A Companhia Negra
Capítulo Dois | Corvo
Capítulo Dois
CORVO
-A travessia de Berílio comprova meu ponto de vista — grunhiu Caolho enquanto bebia de uma caneca de estanho. — A Companhia Negra não pertence ao mar. Garota! Mais cerveja! — Ele acenou com a caneca. A garota não conseguiria entender de outra forma. Caolho se recusava a aprender as línguas do norte.
— Você está bêbado — observei.
— Que perceptivo. Que tal anotar, cavalheiros? O Chagas, nosso estimado mestre de artes das letras e medicina, teve a grande perspicácia de descobrir que estou embriagado. — Ele pontuou o discurso com arrotos e erros de pronúncia. Em seguida esquadrinhou a plateia com o olhar de solenidade sublime de que só os bêbados são capazes de fazer.
A garota trouxe outra jarra e uma garrafa para Calado. Ele também estava disposto a consumir mais de seu veneno favorito. Tomava um vinho azedo de Berílio que era perfeitamente adequado à personalidade dele. As bebidas foram pagas.
Havia sete de nós, ao todo. Mantínhamos a cabeça baixa. O lugar estava cheio de marinheiros. Éramos forasteiros, estrangeiros, o tipo escolhido para levar uma surra quando a briga começava. Com exceção de Caolho, todos nós preferíamos reservar as lutas para quando éramos pagos.
Agiota meteu a cara feia pela porta da rua. Os olhinhos dele se apertaram. Finalmente nos viu.
Agiota. Ele ganhou esse nome porque fatura emprestando dinheiro à Companhia. Não gosta do apelido, mas diz que qualquer coisa é melhor que o epíteto que lhe fora conferido pelos pais camponeses: Batatinha-doce.
— Ei! É o Batatinha-doce! — rugiu Caolho. — Venha cá, Docinho. Bebidas por minha conta. Tô bêbado demais para pensar direito. — Ele estava mesmo. Quando se encontrava sóbrio, a mão de Caolho era mais fechada que casa de moça virgem em dia de festa.
Agiota estremeceu e olhou em volta furtivamente. Ele era assim.
— O Capitão quer ver vocês — informou.
Trocamos olhares. Caolho se aquietou. Não tínhamos visto muito o Capitão ultimamente. Ele passava o tempo todo andando com os figurões do exército imperial.
Elmo e o Tenente se levantaram. Eu fiz o mesmo e fui na direção de Agiota.
O taverneiro urrou. Uma garçonete disparou até a porta de entrada, bloqueando a saída. Um sujeito enorme, que lembrava um touro imbecil, veio de um quarto dos fundos. Ele carregava uma clava prodigiosamente retorcida em cada uma das mãos grandes como presuntos. Parecia confuso.
Caolho rosnou. O resto de nosso grupo se levantou, pronto para qualquer coisa.
Os marujos, farejando um tumulto, começaram a escolher lados. A maioria contra nós.
— O que infernos está acontecendo? — gritei.
— Por favor, senhor — rogou a garota próxima à porta. — Seus amigos não pagaram a última rodada. — Ela lançou um olhar maldoso ao taverneiro.
— Mas é claro que pagaram.
A política da casa era pagamento na entrega. Eu olhei para o Tenente. Ele concordou. Lancei um olhar ao taverneiro, percebendo a ganância do sujeito. Ele achou que estávamos bêbados o bastante para pagar duas vezes.
— Caolho, você escolheu este antro de ladrões — disse Elmo. — Agora dê um jeito neles.
Dito e feito. Caolho guinchou como um porco conhecendo o açougueiro...
Um amontoado de feiura com quatro braços e do tamanho de um chimpanzé irrompeu de debaixo de nossa mesa, se atirando contra a garota à porta e deixando marcas de presas na coxa dela. Então a coisa escalou a montanha de músculos com clavas, e o homem já sangrava de uma dúzia de feridas antes de entender o que estava acontecendo.
Uma fruteira numa das mesas no centro do salão desapareceu numa névoa negra, ressurgindo um segundo depois, transbordando com cobras venenosas.
O taverneiro ficou de queixo caído. Escaravelhos saíram da boca do sujeito.
Saímos em meio à confusão. Caolho uivou e riu por vários quarteirões.
O Capitão nos encarou. Nós nos escorávamos uns nos outros diante da mesa dele. Caolho ainda sofria ataques ocasionais de risadinhas. Até mesmo o Tenente tinha dificuldades em manter uma expressão de seriedade.
— Eles estão bêbados — informou o Capitão ao Tenente.
— Estamos bêbados — concordou Caolho. — Estamos palpavelmente, plausivelmente e perturbadoramente bêbados.
O Tenente acertou um soco nos rins do feiticeiro.
— Sentem-se, homens. Tentem se comportar enquanto estiverem aqui.
Aqui, no caso, era um estabelecimento de jardins elegantes que estava várias léguas acima socialmente de nossa última parada. Aqui até mesmo as putas tinham títulos. Plantas e truques de paisagismo dividiam os jardins em áreas semi-isoladas. Havia laguinhos, caramanchões, trilhas de pedras e um perfume onipresente de flores no ar.
— Um pouco sofisticado demais para nós — comentei.
— Qual é o acontecimento? — indagou o Tenente. O resto de nós disputou cadeiras.
O Capitão tinha reservado uma enorme mesa de pedra. Vinte pessoas poderiam ter se sentado em volta dela.
— Somos convidados. Ajam como tal.
Ele mexeu no distintivo sobre o lado esquerdo do peito, que o identificava como alguém protegido pelo Apanhador de Almas. Todos nós tínhamos um daqueles, mas raramente usávamos. O gesto do Capitão sugeria que nós corrigíssemos aquela falha.
— Somos convidados dos Tomados? — perguntei. Lutei contra a embriaguez. Aquela reunião precisava ser registrada nos Anais.
— Não. Os distintivos são para benefício da casa.
O Capitão indicou os jardins com um gesto. Todas as pessoas visíveis usavam broches declarando alinhamento com um ou outro Tomado. Reconheci alguns símbolos. O Uivante. Rastejador. Arauto da Tormenta. O Manco.
— Nosso anfitrião quer se alistar na Companhia.
— Ele quer entrar pra Companhia Negra? — perguntou Caolho. — Qual é o problema desse cara? — Havia anos desde que aceitáramos um recruta pela última vez.
O Capitão deu de ombros e sorriu.
— Há muitos anos um certo mandingueiro se juntou a nós.
Caolho resmungou.
— E ele está muito arrependido desde então.
— E por que ele ainda está aqui? — inquiri.
Caolho não respondeu. Ninguém sai da Companhia a não ser num caixão. A tropa é o lar.
— E como é esse recruta? — indagou o Tenente.
O Capitão fechou os olhos.
— Incomum. Pode vir a ser valioso. Gosto dele. Mas julguem por si mesmos. Ele está aqui. — O Capitão apontou um homem que olhava os jardins.
O homem vestia roupas cinzentas, esfarrapadas e remendadas. Era de altura modesta, magro, crepuscular. Moreno e bonito. Meu palpite é que tivesse uns 20 e muitos anos. Não era nada impressionante.
Ou talvez fosse. Com um segundo olhar você percebia algo incomum. Uma intensidade, uma ausência de expressão, algo na postura dele. O sujeito não estava intimidado pelo jardim.
As pessoas olhavam para ele e torciam o nariz. Não viam o homem, apenas os farrapos. Dava para sentir a repulsa delas. Já era um absurdo que nós tivéssemos recebido permissão de entrar, e agora havia um catador de trapos lá.
Um atendente ricamente paramentado veio mostrar ao homem a entrada pela qual ele tinha passado obviamente por engano.
O sujeito veio até nós, ignorando o atendente como se este não existisse. Havia espasmos, uma rigidez nos movimentos dele que sugeriam que o homem se recuperava de ferimentos recentes.
— Capitão?
— Boa tarde. Por favor, sente-se.
Um pesado general de estado-maior se separou de um grupo de oficiais graduados e de jovens e esguias mulheres. Deu alguns passos em nossa direção e parou. Estava tentado a expressar seu preconceito.
Eu o reconheci. Lorde Jalena. Ele era tão importante quanto alguém que não era um dos Dez que Foram Tomados poderia se tornar. O rosto dele estava inchado e avermelhado. Se o Capitão o percebeu, fingiu que não.
— Cavalheiros, este é... Corvo. Quer se juntar a nós. Corvo não é seu nome de nascença. Não importa. O resto de vocês mentiu também. Apresentem-se e façam perguntas.
Havia algo de estranho no tal de Corvo. Éramos convidados dele, aparentemente. Ele não tinha modos de mendigo, mas sua aparência era a de um monte de farrapos velhos.
Lorde Jalena chegou. Ele ofegava. Eu adoraria botar porcos como ele para sofrer metade do que eles infligem às próprias tropas.
O general fez uma careta para o Capitão.
— Senhor — começou ele, entre ofegantes expirações. — Suas relações são tais que não podemos negar sua presença mas... Os Jardins são para pessoas de nível. Já é assim há 200 anos. Não admitimos...
O Capitão abriu um sorriso curioso.
— Sou um convidado, milorde — respondeu ele, suavemente. — Se o senhor não gosta de minha companhia, reclame com meu anfitrião. — Ele apontou para Corvo.
Jalena deu meia-volta à direita.
— Senhor... — O general ficou boquiaberto e de olhos arregalados. — Você!
Corvo encarou Jalena. Nenhum músculo estremeceu. Nem uma pálpebra tremeu. A cor fugiu das bochechas do gordo. Jalena se virou para o próprio grupo quase numa súplica, olhou para Corvo de novo, virou-se para o Capitão. O general moveu os lábios mas nenhuma palavra saiu.
O Capitão se aproximou de Corvo. Este aceitou o distintivo do Apanhador de Almas, prendendo-o do lado esquerdo da roupa.
Jalena ficou ainda mais pálido. Ele recuou.
— Parece que ele conhece você — observou o Capitão.
— Ele achava que eu estava morto.
Jalena alcançou o grupo. Ele falou apressadamente e apontou. Homens pálidos nos olharam. Eles discutiram rapidamente e então fugiram do jardim.
Corvo não explicou.
— Vamos aos negócios? — foi tudo que ele disse.
— Você poderia esclarecer o que acabou de acontecer? — A voz do Capitão era de uma suavidade perigosa.
— Não.
— Melhor reconsiderar. Sua presença pode pôr a Companhia inteira em perigo.
— Isso não vai acontecer. É um assunto pessoal. Não vou trazê-lo comigo.
O Capitão pensou no assunto. Ele não costumava se intrometer no passado de um homem. Não sem motivo. Ele decidiu que tinha um motivo.
— E como você fará isso? Obviamente, você é importante para Lorde Jalena.
— Não para Jalena. Para os amigos dele. É uma velha história. Vou resolver tudo antes de me juntar a vocês. Cinco pessoas terão de morrer para terminar esse capítulo da minha história.
Isso soava interessante. Ah, o cheiro de mistério e feitos sombrios, de vigarices e vingança. O filé de uma boa narrativa.
— Eu sou Chagas. Algum motivo especial para não compartilhar a história?
Corvo me encarou, obviamente sob rígido autocontrole.
— É pessoal, antiga e vergonhosa. Não quero falar sobre ela.
— Nesse caso, não posso votar na aceitação — afirmou Caolho.
Dois homens e uma mulher chegaram por um caminho de pedra, parando no lugar onde o grupo do Lorde Jalena tinha se reunido. Participantes atrasados? Eles estavam surpresos. Eu os observei debater o assunto.
Elmo votou com Caolho. Assim como o Tenente.
— Chagas? — indagou o Capitão.
Eu votei que sim. Farejava um mistério e não queria que ele escapasse.
— Eu sei uma parte de sua história — revelou o Capitão. — Por isso vou votar com Caolho. Pelo bem da Companhia. Eu gostaria de ter você conosco. Mas... resolva tudo antes de partirmos.
Os atrasados vieram em nossa direção, com os narizes empinados, mas determinados a descobrir o que tinha acontecido ao grupo.
— Quando vocês vão partir? — perguntou Corvo. — Quanto tempo eu tenho?
— Amanhã. Alvorada.
— O quê? — fiquei surpreso.
— Espere aí — exclamou Caolho. — Como assim tão cedo?
Até mesmo o Tenente, que nunca questionava nada, se espantou.
— Nós íamos receber umas duas semanas de folga. — Ele tinha feito amizade com uma dama, a primeira desde que o conheci.
O Capitão deu de ombros.
— Eles precisam de nós no norte. O Manco perdeu a fortaleza em Avença para um rebelde chamado Rasgo.
Os atrasados chegaram.
