bem, ficamos talvez um pouco magoados com a forma como você fez o que fez. Votamos pela sua entrada na Companhia. Você enfrentou o inferno do nosso lado. Você... Olhe só o que nós dois passamos juntos. E você nos trata que nem merda. Isso não é legal.

A mensagem foi recebida.

— Às vezes surge alguma coisa tão importante que não dá para contar nem a seus melhores amigos — disse Corvo. — Vocês todos poderiam ter morrido por isso.

— Achei que fosse isso. Ei! Relaxa.

Calado tinha desmontado e iniciado uma conversa com Lindinha. Ela parecia não ver a tensão entre os amigos dela. Estava contando a Calado o que tinham feito e aonde iam.

— Você acha essa uma boa ideia? — perguntei. — Opala? Preciso lhe contar algumas coisas, então. Primeiro, a Dama ganhou. Acho que você deduziu isso. Viu que isso iria acontecer, ou não teria caído fora. Certo. Porém, o mais importante: o Manco voltou. Ela não matou o cara. A Dama o reconstruiu, e agora ele é o garoto número 1 dela.

Corvo ficou branco. Acho que nunca tinha visto o sujeito realmente amedrontado antes. Mas o medo não era por ele mesmo. Corvo se considerava um homem morto, um homem sem nada a perder. Mas agora ele tinha Lindinha, tinha um causa. Precisava continuar vivo.

— É. O Manco. Calado e eu conversamos muito sobre isso. — Na verdade, a ideia só tinha me ocorrido um momento antes. Achei que soaria melhor se Corvo achasse que havíamos dedicado a devida consideração ao plano. — Achamos que a Dama vai entender a coisa mais cedo ou mais tarde. Ela vai querer fazer um movimento. Se fizer a conexão com você, o Manco virá em seu rastro. Ele conhece você. Vai começar a busca em seu velho território, achando que você foi atrás de antigos conhecidos. Tem algum amigo capaz de esconder você do Manco?

Corvo suspirou, parecendo perder estatura. Guardou as armas.

— Era meu plano. Pensava em cruzar o mar até Berílio e nos esconder por lá.

— Tecnicamente, Berílio é apenas aliada da Dama, mas a palavra dela é lei naquela cidade. Você precisa fugir para algum lugar onde nunca ouviram falar nela.

— Onde?

— Esta não é minha parte do mundo. — Corvo parecia calmo agora, então desmontei. Ele me espiou, cauteloso, e então relaxou. — Eu já sei tudo que vim descobrir. Calado?

Calado balançou a cabeça e continuou a conversa com Lindinha.

Tirei a bolsa de dinheiro do meu saco de dormir e a joguei para Corvo.

— Você deixou sua parte da grana de Rosas. — Trouxe os cavalos extras. — Vão viajar mais rápido se forem a cavalo.

Corvo lutou consigo mesmo, tentando agradecer, sem conseguir superar as barreiras que tinha construído ao redor do homem que trazia dentro de si.

— Acho que poderíamos rumar para...

— Eu não quero saber. Já encontrei o Olho duas vezes. Ela está decidida a registrar o lado dela para a posteridade. Não que ela queira parecer boa, mas quer que os fatos sejam lembrados sem distorção. A Dama sabe que a história se reescreve. Não quer que isso aconteça com ela. E sou o garoto escolhido para escrever os fatos.

— Deixe isso para trás, Chagas. Venha conosco. Você e Calado. Venham conosco.

Tinha sido uma noite longa e solitária. Eu pensara muito nisso.

— Não posso, Corvo. O Capitão precisa ficar onde está, mesmo que não goste disso. A Companhia tem que ficar. Eu sou da Companhia. Estou velho demais para fugir de casa. Vamos lutar a mesma batalha, eu e você, mas farei minha parte ficando com a família.

— Vamos lá, Chagas. Um bando de canalhas mercenários...

— Ei! Pode parar. — Minha voz soou mais dura do que eu pretendera. Corvo se calou. — Você se lembra daquela noite em Lordes, antes de partirmos atrás de Sussurro? Quando li os Anais? O que você me disse?

Corvo levou vários segundos para responder.

— Lembro. Que você me fizera sentir o que significava fazer parte da Companhia Negra. Certo. Talvez eu não entenda isso, mas eu senti.

— Obrigado. — Peguei outro embrulho em meu saco de dormir. Este era para Lindinha. — Vá conversar um pouco com Calado, sim? Tenho um presente de aniversário para entregar.

Corvo me olhou um momento e então concordou. Eu me virei para que minhas lágrimas não ficassem óbvias. E, depois que me despedi da menina, e desfrutei da felicidade dela com meu mísero presente, fui até a beira da estrada e chorei um pouco, em silêncio. Calado e Corvo fingiram não ver.

Eu sentiria saudades de Lindinha. E passaria o resto de meus dias temendo pela vida dela. Lindinha era preciosa, perfeita, sempre feliz. Os acontecimentos daquela vila ficaram para trás. Adiante, porém, o inimigo mais terrível esperava por ela. Nenhum de nós queria tal destino para a menina.

Eu me levantei, apagando todos os sinais de lágrimas, e chamei Corvo para uma conversa pessoal.

— Eu não sei quais são seus planos. Não quero saber. Mas fique sabendo disso, por segurança. Quando a Dama e eu alcançamos o Apanhador de Almas ontem, ele tinha uma resma inteira daqueles papéis que descobrimos no acampamento de Sussurro. Ele nunca os entregou à Dama. Ela não sabe que eles existem. — Expliquei onde poderiam ser encontrados. — Vou até lá daqui a umas duas semanas. Se os papéis estiverem lá, verei o que posso descobrir neles.

Corvo me fitou com um rosto frio e inexpressivo. Ele estava pensando que minha sentença de morte estava assinada caso eu fosse vasculhado pelo Olho novamente. Mas não disse nada.

— Obrigado, Chagas. Se eu passar por lá algum dia, vou dar uma olhada.

— Certo. Pronto para partir, Calado?

Calado confirmou.

— Lindinha, venha cá. — Eu a espremi num longo e apertado abraço. — Seja boa para Corvo. — Desatei o amuleto que Caolho me dera, prendi ao braço da menina e disse a Corvo: — Isto a avisará se Tomados hostis se aproximarem. Não me pergunte como, mas funciona. Sorte.

— É.

Corvo ficou ali parado, olhando enquanto montávamos, ainda espantado. Ergueu uma das mãos, incerto, e a deixou cair.

— Vamos para casa — disse eu a Calado, e fomos embora.

Foi um incidente que jamais aconteceu. Afinal, não tinham Corvo e a órfã dele morrido nos portões de Talismã?

De volta à Companhia. De volta aos negócios. De volta à passagem dos anos. De volta a estes Anais. De volta ao medo.

Trinta e sete anos até a próxima passagem do cometa. A visão tem que ser falsa. Eu jamais sobreviverei por tanto tempo. Será?

Você terminou A Companhia Negra

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