— O que aconteceu com o grupo reunido na Gruta das Camélias? — inquiriu um dos homens, com uma voz chorosa e anasalada. Fiquei irritado. Ela estava carregada de arrogância e desprezo. Eu não ouvia nada como aquilo desde que me juntei à Companhia. As pessoas em Berílio não usavam aquele tom.
Eles não conhecem a Companhia Negra em Opala, eu disse a mim mesmo. Ainda não.
A voz atingiu Corvo como um golpe de marreta na nuca. Ele enrijeceu. Por alguns momentos seus olhos eram gelo puro. Por fim, um sorriso se abriu em seu rosto, o sorriso mais cruel que já vi.
— Eu sei por que Jalena sofreu o ataque de indigestão — sussurrou o Capitão.
Ficamos sentados imóveis, paralisados pela iminência mortal. Corvo se virou lentamente, levantando-se. Os três viram seu rosto.
Voz-chorosa engasgou. O companheiro dele começou a tremer. A mulher abriu a boca, de onde nenhum som saiu.
De onde Corvo tirou a faca, eu não sei. Foi quase rápido demais para ver. Voz-chorosa estava sangrando de um corte na garganta. O amigo tinha aço no peito. E Corvo apertava o pescoço da mulher com a mão esquerda.
— Não. Por favor — sussurrou ela, sem força. Ela não esperava misericórdia.
Corvo apertou, forçando-a a se ajoelhar. O rosto da mulher ficou roxo, inchado. A língua rolou para fora. Ela segurou o pulso de Corvo e estremeceu. Corvo a ergueu, olhando-a nos olhos até que estes rolaram para trás e o corpo da mulher amoleceu. Ela estremeceu de novo. Morreu.
Corvo afastou a mão num gesto rápido. Encarou a garra rígida e trêmula. O rosto parecia assombrado. Rendeu-se aos tremores generalizados.
— Chagas! — ralhou o Capitão. — Você não diz ser um médico?
— Sim.
As pessoas começaram a reagir. O jardim inteiro observava. Verifiquei Voz-chorosa. Morto como uma pedra. Assim como o amigo. Eu me virei para a mulher.
Ele estava ajoelhado. Segurava a mão esquerda da moça. Havia lágrimas nos olhos dele. Ele tirou uma aliança de casamento de ouro que a mulher usava e guardou no bolso. Foi tudo que pegou, mesmo que ela vestisse uma fortuna em joias.
Meu olhar se encontrou com o dele, por sobre o corpo. Havia novamente gelo nos olhos de Corvo, me desafiando a dar voz à minha suspeita.
— Não quero soar histérico — grunhiu Caolho. — Mas por que nós não caímos fora daqui?
— Boa ideia — comentou Elmo, começando a andar para a saída.
— Vamos lá! — falou o Capitão comigo novamente. Ele tomou o braço de Corvo. Eu os segui.
— Meus assuntos estarão resolvidos ao amanhecer — afirmou Corvo.
O Capitão olhou para trás.
— É — foi tudo o que ele disse.
Pensei a mesma coisa.
Mas nós deixaríamos Opala sem ele.
O Capitão recebeu várias mensagens bem desagradáveis naquela noite.
— Aqueles três provavelmente eram parte da elite — foi o único comentário dele.
— Eles vestiam os distintivos do Manco — observei. — Qual é a história de Corvo, afinal? Quem é ele?
— Alguém que não se deu bem com o Manco. Que foi sacaneado e abandonado para morrer.
— A mulher era algo que ele não tinha lhe contado?
O Capitão deu de ombros. Tomei isso como uma confirmação.
— Aposto que era a esposa dele. Talvez ela o tenha traído.
Esse tipo de coisa era comum aqui. Conspirações, assassinatos e golpes descarados. Toda a diversão da decadência. A Dama não desencoraja nada. Talvez esses joguinhos a divirtam.
Conforme nós avançamos em direção ao norte, nos aproximávamos do coração do império. Cada dia nos levava a um território emocionalmente mais sombrio. Os moradores pareciam cada vez mais casmurros, severos e taciturnos. Aquelas não eram terras felizes, apesar da estação.
Chegou o dia em que nós contornamos a própria alma do império, a Torre em Talismã, construída pela Dama após sua ressurreição. Cavaleiros de olhos endurecidos nos escoltaram. O mais perto que chegamos foi 5 quilômetros. Mesmo assim, a silhueta da Torre se erguia sobre o horizonte. Era um imenso cubo de pedra negra, com pelo menos 150 metros de altura.
Eu a observei o dia inteiro. Como seria nossa senhora? Será que eu a encontraria algum dia? Ela me intrigava. Naquela noite escrevi um exercício de narrativa no qual eu tentava caracterizá-la. O exercício se transformou numa fantasia romântica.
Na tarde seguinte encontramos um mensageiro montado, de rosto pálido, que cavalgava ao sul à procura de nossa Companhia. Os distintivos dele o proclamavam um seguidor do Manco. Nossos batedores o trouxeram ao Tenente.
— Vocês estão sem pressa alguma, não estão? Acham que a vida é mole? Vocês são esperados em Forsberg. Parem de fazer merda por aí.
O Tenente é um homem calado, acostumado ao respeito por causa da patente. Ficou tão espantado que nada disse. O mensageiro ficou mais ofensivo.
— Qual é seu posto? — inquiriu o Tenente.
— Cabo Mensageiro a serviço do Manco. Amigão, melhor começar a se apressar. Ele não tolera essas merdas.
O Tenente é o disciplinador da Companhia. É um dos fardos que ele retira das costas do Capitão. Ele é um cara justo, razoável.
— Sargento! — O Tenente chamou Elmo. — Venha cá. — Ele estava furioso. Geralmente, só o Capitão chama Elmo de sargento.
Elmo estava cavalgando com o Capitão. Ele trotou até a vanguarda da coluna. O Capitão veio junto.
— Senhor? — perguntou Elmo.
O Tenente fez a Companhia parar.
— Açoite esse aldeão até ele aprender algo sobre respeito.
— Sim, senhor. Otto. Crispin. Venham ajudar.
— Vinte chibatadas devem bastar.
— Vinte chibatadas então, senhor.
— O que diabos você acha que está aprontando? Nenhum soldadinho de merda vai...
O Capitão o interrompeu.
— Tenente, acho que isso pede mais dez chibatadas.
— Sim, senhor. Elmo?
— Trinta chibatadas então, senhor.
Elmo deu um soco. O mensageiro caiu da sela. Otto e Crispin o pegaram e o levaram até uma cerca, pendurando o mensageiro nela. Crispin rasgou as costas da camisa do sujeito com a faca.
Elmo aplicou os golpes com o rebenque de montaria do Tenente. Não usou de força excessiva. Não havia rancor nisso, apenas uma mensagem àqueles que consideravam a Companhia Negra como algo de segunda classe.
Eu estava lá, com meus equipamentos, quando Elmo terminou.
— Tente relaxar, rapaz. Sou médico. Vou limpar suas costas e aplicar as bandagens. — Dei uns tapinhas amistosos no rosto dele. — Você aguentou muito bem, para um nortista.
Elmo entregou a ele uma nova camisa quando eu terminei. Ofereci alguns conselhos não solicitados sobre o tratamento e então sugeri:
— Apresente-se ao Capitão como se nada disso tivesse acontecido. — Apontei o Capitão... — Bem.
Nosso amigo Corvo se juntou a nós. Ele observava do lombo de um antílope-ruão suado e poeirento.
O mensageiro aceitou meu conselho.
— Diga ao Manco que estou viajando o mais rápido que posso. Não vou correr a ponto de ficar cansado demais para lutar quando chegar lá — respondeu o Capitão.
— Sim, senhor. Eu direi a ele, senhor. — Cuidadosamente, o mensageiro montou o cavalo. Ele escondeu bem seus sentimentos.
— O Manco vai arrancar seu coração por isso — comentou Corvo.
— O desprazer do Manco não me diz respeito. Pensei que você fosse se juntar a nós antes de partirmos de Opala.
— Demorei a fechar as contas. Um dos alvos nem estava na cidade. Lorde Jalena avisou ao outro. Precisei de três dias para encontrá-lo.
— E o que saiu da cidade?
— Decidi me juntar a vocês em vez de caçá-lo.
Não era uma resposta satisfatória, mas o Capitão a contornou.
— Não posso deixar você se alistar enquanto tiver interesses externos.
— Eu resolvi relevar o caso. Paguei a dívida mais importante. — Corvo se referia à mulher. Eu podia sentir.
O Capitão o encarou com azedume.
— Muito bem. Cavalgue com o pelotão de Elmo.
— Obrigado. Senhor. — Aquilo soou estranho. Não era um homem acostumado a dizer “senhor” para ninguém.
Nossa jornada setentrional continuou, passando por Olmo, entrando no Saliente, atravessando Rosas e seguindo ainda mais para o norte, até Forsberg. O lugar que outrora fora um reino agora se tornara um sangrento campo de matança.
A cidade de Remo fica no extremo norte de Forsberg, e nas florestas acima está a Terra dos Túmulos, onde a Dama e o amante dela, o Dominador, foram enterrados há quatro séculos. As persistentes investigações necromânticas dos magos de Remo ressuscitaram a Dama e os Dez que Foram Tomados de seus sonhos negros. Agora seus descendentes, cheios de culpa, enfrentavam a Dama.
O sul de Forsberg permanecia enganadoramente pacífico. Os camponeses nos receberam sem entusiasmo, mas deram uma bela recepção a nosso dinheiro.
— É uma grande novidade ver os soldados da Dama pagando por alguma coisa — explicou Corvo. — Os Tomados simplesmente pegam o que querem.
O Capitão grunhiu. Teríamos feito a mesma coisa se não tivéssemos recebido instruções para o contrário. Apanhador de Almas havia instruído que nós fôssemos cavalheiros. Ele dera ao Capitão um gordo baú de guerra. O Capitão estava disposto a concordar. Não havia sentido em fazer inimigos desnecessariamente.
Já viajávamos havia dois meses. Deixamos 1.600 quilômetros para trás. Estávamos exaustos. O Capitão decidiu que iríamos descansar à beira da zona de guerra. Talvez ele estivesse desistindo da ideia de servir à Dama.
De qualquer maneira, não havia por que procurar problemas. Não quando deixar de lutar paga a mesma coisa.
O Capitão nos guiou até uma floresta. Após a montagem do acampamento, ele falou com Corvo. Eu observei.
Curioso. Havia uma conexão se desenvolvendo entre eles. Eu não podia compreendê-la porque não sabia o bastante sobre nenhum dos dois. Corvo era um novo enigma, o Capitão era um velho mistério.
Durante todos os anos em que eu conheci o Capitão, não aprendi praticamente nada sobre ele. Só uma pista aqui e outra ali, encorpadas pela especulação.
Ele nascera nas Cidades Preciosas. Era um soldado profissional. Alguma coisa tinha destruído sua vida pessoal. Provavelmente uma mulher. Ele abandonou posto e títulos e se tornou um errante. Acabou por se juntar a nosso bando de exilados espirituais.
Todos temos nossos passados. Eu suspeito que nós os mantemos nebulosos não porque estamos nos escondendo de nossos ontens, mas porque achamos que projetaremos silhuetas mais românticas se rolarmos os olhos e soltarmos pistas sutis sobre lindas mulheres que permanecerão para sempre fora de nosso alcance. Aqueles homens cujas histórias eu tenho desencavado estão fugindo da lei, não de enlaces amorosos trágicos.
O Capitão e o Corvo, porém, obviamente tinham encontrado algo em comum.
O acampamento estava montado. As patrulhas em curso. Nós nos acomodamos para descansar. Mesmo que fosse uma região conturbada, nenhuma das forças em guerra percebera nossa presença de imediato.
Calado estava usando suas habilidades para incrementar a vigilância de nossas sentinelas. Ele detectou espiões dentro do perímetro de nossas patrulhas externas e avisou a Caolho. Este relatou ao Capitão.
O Capitão abriu um mapa sobre um toco de árvore que tínhamos transformado em mesa de carteado, depois de despejar a mim, Caolho, Duende e vários outros.
— Onde estão eles?
— Dois aqui. Mais dois ali. Outro aqui.
— Alguém mande os patrulheiros sumirem. Vamos nos esgueirar para fora daqui. Duende. Cadê o Duende? Mande Duende começar as ilusões. — O Capitão achou melhor não criar confusão. Uma decisão louvável, na minha opinião.
— Onde está o Corvo? — perguntou ele alguns minutos depois.
— Acho que foi atrás dos espiões — respondi.
— O quê? Ele é idiota? — O semblante do Capitão ficou sombrio. — O que diabos você quer?
Duende guinchou como um rato pisoteado. Ele guincha nos melhores momentos. O esporro do Capitão o fez soar como um filhote de pássaro.
— Você mandou me chamar.
O Capitão andou, pisoteando num círculo, rosnando e fazendo cara feia. Se ele tivesse o talento de um Duende ou um Caolho, fumaça preta estaria saindo de seus ouvidos.
Eu pisquei para Duende, que sorriu como um sapão. Essa bamboleante dancinha de guerra era só um aviso para que ninguém mexesse com ele. O Capitão arrumou os mapas, lançou olhares sombrios e se virou para mim.
— Não gosto disso. Foi você quem o mandou fazer isso?
— Claro que não. — Eu não tentava criar a história da Companhia, eu apenas a registrava.
E então Corvo apareceu. Ele jogou um corpo aos pés do Capitão, exibindo uma fileira de prêmios macabros.
— O que diabos...
— Polegares. Eles são considerados troféus nesta região.
O Capitão ficou verde.
— E para que serve o cadáver?
— Meta os pés dele no fogo. Deixe-o aqui. Não vão perder tempo perguntando como nós descobrimos que eles estavam aqui.
Caolho, Duende e Calado lançaram um encantamento sobre a Companhia. Nós escapulimos, lisos como um peixe nas mãos de um pescador frouxo. Um batalhão inimigo, que estivera de tocaia, sequer nos farejou. Fomos direto para o norte. O Capitão planejava encontrar o Manco.
Naquela mesma tarde, Caolho irrompeu numa canção de marcha. Duende grasnou em protesto. Caolho sorriu e cantou mais alto.
— Ele está mudando a letra! — guinchou Duende.
Os homens sorriram, antecipando o que viria. Os dois têm uma rivalidade de anos. Caolho sempre começava as pelejas. Duende consegue ser sensível como uma queimadura recém-adquirida. As briguinhas deles são divertidas.
Desta vez Duende não retaliou. Ignorou Caolho. O pequeno homem negro ficou magoado. Começou a cantar mais alto. Nós esperamos fogos de artifício. Tudo o que tivemos foi tédio. Caolho não conseguiu provocar uma reação. Ficou amuado.
Um pouco mais tarde, Duende veio falar comigo.
— Fique de olhos abertos, Chagas. Estamos em uma terra estranha. Qualquer coisa pode acontecer. — Ele deu uma risadinha aguda.
Um moscardo pousou na anca do cavalo de Caolho. O animal berrou e empinou. Caolho, com sono, caiu para trás. Todos gargalharam. O mirrado feiticeiro se levantou da poeira xingando e agitando o velho e surrado chapéu. Socou o cavalo com a mão livre, acertando a testa do animal. Então começou a saltitar em volta da montaria, gemendo e soprando os dedos.
A recompensa de Caolho foi uma enxurrada de assobios e vaias. Duende sorriu.
Logo Caolho estava cochilando de novo. É um truque que qualquer um aprende após alguns longos e cansados quilômetros no lombo de um cavalo. Um pássaro pousou no ombro dele. Caolho fungou, tentou espantar o bicho... O pássaro deixou um enorme e fedido amontoado roxo. Caolho uivou. Jogou coisas. Rasgou o gibão ao tentar tirá-lo.
Nós rimos novamente. E Duende parecia tão inocente quanto uma virgem. Caolho fez cara feia e resmungou, mas não se tocou do que acontecia.
O feiticeiro começou a entender quando alcançamos o cume de um morro e nos deparamos com um bando de pigmeus do tamanho de macacos que beijavam um ídolo muito parecido com o traseiro de um cavalo. Cada pigmeu era uma miniatura de Caolho.
O pequeno feiticeiro lançou um olhar feio a Duende, que respondeu com uma expressão inocente de “não olhe para mim”.
— Ponto para Duende — julguei.
— Melhor ficar esperto, Chagas — reclamou Caolho. — Ou você acabará beijando isto aqui. — Ele deu tapinhas na própria bunda.
— Quando os porcos voarem.
Caolho é um feiticeiro mais habilidoso que Duende ou Calado, mas sua capacidade não chega nem à metade do que ele tenta nos convencer. Se pudesse executar apenas uma parte de suas ameaças, seria perigoso até para os Tomados. Calado é mais consistente, Duende, mais criativo.
Caolho passava noites acordado tentando encontrar formas de se vingar das vinganças de Duende. Um par estranho. Não sei nem por que ainda não se mataram.
Encontrar o Manco foi mais difícil do que parecia. Nós seguimos a pista dele até uma floresta, onde encontramos fortificações de terra que estavam abandonadas e muitos cadáveres de rebeldes. Nosso caminho descia até um vale de largas campinas separadas por um córrego reluzente.
— O que diabos...? — perguntei a Duende. — Isto é estranho. — Calombos negros largos e baixos marcavam os prados. Havia corpos por todos os lados.
— Este é um dos motivos pelos quais os Tomados são tão temidos. Feitiços matadores. O calor deles sugou o chão para cima.
Parei para estudar um dos calombos.
O negrume poderia ter sido traçado com um compasso. O limite do círculo era afiado como um traço feito à pena. Esqueletos calcinados jaziam dentro da área preta. Espadas e pontas de lanças pareciam imitações de cera deixadas tempo demais no sol. Percebi que Caolho olhava a destruição.
— Quando você puder fazer este truque, terei medo de você.
— Se eu pudesse fazer isto, teria medo de mim mesmo.
Verifiquei outro círculo. Era idêntico ao primeiro. Corvo parou o cavalo a meu lado.
— Trabalho do Manco. Eu já vi isto antes.
Farejei o ar. Talvez eu tivesse pego o Corvo no humor certo.
— Quando foi isso?
Ele me ignorou.
Corvo não saía da casca. Não cumprimentava na metade das vezes, muito menos conversava sobre quem ou o que ele era.
É um cara frio. Os horrores daquele vale não o tocaram.
— O Manco perdeu esta batalha — concluiu o Capitão. — Está batendo em retirada.
— E nós vamos continuar indo atrás dele? — indagou o Tenente.
— Estamos em território desconhecido. É muito perigoso operar sem apoio.
Seguimos um rastro de violência, uma trilha de destruição. Campos arruinados ficavam para trás. Vilas queimadas. Pessoas chacinadas e animais de fazenda abatidos. Poços envenenados. O Manco não deixou nada além de morte e desolação.
Nossa missão era ajudar a manter Forsberg. Não éramos obrigados a encontrar o Manco. Eu não queria nada com ele. Não queria sequer estar na mesma província que ele.
Conforme a devastação se tornava mais recente, Corvo demonstrou alegria, assombro, introspecção transformada em determinação, e ainda mais daquele autocontrole rígido atrás do qual ele se escondia com tanta frequência.
Quando reflito sobre a natureza interior de meus companheiros, geralmente gostaria de controlar apenas um pequeno dom. Eu queria poder olhar dentro de cada um deles e desmascarar as sombras e luzes que os movem. Então dou uma rápida olhada na selva de minha própria alma e agradeço aos céus por não ter tal talento. Um homem que sequer consegue manter um armistício consigo mesmo não tem motivos para fuçar as almas dos outros.
Decidi ficar de olho em nosso mais novo irmão.
Não foi realmente preciso que Pança voltasse da vanguarda para nos dizer que estávamos perto. De todo o horizonte à nossa frente brotavam altas e inclinadas espirais de fumaça. Esta parte de Forsberg era plana, aberta e maravilhosamente verde. Contra o céu azul-turquesa, os pilares oleosos eram uma abominação.
Não havia muita brisa. A tarde prometia ser abrasadora.
Pança emparelhou com o Tenente. Elmo e eu paramos de trocar velhas e surradas mentiras e escutamos. Pança indicou uma das torres de fumaça.
— Ainda há alguns homens do Manco naquela vila, senhor.
— Falou com eles?
— Não, senhor. O Cabeça achou que o senhor não iria gostar. Ele está esperando perto da cidade.
— Quantos deles?
— Vinte, 25. Bêbados e cruéis. O oficial era pior que seus homens.
O Tenente olhou por sobre o ombro.
— Ah, Elmo. É seu dia de sorte. Pegue dez homens e vá com Pança. Dê uma olhada.
— Merda — murmurou Elmo. Ele é um bom homem, mas dias ensolarados de primavera o deixam preguiçoso. — Certo. Otto. Calado. Pirralho. Branquelo. Bode. Corvo...
Tossi discretamente.
— Você deve estar maluco, Chagas. Tudo bem. — Ele contou rapidamente nos dedos e chamou mais três. Entramos em formação fora da coluna. Elmo nos deu instruções rápidas, para ter certeza de que todos sabiam o que fariam. — Vamos lá.
Partimos adiante da coluna. Pança nos levou até um bosque com vista para a aldeia devastada. Cabeça e um sujeito chamado Fanfarrão nos esperavam lá.
— Alguma novidade? — indagou Elmo.
Fanfarrão, um sarcástico profissional, respondeu:
— Os incêndios estão morrendo.
Olhamos para a aldeia. Tudo que vi embrulhou meu estômago. Animais de criação abatidos. Gatos e cachorros massacrados. As silhuetas pequenas e partidas de crianças mortas.
— Não as crianças — disse eu, sem perceber que estava falando. — Não os bebês de novo.
Elmo me olhou espantado, não porque não estivesse comovido também, mas porque eu estava demonstrando uma solidariedade incomum. Já tinha visto muitos homens mortos. Não me expliquei. Para mim há uma grande diferença entre adultos e crianças.
— Elmo, eu tenho que ir até lá.
— Não seja burro, Chagas. O que você poderá fazer?
— Se eu puder salvar só uma criança...
— Eu vou com ele — anunciou Corvo. Uma faca apareceu na mão dele. Deve ter aprendido o truque com um conjurador. Faz isso sempre que está nervoso ou com raiva.
— Vocês acham que podem enganar 25 homens?
— Chagas tem razão, Elmo. — Corvo deu de ombros. — Isso precisa ser feito. Algumas coisas não podem ser toleradas.
— Então vamos todos — Elmo se rendeu. — Torçam para que eles não estejam bêbados demais para diferenciar amigos de inimigos.
Corvo saiu a galope.
A aldeia era de bom tamanho. Ela tivera mais de duzentas casas antes da chegada do Manco. Metade estava queimada ou queimando. Cadáveres jaziam espalhados pelas ruas. Ao redor de seus olhos sem vida moscas se aglomeravam.
— Ninguém em idade militar — reparei.
Desmontei e me ajoelhei ao lado de um garoto de 4 ou 5 anos. O crânio tinha sido esmagado, mas ele ainda respirava. Corvo se abaixou a meu lado.
— Não posso fazer nada — disse eu.
— Você pode acabar com o sofrimento dele. — Havia lágrimas nos olhos de Corvo. Lágrimas e raiva. — Não há desculpa para isto. — Ele foi até um corpo que jazia nas sombras.
Este tinha uns 17 anos. Vestia a jaqueta de um soldado rebelde. Morrera lutando.
— Ele provavelmente estava de licença. Um garoto protegendo todos os outros — disse Corvo. Ele tirou o arco dos dedos mortos. — Boa madeira. Alguns milhares destes poderiam ter posto o Manco para correr. — Corvo prendeu o arco nas costas e pegou as flechas do garoto.
Examinei mais duas crianças. Estavam além de qualquer ajuda. Dentro de uma cabana queimada encontrei uma avó que morrera tentando proteger uma criança. Em vão.
Corvo transpirava ódio.
— Criaturas como o Manco criam dois inimigos para cada um que destroem.
Percebi choro murmurado, xingamentos e risadas em algum lugar adiante.
— Vamos ver o que é isso.
Ao lado da cabana encontramos quatro soldados mortos. O garoto tinha deixado sua marca.
— Bons tiros — observou Corvo. — Pobre idiota.
— Idiota?
— Ele deveria ter sido esperto e fugido. Talvez tudo teria sido mais fácil para todos. — A intensidade dele me espantou. Por que se importava com um garoto do outro lado? — Heróis mortos não recebem segundas chances.
Aha! Ele estava traçando um paralelo com um evento de seu próprio passado misterioso.
Os xingamentos e choro se materializaram numa cena digna de horror para qualquer um com um mínimo de humanidade.
Havia uma dúzia de soldados num círculo, rindo das próprias piadas grosseiras. Lembrei-me de uma cadela cercada por machos que, ao contrário do normal, não lutavam pelo direito de montar, mas estavam se revezando. Eles poderiam ter matado a fêmea se eu não tivesse interferido.
Corvo e eu subimos nos cavalos para ver melhor.
A vítima era uma menina de 9 anos, coberta de hematomas. Ela estava aterrorizada, mas não emitia um ruído sequer. Entendi na hora. Ela era muda.
A guerra é um negócio cruel, conduzido por homens cruéis. Os deuses sabem que os soldados da Companhia Negra não são anjos. Mas há limites.
Eles estavam fazendo um velho assistir. Ele era a fonte tanto dos xingamentos quanto do choro.
Corvo meteu uma flecha no homem que estava prestes a atacar a menina.
— Merda! — gritou Elmo. — Corvo!...
Os soldados se viraram para nós. Armas surgiram. Corvo disparou outra flecha. Ela atingiu o homem que segurava o velho. Os soldados do Manco perderam qualquer inclinação à luta. Elmo sussurrou:
— Branquelo, vá dizer ao chefe que vamos precisar de ajuda aqui.
Um dos soldados do Manco teve uma ideia parecida. Ele saiu correndo. Corvo o deixou ir.
O Capitão ia pedir o traseiro dele numa bandeja.
Corvo não parecia preocupado.
— Velho, venha cá. Traga a criança. E ponha roupas nela.
Parte de mim não poderia deixar de aplaudir, mas outra parte chamou Corvo de idiota.
Elmo não precisou mandar que ficássemos de olhos abertos. Estávamos dolorosamente cientes de que tínhamos nos metido em uma encrenca. Corra, Branquelo, pensei.
O mensageiro deles alcançou seu comandante antes. O cara veio cambaleando pela rua. Pança tinha razão. O sujeito estava em estado pior que os homens.
O velho e a garota agarravam os estribos de Corvo. O velho fez cara feia para nossos distintivos. Elmo fez o cavalo se adiantar e apontou para Corvo. Eu balancei a cabeça.
O oficial bêbado parou diante de Elmo. Olhos baços nos avaliaram. Ele parecia impressionado. Tínhamos nos endurecido naquele ofício brutal, e isso era visível.
— Você! — guinchou o sujeito de repente, de forma exatamente igual a como Voz-chorosa fizera em Opala. Ele encarou Corvo. Então se virou e saiu correndo.
— Parado aí, Trilha! — trovejou Corvo. — Aja como homem, seu ladrão covarde! — Ele tirou outra flecha da aljava.
Elmo cortou-lhe a corda do arco.
Trilha parou. Não demonstrou gratidão. Xingou. Enumerou os horrores que poderíamos esperar nas mãos de seu patrono.
Observei Corvo.
Ele fitou Elmo com uma fúria gélida. Elmo encarou de volta, sem estremecer. Também era um cara durão.
Corvo fez o truque com a faca. Eu toquei a lâmina com a ponta da minha espada. Corvo murmurou uma ofensa em voz baixa, olhou feio, relaxou.
— Você deixou sua velha vida para trás, lembra? — comentou Elmo.
Corvo concordou com um único aceno da cabeça, brutal.
— É mais difícil do que eu pensava. — Os ombros dele arriaram. — Corra, Trilha. Você não é tão importante para ser morto.
Um alvoroço fez-se ouvir atrás de nós. O Capitão estava chegando.
Aquele maldito lacaio do Manco se inflou e remexeu como um gato prestes a dar o bote. Elmo olhou feio ao longo do comprimento da espada. O sujeito entendeu o recado.
— Eu deveria ser mais esperto, de qualquer maneira — murmurou Corvo. — Ele é só um mensageiro.
Fiz uma pergunta maliciosa. Corvo apenas me olhou, confuso.
— O que diabos está acontecendo aqui? — ralhou o Capitão.
Elmo iniciou um de seus relatórios sucintos. Corvo interrompeu.
— Aquele ébrio ali é um dos chacais de Zouad. Eu queria matá-lo. Elmo e Chagas me impediram.
Zouad? Onde foi que escutara aquele nome? Conectado ao Manco. Coronel Zouad. O vilão número um do Manco. Adido político, entre outros eufemismos. O nome dele tinha sido mencionado em algumas conversas que eu entreouvira entre Corvo e o Capitão. Zouad era a quinta vítima que Corvo pretendia fazer? Então o próprio Manco deveria estar por trás dos infortúnios de Corvo.
A história estava cada vez mais curiosa. E cada vez mais assustadora. O Manco não é alguém com quem você queira se indispor.
— Quero que esse sujeito seja preso! — gritou o homem do Manco. O Capitão olhou para ele. — Dois de meus soldados foram assassinados por ele.
Os corpos estavam à vista de todos. Corvo nada disse. Elmo fez algo pouco característico e se meteu na história.
— Eles estavam estuprando a criança. É isso que eles chamam de pacificação.
O Capitão encarou seu correspondente do outro lado. O homem enrubesceu. Até mesmo o vilão mais tenebroso sentiria vergonha se fosse flagrado sem uma justificativa conveniente.
— Chagas? — cobrou o Capitão.
— Encontramos um rebelde morto, Capitão. Há indícios de que esse tipo de coisa começou antes de ele se tornar um fator.
— Essas pessoas são súditas da Dama? — inquiriu o Capitão ao bêbado. — Sob a proteção dela?
Aquele argumento poderia ser debatido em outros tribunais, mas naquele momento ele colou. Pela ausência de defesa, o homem confessou sua culpa moral.
— Você me enoja — afirmou o Capitão na voz suave e perigosa dele. — Suma daqui. Não cruze meu caminho de novo. Eu o deixarei à mercê de meu amigo se você o fizer.
O homem saiu cambaleando.
O Capitão se virou para Corvo.
— Seu imbecil sem mãe. Você tem alguma ideia do que acabou de fazer?
— Provavelmente melhor que você, Capitão — respondeu Corvo, cansado. — Mas faria de novo.
— E você ainda se pergunta por que hesitamos em aceitá-lo? — O Capitão mudou de assunto. — O que pretende fazer com essas pessoas, nobre herói?
Essa pergunta não tinha passado pela mente de Corvo. Qualquer que tivesse sido o trauma pelo qual ele passara, o havia deixado preso ao presente. Era compelido pelo passado e completamente indiferente ao futuro.
— São minha responsabilidade, não são?
O Capitão desistiu de tentar alcançar o Manco. Operar de forma independente agora parecia ser o mal menor.
As repercussões se iniciaram quatro dias depois.
Tínhamos acabado de vencer nossa primeira batalha importante, na qual esmagamos uma força rebelde duas vezes maior que a nossa. Não havia sido difícil. Eles eram novatos, e nossos feiticeiros ajudaram. Poucos inimigos escaparam.
O campo de batalha era nosso. Os homens saqueavam os mortos. Elmo, eu, o Capitão e alguns outros estávamos juntos, presunçosos. Caolho e Duende celebravam de seu modo particular, usando as bocas dos cadáveres para provocar um ao outro.
Duende subitamente endureceu. Seus olhos rolaram para cima. Um chiado agudo lhe escapou pelos lábios, cada vez mais fino. Ele desabou.
Caolho o alcançou um passo à minha frente, e começou a estapeá-lo nas bochechas. A hostilidade habitual tinha desaparecido.
— Me dê espaço! — grunhi.
Duende acordou antes que eu pudesse fazer mais do que lhe conferir o pulso.
— Apanhador de Almas — murmurou. — Fazendo contato.
Fiquei por perto.
O Capitão correu até nós. Ele jamais corre, a não ser quando estamos em ação.
— O que foi?
Duende suspirou e abriu os olhos.
— Ele já se foi.
A pele e os cabelos do feiticeiro estavam encharcados de suor. Ele parecia pálido e começou a tremer.
— Se foi? — inquiriu o Capitão. — Como assim?
Ajudamos Duende a ficar numa posição mais confortável.
— O Manco foi reclamar com a Dama em vez de nos enfrentar diretamente. Ele e o Apanhador não se bicam. Ele acha que viemos aqui para enfraquecê-lo. Tentou virar a mesa. Mas o Apanhador de Almas está em alta desde Berílio, enquanto o Manco está em baixa por conta de seus fracassos. A Dama mandou que ele nos deixasse em paz. Apanhador de Almas não conseguiu fazer o Manco ser substituído, mas acha que venceu esta rodada.
Duende fez uma pausa. Caolho lhe entregou algo para beber, que o outro feiticeiro virou num instante.
— O Apanhador mandou a gente ficar fora do caminho do Manco. Ele pode tentar nos desacreditar de alguma forma, ou até mesmo dirigir os rebeldes para o nosso lado. O chefe também acha que deveríamos recapturar a fortaleza em Avença. Isso iria causar embaraço tanto aos rebeldes quanto ao Manco.
— Se o Apanhador quer impressionar — murmurou Elmo —, por que não nos põe no rastro do Círculo dos Dezoito? — O Círculo é o Alto-comando Rebelde, 18 feiticeiros que se acham fortes o suficiente para encarar a Dama e os Tomados. Rasgo, o nêmesis do Manco em Forsberg, pertencia ao Círculo.
O Capitão parecia pensativo.
— Você acha que há politicagem envolvida nisso? — perguntou ele a Corvo.
— A Companhia é uma ferramenta do Apanhador de Almas. Isso é de conhecimento comum. A questão é o que ele pretende fazer com ela.
— Pensei o mesmo em Opala.
Politicagens. O império da Dama passa uma imagem monolítica. Os Dez que Foram Tomados gastam uma energia terrível para mantê-lo assim. E gastam mais energia ainda brigando entre si como crianças com seus brinquedos, ou disputando as atenções da mãe.
— Só isso? — grunhiu o Capitão.
— Só. Ele disse que manterá contato.
Então nós fomos e cumprimos as ordens. Capturamos a fortaleza em Avença, na calada da noite, perto o bastante de Remo para se ouvir um uivo. Disseram que tanto Rasgo quanto o Manco sofreram ataques insanos de fúria. Acho que o Apanhador de Almas se deliciou com isso tudo.
Caolho jogou uma carta na pilha de descarte.
— Tem alguém aí se fazendo de bobo — murmurou o feiticeiro.
Duende catou a carta, baixou quatro valetes na mesa e descartou uma rainha. Ele sorria. Dava para saber que ele iria se ferrar na próxima mão, sua melhor carta era um 2. Caolho bateu no tampo da mesa, sibilou. Ele não vencera uma única mão desde que se sentou para jogar.
— Joguem baixo, rapazes — avisou Elmo, ignorando o descarte de Duende. Comprou, juntou todas as cartas a centímetros do rosto, baixou uma trinca de 4 e descartou um 2. Bateu no par que restava, sorriu para Duende e disse: — É melhor que isso seja um ás, gorducho.
Picles catou o 2 de Elmo, baixou uma quadra, descartou um 3. Encarou Duende com um olhar brutal de coruja que o desafiava a baixar algo. Aquele olhar dizia que um ás não seria o suficiente para tirar Duende de apuros.
Eu queria que Corvo estivesse ali. A presença dele deixava Caolho nervoso demais para trapacear. Mas Corvo estava na patrulha dos nabos, que era como nós chamávamos a missão semanal de visitar Remo para comprar suprimentos. Picles ocupava sua cadeira.
Picles é o intendente da Companhia. Era ele quem geralmente saía na patrulha dos nabos. Implorou para não ir dessa vez por conta de problemas no estômago.
— Parece que todo mundo estava se fazendo de bobo — comentei, e olhei feio para minha mão imprestável. Par de 7, par de 8 e um 9 para acompanhar um dos 8, mas nada que fizesse uma jogada. Quase tudo que eu poderia aproveitar estava na pilha de descartes. Comprei. Putaquepariu. Outro 9, que me deu uma boa mão. Baixei tudo, descartei o 7 que sobrava e rezei. Rezar era tudo que eu poderia fazer.
Caolho ignorou meu 7. Comprou.
— Droga! — Ele largou um seis na rabeira da minha sequência e descartou outro. — Hora da verdade, presuntinho — ele provocou Duende. — Vai encarar, Picles? — E, por fim: — Esse povo de Forsberg é doido. Nunca vi nada assim.
Já estávamos ocupando a fortaleza havia um mês. Era meio grande para nós, mas eu gostava dali.
— Eu acho que poderia gostar deles — afirmei. — Se começassem a gostar de mim. — Já tínhamos rechaçado quatro contra-ataques. — Mije ou saia da latrina, Duende. Você sabe que já ferrou comigo e com Elmo.
Picles marcou o canto da carta com a unha, encarando Duende.
— Tem toda uma mitologia rebelde aqui no norte — disse ele. — Profetas e falsos profetas. Sonhos premonitórios. Mensagens dos deuses. Até mesmo uma profecia de que uma criança em algum lugar por aqui é a reencarnação da Rosa Branca.
— Se o garoto já está aqui, então por que não está nos dando uma surra? — inquiriu Elmo.
— Eles ainda não o encontraram. Ou a encontraram. Tem uma tribo inteira de gente procurando.
Duende arregou. Ele comprou, hesitou, descartou um rei. Elmo comprou e descartou outro rei. Picles olhou para Duende. Deu um sorrisinho, pegou uma carta, nem se deu ao trabalho de olhar. Jogou um 5 em cima do 6 que Caolho tinha largado em minha sequência e largou a carta comprada na pilha de descarte.
— Um 5? — guinchou Duende. — Você estava segurando um 5? Não acredito nisso. Ele tinha um 5. — Duende jogou o ás sobre a mesa. — Ele tinha um maldito 5!
— É melhor você ficar calmo — advertiu Elmo. — Não é você o cara que está sempre mandando o Caolho relaxar?
— Ele blefou com um maldito 5?
Picles manteve o sorrisinho enquanto juntava o dinheiro que havia ganhado. Estava muito satisfeito consigo mesmo. Blefara muito bem. Eu também teria apostado que Picles tinha um ás.
Caolho empurrou as cartas para Duende.
— Sua vez.
— Ah, fala sério. Ele tinha um 5 e eu ainda vou ter que dar as cartas também?
— É sua vez. Cale a boca e embaralhe.
— Onde você ouviu essas coisas de reencarnação? — perguntei a Picles.
— Com o Estalo. — Estalo era o velho que Corvo tinha salvado. Pi-cles havia vencido as desconfianças do sujeito. Eles estavam ficando muito amigos.
A garota era chamada de Lindinha. Ela se apegara muito a Corvo e o seguia por toda parte, deixando todos nós loucos. Eu estava feliz por Corvo ter ido à cidade. Não veríamos Lindinha com muita frequência até que ele voltasse.
Duende deu as cartas. Olhei as minhas. A famosa mão tão ruim que não serviria nem para pé. Uma daquelas lendárias sequências demoníacas de Elmo, nas quais não havia duas cartas do mesmo naipe.
Duende examinou a mão que recebera. Arregalou os olhos. Bateu as cartas na mesa com a face para cima.
— Tonk! Olhem só, é Tonk! Cinquenta! — Ele tinha dado a si mesmo cinco cartas reais, uma vitória automática que exigia pagamento duplo.
— Ele só consegue ganhar quando dá as cartas — reclamou Caolho.
— Você não vence nem quando é sua vez, boca de verme!
Elmo começou a embaralhar.
A mão seguinte durou bastante. Picles nos ofereceu fragmentos da história da reencarnação entre as jogadas.
Lindinha passou por perto, com seu rosto redondo e sardento sem expressão, e seus olhos vazios. Tentei imaginá-la no papel de Rosa Branca. Não consegui. Ela não se encaixava.
Picles deu as cartas. Elmo tentou derrubar com 18. Caolho o queimou. Ele ficou com 17 depois de comprar. Reuni as cartas e comecei a embaralhar.
— Vamos lá, Chagas — provocou Caolho. — Nada de brincadeiras. Estou numa maré de sorte. Uma vitória seguida. Me passe os ases e duplos. — Um valor de 15 para baixo é uma vitória automática, assim como 49 e 50.
— Ah. Desculpa. Eu estava levando as superstições rebeldes a sério.
— São o tipo de bobagem atraente — observou Picles. — Essas coisas se formam numa certa ilusão elegante de esperança. — Franzi o cenho para ele. O sorriso do intendente era quase tímido. — É difícil perder quando você sabe que o destino está ao seu lado. Os rebeldes sabem. De qualquer maneira, é isso que o Corvo diz. — Nosso velho estava ficando muito amigo do Corvo.
— Então teremos de mudar o pensamento deles.
— Não podemos. Se os açoitarmos cem vezes, eles continuarão atacando. E, por isso, eles vão cumprir a própria profecia.
— Então temos de fazer mais do que chicoteá-los — grunhiu Elmo. — Nós temos de humilhá-los. — Nós significava todo mundo do lado da Dama.
Joguei um 8 em outra das incontáveis pilhas de descarte que tinham se tornado marcos da minha vida.
— Isso está ficando chato. — Eu estava inquieto. Tinha uma necessidade indefinida de fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
— Jogar ajuda a passar o tempo. — Elmo deu de ombros.
— Isso é que é vida, é sim — zombou Duende. — Sentar e esperar. Quanto foi que fizemos disso nos últimos anos?
— Não contei as horas — resmunguei. — Mas fizemos isso mais do que qualquer outra coisa.
— Atenção! — exclamou Elmo. — Escuto uma vozinha. Ela diz que meu rebanho está entediado. Picles, vá buscar os alvos de arco e flecha... — A sugestão morreu sob uma avalanche de grunhidos.
O treino físico rigoroso é a resposta de Elmo ao tédio. Uma corrida por sua diabólica pista de obstáculos é o suficiente para matar ou curar o mal.
Picles estendeu o protesto além do grunhido obrigatório.
— Vou ter que descarregar as carroças, Elmo. Os caras devem chegar a qualquer momento. Se você quer que esses palhaços se exercitem, bote eles na minha mão.
Elmo e eu trocamos olhares. Duende e Caolho se alarmaram. Ainda não tinham voltado? Eles deveriam ter chegado antes do meio-dia. Eu imaginara que eles estavam dormindo. As patrulhas dos nabos sempre voltavam de ressaca.
— Eu achava que eles já estavam aqui — disse Elmo.
Duende jogou a mão na pilha de descarte. As cartas dançaram por um momento, suspensas por truques. Ele queria que soubéssemos que estávamos liberados.
— É melhor eu dar uma olhada nisso.
As cartas de Caolho se deslocaram pela mesa, se curvando como uma lagarta medideira.
— Vou cuidar disso, gorducho.
— Eu falei primeiro, bafo de sapo.
— Eu sou mais velho.
— Os dois vão ajudar — sugeriu Elmo. Ele se virou para mim. — Vou reunir uma patrulha. Você conta ao Tenente. — Ele jogou as cartas na mesa e começou a chamar nomes. Em seguida, foi ao estábulo.
Cascos pisoteavam a poeira sob um som de tambor contínuo e murmurante. Cavalgávamos rápido, mas com cautela. Caolho sondava em busca de problemas, mas fazer feitiçarias sobre uma sela é difícil.
Ainda assim, ele captou uma pista a tempo. Elmo deu ordens por meio de sinais. Nos dividimos em dois grupos e nos metemos no capim alto que margeava a estrada. O rebelde se levantou e deu de cara conosco em cima dele. Não teve a menor chance. Voltamos à jornada em questão de minutos.
— Espero que ninguém do lado de lá comece a se perguntar como sempre descobrimos o que eles vão tentar — comentou Caolho comigo.
— Deixe que eles pensem que estão infestados de espiões.
— E como um espião mandou a notícia a Avença tão rápido? Nossa sorte parece boa demais para ser verdade. O Capitão deveria convencer o Apanhador de Almas a nos tirar daqui enquanto ainda temos alguma serventia.
O argumento fazia sentido. Uma vez que nosso segredo vazasse, os rebeldes iriam neutralizar nossos feiticeiros com os deles. Nossa sorte mudaria muito.
As muralhas de Remo surgiram ao longe. Comecei a sofrer de arrependimento. O Tenente não tinha exatamente aprovado nossa aventura. O próprio Capitão me daria um esporro épico. Os gritos e impropérios queimariam os cabelos do meu queixo. Eu seria um velho gagá antes que as reprimendas acabassem. Adeus, damas dos becos!
Eu deveria ser mais inteligente. Era quase um oficial.
A perspectiva de passar seu futuro limpando as latrinas e estábulos da Companhia não intimidava Elmo ou os cabos dele. “Adiante!”, eles pareciam pensar. Em frente, pela glória do bando. Argh!
Eles não eram burros, simplesmente estavam dispostos a pagar o preço da desobediência.
O idiota do Caolho começou a cantar assim que entramos em Remo. A canção era uma composição própria dele, selvagem e sem sentido, cantada numa voz absolutamente desafinada.
— Cale-se, Caolho — rosnou Elmo. — Você está chamando atenção.
A ordem foi inútil. Nossa identidade era óbvia demais, assim como nosso péssimo humor. Aquela não era a patrulha dos nabos. Estávamos procurando encrenca.
Caolho começou a uivar uma nova canção.
— Chega de barulho! — trovejou Elmo. — Volte a seu maldito trabalho!
Viramos uma esquina, e uma névoa negra se formou ao redor das pernas de nossos cavalos. Narizes negros úmidos se espetavam para fora da fumaça e farejavam o fétido ar da noite. Eles se enrugaram. Talvez tivessem se tornado tão caipiras quanto eu. Lá vieram os olhos amendoados brilhando como os postes do inferno. Um sussurro de medo varreu os pedestres que observavam de ruas secundárias.
E então eles saltaram, uma dúzia, vinte, cem fantasmas nascidos naquele poço de víboras que Caolho chama de mente. Eles dispararam adiante, como fuinhas, coisas sinuosas, dentuças e negras que se atiravam contra o povo de Remo. O terror era ainda mais rápido que as criaturas. Em minutos, estávamos completamente sós nas ruas.
Aquela era minha primeira visita a Remo. Esquadrinhei a cidade como se tivesse acabado de chegar a uma carroça de abóboras.
— Ora, vejam só — exclamou Elmo quando viramos na rua onde a patrulha dos nabos geralmente se hospedava. — Aí está Cornie. — Eu conhecia o nome, mas não o homem. Cornie cuidava do estábulo onde a patrulha sempre ficava.
Um velho se levantou da cadeira ao lado do cocho de água.
— Ouvi que vocês estavam chegando — disse Cornie. — Fiz tudo que pude, Elmo. Porém não consegui arranjar um médico pra eles.
— Trouxemos o nosso.
Mesmo que Cornie fosse velho e tivesse que se apressar para acompanhar, Elmo não reduziu o passo.
Farejei o ar. Havia um resto de fedor de fumaça velha.
Cornie disparou à frente, fazendo uma curva na esquina. Bichos fuinha dardejaram ao redor das pernas dele como espuma em volta de um rochedo na costa. Nós o seguimos e encontramos a fonte do cheiro.
Alguém tinha incendiado o estábulo de Cornie e, então, atacado nossos homens enquanto eles corriam para fora. Vilões. Ainda havia finos tentáculos de fumaça. A rua diante do estábulo estava cheia de feridos. Os menos machucados estavam de guarda, desviando o tráfego.
Manso, que tinha comandado a Patrulha, veio mancando.
— Onde eu começo? — indaguei.
— Aqueles são os piores — apontou ele. — Melhor começar por Corvo, se ele ainda estiver vivo.
Meu coração disparou. Corvo? Ele parecia tão invulnerável.
Caolho espalhou seus bichinhos de estimação. Nenhum rebelde poderia nos atacar pelas costas agora. Segui Manso até onde Corvo jazia. O sujeito estava inconsciente, com o rosto branco como papel.
— É o pior?
— O único que achei que não iria escapar.
— Você trabalhou muito bem. Fez os torniquetes como ensinei, não fez? — Dei uma boa olhada em Manso. — Você deveria estar deitado também. — De volta a Corvo. Ele tinha quase trinta cortes no lado virado para cima, alguns deles profundos. Botei linha na agulha.
Elmo se juntou a nós depois de uma rápida olhada no perímetro.
— Muito ruim? — perguntou.
— Não sei dizer ainda. Ele está todo furado. Perdeu muito sangue. Melhor mandar Caolho preparar aquele caldo dele. — O feiticeiro faz uma canja de ervas e galinha que deixa até os mortos esperançosos. É meu único assistente.
— Como isto aconteceu, Manso? — inquiriu Elmo.
— Eles puseram fogo no estábulo e atacaram quando a gente saiu correndo.
— Isso eu posso ver.
— Assassinos imundos — murmurou Cornie. Contudo, ele parecia lamentar mais a perda do estábulo do que nossos feridos.
Elmo fez cara de quem comeu e não gostou.
— E ninguém morreu? Corvo é o pior? Difícil de acreditar.
— Um morto — corrigiu Manso. — Aquele velho. O amigo de Corvo. Daquela aldeia.
— Estalo — grunhiu Elmo. Estalo não deveria ter deixado a fortaleza em Avença. O Capitão não confiava nele. Mas Elmo ignorou a brecha nos regulamentos. — Vamos fazer quem começou isso se arrepender muito. — Não havia emoção alguma na voz dele. Poderia estar listando o preço do inhame no atacado.
Eu me perguntei como Picles iria reagir à notícia. Ele gostava de Estalo. Lindinha ficaria arrasada. Estalo era seu avô.
— Eles estavam atrás apenas de Corvo — afirmou Cornie. — Por isso ele ficou tão cortado assim.
— Estalo se atirou na frente dele — contou Manso. Ele indicou o resto dos homens com um gesto. — Todos os outros ferimentos foram porque nós não ficamos parados olhando.
— E por que os rebeldes estariam tão desesperados para matar Corvo? — inquiriu Elmo, fazendo a mesma pergunta que me ocorria.
Pança estava por perto, esperando que eu cuidasse do corte em seu antebraço esquerdo.
— Não foram rebeldes, Elmo — disse ele. — Foi aquele capitão de merda da vila onde pegamos Estalo e Lindinha.
Eu praguejei.
— Cuide de costurar, Chagas — ralhou Elmo. — Tem certeza, Pança?
— Claro que tenho. Pergunte ao Fanfarrão. Ele viu o homem também. O resto era um grupo de bandidos das ruas. Demos uma bela surra neles depois que nos organizamos. — Ele apontou. Perto do lado intacto do estábulo havia uma dúzia de cadáveres, empilhados como lenha. Estalo foi o único que reconheci. Os outros vestiam trapos típicos locais.
— Eu o vi também, Elmo — afirmou Manso. — E ele nem era o chefão. Tinha outro cara no fundo, nas sombras. Ele caiu fora quando começamos a vencer.
Cornie tinha ficado por perto, parecendo alerta e mantendo a boca fechada.
— Eu sei aonde eles foram — disse, finalmente. — Tem um lugar na Rua Fria.
Troquei olhares com Caolho, que estava preparando a canja com ingredientes que tirava de sua bolsa negra.
— Parece que Cornie conhece nossos amigos — comentei.
— Eu conheço vocês bem o bastante para saber que não vão deixar ninguém se safar por uma coisa dessas.
Olhei para Elmo. Ele encarou Cornie. Sempre tivemos dúvidas sobre o cavalariço. Cornie ficou nervoso. Elmo, como qualquer sargento veterano, tinha um olhar maligno.
— Caolho, leve esse nosso amigo para passear — ordenou, finalmente. — Escute a história dele.
Caolho hipnotizou Cornie em segundos. Os dois ficaram andando por ali, batendo papo como velhos amigos.
Voltei minha atenção a Manso.
— O homem nas sombras... Ele mancava?
— Não era o Manco. Muito alto pra ser ele.
— Mesmo assim, o ataque precisaria ter a aprovação do espectro, não é, Elmo?
Elmo concordou com um aceno de cabeça.
— O Apanhador de Almas ficaria muito furioso se descobrisse. A permissão para correr esse risco teria de vir do topo.
Corvo soltou algo como um suspiro. Olhei para ele. Os olhos tinham se aberto numa fresta. Corvo repetiu o som. Abaixei-me e pus a orelha junto a seus lábios.
— Zouad... — murmurou.
Zouad. O infame Coronel Zouad. O inimigo que Corvo tinha abandonado. O vilão especial do Manco. O cavalheirismo de Corvo havia gerado repercussões brutais.
Relatei isso a Elmo. Ele não pareceu surpreso. Talvez o Capitão tivesse contado a história de Corvo aos líderes de pelotão.
Caolho voltou.
— Nosso amigão Cornie aqui trabalha para o outro time — contou, e sorriu malevolamente, o sorriso que Caolho usa para assustar crianças e cachorros. — Achei que você gostaria de levar isso em consideração, Elmo.
— Ah, sim. — Elmo parecia deliciado.
Fui ajudar o soldado que estava em piores condições, perdendo apenas para Corvo. Mais suturas a fazer. Eu me perguntei se teria linha suficiente. A patrulha estava em péssimo estado.
— Quanto tempo vai demorar até a canja ficar pronta, Caolho?
— Ainda preciso arranjar uma galinha.
— Então mande alguém roubar uma — resmungou Elmo.
— As pessoas que queremos estão entocadas numa birosca da Rua Fria. Eles têm uns amigos durões — afirmou Caolho.
— O que você vai fazer, Elmo? — perguntei.
Tinha certeza de que ele planejava fazer algo. Corvo nos pusera sob uma obrigação ao citar Zouad. Ele achou que estava morrendo. Não me diria aquele nome em outra situação. Eu o conhecia bem a esse ponto, mesmo que não conhecesse nada de seu passado.
— Temos que preparar alguma coisa para o Coronel.
— Se você sair atrás de encrenca, vai encontrar. Lembre-se de quem é o patrão dele.
— É ruim para os negócios deixar alguém atacar a Companhia e sair limpo, Chagas. Mesmo se for o Manco.
— Mas aí você está tomando decisões um pouco elevadas demais para seus ombros, não está? — Eu não podia discordar, porém. Uma derrota no campo de batalha é aceitável. Isto não era a mesma coisa. Estávamos falando de jogos políticos imperiais. Todos tinham de ser avisados de que as coisas ficariam feias se nos envolvessem na história. O Manco e o Apanhador de Almas precisavam ser avisados. — Em que tipo de repercussões você está pensando?
— Muito choro e reclamação. Mas não acho que eles possam fazer muita coisa. Mas que diabos, Chagas, isso não é assunto seu, de qualquer maneira. Você é pago para costurar os soldados. — Elmo encarou Cornie, pensativo. — Acho que quanto menos testemunhas sobrarem, melhor. O Manco não pode gritar se não conseguir provar nada. Caolho, continue falando com nosso rebelde de estimação. Tenho uma ideiazinha danada se formando na minha cabeça. Talvez ele tenha a chave.
Caolho terminou de distribuir a sopa. Os primeiros a tomá-la já estavam com as bochechas mais coradas. Elmo parou de cortar as unhas. Fixou um olhar duro no cavalariço.
— Cornie, você já ouviu falar no Coronel Zouad?
Cornie enrijeceu. Hesitou por um segundo a mais do que deveria.
— Não posso dizer que sim.
— Curioso, achei que você saberia quem é o cara. Ele é conhecido como o braço direito do Manco. Enfim, achei que o Círculo faria qualquer coisa para botar as mãos nele. O que você acha?
— Não sei nada sobre o Círculo, Elmo. — Cornie olhou para os telhados. — Você tá me dizendo que esse cara que está na Fria é esse Zouad?
Elmo riu.
— Eu não disse isso de jeito nenhum, Cornie. Eu dei essa impressão, Chagas?
— Claro que não. O que Zouad estaria fazendo num puteirinho de merda em Remo? O Manco está metido em todo tipo de problemas no leste. Ia querer toda a ajuda que pudesse conseguir.
— Viu, Cornie? Mas veja bem. Talvez eu saiba onde o Círculo poderia encontrar o Coronel. Agora, ele e a Companhia não são amigos. Por outro lado, a gente também não é amigo do Círculo. Só que isso é negócio. Nada pessoal. Então eu estava pensando. Talvez a gente pudesse trocar um favor por outro. Talvez algum rebelde importante poderia dar um pulo nessa birosca da Rua Fria e dizer aos donos que não é uma boa ideia ajudar aqueles caras. Entendeu minha dica? Se o Coronel Zouad estivesse por ali, ele poderia cair no colo do Círculo.
Cornie exibia a expressão de um homem que sabe que está preso numa armadilha.
Ele tinha sido um bom espião enquanto nós não tínhamos motivo para desconfiar dele. Havia sido apenas o bom e velho Cornie, nosso amigo dono do estábulo, a quem dávamos uma gorjeta extra e com quem não conversávamos nem mais nem menos do que qualquer outra pessoa de fora da Companhia. Não estava sob qualquer pressão. Não precisava ser nada além dele mesmo.
— Você está me confundindo com alguém, Elmo. Sério. Não me meto nunca com política. A Dama ou os Brancos, é tudo a mesma coisa para mim. Os cavalos precisam de comida e abrigo, independentemente de quem os cavalga.
— Acho que você está certo, Cornie. Me desculpe pela desconfiança. — Elmo piscou para Caolho.
— Os caras estão no Amador, Elmo. Melhor você chegar lá antes que alguém conte a eles que vocês estão na cidade. Eu vou é dar um jeito de arrumar este lugar aqui.
— Não temos pressa, Cornie. Mas pode ir cuidar do que você tiver que cuidar.
Cornie olhou para nós. Deu alguns passos até o que restava do estábulo. Olhou de novo por sobre o ombro. Elmo lançou um olhar despreocupado. Caolho ergueu a pata dianteira esquerda do cavalo para conferir o casco. Cornie se enfiou na ruína.
— Caolho? — indagou Elmo.
— Acabou de sair pelos fundos. Bem nervoso.
Elmo sorriu.
— Fique de olho nele. Chagas, anote tudo. Quero saber a quem ele vai contar. E a quem eles vão contar. A gente deu a ele algo que deve se espalhar como gonorreia.
— Zouad se tornou um homem morto no instante em que Corvo disse o nome dele — comentei com Caolho. — Talvez a partir do instante em que ele fez o que quer que tenha feito no passado.
Caolho grunhiu, descartando uma carta. Manso pegou-a e baixou uma mão. Caolho praguejou.
— Eu não posso jogar com esses caras, Chagas. Eles não jogam direito.
Elmo veio galopando pela rua e desmontou.
— Eles estão indo para aquele puteiro. Tem alguma coisa pra mim, Caolho?
A lista era decepcionante. Eu a entreguei a Elmo, que praguejou, cuspiu e praguejou de novo. Chutou as tábuas que usávamos como mesa de carteado.
— Prestem atenção na merda do trabalho.
Caolho controlou o temperamento dele.
— Eles não estão cometendo erros, Elmo. Estão se protegendo. Cornie já passou muito tempo com a gente para ser de confiança.
Elmo andou de um lado para o outro, pisando forte e cuspindo fogo.
— Muito bem. Primeiro plano alternativo. Vigiamos Zouad. Vamos ver aonde vão levá-lo depois que for capturado. Aí a gente o resgata quando ele estiver prestes a morrer, eliminamos quaisquer rebeldes na área e caçamos todo mundo que passou por lá.
— Você está determinado a mostrar serviço, né? — comentei.
— Estou mesmo. Como está o Corvo?
— Parece que vai sobreviver. A infecção está sob controle, e Caolho disse que ele já começou a sarar.
— Hum. Caolho, quero nomes de rebeldes. Um monte de nomes.
— Sim, senhor, chefe, senhor! — Caolho executou uma continência exagerada, que se tornou um gesto obsceno quando Elmo se virou.
— Junte essas tábuas, Pança — sugeri. — Sua vez de dar as cartas, Caolho.
Ele não respondeu. Não deu chilique, não reclamou, nem ameaçou me transformar numa salamandra. Simplesmente ficou ali, parado, inconsciente como a morte, os olhos quase fechados.
— Elmo!
Ele parou diante de Caolho e o encarou a 15 centímetros de distância. Estalou os dedos perto do nariz do feiticeiro. Caolho não reagiu.
— O que você acha, Chagas?
— Tem alguma coisa acontecendo no puteiro.
Caolho não moveu um músculo durante dez minutos. Então o olho se abriu, vivo novamente, e o pequeno homem amoleceu como um trapo molhado.
— O que diabos aconteceu? — exigiu Elmo.
— Dê um minuto a ele, certo? — propus.
Caolho se recuperou.
— Os rebeldes capturaram Zouad, mas não antes de ele fazer contato com o Manco.
— Hein?
— A assombração está vindo ajudá-lo.
Elmo empalideceu.
— Vindo para cá? Para Remo?
— Isso.
— Ah, merda!
De fato. O Manco era o pior dos Tomados.
— Pense rápido, Elmo. Ele vai rastrear nossa participação nisso... Cornie é o ponto de corte.
— Caolho, encontre aquele velho de merda. Branquelo, Alambique, Tucão. Tenho um trabalho para vocês. — Elmo deu instruções. Tucão sorriu e acariciou a adaga. Maldito sanguinário.
Eu não sou capaz de descrever a inquietação que as notícias de Caolho geraram. Conhecíamos o Manco apenas por meio de histórias, mas essas histórias eram sempre horríveis. Estávamos assustados. A proteção do Apanhador de Almas não adiantaria contra outro Tomado.
— Ele está fazendo de novo — avisou-me Elmo, com um soco.
E estava mesmo. Caolho estava rijo. Mas desta vez ele foi além da rigidez. Desmoronou, começou a se debater e a espumar pela boca.
— Segurem-no! — ordenei. — Elmo, me dá seu bastão. — Seis homens se atiraram sobre Caolho, e mesmo ele sendo tão pequeno deu muito trabalho a eles.
— Pra quê? — perguntou Elmo.
— Vou botar na boca dele para ele não morder a língua.
Caolho fez os barulhos mais esquisitos que eu já ouvi, e eu já ouvi muita coisa estranha nos campos de batalha. Homens feridos fazem sons que você jamais acreditaria que poderiam sair de gargantas humanas.
A convulsão durou apenas alguns segundos. Após uma última e violenta onda, Caolho mergulhou num sono pacífico.
— Muito bem, Chagas, o que diabos aconteceu?
— Eu não sei. A doença das quedas?
— Dê pra ele um pouco da própria canja — sugeriu alguém. — Vai ser bem feito pra ele.
Uma caneca de lata apareceu. Obrigamos Caolho a beber. Os olhos dele se abriram.
— O que você está tentando fazer? Me envenenar? Bah! O que era aquilo? Esgoto fervido?
— Sua sopa — expliquei.
Elmo se meteu no meio.
— O que aconteceu?
Caolho cuspiu. Ele catou um odre de vinho que estava próximo, deu um bom gole, gargarejou e cuspiu.
— O Apanhador de Almas. Caramba! Tenho pena do Duende agora.
Meu coração começou a perder o compasso. Uma colmeia de vespas se agitava em minhas tripas. Primeiro o Manco, agora o Apanhador de Almas.
— Então, o que o espectro queria? — inquiriu Elmo. Ele estava nervoso também. Não costuma ser impaciente.
— Ele quer saber que diabos está acontecendo. Ouviu que o Manco estava todo animado. Conferiu com o Duende, e o Duende só sabia que a gente tinha vindo pra cá. Então ele entrou em minha cabeça.
— E ficou chocado com todo o espaço vazio. Agora ele sabe tudo que você sabe, não é?
— Sim. — Obviamente, Caolho não gostou nada da ideia.
Elmo esperou vários segundos.
— Então?
— Então o quê? — Caolho encobriu o sorriso ao tomar mais um gole do odre.
— Merda, o que ele disse?
Caolho riu.
— Ele aprova o que estamos fazendo. Mas acha que estamos sendo sutis como um touro atolado. Então vamos receber ajuda.
— Que tipo de ajuda? — Elmo soava como alguém que sabia que as coisas estavam fora de controle, mas que não conseguia ver até que ponto.
— Ele está mandando alguém.
Elmo relaxou. Eu também. O importante era que o espectro ficasse longe dali.
— E quando esse alguém vai chegar? — perguntei-me em voz alta.
— Talvez mais cedo do que nós gostaríamos — murmurou Elmo. — Largue o vinho, Caolho. Você ainda precisa vigiar Zouad.
Caolho resmungou. Entrou naquele meio transe que indica que ele está dando uma olhada em outro lugar. Ficou um bom tempo fora.
— Então! — rosnou Elmo quando Caolho voltou. Estava olhando em volta como se esperasse ver o Apanhador de Almas se materializando a qualquer momento.
— Então pega leve. Eles levaram o cara para um subporão secreto a mais ou menos 1,5 quilômetro ao sul daqui.
Elmo estava tão inquieto quanto um garotinho que precisa mijar urgentemente.
— Qual é o seu problema? — perguntei.
— Uma sensação ruim. Só uma sensação muito, muito ruim, Chagas. — O olhar vago dele se fixou. Os olhos se arregalaram. — Eu estava certo. Ah, merda, eu estava certo.
Ele parecia alto como uma casa, e com a metade da largura. Vestia um vermelho desgastado pelo tempo, comido por traças e esfarrapado. Descia a rua num cambalear torto, ora rápido, ora lento. Cabelos selvagens e cinzentos desgrenhados ao redor da cabeça. Seu emaranhado de barba era tão grosso e misturado com sujeira que o rosto dele era praticamente invisível. A mão pálida e com manchas senis agarrava a haste de um belo cajado, profanado pelo toque do dono. O cajado era um corpo feminino imensamente alongado, perfeito em todos os detalhes.
— Dizem que aquilo era uma mulher de verdade durante a Dominação. Dizem que ela o traiu — sussurrou alguém.
Não dava para culpar a mulher, não depois de dar uma boa olhada em Metamorfo.
Metamorfo é o aliado mais próximo do Apanhador de Almas, dentre os Dez que Foram Tomados. O ódio dele pelo Manco é ainda mais virulento que o de nosso patrono. O Manco era o terceiro vértice do triângulo que explicava o cajado de Metamorfo.
Ele parou a poucos metros de nós. Os olhos do Tomado ardiam com um fogo insano, era impossível encará-los. Não consigo lembrar qual era a cor. Cronologicamente, Metamorfo tinha sido o primeiro grande rei mago seduzido, corrompido e escravizado pelo Dominador e sua Dama.
Trêmulo, Caolho deu um passo para a frente.
— Sou o feiticeiro — anunciou o pequeno homem.
— O Apanhador me contou. — A voz de Metamorfo era ressonante, grave e alta demais até para um homem daquele tamanho. — O que mais aconteceu?
— Eu rastreei Zouad. Nada mais.
Metamorfo nos esquadrinhou de novo. Alguns dos rapazes tentavam desaparecer. Ele sorriu detrás do arbusto que chamava de barba.
Na esquina os civis começaram a se juntar para olhar. Remo nunca tinha visto um dos campeões da Dama. Aquele era o dia de sorte da cidade. Dois dos mais loucos estavam visitando.
O olhar de Metamorfo me tocou. Por um instante eu senti seu desprezo frio. Eu não passava de um fedor azedo em suas narinas.
Ele encontrou o que procurava. Corvo. Foi até ele. Saímos da frente da mesma forma como machos pequenos se afastam do babuíno dominante no zoológico. O Tomado fitou Corvo por vários minutos, então deu de ombros. Metamorfo tocou com os dedos dos pés do cajado no peito de Corvo.
Eu perdi o fôlego. A cor do rosto de Corvo melhorou drasticamente. Ele parou de suar. Suas feições relaxaram assim que a dor sumiu. Os ferimentos cicatrizaram em um vermelho raivoso que se atenuou no branco das velhas cicatrizes em minutos. Nós nos reunimos num círculo cada vez mais apertado, maravilhados com o espetáculo.
Tucão veio trotando pela rua.
— Ei, Elmo, trabalho feito. O que está acontecendo? — Ele deu uma olhada em Metamorfo e guinchou como um camundongo capturado.
Elmo tinha recuperado o controle.
— Cadê o Branquelo e o Alambique?
— Estão se livrando do corpo.
— Corpo? — indagou Metamorfo. Elmo explicou. O Tomado grunhiu. — Esse Cornie vai se tornar a base de nosso plano. Você. — Ele indicou Caolho com um dedo grosso como salsichão. — Cadê aqueles homens?
Previsivelmente, Caolho os localizou numa taverna.
— Você. — Metamorfo indicou Tucão. — Diga a eles para trazer o corpo de volta para cá.
Tucão ficou carrancudo. Dava para ver os protestos se acumulando dentro dele. Mas o soldado simplesmente concordou com a cabeça, inspirou fundo e foi embora trotando. Ninguém discute com os Tomados.
Conferi o pulso do Corvo. Estava forte. Ele parecia perfeitamente saudável. Da forma mais humilde possível, pedi:
— Você poderia fazer o mesmo pelos outros? Enquanto esperamos?
Metamorfo me lançou um olhar que poderia talhar meu sangue. Mas fez o que pedi.
— O que aconteceu? O que vocês estão fazendo aqui? — Corvo franziu o cenho para mim. Então se lembrou de tudo. Ele se sentou. — Zouad... — Olhou em volta.
— Você ficou apagado por dois dias. Eles te fatiaram como um ganso. Achamos que você não ia resistir.
Corvo tateou os ferimentos.
— O que está acontecendo, Chagas? Eu deveria estar morto.
— O Apanhador mandou um amigo. Metamorfo. Ele deu um jeito em você. — Ele tinha dado um jeito em todo mundo. Era difícil continuar aterrorizado com um cara que fez algo assim por sua tropa.
Corvo se levantou de súbito, e cambaleou tonto.
— Aquele maldito Cornie. Ele armou isso tudo. — Uma faca surgiu na mão dele. — Droga, estou fraco como um filhote.
Eu tinha me perguntado como Cornie poderia ter sabido tanto sobre os atacantes.
— Aquele ali não é o Cornie, Corvo. Cornie morreu. Aquele é o Metamorfo treinando para ser o Cornie. — O Tomado não precisava de treino. Ele era Cornie o bastante para enganar a mãe do cara.
Corvo se sentou de novo atrás de mim.
— O que está acontecendo?
Eu contei tudo que tinha se passado.
— Metamorfo quer entrar usando Cornie como credencial. Eles provavelmente confiam nele agora.
— Eu estarei logo atrás dele.
— Talvez Metamorfo não goste disso.
— Não dou a mínima. Zouad não vai escapar desta vez. A dívida é grande demais. — A expressão de Corvo ficou mais suave e triste. — E como está Lindinha? Ela já ficou sabendo de Estalo?
— Acho que não. Ninguém voltou a Avença ainda. Elmo acha que pode fazer o que quiser aqui, desde que não tenha que encarar o Capitão até que tudo esteja terminado.
— Ótimo. Então não terei que discutir com ele.
— Metamorfo não é o único Tomado na cidade — eu o relembrei. Metamorfo tinha sentido o Manco. Corvo deu de ombros. O Manco não importava a ele.
O simulacro de Cornie veio até onde estávamos. Nós nos levantamos. Eu estava trêmulo, mas percebi que Corvo ficou um pouco mais pálido. Ótimo. Ele não era frio como pedra o tempo todo.
— Você vai me acompanhar — disse Metamorfo a Corvo. Então se virou para mim. — E você. E o sargento.
— Eles conhecem Elmo — protestei. O Tomado apenas sorriu.
— Vocês se parecerão com rebeldes. Só um membro do círculo seria capaz de perceber o engodo. Mas nenhum deles está em Remo. Os rebeldes aqui são independentes. Vamos tirar proveito desse fracasso em convocar apoio. — Os rebeldes são tão atrapalhados por politicagens pessoais quanto o nosso lado.
Metamorfo chamou Caolho.
— Como está o Coronel Zouad?
— Ainda não cedeu.
— Ele é forte — admitiu Corvo, de má vontade.
— Você conseguiu mais nomes? — perguntou-me Elmo.
Eu tinha uma bela lista. Elmo ficou satisfeito.
— Melhor irmos logo — anunciou o Tomado. — Antes que o Manco ataque.
Caolho nos deu as senhas. Assustado, convencido de que eu não estava pronto para aquilo, porém mais convencido ainda de que não ousaria contestar as escolhas de Metamorfo, saí na trilha do Tomado.
Não sei quando aconteceu; eu simplesmente olhei para os lados e me vi caminhando com estranhos. Eu me engasguei às costas de Metamorfo.
Corvo riu. Eu entendi então. Metamorfo tinha lançado um encantamento sobre nós. Parecíamos capitães dos rebeldes.
— Quem somos nós? — perguntei.
Metamorfo indicou Corvo.
— Calejado, do Círculo. Cunhado do Rasgo. Eles se odeiam tanto quanto o Apanhador e o Manco se odeiam. — Em seguida, Elmo. — Major de Campo Recife, chefe do estado-maior de Calejado. Você, sobrinho de Calejado, Motrin Hanin, um assassino dos mais brutais que já viveu.
Nunca tínhamos ouvido falar em nenhum deles, mas o Tomado nos assegurou que a presença deles não seria questionada. Calejado entrava e saía de Forsberg o tempo todo, dificultando a vida do marido da irmã dele.
Certo, eu pensei. Muito bom. E quanto ao Manco? O que vamos fazer se ele aparecer?
No cativeiro onde Zouad estava sendo mantido as pessoas ficaram mais embaraçadas do que curiosas quando Cornie anunciou Calejado. Eles não tinham se submetido ao Círculo. Não fizeram perguntas. Aparentemente, o verdadeiro Calejado é de temperamento vil, volátil e imprevisível.
— Mostrem o prisioneiro a eles — disse Metamorfo.
Um dos rebeldes lançou um olhar que dizia “Espere só para ver, Cornie”.
O lugar estava lotado de rebeldes. Eu quase podia ouvir Elmo planejando o ataque.
Fomos levados a um porão, através de uma porta escondida de forma inteligente, e descemos cada vez mais, até uma sala com paredes de terra e teto sustentado por vigas e traves de madeira. A mobília tinha saído diretamente da imaginação de um demônio.
Câmaras de tortura existem, é claro, mas a maioria das pessoas nunca as vê, então não acredita nelas. Eu nunca tinha visto uma antes.
Examinei os instrumentos, olhei para Zouad atado a uma enorme e bizarra cadeira, e me perguntei por que a Dama era considerada uma vilã tão grande. Estas pessoas diziam serem os mocinhos, lutando pelo que era certo, pela liberdade e dignidade do espírito humano, mas seus métodos não eram melhores que os do Manco.
Metamorfo sussurrou para Corvo. Este concordou com a cabeça. Eu me perguntei como iríamos receber nossas deixas. O Tomado não tinha nos ensaiado muito. Estas pessoas esperavam que agíssemos como Calejado e seus capangas.
Nós nos sentamos e observamos o interrogatório. Nossa presença inspirou os algozes. Fechei meus olhos. Corvo e Elmo se incomodaram menos.
Após alguns minutos, “Calejado” mandou o “major Recife” ir cuidar de algum assunto. Não me lembro da desculpa. Estava distraído. O objetivo era mandar Elmo de volta à rua, para que ele pudesse começar o ataque.
Metamorfo estava improvisando. Nós deveríamos ficar quietos até que ele nos desse a deixa. Eu presumi que agiríamos quando Elmo avançasse e o pânico começasse a se infiltrar nos andares superiores. Enquanto isso, assistiríamos à destruição do Coronel Zouad.
O Coronel em si não era lá muito impressionante, mas os torturadores já estavam com ele há algum tempo. Eu imagino que qualquer um pareceria oco e diminuído após passar por aquelas gentilezas.
Ficamos sentados como três estátuas. Mentalmente, mandei Elmo se apressar. Eu tinha sido treinado para extrair prazer da cura, não da destruição da carne humana.
Até mesmo Corvo parecia infeliz. Certamente, ele tinha fantasiado tormentos para Zouad, mas quando chegamos à realidade do fato seu instinto básico de decência havia triunfado. O estilo do Corvo era cravar uma faca num sujeito e se dar por satisfeito.
O solo estremeceu como se pisado por uma enorme bota. Terra caiu das paredes e do teto. O ar ficou cheio de poeira.
— Terremoto! — gritou alguém, e todos os rebeldes correram para a escada. Metamorfo ficou sentado, sorrindo.
A terra estremeceu novamente. Lutei contra o instinto básico de rebanho e continuei sentado. O Tomado não estava preocupado, então por que eu estaria?
Ele apontou para Zouad. Corvo balançou a cabeça, se levantou e foi até ele. O Coronel estava consciente, lúcido e assustado pelo terremoto. Pareceu estar grato quando Corvo começou a desafivelá-lo.
A grande bota pisou outra vez. Mais terra caiu. Num canto, uma das colunas de suporte se rompeu. Um fio de terra solta desceu para o porão. As outras vigas gemeram e cederam um pouco. Eu mal conseguia me controlar.
Em algum momento durante o tremor, Corvo parou de ser Calejado. Metamorfo parou de ser Cornie. Zouad olhou para eles e entendeu. O rosto do Coronel ficou endurecido e pálido, como se tivesse mais a temer de Corvo e Metamorfo do que dos rebeldes.
— Isso mesmo — exclamou Corvo —, hora da vingança.
A terra corcoveou. Acima houve o remoto estrondo de um desmoronamento. Lampiões caíram e se apagaram. A poeira deixava o ar quase irrespirável, e os rebeldes voltaram correndo pela escada, olhando por sobre o ombro.
— O Manco está aqui — anunciou Metamorfo, sem parecer incomodado. Ele se levantou e se virou para a escadaria. Ele era Cornie de novo, e Corvo era Calejado outra vez.
Os rebeldes se acumularam na sala. Perdi contato com Corvo na confusão e sob a luz fraca. Alguém selou a saída. Os rebeldes ficaram quietos como camundongos. Quase dava para ouvir os corações martelando enquanto eles olhavam a escada e se perguntavam se a passagem secreta estava bem escondida.
Apesar dos vários metros de terra que se interpunham, ouvi algo se movendo no porão acima. Arrastar, bater. Arrastar, bater. O som de um homem aleijado andando. Meu olhar também se fixou na porta secreta.
A terra sofreu o tremor mais violento de todos. A porta explodiu para dentro. O lado oposto do subporão desabou. Homens gritaram enquanto eram engolidos pela terra. A manada humana empurrava de um lado para o outro, buscando uma rota de fuga que não existia. Apenas Metamorfo e eu não ficamos no meio do movimento. Observávamos de uma ilha de tranquilidade.
Todos os lampiões se apagaram. A única luz vinha da abertura no alto da escada, contornando uma silhueta que, naquele momento, parecia horrenda simplesmente por sua postura. Minha pele estava fria e pegajosa e eu sofria de tremores violentos. Não era só porque eu tinha ouvido tantas coisas horríveis sobre o Manco. Ele emanava algo que fazia com que eu me sentisse como um aracnofóbico após alguém largar uma enorme caranguejeira em seu colo.
Dei uma olhada em Metamorfo. Ele era Cornie, apenas mais um dos rebeldes. Teria ele algum motivo especial para não querer ser reconhecido pelo Manco?
Ele fez algo com as mãos.
Uma luz cegante preencheu aquele poço. Eu não conseguia ver. Ouvi vigas rangendo e cedendo. Desta vez, não hesitei. Juntei-me ao estouro em direção à escada.
Acho que o Manco ficou mais espantado que qualquer outra pessoa. Ele não tinha esperado qualquer resistência séria. O truque de Metamorfo o pegou despreparado. A manada humana passou pelo Tomado antes que ele pudesse se proteger.
Metamorfo e eu fomos os últimos a subir a escada. Pulei por sobre Manco, um homenzinho vestindo marrom que não parecia nada ameaçador enquanto se contorcia no chão. Procurei a escada para o nível da rua. Metamorfo agarrou meu braço. A mão dele era irrecusável.
— Me ajude.
Ele apoiou uma bota nas costelas do Manco e começou a rolá-lo pela entrada do subporão.
Abaixo, homens gemiam e imploravam por ajuda. Partes do piso de nosso andar cediam e desabavam. Mais pelo medo de ficar preso se não nos apressássemos do que por um desejo de atrapalhar o Manco, ajudei Metamorfo a jogar o outro Tomado no buraco.
Metamorfo sorriu e fez um sinal de positivo. Então fez algo com os dedos. O desabamento se acelerou. O Tomado segurou meu braço e foi à escadaria. Nós fugimos para a rua em meio ao maior tumulto da história recente de Remo.
As raposas estavam no galinheiro. Homens corriam de um lado para outro gritando incoerentes. Elmo e a Companhia estavam por toda volta, forçando-os para o centro, aniquilando-os. Os rebeldes estavam confusos demais para se defender.
Se não fosse por Metamorfo, creio que eu não teria sobrevivido. O Tomado fazia algo que afastava as pontas de flechas e espadas. Esperto como sou, fiquei à sombra dele até chegarmos em segurança ao outro lado das tropas da Companhia.
Foi uma grande vitória para a Dama. Superou as mais loucas esperanças de Elmo. Quando a poeira assentou, o expurgo tinha destruído praticamente todos os rebeldes engajados de Remo. Metamorfo permaneceu no meio da refrega, nos fornecendo apoio inestimável e se divertindo muito ao destruir coisas. Estava feliz como uma criança começando incêndios.
Então ele desapareceu tão completamente como se nunca tivesse existido. E nós, tão exaustos que nos arrastávamos pelo chão como lagartos, nos reunimos diante do estábulo de Cornie. Elmo fez a chamada.
Todos estavam presentes, menos um.
— Onde está o Corvo? — perguntou Elmo.
— Acho que foi soterrado quando a casa desabou — respondi. — Ele e Zouad.
— Adequado — observou Caolho. — Irônico, mas adequado. Odeio vê-lo partir, contudo. Ele jogava Tonk bem pra caramba.
— O Manco está lá embaixo também? — indagou Elmo.
— Eu ajudei a enterrá-lo — sorri.
— E o Metamorfo se foi.
Comecei a perceber um padrão perturbador. Queria confirmar se era só imaginação minha. Toquei no assunto enquanto os homens se preparavam para voltar a Avença.
— Vejam bem, as únicas pessoas que viram Metamorfo eram gente do nosso lado. Os rebeldes e o Manco viram muitos de nós. Especialmente você, Elmo, eu e Corvo. Cornie vai aparecer morto. Eu tenho a sensação de que a sutileza de Metamorfo não teve muito a ver com a captura de Zouad ou o extermínio da hierarquia rebelde daqui. Acho que fomos colocados em evidência diante do Manco. Muito habilmente.
Elmo gosta de passar a imagem de ser um caipira burro que se tornou soldado, mas é muito esperto. Ele não só percebeu o que eu queria dizer, mas imediatamente conectou isso com a situação geral dos jogos políticos dos Tomados.
— Temos que dar o fora daqui antes que o Manco consiga escapar do desabamento. E não quero dizer dar o fora de Remo, estou falando de Forsberg. O Apanhador de Almas nos colocou no tabuleiro como seus peões de linha de frente. É bem capaz de ficarmos presos entre o martelo e a bigorna.
Elmo mordeu o lábio por um segundo, e então começou a agir como um sargento, gritando com todo mundo que não estivesse se movendo rápido o bastante para o seu gosto.
Ele estava praticamente em pânico, mas era um soldado até o osso. Nossa partida não foi nenhuma retirada. Saímos escoltando a carroça de provisões que a patrulha de Manso tinha vindo buscar.
— Vou deixar para ficar doido depois que a gente voltar — contou-me Elmo. — Vou sair de perto e morder uma árvore, ou algo assim. — Alguns quilômetros depois, ele acrescentou, pensativo: — Andei pensando em como dar as notícias a Lindinha. Chagas, você acabou de se oferecer. Você tem o jeitinho certo.
E assim eu tive algo para manter minha mente ocupada durante a volta. Maldito Elmo!
O grande bafafá em Remo não foi o fim da história. As marolas se espalharam. Consequências se acumularam. O destino meteu seu dedo ruim na coisa.
Rasgo lançou uma grande ofensiva enquanto o Manco escavava para fugir dos escombros. O rebelde agiu sem saber que o inimigo estava longe do campo de batalha, mas o efeito foi o mesmo. O exército do Manco desmoronou. Nossa vitória foi por nada. Grupos de rebeldes esquadrinhavam Remo em triunfo, caçando os agentes da Dama.
Nós, graças à precaução do Apanhador, estávamos indo para o sul quando tudo desmoronou e, portanto, não fomos envolvidos. Assumimos a guarnição de Olmo levando o crédito por várias vitórias dramáticas, e o Manco fugiu para o Saliente com os resquícios do próprio exército, tachado de incompetente. Ele sabia quem tinha ferrado com ele, mas não poderia fazer nada por enquanto. O relacionamento dele com a Dama estava frágil demais. O Manco não fez qualquer coisa além de continuar sendo seu cãozinho fiel. Seria necessário que ele conquistasse algumas vitórias espetaculares antes que pudesse pensar em ajustar contas conosco ou com o Apanhador de Almas.
Isso não me confortou. A sorte costuma virar, com o tempo.
Rasgo ficou tão entusiasmado com a vitória que não reduziu o passo após conquistar Forsberg, de forma que se virou para o sul. Apanhador de Almas nos mandou deixar Olmo uma semana depois de nos estabelecermos lá.
Teria o Capitão ficado chateado com o que aconteceu? Estaria ele aborrecido com o fato de tantos de seus homens terem saído por conta própria e excedido ou esticado suas instruções? Vamos dizer apenas que as atribuições de tarefas extras foram suficientes para partir as costelas de um boi. Digamos que as damas da noite de Olmo ficaram bastante desapontadas com a Companhia Negra. Eu não quero pensar nisso. O homem é um gênio diabólico.
Os pelotões estavam em formação. As carroças estavam carregadas e prontas para partir.
O Capitão e o Tenente confabulavam com os sargentos. Caolho e Duende estavam empenhados em algum tipo de competição com criaturinhas feitas de sombra que guerreavam nos cantos do complexo. A maioria de nós assistia e apostava em um lado ou no outro, dependendo das marés da sorte.
— Cavaleiro chegando — anunciou o guarda do portão.
Ninguém deu atenção. Mensageiros chegavam e partiam o dia inteiro.
O portão se abriu para dentro. Lindinha começou a bater palmas e correu para a entrada.
E foi então que ele entrou, parecendo tão durão quanto no dia em que o conhecemos, nosso amigo Corvo. Ele puxou Lindinha e lhe deu um grande abraço, empoleirou ela no cavalo diante de si e se apresentou ao Capitão. Ouvi quando Corvo disse que todas as suas dívidas estavam pagas, e que ele não tinha mais nenhum interesse fora da Companhia.
O Capitão o fitou por um longo tempo, então balançou a cabeça em sinal positivo e mandou que Corvo assumisse seu lugar nas fileiras.
Ele tinha nos usado, e no processo acabou encontrando um novo lar. Foi bem-vindo à família.
Partimos, com destino a uma nova guarnição no Saliente.